Questão 1 — Hipófise
Homem, 52 anos, procura atendimento médico com queixas de aumento progressivo do tamanho dos pés (necessidade de comprar sapatos maiores), mãos (dificuldade em tirar anéis), e alterações faciais (aumento do nariz e espaçamento entre os dentes) nos últimos 5 anos. Relata também sudorese excessiva, fadiga e dores articulares difusas. A esposa notou que ele tem tido roncos altos e paradas respiratórias durante o sono. Nega histórico de diabetes ou hipertensão, mas sua PA no consultório é 145/90 mmHg. Exames laboratoriais revelaram glicemia de jejum: 115 mg/dL; HbA1c: 6,3%; IGF-1: 750 ng/mL (valor de referência para idade: 90-250 ng/mL); GH após 75 g de glicose: 8,5 ng/mL (valor esperado: <1 ng/mL). Quais são as condutas diagnóstica e terapêutica mais adequadas no momento para confirmar e iniciar o tratamento da acromegalia?
- A)
Solicitar uma Ressonância Magnética (RM) de sela túrcica e, se confirmada a presença de adenoma hipofisário, considerar cirurgia transesfenoidal.
✓ - B)
Realizar o teste de supressão do GH com glicose oral novamente e, se persistir a não supressão, considerar tratamento clínico com octreotideo.
- C)
Iniciar tratamento com pegvisomanto para reduzir os níveis de IGF-1 e GH e agendar um acompanhamento clínico.
- D)
Solicitar uma Tomografia Computadorizada (TC) de crânio para avaliar a sela túrcica e, se não houver achados, descartar acromegalia.
Gabarito: A.
Revisão do tema
Âncora de memorização: Em acromegalia, uma vez confirmada a atividade bioquímica (IGF-1 elevado para idade + hormônio do crescimento sem supressão no teste oral de tolerância à glicose), o próximo passo é Ressonância Magnética de sela túrcica com gadolínio para localizar o adenoma. O tratamento de primeira linha, quando factível, é cirurgia transesfenoidal.
- O que é: Acromegalia = hipersecreção crônica de hormônio do crescimento (GH) com aumento de fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), após fechamento das epífises.
- Por que importa: Aumenta mortalidade por causas cardiovasculares, respiratórias e neoplásicas; controlando IGF-1 normaliza-se o risco.
- Etiologia principal: Adenoma hipofisário somatotrófico (micro ou macroadenoma). Causas raras: secreção ectópica de hormônio liberador de GH.
Diagnóstico
- Definição (padrão laboratorial): IGF-1 elevado para idade + falta de supressão do GH < 1 ng/mL após sobrecarga oral de 75 g de glicose. Em ensaios ultrasensíveis, alguns consensos usam GH < 0,4 ng/mL.
- Padrão-ouro de imagem: Ressonância Magnética de sela túrcica com contraste. A tomografia computadorizada é menos sensível e não exclui doença se normal.
- Critérios de controle/cura pós-terapia: IGF-1 normalizado para idade e GH nadir suprimível no teste com glicose (ou GH basal baixo em ensaio ultrasensível), reavaliados tipicamente em 12 semanas pós-operatório.
- Avaliação de comorbidades: Apneia obstrutiva do sono, hipertensão arterial, intolerância à glicose/diabetes, cardiomiopatia, artropatia, bócio, pólipos colorretais.
Conduta & Posologia
- Primeiro passo na situação do caso: Solicitar RM de sela com gadolínio. Achado compatível com adenoma hipofisário somatotrófico → indicar cirurgia transesfenoidal endoscópica como primeira linha (especialmente microadenomas e macroadenomas ressecáveis).
- Quando usar terapia medicamentosa: Adjuvante/neo-adjuvante em macroadenomas invasivos, alto risco cirúrgico, falha/recidiva pós-cirurgia, ou quando cirurgia/RT não são possíveis.
- Análogos da somatostatina (primeira escolha medicamentosa):
- Octreotida LAR: 20 mg IM profunda a cada 4 semanas por 3 meses; ajustar 10–30 mg/4 semanas conforme IGF-1/GH.
- Lanreotida autogel: 90 mg SC profunda a cada 4 semanas; ajustar 60–120 mg a cada 4–6 semanas.
- Ajustes/precauções: Em insuficiência hepática grave, considerar doses menores e titulação lenta; monitorar glicemia. Efeitos adversos: diarreia, cólicas, colelitíase, disfunção glicêmica, bradicardia.
- Agonista dopaminérgico (adição em doença leve/IGF-1 discretamente elevado ou hiperprolactinemia):
- Cabergolina VO: 0,5 mg/semana, titular até 2–3,5 mg/semana conforme IGF-1.
- Contraindicações/alertas: Valvulopatia grave e fibroses. Fazer ecocardiograma basal e se dose > 2 mg/semana por tempo prolongado. Náuseas, hipotensão postural.
- Antagonista do receptor de GH (resgate em refratariedade):
- Pegvisomanto SC: 40 mg dose de ataque no dia 1, depois 10 mg/dia, ajustar em incrementos de 5 mg/semana até normalizar IGF-1 (máximo usual 30 mg/dia).
- Monitorização: Transaminases mensais nos 6 primeiros meses; suspender se ALT/AST > 3x o limite superior persistente. GH sérico fica artificialmente elevado e não deve ser usado para monitorar resposta.
- Radioterapia: Considerar em doença persistente após cirurgia e falha/intolerância a fármacos; efeito tardio (anos), monitorar hipopituitarismo.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para cirurgia ou se apoplexia hipofisária (cefaleia súbita intensa, alteração visual). Caso ambulatorial para investigação e terapia clínica.
- Seguimento: IGF-1 12 semanas após cirurgia ou após 3–6 meses de terapia medicamentosa; RM de controle 3–6 meses pós-operatório e conforme evolução clínica.
- Gestação: Evitar uso de análogos da somatostatina, cabergolina e pegvisomanto durante a gestação, salvo exceções em compressão tumoral sob vigilância especializada.
Mini-exemplo: Paciente com IGF-1 elevado e GH 8,5 ng/mL no teste com glicose → pedir RM; macroadenoma não invasivo → cirurgia transesfenoidal; se IGF-1 persiste alto pós-cirurgia → iniciar octreotida LAR 20 mg/4 semanas e titular.
Discussão das alternativas
✅ A) Solicitar uma Ressonância Magnética (RM) de sela túrcica e, se confirmada a presença de adenoma hipofisário, considerar cirurgia transesfenoidal.
Alternativa correta. O caso já tem confirmação bioquímica (IGF-1 elevado e GH não suprime no teste com glicose). O próximo passo é localizar o tumor com RM. Identificado adenoma ressecável, a cirurgia transesfenoidal é tratamento de primeira linha, com maior chance de remissão especialmente em microadenomas.
❌ B) Realizar o teste de supressão do GH com glicose oral novamente e, se persistir a não supressão, considerar tratamento clínico com octreotideo.
Alternativa incorreta. O teste já confirmou não supressão; repeti-lo não agrega neste momento. Além disso, a conduta subsequente correta é RM de sela e, havendo adenoma operável, cirurgia. Octreotida é opção adjuvante/neo-adjuvante em cenários específicos, não substitui a etapa diagnóstica por imagem.
❌ C) Iniciar tratamento com pegvisomanto para reduzir os níveis de IGF-1 e GH e agendar um acompanhamento clínico.
Alternativa incorreta. Pegvisomanto é terapia de resgate em doença refratária/intolerante a análogos da somatostatina e/ou após falha cirúrgica. Iniciar sem definir a lesão por RM e sem discutir cirurgia contraria a linha de cuidado. Além disso, o GH sérico não é parâmetro útil sob pegvisomanto.
❌ D) Solicitar uma Tomografia Computadorizada (TC) de crânio para avaliar a sela túrcica e, se não houver achados, descartar acromegalia.
Alternativa incorreta. A TC é menos sensível que a RM para microadenomas; TC normal não exclui acromegalia. O exame de escolha é a RM com contraste. O diagnóstico já está estabelecido bioquimicamente.
Take-home message
- Confirmou acromegalia (IGF-1 alto + GH não suprime no teste com glicose) → próximo passo é RM de sela com gadolínio.
- Tratamento de primeira linha, quando factível: cirurgia transesfenoidal; terapia medicamentosa é adjuvante/alternativa.
- Esquemas usuais: Octreotida LAR 20 mg IM/4 semanas (10–30 mg) ou Lanreotida autogel 90 mg SC/4 semanas (60–120 mg).
- Pegvisomanto: 40 mg ataque, depois 10 mg SC/dia, titular pelo IGF-1; usar em refratariedade.
- Red flag: Cefaleia súbita + déficit visual → suspeitar apoplexia hipofisária e internar imediatamente.
- Não repita teste com glicose após confirmação; não use TC para excluir doença.













(A) Corte longitudinal da vesícula biliar mostrando pequenos cálculos com sombra acústica na região declive da vesícula (seta). A ultrassonografia também evidencia parede espessada tanto na projeção longitudinal (ponta de seta pequena) quanto na transversal (B).
(
Al-Salem, A.H. (2020). Intussusception. Atlas of Pediatric Surgery. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-29211-9_36
ECG de 12 derivações de um paciente com Fibrilação Ventricular.