SIMULADO NACIONAL MEDTASK CORREÇÃO TRI: correção comentada

    Simulado automatizado criado em 28/08/2026

    Questão 1Hipófise

    Homem, 52 anos, procura atendimento médico com queixas de aumento progressivo do tamanho dos pés (necessidade de comprar sapatos maiores), mãos (dificuldade em tirar anéis), e alterações faciais (aumento do nariz e espaçamento entre os dentes) nos últimos 5 anos. Relata também sudorese excessiva, fadiga e dores articulares difusas. A esposa notou que ele tem tido roncos altos e paradas respiratórias durante o sono. Nega histórico de diabetes ou hipertensão, mas sua PA no consultório é 145/90 mmHg. Exames laboratoriais revelaram glicemia de jejum: 115 mg/dL; HbA1c: 6,3%; IGF-1: 750 ng/mL (valor de referência para idade: 90-250 ng/mL); GH após 75 g de glicose: 8,5 ng/mL (valor esperado: <1 ng/mL). Quais são as condutas diagnóstica e terapêutica mais adequadas no momento para confirmar e iniciar o tratamento da acromegalia?

    • A)

      Solicitar uma Ressonância Magnética (RM) de sela túrcica e, se confirmada a presença de adenoma hipofisário, considerar cirurgia transesfenoidal.

    • B)

      Realizar o teste de supressão do GH com glicose oral novamente e, se persistir a não supressão, considerar tratamento clínico com octreotideo.

    • C)

      Iniciar tratamento com pegvisomanto para reduzir os níveis de IGF-1 e GH e agendar um acompanhamento clínico.

    • D)

      Solicitar uma Tomografia Computadorizada (TC) de crânio para avaliar a sela túrcica e, se não houver achados, descartar acromegalia.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em acromegalia, uma vez confirmada a atividade bioquímica (IGF-1 elevado para idade + hormônio do crescimento sem supressão no teste oral de tolerância à glicose), o próximo passo é Ressonância Magnética de sela túrcica com gadolínio para localizar o adenoma. O tratamento de primeira linha, quando factível, é cirurgia transesfenoidal.


    • O que é: Acromegalia = hipersecreção crônica de hormônio do crescimento (GH) com aumento de fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), após fechamento das epífises.

    • Por que importa: Aumenta mortalidade por causas cardiovasculares, respiratórias e neoplásicas; controlando IGF-1 normaliza-se o risco.

    • Etiologia principal: Adenoma hipofisário somatotrófico (micro ou macroadenoma). Causas raras: secreção ectópica de hormônio liberador de GH.

    Diagnóstico

    • Definição (padrão laboratorial): IGF-1 elevado para idade + falta de supressão do GH < 1 ng/mL após sobrecarga oral de 75 g de glicose. Em ensaios ultrasensíveis, alguns consensos usam GH < 0,4 ng/mL.
    • Padrão-ouro de imagem: Ressonância Magnética de sela túrcica com contraste. A tomografia computadorizada é menos sensível e não exclui doença se normal.
    • Critérios de controle/cura pós-terapia: IGF-1 normalizado para idade e GH nadir suprimível no teste com glicose (ou GH basal baixo em ensaio ultrasensível), reavaliados tipicamente em 12 semanas pós-operatório.
    • Avaliação de comorbidades: Apneia obstrutiva do sono, hipertensão arterial, intolerância à glicose/diabetes, cardiomiopatia, artropatia, bócio, pólipos colorretais.

    Conduta & Posologia 

    • Primeiro passo na situação do caso: Solicitar RM de sela com gadolínio. Achado compatível com adenoma hipofisário somatotrófico → indicar cirurgia transesfenoidal endoscópica como primeira linha (especialmente microadenomas e macroadenomas ressecáveis).
    • Quando usar terapia medicamentosa: Adjuvante/neo-adjuvante em macroadenomas invasivos, alto risco cirúrgico, falha/recidiva pós-cirurgia, ou quando cirurgia/RT não são possíveis.
    • Análogos da somatostatina (primeira escolha medicamentosa):
      • Octreotida LAR: 20 mg IM profunda a cada 4 semanas por 3 meses; ajustar 10–30 mg/4 semanas conforme IGF-1/GH.
      • Lanreotida autogel: 90 mg SC profunda a cada 4 semanas; ajustar 60–120 mg a cada 4–6 semanas.
      • Ajustes/precauções: Em insuficiência hepática grave, considerar doses menores e titulação lenta; monitorar glicemia. Efeitos adversos: diarreia, cólicas, colelitíase, disfunção glicêmica, bradicardia.
    • Agonista dopaminérgico (adição em doença leve/IGF-1 discretamente elevado ou hiperprolactinemia):
      • Cabergolina VO: 0,5 mg/semana, titular até 2–3,5 mg/semana conforme IGF-1.
      • Contraindicações/alertas: Valvulopatia grave e fibroses. Fazer ecocardiograma basal e se dose > 2 mg/semana por tempo prolongado. Náuseas, hipotensão postural.
    • Antagonista do receptor de GH (resgate em refratariedade):
      • Pegvisomanto SC: 40 mg dose de ataque no dia 1, depois 10 mg/dia, ajustar em incrementos de 5 mg/semana até normalizar IGF-1 (máximo usual 30 mg/dia).
      • Monitorização: Transaminases mensais nos 6 primeiros meses; suspender se ALT/AST > 3x o limite superior persistente. GH sérico fica artificialmente elevado e não deve ser usado para monitorar resposta.
    • Radioterapia: Considerar em doença persistente após cirurgia e falha/intolerância a fármacos; efeito tardio (anos), monitorar hipopituitarismo.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para cirurgia ou se apoplexia hipofisária (cefaleia súbita intensa, alteração visual). Caso ambulatorial para investigação e terapia clínica.
    • Seguimento: IGF-1 12 semanas após cirurgia ou após 3–6 meses de terapia medicamentosa; RM de controle 3–6 meses pós-operatório e conforme evolução clínica.
    • Gestação: Evitar uso de análogos da somatostatina, cabergolina e pegvisomanto durante a gestação, salvo exceções em compressão tumoral sob vigilância especializada.

    Mini-exemplo: Paciente com IGF-1 elevado e GH 8,5 ng/mL no teste com glicose → pedir RM; macroadenoma não invasivo → cirurgia transesfenoidal; se IGF-1 persiste alto pós-cirurgia → iniciar octreotida LAR 20 mg/4 semanas e titular.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Solicitar uma Ressonância Magnética (RM) de sela túrcica e, se confirmada a presença de adenoma hipofisário, considerar cirurgia transesfenoidal.

    Alternativa correta. O caso já tem confirmação bioquímica (IGF-1 elevado e GH não suprime no teste com glicose). O próximo passo é localizar o tumor com RM. Identificado adenoma ressecável, a cirurgia transesfenoidal é tratamento de primeira linha, com maior chance de remissão especialmente em microadenomas.

    ❌ B) Realizar o teste de supressão do GH com glicose oral novamente e, se persistir a não supressão, considerar tratamento clínico com octreotideo.

    Alternativa incorreta. O teste já confirmou não supressão; repeti-lo não agrega neste momento. Além disso, a conduta subsequente correta é RM de sela e, havendo adenoma operável, cirurgia. Octreotida é opção adjuvante/neo-adjuvante em cenários específicos, não substitui a etapa diagnóstica por imagem.

    ❌ C) Iniciar tratamento com pegvisomanto para reduzir os níveis de IGF-1 e GH e agendar um acompanhamento clínico.

    Alternativa incorreta. Pegvisomanto é terapia de resgate em doença refratária/intolerante a análogos da somatostatina e/ou após falha cirúrgica. Iniciar sem definir a lesão por RM e sem discutir cirurgia contraria a linha de cuidado. Além disso, o GH sérico não é parâmetro útil sob pegvisomanto.

    ❌ D) Solicitar uma Tomografia Computadorizada (TC) de crânio para avaliar a sela túrcica e, se não houver achados, descartar acromegalia.

    Alternativa incorreta. A TC é menos sensível que a RM para microadenomas; TC normal não exclui acromegalia. O exame de escolha é a RM com contraste. O diagnóstico já está estabelecido bioquimicamente.


    Take-home message

    • Confirmou acromegalia (IGF-1 alto + GH não suprime no teste com glicose) → próximo passo é RM de sela com gadolínio.
    • Tratamento de primeira linha, quando factível: cirurgia transesfenoidal; terapia medicamentosa é adjuvante/alternativa.
    • Esquemas usuais: Octreotida LAR 20 mg IM/4 semanas (10–30 mg) ou Lanreotida autogel 90 mg SC/4 semanas (60–120 mg).
    • Pegvisomanto: 40 mg ataque, depois 10 mg SC/dia, titular pelo IGF-1; usar em refratariedade.
    • Red flag: Cefaleia súbita + déficit visual → suspeitar apoplexia hipofisária e internar imediatamente.
    • Não repita teste com glicose após confirmação; não use TC para excluir doença.

    Questão 2Avaliação Pré-Operatória

    Homem, 38 anos, avaliado como risco anestésico ASA II (American Society of Anesthesiologists, 2024) irá ser submetido à colecistectomia videolaparoscópica eletiva, programada para iniciar às 16 h. Segundo o Projeto Aceleração da Recuperação Total Pós-Operatória (ACERTO) e as recomendações da Enhanced Recovery After Surgery Society (ERAS), qual conduta deve ser adotada quanto ao jejum pré-operatório?

    • A)

      Manter jejum absoluto desde a meia-noite do dia anterior.

    • B)

      Permitir ingestão de líquidos claros contendo carboidratos até 2 horas antes.

    • C)

      Permitir ingestão de alimentos sólidos leves e líquidos claros até 3 horas antes.

    • D)

      Oferecer líquidos claros contendo carboidratos e proteínas até 4 horas antes.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Abreviação de jejum pré-operatório é recomendação central do Projeto ACERTO/ERAS. Em prova, a regra segura para paciente eletivo, baixo risco de aspiração (ASA I–II) é: líquidos claros até 2 horas e sólidos até 6–8 horas antes da anestesia.


    Epidemiologia e Etiologia

    Cenário brasileiro: Adoção crescente dos protocolos ACERTO em cirurgias abdominais eletivas, incluindo colecistectomia videolaparoscópica. Jejum noturno prolongado não reduz risco e piora desfechos (hipoglicemia, resistência insulínica, desconforto).

    Risco de aspiração: Decorre de conteúdo gástrico presente na indução anestésica. Reduzido com jejum adequado e seleção correta de pacientes (sem esvaziamento gástrico retardado).


    Diagnóstico

    Definições operacionais:

    Líquidos claros: água, chá/café sem leite, sucos coados sem polpa, soluções contendo carboidratos; sem álcool e sem leite.

    Jejum abreviado (ACERTO/ERAS): sólidos leves até 6 horas; líquidos claros contendo carboidratos até 2 horas antes da anestesia em pacientes eletivos, baixo risco.

    Estômago cheio (alto risco): urgência/emergência, vômitos, obstrução, gastroparesia, refluxo grave não controlado. Nestes, não abreviar jejum.


    Critério que muda conduta: Paciente ASA I–II, procedimento eletivo, sem fatores de esvaziamento gástrico retardado → liberar líquidos claros com carboidrato até 2 h.


    Conduta & Posologia

    Jejum pré-operatório recomendado (ACERTO/ERAS) para este caso: permitir líquidos claros contendo carboidratos até 2 horas antes do horário de início da anestesia; permitir sólidos leves até 6 horas antes. Jejum absoluto desde meia-noite não é indicado em eletivos de baixo risco.

    Exemplos práticos: água, chá sem leite, suco de maçã coado ou bebida com carboidratos; evitar leite/cremes. Se a cirurgia será às 16h, líquidos claros podem ser ingeridos até 14h; refeição leve até cerca de 10h.


    Contraindicações à abreviação: urgência/emergência, vômitos/obstrução, gastroparesia (ex.: neuropatia diabética descompensada), refluxo grave não controlado, cirurgia bariátrica inicial, gravidez em trabalho de parto.

    Próximo passo quando contraindicado: conduzir como estômago cheio (jejum prolongado conforme avaliação e técnica anestésica protetora de via aérea).


    Monitorização/checagem: Confirmar horário da última ingestão na admissão; registrar em prescrição pré-operatória padrão ACERTO; reavaliar se houver náuseas/dor abdominal.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Permitir ingestão de líquidos claros contendo carboidratos até 2 horas antes.

    Alternativa correta. Em paciente eletivo, ASA II, sem fatores de esvaziamento gástrico retardado, ACERTO/ERAS recomendam abreviar jejum com líquidos claros contendo carboidratos até 2 h e sólidos leves até 6 h. Reduz resistência insulínica e sede, sem aumentar aspiração.


    ❌ A) Manter jejum absoluto desde a meia-noite do dia anterior.

    Alternativa incorreta. Jejum noturno prolongado é prática obsoleta. A conduta correta é jejum abreviado: líquidos claros até 2 h; sólidos leves até 6 h. Prolongar jejum piora desfechos metabólicos e não reduz risco de aspiração.


    ❌ C) Permitir ingestão de alimentos sólidos leves e líquidos claros até 3 horas antes.

    Alternativa incorreta. O intervalo seguro para sólidos é de pelo menos 6 horas. Três horas é insuficiente e aumenta risco de estômago cheio. Para líquidos claros, o limite é 2 horas.


    ❌ D) Oferecer líquidos claros contendo carboidratos e proteínas até 4 horas antes.

    Alternativa incorreta. Proteínas (ex.: leite, suplementos com leite) não são considerados líquidos claros. O tempo correto para líquidos claros é 2 horas. Incluir proteína e estender para 4 horas contraria ACERTO/ERAS.


    Take-home message

    • Jejum abreviado em eletivos ASA I–II: líquidos claros com carboidratos até 2 h e sólidos leves até 6 h antes da anestesia.
    • Líquidos claros válidos: água, chá/café sem leite, suco coado, bebidas com carboidratos; leite e cremes não entram.
    • Benefícios: menor resistência insulínica, menos sede/fome e sem aumento de aspiração quando bem indicado.
    • Red flag: em urgência, vômitos, obstrução, gastroparesia ou refluxo grave, NÃO abreviar jejum; conduzir como estômago cheio.
    • Pulo do gato: prova adora confundir “líquido claro” com leite/proteína; leite NÃO é líquido claro.

    Questão 3Colelitíase

    Paciente, 34 anos de idade, mãe de 2 filhos, comparece ao ambulatório com queixa de dor em cólica no hipocôndrio à direita, há 2 dias, que piora após a alimentação. Refere episódios em crises com melhora espontânea. Ao exame físico, apresenta dor à palpação profunda no hipocôndrio à direita sem descompressão brusca. Com base nesse caso, assinale alternativa que apresenta, corretamente, a hipótese diagnóstica principal e os exames complementares.

    • A)

      Colangite, pois estão presentes todos os sinais e sintomas da tríade de Charcot. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase.

    • B)

      Colecistite aguda, devido à dor que é intermitente e de curta duração, por se tratar de uma condição autolimitada com tratamento conservador. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase.

    • C)

      Cólica biliar não complicada. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase.

    • D)

      Pancreatite aguda, devido à dor que é leve, intermitente e melhora espontaneamente ou com analgesia simples. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase e lipase.

    • E)

      Hepatite viral aguda, devido à dor abdominal em cólica, que melhora com o uso de analgésicos, e, geralmente, não está associada à icterícia. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase, sorologia para hepatites.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Dor em cólica no hipocôndrio direito, pós-prandial, em crises com melhora espontânea e exame sem sinais de peritonite sugere cólica biliar não complicada (obstrução transitória do ducto cístico por cálculo, sem inflamação mantida).


    • O que é: Cólica biliar = dor visceral por contração da vesícula contra obstrução transitória do ducto cístico. Sem inflamação sistêmica e exames físicos/laboratoriais frequentemente normais.

    • Por que importa: Alto risco de recorrência e progressão para colecistite aguda, pancreatite biliar e colangite; indicação de colecistectomia eletiva.

    • Como identificar: Dor HCD/epigástrio, tipicamente pós-gordura, dura minutos–horas, resolve-se espontaneamente; sem febre, sem icterícia, sem defesa/irritação peritoneal. Sinal de Murphy geralmente ausente.

    • Exames complementares-chave: Ultrassom de abdome (padrão inicial para litíase biliar). Hemograma e função hepática (bilirrubinas, FA, GGT, AST/ALT) para triagem de obstrução/colestase; amilase/lipase para excluir pancreatite biliar.

    • Diferenças rápidas: Charcot (dor + febre + icterícia) = colangite; Dor contínua com Murphy+, febre/leucocitose = colecistite; Dor epigástrica irradiada para dorso + amilase/lipase ≥3x LSN = pancreatite; Transaminases muito elevadas (centenas–milhares) + sintomas sistêmicos = hepatite aguda.

    Conduta & Posologia

    • Analgesia de primeira linha (ambulatorial): AINE se não houver contraindicação: ibuprofeno 400–600 mg VO 8/8h ou diclofenaco 50 mg VO 8/8h; alternativa: dipirona 1 g VO/IV 6–8/8h.
    • Resgate: opioide se dor refratária: tramadol 50–100 mg VO/IV 6/6–8/8h. Evitar uso prolongado.
    • Antiespasmódico (benefício modesto): escopolamina butilbrometo 10–20 mg VO/IM/IV 6/6–8/8h.
    • Antibiótico: não indicado na cólica biliar não complicada (ausência de infecção).
    • Definitivo: colecistectomia videolaparoscópica eletiva precoce, idealmente após controle da crise e em curto prazo (semanas) para prevenir recorrência/complicações.
    • Ajustes e cautelas: AINE: evitar se TFG <30 mL/min, úlcera ativa, sangramento, cirrose descompensada ou no 3º trimestre da gestação. Dipirona: risco raro de agranulocitose; evitar em porfiria aguda e hipersensibilidade. Opioides: sedação, constipação; cautela em idosos/DRC.
    • Critérios de internação/observação: dor refratária a analgesia, vômitos incoercíveis/desidratação, febre/leucocitose, icterícia/colestase, Murphy positivo com dor contínua (suspeita de colecistite), sinais de sepse, amilase/lipase elevadas (suspeita de pancreatite), comorbidades descompensadas.
    • Reavaliação: orientar retorno imediato se febre, icterícia, piora da dor ou vômitos; reavaliar ambulatorialmente em 24–72 h e programar cirurgia.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) Colangite, pois estão presentes todos os sinais e sintomas da tríade de Charcot. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase.

    Alternativa incorreta. Colangite exige infecção do trato biliar: tríade de Charcot = dor HCD + febre + icterícia. O caso não refere febre nem icterícia. Laboratórios propostos são úteis, mas a hipótese é inadequada.

    ❌ B) Colecistite aguda, devido à dor que é intermitente e de curta duração, por se tratar de uma condição autolimitada com tratamento conservador. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase.

    Alternativa incorreta. Colecistite cursa com dor contínua, febre/leucocitose e sinal de Murphy; não é autolimitada. O enunciado descreve dor em crises com melhora espontânea, compatível com cólica biliar.

    ✅ C) Cólica biliar não complicada. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase.

    Alternativa correta. Quadro típico de obstrução transitória do ducto cístico com dor pós-prandial em cólica e resolução espontânea. Ultrassom é o exame inicial de escolha; testes laboratoriais ajudam a excluir colestase/complicações e pancreatite biliar.

    ❌ D) Pancreatite aguda, devido à dor que é leve, intermitente e melhora espontaneamente ou com analgesia simples. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase e lipase.

    Alternativa incorreta. Pancreatite cursa com dor epigástrica intensa e contínua, frequentemente irradiada para dorso, náuseas/vômitos e amilase/lipase ≥3x LSN. O padrão do caso é intermitente e autolimitado.

    ❌ E) Hepatite viral aguda, devido à dor abdominal em cólica, que melhora com o uso de analgésicos, e, geralmente, não está associada à icterícia. Exames complementares: ultrassom de abdome, hemograma, bilirrubinas, fosfatase alcalina, transaminases, amilase/lipase, sorologia para hepatites.

    Alternativa incorreta. Hepatite viral aguda costuma cursar com mal-estar, náuseas, colúria/colestase e transaminases muito elevadas. Dor típica em cólica pós-prandial não é o padrão.


    Take-home message

    • Cólica biliar = dor HCD pós-prandial em crises, com resolução espontânea e sem febre/icterícia/Murphy.
    • Exame inicial: ultrassom de abdome; solicitar hemograma, bilirrubinas, FA/GGT, AST/ALT e amilase/lipase para excluir complicações.
    • Analgesia de primeira linha com AINEs (ex.: ibuprofeno 400–600 mg 8/8h VO) e programar colecistectomia eletiva precoce.
    • Red flags: febre, icterícia, dor contínua com Murphy+, vômitos incoercíveis, amilase/lipase elevadas → pensar em colangite/colecistite/pancreatite e internar.
    • Charcot (dor + febre + icterícia) = colangite; dor contínua + Murphy+/febre = colecistite; dor epigástrica contínua + lipase ≥3x LSN = pancreatite.

    Questão 4Hérnia inguinal

    Uma senhora de 54 anos procurou o atendimento médico por dor na região inguinofemoral esquerda com irradiação para o lábio maior do mesmo lado. Ao exame físico, percebeu-se uma protrusão local, porém o médico teve dúvida quanto ao diagnóstico e solicitou um exame ultrassonográfico. O ultrassonografista telefonou para o médico e disse-lhe que, de fato, era uma hérnia e era a mais frequentemente encontrada nessa região. Com base apenas nessas informações, dentre os itens seguintes, assinale qual era essa hérnia.

    • A)

      Hérnia incisional.

    • B)

      Hérnia inguinal indireta.

    • C)

      Hérnia inguinal direta.

    • D)

      Hérnia femoral.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Na região inguinofemoral, a hérnia inguinal indireta é a mais frequente. Em mulheres, a dor pode irradiar para o grande lábio (canal de Nuck).

    O que é: Protrusão de conteúdo intra-abdominal através de defeitos da parede inguinal/femoral. Tipos principais: hérnia inguinal indireta (via anel inguinal profundo, lateral aos vasos epigástricos), direta (triângulo de Hesselbach, medial aos epigástricos) e femoral (canal femoral, abaixo do ligamento inguinal, medial à veia femoral).

    Por que importa: É causa comum de dor e abaulamento inguinal; a correta identificação orienta a técnica cirúrgica. A hérnia femoral tem maior risco de encarceramento/estrangulamento e exige prioridade.

    Como identificar (prova e prática):

    • Indireta: Mais prevalente; acompanha o Ligamento Redondo (em mulheres) ou Cordão Espermático (em homens) através do anel inguinal interno. Abaulamento que pode descer ao escroto ou irradiar ao grande lábio; trajeto pelo canal inguinal; lateral aos vasos epigástricos na USG.
    • Direta: Em homens mais velhos; defeito da parede posterior; não desce ao escroto; medial aos epigástricos.
    • Femoral: Abaixo do ligamento inguinal, inferolateral ao tubérculo púbico; mais comum em mulheres, porém menos frequente que inguinais; alto risco de encarceramento.

    Ultrassonografia: Útil quando o exame físico é duvidoso; define relação com vasos epigástricos e o ligamento inguinal (critério anatômico padrão para classificar direta vs indireta vs femoral).


    Conduta & Posologia

    • Indicação cirúrgica: Hérnia sintomática: reparo eletivo. Urgência se encarcerada/estrangulada (dor intensa contínua, vômitos, pele eritematosa, sinais de obstrução/sepse).
    • Técnicas de primeira linha: Aberta com tela (Lichtenstein) ou laparoscópica TEP/TAPP (bilateral, recidiva contralateral ou necessidade de retorno precoce às atividades).
    • Profilaxia antibiótica (quando uso de tela/risco moderado): Cefazolina 2 g IV 30–60 min antes da incisão (3 g se >120 kg); redose se cirurgia >4 h ou perda sanguínea >1,5 L. Ajuste em DRC ClCr <30 mL/min: 1 g dose única pré-incisão.
    • Contraindicações à cefazolina: Anafilaxia a beta-lactâmicos. Alternativa: Clindamicina 600–900 mg IV pré-incisão.
    • Analgésicos pós-operatórios (exemplos): Dipirona 1 g VO/IV 6/6 h; Paracetamol 750 mg VO 6/6 h (máx. 3 g/dia; reduzir em hepatopatia). Evitar AINEs em DRC estágio 4–5.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Ambulatorial em baixo risco (ASA I–II, sem complicações). Internar se dor desproporcional, obstrução, encarceramento/estrangulamento, comorbidades descompensadas, ou pós-operatório com necessidade de vigilância.
    • Reavaliação: 24–48 h por telemonitorização se ambulatorial; consulta em 7–10 dias. Alertar retorno imediato se sinais de infecção, febre, piora da dor, náuseas/vômitos persistentes.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Hérnia inguinal indireta.

    Alternativa correta. É a hérnia mais frequente da região inguinal. No sexo feminino pode irradiar para o grande lábio (persistência do canal de Nuck). Na USG, o saco herniário emerge pelo anel inguinal profundo, lateral aos vasos epigástricos, achado que a caracteriza e a torna a resposta compatível com “a mais frequentemente encontrada nessa região”.

    ❌ A) Hérnia incisional.

    Alternativa incorreta. O enunciado descreve topografia inguinofemoral sem história de cirurgia prévia local. Hérnia incisional decorre de defeito em cicatriz operatória, o que não foi citado.

    ❌ C) Hérnia inguinal direta.

    Alternativa incorreta. Embora comum, especialmente em homens mais velhos, é menos prevalente que a indireta. Surge medial aos vasos epigástricos (triângulo de Hesselbach) e tipicamente não irradia para o grande lábio.

    ❌ D) Hérnia femoral.

    Alternativa incorreta. É mais comum em mulheres e tem maior risco de encarceramento, mas é menos frequente que as hérnias inguinais no conjunto da região inguinofemoral. Localiza-se abaixo do ligamento inguinal, medial à veia femoral.


    Vamos visualizar melhor o local de cada hérnia? 

    👀Fique de olho na ilustração abaixo.

    As hérnias inguinais indiretas desenvolvem-se no anel inguinal interno (profundo) e situam-se lateralmente à artéria epigástrica inferior. As hérnias inguinais diretas ocorrem através do Triângulo de Hesselbach (delineado em azul), formado pelo ligamento inguinal inferiormente, pelos vasos epigástricos inferiores lateralmente e pelo músculo reto abdominal medialmente. As hérnias femorais desenvolvem-se no espaço vazio no aspecto medial do canal femoral, inferiormente ao ligamento inguinal.

    Fonte: Uptodate. Acesso em 28 de Janeiro de 2026.



    Take-home message

    • A hérnia inguinal indireta é a mais comum na região inguinal; na USG, emerge lateral aos vasos epigástricos.
    • Hérnia direta: defeito no triângulo de Hesselbach (medial aos epigástricos). Hérnia femoral: abaixo do ligamento inguinal, medial à veia femoral.
    • Dor irradiando para o grande lábio sugere trajeto pelo canal inguinal (indireta) em mulheres.
    • Red flag: Encarceramento/estrangulamento = dor intensa contínua, náuseas/vômitos, pele eritematosa; indicar cirurgia de urgência.
    • Profilaxia antibiótica com tela: cefazolina 2 g IV 30–60 min antes (3 g se >120 kg); ajuste em DRC grave.

    Questão 5Priapismo

    Paciente, sexo masculino, 35 anos de idade, portador de anemia falciforme, apresenta ereção dolorosa de 8 horas de evolução, sem estímulo sexual. Nega trauma peniano recente. Ao exame, observa-se pênis rígido, doloroso, com glande flácida. Sobre o manejo inicial do caso, é correto afirmar:

    • A)

      Analgesia e observação clínica por 24–48 horas é o recomendado, já que a maioria dos casos reverte espontaneamente sem risco de fibrose.

    • B)

      Cirurgia de desvio peniano é indicada como primeira medida em todos os casos, independente da duração da ereção.

    • C)

      Punção do corpo cavernoso associada à injeção intracavernosa de alfa-agonista (fenilefrina) é o tratamento de primeira linha.

    • D)

      Uso de anticoagulantes sistêmicos é o tratamento de escolha para priapismo isquêmico, para evitar futuras complicações.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Priapismo isquêmico é emergência urológica. Tempo de isquemia >4–6 h aumenta risco de necrose e disfunção erétil permanente. Em doença falciforme, a conduta inclui medidas sistêmicas + descompressão cavernosal imediata com alfa-agonista.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Definição: Priapismo isquêmico = ereção dolorosa, sem estímulo, glande flácida, baixa perfusão nos corpos cavernosos.
    • Relevância no Brasil: Doença falciforme é causa frequente de priapismo isquêmico em homens jovens.
    • Etiologia comum: Doença falciforme, medicamentos (antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos, inibidores da fosfodiesterase tipo 5 em excesso), drogas recreativas, idiopático.

    Diagnóstico

    • Clínico-operacional: Pênis rígido e doloroso, glande flácida (corpo esponjoso não congesto) sugere priapismo isquêmico.
    • Padrão-ouro propedêutico: Gasometria do corpo cavernoso: pH baixo (<7,25), pO2 baixa (<30 mmHg), pCO2 alta (>60 mmHg) confirma isquemia.

    • Armadilha de prova: Doppler peniano pode ajudar, mas não deve atrasar a descompressão quando quadro é típico.

    Conduta & Posologia 

    • Primeiro passo (imediato): Analgesia (opioide se necessário), bloqueio peniano dorsal opcional, oxigênio suplementar, acesso venoso, hidratação venosa (em doença falciforme) e gelo local não é prioritário no isquêmico.

    • Descompressão cavernosal (padrão-ouro inicial): Aspiração dos corpos cavernosos com agulha 19–21G via lateral proximal, remover 20–30 mL, irrigar com soro fisiológico 0,9% até clarear o efluente. Se persistir, associar alfa-agonista.

    • Alfa-agonista intracavernoso (1ª linha): Fenilefrina é preferida por seletividade alfa-1.
      • Preparar solução de 100 a 500 microgramas/mL.
      • Injetar 0,5 a 1 mL no corpo cavernoso a cada 3–5 minutos, monitorando pressão arterial e frequência cardíaca.
      Dose total máxima típica em adultos: 1 mg em até 1 hora.

      • Contraindicações/precauções da fenilefrina: Cautela em cardiopatia isquêmica, hipertensão grave, uso de inibidor de monoaminoxidase. Monitorização rigorosa. Efeitos adversos: cefaleia, hipertensão, taquiarritmias, palidez.

    • Particularidades na doença falciforme: Hidratação venosa, oxigenação, aquecimento e analgesia vigorosa. Considerar transfusão simples ou exsanguíneotransfusão apenas se refratário/prolongado ou complicações; evitar hemoglobina >10 g/dL por risco de hiperviscosidade.

    • Próximo passo se refratário: Falha de aspiração + fenilefrina → derivação (shunt) distal caverno-esponjosa (técnicas de Winter/Ebbehoj/T-shunt). Encaminhar para urologia imediatamente.

    • Anticoagulação: Não indicada no priapismo isquêmico de rotina.

    • Monitorização: Sinais vitais contínuos durante uso de fenilefrina; observar por 60 minutos após detumescência.
    • Critérios de internação vs alta: Internar quando: doença falciforme, necessidade de múltiplas injeções, comorbidades cardiovasculares, recorrência, necessidade de cirurgia. Alta apenas se resolução completa, estável, com retorno precoce em caso de recidiva.

    Discussão das alternativas

    ✅ C) Punção do corpo cavernoso associada à injeção intracavernosa de alfa-agonista (fenilefrina) é o tratamento de primeira linha.

    Alternativa correta. No priapismo isquêmico (glande flácida, dor intensa), a descompressão cavernosal com aspiração/irrigação associada a fenilefrina intracavernosa é a conduta inicial padrão, com maior taxa de reversão e menor dano tecidual. Em doença falciforme, manter medidas sistêmicas adjuvantes (hidratação/oxigênio/analgesia).


    ❌ A) Analgesia e observação clínica por 24–48 horas é o recomendado, já que a maioria dos casos reverte espontaneamente sem risco de fibrose.

    Alternativa incorreta. Priapismo isquêmico é emergência; aguardar leva à necrose dos corpos cavernosos e disfunção erétil. Deve-se intervir imediatamente com aspiração e alfa-agonista.


    ❌ B) Cirurgia de desvio peniano é indicada como primeira medida em todos os casos, independente da duração da ereção.

    Alternativa incorreta. Derivação cirúrgica é segunda linha, indicada quando falham aspiração/irrigação e fenilefrina ou quando o quadro é muito prolongado. Iniciar sempre pelo método menos invasivo.


    ❌ D) Uso de anticoagulantes sistêmicos é o tratamento de escolha para priapismo isquêmico, para evitar futuras complicações.

    Alternativa incorreta. Anticoagulação não é tratamento do priapismo isquêmico e pode aumentar risco de sangramento. A prioridade é descompressão cavernosal e alfa-agonista; em doença falciforme, medidas sistêmicas específicas.


    Take-home message

    • Priapismo isquêmico: dor + glande flácida → emergência; não observar, intervir já.
    • Primeira linha: aspiração/irrigação + fenilefrina 100–500 microgramas/mL, 0,5–1 mL a cada 3–5 min (máx. ~1 mg).
    • Doença falciforme: hidratação, oxigênio e analgesia sempre; transfusão só se refratário/complicado.
    • Falha do tratamento farmacológico → shunt distal (Winter/Ebbehoj/T-shunt) sem demora.
    • Red flag: Anticoagulante não trata priapismo isquêmico e pode piorar sangramento.
    • Monitorar PA/FC durante fenilefrina; cautela em cardiopatia/hipertensão/IMAO.

    Questão 1Úlceras genitais - Sífilis

    Mulher de 24 anos, previamente saudável, procura o pronto atendimento com queixa de úlcera genital dolorosa há 7 dias, acompanhada de adenopatia inguinal dolorosa e febre baixa. Ao exame, observa-se úlcera única, rasa, de bordas irregulares, com exsudato, doloroso à palpação. Linfonodo inguinal aumentado, doloroso, com sinais flogísticos. Relata relação sexual desprotegida há 3 semanas. Não há lesões orais ou outras alterações sistêmicas. O diagnóstico principal e o diferencial mais prováveis são, respectivamente:

    • A)

      Linfogranuloma venéreo – cancro duro (sífilis primária).

    • B)

      Herpes genital – cancro mole (cancroide).

    • C)

      Cancro mole (cancroide) – linfogranuloma venéreo.

    • D)

      Sífilis primária – herpes genital.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora (por que cai): Úlcera genital dolorosa com linfonodomegalia inguinal dolorosa costuma ser cobrada para distinguir cancro mole (cancroide) de linfogranuloma venéreo, e opor ao padrão clássico de sífilis primária (cancro duro, indolor) e herpes genital (múltiplas vesículas/úlceras recidivantes).

    Epidemiologia e Etiologia

    • Cancro mole (cancroide): causado por Haemophilus ducreyi. No Brasil, ainda presente em contextos de vulnerabilidade, cursa com úlcera dolorosa e adenite supurativa ("bubão").
    • Linfogranuloma venéreo (LGV): Chlamydia trachomatis sorotipos L1–L3. Fase inicial com lesão genital pequena e muitas vezes indolor, seguida de linfadenite inguinal dolorosa e inflamatória (sinal do sulco).
    • Sífilis primária: Treponema pallidum. Cancro duro, indolor, fundo limpo, base endurecida, linfadenopatia indolor bilateral.
    • Herpes genital: Vírus herpes simples 1/2. Múltiplas vesículas/úlceras dolorosas, recorrentes, queimação/pródromos.

    Diagnóstico

    • Definição operacional (síndromes de úlcera genital – Ministério da Saúde): Diagnóstico inicial é clínico-sindrômico. Características morfológicas e da linfadenopatia orientam o agente mais provável.
    • Cancro mole (mais provável neste caso): Úlcera dolorosa, rasa, bordas irregulares/ socavadas, fundo purulento/exsudativo, base mole; linfonodo inguinal doloroso, frequentemente unilateral, com sinais flogísticos e tendência à supuração.
    • LGV (diferencial forte neste caso): Lesão primária pequena e muitas vezes indolor e transitória; após 2–4 semanas, linfadenite inguinal dolorosa e inflamatória, podendo formar bubões e sulco inguinal (entre cadeias ganglionares).
    • Sífilis primária: Cancro indolor, fundo limpo, bordas regulares, base endurecida; adenopatia indolor.
    • Herpes genital: Múltiplas vesículas/úlceras dolorosas e recorrentes; não costuma causar bubões supurativos.
    • Exames: Sempre ofertar sorologias para sífilis e HIV, e testagem para hepatites. Exames específicos (cultura/PCR) raramente disponíveis; o manejo é sindrômico na UBS/PA.

    Conduta & Posologia

    • Cancro mole (cancroide) – primeira linha:
      • Azitromicina 1 g VO, dose única OU Ceftriaxona 500 mg IM, dose única.
      • Alternativas: Ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h por 3 dias ou Eritromicina 500 mg VO 6/6h por 7 dias.
      • Ajustes/alertas: Azitromicina sem ajuste em doença renal leve; cautela em doença hepática. Ceftriaxona sem ajuste renal; evitar em icterícia neonatal (não aplicável aqui). Ciprofloxacino é contraindicado na gestação. Eritromicina: risco de náuseas e QT longo/interações.
    • Linfogranuloma venéreo – primeira linha:
      • Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 21 dias.
      • Alternativas: Azitromicina 1 g VO 1x/semana por 3 semanas ou Eritromicina 500 mg VO 6/6h por 21 dias.

      • Ajustes/alertas: Doxiciclina é contraindicada na gestação e em crianças < 8 anos. Não requer ajuste renal; cautela hepática. Azitromicina é opção segura na gestação.
    • Medidas gerais: Abstinência sexual até cicatrização completa; notificar e tratar parceiros dos últimos 60 dias conforme síndrome; reavaliar clinicamente em 3–7 dias. Investigar e tratar sífilis conforme resultado (penicilina benzatina) e ofertar aconselhamento e preservativos.
    • Critérios de internação/encaminhamento: Dor intensa com necessidade de analgesia endovenosa, abscessos/bubões extensos para drenagem cirúrgica, complicações sistêmicas, imunossupressão grave, falha terapêutica após 7–10 dias ou diagnóstico incerto com piora clínica.

    Mini-exemplo: Úlcera única, dolorosa, rasa, exsudativa + bubão doloroso = cancroide; se lesão inicial discreta/indolor que some e depois grande linfadenite dolorosa com sulco, pensar em LGV.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Linfogranuloma venéreo – cancro duro (sífilis primária).

    Alternativa incorreta. O quadro atual traz úlcera dolorosa, rasa, exsudativa e adenite dolorosa, típico de cancroide, não de LGV na fase inicial (geralmente indolor). Cancro duro é indolor, com base endurecida e linfonodos não dolorosos.

    ❌ B) Herpes genital – cancro mole (cancroide).

    Alternativa incorreta. Herpes cursa com múltiplas vesículas/úlceras dolorosas e recorrentes; aqui há úlcera única e bubão doloroso, o que favorece cancroide. O diferencial mais provável após cancroide é LGV, não herpes, pelo padrão de linfadenopatia.

    ✅ C) Cancro mole (cancroide) – linfogranuloma venéreo.

    Alternativa correta. Úlcera única, dolorosa, rasa, bordas irregulares, exsudativa + linfonodo inguinal doloroso com sinais flogísticos = cancroide. LGV é o principal diferencial pelas adenites importantes, embora a lesão primária típica do LGV seja indolor e muitas vezes passe despercebida.

    ❌ D) Sífilis primária – herpes genital.

    Alternativa incorreta. Sífilis primária não cursa com dor acentuada na úlcera nem com bubão doloroso; herpes usualmente é múltiplo/recorrente. O fenótipo descrito afasta ambas como hipóteses principais.


    Take-home message

    • Úlcera genital dolorosa, rasa, com exsudato + linfonodo inguinal doloroso e inflamado → pense primeiro em cancro mole (cancroide).
    • Diferencial forte: linfogranuloma venéreo (lesão inicial muitas vezes indolor, seguida de linfadenite dolorosa importante, sulco inguinal).
    • Tratamento do cancroide de primeira linha: Azitromicina 1 g VO DU ou Ceftriaxona 500 mg IM DU.
    • Tratamento do LGV: Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 21 dias; gestante: preferir Azitromicina 1 g semanal por 3 semanas.
    • Red flag: Ciprofloxacino é contraindicado na gestação; doxiciclina é contraindicada em gestantes e crianças < 8 anos.
    • Sempre ofertar testagem para sífilis, HIV e hepatites; reavaliar em 3–7 dias e orientar abstinência até cicatrização.


    Questão 1Estudos Epidemiológicos - Ensaio Clínico

    Um estudo recente publicado na Revista Lancet avaliou o efeito do uso profilático de paracetamol administrado imediatamente após a vacinação infantil sobre febre pós-vacinal e resposta imunológica. Para isso, foram incluídos 459 lactentes saudáveis, que foram aleatoriamente alocados em dois grupos: um grupo recebia paracetamol profilático após cada dose de vacina e o outro não recebia paracetamol profilático. Qual é o delineamento do estudo descrito?

    • A)

      Ensaio clínico randomizado

    • B)

      Coorte retrospectiva

    • C)

      Caso-controle

    • D)

      Estudo observacional

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Delineamento de estudo é cobrado para julgar causalidade. A presença de alocação aleatória e intervenção define ensaio clínico randomizado (ECR).


    O que é: Ensaio clínico randomizado (ECR) é estudo experimental em que participantes são aleatoriamente alocados para intervenção vs controle para comparar desfechos.

    Por que importa: É o padrão-ouro para inferência causal, reduzindo vieses de confusão e seleção.

    Como identificar: Palavras-chave: alocação aleatória, intervenção administrada pelo pesquisador, grupos paralelos, comparação de desfechos. Se apenas observa exposição já ocorrida, é observacional (coorte, caso-controle, transversal).

    Mini-exemplo: "459 lactentes saudáveis foram randomizados para receber paracetamol profilático vs não receber" = intervenção + randomização = ECR.


    Elementos críticos do ECR: Randomização adequada, ocultação da alocação, cegamento (quando possível), análise por intenção de tratar, registro prévio do protocolo.

    • Alertas metodológicos: Evitar viés de seleção (sem ocultação da alocação), viés de desempenho e detecção (sem cegamento), e análise per-protocol exclusiva quando a análise por intenção de tratar é indicada.
    • Desfechos: Devem ser pré-especificados e clinicamente relevantes (ex.: febre pós-vacinal; títulos de anticorpos).

    Discussão das alternativas

    ✅ A) Ensaio clínico randomizado

    Alternativa correta. O enunciado descreve intervenção ativa (paracetamol profilático) e alocação aleatória de 459 lactentes em dois grupos. Esse conjunto define ECR (estudo experimental) e é o delineamento mais apropriado para avaliar efeito causal sobre febre e resposta imunológica.


    ❌ B) Coorte retrospectiva

    Alternativa incorreta. Coorte é observacional e acompanha expostos vs não expostos; no retrospectivo, a exposição já ocorreu e dados são coletados de registros. Aqui houve intervenção e randomização, o que descaracteriza coorte observacional.


    ❌ C) Caso-controle

    Alternativa incorreta. Caso-controle parte do desfecho (casos com febre vs controles sem febre) para investigar exposições pregressas. O estudo descrito parte da exposição intervencionada e segue para os desfechos, típico de ECR/coorte prospectiva, não de caso-controle.


    ❌ D) Estudo observacional

    Alternativa incorreta. Estudos observacionais não aplicam intervenção nem randomizam. Como há administração de paracetamol profilático determinada pelo pesquisador e randomização, trata-se de estudo experimental.


    Take-home message

    • Intervenção + alocação aleatória = Ensaio Clínico Randomizado (padrão-ouro para causalidade).
    • Coorte observacional acompanha expostos vs não expostos sem intervir; caso-controle parte do desfecho para trás.
    • Palavras-chave de ECR: randomização, ocultação da alocação, cegamento, análise por intenção de tratar, protocolo pré-registrado.
    • Armadilha de prova: chamar ECR de “observacional” quando se avalia desfecho clínico; o critério é a intervenção randomizada, não o tipo de desfecho.

    Questão 2Ciclo menstrual

    Em uma mulher de 23 anos de idade, com ciclos regulares de 28 dias, o pico de LH ocorre

    • A)

      no final da fase lútea.

    • B)

      na metade da fase lútea.

    • C)

      na metade da fase folicular.

    • D)

      no início da fase folicular.

    • E)

      no meio do ciclo, entre fase folicular e lútea.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em ciclo regular de 28 dias, o pico de LH marca a transição folicular → ovulatória → lútea ("meio do ciclo").


    O que é: O pico de LH (surto de LH) é a elevação abrupta do hormônio luteinizante induzida por feedback positivo do estradiol folicular maduro.


    Por que importa: Determina a ovulação e a janela fértil. A ovulação ocorre ~10–12 h após o pico de LH (ou 24–36 h após o início da ascensão do LH).


    Como identificar (ciclo de 28 dias): - Fase folicular: do 1º dia da menstruação até o pico de LH (≈ dia 14; duração pode variar).

    - Pico de LH: no meio do ciclo, na transição entre fase folicular e lútea.

    - Fase lútea: ~14 dias fixos após a ovulação; progesterona atinge pico no meio da fase lútea (~dia 21).


    Mini-exemplo: Mulher 23 a, ciclos de 28 d, testes de LH urinário positivos no dia 13–14 → ovula em ~24–36 h; pico de progesterona apenas 5–7 dias depois (meio da fase lútea).


    Conduta & Posologia

    • Aplicação clínica (sem fármaco): Para concepção, orientar relações de 1–2 dias antes até 1 dia após o pico de LH (janela fértil).

    • Monitorização: Kits de LH urinário detectam a ascensão do LH (~24–36 h antes da ovulação).

    • Não há posologia: Tema fisiológico; não envolve medicação de rotina.

    • Critérios de investigação: Se irregularidade menstrual ou anovulação suspeita, avaliar eixo HHO (FSH, LH, prolactina, TSH) e causas comuns (SOP, hiperprolactinemia, tireoideopatias).

    Discussão das alternativas

    ❌ A) no final da fase lútea.

    Alternativa incorreta. No final da fase lútea, LH está baixo; ocorre queda de progesterona/estradiol e início de nova menstruação.

    ❌ B) na metade da fase lútea.

    Alternativa incorreta. Metade da fase lútea (~dia 21) corresponde ao pico de progesterona, não de LH. O LH já caiu após a ovulação. Observação: se o gabarito oficial indica B, trata-se de erro conceitual passível de recurso.

    ❌ C) na metade da fase folicular.

    Alternativa incorreta. Metade da fase folicular ainda é período de crescimento folicular com estradiol em ascensão, mas sem feedback positivo pleno para deflagrar o pico de LH.

    ❌ D) no início da fase folicular.

    Alternativa incorreta. Início da fase folicular (menstruação) há leve elevação de FSH; LH permanece basal, sem pico.

    ✅ E) no meio do ciclo, entre fase folicular e lútea.

    Alternativa correta. O pico de LH é evento do meio do ciclo, deflagrado por altos níveis de estradiol, ocorrendo ~24–36 h antes da ovulação.


    Mensagem para levar para casa:

    • O pico de LH ocorre no meio do ciclo, marcando a transição folicular → lútea (evento ovulatório).
    • Ovulação acontece ~10–12 h após o pico de LH (24–36 h após o início da ascensão do LH).
    • Fase lútea tem ~14 dias fixos; o pico de progesterona é no meio da fase lútea, não de LH.
    • Armadilha de prova: não confundir pico de LH (meio do ciclo) com pico de progesterona (~dia 21 em ciclos de 28 dias).
    • Kits de LH urinário positivam 24–36 h antes da ovulação; úteis para planejar a janela fértil.

    Questão 2DISTÚRBIOS HIDROELETROLÍTICOS - Disnatremias

    Mulher, 50 anos de idade, realiza ressecção histerocópica de leiomioma uterino. Foram utilizados 4.500 mL de glicina. O procedimento foi realizado de maneira apropriada com adequada hemostasia ao final da cirurgia. No pós-operatório imediato, a paciente apresenta edema generalizado, crepitações pulmonares bilaterais e sonolência leve. Exames laboratoriais: albumina sérica: 2,5 g/dL; sódio: 128 mEq/L. Assinale a alternativa que apresenta a principal causa da hipoproteinemia na paciente descrita.

    • A)

      Absorção de volume do fluido intraoperatório.

    • B)

      Disfunção hepática aguda induzida por glicina.

    • C)

      Proteinúria secundária ao aumento da fração de filtração renal.

    • D)

      Retenção hídrica por bloqueio da liberação do hormônio antidiurético.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Histeroscopia com meio hipotônico não eletrolítico (glicina 1,5%) pode causar absorção intravascular maciça, gerando hemodiluição com hiponatremia dilucional, sobrecarga volêmica e, por consequência, hipoalbuminemia dilucional. O quadro é análogo à “síndrome da ressecção transuretral”.


    Epidemiologia e Etiologia


    • Cenário: Ressecções histeroscópicas com glicina 1,5% (meio não eletrolítico) exigem energia monopolar; risco de absorção quando há intravasamento por veias miometriais ou perfuração.

    • Fisiopatologia-chave: Entrada rápida de grande volume hipotônico no intravascular → diluição de solutos (sódio, albumina) + hipervolemia. Glicina pode causar náuseas, sonolência e, raramente, hiperamonemia, mas não provoca hipoalbuminemia por síntese reduzida aguda.

    • Limites práticos de segurança (meios hipotônicos): déficit de irrigação geralmente aceito até ~1.000 mL (menor em idosas/comorbidades). Em meios isotônicos (soro fisiológico), tolera-se déficit maior (~2.000–2.500 mL). O risco aumenta com pressão intrauterina elevada, tempo prolongado e miometrio vascularizado.


    Diagnóstico


    • O que é: Intoxicação hídrica/hiponatremia dilucional por absorção de meio de distensão durante histeroscopia.

    • Por que importa: Pode cursar com edema pulmonar, hipoxemia e sintomas neurológicos (de leve sonolência a convulsões) por hiponatremia hipotônica aguda.

    • Como identificar: Pós-operatório imediato com sinais de hipervolemia (crepitações, edema), hiponatremia (ex.: 128 mEq/L), e hipoalbuminemia proporcional (dilucional). Mini-exemplo: Na queda de 140→128 mEq/L, albumina 4,0→2,5 g/dL após uso de glicina em grande volume.

    • Padrão-ouro operacional: Correlação temporal com o procedimento, balanço hídrico positivo/alto déficit de irrigação, gasometria com hipo-osmolalidade e eletrólitos compatíveis; exclusão de outras causas agudas (perfuração com hemorragia oculta, insuficiência cardíaca descompensada prévia).


    Conduta & Posologia (DINÂMICO)


    • Primeiro passo: Interromper o meio de distensão, monitorização contínua, oxigênio suplementar e diurese horária. Tratar hipervolemia e hiponatremia.

    • Se hiponatremia sintomática (sinais neurológicos) ou Na ≤ 125 mEq/L: Solução salina hipertônica a 3% em bolus de 150 mL IV em 20 min, podendo repetir até 3 vezes se sintomas persistirem, visando aumento inicial de 4–6 mEq/L nas primeiras 6 h. Limites de correção: ≤ 8 mEq/L nas primeiras 24 h e ≤ 16–18 mEq/L em 48 h.

    • Se hipervolemia/edema pulmonar: Furosemida 20–40 mg IV, titulando a diurese e o quadro clínico. Associar restrição hídrica (800–1.000 mL/dia), especialmente se hiponatremia leve-moderada e estável.

    • Ajustes e cautelas: Em idosos e em doença renal crônica, iniciar furosemida na menor dose efetiva; monitorar eletrólitos estreitamente (Na+ a cada 2–4 h no início). Evitar correção rápida excessiva sob risco de mielinólise pontina.

    • Contraindicações/alertas: Não usar soluções hipotônicas para reposição; não repor albumina rotineiramente pois a hipoalbuminemia é dilucional e corrige com o equilíbrio hídrico.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar toda hiponatremia sintomática, Na < 130 mEq/L com sinais de hipervolemia, ou necessidade de diurético IV. UTI se Na ≤ 120 mEq/L, edema pulmonar, ou alteração neurológica (rebaixamento importante, convulsões). Reavaliar Na a cada 2–4 h até estabilizar.


    Discussão das alternativas


    ✅ A) Absorção de volume do fluido intraoperatório.

    Alternativa correta. A absorção intravascular de glicina em grande volume produz hemodiluição, explicando a hiponatremia e a hipoalbuminemia dilucional. O quadro clínico (edema, crepitações pulmonares, sonolência leve) é típico de sobrecarga hídrica + hiponatremia hipotônica aguda após histeroscopia com meio hipotônico.


    ❌ B) Disfunção hepática aguda induzida por glicina.

    Alternativa incorreta. A glicina pode cursar com sintomas neurológicos e, raramente, hiperamonemia, mas não causa insuficiência hepática aguda imediata. A queda de albumina é dilucional, não por redução súbita da síntese hepática.


    ❌ C) Proteinúria secundária ao aumento da fração de filtração renal.

    Alternativa incorreta. Proteinúria significativa não é mecanismo primário neste contexto e não explicaria a queda aguda e proporcional da albumina sérica. A alteração laboratorial decorre de expansão do volume plasmático e diluição.


    ❌ D) Retenção hídrica por bloqueio da liberação do hormônio antidiurético.

    Alternativa incorreta. O quadro é de sobrecarga por ganho exógeno de água, não por retenção mediada por hormônio antidiurético. Além disso, o hormônio antidiurético promove retenção, não bloqueio; o erro conceitual invalida a opção.


    Take-home message

    • Histeroscopia com glicina: risco de absorção intravascular → hiponatremia e hipoalbuminemia dilucionais.
    • Limite prático de déficit com meio hipotônico: cerca de 1.000 mL (menor em alto risco); monitorar balanço hídrico e tempo/pressão de distensão.
    • Sintomática/Na baixo: NaCl 3% 150 mL IV/20 min, repetir até 3x; alvo +4–6 mEq/L/6 h, máx. 8 mEq/L/24 h.
    • Edema pulmonar: Furosemida 20–40 mg IV e restrição hídrica.
    • Red flag: Evitar correção rápida do sódio (risco de mielinólise). Monitorar Na a cada 2–4 h.
    • Hipoalbuminemia pós-histeroscopia com glicina é principalmente dilucional; não requer albumina de rotina.

    Questão 3Aterosclerose e Síndrome Coronariana Crônica

    Homem, 82 anos, residente na comunidade, procura avaliação em consulta de rotina. Relata duas quedas no último ano e fadiga para atividades habituais. Mora com a esposa, consegue realizar atividades básicas, mas vem percebendo que o caminhar está mais lento do que a companheira nos últimos meses. Antecedentes pessoais: hipertensão arterial controlada com losartana, dislipidemia previamente tratada com estatina (suspensa há 1 ano, por mialgia), sem história prévia de infarto ou AVC. Nega tabagismo. Ao Exame físico: pressão arterial = 128 x 70 mmHg; IMC = 22 kg/m²; peso = 72 kg (peso da consulta há 6 meses: 77 kg).

    Quanto aos demais aparelhos, nada foi digno de nota. Exame laboratorial: colesterol total = 205 mg/dL; LDL = 118 mg/dL; HbA1c = 6,0%.

    Com relação à prevenção de risco cardiovascular, qual é a conduta correta?

    • A)

      Reintroduzir estatina em alta intensidade, visando LDL < 70 mg/dL, independentemente da tolerância, dado o risco elevado pela idade.

    • B)

      Não indicar prevenção farmacológica, pois há fragilidade estabelecida e ausência de benefício comprovado nessa população.

    • C)

      Considerar reintrodução de estatina e individualizar meta lipídica, priorizando qualidade de vida e tolerabilidade.

    • D)

      Associar aspirina em baixa dose como prevenção primária, dado o risco aumentado pelo envelhecimento.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora (por que cai na prova): Prevenção cardiovascular primária em idosos muito idosos (>75–80 anos) com sinais de fragilidade: diretrizes brasileiras priorizam individualização e, na presença de fragilidade/baixa expectativa de benefício, tendem a não iniciar fármacos preventivos (estatinas/AAS).

    Epidemiologia e Etiologia

    • Contexto brasileiro: Doença cardiovascular é a principal causa de morte; porém, em idosos muito idosos e frágeis, o tempo até benefício de estatinas e antiagregantes pode exceder a expectativa de vida saudável, elevando eventos adversos.
    • Fragilidade (definição operacional): Fenótipo clássico inclui perda de peso não intencional ≥5% em 6–12 meses, lentidão de marcha, fadiga, baixa atividade e fraqueza. Este caso: perda ~6,5% em 6 meses, lentificação e quedas → sugere pré-fragilidade/fragilidade.

    Diagnóstico

    • Risco cardiovascular: Em >75–80 anos, escores perdem acurácia; a Diretriz SBC 2022 recomenda julgamento clínico, priorizando tolerabilidade e preferência do paciente na prevenção primária.
    • Estatinas em prevenção primária no idoso: Evidência limitada >75 anos; benefício modesto e tardio. Diretrizes brasileiras orientam individualizar e evitar iniciar em fragilidade moderada/grave ou vida limitada.
    • Aspirina (ácido acetilsalicílico, AAS) em prevenção primária: Não recomendada de rotina pela Diretriz SBC 2022 pela ausência de redução consistente de eventos e aumento de sangramento, sobretudo em idosos.

    Conduta & Posologia

    • Conduta principal neste caso (prevenção primária): Não iniciar estatina de alta intensidade nem AAS devido à fragilidade provável, histórico de mialgia prévia com estatina e baixo ganho líquido esperado. Focar medidas não farmacológicas e função global.
    • Medidas não farmacológicas prioritárias: intervenção multifatorial para quedas (exercício de força/equilíbrio supervisionado, revisão de calçados/ambiente), avaliação nutricional (perda ponderal), vitamina D se deficiência documentada, revisão de medicamentos.
    • Se, excepcionalmente, considerar estatina (decisão compartilhada): preferir baixa a moderada intensidade, iniciar dose mínima, reavaliar mialgia e CPK. Ex.: sinvastatina 10 mg VO à noite ou pravastatina 10–20 mg VO à noite. Ajustar por função renal/hepática e suspender se efeitos adversos.
    • Contraindicações/alertas: AAS em prevenção primária em idosos aumenta sangramento; estatina de alta intensidade com histórico de mialgia e risco de quedas é inadequada.
    • Critérios de seguimento: Reavaliar em 3–6 meses: sintomas, quedas, força e velocidade de marcha, estado nutricional, adesão às medidas. Monitorar PA, glicemia, lipidograma apenas para acompanhamento global (sem metas rígidas).


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Reintroduzir estatina em alta intensidade, visando LDL < 70 mg/dL, independentemente da tolerância, dado o risco elevado pela idade.

    Alternativa incorreta. Em prevenção primária de muito idosos e com sinais de fragilidade, a Diretriz SBC 2022 não recomenda metas agressivas fixas nem estatinas de alta intensidade “a qualquer custo”. História de mialgia prévia e risco de quedas aumentam dano. Se indicado, seria baixa a moderada intensidade e com decisão compartilhada.

    ✅ B) Não indicar prevenção farmacológica, pois há fragilidade estabelecida e ausência de benefício comprovado nessa população.

    Alternativa correta. O paciente apresenta perda ponderal relevante, lentificação da marcha e quedas, sugerindo fragilidade. Em tal cenário, a SBC 2022 respalda não iniciar estatina/AAS em prevenção primária, priorizando qualidade de vida, segurança (evitar miopatia/sangramento) e medidas não farmacológicas.

    ❌ C) Considerar reintrodução de estatina e individualizar meta lipídica, priorizando qualidade de vida e tolerabilidade.

    Alternativa incorreta no contexto do caso. A redação é “meio certa” em idosos robustos; contudo, diante de fragilidade e mialgia prévia, a balança risco–benefício pesa contra reintroduzir. A conduta mais alinhada à diretriz aqui é não iniciar farmacoterapia preventiva.

    ❌ D) Associar aspirina em baixa dose como prevenção primária, dado o risco aumentado pelo envelhecimento.

    Alternativa incorreta. A Diretriz SBC 2022 não recomenda AAS em prevenção primária de rotina devido a maior risco de sangramento sem benefício consistente, especialmente em idosos.


    Take-home message

    • Em idosos muito idosos com sinais de fragilidade, a prevenção primária farmacológica (estatina/AAS) tende a não ser iniciada pela baixa relação benefício–risco.
    • Diretriz SBC 2022: individualizar decisões em >75 anos; evitar metas lipídicas agressivas e alta intensidade em quem é frágil ou teve mialgia prévia.
    • Red flag: Não usar AAS em prevenção primária de rotina em idosos pelo risco de sangramento.
    • Foque em intervenções não farmacológicas: prevenção de quedas, exercício resistido/equilíbrio, avaliação nutricional e revisão de polifarmácia.
    • Se, excepcionalmente, optar por estatina: iniciar em baixa dose, monitorar sintomas e suspender se mialgia/elevação de CPK.
    • Reavaliar em 3–6 meses funcionalidade, quedas e estado nutricional; metas laboratoriais menos rígidas.

    Questão 4Vulvovaginites

    Mulher, 28 anos, procura atendimento médico queixando-se de corrimento vaginal, odor fétido e prurido. Ao exame especular, observa-se corrimento acinzentado, fluido e homogêneo, aderido às paredes da vagina. O pH vaginal é 5,0 e o teste de aminas é positivo. Diante do quadro clínico apresentado, o diagnóstico mais provável é de __________, e o tratamento preconizado é ____________________, por ________.

    Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas do trecho acima.

    • A)

      candidíase vaginal – fluconazol 150 mg ao dia, VO – 3 dias

    • B)

      vaginose bacteriana – secnidazol 2 g, VO – 1 dia

    • C)

      tricomoníase – metronidazol 2 g, dose única, VO – 1 dia

    • D)

      vaginite aeróbica – clindamicina creme vaginal 2% – 14 dias

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Vaginose bacteriana (VB) se confirma clinicamente pelos critérios de Amsel (≥3/4): corrimento fino homogêneo, pH > 4,5, teste das aminas positivo e presença de clue cells (células-guia) na microscopia.


    • O que é: Dismbiose com redução de lactobacilos e aumento de anaeróbios (ex.: Gardnerella vaginalis).

    • Por que importa: Sintomas incômodos, recorrência alta e associação com ISTs e complicações gestacionais.

    • Como identificar (prova): Corrimento acinzentado, fluido, homogêneo e aderente + pH > 4,5 + teste de aminas positivo. Microscopia: clue cells.

    • Diferenciais rápidos: Candidíase (prurido, grumos, pH normal), tricomoníase (espumoso, amarelo‑esverdeado, colpite em framboesa), vaginite aeróbica (inflamação, dor, corrimento purulento).


    Conduta & Posologia

    • Primeira linha (ambulatorial): - Secnidazol 2 g VO, dose única; ou - Metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 7 dias; ou - Clindamicina creme 2% 5 g intravaginal à noite por 7 dias.

    • Gestação: Preferir Metronidazol 250 mg VO 8/8 h por 7 dias ou 500 mg 12/12 h por 7 dias. Evitar secnidazol por evidência limitada em gestantes.

    • Lactação: Preferir esquemas fracionados (ex.: metronidazol 500 mg 12/12 h por 7 dias). Evitar dose única de 2 g e nitroimidazóis de meia‑vida longa (secnidazol) durante amamentação.

    • Ajustes e cautelas: - Hepatopatas (Child-Pugh B/C): reduzir dose/alongar intervalo de nitroimidazóis; monitorar efeitos (náusea, gosto
    • metálico, neuropatia). - DRC: sem ajuste rotineiro; em hemodiálise, considerar dose pós‑diálise para metronidazol.

    • Interações relevantes: Nitroimidazóis ↑ efeito da varfarina (monitorar RNI); potencial reação tipo dissulfiram com álcool — abstinência de álcool por 24–48 h após metronidazol. Evitar uso concomitante com dissulfiram.

    • Efeitos adversos: Gastrointestinais, gosto metálico; raros: neuropatia periférica (uso prolongado), colite pseudomembranosa com clindamicina.

    • Parceiro(a): Não tratar rotineiramente na VB não complicada (diferente da tricomoníase).

    • Critérios de internação vs ambulatorial: VB é manejo ambulatorial. Internar se houver sepse, abscesso pélvico, DIP grave ou imunossupressão descompensada.

    • Reavaliação: Se persistência/recorrência em 2–4 semanas, confirmar diagnóstico (Amsel/microscopia), excluir ISTs e considerar regime alternativo.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) vaginose bacteriana – secnidazol 2 g, VO – 1 dia

    Alternativa correta. O quadro descreve 3 critérios de Amsel (corrimento fino homogêneo acinzentado, pH 5, aminas positivo), compatível com VB. O secnidazol 2 g VO em dose única é esquema recomendado e efetivo para VB, com boa adesão.

    ❌ A) candidíase vaginal – fluconazol 150 mg ao dia, VO – 3 dias

    Alternativa incorreta. Candidíase cursa com corrimento branco grumoso e pH geralmente ≤4,5, sem teste de aminas positivo. Além disso, o esquema clássico é fluconazol 150 mg VO dose única (não por 3 dias) para casos não complicados.

    ❌ C) tricomoníase – metronidazol 2 g, dose única, VO – 1 dia

    Alternativa incorreta. Embora o esquema proposto trate tricomoníase, o padrão clínico típico da questão (corrimento homogêneo acinzentado, aderente, aminas +) indica VB. Tricomoníase costuma ter corrimento espumoso amarelo‑esverdeado e pode haver cérvix em framboesa.

    ❌ D) vaginite aeróbica – clindamicina creme vaginal 2% – 14 dias

    Alternativa incorreta. Vaginite aeróbica é quadro inflamatório com corrimento purulento e dor; o achado da questão é de VB. Além disso, na VB o uso de clindamicina intravaginal é por 7 dias, não 14.


    Take-home message

    • VB: ≥3 critérios de Amsel (corrimento homogêneo, pH > 4,5, aminas +, clue cells) fecham o diagnóstico clínico.
    • Tratamento de 1ª linha: Secnidazol 2 g VO dose única ou Metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 7 dias.
    • Gestantes: preferir esquemas com metronidazol fracionado; não tratar rotineiramente parceiro na VB não complicada.
    • Evitar álcool durante e por 24–48 h após nitroimidazóis; atenção à interação com varfarina (monitorar RNI).
    • Persistência/recorrência em 2–4 semanas: reavaliar diagnóstico, excluir ISTs e alternar esquema.

    Questão 4Doenças do pericárdio

    Menina, 13 anos de idade, antecedente de lúpus eritematoso sistêmico, em uso de hidroxicloroquina, múltiplas internações prévias por baixa adesão ao tratamento. Foi admitida no pronto-socorro infantil com quadro de dor torácica há 5 dias com piora progressiva. Associado ao quadro, refere artralgia intensa, mialgia, rash cutâneo em região malar e alopecia. Ao exame físico, apresentou MEG, descorada 2/4+, desidratada, anictérica, acianótica, afebril, BRNF 2T com sons abafados, pulsos periféricos filiformes, extremidades frias, FC de 120 bpm, PA de 80x60 mmHg, MV+ sem RA, FR de 26 ipm, Sat. O2 de 94%, abdome com fígado palpável em RCD, sem outras alterações, turgência jugular presente, sem outras alterações ao exame físico. Foi realizado USG point of care cardíaco da paciente, conforme imagem a seguir:

    Observe a seguinte imagem:

    Com base na imagem a apresentada, assinale a alternativa que indica a posição em que o probe cardíaco deve ser colocado para obter a imagem demonstrada no USG do paciente.

    • A)

      A.

    • B)

      B.

    • C)

      C.

    • D)

      D.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em criança instável com suspeita de tamponamento, a janela subcostal (subxifoide) 4 câmaras é a mais sensível para ver derrame pericárdico e colapso de câmaras direitas.


    O que é: Ecocardiografia point-of-care (POCUS) cardíaca usa 4 janelas básicas: parasternal longa, parasternal curta, apical 4 câmaras e subcostal 4 câmaras/VCI.


    Por que importa: No LES, derrame pericárdico e tamponamento podem ser fatais. A janela subcostal é menos limitada por ar pulmonar e frequentemente superior em pediatria/instabilidade.


    Como identificar (imagem típica da questão): Vista subcostal 4 câmaras com líquido anecoico circunferencial (derrame), sons cardíacos abafados e turgência jugular no exame sugerem tamponamento (Tríade de Beck). Sinais POCUS: colapso diastólico de AD/VD e VCI dilatada com baixo colapso inspiratório.


    Como posicionar o probe: Sonda setorial (phased array) posicionada logo abaixo do apêndice xifoide, plano transversal, marcador voltado para a direita do paciente (lado esquerdo da tela), angulando o feixe em direção ao ombro esquerdo para obter o corte subcostal 4 câmaras.


    Conduta & Posologia

    • Reanimação inicial (instabilidade/tamponamento): Cristaloide 10–20 mL/kg IV em bolus com reavaliação clínica/POCUS a cada bolus.
    • Vasopressor (se choque persistente): Noradrenalina 0,05–0,5 mcg/kg/min IV, titulando à PAM adequada para idade.
    • Definitivo: Pericardiocentese guiada por USG se sinais de tamponamento (colapso AD/VD + choque) ou deterioração hemodinâmica. Preferir janela subxifoide ou paraesternal, com kit adequado.

    • Pericardite lúpica (após estabilizar): Corticoide sistêmico. Opções: Prednisona 1 mg/kg/dia VO (máx. ~60 mg/d) ou Metilprednisolona pulsoterapia 30 mg/kg/dose IV (máx. 1 g) por 1–3 dias em casos graves, seguido de manutenção. Ajustar com Reumatologia.

    • Contraindicações: Evitar ventilação com pressão positiva antes da drenagem (pode piorar o retorno venoso). Evitar anticoagulação se suspeita de hemopericárdio.

    • Efeitos adversos relevantes: Noradrenalina: arritmias/isquemia; corticoides: hiperglicemia, infecção.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: UTI se choque, necessidade de vasopressor, grande derrame com sinais de tamponamento, pós-pericardiocentese, comorbidades autoimunes ativas. Ambulatorial não indicado neste cenário.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) D.

    Alternativa correta. Corresponde à janela subcostal (subxifoide): sonda logo abaixo do xifoide, marcador para a direita do paciente, angulando ao ombro esquerdo. É a melhor janela em pediatria/instabilidade para ver derrame pericárdico e tamponamento.

    ❌ A) A.

    Alternativa incorreta. Tipicamente corresponde à parasternal longa (3º–4º EIC, borda esternal esquerda, marcador ao ombro direito). Útil, mas não é a posição subcostal mostrada/esperada para o caso.

    ❌ B) B.

    Alternativa incorreta. Compatível com parasternal curta (mesmo ponto da longa, porém marcador ao ombro esquerdo). Não é a janela subcostal clássica para derrame em paciente instável.

    ❌ C) C.

    Alternativa incorreta. Sugere a apical 4 câmaras (5º EIC, região do ictus, marcador para axila esquerda). Útil para função global, mas menos factível que a subcostal em criança/instabilidade.

    Mensagem para levar para casa:

    • Janela subcostal (subxifoide) 4 câmaras: probe logo abaixo do xifoide, marcador para a direita do paciente, feixe ao ombro esquerdo.
    • Em pediatria e instabilidade hemodinâmica, a janela subcostal é a que mais frequentemente fornece imagem diagnóstica de derrame/tamponamento.
    • Sinais POCUS de tamponamento: derrame anecoico + colapso diastólico de AD/VD + VCI dilatada com baixo colapso.
    • Choque por tamponamento é emergência: volume 10–20 mL/kg, vasopressor se necessário e pericardiocentese guiada por USG.
    • No LES, após estabilizar, tratar pericardite com corticoide (ex.: prednisona 1 mg/kg/dia ou pulso de metilprednisolona em casos graves).

    Questão 4Climatério

    Mulher, 49 anos, procura Unidade Básica de Saúde com queixa de irregularidade menstrual há cerca de 1 ano, ondas de calor diárias, sudorese noturna, irritabilidade e dificuldade para dormir. Nega comorbidades, medicações de uso regular, tabagismo, história pessoal ou familiar de câncer de mama ou eventos tromboembólicos. Traz resultado de mamografia recente sem alterações. Ao exame físico, não há alterações relevantes. A abordagem inicial, nesse caso, consiste em

    • A)

      instituir terapia sistêmica com progestágeno isolado, para controle dos sintomas vasomotores e prevenção cardiovascular.

    • B)

      adotar conduta expectante, aguardando a confirmação laboratorial da menopausa por meio da dosagem sérica do hormônio FSH.

    • C)

      indicar fitoterapia para alívio dos sintomas vasomotores, pois apresenta eficácia equivalente ao estrogênio na prevenção de fraturas.

    • D)

      propor terapia hormonal, definindo a dose e a via de administração conforme o perfil de risco, com reavaliações periódicas da resposta.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora (por que cai): Diagnóstico de perimenopausa é clínico e a terapia hormonal é o padrão-ouro para sintomas vasomotores moderados a graves, se não houver contraindicações. Bancas cobram: quando pedir FSH (quase nunca), quando indicar/proteger endométrio, e escolha de via/dose.


    Epidemiologia e Etiologia

    Perimenopausa ocorre tipicamente entre 45–55 anos no Brasil; sintomas vasomotores (ondas de calor, sudorese noturna) afetam ~60–80% das mulheres e repercutem em sono e humor. Etiologia: queda e flutuação de estrogênios com instabilidade termorregulatória hipotalâmica.

    Fatores de risco para sintomas mais intensos: tabagismo, baixa atividade física, IMC elevado, etilismo e estresse. A paciente do caso não apresenta comorbidades ou fatores impeditivos para terapia hormonal.


    Diagnóstico

    Definição operacional: Perimenopausa = irregularidade menstrual + sintomas climatéricos em mulher ≥45 anos. Menopausa = 12 meses de amenorreia, na ausência de outra causa.

    Padrão-ouro prático: Diagnóstico é clínico. Dosagem de hormônio folículo-estimulante (FSH) não é necessária rotineiramente em ≥45 anos com quadro típico.

    Quando dosar FSH: Mulheres entre 40–45 anos com sintomas atípicos ou quando houver dúvida diagnóstica; usuárias de contraceptivo hormonal podem exigir abordagem específica.

    Avaliação basal antes de terapia hormonal: História clínica dirigida para riscos tromboembólicos e oncológicos, pressão arterial, IMC, exame ginecológico, mamografia atualizada conforme rastreamento, investigação de sangramento uterino anormal antes de iniciar.


    Conduta & Posologia

    Indicação principal: Sintomas vasomotores moderados a graves e repercussão na qualidade de vida, sem contraindicações. Iniciar terapia hormonal preferencialmente na janela dos 10 anos após a menopausa ou até ~60 anos, individualizando risco.

    Se útero presente: Estrogênio + progestagênio para proteção endometrial. Exemplos de esquemas iniciais:

    Estrogênio VO (um deles): 17β-estradiol 1 mg VO/dia ou valerato de estradiol 1–2 mg VO/dia.

    Estrogênio transdérmico (preferir em risco trombótico/metabólico): adesivo de 17β-estradiol 25–50 mcg/dia, trocado 2x/semana.

    Progestagênio cíclico (se padrão cíclico): progesterona micronizada 200 mg VO à noite por 12–14 dias/mês ou acetato de medroxiprogesterona 10 mg VO/dia por 12–14 dias/mês.

    Progestagênio contínuo (se padrão contínuo-combinado): progesterona micronizada 100 mg VO à noite diariamente ou acetato de medroxiprogesterona 2,5 mg VO/dia.


    Se histerectomizada: Estrogênio isolado (mesmas doses de estrogênio acima) sem progestagênio.

    Adequação da via: Via transdérmica reduz impacto hepático e risco tromboembólico comparada à via oral; preferir em obesidade, migrena com aura, hipertrigliceridemia, alto risco trombótico.

    Duração e reavaliação: Reavaliar em 6–12 semanas para ajuste de dose e controle de efeitos; seguir avaliação anual de risco/benefício. Usar a menor dose eficaz.


    Contraindicações absolutas: Câncer de mama atual ou prévio, neoplasia estrogênio-dependente, sangramento genital não esclarecido, doença tromboembólica venosa ativa ou prévia idiopática, doença arterial recente (infarto do miocárdio/AVC), hepatopatia grave ativa.

    Contraindicações relativas/cautela: Enxaqueca com aura, lúpus eritematoso sistêmico, hipertrigliceridemia grave, hipertensão arterial sistêmica não controlada; preferir via transdérmica e controlar fatores de risco.

    Efeitos adversos relevantes: Sangramento de escape (primeiros 3–6 meses), mastalgia, cefaleia, edema; raros: eventos tromboembólicos e biliar (risco menor na via transdérmica). Progestagênios podem cursar com sonolência/alteração de humor.

    Interações críticas: Indutores/inibidores do citocromo P450 3A4 podem alterar níveis de estradiol/progesterona (ex.: carbamazepina, fenitoína, rifampicina, cetoconazol). Avaliar fitoterápicos como erva-de-São-João (indutor enzimático).

    Ajustes: Insuficiência hepática: contraindicação. Doença renal crônica: geralmente sem ajuste de dose, mas monitorar retenção hídrica/pressão arterial. Idosas >60 anos: iniciar com doses menores e reavaliar risco cardiovascular.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Manejo é ambulatorial. Encaminhar/urgência se sinais de evento tromboembólico agudo (dor e edema assimétricos em membro inferior, dispneia súbita, dor torácica pleurítica) ou sangramento vaginal intenso com instabilidade hemodinâmica.


    Alternativas não hormonais (quando TH for contraindicada): Inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina (ex.: venlafaxina), gabapentina, clonidina; eficácia menor que estrogênio. Fitoterapia não tem evidência robusta para vasomotores ou prevenção óssea.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) propor terapia hormonal, definindo a dose e a via de administração conforme o perfil de risco, com reavaliações periódicas da resposta.

    Alternativa correta. Mulher de 49 anos, perimenopausa típica, sintomas vasomotores importantes e sem contraindicações: indicação de terapia hormonal como primeira linha. Ajustar via (preferir transdérmica se houver fatores trombóticos/metabólicos) e associar progestagênio se útero presente. Reavaliar em 6–12 semanas para eficácia e efeitos.


    ❌ A) instituir terapia sistêmica com progestágeno isolado, para controle dos sintomas vasomotores e prevenção cardiovascular.

    Alternativa incorreta. Progestagênio isolado não é terapia de escolha para fogachos; seu papel é proteção endometrial quando se usa estrogênio em mulheres com útero. Não há evidência de prevenção cardiovascular com progestagênio isolado. A conduta adequada é estrogênio (isolado se histerectomizada) ou estrogênio + progestagênio se útero presente.


    ❌ B) adotar conduta expectante, aguardando a confirmação laboratorial da menopausa por meio da dosagem sérica do hormônio FSH.

    Alternativa incorreta. O diagnóstico é clínico em ≥45 anos com sintomas típicos e irregularidade menstrual. Dosagem de FSH não é necessária para iniciar manejo; adiar tratamento piora qualidade de vida e não agrega segurança.


    ❌ C) indicar fitoterapia para alívio dos sintomas vasomotores, pois apresenta eficácia equivalente ao estrogênio na prevenção de fraturas.

    Alternativa incorreta. Fitoterápicos (isoflavonas, cimicifuga) não têm eficácia comprovada equivalente ao estrogênio para vasomotores nem previnem fraturas. Quando a saúde óssea é prioridade, considerar terapia hormonal (na janela adequada) ou fármacos específicos para osteoporose conforme diretriz.


    Take-home message

    • Perimenopausa é diagnóstico clínico em ≥45 anos; não espere FSH para tratar sintomas típicos.
    • Terapia hormonal é primeira linha para fogachos: iniciar com a menor dose eficaz e reavaliar em 6–12 semanas.
    • Se útero presente, sempre associar progestagênio ao estrogênio para proteger o endométrio (ex.: progesterona micronizada 200 mg/noite por 12–14 dias/mês).
    • Preferir via transdérmica em risco trombótico/metabólico; adesivo de estradiol 25–50 mcg/dia, troca 2x/semana.
    • Red flag: não iniciar se câncer de mama, sangramento não esclarecido, tromboembolismo venoso ativo/prévio idiopático, hepatopatia grave ou evento arterial recente.
    • Fitoterapia não substitui estrogênio para vasomotores e não previne fraturas; quando TH for contraindicada, usar alternativas não hormonais.

    Questão 5Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

    José, 55 anos, hipertenso há 3 anos, em uso regular de medicação, vem para consulta de rotina apresentando PA = 130 x 80 mmHg. Após exame clínico, conclui-se que tem baixo risco cardiovascular. Nesse caso, a conduta é:

    • A)

      manter a medicação e reforçar a importância de manter a mudança de estilo de vida, pois a PA está dentro da meta;

    • B)

      retirar a medicação e reforçar a importância de manter a mudança de estilo de vida, pois a PA está dentro da meta;

    • C)

      modificar a medicação para que o organismo não crie tolerância às medicações atuais, embora a PA esteja dentro da meta;

    • D)

      reforçar a mudança de estilo de vida, pois a PA está fora da meta;

    • E)

      modificar a conduta medicamentosa, pois a PA está fora da meta.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Meta pressórica em hipertenso controlado e de baixo risco; conduta de manutenção vs descalonamento; importância de mudança de estilo de vida contínua segundo Diretriz Brasileira de Hipertensão.


    Epidemiologia e Etiologia

    • A hipertensão arterial sistêmica é prevalente em cerca de 30% da população adulta brasileira; controle adequado reduz eventos cardiovasculares maiores.
    • Na atenção primária, a maior parte dos pacientes é de baixo a moderado risco; a decisão terapêutica segue metas pressóricas e risco global.


    Diagnóstico


    • Definição operacional: Hipertensão arterial sistêmica: pressão arterial sistólica ≥140 mmHg e/ou diastólica ≥90 mmHg em consultório (média de ≥2 medidas em ≥2 ocasiões) ou confirmação por medidas fora do consultório quando indicado.

    • Meta pressórica (SBC 2020): Para a maioria dos hipertensos, inclusive baixo risco e não idosos frágeis: alvo <130/80 mmHg, se tolerado, com atenção a sintomas de hipotensão.

    • Mini-exemplo: Paciente com 130x80 mmHg, assintomático e baixo risco: está em meta e permanece em seguimento ambulatorial.


    Conduta & Posologia


    • Conduta principal neste caso: Manter a terapia anti-hipertensiva vigente e reforçar mudanças de estilo de vida (dieta com baixo teor de sódio <5 g/dia de sal, padrão alimentar tipo DASH, exercício aeróbico ≥150 min/semana, cessar tabagismo, moderação de álcool, controle de peso).

    • Não descalonar rotineiramente: Evitar suspensão de anti-hipertensivos apenas porque a pressão atingiu a meta; risco de perda de controle e efeito rebote, especialmente com fármacos de ação central. Nunca suspender abruptamente clonidina e betabloqueadores.

    • Seguimento: Reavaliar clinicamente e com pressão arterial em 3–6 meses se estável; monitorar adesão e efeitos adversos. Realizar exames anuais conforme Diretriz (função renal, potássio, glicemia, perfil lipídico).

    • Critérios de internação/encaminhamento: Internar se urgência/emergência hipertensiva (PA muito elevada com lesão aguda de órgão-alvo) ou sintomas de alarme; caso de rotina e controlado permanece ambulatorial.

    • Discussão das alternativas

    ✅ A) manter a medicação e reforçar a importância de manter a mudança de estilo de vida, pois a PA está dentro da meta;

    Alternativa correta. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda manter o esquema quando a pressão arterial está <130/80 mmHg e o paciente é de baixo risco e tolera bem a terapia. Reforçar mudança de estilo de vida é pilar contínuo do manejo.


    ❌ B) retirar a medicação e reforçar a importância de manter a mudança de estilo de vida, pois a PA está dentro da meta;

    Alternativa incorreta. Retirada de anti-hipertensivos não é recomendada apenas por controle em meta; há risco de perda do controle pressórico e possível rebote (especialmente com fármacos de ação central e betabloqueadores). A conduta é manter a terapia e o estilo de vida.


    ❌ C) modificar a medicação para que o organismo não crie tolerância às medicações atuais, embora a PA esteja dentro da meta;

    Alternativa incorreta. Não há recomendação de rotacionar fármacos por “tolerância” em pacientes controlados. Trocas só se indicam por efeitos adversos, interações, gravidez, disfunção renal/hepática ou falha terapêutica.


    ❌ D) reforçar a mudança de estilo de vida, pois a PA está fora da meta;

    Alternativa incorreta. A pressão arterial de 130x80 mmHg está dentro da meta para baixo risco. Não há indicação de intensificar ou alterar a farmacoterapia por “fora da meta”.


    ❌ E) modificar a conduta medicamentosa, pois a PA está fora da meta.

    Alternativa incorreta. O paciente encontra-se controlado. Modificação terapêutica está indicada quando PA persistente acima da meta, baixa adesão, eventos adversos ou presença de lesão de órgão-alvo não controlada.


    Take-home message

    • Meta pressórica para a maioria dos hipertensos (inclusive baixo risco): <130/80 mmHg, se tolerado (SBC 2020).
    • Se em meta e assintomático: manter esquema e reforçar mudança de estilo de vida; reavaliar em 3–6 meses.
    • Trocar ou suspender medicação só com indicação clara (efeitos adversos, interações, falha terapêutica, condições especiais).
    • Red flag: não suspender abruptamente clonidina ou betabloqueadores (risco de rebote).
    • Mudança de estilo de vida é contínua: reduzir sódio, atividade física regular, cessar tabagismo, moderar álcool e controlar peso.

    Questão 5Pneumoconioses

    Um paciente de 48 anos, tabagista de 60 anos-maço, na investigação de tosse por mais de 3 meses foi diagnosticado com mesotelioma pleural maligno, com pouca chance de cura pelo estado avançado. O principal fator de risco para esse tipo de tumor é

    • A)

      exposição, ainda que remota no tempo, a asbestos.

    • B)

      trabalho em minas de carvão.

    • C)

      contato frequente com gás CFC (freon).

    • D)

      radioterapia prévia de tórax ou de pescoço.

    • E)

      tabagismo acima de 30 anos-maço.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em prova, mesotelioma pleural maligno = exposição prévia a amianto (asbesto), com longa latência (20–50 anos). Tabagismo não é fator de risco para mesotelioma.


    Epidemiologia e Etiologia

    Brasil: Mesotelioma é raro, porém fortemente relacionado ao amianto (asbesto), historicamente usado em fibrocimento, telhas, caixas d’água, freios/embreagens. Latência típica de décadas após a exposição. 

    Fator de risco principal: Exposição ocupacional ou ambiental a asbesto, mesmo remota no tempo e de baixa intensidade, aumenta de forma marcante o risco de mesotelioma. 

    Outros fatores (menos relevantes para prova): Radioterapia torácica prévia tem associação rara; não há associação causal estabelecida com tabagismo, gás CFC (freon) ou mineração de carvão.


    Figura 1. Ilustração de um mesotelioma.

    Fonte: Radiopaedia. Mesothelioma. Disponível em: https://radiopaedia.org/articles/mesothelioma. Acesso em 23/05/2026.


    Diagnóstico

    Definição operacional: Neoplasia maligna originada das células mesoteliais da pleura.

    Padrão-ouro: Biópsia pleural (preferencialmente por videotoracoscopia) com imuno-histoquímica para diferenciar de adenocarcinoma (marcadores usuais: calretinina, WT-1, D2-40 positivos em mesotelioma). 


    Imagem: Tomografia computadorizada de tórax com contraste para avaliar espessamento pleural nodular, derrame pleural; PET-CT pode auxiliar estadiamento.


    Figura 2. TC de um caso de mesotelioma evidenciando espessamento nodular circunferencial pleural envolvendo o pulmão esquerdo com perda volumétrica e desvio mediastinal.

    Fonte: Radiopaedia. Mesothelioma. Disponível em: https://radiopaedia.org/articles/mesothelioma. Acesso em 23/05/2026.


    História de exposição: Documentar exposição a asbesto (ocupacional/ambiental), mesmo há >20 anos, reforça a suspeita diagnóstica.


    Conduta & Posologia

    Objetivo terapêutico: Em estágios avançados, manejo é predominantemente paliativo (controle de dor, dispneia e derrame pleural).

    Manejo do derrame pleural: Toracocentese terapêutica; considerar drenagem pleural/pleurodese ou cateter pleural de longa permanência em recidiva sintomática.

    Oncologia: Avaliar quimioterapia sistêmica e/ou imunoterapia conforme protocolo oncológico vigente do SUS (conduta individualizada em Centro de Oncologia). Em doença ressecável e bom desempenho, discutir abordagem cirúrgica em serviço especializado.

    Cuidados paliativos: Analgesia escalonada, reabilitação pulmonar e suporte psicossocial precoces.

    Critérios de internação vs ambulatorial: Internar se dispneia refratária, derrame volumoso com instabilidade, dor intratável ou baixa reserva funcional. Acompanhamento ambulatorial para casos estáveis com suporte oncológico e paliativo.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) exposição, ainda que remota no tempo, a asbestos.

    Alternativa correta. O amianto (asbesto) é o principal fator de risco para mesotelioma pleural, com longa latência (20–50 anos). Mesmo exposições remotas e de baixa dose aumentam risco. 


    ❌ B) trabalho em minas de carvão.

    Alternativa incorreta. Mineração de carvão se relaciona a pneumoconioses e maior risco de câncer de pulmão, não a mesotelioma. O agente-chave para mesotelioma é o asbesto.


    ❌ C) contato frequente com gás CFC (freon).

    Alternativa incorreta. Não há evidência de associação causal entre CFC/freon e mesotelioma. Fator de risco clássico e cobrado em prova é a exposição ao asbesto.


    ❌ D) radioterapia prévia de tórax ou de pescoço.

    Alternativa incorreta. Há relatos raros de mesotelioma pós-radioterapia, mas não é o principal fator de risco. Em prova, a associação forte e típica é com asbesto.


    ❌ E) tabagismo acima de 30 anos-maço.

    Alternativa incorreta. Tabagismo aumenta risco de câncer de pulmão, mas não é fator de risco para mesotelioma. A chave é o asbesto.


    Take-home message

    • Mesotelioma pleural maligno: pense em exposição a asbesto com latência de décadas.
    • Diagnóstico se confirma por biópsia pleural (idealmente videotoracoscopia) + imuno-histoquímica.
    • Tomografia de tórax com contraste avalia espessamento pleural/derrame; PET-CT pode auxiliar estadiamento.
    • Red flag: Tabagismo não é fator de risco para mesotelioma (evite confundir com câncer de pulmão).
    • Estágios avançados: foco em paliar sintomas (pleurodese/cateter pleural, analgesia, suporte oncológico).

    Questão 6Contracepção/Anticoncepção

    Adolescente, 16 anos, teve o diagnóstico de hepatite B na mesma semana que iniciou o uso de pílula combinada contendo etinilestradiol 30 mcg e gestodeno 75 mcg, para contracepção. A conduta mais adequada, segundo os Critérios de Elegibilidade da OMS, é:

    • A)

      Suspender o uso da pílula apenas se apresentar icterícia ou sangramento.

    • B)

      Trocar a pílula para o injetável mensal.

    • C)

      Manter a pílula pois é considerada categoria 2.

    • D)

      Trocar a pílula para o adesivo transdérmico.

    • E)

      Suspender o uso da pílula pelo fato de ser categoria 3.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Hepatite viral aguda é categoria 3 (ou 4 se grave) para métodos hormonais combinados (estrogênio + progestagênio) nos Critérios de Elegibilidade da Organização Mundial da Saúde; portanto, não iniciar e suspender se recém-iniciado.


    Epidemiologia e Etiologia


    Hepatite B em adolescentes no Brasil: prevalência menor que em adultos, mas com risco relevante por transmissão sexual e intrafamiliar. Importa para contracepção por metabolismo hepático dos estrogênios e risco de piora clínica durante fase aguda.


    Métodos combinados (pílula/adesivo/anel/injetável mensal): contêm estrogênio (etinilestradiol) e progestagênio; o estrogênio é o componente crítico em doença hepática aguda.


    Diagnóstico


    Definição operacional de hepatite aguda B: quadro clínico-laboratorial recente com sorologia compatível (por exemplo, antígeno de superfície positivo, anticorpo IgM contra antígeno do core positivo) e elevação de transaminases.


    Por que importa para a prova: OMS classifica hepatite viral aguda/reativação como Categoria 3 para início de métodos combinados; se quadro grave/complicado, pode ser Categoria 4. Métodos apenas progestagênicos tendem a ser Categoria 2 neste cenário. Dispositivo intrauterino de cobre é elegível (não depende do fígado).


    Conduta & Posologia (DINÂMICO)


    Próximo passo (segundo OMS/MINISTÉRIO DA SAÚDE): Suspender métodos combinados na hepatite aguda e oferecer alternativa segura até resolução clínica: métodos apenas progestagênicos (categoria 2) ou dispositivo intrauterino de cobre (categoria 1).


    Opções preferidas e como prescrever:

    Pílula apenas progestagênica (minipílula): noretisterona 0,35 mg VO diária, no mesmo horário, uso contínuo. Início imediato com 2 dias de método de barreira.

    Implante subdérmico de etonogestrel: 68 mg, liberação contínua por até 3 anos. Inserção imediata; usar barreira por 7 dias.

    Injetável trimestral apenas progestagênico: acetato de medroxiprogesterona 150 mg IM profunda a cada 12 semanas. Início imediato; barreira por 7 dias.

    Dispositivo intrauterino de cobre: pode ser inserido se sem sinais de infecção do trato genital; protege por até 10 anos e não sofre metabolismo hepático.


    Métodos a evitar na hepatite aguda: pílula combinada, adesivo transdérmico, anel vaginal e injetável mensal (todos com estrogênio). Categoria 3 (ou 4 se grave).


    Anticoncepção de emergência segura: levonorgestrel 1,5 mg VO dose única até 5 dias; preferir quanto antes (ideal <72h). DIU de cobre também é opção de emergência até 5 dias.


    Monitorização e reavaliação: reavaliar clínica e função hepática; após resolução da hepatite aguda, reclassificar elegibilidade (hepatite crônica compensada: métodos combinados usualmente Categoria 1).


    Armadilha de prova: Injetável mensal e adesivo são métodos combinados, portanto compartilham a restrição do estrogênio.


    Discussão das alternativas


    ✅ E) Suspender o uso da pílula pelo fato de ser categoria 3.

    Alternativa correta. Segundo Critérios de Elegibilidade da OMS (adotados pelo Ministério da Saúde), hepatite viral aguda/reativação = categoria 3 (ou 4 se grave) para métodos combinados. Conduta: suspender e oferecer método sem estrogênio (progestagênico) ou DIU de cobre.


    ❌ A) Suspender o uso da pílula apenas se apresentar icterícia ou sangramento.

    Alternativa incorreta. Na hepatite aguda, a pílula combinada é categoria 3 (ou 4 se grave) para início, devendo ser evitada/suspensa mesmo sem icterícia. A suspensão não depende de sinais de gravidade.


    ❌ B) Trocar a pílula para o injetável mensal.

    Alternativa incorreta. O injetável mensal é combinado (contém estrogênio) e permanece categoria 3/4 na hepatite aguda. Opções adequadas seriam métodos apenas progestagênicos (categoria 2) ou DIU de cobre.


    ❌ C) Manter a pílula pois é considerada categoria 2.

    Alternativa incorreta. Categoria 2 na hepatite aguda aplica-se geralmente aos métodos apenas progestagênicos. Métodos combinados são categoria 3 (ou 4 se grave) para início e devem ser evitados.


    ❌ D) Trocar a pílula para o adesivo transdérmico.

    Alternativa incorreta. O adesivo transdérmico é um método combinado com estrogênio. Mantém a mesma restrição: categoria 3/4 em hepatite aguda.


    Take-home message

    • Hepatite viral AGUDA: métodos combinados (pílula/adesivo/anel/injetável mensal) = Categoria 3 (ou 4 se grave) ➜ não iniciar e suspender se recém-iniciado.
    • Alternativas seguras: métodos apenas progestagênicos (geralmente Categoria 2) ou DIU de cobre (Categoria 1).
    • Anticoncepção de emergência permitida: levonorgestrel 1,5 mg VO dose única ou DIU de cobre até 5 dias.
    • Red flag: Injetável mensal e adesivo são COMBINADOS; não são alternativa segura na hepatite aguda.
    • Após resolução da fase aguda, reclassifique elegibilidade: hepatite crônica compensada costuma permitir métodos combinados (categoria 1).

    Questão 6Anemia hemolítica autoimune

    Homem de 20 anos apresenta quadro de poliartralgias há seis meses. Os sintomas começaram após uma viagem às praias do Nordeste durante o verão e incluem rigidez e inchaço intermitente nas mãos, especialmente após o repouso e pela manhã. Ele se sente mais cansado e precisa dormir durante o dia. Relata também perda de cabelo irregular. O histórico é positivo para infecções sinusais frequentes desde uma hospitalização por pneumonia há um ano. Refere tomar ibuprofeno 400 mg duas vezes ao dia, o que alivia os sintomas. Os exames básicos revelam anemia hemolítica e linfopenia discreta, com anormalidades leves nos testes de função hepática, com função renal normal. Com o objetivo de identificar o diagnóstico subjacente, deve ser solicitado exame de

    • A)

      HLA-B27.

    • B)

      níveis de imunoglobulina.

    • C)

      pesquisa de anticorpo antipeptídeo citrulinado.

    • D)

      sorologias virais.

    • E)

      teste de Coombs.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Poliartralgia crônica + infecções sinopulmonares de repetição + anemia hemolítica autoimune/linfopenia = pensar em imunodeficiência humoral (especialmente Hipogamaglobulinemia Comum Variável).

    Epidemiologia e Etiologia

    • Hipogamaglobulinemia Comum Variável (HCV/CVID): imunodeficiência primária mais frequente no adulto sintomático; pico de diagnóstico em 2ª–4ª décadas.
    • Fenótipo clínico: infecções bacterianas de vias aéreas superiores e pulmões (sinusites, pneumonias), autoimunidade (anemia hemolítica autoimune, púrpura trombocitopênica imune, artrite não erosiva), fadiga e manifestações gastrointestinais.

    Diagnóstico

    • Padrão-ouro (operacional/PCDT): dosagem sérica quantitativa de imunoglobulinas mostrando IgG reduzida (≥2 desvios-padrão abaixo do normal) associada a IgA e/ou IgM reduzidas, resposta vacinal deficiente (pneumococo/toxoide tetânico) e exclusão de causas secundárias (perdas proteicas, fármacos, neoplasias linfoproliferativas, infecção pelo HIV).
    • Marcadores auxiliares: linfopenia e citopenias autoimunes sustentam autoimunidade associada; provas inflamatórias variáveis.
    • Armadilha de prova: Coombs direto confirma anemia hemolítica autoimune, mas não identifica a causa subjacente; o passo-chave é a dosagem de imunoglobulinas.
    • Mini-exemplo: Jovem com sinusites de repetição + AIHA + artralgia que melhora com anti-inflamatório → peça IgG/IgA/IgM antes de HLA-B27/anti-CCP.

    Conduta & Posologia

    • Tratamento de base (confirmada HCV): Imunoglobulina humana (IVIG) 400–600 mg/kg por via endovenosa a cada 3–4 semanas ou SCIG 100–150 mg/kg/semana, visando manter IgG de vale > 600–800 mg/dL e reduzir infecções.
    • Ajustes/precauções: cautela em doença renal crônica (evitar produtos com sacarose; hidratar; reduzir velocidade de infusão), risco de tromboembolismo em idosos/estado pró-trombótico; monitorar hemólise/cefaleia/meningite asséptica.
    • Vacinas: evitar vacinas de vírus vivos (ex.: febre amarela) em imunodeficiências humorais significativas; priorizar vacinas inativadas e avaliar resposta.
    • Infecções agudas: antibiótico direcionado conforme sítio/agente; considerar profilaxia em casos selecionados conforme PCDT.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: internar se pneumonia grave, sepse, hipóxia, instabilidade hemodinâmica ou falha de tratamento ambulatorial. Seguimento ambulatorial trimestral no início para ajuste de dose/vale de IgG.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) níveis de imunoglobulina.

    Alternativa correta. O quadro integra infecções sinopulmonares de repetição, anemia hemolítica autoimune e artralgias—tríade compatível com imunodeficiência humoral (HCV). O exame determinante é a dosagem quantitativa de IgG/IgA/IgM, com posterior avaliação de resposta vacinal, conforme PCDT do Ministério da Saúde.

    ❌ A) HLA-B27.

    Alternativa incorreta. HLA-B27 é marcador de espondiloartrites (ex.: espondilite anquilosante), tipicamente com dor lombar inflamatória/entesite/uveíte. Não explica infecções de repetição nem anemia hemolítica autoimune. O passo diagnóstico não é tipagem HLA.

    ❌ C) pesquisa de anticorpo antipeptídeo citrulinado.

    Alternativa incorreta. Anti-CCP investiga artrite reumatoide, mas o caso tem sinais de imunodeficiência (infecções recorrentes) e citopenia autoimune—mais típico de HCV. Mesmo que houvesse artrite inflamatória, a prioridade é excluir imunodeficiência humoral com dosagem de imunoglobulinas.

    ❌ D) sorologias virais.

    Alternativa incorreta. Arboviroses (p.ex., chikungunya) cursam com febre aguda e artralgia intensa pós-viagem ao Nordeste, mas não justificam seis meses de poliartralgia associada a AIHA, linfopenia e sinusites de repetição. Sorologias não identificam a causa subjacente mais provável.

    ❌ E) teste de Coombs.

    Alternativa incorreta. Coombs direto confirma anemia hemolítica autoimune (já sugerida), porém não define a etiologia. O exame-chave para o diagnóstico de base neste contexto é a dosagem de imunoglobulinas; Coombs é complementar.


    Take-home message

    • Poliartralgia crônica + infecções respiratórias de repetição + anemia hemolítica autoimune/linfopenia → suspeitar de Hipogamaglobulinemia Comum Variável.
    • Exame inicial determinante: dosagem sérica de IgG/IgA/IgM e, se reduzidas, avaliar resposta vacinal e excluir causas secundárias.
    • Tratamento de base (confirmado): Imunoglobulina humana 400–600 mg/kg IV a cada 3–4 semanas ou SCIG 100–150 mg/kg/semana.
    • Red flag: Evitar vacinas de vírus vivos em imunodeficiências humorais significativas.
    • Espondiloartrite (HLA-B27) e artrite reumatoide (anti-CCP) não explicam infecções recorrentes + AIHA; priorize imunodeficiência humoral no raciocínio.
    • Internar em pneumonia grave/sepse; seguimento regular para ajustar dose/vale de IgG e prevenir dano pulmonar crônico.

    Questão 7Anatomia e Embriologia do trato genital

    Paciente de 22 anos vem em consulta para inserção de dispositivo intrauterino. É nuligesta e tem muito medo de sentir dor. O médico decide anestesiar o colo do útero com solução de lidocaína. Para evitar acidente de punção de ramos da artéria cervical, ele deve evitar a infiltração nos pontos

    • A)

      3 e 9 horas.

    • B)

      3, 5, 7 e 9 horas.

    • C)

      1, 5, 7 e 11 horas.

    • D)

      1, 3, 9 e 11 horas.

    • E)

      6 e 12 horas.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: No bloqueio paracervical para inserção de DIU, evite infiltrar em 3 e 9 horas — trajetos laterais onde correm ramos cervicais da artéria uterina (maior risco de punção vascular).

    O que é: Bloqueio paracervical = infiltração de anestésico local no fórnice vaginal lateral, próximo ao colo, para analgesia do colo e porção superior da vagina.

    Por que importa: Punções em 3 e 9 horas aumentam risco de injeção intravascular, hematoma e toxicidade sistêmica por anestésico local (LAST).

    Como identificar (regra prática): Use o “relógio do colo”. Evite agulhar nos pontos laterais puros (3 e 9). Prefira 4 e 8 horas (± 2 e 10, quando em técnica circunferencial), sempre aspirando antes de injetar.

    Mini-exemplo: Nuligesta ansiosa para DIU: analgesia efetiva com lidocaína 1% em 4 e 8 horas, 3–5 mL por ponto, com aspiração negativa, sem vasoconstritor.


    Conduta & Posologia

    • Droga/Concentração: Lidocaína 1% (sem vasoconstritor) para bloqueio paracervical; início 2–5 min, duração ~60–90 min.
    • Técnica e volumes: 3–5 mL por ponto em 4 e 8 horas (opcional 2 e 10 horas se necessário), total típico 10–20 mL. Aspirar antes de cada 1–2 mL.
    • Máxima segura (sem adrenalina): 4,5 mg/kg (geralmente ≤ 300 mg). Com adrenalina: até 7 mg/kg (máx. ~500 mg), porém raramente necessária no colo.
    • Ajustes: Reduzir dose em idosos, DRC avançada, hepatopatia (metabolismo hepático), baixo IMC; evitar doses cumulativas com outras amidas.
    • Contraindicações: Alergia a anestésico local tipo amida, infecção local, instabilidade hemodinâmica. Cautela em coagulopatias e uso de anticoagulantes.

    • Efeitos adversos relevantes: Dor/hematoma local, síncope vasovagal; toxicidade sistêmica por anestésico local (LAST): parestesias periorais, zumbido, metal na boca, convulsões, arritmias.
    • Prevenção de eventos adversos: Evitar 3 e 9 horas, usar agulha fina (25–27G), aspirar repetidamente, injetar lentamente fracionado.
    • Monitorização: Permanecer observando por 15–30 min após bloqueio se grande volume; ter disponível benzodiazepínico para convulsão e emulsão lipídica 20% para LAST.
    • Cenário assistencial: Procedimento ambulatorial. Sem indicação de internação na rotina; encaminhar se complicações (sangramento importante, síncope prolongada, sinais de LAST).

    Discussão das alternativas

    ✅ A) 3 e 9 horas.

    Alternativa correta. Os pontos laterais puros (3 e 9 horas) correspondem ao trajeto dos ramos cervicais da artéria uterina; infiltrar ali aumenta risco de punção intravascular e LAST. As técnicas recomendam infiltrar em 4 e 8 horas (± 2 e 10) com aspiração prévia.

    ❌ B) 3, 5, 7 e 9 horas.

    Alternativa incorreta. 3 e 9 horas devem ser evitados, mas 5 e 7 horas não são áreas de maior risco vascular; inclusive 4–5 e 7–8 horas são pontos usuais do bloqueio.

    ❌ C) 1, 5, 7 e 11 horas.

    Alternativa incorreta. Esses pontos não correspondem aos trajetos vasculares clássicos a evitar. 5 e 7 horas são, na prática, utilizados para infiltração segura (próximos a 4 e 8 horas).

    ❌ D) 1, 3, 9 e 11 horas.

    Alternativa incorreta. Apenas 3 e 9 horas são críticos pelo risco vascular. 1 e 11 horas não têm a mesma relevância de risco e podem ser usados em técnicas circunferenciais quando necessário.

    ❌ E) 6 e 12 horas.

    Alternativa incorreta. 6 e 12 horas (inferior/superior) não são os pontos de maior risco vascular; o perigo clássico é lateral (3 e 9 horas). Além disso, 12 horas pode ser desconfortável pela proximidade do meato uretral, não por risco arterial.


    Take-home message

    • Evite infiltrar em 3 e 9 horas no bloqueio paracervical (trajeto dos ramos cervicais da artéria uterina).
    • Prefira pontos 4 e 8 horas (± 2 e 10) com injeção lenta e aspiração repetida.
    • Lidocaína 1% total típico 10–20 mL; dose máxima sem adrenalina 4,5 mg/kg (≤300 mg).
    • Principais sinais de LAST: parestesia perioral, zumbido, gosto metálico, convulsões, arritmias; tenha emulsão lipídica disponível.
    • Red flag: não infiltrar lateral puro (3/9) e nunca injetar sem aspiração prévia.
    • Procedimento é ambulatorial; observe 15–30 min se volumes maiores ou fatores de risco.

    Questão 7Demências

    Homem, 77 anos de idade, bancário aposentado, sedentário, hipertenso, diabético e tabagista, apresenta perda de iniciativa e diminuição da interação social. Ele nega tristeza ou falta de prazer nas atividades. A esposa relata lapsos de memória com piora no último ano. Tem dificuldades para controlar as suas finanças, precisando de ajuda ocasionalmente, mas é independente em suas atividades diárias. Testes cognitivos com alterações significativas nos domínios de atenção e de memória. Exames laboratoriais e de neuroimagem sem alterações. A conduta terapêutica mais adequada é:

    • A)

      Donepezila.

    • B)

      Memantina.

    • C)

      Reabilitação cognitiva.

    • D)

      Estimulação magnética transcraniana.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora (por que cai): Diferenciar comprometimento cognitivo leve (CCL) de demência e saber que fármacos pró-colinérgicos/memantina não são indicados em CCL. Conduta de primeira linha é intervenção não farmacológica (reabilitação cognitiva).


    Epidemiologia e Etiologia

    • Epidemiologia: CCL acomete 10–20% de idosos; risco anual de conversão para demência ~5–15% (varia conforme subtipo). No SUS, é queixa frequente em atenção primária e ambulatórios de geriatria/neurologia.

    • Etiologia: Heterogênea. Principais: fases prodrômicas de doença de Alzheimer, comprometimento vascular, transtornos do humor, uso de medicamentos com ação anticolinérgica, distúrbios do sono, deficiência de vitamina B12/hipotireoidismo (reversíveis).

    Diagnóstico

    • Definição operacional (CCL): Queixa/alteração objetiva em 1 ou mais domínios cognitivos, com independência preservada nas atividades básicas e comprometimento leve/ocacional nas atividades instrumentais, sem critérios para demência. Exames laboratoriais e neuroimagem sem causa secundária relevante reforçam CCL.

    • Por que importa: Em CCL, não há indicação de fármacos específicos para demência. O foco é educação, controle de fatores vasculares e reabilitação cognitiva.

    • Mini-exemplo: Idoso com falhas de memória e atenção, precisa de ajuda esporádica para finanças mas se mantém independente no autocuidado — quadro típico de CCL amnéstico com domínio atencional associado.

    Conduta & Posologia

    • Primeira linha (CCL): Reabilitação cognitiva estruturada (treino de memória, atenção, funções executivas), estimulação cognitiva em grupo, orientação a rotina, agendas e estratégias externas (anotações, alarmes), educação do cuidador e do paciente.

    • Controle de fatores de risco: Otimizar pressão arterial, diabetes e cessar tabagismo; incentivar atividade física aeróbica 150 min/semana e sono adequado.

    • Farmacoterapia: Não indicar inibidores de acetilcolinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina) nem memantina em CCL (falta de benefício clínico comprovado).

    • Técnicas não convencionais: Estimulação magnética transcraniana não é recomendada rotineiramente em CCL (evidência insuficiente).

    • Seguimento: Reavaliar cognição e funcionalidade em 6–12 meses; antecipar se houver piora rápida, alteração comportamental grave ou perda de autonomia.

    • Critérios de encaminhamento/intervenção especializada: Suspeita de demência, sintomas neuropsiquiátricos importantes (agressividade, delírios), diagnósticos diferenciais complexos ou sobrecarga do cuidador.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Reabilitação cognitiva.

    Alternativa correta. Quadro compatível com comprometimento cognitivo leve (alteração objetiva em atenção/memória, independência nas atividades básicas e apenas ajuda ocasional nas instrumentais). Diretrizes brasileiras recomendam intervenções não farmacológicas (reabilitação/estimulação cognitiva), controle de fatores de risco e seguimento periódico em CCL.

    ❌ A) Donepezila.

    Alternativa incorreta. Inibidores da acetilcolinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina) são indicados para demência de Alzheimer leve a moderada, não para CCL. Em CCL, não há benefício clínico estabelecido e não são recomendados pelas diretrizes do Ministério da Saúde/CONITEC. Se fosse demência leve a moderada, aí sim seria opção.

    ❌ B) Memantina.

    Alternativa incorreta. Memantina é indicada para demência moderada a grave por doença de Alzheimer conforme PCDT. Não há indicação em CCL. O erro clássico de prova é antecipar uso de memantina sem critério de gravidade/diagnóstico de demência.

    ❌ D) Estimulação magnética transcraniana.

    Alternativa incorreta. Evidência insuficiente para uso rotineiro em CCL; não consta como recomendação em diretrizes nacionais para esse estágio. Deve ser reservada a protocolos de pesquisa, não como prática assistencial padrão.

    Mensagem para levar para casa:

    • CCL: déficit cognitivo objetivo + autonomia nas atividades básicas preservada; não preenche critérios de demência.
    • Conduta de primeira linha: reabilitação/estimulação cognitiva, educação e controle de fatores vasculares.
    • Red flag: não prescrever donepezila/memantina em CCL (sem benefício comprovado).
    • Reavaliar cognição/funcionalidade em 6–12 meses; antecipar se houver piora rápida ou perda de autonomia.
    • Drogas específicas do PCDT (inibidores da colinesterase/memantina) são reservadas a demência conforme gravidade.

    Questão 8Climatério

    Mulher de 52 anos de idade queixa-se de fogachos intensos, insônia e irritabilidade há 1 ano. AP: amenorreia há 14 meses; HAS controlada; nega tabagismo e histórico de trombose ou câncer. Exame físico: BEG; eutrófica; normotensa. Exame ginecológico: vagina pouco lubrificada; útero e ovários sem alterações ao toque vaginal. A conduta para alívio dos sintomas é prescrever

    • A)

      estrogênio e progestagênio, após rastreio mamográfico.

    • B)

      estrogênio e progestagênio, após rastreio para osteoporose.

    • C)

      estrogênio isolado, após rastreio para osteoporose.

    • D)

      estrogênio isolado, após rastreio mamográfico.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Essencial para prova: Mulher 52 anos, 14 meses de amenorreia (menopausa), sintomas vasomotores intensos e útero presente. Sem contraindicações para terapia hormonal. Regra: útero presente exige associação estrogênio + progestagênio para proteção endometrial; rastreio mamográfico é recomendado pela faixa etária e antes de iniciar terapia hormonal.


    Por que importa: Estrogênio isolado em mulher com útero aumenta risco de hiperplasia/adenocarcinoma endometrial. Progestagênio reduz esse risco. Mammografia é rastreio padronizado ≥50 anos e costuma ser exigida como baseline antes de terapia hormonal.


    Fisiopatologia resumida

    • Vasomotores (fogachos): queda estrogênica reduz zona termoneutra hipotalâmica, com descarga adrenérgica → calor súbito/sudorese.
    • Endométrio: estrogênio estimula proliferação; progestagênio antagoniza e promove transformação secretora, prevenindo hiperplasia.


    Como identificar (padrão de ouro/diagnóstico)

    • Clínico: amenorreia ≥12 meses + sintomas vasomotores típicos em mulher >45 anos.
    • Exames básicos pré-THM: anamnese dirigida (TEV, AVC, câncer de mama, sangramento), PA, IMC, mamografia conforme rastreio etário; perfil lipídico e glicemia conforme risco cardiovascular.


    Conduta & Posologia


    Indicação de 1ª linha para vasomotores moderados-graves sem contraindicação: Terapia hormonal da menopausa (THM) com estrogênio + progestagênio em mulheres com útero.


    Esquemas preferenciais (baixas doses):

    Transdérmico + oral (menor risco trombótico): Estradiol adesivo 50 mcg/dia (troca 2x/semana) + Progesterona micronizada 200 mg VO à noite por 12–14 dias/mês (regime cíclico) ou 100 mg VO à noite continuamente (regime contínuo-combinado).

    Oral combinado: 17β-estradiol 1 mg VO/dia + acetato de medroxiprogesterona 5 mg VO/dia (contínuo) ou 10 mg/dia por 12–14 dias/mês (cíclico).


    Duração: usar menor dose eficaz pelo menor tempo; reavaliar benefício/risco ao menos anualmente. Início dentro de 10 anos da menopausa ou <60 anos tem melhor perfil de risco.


    Ajustes/considerações:

    DRC/Child-Pugh: evitar estrogênio oral em doença hepática ativa; preferir via transdérmica em risco trombótico/cardiometabólico.

    HAS controlada: permitido; monitorar PA. Preferir via transdérmica se múltiplos fatores de risco.

    Útero ausente (histerectomizada): pode usar estrogênio isolado.


    Tratamento do GSM (secura/atrofia vaginal): pode associar estriol vaginal 0,5 mg 2–3x/semana após fase de indução; mínima absorção sistêmica.


    Alternativas não hormonais (se contraindicação à THM): ISRS/ISN (ex.: escitalopram 10 mg/dia, venlafaxina 75 mg/dia), gabapentina 300–900 mg/noite, clonidina 0,05–0,1 mg 12/12h.


    Contraindicações absolutas à THM: câncer de mama/endométrio ativo ou prévio dependente de estrogênio, TEV/EP/AVC/IM recentes, sangramento uterino não investigado, doença hepática ativa.


    Efeitos adversos relevantes: sensibilidade mamária, cefaleia, náusea, spotting (primeiros meses), retenção hídrica; raros: TEV (menor com transdérmico), colelitíase (oral).


    Interações críticas: indutores hepáticos (rifampicina, fenitoína) reduzem eficácia de estrogênios/progestagênios; cuidado com varfarina (alterações do INR).


    Rastreamento/monitorização: mamografia conforme faixa etária (50–69 anos a cada 2 anos pelo rastreio populacional; anual se risco elevado), PA, IMC, lipídios e glicemia conforme risco. Reavaliar sintomas e eventos adversos em 6–12 semanas e depois anual.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: condição tratada ambulatorialmente. Internação não é indicada para manejo de vasomotores não complicados.


  1. Discussão das alternativas

    ✅ A) estrogênio e progestagênio, após rastreio mamográfico.

    Alternativa correta. Útero presente requer progestagênio para proteção endometrial. Mamografia é rastreio etário padrão e avaliação basal antes da THM. Para vasomotores, a terapia combinada é a de escolha em mulheres sem contraindicações. Ex.: estradiol transdérmico 50 mcg/dia + progesterona micronizada 100 mg VO à noite continuamente.


    ❌ B) estrogênio e progestagênio, após rastreio para osteoporose.

    Alternativa incorreta. Embora a THM tenha efeito benéfico ósseo, densitometria não é pré-requisito para iniciar THM no cenário de vasomotores; é indicada por risco/idade, não como etapa obrigatória. O acerto é vincular à mamografia, não ao rastreio de osteoporose.


    ❌ C) estrogênio isolado, após rastreio para osteoporose.

    Alternativa incorreta. Estrogênio isolado é contraindicado em mulher com útero por risco de hiperplasia/câncer endometrial. Além disso, rastreio de osteoporose não é etapa necessária para iniciar THM para fogachos.


    ❌ D) estrogênio isolado, após rastreio mamográfico.

    Alternativa incorreta. Mesmo com mamografia adequada, útero presente exige progestagênio associado. Estrogênio isolado só é aceitável em histerectomizadas.


    Take-home message

    • Menopausa + útero presente → sempre estrogênio + progestagênio para proteger endométrio.
    • Para vasomotores moderados-graves sem contraindicações, THM é 1ª linha; preferir baixas doses e reavaliar em 6–12 semanas.
    • Exemplo eficaz: estradiol transdérmico 50 mcg/dia + progesterona micronizada 100 mg/noite continuamente.
    • Red flag: NÃO usar estrogênio isolado em mulher com útero.
    • Mamografia é o rastreio basal pertinente por faixa etária; densitometria não é pré-requisito para iniciar THM.
    • Via transdérmica reduz risco trombótico em comparação à via oral; considerar em fatores de risco.

    Questão 8LESÃO RENAL AGUDA (LRA) - Pré-renal

    Teremos critério KDIGO (kidney disease: improving global outcomes) estágio 1 na seguinte situação:

    • A)

      Anúria por 12 ou mais horas.

    • B)

      Início de terapia de substituição renal.

    • C)

      Aumento na creatinina sérica em 2 a 2,9 vezes o basal.

    • D)

      Débito urinário inferior a 0,5 mL/kg/hora por 12 a 24 horas.

    • E)

      Débito urinário inferior a 0,5 mL/kg/hora por 6 a 12 horas.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema


    Âncora (por que cai): Bancas cobram a definição operacional KDIGO de lesão renal aguda e a classificação por estágios, especialmente pelos critérios de creatinina e débito urinário.


    Epidemiologia e Etiologia


    Cenário brasileiro: Lesão renal aguda é comum em hospitais, sobretudo em terapia intensiva (associada a sepse, choque e nefrotoxinas). Impacta mortalidade e tempo de internação.


    Etiologias principais: Pré-renais (hipovolemia/choque), renais (necrose tubular aguda por isquemia ou nefrotóxicos, glomerulopatias), pós-renais (obstrução urinária).


    Diagnóstico


    Definição KDIGO (lesão renal aguda): Qualquer um: aumento de creatinina sérica ≥0,3 mg/dL em 48 h; ou aumento para ≥1,5 vez o basal em até 7 dias; ou débito urinário <0,5 mL/kg/h por ≥6 h.


    Estadiamento KDIGO (o que cai):

    Estágio 1: Creatinina 1,5–1,9× o basal ou aumento ≥0,3 mg/dL; diurese <0,5 mL/kg/h por 6–12 h.

    Estágio 2: Creatinina 2,0–2,9× o basal; diurese <0,5 mL/kg/h por ≥12 h.

    Estágio 3: Creatinina 3,0× o basal ou ≥4,0 mg/dL; início de terapia de substituição renal; diurese <0,3 mL/kg/h por ≥24 h ou anúria ≥12 h.


    Mini-exemplo: Paciente 70 kg com diurese 150 mL nas últimas 6 h → 150/6 = 25 mL/h → 25/70 = 0,36 mL/kg/h por 6 h → Estágio 1 pelo critério urinário.


    Conduta & Posologia (DINÂMICO)


    Primeiros passos: Identificar e remover causa (reposição volêmica se hipovolêmico, tratar sepse, aliviar obstrução, suspender nefrotóxicos como anti-inflamatórios não esteroides e aminoglicosídeos).


    Hemodinâmica: Otimizar perfusão renal (metas: pressão arterial média ≥65 mmHg; usar cristalóides; vasopressores se choque séptico conforme protocolo).


    Monitorização: Diurese horária com sonda vesical quando indicado; creatinina diária (ou 12/12 h em instabilidade); balanço hídrico estrito; potássio e gasometria seriados.


    Ajuste de medicamentos: Corrigir doses para função renal estimada; evitar contraste iodado quando possível; se inevitável, hidratação guiada.


    Indicações de terapia de substituição renal (pontos de prova): Hipercalemia refratária; acidose metabólica grave (pH <7,1) refratária; hiper-hidratação com edema pulmonar refratário; uremia complicada (pericardite, encefalopatia); azoemia progressiva com oligúria/anúria.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: UTI se choque, necessidade de vasopressor, hipoxemia/edema pulmonar, hipercalemia grave, acidose grave, necessidade iminente de diálise, oligúria persistente (<0,5 mL/kg/h >12 h) ou creatinina ascendente rápida. Ambulatorial apenas em casos leves, estáveis e com seguimento próximo em 24–48 h.


    Discussão das alternativas


    ✅ E) Débito urinário inferior a 0,5 mL/kg/hora por 6 a 12 horas.

    Alternativa correta. Critério urinário clássico de KDIGO Estágio 1: oligúria <0,5 mL/kg/h por 6–12 h. Basta cumprir o tempo mínimo de 6 h para classificar como estágio 1.


    ❌ A) Anúria por 12 ou mais horas.

    Alternativa incorreta. Anúria ≥12 h é critério de Estágio 3 KDIGO (gravidade máxima pelo critério urinário), não Estágio 1.


    ❌ B) Início de terapia de substituição renal.

    Alternativa incorreta. A necessidade de diálise classifica diretamente como Estágio 3, independentemente da creatinina ou diurese.


    ❌ C) Aumento na creatinina sérica em 2 a 2,9 vezes o basal.

    Alternativa incorreta. Esse é o critério de Estágio 2 KDIGO (pela creatinina). No Estágio 1, a creatinina é 1,5–1,9× ou aumento ≥0,3 mg/dL.


    ❌ D) Débito urinário inferior a 0,5 mL/kg/hora por 12 a 24 horas.

    Alternativa incorreta. Oligúria <0,5 mL/kg/h por ≥12 h enquadra Estágio 2 KDIGO, não Estágio 1.


    Take-home message

    • KDIGO Estágio 1: creatinina 1,5–1,9× ou +0,3 mg/dL em 48 h; oligúria <0,5 mL/kg/h por 6–12 h.
    • KDIGO Estágio 2: creatinina 2,0–2,9×; oligúria <0,5 mL/kg/h por ≥12 h. Estágio 3: 3×, ≥4 mg/dL, diálise, oligúria severa/anúria.
    • Mensure diurese por peso e tempo: mL/h ÷ kg → comparar com 0,5 mL/kg/h e duração.
    • Red flag: Anúria ≥12 h ou necessidade de diálise = Estágio 3.
    • Conduta base: otimizar perfusão, remover nefrotoxinas, monitorar diurese/eletrólitos, indicar diálise nas emergências clássicas.

    Questão 8PALS

    Menino de 9 meses de idade, previamente hígido, é trazido ao PS em crise tônico-clônica generalizada há 25 minutos. Recebeu midazolam intranasal 0,5 mg/kg há 10 minutos pela equipe pré-hospitalar, sem sucesso na interrupção da crise. Exame físico: crise convulsiva generalizada persistente; SatO₂ 97% em uso de máscara não reinalante a 10 L/min; FC: 190 bpm; PA: 90 × 55 mmHg; glicemia capilar 96 mg/dL; T: 37,9 ºC; fontanela anterior plana. Foi realizado acesso venoso e administrado midazolam IV 0,2 mg/kg, sem cessação da crise. A próxima conduta farmacológica é administrar

    • A)

      midazolam IV 0,2 mg/kg após 10 minutos e observar por mais 20 minutos.

    • B)

      fenobarbital 5 mg/kg em bolus IV, seguido de nova avaliação em 10 minutos.

    • C)

      fenitoína IV 20 mg/kg em infusão lenta (20 a 30 minutos), com monitorização cardíaca.

    • D)

      cetamina 1 mg/kg IV, seguida de infusão contínua de 2 mg/kg/hora.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Estado de mal epiléptico convulsivo (EME) é emergência tempo-dependente: após 5 min de convulsão contínua já exige protocolo; após ~30 min aumenta risco de lesão neuronal. Sequência-padrão: 2 doses de benzodiazepínico → 2ª linha (feni(toína)/fosfeni(toína), levetiracetam ou fenobarbital) → refratário: UTI e sedação contínua.


    O que é: EME convulsivo: atividade convulsiva contínua ≥5 min ou crises recorrentes sem recuperação da consciência entre elas.


    Por que importa: Hipóxia, rabdomiólise, hipertermia, lesão neuronal e mortalidade crescem com a duração da crise; conduta escalonada rápida reduz complicações.


    Como identificar: Convulsão tônico-clônica em curso; descarte hipoglicemia (glicemia capilar), suporte ABC, checar temperatura, eletrólitos e causas precipitantes.


    Como manejar (raciocínio de prova): Após duas doses adequadas de benzodiazepínico (qualquer via), escale para antiepiléptico de 2ª linha com dose de ataque completa. Evite terceira dose de benzo (risco de depressão respiratória) se já houve duas tentativas. Em refratariedade, intube e inicie infusão contínua em UTI.


    Conduta & Posologia


    Primeira etapa (até 10 min): Benzodiazepínico. Midazolam IN/IM/IV/IO ou diazepam retal/IV. Ex.: midazolam IV 0,1–0,2 mg/kg (máx 10 mg). Repetir 1x em 5 min se necessário.


    Segunda etapa (10–20 min): Escolher uma droga de 2ª linha com dose de ataque completa:

    Fosfenitoína: 20 mgPE/kg IV/IO (máx 1500 mgPE) a até 150 mgPE/min, monitorização cardíaca.

    Fenitoína: 20 mg/kg IV (máx 1000–1500 mg) em 20–30 min; velocidade ≤ 1 mg/kg/min (ou ≤50 mg/min), ECG/PA contínuos.

    Levetiracetam: 40–60 mg/kg IV (máx 4500 mg) em 10–15 min.

    Fenobarbital: 20 mg/kg IV (máx 1000 mg) em 10–20 min; pode repetir 5–10 mg/kg se necessário.


    Terceira etapa (≥30–40 min; refratário): IOT e UTI. Infusões: midazolam (bolus 0,1–0,2 mg/kg → 0,05–2 mg/kg/h), propofol (se ≥3 anos e monitorização rigorosa), ou cetamina (super-refratário) 1–2 mg/kg bolus → 1–5 mg/kg/h.


    Ajustes/precauções:

    Fenitoína/fosfenitoína: Evitar em bloqueio AV/bradiarritmia; cuidado em hipotensão. Hepatopatas: reduzir manutenção; monitorar níveis. Extravasamento: sindrome "purple glove".

    Levetiracetam: ajustar em DRC: ClCr 30–50 mL/min reduzir 50%; <30 mL/min reduzir 50–75% conforme resposta.

    Fenobarbital: depressão respiratória e hipotensão; maior sensibilidade em lactentes; ajuste em insuficiência hepática.

    Valproato (se considerado em >2 anos): Contraindicado em doença hepática, distúrbio de ciclo da ureia, lactente com suspeita de doença metabólica.


    Manutenção (após controle):

    Fenitoína: 4–6 mg/kg/dia VO/IV dividido 12/12h, iniciar ~12 h após ataque; alvo nível 10–20 µg/mL (ajustar por albumina).

    Levetiracetam: 20–30 mg/kg 12/12h VO/IV.

    Fenobarbital: 3–5 mg/kg/dia VO/IV 1x/dia.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para toda criança com EME. UTI se: necessidade de infusão contínua, falha de 2ª linha, depressão respiratória, instabilidade hemodinâmica, causa estrutural/metabólica grave.


    Monitorização e reavaliação: Reavaliar a cada 5 min durante a fase aguda; monitorização cardíaca contínua durante fenitoína/fosfenitoína; checar glicemia, Na, Ca, Mg; temperatura; gasometria conforme quadro.


    Armadilhas de prova: Terceira dose de benzo após duas adequadas → alto risco de depressão respiratória. Dose de ataque insuficiente de 2ª linha não funciona.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) fenitoína IV 20 mg/kg em infusão lenta (20 a 30 minutos), com monitorização cardíaca.

    Alternativa correta. Após falha de duas doses de benzodiazepínico, a 2ª linha inclui fenitoína/fosfenitoína, levetiracetam ou fenobarbital. A dose de ataque efetiva de fenitoína é 20 mg/kg IV infundidos em 20–30 min, com ECG/PA contínuos para evitar arritmia/hipotensão.


    ❌ A) midazolam IV 0,2 mg/kg após 10 minutos e observar por mais 20 minutos.

    Alternativa incorreta. O paciente já recebeu duas doses adequadas de benzodiazepínico (IN e IV). A recomendação é escalar para 2ª linha após duas tentativas, pois uma 3ª dose aumenta risco de depressão respiratória sem ganho de eficácia. Observar 20 min sem fármaco de 2ª linha atrasa o controle.


    ❌ B) fenobarbital 5 mg/kg em bolus IV, seguido de nova avaliação em 10 minutos.

    Alternativa incorreta. Fenobarbital é opção de 2ª linha em lactentes, mas a dose de ataque correta é 20 mg/kg IV (pode repetir 5–10 mg/kg). Administrar 5 mg/kg como dose única é subdose e tende a falhar.


    ❌ D) cetamina 1 mg/kg IV, seguida de infusão contínua de 2 mg/kg/hora.

    Alternativa incorreta. Cetamina é opção em estado de mal refratário/super-refratário após falha de 2ª linha e necessidade de sedação em UTI. Não é droga de 2ª linha na sequência inicial.


    Take-home message

    • EME: após 2 doses adequadas de benzodiazepínico, avance para 2ª linha sem atrasos.
    • Fenitoína: 20 mg/kg IV em 20–30 min com ECG/PA; alternativa: fosfenitoína 20 mgPE/kg.
    • Fenobarbital eficaz em lactentes, mas ataque deve ser 20 mg/kg IV (não 5 mg/kg).
    • Evite terceira dose de benzo após duas tentativas: risco de depressão respiratória.
    • Se refratário ≥30–40 min: IOT e infusão contínua (midazolam/propofol/cetamina) em UTI.

    Questão 9Anatomia e Embriologia do trato genital

    A drenagem venosa do infundíbulo pélvico à esquerda se dá para:

    • A)

      Veia renal esquerda

    • B)

      Veia cava

    • C)

      Veia ilíaca comum esquerda

    • D)

      Veia ilíaca interna esquerda

    • E)

      Veia ilíaca externa esquerda

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Veia ovariana esquerda drena na veia renal esquerda; veia ovariana direita drena diretamente na veia cava inferior. Cai muito em anatomia ginecológica e em ligadura do ligamento infundíbulo-pélvico.


    O que é: O infundíbulo-pélvico (ligamento suspensor do ovário) contém artéria e veia ovarianas, linfáticos e fibras nervosas simpáticas, conectando ovário ao retroperitônio.

    Por que importa: Em cirurgias pélvicas (ooforectomia, salpingo-ooforectomia, controle de hemorragia), saber o trajeto venoso evita lesão vascular e orienta hemostasia segura.

    Como identificar: No retroperitônio lateral ao ovário, o ligamento segue superiormente ao longo do psoas maior até a origem dos vasos ovarianos; à esquerda, a veia termina na veia renal esquerda; à direita, na veia cava inferior.

    Mini-exemplo clínico: Sangramento após clampear o ligamento infundíbulo-pélvico esquerdo; controle proximal deve buscar a veia renal esquerda, não as ilíacas.


    Conduta & Posologia

    • Contexto: Tema anatômico. Não há farmacoterapia específica a descrever.
    • Pearl cirúrgica: Dissecção cranial do ligamento infundíbulo-pélvico esquerdo acompanha a veia até a veia renal esquerda para controle proximal.
    • Alertas anatômicos: Proximidade com ureter ("ureter is under the uterine artery") e com vasos ilíacos no assoalho pélvico.
    • Critérios de escalonamento (intraoperatório): Hemorragia venosa não controlada em retroperitônio → convocar equipe vascular e considerar exposição da veia renal esquerda (lado esquerdo) ou cava (lado direito).

    Discussão das alternativas

    ✅ A) Veia renal esquerda

    Alternativa correta. A veia do infundíbulo-pélvico esquerdo é a veia ovariana esquerda, que drena na veia renal esquerda antes de alcançar a veia cava inferior. Padrão anatômico clássico (assimetria direita-esquerda).

    ❌ B) Veia cava

    Alternativa incorreta. A drenagem direta para a veia cava é típica do lado direito (veia ovariana direita → cava inferior), não do esquerdo.

    ❌ C) Veia ilíaca comum esquerda

    Alternativa incorreta. A drenagem ovariana não segue o sistema ilíaco comum. As veias ilíacas comuns recebem fluxo das veias ilíacas internas/externas, não das veias ovarianas.

    ❌ D) Veia ilíaca interna esquerda

    Alternativa incorreta. A veia ilíaca interna drena vísceras pélvicas (ex.: plexo uterino via veias uterinas). O ovário drena via veia ovariana para sistema renal/cava, não para o eixo ilíaco interno.

    ❌ E) Veia ilíaca externa esquerda

    Alternativa incorreta. A veia ilíaca externa recebe drenagem dos membros inferiores e parede abdominal; não é via de drenagem do sistema ovariano.


    Take-home message

    • Ligamento infundíbulo-pélvico contém vasos ovarianos; é o pedículo vascular do ovário.
    • Assimetria clássica: veia ovariana direita → cava inferior; veia ovariana esquerda → veia renal esquerda.
    • Uterinas drenam para a veia ilíaca interna; ovarianas não drenam para o sistema ilíaco.
    • Em hemostasia do pedículo esquerdo, controle proximal busca a veia renal esquerda no retroperitônio.
    • Armadilha de prova: marcar veia cava para o lado esquerdo é erro; é correto apenas no lado direito.

    Questão 9Amenorréias

    Mulher, 21 anos de idade, refere não menstruar há 4 meses. Refere praticar corrida de longa distância há 1 ano, realizando preparo para correr sua primeira maratona. Vida sexual ativa, em uso de preservativo. Nega uso de medicações e tem-se alimentado pouco por ansiedade. Exame físico: IMC 18,2 kg/m2, gordura corporal 14%, mamas normais, útero e anexos sem alterações. Refere exames normais de FSH, TSH e densitometria óssea, estradiol baixo e prolactina no limite da normalidade. Qual é a conduta inicial mais adequada?

    • A)

      Prescrever pílula contraceptiva combinada.

    • B)

      Indicar nutricionista para ajuste balanço energético.

    • C)

      Prescrever agonista dopaminérgico.

    • D)

      Solicitar teste de gravidez.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora (por que cai): Amenorreia hipotalâmica funcional por baixa disponibilidade energética (Tríade da Atleta/RED-S) é causa frequente em atletas. Provas cobram: 1) exclusão de gestação, 2) perfil hormonal (estradiol baixo, gonadotrofinas normais/baixas), 3) tratamento causal com restauração do balanço energético e modulação do treino; anticoncepcional combinado não é tratamento da causa nem previne perda óssea.


    Epidemiologia e Etiologia

    • O que é: Amenorreia secundária por supressão hipotalâmica do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano, decorrente de baixa disponibilidade energética (ingestão calórica insuficiente e/ou excesso de exercício).
    • Por que importa: Risco de osteopenia/osteoporose, fraturas por estresse, disfunções metabólicas e psiquiátricas. Em atletas, integra a Tríade da Atleta e o espectro Deficiência Energética Relativa no Esporte (RED-S).
    • Cenário típico: Mulher jovem, prática esportiva intensa, IMC baixo/limítrofe, gordura corporal reduzida, estradiol baixo, FSH/LH normais ou baixos, outras causas excluídas.


    Diagnóstico

    • Padrão-ouro (operacional): Diagnóstico clínico-laboratorial de exclusão: amenorreia secundária (≥3 ciclos/3 meses) + história de déficit energético/treino intenso + beta-hCG negativo + FSH/LH normais/baixos + estradiol baixo + TSH normal + prolactina normal. Densitometria óssea pode ser normal no início.
    • Fisiopatologia-chave: Déficit energético → queda de leptina/insulina → inibição de pulsos de hormônio liberador de gonadotrofinas → baixa LH/FSH tônico-pulsátil → hipoestrogenismo e anovulação.

    • Armadilha de prova: Anticoncepcional combinado “regulariza” o sangramento por deprivação, mas não trata a baixa disponibilidade energética nem melhora massa óssea de forma efetiva no contexto de déficit persistente.


    Conduta & Posologia

    • Primeira linha (não farmacológica): Restaurar disponibilidade energética com acompanhamento nutricional especializado e ajuste do treinamento físico. Meta prática: atingir disponibilidade ≥45 kcal/kg de massa magra/dia; ganho ponderal progressivo (ex.: 2–3 kg iniciais) e gordura corporal >20% em atletas com amenorreia. Reduzir volume/intensidade de treino temporariamente.
    • Suporte multiprofissional: Nutricionista (plano alimentar), educador físico (periodização/descanso), e psicologia (terapias focadas em comportamento alimentar/ansiedade). Avaliar transtorno alimentar.
    • Farmacoterapia: Não é primeira linha. Terapia estrogênica/anticoncepcional não substitui a correção energética e pode mascarar recuperação do eixo. Considerar apenas em cenários selecionados e por tempo limitado quando, apesar de intervenção adequada por 6–12 meses, houver baixa massa óssea/ fraturas por estresse (preferir estradiol transdérmico com progesterona cíclica; decisão individualizada em nível especializado). Agonista dopaminérgico é reservado a hiperprolactinemia.
    • Monitorização e metas: Reavaliação clínica mensal no início; retorno de mênstruo geralmente em 3–6 meses após correção energética. Repetir densitometria óssea conforme risco (12–24 meses) e rastrear fraturas por estresse.

    • Critérios de encaminhamento/alarme: Transtorno alimentar grave, fraturas por estresse recorrentes, IMC <17 kg/m², ou amenorreia persistente >12 meses apesar de intervenção.


    Discussão das alternativas


    ✅ B) Indicar nutricionista para ajuste balanço energético.

    Alternativa correta. Na amenorreia hipotalâmica funcional da atleta, a conduta inicial é restaurar a disponibilidade energética com equipe multiprofissional, tendo o nutricionista como peça central. Isso aborda a causa (déficit energético), favorece o retorno da menstruação e protege a saúde óssea. 


    ❌ A) Prescrever pílula contraceptiva combinada.

    Alternativa incorreta. Anticoncepcional combinado pode induzir sangramento por deprivação, mas não corrige a baixa disponibilidade energética e pode mascarar a recuperação do eixo; não melhora de forma consistente a densidade mineral óssea em déficit energético ativo. Não é tratamento de primeira linha na Tríade/RED-S. Correção: iniciar intervenção nutricional e ajuste do treino. 


    ❌ C) Prescrever agonista dopaminérgico.

    Alternativa incorreta. Indicada para hiperprolactinemia. No caso, a prolactina está no limite da normalidade e a fisiopatologia é hipotalâmica por déficit energético. Correção: tratar a causa com restauração energética; não há indicação de agonista dopaminérgico. 


    ❌ D) Solicitar teste de gravidez.

    Alternativa incorreta na lógica da banca. Em amenorreia secundária, sempre se deve excluir gestação como primeiro passo. Contudo, no enunciado já há investigação hormonal compatível com amenorreia hipotalâmica funcional em atleta e o objetivo é a conduta inicial específica para o caso (restaurar balanço energético). Armadilha: lembrar que, na prática, beta-hCG é o primeiro exame, mas a questão foca o manejo causal após exclusões básicas. 


    Take-home message

    • Amenorreia hipotalâmica funcional em atletas decorre de baixa disponibilidade energética; estradiol baixo com FSH/LH normais/baixos é típico.
    • Conduta inicial: nutrição + ajuste do treino visando disponibilidade ≥45 kcal/kg massa magra/dia e ganho ponderal progressivo.
    • Monitorar retorno menstrual em 3–6 meses e saúde óssea; envolver equipe multiprofissional e rastrear transtorno alimentar.
    • Red flag: não usar anticoncepcional combinado como “tratamento” da Tríade/RED-S sem corrigir o déficit energético.
    • Sempre excluir gestação no início da avaliação de amenorreia; a prova pode focar o manejo causal após exclusões.

    Questão 10Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

    Durante o seguimento na Atenção Primária, Dona Lúcia, 67 anos, é acompanhada pela equipe de Saúde da Família. Ela tem diabetes mellitus tipo 2 há 10 anos e hipertensão arterial sistêmica há 12 anos. Faz uso de losartana 50 mg 2×/dia, hidroclorotiazida 25 mg/dia, metformina 850 mg 2×/dia e sinvastatina 20 mg à noite. Refere adesão irregular à dieta e atividade física. Nega tabagismo. Últimos exames e dados clínicos: - PA: 138 x 84 mmHg; - IMC: 32 kg/m²; - HbA1c: 7,8%; - LDL: 118 mg/dL; - Microalbuminúria: positiva; - Creatinina: 1,0 mg/dL; - CG: sem alterações isquêmicas. Considerando as Diretrizes Brasileiras de HAS e DM (SBC, SBD e Ministério da Saúde) e as recomendações da APS, é INCORRETO afirmar:

    • A)

      Caso a meta glicêmica não seja atingida após otimização da metformina e medidas não farmacológicas, pode-se considerar a associação de outro antidiabético oral ou início de insulina basal, conforme protocolo clínico.

    • B)

      Apesar do controle pressórico adequado, a presença de microalbuminúria e DM2 de longa data caracteriza Dona Lúcia como paciente de alto risco cardiovascular, devendo intensificar o controle glicêmico e lipídico.

    • C)

      A meta de HbA1c em pacientes idosos e de longa duração de diabetes pode ser menos rígida (até 8%), principalmente se houver risco de hipoglicemia ou comorbidades, o que se aplica ao caso de Dona Lúcia.

    • D)

      A associação de losartana e hidroclorotiazida é adequada para o controle pressórico e a manutenção da sinvastatina está correta, pois o LDL atual já atinge a meta preconizada para alto risco (< 130 mg/dL).

    • E)

      A orientação sobre adesão terapêutica e mudanças de estilo de vida (alimentação saudável, perda de peso e atividade física regular) deve ser reforçada como parte essencial do plano de cuidado longitudinal.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em DM2 com albuminúria, o risco cardiovascular é pelo menos alto, geralmente muito alto. Meta de LDL é estrita (< 70 mg/dL para alto risco; < 50 mg/dL para muito alto risco). Estatina de alta intensidade é padrão. Controle pressórico preferencial com IECA/BRA. SGLT2 e/ou GLP-1 RA reduzem risco CV/renal independentemente apenas da HbA1c.


    O que é: Estratificação e metas de DM2/HAS/Dislipidemia na APS segundo diretrizes brasileiras (SBD, SBC, MS). Albuminúria (30–300 mg/g) define lesão de órgão-alvo e muda metas terapêuticas.


    Por que importa: Metas corretas de LDL, PA e HbA1c reduzem eventos CV maiores e progressão de DRC. Erro clássico de prova: aceitar LDL < 130 mg/dL em diabético com albuminúria.


    Como identificar: Microalbuminúria positiva (ACR 30–300 mg/g) + DM2 de longa data = risco ≥ alto. LDL 118 mg/dL está acima da meta para alto/muito alto risco; PA 138/84 pode ser aceitável (< 140/90), mas alvo preferido é < 130/80 se tolerado.


    Como manejar (essencial): Otimizar metformina; considerar SGLT2 (nefro/ cardioproteção) e/ou GLP-1 RA (perda de peso/CV); intensificar estatina (alta intensidade); manter BRA/IECA em dose máxima tolerada; reforçar estilo de vida e adesão. Monitorar creatinina/potássio após ajustes.


    Conduta & Posologia

    • Metas principais: PA < 130/80 mmHg se tolerado (aceitável < 140/90 em idosos frágeis); HbA1c ~7,0% (7,0–7,5%) na maioria; pode ser até 8,0% se risco de hipoglicemia/comorbidades; LDL-C < 70 mg/dL (alto risco) ou < 50 mg/dL (muito alto risco) com redução ≥ 50%.

    • Antidiabéticos – 1ª linha: Metformina até 2.000–2.550 mg/dia VO em 8/8–12/12h, conforme tolerância. Ajuste em DRC: evitar se TFG < 30; reduzir dose se TFG 30–44; manter com cautela se TFG ≥ 45.

    • Benefício cardiorrenal: Inibir SGLT2 (empagliflozina 10 mg VO 1×/dia; dapagliflozina 10 mg VO 1×/dia) se TFG ≥ 30–45 mL/min/1,73 m² (fármaco-dependente). Efeitos: redução de progressão de DRC e IC. EA: ITU micótica; discreta queda inicial da TFG.

    • Perda de peso/CV: Agonista GLP-1 RA (liraglutida 0,6 mg SC/dia por 1 semana, depois 1,2 mg; alvo 1,8 mg; semaglutida SC semanal 0,25 → 0,5–1 mg). EA: GI. Evitar em história de MEN2/CA medular de tireoide.

    • Insulina basal (se HbA1c elevada apesar de OAD): NPH noturna 0,2 U/kg (ou 10 U) e titulação +2 U a cada 3 dias até jejum 80–130 mg/dL. Hipoglicemia: reduzir 10–20%.

    • HAS/albuminúria: Manter BRA (losartana até 100 mg/dia) ou IECA em dose máxima tolerada. Associar tiazídico (HCTZ 12,5–25 mg VO/dia) se necessário ao alvo pressórico. Não combinar IECA + BRA.

    • Dislipidemia (alto/very alto risco): Estatina alta intensidade: atorvastatina 40–80 mg VO/noite ou rosuvastatina 20 mg VO/noite. Reavaliar lipídico em 4–12 semanas. Considerar ezetimiba 10 mg VO/dia se meta não atingida.

    • Contraindicações/alertas chave: IECA/BRA: hipercalemia, estenose bilateral de artérias renais, gestação; SGLT2: risco raro de cetoacidose euglicêmica; Metformina: TFG < 30. Monitorar creatinina e K+ 1–2 semanas após ajustar IECA/BRA; CPK se mialgia com estatina.

    • Estilo de vida (APS): Plano alimentar com déficit calórico; 150–300 min/semana de atividade aeróbica + 2–3 sessões de resistência; perda de peso alvo 5–10%.

    • Seguimento/monitorização: HbA1c a cada 3 meses até controle; lipidograma 4–12 semanas pós-ajuste; albuminúria e TFG anual (ou semestral se alteradas); PA em toda consulta.

    • Critérios de internação (quando aplicável): Não indicados para este caso estável. Internar se crise hipertensiva, cetoacidose/estado hiperosmolar, hipoglicemia grave recorrente ou síndrome coronariana aguda.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Caso a meta glicêmica não seja atingida após otimização da metformina e medidas não farmacológicas, pode-se considerar a associação de outro antidiabético oral ou início de insulina basal, conforme protocolo clínico.

    Alternativa incorreta (para ser o gabarito). A assertiva em si está correta segundo diretrizes: após otimização de metformina, associa-se outro OAD (preferindo SGLT2/GLP-1 RA em alto risco) ou insulina basal. Portanto, não é a opção incorreta do enunciado.

    ❌ B) Apesar do controle pressórico adequado, a presença de microalbuminúria e DM2 de longa data caracteriza Dona Lúcia como paciente de alto risco cardiovascular, devendo intensificar o controle glicêmico e lipídico.

    Alternativa incorreta (para ser o gabarito). O enunciado está correto: albuminúria é lesão de órgão-alvo e eleva risco para pelo menos alto (muitas vezes muito alto), exigindo metas mais rígidas e terapia intensiva (estatinas de alta intensidade, SGLT2/GLP-1).

    ✅ C) A meta de HbA1c em pacientes idosos e de longa duração de diabetes pode ser menos rígida (até 8%), principalmente se houver risco de hipoglicemia ou comorbidades, o que se aplica ao caso de Dona Lúcia.

    Alternativa correta (conteúdo verdadeiro). Diretrizes admitem HbA1c até 8% em idosos com comorbidades/risco de hipoglicemia. Com IMC 32, longa duração e necessidade possível de insulinização, metas individualizadas são aceitáveis. Ainda assim, prioriza-se fármacos com baixo risco de hipoglicemia.

    ✅ D) A associação de losartana e hidroclorotiazida é adequada para o controle pressórico e a manutenção da sinvastatina está correta, pois o LDL atual já atinge a meta preconizada para alto risco (< 130 mg/dL).

    Alternativa correta (para ser o gabarito INCORRETO do enunciado). Esta afirmação é falsa: em DM2 com albuminúria, a meta de LDL é < 70 mg/dL (alto risco) e frequentemente < 50 mg/dL (muito alto risco), com redução ≥ 50%. LDL 118 mg/dL não atinge a meta. Sinvastatina 20 mg é baixa/moderada intensidade; deve-se preferir atorvastatina 40–80 mg ou rosuvastatina 20 mg. A dupla losartana + HCTZ é aceitável para PA, mas não corrige o erro do alvo lipídico.

    ❌ E) A orientação sobre adesão terapêutica e mudanças de estilo de vida (alimentação saudável, perda de peso e atividade física regular) deve ser reforçada como parte essencial do plano de cuidado longitudinal.

    Alternativa incorreta (para ser o gabarito). A assertiva está correta e alinhada à APS. Intervenções estruturadas em estilo de vida e adesão reduzem HbA1c, PA e LDL e são mandatórias.


    Mensagem para levar para casa:

    • DM2 com albuminúria = risco ≥ alto (geralmente muito alto): meta LDL < 70 mg/dL (alto) ou < 50 mg/dL (muito alto) e redução ≥ 50%.
    • Estatina de alta intensidade: Atorvastatina 40–80 mg ou Rosuvastatina 20 mg; reavaliar lipídios em 4–12 semanas.
    • Em DM2 com DRC/albuminúria, priorizar SGLT2 e considerar GLP-1 RA para proteção CV/renal e perda de peso.
    • Red flag: Não combinar IECA + BRA; monitorar K+ e creatinina 1–2 semanas após ajustes.
    • PA alvo preferido < 130/80 mmHg se tolerado; HbA1c individualizada (até 8% se risco de hipoglicemia/comorbidades).
    • Estilo de vida estruturado e adesão são parte central do cuidado longitudinal na APS.

    Questão 12Tireoidopatias na gestação

    Mulher de 39 anos de idade, com 12 semanas de gestação, inicia o pré-natal. AP: G3P1C1A1. Exame físico: BEG; FC: 77 bpm; PA: 120 × 60 mmHg; IMC: 36,5 Kg/m². Exames do primeiro trimestre: glicemia de jejum: 94 mg/dL e TSH: 6,0 mU/L. A conduta é

    • A)

      solicitar novas amostras para confirmação.

    • B)

      solicitar imediatamente GTT 75g e iniciar levotiroxina sódica.

    • C)

      solicitar GTT 75g entre 24 – 28 semanas e repetir TSH.

    • D)

      orientar mudança do estilo de vida e iniciar levotiroxina sódica.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: No 1º trimestre, dois eixos caem muito: rastreio de diabetes gestacional (DG) com glicemia de jejum e disfunção tireoidiana com TSH. Aqui: GJ 94 mg/dL (diagnostica DG pelos critérios IADPSG/OMS/MS) e TSH 6,0 mUI/L (acima do limite do 1º trimestre) → tratar.


    • O que é: DG é intolerância à glicose diagnosticada na gestação; hipotireoidismo subclínico é TSH alto com T4L normal (não disponível aqui, mas TSH já acima do limite gestacional).

    • Por que importa: DG aumenta risco de macrossomia, pré-eclâmpsia e cesárea; hipotireoidismo materno associa-se a perdas gestacionais e déficit neurocognitivo fetal se não tratado.

    • Como identificar: No Brasil, no 1º pré-natal, glicemia de jejum única: ≥92 e <126 mg/dL = DG; TSH com limite superior ~4,0 mUI/L na ausência de valores de referência locais do 1º trimestre.

    • Como manejar (regra prática): DG com GJ 92–125 mg/dL → iniciar medidas de estilo de vida e automonitorização; hipotireoidismo (TSH > limite do trimestre) → iniciar levotiroxina e ajustar por TSH a cada 4–6 semanas.


    Conduta & Posologia


    Diabetes gestacional (diagnóstico precoce): GJ 94 mg/dL já define DG (IADPSG/OMS/MS). Não há necessidade de GTT-75g agora.


    Primeira linha DG: Plano alimentar individualizado + atividade física moderada (150 min/sem). Alvos: jejum ≤95 mg/dL; 1h ≤140 mg/dL; 2h ≤120 mg/dL.


    Escalonamento DG: Se >20–30% das glicemias capilares fora da meta por 1–2 semanas, iniciar insulina NPH/rápida (esquema individualizado). Metformina pode ser opção quando insulina inviável, conforme protocolos locais (informar risco de falha/transferência placentária).


    Levotiroxina (LT4) na gestação: Iniciar com 50–75 mcg VO/dia em jejum, 30–60 min antes do café. Ajustar 12,5–25 mcg a cada 4–6 semanas para manter TSH no alvo gestacional.


    Meta de TSH: Usar referência específica do laboratório para 1º trimestre. Na ausência, adotar limite superior ~4,0 mUI/L. Operacional: manter TSH no quartil inferior da normalidade (faixa segura 0,5–2,5 mUI/L).


    Ajustes/observações: Dose de LT4 baseada em peso ideal (evita superdose na obesidade). Separar de ferro/cálcio/pré-natal por ≥4 horas (reduzem absorção). Repetir TSH a cada 4–6 semanas até estabilidade e após qualquer ajuste.


    Contraindicações: LT4 não tem contraindicação na gestação. Não associar com anti-tireoidianos no hipotireoidismo.


    Efeitos adversos relevantes (LT4): Sinais de hiperdosagem: taquicardia, tremor, perda ponderal.


    Critérios de internação/UTI: Não se aplicam para este cenário típico de pré-natal de baixo risco. DG descompensada grave com cetose e sinais de cetoacidose exige internação.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) orientar mudança do estilo de vida e iniciar levotiroxina sódica.

    Alternativa correta. DG diagnosticada precocemente — conduta inicial é mudança do estilo de vida + automonitorização. TSH 6,0 mUI/L no 1º trimestre está acima do limite gestacional — iniciar LT4 e ajustar por TSH.


    ❌ A) solicitar novas amostras para confirmação.

    Alternativa incorreta. GJ 94 mg/dL no 1º trimestre já fecha diagnóstico de DG pelos critérios MS/OMS/IADPSG (92–125 mg/dL). Não se recomenda confirmar com nova GJ. Para a tireoide, TSH 6,0 mUI/L supera o limite do 1º trimestre e não requer repetir para iniciar LT4.


    ❌ B) solicitar imediatamente GTT 75g e iniciar levotiroxina sódica.

    Alternativa incorreta. O GTT-75g não é necessário quando a GJ já está entre 92–125 mg/dL (DG já definida). Acertou em iniciar LT4, mas erra ao pedir GTT agora.


    ❌ C) solicitar GTT 75g entre 24 – 28 semanas e repetir TSH.

    Alternativa incorreta. O GTT-75g entre 24–28 semanas é para rastreamento tardio quando GJ inicial <92 mg/dL. Aqui já há DG (GJ 94). Repetir TSH isoladamente retarda tratamento necessário.


    Take-home message

    • No 1º trimestre, GJ 92–125 mg/dL = DG; ≥126 mg/dL confirma diabetes prévio.
    • DG precoce: começar com dieta + exercício e metas glicêmicas (jejum ≤95; 1h ≤140; 2h ≤120 mg/dL); insulina se metas não atingidas.
    • TSH na gestação: use referência do 1º trimestre (na ausência, limite superior ~4,0 mUI/L). TSH 6,0 mUI/L → iniciar levotiroxina.
    • Posologia prática de LT4: 50–75 mcg VO/dia em jejum; ajustar 12,5–25 mcg a cada 4–6 semanas conforme TSH.
    • Interações: ferro/cálcio/pré-natal reduzem absorção da LT4 — separar em ≥4h.
    • GTT-75g entre 24–28 semanas só se GJ inicial <92 mg/dL; se ≥92, o diagnóstico de DG já está feito.

    Questão 13PALS

    Paciente de 14 anos, previamente hígido, é trazido ao Pronto Socorro, sonolento em pós-ictal, após quadro de crise tônico-clônico generalizada, com duração de 5 minutos. Mãe nega febre, tosse, coriza, alterações gastrointestinais ou urinárias e alterações de comportamento. Nega eventos anteriores semelhantes, assim como história familiar de epilepsia ou de doenças neurológicas. De acordo com as informações apresentadas sobre o caso clínico, selecione a alternativa mais adequada.

    • A)

      Deve-se informar a mãe sobre a suspeita de epilepsia e iniciar tratamento medicamentoso com fenobarbital.

    • B)

      Deve-se orientar a mãe que o diagnóstico de epilepsia pode ser concluído após mais dados de anamnese, exame clínico e exames complementares.

    • C)

      Deve-se informar a mãe sobre o diagnóstico de epilepsia, dispensando a realização de exame de imagem ou eletroencefalograma.

    • D)

      Deve-se orientar a mãe que se trata de um caso provável de meningoencefalite, solicitar a coleta de liquor e a administração de aciclovir endovenoso.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Primeira crise tônico-clônica generalizada em adolescente, sem febre ou sinais focais, NÃO define epilepsia. Precisa de anamnese dirigida, exame físico/neurológico, glicemia e eletrólitos, EEG (24–72h) e neuroimagem conforme red flags.


    O que é: Primeira crise não provocada = evento único com manifestações epilépticas, sem fator precipitante imediato (febre, hipoglicemia, drogas). Epilepsia requer: ≥2 crises não provocadas separadas por >24h, OU 1 crise com risco de recorrência ≥60% em 10 anos (ex.: EEG epileptiforme, lesão estrutural, doença neurológica definida).


    Por que importa: Diagnosticar precocemente quem tem alto risco de recorrência para indicar tratamento; evitar rotular como epilepsia quando é evento único de baixo risco.


    Como identificar: História do evento (início, aura, fase tônica/clônica, mordedura de língua lateral, cianose, pós-ictal), gatilhos, uso de substâncias; exame neurológico; checar glicemia e distúrbios hidroeletrolíticos; EEG precoce; imagem (TC urgente se red flags; RM preferencial para etiologia).


    Como manejar (essencial de prova): Estabilização ABC; tratar crise ativa com benzodiazepínico; se pós-ictal e estável, investigar causas; NÃO iniciar antiepiléptico de rotina após primeira crise não provocada sem fatores de alto risco de recorrência.


    Conduta & Posologia

    • Emergência (se crise ativa): - Midazolam intranasal/bucal 0,2 mg/kg (máx 10 mg), repetir 1x após 5 min se necessário; ou - Diazepam IV 0,15–0,2 mg/kg (máx 10 mg) lento; alternativa domiciliar: diazepam retal 0,5 mg/kg (máx 10 mg).

    • Pós-ictal estável (caso do enunciado): Monitorização, glicemia capilar imediata, eletrólitos (Na, K, Ca, Mg), função renal/hepática conforme contexto; toxicologia se suspeita; agendar EEG em 24–72h; neuroimagem conforme red flags.

    • Quando iniciar antiepiléptico (após 1ª crise): Apenas se risco de recorrência ≥60%: EEG com atividade epileptiforme; lesão estrutural em RM/TC; anormalidade neurológica persistente; história de insulto cerebral remoto. Caso contrário, não iniciar de rotina.

    • Opções de 1ª linha (se indicado): - Levetiracetam VO 10–20 mg/kg/dose 12/12h (ajustar em DRC: reduzir dose se ClCr <80 mL/min; diálise: dose suplementar pós-diálise). EA: sonolência, irritabilidade.
    • - Valproato VO 10–15 mg/kg/dia em 12/12h, aumentar 5–10 mg/kg/sem até 20–30 mg/kg/dia. Contraindicado em gestantes e hepatopatas; EA: ganho de peso, tremor, hepatotoxicidade, trombocitopenia.
    • - Em adolescentes, evitar fenobarbital por efeitos cognitivos/comportamentais.

    • Neuroimagem: - TC urgente se: trauma, cefaleia intensa súbita, déficit focal, estado mental alterado persistente, meningismo/febre, imunossupressão, anticoagulação. - RM (preferencial) ambulatorial se sem red flags, para investigação etiológica.

    • Internação vs alta: - Internar: status epilepticus, crises recorrentes na mesma apresentação, rebaixamento persistente, déficit focal novo, febre/meningismo, trauma, distúrbio metabólico não corrigido, nova lesão na imagem, risco social.
    • - Alta: exame neurológico normal, recuperação completa, sem red flags; orientar retorno precoce e segurança (evitar natação sem supervisão, alturas, dirigir não aplicável a 14a), prescrever benzodiazepínico de resgate se apropriado.

    • Tempo de reavaliação: Neuropediatria/neurologia em 1–2 semanas; EEG em 24–72h; RM conforme indicação.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) Deve-se informar a mãe sobre a suspeita de epilepsia e iniciar tratamento medicamentoso com fenobarbital.

    Alternativa incorreta. Uma única crise não provocada não fecha epilepsia. Além disso, fenobarbital não é fármaco de 1ª linha em adolescente devido a efeitos cognitivos/conduta. Só se inicia antiepiléptico se risco de recorrência for alto (EEG/lesão estrutural/deficit neurológico).

    ✅ B) Deve-se orientar a mãe que o diagnóstico de epilepsia pode ser concluído após mais dados de anamnese, exame clínico e exames complementares.

    Alternativa correta. Conduta padrão: completar história/exame, dosar glicemia/eletrólitos, solicitar EEG em 24–72h e neuroimagem conforme red flags. O diagnóstico de epilepsia depende de recorrência ou alto risco documentado.

    ❌ C) Deve-se informar a mãe sobre o diagnóstico de epilepsia, dispensando a realização de exame de imagem ou eletroencefalograma.

    Alternativa incorreta. Não se pode rotular epilepsia após um único episódio. EEG é exame-chave para estratificar risco e classificar síndrome; imagem pode ser necessária para etiologia, especialmente se houver red flags.

    ❌ D) Deve-se orientar a mãe que se trata de um caso provável de meningoencefalite, solicitar a coleta de liquor e a administração de aciclovir endovenoso.

    Alternativa incorreta. O caso não traz febre, meningismo, alteração de comportamento persistente ou imunossupressão. Sem esses sinais, não há indicação de punção lombar/aciclovir. Suspeitar meningoencefalite apenas se houver febre, cefaleia importante, rigidez de nuca, alteração do sensorium persistente ou déficit focal.


    Mensagem para levar para casa:

    • Primeira crise não provocada ≠ epilepsia. Epilepsia exige ≥2 crises não provocadas ou risco ≥60% após a primeira.
    • Investigue sempre: glicemia, eletrólitos, EEG 24–72h e neuroimagem se houver red flags; RM é preferível quando estável.
    • Não iniciar antiepiléptico de rotina após 1ª crise; iniciar se EEG epileptiforme, lesão estrutural, déficit neurológico persistente ou insulto cerebral prévio.
    • Crise ativa: benzodiazepínico de 1ª linha — midazolam 0,2 mg/kg (IN/bucal) ou diazepam 0,15–0,2 mg/kg IV, repetir 1x após 5 min se necessário.
    • Red flags que mudam conduta: febre/meningismo, déficit focal, rebaixamento persistente, trauma, imunossupressão, anticoagulação.

    Questão 14Anatomia e Embriologia do trato genital

    A figura abaixo representa malformações uterinas que podem ser classificadas respectivamente como:

    • A)

      septado, didelfo e bicorno

    • B)

      unicorno, didelfo e bicorno

    • C)

      bicorno, septado e didelfo

    • D)

      didelfo, bicorno e septado

    • E)

      septado, bicorno e didelfo

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de prova: Diferenciar útero septado vs bicorno vs didelfo depende do contorno externo do fundo uterino (preservado vs incisado) e do grau de falha de fusão dos ductos de Müller. A imagem do enunciado, do 1º ao 3º desenho, corresponde a: septadobicornuodidelfo.


    • Definições operacionais (ASRM/ESHRE-ESGE): - Útero septado: cavidade dividida por septo, sem incisura externa significativa (contorno fundal externo reto/convexo ou incisura < 1 cm). - Útero bicorno: cavidade em dois cornos com incisura fundal externa profunda (> 1 cm ou > 50% da espessura da parede). - Útero didelfo: falha completa de fusão → dois hemiúteros separados, geralmente com duplo colo e, às vezes, septo vaginal.

    • Por que importa: Útero septado tem maior associação a perdas gestacionais recorrentes e responde a septoplastia histeroscópica. Úteros bicornos/didelfos cursam com prematuridade e apresentações anômalas; cirurgia é rara e seletiva.
    • Diagnóstico (padrão atual): US 3D e RM pélvica distinguem contorno externo vs cavidade. Histeroscopia avalia cavidade; laparoscopia avalia contorno externo (antigo padrão-ouro era histeroscopia + laparoscopia em conjunto).

    • Mini-exemplo clínico: Cavidade “dupla” na histeroscopia + fundo externo normal ao US 3D → septado, não bicorno.

    Conduta & Posologia

    • Útero septado (quando tratar): Septoplastia histeroscópica indicada em infertilidade ou perda gestacional recorrente. Técnica: ressecção do septo sob US/controle histeroscópico. Não há posologia farmacológica específica.
    • Útero bicorno: Manejo expectante. Metroplastia (Strassman) é exceção para abortos de repetição/parto prematuro refratários após exclusão de septo. Avaliar riscos cirúrgicos vs benefício.
    • Útero didelfo: Geralmente não operar. Tratar septo vaginal sintomático. Obstétrico: rastrear incompetência istmocervical; considerar cerclagem se critérios.
    • Seguimento obstétrico: Alto risco para prematuridade e apresentação pélvica em bicorno/didelfo; programar acompanhamento pré-natal de alto risco. Não há medicação padrão específica.
    • Critérios de referência/encaminhamento: Encaminhar à ginecologia endoscópica reprodutiva para septo com abortos/infertilidade; medicina fetal/alto risco em gestantes com bicorno/didelfo.
    • Contraindicações gerais cirúrgicas: Infecção pélvica ativa, gestação em curso, condições clínicas sem risco-benefício favorável.
    • Efeitos adversos relevantes (histeroscopia): Perfuração uterina, sangramento, sinéquias, absorção de fluido; mitigação com técnica e controle hídrico.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) septado, didelfo e bicorno

    Incorreta. A segunda imagem tem incisura fundal externa profunda dividindo dois cornos unidos inferiormente → padrão de bicorno, não didelfo (no didelfo há dois hemiúteros quase independentes e, com frequência, duplo colo).

    ❌ B) unicorno, didelfo e bicorno

    Incorreta. A primeira imagem não é útero unicorno (hemiútero único alongado com corno rudimentar); é septado (contorno externo preservado e cavidade dividida por septo).

    ❌ C) bicorno, septado e didelfo

    Incorreta. Inverte os dois primeiros: a primeira figura mostra cavidade dividida com fundo externo normal → septado; a segunda tem incisura externa profunda → bicorno.

    ❌ D) didelfo, bicorno e septado

    Incorreta. Didelfo é falha de fusão completa (dois úteros separados, usualmente com dois colos), padrão que corresponde à terceira imagem, não à primeira.

    ✅ E) septado, bicorno e didelfo

    Correta. 1ª imagem: septo intracavitário com contorno externo íntegro → septado. 2ª: incisura fundal externa profunda unindo-se inferiormente → bicorno. 3ª: dois hemiúteros separados, aspecto duplicado → didelfo.


    Take-home message

    • Chave diagnóstica: útero septado tem fundo externo normal; bicornuo tem incisura fundal externa > 1 cm; didelfo = falha completa de fusão (dois hemiúteros, geralmente dois colos).
    • Métodos de escolha: US 3D e RM diferenciam cavidade de contorno externo; histeroscopia sozinha não distingue septado de bicorno.
    • Manejo: septoplastia histeroscópica no útero septado sintomático (infertilidade/abortos); bicorno/didelfo raramente exigem cirurgia.
    • Armadilha: chamar útero septado de bicorno quando vê “duas cavidades” na histeroscopia. Confirme o contorno externo no US 3D/RM.
    • Obstetrícia: bicorno/didelfo → maior risco de prematuridade e apresentação pélvica; seguimento de alto risco.


    Questão 14Doença Inflamatória Pélvica (DIPA)

    Mulher, 22 anos, é atendida no serviço de emergência hospitalar, encaminhada pela Unidade de Pronto Atendimento, com história de dor pélvica intensa há 5 dias, febre alta persistente, náuseas e vômitos. Relata corrimento vaginal purulento e piora progressiva do quadro, apesar de ter iniciado antibiótico oral há 48 horas. Ao exame físico, apresenta-se toxemiada, com dor abdominal difusa, defesa à palpação e dor intensa à mobilização do colo uterino. Ultrassonografia pélvica evidencia massa anexial complexa sugestiva de abscesso tubo-ovariano, medindo 3 cm de diâmetro. Qual é a conduta adequada nesse cenário?

    • A)

      Internar a paciente para antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro, com cobertura para gonococo, clamídia e anaeróbios, e monitorar resposta clínica.

    • B)

      Manter o esquema antibiótico oral previamente iniciado, associar analgésicos e antitérmico, e reavaliar em 48 horas no ambulatório.

    • C)

      Internar a paciente e manter o esquema antibiótico oral previamente iniciado até a confirmação microbiológica.

    • D)

      Indicar tratamento antifúngico associado a antibiótico oral, considerando a sobreposição frequente entre DIP e vulvovaginites fúngicas.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Doença inflamatória pélvica complicada por abscesso tubo-ovariano é indicação de internação e antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro. Falha ao esquema oral em 48–72 horas reforça a necessidade de escalonamento e monitorização hospitalar.


    Epidemiologia e Etiologia

    Contexto Brasil: Doença inflamatória pélvica é frequente em mulheres jovens; principais agentes: Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis e flora anaeróbia/vaginal (ex.: Bacteroides), além de microrganismos entéricos.

    Abscesso tubo-ovariano (ATO): Complicação supurativa da doença inflamatória pélvica; risco maior com atraso terapêutico e dispositivos intrauterinos recentes, mas pode ocorrer sem DIU.


    Diagnóstico

    Definição operacional: Quadro clínico de doença inflamatória pélvica com imagem anexial complexa compatível com coleção (ultrassonografia transvaginal ou tomografia).

    Critérios clínicos-chave: Dor pélvica/hipogástrica, dor à mobilização do colo uterino, febre, toxemia, corrimento purulento; leucocitose e proteína C reativa elevadas são comuns, porém não mandatórias.

    Padrão-ouro prático: Achado ultrassonográfico de massa anexial complexa e clínica compatível. Laparoscopia é reservada a dúvidas diagnósticas/complicações.


    Mini-exemplo: Mulher jovem com dor pélvica + febre + dor à mobilização do colo uterino + massa anexial = tratar como doença inflamatória pélvica complicada (internar).


    Conduta & Posologia 

    Indicação de internação (SUS/MS): Abscesso tubo-ovariano; falha do esquema oral em 48–72h; vômitos/incapacidade de via oral; sinais sistêmicos de gravidade/sepses; gestação; peritonite; imunossupressão.


    Esquema preferencial (primeira linha – amplo espectro):
    Ceftriaxona 1 g intravenosa 24/24h + Doxiciclina 100 mg intravenosa ou VO 12/12h + Metronidazol 500 mg intravenoso 12/12h.
    Duração total: 14 dias (manter intravenosa até 24–48h após melhora clínica, depois completar via oral com doxiciclina 100 mg 12/12h + metronidazol 500 mg 12/12h).


    Esquema alternativo (em ATO ou alergia a beta-lactâmico não anafilático/indisponibilidade):
    Clindamicina 900 mg intravenosa 8/8h + Gentamicina (dose de ataque 2 mg/kg intravenosa, seguida de 1,5 mg/kg 8/8h ou 5–7 mg/kg 24/24h em dose única diária).
    Transição para via oral após melhora: Clindamicina 450 mg VO 6/6h para completar 14 dias.


    Avaliação de resposta: Reavaliar clinicamente em 24–48h. Sem melhora em até 72h ou piora/hemodinâmica instável: investigar complicações e considerar drenagem percutânea guiada por imagem ou abordagem cirúrgica (especialmente se suspeita de rotura ou sepse).


    Indicações de drenagem/cirurgia: Ausência de resposta clínica em 48–72h; abscesso grande (tipicamente >7–8 cm); sinais de rotura; deterioração clínica; peritonite difusa.


    Ajustes e situações especiais:
    Insuficiência renal: ajustar gentamicina conforme depuração de creatinina; monitorar níveis se disponível.
    Insuficiência hepática grave: reduzir dose de metronidazol (Child-Pugh C) e monitorar toxicidade.
    Gestação: doxiciclina é contraindicada; internar e ajustar esquema (ex.: ceftriaxona + azitromicina + metronidazol, conforme avaliação obstétrica).


    Contraindicações-chave:

    Doxiciclina em gestantes e lactentes <8 anos.
    Aminoglicosídeos com cautela em doença renal; risco de nefro/ototoxicidade.


    Efeitos adversos relevantes: Metronidazol (náuseas, gosto metálico, reação tipo dissulfiram com álcool), doxiciclina (fotossensibilidade, esofagite), ceftriaxona (hipersensibilidade), gentamicina (nefro/ototoxicidade), clindamicina (diarreia, colite por C. difficile).


    Interações críticas:
    Metronidazol + álcool: evitar durante e 48–72h após uso.
    Doxiciclina com antiácidos/ferro: reduzir absorção; espaçar 2–3h.


    Critérios de alta: Afebril por 24–48h, dor controlada, tolerando via oral, sem sinais de complicação; manter antibiótico VO até completar 14 dias.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Internar a paciente para antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro, com cobertura para gonococo, clamídia e anaeróbios, e monitorar resposta clínica.

    Alternativa correta. A presença de abscesso tubo-ovariano, toxemia e falha ao esquema oral em 48h exigem internação e antibioticoterapia intravenosa com cobertura para gonococo, clamídia e anaeróbios, conforme Ministério da Saúde. Esquema recomendado: ceftriaxona 1 g IV 24/24h + doxiciclina 100 mg 12/12h + metronidazol 500 mg 12/12h, com reavaliação em 24–48h.


    ❌ B) Manter o esquema antibiótico oral previamente iniciado, associar analgésicos e antitérmico, e reavaliar em 48 horas no ambulatório.

    Alternativa incorreta.falha terapêutica ao oral e abscesso, ambos indicam internação e antibiótico intravenoso de amplo espectro. Manejo ambulatorial aumenta risco de progressão/rotura.


    ❌ C) Internar a paciente e manter o esquema antibiótico oral previamente iniciado até a confirmação microbiológica.

    Alternativa incorreta. A paciente não respondeu ao regime oral; em doença inflamatória pélvica complicada deve-se escalar para via intravenosa imediatamente, sem aguardar cultura. A droga de escolha inclui ceftriaxona + doxiciclina + metronidazol ou clindamicina + gentamicina.


    ❌ D) Indicar tratamento antifúngico associado a antibiótico oral, considerando a sobreposição frequente entre DIP e vulvovaginites fúngicas.

    Alternativa incorreta. Abscesso tubo-ovariano é bacteriano polimicrobiano; antifúngico não tem papel de rotina. Além disso, manter via oral é inadequado no contexto de toxemia e falha terapêutica prévia.


    Take-home message

    • Abscesso tubo-ovariano = doença inflamatória pélvica complicada: internar e iniciar antibiótico intravenoso de amplo espectro.
    • Esquema de primeira linha: ceftriaxona 1 g IV 24/24h + doxiciclina 100 mg 12/12h + metronidazol 500 mg 12/12h por 14 dias (com transição para VO após melhora).
    • Reavaliar em 24–48h; sem melhora em 72h ou piora: considerar drenagem guiada por imagem ou cirurgia.
    • Red flag: não manter esquema oral em ATO ou falha em 48–72h.
    • Alternativa válida: clindamicina 900 mg IV 8/8h + gentamicina (completando 14 dias).
    • Gestação: evitar doxiciclina; sempre internar e ajustar esquema seguro.

    Questão 15Outros temas em parto

    Primigesta, 28 anos, com 40 semanas e 2 dias de gestação, comparece ao hospital em trabalho de parto. Relata contrações uterinas regulares há 6 horas, com intervalos de 3 minutos e duração média de 60 segundos. Ao exame obstétrico, verifica-se dilatação cervical de 4 cm, esvaecimento (apagamento) completo do colo e bolsa íntegra. O líquido amniótico é claro, com grumos. A paciente está hemodinamicamente estável e sem sinais de sofrimento fetal. Após 4 horas de evolução, observa-se que a dilatação cervical permanece em 4 cm, apesar da manutenção das contrações regulares. Qual é a conduta mais adequada nesse momento?

    • A)

      Realizar amniotomia para acelerar o trabalho de parto.

    • B)

      Administrar ocitocina para aumentar a intensidade das contrações uterinas.

    • C)

      Diagnosticar como fase latente prolongada e aguardar evolução espontânea.

    • D)

      Diagnosticar como trabalho de parto estacionado e indicar cesariana imediata.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Não diagnosticar distócia/arresto antes de 6 cm. A fase ativa do 1º período inicia em ≥6 cm; antes disso é fase latente, na qual a conduta é predominantemente expectante.


    O que é: Fase latente do trabalho de parto é o período com contrações regulares até a transição para a fase ativa. Na abordagem contemporânea, considera-se início da fase ativa em ≥6 cm de dilatação.


    Por que importa: Critérios de protração/arresto e indicações de ocitocina/cesariana só se aplicam com segurança na fase ativa (≥6 cm). Intervenções precoces aumentam cesarianas sem benefício.


    Como identificar: Dilatação <6 cm, apagamento presente, contrações regulares; sem progressão em poucas horas não configura arresto. Prolongamento de fase latente em nulíparas é classicamente >20 h (abordagem moderna: evitar rótulo rígido e manejar de forma expectante se materno-fetal estável).


    Como manejar (caso típico): Observação, suporte (hidratação, analgesia, deambulação/posições), reavaliação clínica e pelo partograma. Considerar amniotomia/ocitocina apenas se critérios clínicos específicos e segurança assegurada.


    Conduta & Posologia

    • Conduta de primeira linha (neste caso): Expectante na fase latente com boa vitalidade fetal: observar, analgesia se necessário, estimular micção/deambulação, reavaliar a cada 2–4 h ou antes se houver alterações.

    • Quando considerar amniotomia/ocitocina: Preferencialmente em fase ativa (≥6 cm) com protração e apresentação cefálica baixa/encaixada. Em latente, pode-se considerar se há hipocontratilidade documentada e equipe/monitorização adequadas, após aconselhamento.

    • Ocitocina (esquema padrão hospitalar): Iniciar 1–2 mU/min IV, aumentar 1–2 mU/min a cada 30–40 min até 3–5 contrações/10 min, usualmente máximo 20 mU/min (alguns serviços até 40 mU/min com monitorização rigorosa).

    • Ajustes/precauções: Idosa, DRC ou Child-Pugh não exigem ajuste de dose, mas requerem monitorização hemodinâmica. Evitar sobrecarga hídrica (risco de hiponatremia). Em cicatriz uterina prévia, usar doses baixas e vigilância intensiva.

    • Contraindicações à ocitocina: Desproporção céfalo-pélvica evidente, placenta/vasa prévia, apresentação transversa, prolapso de cordão, sofrimento fetal que indique resolução imediata não vaginal.

    • Efeitos adversos relevantes (ocitocina): Taquissistolia uterina (>5 contrações/10 min), hipertonia, hipóxia fetal, ruptura uterina (especialmente em cicatriz), hiponatremia por efeito antidiurético.

    • Conduta diante de taquissistolia/alteração fetal: Interromper ocitocina, decúbito lateral, O2 por máscara, fluidos, considerar tocolítico de resgate (ex.: terbutalina 250 mcg SC dose única), avaliar necessidade de resolução.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar em trabalho de parto ativo (≥6 cm) ou se sinais de risco (sangramento, RPM com febre, hipertensão grave, alterações FCF). UTI obstétrica se instabilidade hemodinâmica, eclampsia, sepse, insuficiência respiratória.


    Armadilhas de prova

    • Ativo vs latente: Não chamar de fase ativa antes de 6 cm.
    • Arresto: Só diagnosticar em ≥6 cm e com critérios temporais + avaliação da contratilidade.
    • Intervenção precoce: Amniotomia/ocitocina na latente aumentam intervenções sem reduzir cesariana.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) Realizar amniotomia para acelerar o trabalho de parto.

    Alternativa incorreta. Em 4 cm (fase latente), não há protração/arresto. Amniotomia rotineira nesta fase aumenta risco de infecção e prolapso de cordão se apresentação alta; é mais indicada como adjuvante em fase ativa com protração.

    ❌ B) Administrar ocitocina para aumentar a intensidade das contrações uterinas.

    Alternativa incorreta. Sem diagnóstico de hipocontratilidade documentada e estando em fase latente, a primeira linha é conduta expectante. Ocitocina é reservada para protração/hipocontratilidade, preferencialmente em fase ativa (≥6 cm), com monitorização contínua.

    ✅ C) Diagnosticar como fase latente prolongada e aguardar evolução espontânea.

    Alternativa correta. Em nulípara com 4 cm que permanece sem progressão por 4 h, ainda está na fase latente. A conduta recomendada é expectante com suporte e vigilância materno-fetal. Critérios de arresto aplicam-se apenas a ≥6 cm.

    ❌ D) Diagnosticar como trabalho de parto estacionado e indicar cesariana imediata.

    Alternativa incorreta. “Arresto” exige fase ativa (≥6 cm) com ausência de dilatação por ≥4 h com atividade uterina adequada ou ≥6 h com ocitocina inadequadamente eficaz. Aos 4 cm, não se indica cesariana por estagnação.


    Take-home message

    • Fase ativa do 1º período inicia em ≥6 cm; não diagnosticar protração/arresto antes disso.
    • Nulípara em 4 cm está na fase latente: conduta é observação, analgesia e reavaliação seriada/partograma.
    • Ocitocina: iniciar 1–2 mU/min IV, subir 1–2 mU/min a cada 30–40 min até 3–5 contrações/10 min, com monitorização fetal contínua.
    • Red flag: Não indicar cesariana por “estagnação” em dilatação <6 cm sem outra indicação materno-fetal.
    • Amniotomia é adjuvante útil na fase ativa com protração; evite seu uso rotineiro na fase latente.

    Questão 15Acidente de trabalho e comunicação (CAT)

    Mulher, 42 anos, vem para atendimento de demanda espontânea da equipe de Estratégia de Saúde da Família (eSF) queixando-se de dor no joelho esquerdo após escorregar no piso molhado do supermercado em que trabalha como auxiliar de limpeza. Durante exame físico, observa-se escoriações, leve edema e dor à manipulação. Entre as condutas abaixo, a melhor a ser adotada à essa trabalhadora é prescrever sintomáticos, encaminhar para realização de Rx do joelho esquerdo para afastar fratura e

    • A)

      se constatada ausência, liberar paciente para retorno ao trabalho.

    • B)

      emitir a CAT e notificar no SINAN.

    • C)

      emitir a CAT.

    • D)

      encaminhar para o CEREST para avaliar necessidade de emissão da CAT.

    • E)

      encaminhar paciente para UPA para emissão da CAT.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Acidente típico de trabalho (queda em serviço) exige emissão imediata da CAT na APS. Notificação no SINAN só é obrigatória para acidente grave/fatal/menores de 18 anos.


    O que é: Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) é o registro oficial do nexo entre o agravo e o trabalho, previsto na Lei 8.213/91, art. 22.


    Por que importa: Garante direitos previdenciários (benefício B91 se afastamento > 15 dias), estabilidade e vigilância de saúde do trabalhador. A não emissão pode prejudicar o nexo e a reabilitação.


    Como identificar: Evento súbito no ambiente/horário de trabalho com lesão (entorse/contusão), como na queda em piso molhado no local de trabalho.


    Como manejar (regra prática): Avaliar gravidade, aplicar regra de imagem (ex.: Ottawa), prescrever analgésicos/medidas locais, solicitar RX quando indicado, emitir CAT no mesmo dia (ou até o 1º dia útil), orientar afastamento e reavaliação.


    Conduta & Posologia

    • Imagem inicial (joelho agudo – Ottawa Knee Rules): Solicitar RX se ≥55 anos, dor em cabeça da fíbula, dor patelar isolada, incapacidade de flexionar a 90° ou não suportar peso por 4 passos. Em APS brasileira, RX é aceitável para afastar fratura em trauma com dor/edema.

    • Medidas gerais: Repouso relativo por 24–48 h, gelo 15–20 min 3–4x/dia, elevação e compressão elástica.

    • Analgésicos de primeira linha: Dipirona 500–1.000 mg VO 6/6–8/8 h (máx. 4 g/dia) OU Paracetamol 500–750 mg VO 6/6–8/8 h (máx. 3 g/dia).

    • AINE (se dor/inflamação, sem contraindicações): Ibuprofeno 400 mg VO 8/8 h por 3–5 dias após refeições.

    • Ajustes: DRC (ClCr <30 mL/min): evitar ibuprofeno; preferir paracetamol (máx. 2–3 g/dia conforme função hepática). Hepatopatia (Child-Pugh B/C): reduzir paracetamol (máx. 2 g/dia) e evitar AINE.

    • Contraindicações principais AINE: Úlcera/ sangramento GI ativo, DRC moderada-grave, insuficiência cardíaca descompensada, uso concomitante de anticoagulante/antiagregante sem avaliação de risco.

    • Efeitos adversos relevantes: AINE: dispepsia, sangramento GI, nefrotoxicidade. Paracetamol: hepatotoxicidade em doses altas. Dipirona: agranulocitose (raro), hipotensão IV (não aplicável VO).

    • CAT (essencial neste caso): Emitir na eSF no mesmo dia ou até o 1º dia útil subsequente. Na omissão do empregador, pode ser emitida por médico/segurado/sindicato/autoridade pública.

    • Critérios de internação/UPA (agudo): Encaminhar se deformidade evidente, grande derrame hemático, incapacidade completa de apoiar, suspeita de fratura/luxação, déficit neurovascular, dor desproporcional, febre, ou comorbidade descompensada.

    • Tempo de reavaliação: 48–72 h (ou antes se piora). Afastamento laboral conforme dor/função; se >15 dias, orientar sobre benefício acidentário (B91).

    • Notificação SINAN: Somente se acidente de trabalho grave, fatal ou em menores de 18 anos (notificar em até 24 h). Entorse leve sem gravidade: não é de notificação compulsória.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) se constatada ausência, liberar paciente para retorno ao trabalho.

    Alternativa incorreta. Mesmo sem fratura, trata-se de acidente típico de trabalho. É obrigatória a emissão da CAT na APS no mesmo dia/1º dia útil. Liberar sem CAT prejudica o nexo e direitos previdenciários.

    ❌ B) emitir a CAT e notificar no SINAN.

    Alternativa incorreta. A CAT deve ser emitida, porém notificação no SINAN só é compulsória para acidente de trabalho grave, fatal ou em menores de 18 anos. Entorse leve sem gravidade não se enquadra.

    ✅ C) emitir a CAT.

    Alternativa correta. Acidente ocorrido no ambiente de trabalho. A emissão de CAT pela eSF é cabível e deve ser feita imediatamente (ou até o 1º dia útil), independentemente da existência de fratura. Fundamentação: Lei 8.213/91, art. 22.

    ❌ D) encaminhar para o CEREST para avaliar necessidade de emissão da CAT.

    Alternativa incorreta. O CEREST é serviço de apoio técnico e vigilância, não é gatekeeper para CAT. A APS pode e deve emitir diretamente a CAT.

    ❌ E) encaminhar paciente para UPA para emissão da CAT.

    Alternativa incorreta. A emissão da CAT pode ser feita na própria eSF pelo médico. Encaminhar à UPA retarda o registro e não agrega valor neste caso sem gravidade.


    Mensagem para levar para casa:

    • Acidente típico no trabalho exige emissão imediata de CAT na APS, mesmo sem fratura.
    • Notifique no SINAN apenas se grave, fatal ou em menor de 18 anos (prazo 24 h).
    • Analgesia inicial: Dipirona 500–1.000 mg VO 6/6–8/8 h ou Paracetamol 500–750 mg VO 6/6–8/8 h; AINE se sem contraindicação.
    • Red flags: deformidade, déficit neurovascular, incapacidade total de apoiar, suspeita de fratura/luxação → encaminhar UPA/ortopedia.
    • Prazo legal da CAT: até o 1º dia útil (imediato se óbito); se empregador omitir, o médico pode emitir.
    • Reavaliar em 48–72 h; afastamento conforme dor/função; >15 dias → avaliar benefício B91 (nexo acidentário).

    Questão 18Outros temas em parto

    Primigesta de 26 anos teve parto vaginal espontâneo e apresenta laceração perineal, demonstrada na figura a seguir:

    Assinale qual a classificação da laceração.

    • A)

      Lesão de 3 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal externo e interno.

    • B)

      Lesão de 3 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal interno e externo e mucosa retal.

    • C)

      Lesão de 4 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal externo e interno e mucosa retal.

    • D)

      Lesão de 4 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal externo e interno.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Lacerações perineais são classificadas pelo maior grau de acometimento. A presença de mucosa retal/epitélio anal caracteriza 4º grau (sempre).


    O que é: Lesão perineal no parto vaginal. Classificação padrão (OASIS quando há esfíncter):

    • 1º grau: pele/epitélio vaginal.
    • 2º grau: músculos perineais sem atingir esfíncter.
    • 3º grau: envolve esfíncter anal (EAS e/ou IAS), sem mucosa retal.
      - 3a: <50% do EAS; 3b: ≥50% do EAS; 3c: EAS + IAS.
    • 4º grau: EAS ± IAS e mucosa retal (ou epitélio anal).

    Por que importa: Erro de classificação/repair aumenta incontinência fecal, dor crônica e dispareunia.

    Como identificar: Inspeção sistemática + toque retal ao final da revisão perineal. Mucosa retal visível ou solução de continuidade ao toque = 4º grau.


    Mini-exemplo: Lesão até esfíncter, sem canal retal aberto ao toque → 3º grau; se há luz retal exposta → 4º grau.


    Conduta & Posologia

    • Local de reparo: 3º/4º graus → Centro cirúrgico, anestesia adequada, por profissional treinado em OASIS.
    • Antibioticoprofilaxia no reparo (recomendação de diretriz): dose única EV de amplo espectro no intraoperatório.
      Opção comum: Cefazolina 2 g EV + Metronidazol 500 mg EV (dose única) antes da sutura.
      Observação: Protocolos locais podem estender VO por 3–5 dias; quando adotado, usar Amoxicilina/Clavulanato 875/125 mg VO 12/12 h por 3–5 dias.

    • Laxativos (evitar esforço evacuatório por 10–14 dias): Lactulose 15–30 mL VO 12/12 h, ajustar para 1–2 evacuações macias/dia.
    • Analgesia: Paracetamol 500–750 mg VO 6/6–8/8 h ± Ibuprofeno 400 mg VO 8/8 h se sem contraindicações.

    • Cuidados locais: higiene perineal, gelo intermitente nas primeiras 24–48 h, evitar constipação; fisioterapia do assoalho pélvico na recuperação.

    • Reavaliação: 7–10 dias (ferida) e 6–12 semanas (função esfincteriana/continência). Sinais de alarme exigem avaliação imediata.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar para reparo de 3º/4º grau; manter observação 24 h se dor intensa, sangramento, comorbidades, ou dificuldade de controle da dor. Alta com retorno programado e orientações escritas.

    • Ajustes/precauções: DRC ClCr <30 mL/min: reduzir dose de cefazolina; evitar AINEs em DRC avançada. Alergia a beta-lactâmicos: usar alternativa (ex.: Clindamicina 900 mg EV + Gentamicina 5–7 mg/kg EV dose única intraop). Gestação não se aplica (puerpério imediato).
    • Efeitos adversos relevantes: Náusea (metronidazol), diarreia e candidíase (amoxi/clav), nefrotoxicidade/ototoxicidade (aminoglicosídeo).

    Discussão das alternativas

    ✅ C) Lesão de 4 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal externo e interno e mucosa retal.

    Alternativa correta. A presença de mucosa retal define o 4º grau, independentemente do comprometimento de EAS/IAS. Conduta: reparo em centro cirúrgico + antibiótico profilático + laxativo.

    ❌ A) Lesão de 3 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal externo e interno.

    Alternativa incorreta. Descrição é compatível com 3º grau tipo 3c (EAS + IAS), mas apenas se não houver mucosa retal comprometida. A imagem/descrição pedem 4º grau quando há mucosa.

    ❌ B) Lesão de 3 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal interno e externo e mucosa retal.

    Alternativa incorreta. Ao citar mucosa retal, a classificação deixa de ser 3º grau e passa a ser 4º grau.

    ❌ D) Lesão de 4 grau. Envolve músculos do períneo, esfíncter anal externo e interno.

    Alternativa incorreta. 4º grau requer, obrigatoriamente, mucosa retal lesionada. Sem mucosa, permanece no 3º grau (3a–3c conforme extensão).


    Mensagem para levar para casa:

    • 3º grau = esfíncter (EAS/IAS) sem mucosa; 4º grau = esfíncter + mucosa retal/epitélio anal.
    • Sempre realizar toque retal na revisão do períneo para não perder lesão de mucosa (define 4º grau).
    • Reparo de 3º/4º grau: centro cirúrgico, profissional treinado, antibiótico profilático EV e laxativos por 10–14 dias.
    • Esquema usual: Cefazolina 2 g EV + Metronidazol 500 mg EV (dose única) no intraop; considerar amoxi/clav VO 3–5 dias conforme protocolo local.
    • Red flags: febre, deiscência, dor intensa desproporcional, incontinência fecal, secreção purulenta → reavaliar imediatamente.



    Questão 18Anemia Falciforme

    Menino de 10 anos, portador de anemia falciforme, é admitido com febre, dor torácica e taquipneia. A gasometria arterial revela PaO₂ de 55 mmHg, e a radiografia de tórax demonstra infiltrado pulmonar multilobar, confirmando o diagnóstico de síndrome torácica aguda (STA). Iniciado tratamento com oxigenoterapia, hidratação venosa, ceftriaxona e azitromicina. Após 24 horas, a saturação de oxigênio permanece abaixo de 90%, e a hemoglobina caiu para 6,5 g/dL. Qual a conduta imediata indicada nesse momento?

    • A)

      Introduzir corticosteroide sistêmico em alta dose.

    • B)

      Indicar transfusão sanguínea, simples ou de troca.

    • C)

      Iniciar anticoagulação profilática com heparina.

    • D)

      Observar por 24h em UTI com suporte clínico.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Na síndrome torácica aguda (STA) da doença falciforme, hipóxia persistente ou queda de Hb são gatilhos para transfusão imediata; na gravidade, fazer troca.


    O que é: STA = novo infiltrado pulmonar + sintomas respiratórios (dor torácica, tosse, taquipneia, sibilos) e/ou febre, em paciente com hemoglobinopatia falciforme.


    Por que importa: Principal causa de internação e mortalidade em crianças com doença falciforme; hipoxemia mantém ciclo de falcização-vaso-oclusão-atelectasia.


    Como identificar (prova): Infiltrado novo (unilobar ou multilobar) + SpO₂ < 92–95% em ar ambiente ou PaO₂ < 70 mmHg; dor torácica/torácico-abdominal; febre; evolução rápida em 24–72 h. Mini-exemplo: criança com SCA, RX multilobar, PaO₂ 55 = gravidade.


    Conduta prática (regra que aprova): Oxigênio, antibiótico para germe típico/atípico, analgesia e fisioterapia/incentivador; transfusão se hipoxemia persistente, piora radiológica ou queda de Hb. Troca (eritrocitoaférese/manual) se hipoxemia grave/progressiva, acometimento multilobar extenso, falha de transfusão simples, ou necessidade rápida de reduzir HbS.


    Conduta & Posologia

    • Oxigenoterapia: Alvo de saturação ≥ 94–95%. Escalonar de O₂ por cânula até VNI conforme necessidade.

    • Antibiótico empírico (já iniciado no caso): Ceftriaxona 50–75 mg/kg/dia IV + Azitromicina 10 mg/kg no D1, depois 5 mg/kg/dia por 5–7 dias. Ajustar conforme cultura/gravidade.

    • Analgesia: Evitar hipoventilação. Opioide se dor moderada-grave, com monitorização respiratória. Associar AINE se não houver contraindicação.

    • Transfusão simples (concentrado de hemácias): Indicar se SpO₂ < 90–92% apesar de O₂, Hb < basal (queda significativa) ou progressão radiológica/sintomática. Dose: 10–15 mL/kg IV (hemácia HbS-negativa, leucorreduzida, fenotipada/match estendido C/E/K), visando Hb ~ 10 g/dL e evitar Hb > 10–11 g/dL para não aumentar viscosidade.

    • Transfusão de troca (eritrocitoaférese/manual): Indicar se hipoxemia grave (PaO₂ < 70 mmHg ou SpO₂ < 90% apesar de O₂), infiltrado multilobar extenso/progressivo, sinais de falência respiratória, não resposta à transfusão simples, ou necessidade rápida de reduzir HbS.

    • Meta: Hb ~ 10 g/dL e HbS < 30%.

    • Fisioterapia respiratória: Incentivador de espirometria prediz melhora; broncodilatador se sibilos.

    • Contraindicações/alertas de manejo: Evitar hiper-hidratação (risco TACO), corticosteroide rotineiro na STA não é recomendado (risco de rebote vaso-oclusivo), e anticoagulação profilática apenas se outra indicação.

    • Efeitos adversos e vigilância transfusional: Reações hemolíticas, febris não hemolíticas, TRALI, TACO, aloimunização e sobrecarga de ferro (em uso repetido).

    • Critérios de UTI: Necessidade de VNI/VM, SpO₂ < 90% ou PaO₂ < 70 mmHg apesar de O₂, infiltrado multilobar, acidose, rebaixamento do sensório, instabilidade hemodinâmica, necessidade de troca transfusional.

    • Reavaliação: Monitorar oximetria contínua, sinais respiratórios e Hb/Ht 4–6/6–8 h. Escalonar para troca se falha da transfusão simples.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Indicar transfusão sanguínea, simples ou de troca.

    Alternativa correta. Hipoxemia persistente (SpO₂ < 90%) e queda de Hb para 6,5 g/dL após 24 h configuram indicação de transfusão imediata. Em criança com Hb baixa e necessidade de elevar transporte de O₂, iniciar transfusão simples 10–15 mL/kg; considerar troca se hipoxemia grave (PaO₂ 55 mmHg), acometimento multilobar extenso ou falha clínica laboratorial após transfusão simples, visando Hb ~10 g/dL e HbS < 30%.

    ❌ A) Introduzir corticosteroide sistêmico em alta dose.

    Alternativa incorreta. Corticoide na STA não é rotina por risco de rebote vaso-oclusivo e readmissão. Pode ter papel em asma aguda concomitante, mas aqui a prioridade é corrigir hipóxia com transfusão.

    ❌ C) Iniciar anticoagulação profilática com heparina.

    Alternativa incorreta. Não há indicação primária de anticoagulação na STA sem trombose documentada ou outro fator de risco específico. Anticoagular sem diagnóstico aumenta risco de sangramento e não trata a hipoxemia.

    ❌ D) Observar por 24h em UTI com suporte clínico.

    Alternativa incorreta. Aguardar sem corrigir a hipóxia e a anemia agrava a fisiopatologia. A UTI pode ser necessária, mas a conduta imediata é transfundir (simples ou de troca) para reverter a hipoxemia e reduzir HbS.


    Mensagem para levar para casa:

    • STA: novo infiltrado + sintomas respiratórios; hipoxemia sustentada = gravidade e indica transfusão.
    • Transfusão simples: 10–15 mL/kg de CH, alvo Hb ~ 10 g/dL e evitar Hb > 10–11 g/dL.
    • Transfusão de troca: considerar se PaO₂ < 70 mmHg, SpO₂ < 90% refratária, infiltrado multilobar ou falha da simples; meta HbS < 30%.
    • Evite corticosteroide rotineiro na STA (risco de rebote) e anticoagulação sem indicação.
    • Use hemácias HbS-negativas, leucorreduzidas e fenotipadas (C/E/K) para reduzir aloimunização.
    • Critérios de UTI: necessidade de VNI/VM, hipoxemia grave, progressão multilobar, instabilidade.



    Questão 19ELEMENTOS DO PARTO - Bacia obstétrica

    Primigesta de 28 anos com idade gestacional de 41 semanas foi admitida para assistência ao trabalho de parto espontâneo. Negou comorbidades e não apresentou intercorrências durante o pré-natal. Oito horas após a admissão, evoluiu para período expulsivo, em posição de litotomia. Porém, após a exteriorização da cabeça, esta retraiu-se contra o períneo e não houve o desprendimento fetal. Diante deste quadro, qual deve ser a conduta inicial do médico?

    • A)

      Reposicionar a paciente promovendo hiperflexão das pernas e das coxas.

    • B)

      Realizar tração forte e contínua no polo cefálico e pressão no fundo uterino.

    • C)

      Introduzir a mão pelo vazio sacral e promover a adução do ombro anterior.

    • D)

      Realizar episiotomia medio-lateral ampla.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Distócia de ombros é emergência intraparto com risco de hipóxia e lesão do plexo braquial. A banca cobra a sequência correta das manobras: reconhecer (sinal da tartaruga), chamar ajuda, proibir tração e pressão no fundo uterino, iniciar McRoberts e pressão suprapúbica.


    Epidemiologia e Etiologia

    Incidência: ~0,2–3% dos partos vaginais; mais comum com macrossomia, diabetes mellitus, parto instrumental e segundo período prolongado. No Brasil, cenário típico envolve gestação a termo/tardio sem sinais prévios.

    Mecanismo: Impactação do ombro anterior no púbis materno após a saída da cabeça, impedindo o desprendimento dos ombros.


    Diagnóstico

    Definição operacional: Dificuldade no desprendimento dos ombros após a exteriorização da cabeça, exigindo manobras adicionais.

    Achado clássico: Sinal da tartaruga (retração da cabeça contra o períneo após a saída).

    Critério prático de prova: Cabeça exteriorizada sem saída dos ombros + retração cefálica = distócia de ombros até prova em contrário.


    Figura 1. Diâmetro biacromial no diâmetro anteroposterior da pelve. A: ombro anterior; B: ombro posterior.

    Fonte: Zugaib, Marcelo. Zugaib Obstetrícia. 5ª ed. Editora Manole, 2023. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.


    Conduta & Posologia 

    Passos iniciais obrigatórios: Anunciar a emergência, chamar ajuda (obstetra, neonatologia), zerar cronômetro, não realizar tração forte da cabeça e não realizar pressão no fundo uterino.

    Manobra de 1ª linha (McRoberts): Hiperflexão das coxas sobre o abdome materno em litotomia, retificando a pelve e aumentando o diâmetro ântero-posterior. Associar pressão suprapúbica dirigida póstero-lateral sobre o ombro anterior (técnica de Rubin I).

    Se falhar: Sequência escalonada: 1) McRoberts + pressão suprapúbica; 2) Manobras internas (Rubin II: aduzir ombro anterior por pressão na face posterior do ombro; Woods para-rosquear); 3) Libertar ombro posterior (Jacquemier); 4) Outras (posição de Gaskin em quatro apoios). Episiotomia pode ser necessária para acesso às manobras internas, mas não resolve a impactação óssea isoladamente.


    Figura 2. Assistência à distocia de biacromial.

    Nota-se que o auxiliar promove hiperflexão e abdução da coxa (A: manobra de McRoberts) e, ao mesmo tempo, exerce pressão suprapúbica sobre o ombro anterior impactado (B: manobra de Rubin). São necessários dois auxiliares, um de cada lado da paciente, para correto posicionamento dos membros inferiores.

    Fonte: Zugaib, Marcelo. Zugaib Obstetrícia. 5ª ed. Editora Manole, 2023. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.


    Evitar sempre: Pressão no fundo uterino (empurra o ombro mais contra o púbis) e tração cefálica vigorosa (risco de lesão do plexo braquial).


    Documentação e tempo: Registrar horários, manobras e respostas. Idealmente resolver em minutos; preparar reanimação neonatal.


    Critérios de encaminhamento/UTI materna-neonatal: Depende de intercorrências (hemorragia pós-parto, lacerações graves, acidose/índice de Apgar baixo), com avaliação conjunta obstetrícia-neonatologia.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Reposicionar a paciente promovendo hiperflexão das pernas e das coxas.

    Alternativa correta. É a manobra de McRoberts, conduta inicial recomendada na distócia de ombros, por aumentar o diâmetro funcional da pelve e facilitar a desimpactação do ombro anterior. Deve ser associada à pressão suprapúbica direcionada.


    ❌ B) Realizar tração forte e contínua no polo cefálico e pressão no fundo uterino.

    Alternativa incorreta. Contraindicado. Tração vigorosa da cabeça aumenta risco de lesão do plexo braquial; pressão no fundo uterino piora a impactação do ombro anterior. A conduta é McRoberts + pressão suprapúbica, sem tração forçada.


    ❌ C) Introduzir a mão pelo vazio sacral e promover a adução do ombro anterior.

    Alternativa incorreta. Descreve manobra interna do tipo Rubin II (pressão sobre a face posterior do ombro anterior para aduzi-lo), que é opção de segunda linha após falha de McRoberts + pressão suprapúbica.


    ❌ D) Realizar episiotomia medio-lateral ampla.

    Alternativa incorreta. Episiotomia não resolve a impactação óssea da distócia de omros. Pode ser útil apenas para ampliar o acesso às manobras internas, não sendo a conduta inicial.


    Take-home message

    • Distócia de ombros: cabeça sai e retrai (sinal da tartaruga) + ombros não desprendem = emergência intraparto.
    • Primeiro passo efetivo: McRoberts (hiperflexão das coxas) + pressão suprapúbica dirigida sobre ombro anterior (Rubin I).
    • Se falhar: manobras internas em sequência (Rubin II, Woods, liberação do ombro posterior); episiotomia apenas para facilitar acesso.
    • Red flag: Nunca tracionar fortemente a cabeça e nunca fazer pressão de fundo uterino.
    • Chame ajuda, marque tempo e prepare equipe neonatal desde o reconhecimento do quadro.

    Questão 20Câncer de Mama

    Mulher de 35 anos de idade procura avaliação de risco para câncer de mama. AP: nulípara, menarca aos 11 anos de idade. AF: câncer de mama em sua mãe aos 45 anos e na tia materna aos 50 anos. A conduta mais adequada, com base nas diretrizes FEBRASGO (2023), é realizar

    • A)

      ultrassonografia anual e iniciar tamoxifeno como quimioprevenção.

    • B)

      mamografia a cada 6 meses.

    • C)

      mamografia anual e iniciar tamoxifeno como quimioprevenção.

    • D)

      teste genético (BRCA1/2, PALB2).

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de prova: Mulher jovem (<40 anos) com múltiplos parentes de 1º e 2º graus maternos com câncer de mama, sendo um <50 anos, preenche critério de alto risco hereditário e a conduta prioritária é aconselhamento + teste genético (BRCA1/2, PALB2, etc.) antes de propor quimioprevenção.


    O que é: Risco hereditário de câncer de mama (síndromes BRCA1/2, PALB2, entre outras) é definido por agregação familiar e/ou idade precoce dos casos, orientando testagem genética e rastreamento intensificado.


    Por que importa: A confirmação de variante patogênica muda o rastreio (incluir RNM anual precoce), permite medidas redutoras de risco (cirúrgicas e farmacológicas) e orienta familiares.


    Como identificar: Critérios familiares clássicos: câncer de mama em parente de 1º grau <50 anos; dois ou mais parentes do mesmo lado da família (materno) com câncer de mama; história de ovário/pâncreas/próstata agressivo; masculino; carcinoma triplo-negativo <60 anos; ascendência de risco.


    Como manejar (regra prática para prova): Em mulher de 35 anos com mãe com câncer de mama aos 45 e tia materna aos 50, indique aconselhamento + teste genético (BRCA1/2, PALB2). Não se inicia tamoxifeno sem estratificar risco (modelos/critério genético) e não se faz mamografia semestral como rastreio.


    Conduta & Posologia


    Passo 1 (obrigatório): Encaminhar para aconselhamento genético e solicitar painel germinativo que inclua BRCA1/BRCA2 e PALB2.


    Rastreamento se variante patogênica confirmada: RNM de mamas anual a partir de 25–29 anos; mamografia anual a partir de 30 anos, associada à RNM até ~75 anos (ajustar caso a caso).


    Rastreamento se alto risco por modelo (risco vitalício ≥20–25%): alinhar a RNM anual + mamografia anual em idade precoce (tipicamente 30–35 anos), após aconselhamento.


    Quimioprevenção (somente após estratificação): Tamoxifeno 20 mg VO 1x/dia por 5 anos para mulheres ≥35 anos com alto risco (ex.: modelos como Tyrer–Cuzick ou Gail elevado), se sem contraindicação.


    Contraindicações: Gestação/lactação, história de TEV/AVE, câncer de endométrio ativo, uso de anticoncepcionais hormonais combinados durante tamoxifeno.


    Efeitos adversos relevantes (tamoxifeno): fogachos, aumento de risco de TEV, pólipo/hiperplasia/câncer de endométrio, catarata; interações com inibidores potentes de CYP2D6 (ex.: paroxetina).


    Ajustes: Tamoxifeno não requer ajuste renal; usar cautela em Child-Pugh B/C. Em pré-menopausa, tamoxifeno é preferível aos inibidores de aromatase.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Não aplicável ao rastreio; manejo é ambulatorial com seguimento programado. Reavaliar riscos/benefícios da quimioprevenção a cada 6–12 meses.


    • Discussão das alternativas

    ✅ D) teste genético (BRCA1/2, PALB2).

    Alternativa correta. Há forte suspeita de predisposição hereditária (mãe com câncer <50 anos + tia materna). Diretrizes FEBRASGO/INCA/SBM indicam aconselhamento e testagem genética nesta situação. O resultado define início/intensidade do rastreamento (RNM precoce) e opções de redução de risco.


    ❌ A) ultrassonografia anual e iniciar tamoxifeno como quimioprevenção.

    Alternativa incorreta. US mamária não é exame de rastreio isolado de 1ª linha; é complementar. Quimioprevenção com tamoxifeno só após confirmar alto risco por modelo validado ou mutação; aqui, o próximo passo é testagem genética, não iniciar fármaco de imediato.


    ❌ B) mamografia a cada 6 meses.

    Alternativa incorreta. Não há indicação de periodicidade semestral no rastreio. Mesmo em alto risco, usa-se mamografia anual associada à RNM anual conforme risco/mutação. Periodicidade semestral aumenta radiação sem ganho comprovado.


    ❌ C) mamografia anual e iniciar tamoxifeno como quimioprevenção.

    Alternativa incorreta. Antecipar mamografia anual sem definir o perfil hereditário pode ser subótimo; mutação positiva indicaria também RNM anual precoce. Tamoxifeno requer confirmação de alto risco/consentimento após aconselhamento; não é a etapa imediata.


    Take-home message

    • Parente de 1º grau com câncer de mama <50 anos + outro caso na mesma linhagem = indicação de aconselhamento e teste genético.
    • Confirmada mutação (ex.: BRCA1/2, PALB2): RNM anual (25–29 anos) + mamografia anual a partir de ~30 anos.
    • Quimioprevenção: Tamoxifeno 20 mg VO/dia por 5 anos apenas se alto risco confirmado e sem contraindicações.
    • Ultrassonografia não substitui mamografia/RNM no rastreio de alto risco; é exame complementar.
    • Evite mamografia semestral: não é recomendada e aumenta exposição à radiação sem benefício.

    Questão 20Tuberculose (TB)

    Paciente de 27 anos, em regime fechado em penitenciária, queixa-se de tosse há 2 semanas. Considerando a situação na qual se encontra esse paciente, o médico de família e comunidade deve

    • A)

      encaminhar para internação clínica, objetivando rapidez no diagnóstico e garantia da segurança.

    • B)

      solicitar radiografia de tórax, pesquisa laboratorial de Mycobacterium tuberculosis e garantir o tratamento em caso de positividade.

    • C)

      solicitar internação social, a fim de garantir tratamento supervisionado, observado diretamente por 6 meses, caso seja confirmada a tuberculose.

    • D)

      aguardar evolução, com uso de sintomáticos; caso a tosse persista por mais de 3 semanas, proceder à investigação diagnóstica de tuberculose.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema
    Âncora de memorização: Em ambientes de alta transmissão (prisões), tosse por ≥2 semanas já exige investigação imediata de tuberculose (TB) com TRM-TB/baciloscopia e radiografia de tórax. Tratamento é ambulatorial com TDO (tratamento diretamente observado).


    O que é: Sintomático respiratório em população privada de liberdade (PPL) = indivíduo com tosse há 2 ou mais semanas em ambiente de alto risco.

    Por que importa: Prisões têm alta prevalência/incidência de TB e risco de surtos; diagnóstico precoce reduz transmissão e mortalidade.

    Como identificar: Tosse ≥2 semanas em PPL + sintomas B (febre vespertina, sudorese noturna, perda ponderal) indicam coleta de escarro imediata para Mycobacterium tuberculosis e imagem de tórax. Teste preferencial: TRM-TB.

    Como manejar: Isolamento respiratório até afastar TB contagiosa, coleta de 1–2 amostras de escarro para TRM-TB/baciloscopia+cultura, radiografia de tórax, e início de esquema básico se confirmado. 


    Conduta 

    • Diagnóstico inicial (ambiente prisional): Coletar escarro imediatamente para TRM-TB (preferencial) e/ou baciloscopia; solicitar radiografia de tórax. Manter precauções respiratórias até resultado.

    • Esquema básico (adultos e adolescentes >= 10 anos): Fase intensiva 2 meses com RHZE e fase de manutenção 4 meses com RH.
    • Comprimidos de dose fixa combinada (FDC): RHZE 150/75/400/275 mg na fase intensiva; RH 150/75 mg na manutenção.

    • Posologia por peso (uso diário, via oral):
      • 20–35 kg: 2 cp/dia; 36–50 kg: 3 cp/dia; >50 kg: 4 cp/dia.

    • Ajustes em DRC: Etambutol e Pirazinamida exigem ajuste/intervalor maior quando ClCr <30 mL/min ou hemodiálise. Rifampicina e Isoniazida sem ajuste rotineiro.
    • Gestação: Esquema com RHZ é preconizado no Brasil; evitar estreptomicina (ototóxica fetal). Etambutol é considerado seguro.
    • Hepatopatia: Monitorar transaminases. Suspender temporariamente se TGO/TGP >=3x LSN com sintomas ou >=5x LSN sem sintomas.
    • Efeitos adversos relevantes: Hepatotoxicidade (R/H/Z), neurite óptica (E), neuropatia periférica (H; prevenir com piridoxina 25–50 mg/dia em risco), interações da rifampicina (indutor enzimático potente).
    • Interações críticas (rifampicina): Antirretrovirais, anticoagulantes cumarínicos, anticoncepcionais hormonais, azóis. Avaliar alternativas/barreiras.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se insuficiência respiratória, hemoptise maciça, TB meníngea/disseminada grave, instabilidade clínica, comorbidades descompensadas, ou complicações sociais que impeçam terapia. Em PPL, TDO é viável no sistema prisional (ambulatorial com observação direta).
    • Tempo de reavaliação/monitorização: Reavaliar em 2–4 semanas (clínica e adesão); baciloscopia de controle ao final do 2º mês se inicialmente positiva; monitorar efeitos adversos semanalmente no 1º mês.


    Armadilhas de prova:

    • Esperar 3 semanas de tosse em prisões é erro; inicie investigação com 2 semanas.
    • “Internação social” não é indicação; TDO resolve no ambiente prisional.
    • Diagnóstico de TB é prioritário com TRM-TB; cultura é complementar.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) solicitar radiografia de tórax, pesquisa laboratorial de Mycobacterium tuberculosis e garantir o tratamento em caso de positividade.

    Alternativa correta. Em população privada de liberdade, tosse há 2 semanas já caracteriza sintomático respiratório em ambiente de alto risco. Conduta: TRM-TB/baciloscopia de escarro e radiografia de tórax, com início do esquema básico e TDO se confirmado. Fundamentado em diretrizes brasileiras para prisões.

    ❌ A) encaminhar para internação clínica, objetivando rapidez no diagnóstico e garantia da segurança.

    Alternativa incorreta. Internação não é necessária para diagnóstico de TB pulmonar sem gravidade. A rapidez diagnóstica é obtida com TRM-TB ambulatorial em até 2 horas. Internar apenas se instabilidade, hemoptise maciça, insuficiência respiratória, formas graves ou impossibilidade absoluta de TDO.

    ❌ C) solicitar internação social, a fim de garantir tratamento supervisionado, observado diretamente por 6 meses, caso seja confirmada a tuberculose.

    Alternativa incorreta. “Internação social” não é preconizada. O TDO é organizado pela rede prisional/APS sem necessidade de leito hospitalar. Duração do tratamento é 6 meses, mas supervisionado em regime ambulatorial.

    ❌ D) aguardar evolução, com uso de sintomáticos; caso a tosse persista por mais de 3 semanas, proceder à investigação diagnóstica de tuberculose.

    Alternativa incorreta. Em prisões, aguardar até 3 semanas aumenta transmissão. Em ambientes fechados e de alto risco, investiga-se com 2 semanas de tosse.


    Take-home message

    • Em prisões, tosse ≥2 semanas = investigar TB imediatamente com TRM-TB e radiografia.
    • Tratamento padrão: 2RHZE/4RH em FDC; >50 kg: 4 cp/dia em ambas as fases.
    • TDO é obrigatório em PPL e geralmente dispensa internação.
    • Internar apenas com gravidade: insuficiência respiratória, hemoptise maciça, formas graves.
    • Monitorar hepatotoxicidade; suplementar piridoxina 25–50 mg/dia em risco para neuropatia por H.

    Questão 23Ventilação mecânica

    Um paciente de 7 anos encontra-se internado em UTI pediátrica devido a queimaduras que acometem 40% da superfície corpórea. Está intubado e em ventilação mecânica, sem necessidade de drogas vasoativas. Nas últimas 24 horas, apresentou piora ventilatória importante (radiografia de tórax a seguir). Não apresenta disfunção hemodinâmica grave; ecocardiograma funcional sem alterações.

    No momento, encontra-se em modo assistido-controlado, pressão controlada, com os seguintes parâmetros: PEEP: 8 cmH₂O; frequência respiratória: 30 irpm; pressão controlada (acima do PEEP): 18 cmH₂O; tempo inspiratório: 0,8 s; FiO₂: 100%; média de volume corrente: 7 mL/kg; pressão média das vias aéreas (Paw): 15 cmH₂O. Gasometria arterial: pH: 7,24; pCO₂ : 60; pO₂ : 100; bic: 23; BE: –2; SatO₂: 84%. Com base nos dados apresentados, assinale a alternativa que contenha o valor mais adequado do Índice de Oxigenação (IO) e a melhor conduta ventilatória a ser instituída nesse momento.

    • A)

      IO: 15 – Aumentar PEEP para 10, tentar baixar PC para 15, objetivando volume corrente de 4 a 6 mL/kg por ciclo ventilatório, diminuir FR para 25; tolerar hipercapnia até pH de 7,2.

    • B)

      IO: 18 – Aumentar PEEP para 12, tentar baixar PC para 15, objetivando volume corrente de 4 a 6 mL/kg por ciclo ventilatório; tolerar hipercapnia até pH de 7,15.

    • C)

      IO = 15 – Aumentar PEEP para 10, aumentar PC para 20, objetivando melhora do volume corrente e da hipercapnia; diminuir FR para 22.

    • D)

      IO = 18 – Aumentar PEEP para 10, manter PC em 18, com alvo de volume corrente de 6 a 8 mL/kg por ciclo ventilatório; diminuir FR para 25.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em SDRA pediátrica, a gravidade é estratificada pelo Índice de Oxigenação (IO) = (FiO₂ × Pressão média das vias aéreas [Paw] × 100) / PaO₂. Alvo ventilatório é proteção pulmonar: volume corrente (VT) 4–6 mL/kg, PEEP suficiente para recrutar, e hipercapnia permissiva quando segura.


    O que é e por que importa: O IO integra a FiO₂, a Paw e a PaO₂, refletindo troca gasosa sob suporte. Em pediatria (PALICC), classifica SDRA: leve (IO 4–8), moderada (8–16), grave (>16). Define escalonamento ventilatório e necessidade de adjuvantes.


    Como identificar no caso: Dados: FiO₂ = 1,0; Paw = 15 cmH₂O; PaO₂ = 100 mmHg. Logo, IO = (1,0 × 15 × 100)/100 = 15 ⇒ SDRA moderada (limítrofe para grave). Gasometria com hipercapnia (pCO₂ 60) e acidemia (pH 7,24) compatíveis com estratégia protetora e necessidade de ajustes finos.


    Como manejar (regra prática): Otimize PEEP para recrutar (subir de 8 → 10 cmH₂O), reduza driving pressure (baixar pressão controlada se VT for >6 mL/kg), mantenha VT 4–6 mL/kg, ajuste FR para manter pH ≥ 7,20 (hipercapnia permissiva). Reavaliar em 30–60 min com gasometria e mecânica.


    Conduta & Posologia

    • Estratégia ventilatória imediata: Aumentar PEEP para 10 cmH₂O; ajustar pressão controlada visando VT 4–6 mL/kg; reduzir FR para 25 irpm; manter tempo inspiratório 0,8–1,0 s conforme conforto e auto-PEEP; tolerar hipercapnia com pH alvo ≥ 7,20.

    • Metas de oxigenação: PaO₂ 55–80 mmHg ou SpO₂ 88–92% em SDRA; reduzir FiO₂ gradualmente assim que possível para ≤ 0,6 após subir PEEP.

    • Sedação/analgesia (se necessário para sincronia): Fentanil bolus 0,5–1 mcg/kg, depois infusão 1–2 mcg/kg/h IV; Midazolam 0,05–0,2 mg/kg/h IV. Ajustar em DRC/hepática e monitorar delirium e hipotensão.

    • Bloqueador neuromuscular (curta duração, se dessincronia refratária/hipoxemia grave): Cisatracúrio bolus 0,1–0,2 mg/kg, infusão 1–3 mcg/kg/min IV. Evitar uso prolongado; reavaliar necessidade a cada 12–24 h.

    • Contraindicações/alertas: Cautela com hipercapnia em hipertensão intracraniana, arritmias, hipertensão pulmonar grave; evitar VT > 6 mL/kg na SDRA.

    • Critérios de escalonamento/UTI: Já em UTI. Escalonar se IO ≥ 16 ou SpO₂/PaO₂ não atingíveis apesar de PEEP alto: considerar posição prona, recrutamento individualizado, óxido nítrico inalatório (falha grave), ECMO em centro habilitado.

    • Monitorização e reavaliação: Gasometria e mecânica ventilatória em 30–60 min após ajustes; metas: pH ≥ 7,20; SpO₂ 88–92%; redução gradual de FiO₂ mantendo oxigenação.



    Discussão das alternativas

    ✅ A) IO: 15 – Aumentar PEEP para 10, tentar baixar PC para 15, objetivando volume corrente de 4 a 6 mL/kg por ciclo ventilatório, diminuir FR para 25; tolerar hipercapnia até pH de 7,2.

    Alternativa correta. Cálculo: IO = (FiO₂ 1,0 × Paw 15 × 100)/PaO₂ 100 = 15. Conduta segue estratégia protetora pediátrica (PALICC): subir PEEP para recrutar, reduzir driving pressure mantendo VT 4–6 mL/kg e aceitar hipercapnia com pH ≥ 7,20. Reduzir FR ajuda a limitar auto-PEEP e permite tempo expiratório adequado.

    ❌ B) IO: 18 – Aumentar PEEP para 12, tentar baixar PC para 15, objetivando volume corrente de 4 a 6 mL/kg por ciclo ventilatório; tolerar hipercapnia até pH de 7,15.

    Alternativa incorreta. O IO calculado com os dados é 15 (não 18). Além disso, alvo de pH 7,15 é mais permissivo do que o recomendado de rotina em pediatria; almeja-se geralmente pH ≥ 7,20, reservando pH mais baixos a situações selecionadas e com monitorização rigorosa.

    ❌ C) IO = 15 – Aumentar PEEP para 10, aumentar PC para 20, objetivando melhora do volume corrente e da hipercapnia; diminuir FR para 22.

    Alternativa incorreta. Aumentar a pressão controlada para elevar VT contraria a proteção pulmonar na SDRA (risco de volutrauma). O alvo é VT 4–6 mL/kg e reduzir driving pressure, não aumentá-la.

    ❌ D) IO = 18 – Aumentar PEEP para 10, manter PC em 18, com alvo de volume corrente de 6 a 8 mL/kg por ciclo ventilatório; diminuir FR para 25.

    Alternativa incorreta. IO está errado (é 15). Além disso, alvo de VT 6–8 mL/kg excede o recomendado em pediatria com SDRA; deve-se preferir 4–6 mL/kg para minimizar volutrauma e driving pressure.


    Mensagem para levar para casa:

    • Índice de Oxigenação (IO) = (FiO₂ × Paw × 100)/PaO₂; aqui: 15 (SDRA pediátrica moderada).
    • Ventilação protetora pediátrica: VT alvo 4–6 mL/kg, reduzir driving pressure, otimizar PEEP (ex.: 8 → 10 cmH₂O).
    • Hipercapnia permissiva é aceitável com pH ≥ 7,20; ajuste FR/PC conforme mecânica e gasometria.
    • Metas de oxigenação: SpO₂ 88–92% ou PaO₂ 55–80 mmHg; reduza FiO₂ assim que possível após aumentar PEEP.
    • Evite VT > 6 mL/kg e picos de pressão; cautela com hipercapnia em HIC, arritmias, hipertensão pulmonar.
    • Reavalie em 30–60 min após ajustes (gasometria, mecânica, hemodinâmica); escalone se IO ≥ 16.

    Questão 23Vacinas / Imunização

    Adolescente de 13 anos recebeu a primeira dose da vacina dengue há dois meses e está atualmente com dengue. Ainda é necessário realizar a segunda dose?

    • A)

      Não é necessário receber a segunda dose pois a própria doença vai conferir proteção duradoura.

    • B)

      Não, pois os anticorpos produzidos pela doença irão impedir a resposta à vacina, que é atenuada.

    • C)

      Sim, pois a vacina é quadrivalente e protegerá para os outros três tipos de vírus dengue, não responsáveis pela infecção atual.

    • D)

      Sim, pois a infecção natural, não confere imunidade duradoura.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Esquema da vacina dengue (TAK-003/Qdenga) no PNI, conduta quando há infecção natural entre as doses e fundamento imunológico (sorotipos).


    Epidemiologia e Etiologia: Alta transmissão com cocirculação de múltiplos sorotipos (DENV-1 a DENV-4) e elevada carga em adolescentes; campanha do PNI prioriza inicialmente 10–14 anos.


    • Imunidade pós-infecção natural: Proteção duradoura e sorotipo-específica (contra o sorotipo causador). Para outros sorotipos, a proteção é incompleta e pode haver maior risco de formas graves na reinfecção por sorotipo distinto.

    • Padrão operacional: Diagnóstico clínico-epidemiológico com confirmação laboratorial (antígeno NS1/RT-PCR até o 5º dia; sorologia a partir do 6º dia).

    • Implica na vacinação: Doença aguda moderada/grave é adiar vacinação até recuperação clínica; história prévia de dengue não contraindica esquema da vacina dengue TAK-003.

    Conduta 

    • Esquema vacinal (PNI, Qdenga/TAK-003): 2 doses (0 e 3 meses), via subcutânea, para faixa etária priorizada (10–14 anos na rede pública).
    • Se houve dengue entre D1 e D2: Completar o esquema após recuperação clínica (sem febre e bom estado geral) e respeitar o intervalo mínimo de 3 meses desde a primeira dose. Se a segunda dose estiver atrasada, não reiniciar: aplicar assim que possível.
    • Indicação: História de dengue prévia não é contraindicação; a vacina é tetravalente e visa proteção contra todos os sorotipos (DENV-1 a DENV-4).
    • Contraindicações (principais): Hipersensibilidade a componentes; doença aguda febril moderada/grave (adiar); imunodeficiências graves; gestação.
    • Efeitos adversos relevantes: Dor no local, cefaleia, mialgia e febre baixa autolimitada. Eventos graves são raros e sob vigilância pós-comercialização.
    • Seguimento: Agendar D2 no marco de 3 meses da D1; se intercorrência (ex.: dengue), reprogramar para após recuperação mantendo o intervalo mínimo. Documentar no cartão e no SI-PNI.

    Armadilha de prova: Confundir Qdenga (TAK-003) com a vacina antiga (Dengvaxia). No PNI atual, Qdenga independe do sorostatus prévio e mantém esquema 0–3 meses.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Sim, pois a vacina é quadrivalente e protegerá para os outros três tipos de vírus dengue, não responsáveis pela infecção atual.

    Alternativa correta. Diretriz do Ministério da Saúde prevê completar o esquema 2 doses (0 e 3 meses) mesmo após dengue entre as doses, desde que o adolescente esteja recuperado e respeitado o intervalo mínimo. A vacina é tetravalente e amplia a proteção para os demais sorotipos, alvo central da estratégia populacional.

    ❌ A) Não é necessário receber a segunda dose pois a própria doença vai conferir proteção duradoura.

    Alternativa incorreta. A infecção natural confere proteção duradoura somente contra o sorotipo causador. Não substitui a proteção contra os outros sorotipos. Conduta correta: completar a segunda dose após recuperação, mantendo o intervalo mínimo de 3 meses.

    ❌ B) Não, pois os anticorpos produzidos pela doença irão impedir a resposta à vacina, que é atenuada.

    Alternativa incorreta. Não há recomendação de cancelar o esquema por "interferência" de anticorpos. O que se faz é adiar na vigência de doença aguda e manter o esquema após recuperação clínica, respeitando o intervalo de 3 meses entre as doses.

    ❌ D) Sim, pois a infecção natural, não confere imunidade duradoura.

    Alternativa incorreta. O motivo apresentado está errado: a infecção natural confere imunidade duradoura, porém sorotipo-específica. A razão para completar a D2 é proteger contra os outros sorotipos e consolidar a resposta vacinal.


    Take-home message

    • Vacina dengue (TAK-003/Qdenga) no PNI: 2 doses (0 e 3 meses), via subcutânea, inicialmente para 10–14 anos.
    • Se o adolescente teve dengue entre as doses, completar o esquema após recuperação clínica, mantendo o intervalo mínimo de 3 meses desde a D1.
    • Infecção natural protege sobretudo contra o mesmo sorotipo; a vacina é tetravalente e amplia a proteção populacional.
    • Atraso da D2: não reiniciar o esquema; aplicar assim que possível.
    • Red flag: Não vacinar durante doença febril moderada/grave; adiar até recuperação.

    Questão 24PALS

    Menina, 10 anos de idade, previamente diabética tipo I, em uso de insulina regular e NPH, é trazida pela mãe devido a vômitos incoercíveis, sonolência excessiva e confusão mental. A criança é encaminhada imediatamente à sala de emergência, devido mau estado geral e Glasgow de 3. Aventado hipótese diagnóstico de cetoacidose diabética e colhido exames laboratoriais com os resultados apresentados a seguir: • Exames laboratoriais: Gasometria: pH: 6.8 pCO₂: 20 mmHg Lactato: 10 mmol/L BE: -25 mmol Na⁺: 135 mmol/L K⁺: 3,3 mmol/L Cl⁻: 100 mmol/L HCO₃ ⁻: 5 mmol/L Creatinina: 0.9 mg/dL Ureia: 30 mg/dL Hb: 14 g/dL Ht: 42% Leucócitos: 8.000/μL Plaquetas: 250.000/μL Durante atendimento, criança evolui com parada cardiorrespiratório em ritmo não chocável. Assinale a alternativa que apresenta a medicação mais indicada para ser utilizada durante o atendimento da parada cardiorrespiratória da paciente.

    • A)

      Epinefrina.

    • B)

      Bicarbonato de sódio.

    • C)

      KCl 19,1 % 1 mL/kg.

    • D)

      Gluconato de cálcio 1 mL/kg.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em PCR pediátrica em ritmo não chocável (assistolia/atividade elétrica sem pulso), a medicação de primeira linha é a epinefrina EV/IO precoce, repetida a cada 3–5 minutos. Bicarbonato, cálcio e potássio não são drogas de rotina na PCR.

    O que é: Parada cardiorrespiratória (PCR) em pediatria com ritmo não chocável exige RCP de alta qualidade e vasopressor (epinefrina) para restaurar perfusão coronariana e cerebral.


    Por que importa: A epinefrina aumenta a pressão de perfusão coronariana via efeito alfa-1, melhorando chances de retorno da circulação espontânea (ROSC). Outras drogas têm uso restrito a causas específicas (hipercalemia, hipocalcemia, intoxicações) e podem ser deletérias se usadas indiscriminadamente.

    Como identificar: Ritmo não chocável no monitor (assistolia/AESP), ausência de pulso, paciente inconsciente/apneico. Na questão, há DKA grave (pH 6,8, HCO3- 5, lactato 10) e PCR em ritmo não chocável.


    Como manejar (essencial para prova): - Iniciar RCP imediata, checar ritmo a cada 2 min, epinefrina 0,01 mg/kg (0,1 mL/kg da solução 1:10.000) EV/IO a cada 3–5 min. - Tratar causas reversíveis (Hs e Ts). Bicarbonato NÃO é de rotina, mesmo com pH muito baixo, salvo indicações específicas. - Bicarbonato pode ser considerado em hiperpotassemia com instabilidade, hiperK/hipercalemia, intoxicação por tricíclicos e acidose metabólica grave refratária com RCP prolongada, após ventilação adequada. - Cálcio EV apenas em hipercalemia com alterações eletrocardiográficas, hipocalcemia sintomática ou intoxicação por bloqueador de canal de cálcio.


    Conduta & Posologia

    • Epinefrina (PCR pediátrica, primeira linha): 0,01 mg/kg EV/IO por dose (0,1 mL/kg da solução 1:10.000), a cada 3–5 min. Sem dose máxima prática por dose; em adolescentes grandes pode-se usar 1 mg por dose como no adulto.
    • Bicarbonato de sódio (NÃO de rotina na PCR): se indicação específica, 1–2 mEq/kg EV (solução 8,4% = 1 mEq/mL; 4,2% = 0,5 mEq/mL), infundir lento após ventilação adequada. Evitar em DKA de rotina (risco de piorar edema cerebral).

    • Gluconato de cálcio 10% (indicações restritas): 60–100 mg/kg de solução 10% EV lento (equivale a 0,6–1 mL/kg), monitorizando ECG. Usar em hipercalemia com ECG, hipocalcemia sintomática, intoxicação por BCC.
    • Cloreto de potássio (KCl): Não administrar durante PCR. Reposição pós-ROSC se hipocalemia documentada, tipicamente 0,3–0,5 mEq/kg/h EV com monitorização contínua.

    • Contraindicações chave: Bicarbonato em DKA pediátrica (aumenta risco de edema cerebral), KCl em PCR, cálcio IM.
    • Efeitos adversos relevantes: Epinefrina (taquiarritmias), bicarbonato (alcalose, hipernatremia, hipocalemia, acidose paradoxal no SNC), cálcio (bradicardia, extravasamento com necrose), KCl (arritmias fatais se bolo).
    • Ajustes/Populações especiais: Doses em mg/kg já contemplam pediatria. Em DRC, reduzir velocidade de KCl pós-ROSC e monitorar K+ frequente. Em hiperK/DRC, cálcio pode ser necessário, mas apenas se indicado.

    • Critérios de UTI vs. ambulatorial: Pós-ROSC, UTI pediátrica obrigatória para controle glicêmico/eletrólitos, ventilação e neuroproteção. Sem ROSC, manter protocolo de RCP avançada conforme diretriz.
    • Monitorização/tempo: Checar ritmo a cada 2 min, epinefrina a cada 3–5 min, glicemia capilar seriada, gás a cada 15–30 min pós-ROSC, metas de PaCO2/PaO2 e temperatura.

    Armadilhas de prova:

    • pH muito baixo (< 6,9) em DKA NÃO indica bicarbonato de rotina durante PCR.
    • K+ baixo (3,3) descarta indicação de cálcio ou KCl na PCR.

    Discussão das alternativas

    ✅ A) Epinefrina.

    Alternativa correta. Droga de primeira linha na PCR pediátrica em ritmos não chocáveis. Dose: 0,01 mg/kg EV/IO por dose (0,1 mL/kg da solução 1:10.000), repetir a cada 3–5 min. Melhora pressão de perfusão coronariana (efeito alfa-1) e taxa de ROSC.

    ❌ B) Bicarbonato de sódio.

    Alternativa incorreta. Não é de rotina na PCR; mesmo com acidose grave da DKA (pH 6,8), o bicarbonato pode causar acidose paradoxal no SNC, hipernatremia e piora do prognóstico neurológico. Uso reservado a hiperK, intoxicação por tricíclicos ou acidose refratária com RCP prolongada, após otimizar ventilação.

    ❌ C) KCl 19,1 % 1 mL/kg.

    Alternativa incorreta. Contraindicado administrar potássio em bolo durante PCR; risco de arritmias fatais. Além disso, o K+ da paciente é 3,3 mmol/L (hipocalemia leve), mas correções de potássio só são feitas após ROSC e com monitorização lenta EV.

    ❌ D) Gluconato de cálcio 1 mL/kg.

    Alternativa incorreta. Cálcio é indicado em hipercalemia com alterações no ECG, hipocalcemia sintomática ou intoxicação por bloqueadores de canal de cálcio. Aqui o K+ está baixo (3,3) e não há indício de hipocalcemia; portanto, não há indicação.


    Mensagem para levar para casa:

    • PCR pediátrica em ritmo não chocável: inicie RCP de alta qualidade e administre epinefrina 0,01 mg/kg EV/IO a cada 3–5 min.
    • Bicarbonato não é de rotina; considere apenas em hiperK, intoxicação por tricíclicos ou acidose refratária após ventilação adequada.
    • Evite KCl em PCR (nunca em bolo) e cálcio sem indicação.
    • Checar ritmo a cada 2 min; priorize causas reversíveis (Hs e Ts) e a qualidade da RCP.
    • Em DKA pediátrica, bicarbonato aumenta risco de edema cerebral; manejo foca em fluido, insulina e correção gradual de eletrólitos pós-ROSC.

    Questão 24Vulvovaginites

    Paciente de 27 anos, previamente saudável, apresenta prurido vulvar intenso e dispareunia, associado a corrimento esbranquiçado e grumoso. Refere quatro episódios semelhantes no último ano, todos tratados com antifúngicos tópicos, porém com recidiva após algumas semanas. Exame ginecológico evidencia hiperemia vulvar e secreção branca, grumosa, aderida às paredes vaginais, sem odor. Considerando o caso apresentado, assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, diagnóstico e manejo CORRETOS:

    • A)

      Candidíase vulvovaginal complicada; avaliação da espécie fúngica por cultura de secreção vaginal e tratamento tópico vaginal com miconazol por sete dias

    • B)

      Candidíase vulvovaginal complicada; pesquisa do pH vaginal, microscopia a fresco e tratamento tópico vaginal com ácido bórico por 14 dias

    • C)

      Candidíase vulvovaginal recorrente; pesquisa de espécies não-albicans por cultura de secreção vaginal e tratamento oral com fluconazol por seis meses

    • D)

      Candidíase vulvovaginal recorrente; pesquisa de espécies não-albicans por teste molecular na secreção vaginal e tratamento oral com fluconazol por sete dias

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Candidíase vulvovaginal recorrente = ≥4 episódios sintomáticos/ano. É subtipo de forma complicada e exige confirmação etiológica (espécie) e esquema de indução + manutenção prolongada.

    O que é e por que importa: Infecção por Candida com prurido intenso, corrimento branco grumoso e hiperemia. A forma recorrente tem maior chance de espécies não-albicans e resistência aos azóis, exigindo cultura e supressão com fluconazol por 6 meses para reduzir recidiva.

    Como identificar: Quadro clínico típico; pH vaginal usualmente normal (<4,5); microscopia a fresco pode falhar em até 50% dos casos — por isso, em recorrência, cultura com identificação de espécie é recomendada. Pesquisar fatores predisponentes: uso recente de antibióticos, diabetes mellitus, imunossupressão e gestação.

    Padrão-ouro diagnóstico na recorrência: Cultura de secreção vaginal com identificação da espécie (e teste de suscetibilidade se falha terapêutica).


    Conduta & Posologia

    • Esquema de 1ª linha (recorrente por C. albicans): Indução com Fluconazol 150 mg VO nos dias 1, 4 e 7, seguida de manutenção com Fluconazol 150 mg VO 1x/semana por 6 meses. (Alternativa: 100 mg ou 200 mg/semana conforme disponibilidade e tolerância)
    • Ajuste em DRC: Se ClCr ≤ 50 mL/min, reduzir a dose de manutenção do fluconazol em ~50%. Dose de ataque usual pode ser mantida. Monitorar função renal/hepática.
    • Hepatopatia: Usar com cautela; monitorar transaminases. Suspender se hepatotoxicidade clinicamente significativa.
    • Gestação: Evitar fluconazol VO (risco teratogênico dose-dependente). Preferir imidazólicos tópicos por 7–14 dias.
    • Se espécie não-albicans ou falha ao azólico: Ácido bórico 600 mg intravaginal 1x/noite por 14 dias; considerar manutenção tópica intermitente. Encaminhar se persistência. Alerta de Segurança Crítico: O ácido bórico é altamente tóxico e fatal se ingerido por via oral.
    • Efeitos adversos relevantes (fluconazol): Náusea, dor abdominal, elevação de transaminases, prolongamento do QT. Interações: varfarina (↑INR), sulfonilureias (hipoglicemia), fenitoína, ciclosporina.
    • Critérios de internação vs ambulatorial: Tratamento é ambulatorial. Internação não indicada na candidíase vulvovaginal não complicada/complicada; exceções raríssimas (imunossupressão grave com infecção sistêmica — outro diagnóstico).
    • Reavaliação e monitorização: Reavaliar se persistência após 14 dias; repetir cultura e suscetibilidade. Durante manutenção, reavaliar em 6–12 semanas e ao término dos 6 meses. Investigar e controlar fatores de risco (glicemia/HbA1c, antibióticos, contraceptivos de alta dose).
    • Armadilhas de prova: pH vaginal normal não exclui candidíase; NAAT não substitui cultura para espécie/suscetibilidade; terapia apenas tópica não previne recidiva. Tratamento do Parceiro: Não é recomendado de rotina.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Candidíase vulvovaginal complicada; avaliação da espécie fúngica por cultura de secreção vaginal e tratamento tópico vaginal com miconazol por sete dias

    Alternativa incorreta. Embora a recorrente faça parte das complicadas e a cultura seja apropriada, tratamento apenas tópico por 7 dias não é manejo correto da forma recorrente. É necessário indução + manutenção com fluconazol por 6 meses para reduzir recidivas.

    ❌ B) Candidíase vulvovaginal complicada; pesquisa do pH vaginal, microscopia a fresco e tratamento tópico vaginal com ácido bórico por 14 dias

    Alternativa incorreta. pH e microscopia são úteis, mas na recorrência é obrigatória a avaliação etiológica (cultura). Ácido bórico é indicado sobretudo para espécies não-albicans ou resistência a azóis. No caso típico (provável C. albicans recorrente), o manejo correto é fluconazol com manutenção prolongada.

    ✅ C) Candidíase vulvovaginal recorrente; pesquisa de espécies não-albicans por cultura de secreção vaginal e tratamento oral com fluconazol por seis meses

    Alternativa correta. Define corretamente a condição (≥4 episódios/ano), indica cultura para identificar espécies não-albicans e propõe supressão oral por 6 meses, conforme diretrizes (indução com 150 mg nos dias 1, 4, 7 e manutenção 150 mg semanal por 6 meses).

    ❌ D) Candidíase vulvovaginal recorrente; pesquisa de espécies não-albicans por teste molecular na secreção vaginal e tratamento oral com fluconazol por sete dias

    Alternativa incorreta. Testes moleculares não substituem a cultura para identificação de espécie/suscetibilidade. Além disso, 7 dias de fluconazol é insuficiente; é necessário regime de indução e manutenção semanal por 6 meses.


    Take-home message

    • Candidíase vulvovaginal recorrente = ≥4 episódios/ano; é subtipo de complicada e requer estratégia de supressão.
    • Confirmar com cultura vaginal e identificar espécie; considerar suscetibilidade se falha terapêutica.
    • Esquema: Fluconazol 150 mg VO nos dias 1, 4, 7 (indução) + 150 mg VO 1x/semana por 6 meses (manutenção).
    • Gestação: evitar fluconazol VO; preferir azóis tópicos 7–14 dias.
    • Não-albicans/azóis-resistente: ácido bórico 600 mg intravaginal por 14 dias.
    • Avaliar e corrigir fatores predisponentes (antibióticos, DM, imunossupressão) e monitorar enzimas hepáticas e interações do fluconazol.

    Questão 25O Recém-nascido pré-termo

    Recém-nascido filho de mãe com Hellp Sindrome, com peso de nascimento de 900 g e idade gestacional ao nascimento de 28 semanas, é admitido na Unidade Neonatal. Qual é a complicação mais provável nas primeiras horas de vida?

    • A)

      Apneia.

    • B)

      Convulsões.

    • C)

      Hipoglicemia.

    • D)

      Hipomagnesemia.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de prova: RN prematuro extremo/MBP (900 g, 28 semanas) filho de mãe com pré-eclâmpsia/HELLP é tipicamente restrito de crescimento e com estoques reduzidos de glicogênio → maior risco de hipoglicemia nas primeiras horas. Apneia da prematuridade tende a aparecer após 24–48 h; crises convulsivas são menos prevalentes que hipoglicemia inicial; hipomagnesemia não é típica (mães recebem sulfato de magnésio → risco é hipermagnesemia neonatal).


    O que é: Hipoglicemia neonatal = glicemia abaixo de limiares operacionais que variam nas primeiras 24–48 h. Em prematuros/RCIU, o risco é maior pela baixa reserva hepática e imaturidade da gliconeogênese.

    Por que importa: É a complicação metabólica mais frequente nas primeiras horas em prematuros/RCIU; pode causar lesão neurológica se não reconhecida e tratada prontamente.


    Como identificar (operacional): Em UTIN, checar glicemia capilar/plasmática nas 1–2 primeiras horas e antes das dietas. Limiar prático para intervenção (varia por protocolo): RN sintomático ou prematuro/RCIU com glicemia < 40 mg/dL nas primeiras 4 h ou < 45 mg/dL entre 4–24 h → tratar imediatamente.


    Mecanismo-chave: Estoques baixos de glicogênio, imaturidade enzimática da gliconeogênese, maior consumo relativo e estresse perinatal → hipoglicemia precoce.


    Conduta & Posologia

    • Triagem/monitorização: Aferir glicemia na 1ª–2ª hora e antes de cada oferta por 24–48 h em prematuros/RCIU.
    • Tratamento imediato (UTIN): Se glicemia abaixo do limiar ou sintomas (irritabilidade, letargia, cianose, convulsão, apneia): - Bolo IV de glicose 10%: 2 mL/kg (200 mg/kg) em 3–5 min. - Iniciar infusão contínua: 4–6 mg/kg/min (prematuro frequentemente 6–8 mg/kg/min). Ex.: Glicose 10% a ~60–80 mL/kg/dia ajustando pela taxa de infusão de glicose. - Rechecar glicemia em 30 min e ajustar 1–2 mg/kg/min até alvo 50–70 mg/dL (evitar hiperglicemia).

    • Manutenção/enteral: Introduzir nutrição enteral mínima precoce conforme estabilidade; evitar jejum prolongado.
    • O que não fazer: Não usar glicose 50% em bolus IV (risco de extravasamento e rebote).
    • Ajustes/particularidades: Prematuros extremos costumam requerer taxas mais altas de infusão. Ajustar fluidos conforme balanço hídrico e eletrólitos; não há ajuste específico por DRC/Child-Pugh nesta fase.

    • Efeitos adversos/alertas: Hiperglicemia, osmolalidade elevada, lesão por extravasamento de soluções hipertônicas, hiponatremia dilucional.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Prematuro 28s/900 g tem indicação absoluta de UTIN para monitorização contínua (glicemia de hora em hora nas primeiras 6 h, depois a cada 3–4 h enquanto instável).

    Nota: Protocolos variam; use os limiares do seu serviço. As cifras acima são faixas seguras adotadas por diretrizes pediátricas.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Hipoglicemia.

    Alternativa correta. Prematuro extremo/RCIU tem baixa reserva de glicogênio e imaturidade metabólica → hipoglicemia é a complicação mais provável nas primeiras horas. Requer rastreio e tratamento imediato com glicose 10% 2 mL/kg em bolus + infusão contínua.

    ❌ A) Apneia.

    Alternativa incorreta. Apneia da prematuridade é comum em < 34s, mas tipicamente se manifesta após 24–48 h de vida, não como evento mais provável nas primeiras horas.

    ❌ B) Convulsões.

    Alternativa incorreta. Convulsões podem ocorrer, mas são menos frequentes que hipoglicemia inicial. Se presentes, investigar causas metabólicas (incluindo a própria hipoglicemia), hipóxia-isquemia, hemorragia intraventricular.

    ❌ D) Hipomagnesemia.

    Alternativa incorreta. Em mães com eclâmpsia/HELLP, é comum uso de sulfato de magnésio; o recém-nascido tende mais a hipermagnesemia (hipotonia, depressão respiratória) do que a hipomagnesemia nas primeiras horas.

    Mensagem para levar para casa:

    • Prematuro extremo/RCIU filho de mãe com HELLP: a complicação mais provável nas primeiras horas é hipoglicemia.
    • Rastrear glicemia na 1ª–2ª hora e antes das ofertas por 24–48 h; tratar abaixo dos limiares operacionais do serviço.
    • Tratamento: Glicose 10% 2 mL/kg IV (200 mg/kg) + infusão 4–6 (até 6–8) mg/kg/min; reavaliar em 30 min.
    • Evite bolus de glicose 50% (risco de extravasamento e rebote hipoglicêmico).
    • Apneia da prematuridade é tardia (24–48 h); hipomagnesemia não é típica em filhos de mães tratadas com MgSO4.

    Questão 25MEDIDAS DE SAÚDE COLETIVA - Letalidade

    Em um município, dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) revelaram que a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares é significativamente maior em homens adultos de baixa escolaridade, residentes em regiões periféricas. Considerando os determinantes sociais da saúde, a interpretação mais adequada para essa situação é que

    • A)

      o risco é explicado principalmente por predisposição genética da população estudada.

    • B)

      a escolaridade baixa é apenas um dado demográfico, sem relação direta com desfechos em saúde.

    • C)

      a mortalidade maior deve ser interpretada como acaso estatístico, não havendo base para intervenção.

    • D)

      as diferenças refletem falhas no sistema de registro do SIM, não devendo ser atribuídas a desigualdades sociais.

    • E)

      as condições sociais, como escolaridade e local de residência, influenciam o risco de adoecimento e morte.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Determinantes Sociais da Saúde (DSS) explicam desigualdades em risco, adoecimento e morte por condições socioeconômicas, educacionais e territoriais. Em prova, a resposta padrão é reconhecer que condições sociais modulam desfechos em saúde, não genética ou acaso.


    O que é: DSS são fatores sociais, econômicos, culturais, étnico-raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco.

    Por que importa: Maior mortalidade em grupos com baixa escolaridade e moradia periférica reflete inequidades evitáveis; direciona políticas de promoção, prevenção e acesso qualificado.

    Como identificar: Análise de dados secundários (SIM, SIH, e-SUS), estratificação por sexo, escolaridade, território; observação de gradiente social (pior nível socioeconômico = piores desfechos).

    Como manejar (saúde coletiva): Ações intersetoriais (saúde, educação, assistência social, mobilidade urbana), organização da APS no território, rastreio e manejo de DCV com foco em grupos vulneráveis, qualificação do cuidado e vigilância de óbitos.


    Conduta & Posologia

    • Ação prioritária na rede: Fortalecer APS nas áreas periféricas com cadastro nominal, estratificação de risco cardiovascular e busca ativa de homens adultos de baixa escolaridade.
    • Promoção e prevenção: Educação em saúde letramento em saúde adaptado, manejo de fatores de risco (tabagismo, HAS, DM, dislipidemia), oferta de atividade física e alimentação adequada (PNPS).
    • Vigilância: Auditoria de óbitos por DCV, qualificação do preenchimento da DO e investigação de óbitos evitáveis.
    • Intersetorialidade: Articulação com educação, assistência social e urbanismo para enfrentar determinantes (acesso a serviços, transporte, segurança alimentar, ambiente para atividade física).
    • Metas/monitorização: Reduzir mortalidade prematura por DCNT conforme Plano Nacional (monitorar taxa padronizada por sexo, escolaridade e território a cada 6–12 meses).
    • Critérios de priorização: Foco em territórios com maiores taxas; alocação de equipes, horários ampliados para homens trabalhadores, e cuidado centrado no risco cardiovascular global.

    Discussão das alternativas

    ✅ E) as condições sociais, como escolaridade e local de residência, influenciam o risco de adoecimento e morte.

    Alternativa correta. Reflete o conceito central de DSS e inequidades em saúde: baixa escolaridade e morar em periferias associam-se a piores desfechos por menor acesso, maior exposição a fatores de risco e barreiras no cuidado. Evidência robusta em políticas nacionais de DCNT e PNPS.

    ❌ A) o risco é explicado principalmente por predisposição genética da população estudada.

    Alternativa incorreta. Genética não explica o padrão socioespacial observado. O gradiente por escolaridade e território aponta fatores estruturais, não herdabilidade populacional.

    ❌ B) a escolaridade baixa é apenas um dado demográfico, sem relação direta com desfechos em saúde.

    Alternativa incorreta. Escolaridade é determinante proximal de saúde: influencia letramento, acesso e uso de serviços, renda e estilo de vida; associa-se consistentemente a mortalidade por DCV.

    ❌ C) a mortalidade maior deve ser interpretada como acaso estatístico, não havendo base para intervenção.

    Alternativa incorreta. Diferenças sistemáticas por sexo, escolaridade e território dificilmente são acaso; o SIM permite análises com poder estatístico e orienta intervenções focalizadas.

    ❌ D) as diferenças refletem falhas no sistema de registro do SIM, não devendo ser atribuídas a desigualdades sociais.

    Alternativa incorreta. Embora sub-registro possa existir, o padrão coerente por DSS indica desigualdade real. A resposta adequada inclui qualificar o SIM e agir sobre os determinantes.


    Take-home message

    • Determinantes Sociais da Saúde (DSS) explicam diferenças de mortalidade por DCV: baixa escolaridade e morar em periferia aumentam risco.
    • Padrões por sexo, escolaridade e território raramente são acaso; use o SIM para direcionar ações focalizadas.
    • Resposta correta em prova: reconhecer influência das condições sociais nos desfechos (não genética, não erro de registro).
    • Manejo em saúde pública: fortalecer APS no território, prevenção de DCV e intersetorialidade para reduzir inequidades.
    • Monitore metas do Plano de DCNT (redução da mortalidade prematura) com estratificação por DSS.



    Questão 26Ética médica em pediatria

    Adolescente, 16 anos, sexo masculino, comparece à Unidade Básica de Saúde desacompanhado para renovação de receita de tratamento para rinite alérgica. Durante a anamnese, relata espontaneamente que iniciou vida sexual, há 3 meses, com uma parceira fixa e, na última relação, o preservativo rompeu. Ele demonstra preocupação com possível gravidez da parceira e com risco de infecções sexualmente transmissíveis, mas solicita que essa informação não seja compartilhada com seus pais, pois tem medo de punição. O adolescente encontra-se orientado, maduro e demonstra plena compreensão da situação. Nesse contexto, do ponto de vista ético e legal, a conduta adequada é

    • A)

      Comunicar imediatamente os pais, pois o adolescente é menor de 18 anos e a prática sexual deve ser do conhecimento da família.

    • B)

      Recusar-se a prescrever exames e aconselhamento sobre infecções sexualmente transmissíveis até que os pais compareçam à unidade.

    • C)

      Garantir o sigilo profissional, realizar acolhimento, oferecer aconselhamento, solicitar exames de IST e orientar medidas de prevenção, reforçando o uso do preservativo.

    • D)

      Encaminhar o adolescente ao Conselho Tutelar por conduta sexual precoce e risco social.

    • E)

      Realizar o atendimento, mas registrar o fato no prontuário e enviar cópia ao responsável legal.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai na prova): Relaciona autonomia progressiva do adolescente, sigilo profissional e direito de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva sem a presença dos pais. A banca testa se você sabe quando manter sigilo e quando é obrigatório quebrá-lo.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Cenário brasileiro: Início da vida sexual na adolescência é frequente; barreiras de acesso incluem medo de exposição aos pais. MS e ECA garantem acolhimento e confidencialidade para ampliar o acesso seguro.
    • Determinante ético-legal: Adolescente de 12 a 18 anos tem direito ao atendimento confidencial e à informação, com sigilo qualificado (pode ser quebrado apenas em circunstâncias específicas).

    Diagnóstico

    • Definições operacionais:
      • Sigilo profissional: Dever do médico de não revelar informações do paciente obtidas no exercício profissional.
      • Sigilo qualificado: O sigilo pode ser compartilhado estritamente com a equipe para cuidados e pode ser quebrado quando houver risco grave/iminente, violência/abuso, dever legal (p. ex., notificação compulsória), sempre no melhor interesse do adolescente.
      • Adolescente maduro: Demonstra compreensão, discernimento e capacidade de decidir sobre sua saúde; pode consentir em cuidados, especialmente em saúde sexual e reprodutiva.
    • Padrão-ouro ético-legal:
      • Manter sigilo com adolescente capaz, em temas de sexualidade, sem exigir presença dos pais.
      • Quebra de sigilo apenas em: risco de morte/dano grave, suspeita de violência/abuso, determinação judicial, ou exigência legal (notificação compulsória a vigilância — que não se confunde com informar familiares).

    Conduta & Posologia (DINÂMICO)

    • Conduta principal: Garantir confidencialidade, acolher, avaliar risco, oferecer aconselhamento em saúde sexual e reprodutiva, solicitar testagem para infecções sexualmente transmissíveis (HIV, sífilis, hepatites), atualizar vacinação (hepatite B, papilomavírus humano) e reforçar preservativos.
    • Testes e prazos: Testes rápidos na UBS; agendar repetição conforme janelas imunológicas (ex.: HIV 30 dias/90 dias conforme tecnologia disponível; sífilis repetir em 30 dias se exposição recente).
    • Planejamento reprodutivo: Orientar parceira a procurar serviço para contracepção de emergência se dentro da janela e para testagem/seguimento. Registrar a orientação no prontuário do adolescente, sem envio a responsáveis.
    • Quando envolver responsáveis: Com consentimento do adolescente ou sem consentimento apenas se houver risco de violência/abuso ou risco grave/iminente. Oferecer espaço para discussão sobre comunicação com a família, sem impor.
    • Critérios de encaminhamento: Violência sexual suspeita/confirmada, sinais de coerção, ideação suicida, imunização complexa pendente, necessidade de profilaxias específicas fora do escopo da UBS.
    • Registro clínico: Prontuário completo e legível, com anotações necessárias ao cuidado; não enviar cópias automaticamente a responsáveis.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Garantir o sigilo profissional, realizar acolhimento, oferecer aconselhamento, solicitar exames de IST e orientar medidas de prevenção, reforçando o uso do preservativo.

    Alternativa correta. O adolescente é capaz e solicita confidencialidade; Código de Ética Médica respalda o sigilo e o ECA assegura acesso a serviços de saúde. Em saúde sexual e reprodutiva, a presença dos pais não é requisito. A conduta é acolher, testar e orientar, mantendo sigilo qualificado.

    ❌ A) Comunicar imediatamente os pais, pois o adolescente é menor de 18 anos e a prática sexual deve ser do conhecimento da família.

    Alternativa incorreta. Viola o sigilo e a autonomia progressiva do adolescente. Não há violência, risco iminente ou determinação legal que autorize quebra de sigilo. Correção: manter sigilo e oferecer cuidado integral.

    ❌ B) Recusar-se a prescrever exames e aconselhamento sobre infecções sexualmente transmissíveis até que os pais compareçam à unidade.

    Alternativa incorreta. Impede o acesso garantido pelo ECA e contraria o dever de cuidado do SUS. Correção: realizar testagem e aconselhamento independentemente da presença dos pais.

    ❌ D) Encaminhar o adolescente ao Conselho Tutelar por conduta sexual precoce e risco social.

    Alternativa incorreta. Conselho Tutelar atua quando há violação de direitos (negligência, violência, exploração). Relação sexual consentida entre pares, sem indícios de violência, não é motivo para acionar o Conselho. Correção: acolhimento sigiloso na UBS.

    ❌ E) Realizar o atendimento, mas registrar o fato no prontuário e enviar cópia ao responsável legal.

    Alternativa incorreta. Enviar cópia ao responsável sem consentimento quebra o sigilo. Correção: registrar em prontuário para continuidade do cuidado, mantendo confidencialidade; compartilhamento apenas com base legal ou por risco.


    Take-home message

    • Adolescente capaz tem direito a atendimento confidencial em saúde sexual e reprodutiva na UBS, sem presença dos pais.
    • Conduta: acolher, aconselhar, testar IST, atualizar vacinas e reforçar preservativo; registrar em prontuário sem envio automático a responsáveis.
    • Ofereça orientação sobre contracepção de emergência para a parceira e agende reavaliação conforme janelas diagnósticas.
    • Red flag: Quebra de sigilo apenas em risco grave/iminente, suspeita de violência/abuso, ordem judicial ou dever legal (p. ex., notificação compulsória).
    • Notificação compulsória é à vigilância epidemiológica e não autoriza divulgar informação ao responsável sem necessidade clínica/consentimento.

    Questão 28Enterocolite

    Um bebê prematuro de 20 dias apresenta, na radiografia de abdome, sinais de pneumatose intestinal. Qual é a provável patologia associada a esse paciente e o tratamento inicial?

    • A)

      Atresia intestinal / Abordagem cirúrgica para reconstrução intestinal.

    • B)

      Atresia esofágica / Passagem de sonda orogástrica e correção cirúrgica imediata.

    • C)

      Enterocolite necrotizante / Passagem de sonda orogástrica, reanimação hidroeletrolítica e antibioticoterapia de amplo espectro.

    • D)

      Síndrome do intestino curto / Nutrição parenteral.

    • E)

      Doença de Hirschsprung / Colostomia de desvio.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Pneumatose intestinal na radiografia de abdome em prematuro é achado patognomônico de enterocolite necrosante e define conduta imediata com jejum, descompressão gástrica e antibiótico de amplo espectro.


    Epidemiologia e Etiologia

    • O que é: Enterocolite necrosante é inflamação e necrose intestinal do recém-nascido, especialmente prematuro, associada à alimentação enteral e disbiose intestinal.
    • Por que importa: Alta mortalidade e risco de perfuração, sepse e síndrome do intestino curto. Diagnóstico/conduta precoces reduzem complicações.
    • Fatores de risco: Prematuridade, baixo peso ao nascer, uso de fórmula láctea, isquemia/hipóxia, colonização bacteriana patogênica.


    Diagnóstico

    • Padrão-ouro prático: Radiografia de abdome com pneumatose intestinal (gás na parede intestinal). Outros achados: gás no sistema porta, alças fixas e pneumoperitônio (perfuração).
    • Quadro clínico típico: Distensão abdominal, resíduo gástrico bilioso, sangue nas fezes, apneia/instabilidade térmica, letargia.
    • Estadiamento de Bell (operacional): II (suspeita/definida com pneumatose) e III (complicada com instabilidade grave e/ou perfuração). A presença de pneumatose já coloca no mínimo estágio II.


    Conduta & Posologia 


    • Medidas imediatas (todas as suspeitas/confirmadas): Jejum absoluto, sonda orogástrica aberta para descompressão contínua, acesso venoso, reanimação volêmica (SF 0,9% 10–20 mL/kg IV, reavaliar e repetir conforme perfusão), analgesia, suporte ventilatório se necessário, monitorização contínua (sinais vitais, diurese).
    • Antibioticoterapia empírica (cobrir Gram-positivos, Gram-negativos e anaeróbios):
      • Ampicilina: se > 7 dias de vida: 50 mg/kg/dose IV 12/12h (≈ 100 mg/kg/dia).
      • Gentamicina: 4–5 mg/kg/dose IV 24/24h (ajustar por idade gestacional e função renal).
      • Metronidazol: 7,5 mg/kg/dose IV 12/12h (cobertura anaeróbia). Alternativa: cefotaxima + metronidazol onde se evita aminoglicosídeo.
      • Duração: Bell II 7–10 dias; Bell III ou perfuração 10–14 dias, individualizar por resposta clínica/laboratorial.

    • Ajustes e cautelas:
      • Insuficiência renal (neonatal/oligúria/creatinina elevada): prolongar intervalo da gentamicina (por exemplo, 48h) e monitorar níveis séricos se disponível; manter ampicilina com ajuste por função renal em casos graves.
      • Hepatopatia significativa: monitorar uso de metronidazol; considerar intervalo maior se colestase importante.
    • Efeitos adversos relevantes: Aminoglicosídeo – nefro/ototoxicidade (monitorar função renal e, se possível, níveis); metronidazol – náusea, elevação de transaminases (uso IV em jejum).
    • Intervenção cirúrgica (indicações): Pneumoperitônio (perfuração), deterioração clínica refratária, massa inflamatória com obstrução, peritonite clínica. Procedimentos: drenagem peritoneal e/ou laparotomia com ressecção do segmento necrótico ± estoma.
    • Critérios de internação: Todo caso de enterocolite necrosante é manejo hospitalar; UTI neonatal quando há instabilidade hemodinâmica/respiratória, necessidade de ventilação, suporte vasoativo, ou suspeita de estágio II/III.
    • Reavaliação/monitorização: Radiografia de abdome seriada a cada 8–12 horas nas primeiras 24–48h ou conforme evolução; hemograma, gasometria, eletrólitos, lactato seriados; balanço hídrico rigoroso.


    Discussão das alternativas


    ✅ C) Enterocolite necrotizante / Passagem de sonda orogástrica, reanimação hidroeletrolítica e antibioticoterapia de amplo espectro.

    Alternativa correta. Pneumatose intestinal em prematuro é indicativa de enterocolite necrosante. A conduta inicial é jejum, descompressão com sonda orogástrica, reposição volêmica e antibióticos de amplo espectro cobrindo Gram-positivos, Gram-negativos e anaeróbios (ex.: ampicilina 50 mg/kg 12/12h + gentamicina 4–5 mg/kg 24/24h + metronidazol 7,5 mg/kg 12/12h IV).


    ❌ A) Atresia intestinal / Abordagem cirúrgica para reconstrução intestinal.

    Alternativa incorreta. Atresia intestinal cursa com obstrução alta/baixa e padrão radiológico específico (p. ex., “duplo contorno” na atresia duodenal), não com pneumatose intestinal. Além disso, o manejo imediato da enterocolite necrosante é clínico, e cirurgia é reservada para complicações (perfuração/peritonite).


    ❌ B) Atresia esofágica / Passagem de sonda orogástrica e correção cirúrgica imediata.

    Alternativa incorreta. Atresia esofágica manifesta-se com sialorreia, falha de progressão de sonda e distensão (se fístula distal), sem pneumatose intestinal. A radiografia típica mostra sonda enrolada no esôfago proximal.


    ❌ D) Síndrome do intestino curto / Nutrição parenteral.

    Alternativa incorreta. Síndrome do intestino curto é consequência de ressecções extensas (incluindo pós-enterocolite necrosante), não causa pneumatose intestinal. Nutrição parenteral é suporte, não o tratamento inicial do quadro radiológico descrito.


    ❌ E) Doença de Hirschsprung / Colostomia de desvio.

    Alternativa incorreta. Doença de Hirschsprung apresenta atraso na eliminação de mecônio e distensão, diagnóstico por biópsia retal. Pneumatose intestinal não é achado típico. Colostomia é opção em megacólon tóxico/complicações, não neste cenário.


    Take-home message

    • Pneumatose intestinal em prematuro = enterocolite necrosante até prova em contrário (estágio ≥ II de Bell).
    • Conduta inicial: jejum, sonda orogástrica aberta, reposição volêmica e antibióticos de amplo espectro.
    • Esquema empírico sugerido: ampicilina 50 mg/kg 12/12h + gentamicina 4–5 mg/kg 24/24h + metronidazol 7,5 mg/kg 12/12h IV.
    • Red flag: pneumoperitônio = perfuração e indicação cirúrgica imediata.
    • Radiografia seriada a cada 8–12h nas primeiras 24–48h e monitorização laboratorial (hemograma, eletrólitos, lactato).
    • UTI neonatal para casos moderados a graves ou instabilidade; cirurgia se refratário/complicado.

    Questão 29Intubação

    Assinale a alternativa que apresenta a medicação para bloqueio neuromuscular necessária para a sequência rápida de intubação em criança com clínica de hipertensão intracraniana e que é contraindicada em caso de haver familiar próximo com hipertermia maligna.

    • A)

      Midazolan.

    • B)

      Succinilcolina.

    • C)

      Etomidato.

    • D)

      Rocurônio.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em sequência rápida de intubação pediátrica, a banca cobra a identificação do bloqueador neuromuscular de escolha e suas contraindicações absolutas. A succinilcolina é o bloqueador despolarizante clássico de ação ultrarrápida, mas é absolutamente contraindicada em indivíduos com história pessoal ou familiar de hipertermia maligna.


    • Cenário brasileiro: RSI (sequência rápida de intubação) é a técnica padrão no atendimento de emergência pediátrica grave, incluindo suspeita de hipertensão intracraniana.

    • Farmacologia: Succinilcolina promove despolarização da placa motora, com início em 30–60 s e duração curta (5–10 min). É gatilho conhecido de hipertermia maligna em suscetíveis.

    • Definição de RSI: Indução rápida com hipnótico + bloqueador neuromuscular para facilitar IOT, minimizando risco de broncoaspiração e tempo de apneia.

    • Ponto crítico em hipertensão intracraniana: Priorizar rápida sequência com escolha de fármacos que não elevem pressão intracraniana; a succinilcolina pode causar elevação transitória, porém o benefício da IOT rápida geralmente supera, desde que não haja contraindicação absoluta.

    Conduta & Posologia

    • Bloqueador neuromuscular (padrão RSI): Succinilcolina 1–2 mg/kg IV em bolus (criança). Se necessário IM: 3–4 mg/kg (máx. 150 mg). Início 30–60 s; duração 5–10 min.
    • Alternativa quando succinilcolina for contraindicada: Rocurônio 1,0–1,2 mg/kg IV (RSI) para início rápido; duração mais prolongada (~30–60 min). Seguro em hipertermia maligna.
    • Premedicação útil em pediatria: Atropina 0,02 mg/kg IV (mín. 0,1 mg; máx. 0,5 mg) para reduzir bradicardia por succinilcolina (mais relevante em lactentes/crianças pequenas).
    • Contraindicações absolutas da succinilcolina: História pessoal/familiar de hipertermia maligna, hipercalemia conhecida, miopatias/lesões neuromusculares, grandes queimaduras ou esmagamentos após 24–48 h, lesão medular/denervação, história de rabdomiólise.
    • Efeitos adversos relevantes (succinilcolina): Hipercalemia, arritmias/bradicardia, aumento transitório da pressão intracraniana e intraocular, hipertermia maligna em suscetíveis, mialgia.
    • Ajustes especiais: Em insuficiência renal com risco de hipercalemia, evitar succinilcolina. Em hepatopatia/DRC não há ajuste de dose bem estabelecido para succinilcolina na RSI, mas monitorar eletrólitos.
    • Estratégia na hipertensão intracraniana: Pré-oxigenação eficaz, evitar hipercapnia; objetivo de PaCO2 35–40 mmHg após IOT. Indutores neutros hemodinamicamente (ex.: etomidato 0,2–0,3 mg/kg) são opções, mas não são bloqueadores.
    • Critérios de internação/UTI: Criança com hipertensão intracraniana suspeita/intubada deve ser manejada em UTI pediátrica com monitorização contínua e controle de ventilação e sedação.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Succinilcolina.

    Alternativa correta. É o bloqueador neuromuscular despolarizante clássico para RSI pela rapidez de início e curta duração. Contudo, é contraindicada em história pessoal ou familiar de hipertermia maligna. Dose pediátrica: 1–2 mg/kg IV.

    ❌ A) Midazolan.

    Alternativa incorreta. Midazolam é benzodiazepínico sedativo/amnésico, não produz bloqueio neuromuscular. Em RSI, é adjuvante para sedação, não substitui o bloqueador.

    ❌ C) Etomidato.

    Alternativa incorreta. Etomidato é agente hipnótico de indução (estável hemodinamicamente), mas não é bloqueador neuromuscular. Usado em associação ao bloqueador na RSI.

    ❌ D) Rocurônio.

    Alternativa incorreta no enunciado. Embora seja excelente alternativa para RSI (1–1,2 mg/kg IV) e segura em hipertermia maligna, o enunciado pede explicitamente o fármaco necessário na RSI em criança com hipertensão intracraniana e que seja contraindicado quando há familiar com hipertermia maligna — descrição que corresponde à succinilcolina.


    Take-home message

    • Na RSI pediátrica, o bloqueador de ação ultrarrápida clássico é a succinilcolina.
    • Dose pediátrica: succinilcolina 1–2 mg/kg IV (IM 3–4 mg/kg se necessário).
    • Red flag: História pessoal/familiar de hipertermia maligna contraindica succinilcolina.
    • Alternativa segura quando houver contraindicação: rocurônio 1–1,2 mg/kg IV.
    • Em suspeita de hipertensão intracraniana, priorize RSI rápida, pré-oxigenação e controle de PaCO2 (35–40 mmHg) após IOT.

    Questão 29Amenorréia - Síndrome dos Ovários Policísticos

    Mulher, 26 anos, apresenta irregularidade menstrual desde a adolescência, com intervalos entre os ciclos menstruais que variam de 40 a 60 dias. Relata acne persistente e aumento de pelos na face e região abdominal inferior, percebido nos últimos 2 anos. Refere ganho ponderal progressivo, com predomínio na região abdominal. Nega uso de medicamentos. Não tem doenças crônicas conhecidas. Exame físico: IMC: 31 kg/m2, acantose nigricans em região cervical posterior, hirsutismo com escore Ferriman Gallwey igual a 8. Qual é a principal conduta para essa paciente?

    • A)

      Iniciar anticoncepcional oral.

    • B)

      Solicitar glicemia de jejum.

    • C)

      Iniciar metformina.

    • D)

      Solicitar 17-OH progesterona.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Em mulher jovem com oligomenorreia, hirsutismo e sinais de hiperandrogenismo, a banca cobra a exclusão de causas secundárias antes de rotular como síndrome dos ovários policísticos. A triagem para hiperplasia adrenal congênita não clássica com 17-hidroxiprogesterona basal é ponto de corte clássico de prova.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Síndrome dos ovários policísticos (SOP): prevalente (6–10%), típica em idade reprodutiva; fenótipo com oligomenorreia, hiperandrogenismo clínico/bioquímico e achados ultrassonográficos (critérios de Rotterdam).
    • Hiperplasia adrenal congênita não clássica (HAC-NC) por deficiência de 21-hidroxilase: causa secundária e tratável de hiperandrogenismo; prevalência variável (até 1–2% em populações gerais; maior em grupos de risco). Impacta fertilidade e manejo.

    Diagnóstico

    • Regra da prova: Em hiperandrogenismo/oligoanovulação, sempre afastar causas secundárias antes do tratamento sintomático: gravidez, disfunção tireoidiana, hiperprolactinemia, tumores secretores de andrógenos e HAC-NC.
    • 17-hidroxiprogesterona basal (17-OHP): coletar pela manhã, fase folicular precoce (dias 3–5) ou a qualquer dia em amenorreia. Valores de referência (imunoensaio):
      • ≤ 200 ng/dL (≤ 6 nmol/L): afasta HAC-NC.
      • > 200 ng/dL: indicar teste de estímulo com ACTH (cortrosina 250 mcg EV); > 1000 ng/dL (≈ 30 nmol/L) após estímulo confirma HAC-NC.
    • Demais exames iniciais no hiperandrogenismo: testosterona total (ou índice de andrógenos livres), sulfato de deidroepiandrosterona (DHEA-S), prolactina, hormônio tireoestimulante (TSH), glicemia e perfil lipídico. Ultrassonografia transvaginal auxilia fenótipo da SOP, mas não substitui a exclusão de causas secundárias.
    • Red flag: Início súbito/progressão rápida de hirsutismo/virilização, testosterona total ≥ 200 ng/dL ou DHEA-S muito elevado sugerem tumor produtor de andrógenos e requerem investigação urgente.

    Conduta & Posologia 

    • Próximo passo propedêutico (principal): Solicitar 17-hidroxiprogesterona basal matinal na fase folicular precoce para triagem de HAC-NC.
    • Se 17-OHP > 200 ng/dL: realizar teste de estímulo com ACTH (cortrosina 250 mcg EV em bolus) com dosagem de 17-OHP aos 60 minutos. Confirma HAC-NC se pós-ACTH > 1000 ng/dL.

    • Após afastar causas secundárias e se SOP confirmada: primeira linha para irregularidade menstrual e hiperandrogenismo clínico é contraceptivo oral combinado (etinilestradiol + progestagênio com menor atividade androgênica). Metformina é adjuvante em intolerância à glicose/diabetes ou quando há objetivo metabólico.
    • Medidas não farmacológicas: perda ponderal de 5–10% com dieta e exercício melhora ovulação e hiperandrogenismo.
    • Critérios de internação: Não aplicáveis neste cenário ambulatorial; investigar e manejar em nível ambulatorial com reavaliação em 8–12 semanas após intervenção terapêutica.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Iniciar anticoncepcional oral.

    Alternativa incorreta. Antes de tratar sintomas, é obrigatório excluir causas secundárias de hiperandrogenismo. O contraceptivo oral combinado é primeira linha na SOP para irregularidade menstrual e acne/hirsutismo, mas apenas após afastar HAC-NC, hiperprolactinemia, disfunção tireoidiana e tumores secretores de andrógenos.

    ❌ B) Solicitar glicemia de jejum.

    Alternativa incorreta. A avaliação metabólica é importante na SOP (glicemia, perfil lipídico), porém o passo prioritário na paciente com hiperandrogenismo clínico é excluir HAC-NC com 17-OHP basal. Glicemia de jejum integra o pacote de rastreio metabólico, mas não substitui a triagem etiológica do hiperandrogenismo.

    ❌ C) Iniciar metformina.

    Alternativa incorreta. Metformina não é terapia de primeira linha para controle de ciclo/hiperandrogenismo na SOP sem confirmação diagnóstica. É indicada quando há intolerância à glicose/diabetes ou meta predominantemente metabólica, e preferencialmente após exclusão de causas secundárias.

    ✅ D) Solicitar 17-OH progesterona.

    Alternativa correta. A 17-hidroxiprogesterona basal matinal, na fase folicular, é o exame de triagem obrigatório para hiperplasia adrenal congênita não clássica em mulheres com hiperandrogenismo/oligomenorreia. Se > 200 ng/dL, prosseguir com teste de estímulo com ACTH; valores pós-ACTH > 1000 ng/dL confirmam HAC-NC.


    Take-home message

    • Hiperandrogenismo + oligomenorreia: primeiro passo é excluir causas secundárias antes de tratar como SOP.
    • Triagem de HAC-NC: dosar 17-OHP basal matinal (fase folicular); se > 200 ng/dL, fazer teste com ACTH; confirmação se pós-ACTH > 1000 ng/dL.
    • Após excluir secundárias e confirmar SOP: primeira linha para ciclo/acne/hirsutismo é contraceptivo oral combinado; metformina é adjuvante metabólico.
    • Perda ponderal de 5–10% melhora ovulação e hiperandrogenismo; manter rastreio metabólico (glicemia, lipídios).
    • Red flag: virilização rápida ou testosterona total ≥ 200 ng/dL → investigar tumor produtor de andrógenos com urgência.

    Questão 30Violência de gênero

    Estudante de 19 anos, procura o serviço para realizar interrupção legal da gravidez. A paciente informa que nunca engravidou e que esta gravidez é decorrente de violência sofrida em festa da faculdade quando ficou alcoolizada e perdeu a consciência. Paciente não lembra a data da festa, informa que não procurou assistência após este evento, pois não tinha certeza da violência sexual. Após atraso menstrual realizou teste de gravidez com resultado positivo. A ultrassonografia realizada neste serviço data a gestação em 11 semanas +/- 1 semana. Qual a conduta correta para esta paciente?

    • A)

      Orientar a procurar o serviço jurídico gratuito para obter o alvará para interrupção da gravidez.

    • B)

      Realizar o procedimento após preenchimento, pela paciente e equipe multiprofissional, dos documentos essenciais e pertinentes ao caso.

    • C)

      Orientar a paciente a realizar o boletim de ocorrência para dar andamento à solicitação de interrupção legal.

    • D)

      Como a paciente não pode comprovar a suposta violência sofrida, não é possível atender a solicitação de interrupção da gravidez.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Interrupção da gestação decorrente de violência sexual é direito garantido pelo Código Penal e pela Lei 12.845/2013, sem exigência de boletim de ocorrência, autorização judicial ou laudo pericial. A banca cobra documentos obrigatórios do serviço e método de interrupção por idade gestacional.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Contexto brasileiro: Violência sexual é subnotificada e afeta principalmente mulheres jovens. A gestação decorrente de estupro tem amparo legal para interrupção no SUS.
    • Base legal: Art. 128 do Código Penal (estupro) e Lei 12.845/2013 asseguram atendimento integral, incluindo interrupção da gravidez, mediante consentimento da gestante, sem necessidade de ordem judicial.

    Diagnóstico

    • Definição operacional (situação de violência sexual): qualquer ato sexual sem consentimento. Para fins de interrupção legal, basta o relato circunstanciado da mulher registrado em prontuário/termo próprio.
    • Confirmação da gestação e idade gestacional: teste de gravidez positivo e ultrassonografia datando 11 semanas (+/- 1), o que define método seguro de esvaziamento uterino.

    Conduta & Posologia 

    • Fluxo legal-assistencial: Realizar avaliação clínica e psicossocial; colher Relato Circunstanciado da paciente; preencher Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; notificação compulsória da violência (sigilosa); registrar em prontuário. Não exigir boletim de ocorrência nem autorização judicial.
    • Elegibilidade: Gestante maior de idade e capaz; gestação resultante de violência sexual por relato; idade gestacional até 12 semanas (+/- 1) — indicada aspiração manual intrauterina (AMIU) ou método medicamentoso conforme disponibilidade e preferência.
    • Método cirúrgico (primeira linha até ~12–14 semanas): Aspiração Manual Intrauterina (AMIU) por profissional treinado, com analgesia/anestesia conforme protocolo; controlar sangramento e confirmar esvaziamento.
    • Método medicamentoso (quando disponível/indicado): Misoprostol até 12 semanas: 800 microgramas por via vaginal ou sublingual, repetir a cada 3 horas se necessário, até 3 doses. Monitorar dor, sangramento e sinais vitais.

    • Contraindicações ao misoprostol: Alergia a prostaglandinas, suspeita de gravidez ectópica, instabilidade hemodinâmica não controlada.
    • Efeitos adversos do misoprostol: cólicas, sangramento, náuseas, diarreia, febre/treme-res.
    • Seguimento: Reavaliar em 7–14 dias (clínico e/ou ultrassonografia) para confirmar esvaziamento completo. Oferecer contracepção pós-aborto imediatamente (preferências da paciente).
    • Critérios de internação/observação: sangramento intenso (saturando >2 absorventes/h por >2 h), sinais de instabilidade, suspeita de infecção (febre, secreção fétida), comorbidades descompensadas.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Realizar o procedimento após preenchimento, pela paciente e equipe multiprofissional, dos documentos essenciais e pertinentes ao caso.

    Alternativa correta. O Código Penal (art. 128) e a Lei 12.845/2013 garantem a interrupção da gestação resultante de violência sexual mediante consentimento da gestante, com registro do Relato Circunstanciado, TCLE e notificação compulsória. Não se exige boletim de ocorrência, perícia ou autorização judicial. Com 11 semanas, AMIU ou misoprostol são métodos adequados.

    ❌ A) Orientar a procurar o serviço jurídico gratuito para obter o alvará para interrupção da gravidez.

    Alternativa incorreta. Não é necessário alvará judicial para o aborto previsto em lei por estupro. A exigência de autorização judicial contraria a Lei 12.845/2013 e a norma técnica do Ministério da Saúde.

    ❌ C) Orientar a paciente a realizar o boletim de ocorrência para dar andamento à solicitação de interrupção legal.

    Alternativa incorreta. Boletim de ocorrência não é requisito para acesso à interrupção legal. O atendimento não pode ser condicionado a registro policial ou exame pericial. O relato da mulher, formalizado, é suficiente.

    ❌ D) Como a paciente não pode comprovar a suposta violência sofrida, não é possível atender a solicitação de interrupção da gravidez.

    Alternativa incorreta. A legislação não exige comprovação pericial. O critério é o relato da gestante, devidamente registrado, com consentimento informado. Negar o atendimento por falta de “prova” viola a Lei 12.845/2013 e diretrizes do Ministério da Saúde.


    Take-home message

    • Interrupção da gestação por estupro é direito da mulher: consentimento + relato bastam; não precisa BO nem alvará.
    • Documentos-chave: Relato Circunstanciado, TCLE, notificação compulsória e registro em prontuário por equipe multiprofissional.
    • Até ~12 semanas: AMIU é método de escolha; alternativa medicamentosa com misoprostol 800 mcg vaginal/sublingual a cada 3 h (até 3 doses).
    • Reavaliar em 7–14 dias para confirmar esvaziamento; ofertar contracepção pós-aborto imediatamente.
    • Red flag: Condicionar o atendimento a BO/ordem judicial ou “prova” da violência é ilegal.

    Questão 31Outros temas em neonatologia

    Recém-nascido, termo, com 48 horas de vida é levado ao pronto-socorro. A sua gestação ocorreu sem intercorrências, o parto foi normal e o paciente não apresenta malformações associadas. O paciente evoluiu com distensão abdominal, ausência de emissão de mecônio e vômitos biliosos. Seu exame físico demonstra: abdome distendido de forma uniforme, ruídos hidroaéreos presentes e diminuídos, sem peristalse visível, sem massas palpáveis, sem visceromegalias, dor à palpação leve, provocando vômitos biliosos em pequena quantidade e ânus pérvio. O RX de abdome, realizado com o RN na posição vertical, demonstra: alças intestinais distendidas, sem nível hidroaéreo. O conteúdo intestinal tem aparência granular do tipo “vidro moído”, principalmente na região da fossa ilíaca direita. O clister opaco demonstra reto e cólon de tamanhos preservados, com falhas de preenchimento ao longo dos diversos segmentos do intestino grosso. Nesse caso, o diagnóstico provável é de

    • A)

      enterocolite necrotizante.

    • B)

      doença de Hirschsprung.

    • C)

      volvo intestinal.

    • D)

      íleo meconial

    • E)

      sepse neonatal precoce.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Obstrução intestinal baixa no recém‑nascido com vômitos biliosos + distensão + RX com “vidro moído” e enema com falhas de preenchimento = íleo meconial até prova em contrário.


    Epidemiologia e Etiologia

    • O que é: Íleo meconial é obstrução do íleo terminal por mecônio anormalmente espesso e aderente.
    • Por que importa: É apresentação neonatal clássica da fibrose cística (até 10–20% dos pacientes com fibrose cística debutam com íleo meconial). Necessita abordagem precoce para evitar perfuração/peritonite meconial.
    • Cenário brasileiro: Triagem neonatal para fibrose cística pelo SUS (tripsina imunorreativa no teste do pezinho) aumenta a suspeição e o diagnóstico subsequente por teste do suor.

    Diagnóstico

    • Clínica (definição operacional): Recém‑nascido termo, nas primeiras 24–48 h de vida, com ausência de eliminação de mecônio, distensão abdominal e vômitos biliosos; ânus pérvio.
    • Radiografia simples de abdome (padrão típico): Alças de delgado distendidas com aspecto granular “vidro moído”/bolhas de sabão (ar entre grumos de mecônio), frequentemente mais evidente em fossa ilíaca direita; poucos ou nenhum nível hidroaéreo.
    • Clister opaco com contraste hidrossolúvel (padrão diagnóstico): Demonstra falhas de preenchimento por grumos de mecônio e pode mostrar microcólon de desuso com refluxo para íleo terminal preenchido por “rolhas” de mecônio. É simultaneamente diagnóstico e terapêutico.
    • Diferenciais-chave:
      • Doença de Hirschsprung: zona de transição (reto estreito, cólon proximal dilatado), toque retal com explosão fecal, níveis hidroaéreos mais frequentes.
      • Enterocolite necrotizante: prematuros, toxemia sistêmica, pneumatose intestinal no RX.
      • Volvo por má rotação: RX variável; enema pode mostrar “bico de pássaro”; costuma cursar com instabilidade/atrofia vascular precoce.
      • Sepse neonatal: pode cursar com íleo paralítico, mas sem padrão radiológico “vidro moído”/falhas por grumos.

    Conduta & Posologia (DINÂMICO)

    • Primeiro passo (suporte): Jejum absoluto, sonda orogástrica em drenagem, reposição volêmica com cristaloide, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, monitorização contínua.
    • Exame terapêutico: Enema com contraste hidrossolúvel (ex.: Gastrografina) sob radioscopia por cirurgião pediátrico/radiologia pediátrica. Diluir (ex.: 1:3 a 1:5 em soro fisiológico), infusão lenta e pressão baixa até refluxo ileal e desimpactação dos grumos. Repetir se necessário, com vigilância clínica.
    • Antibióticos: Não são rotineiros no íleo meconial não complicado. Iniciar antibióticos de amplo espectro se sinais de perfuração/peritonite/instabilidade (ex.: piperacilina-tazobactam + aminoglicosídeo conforme protocolo institucional).
    • Indicação de cirurgia: Falha do enema terapêutico, perfuração, peritonite meconial, volvo/atresias associadas. Procedimentos possíveis: enterotomia com lavagem, ressecção limitada e estoma conforme achados.
    • Investigação de base: Após estabilização, investigar fibrose cística: confirmação com teste do suor (cloro ≥60 mEq/L em duas amostras) e acompanhamento em centro de referência; a triagem neonatal com tripsina imunorreativa já deve ter sido coletada.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Toda obstrução intestinal neonatal é indicação de internação hospitalar. UTI neonatal se necessidade de suporte ventilatório, instabilidade hemodinâmica, sepse/peritonite, pós‑operatório.
    • Alertas de segurança: Evitar enema com bário (risco grave se perfuração). Proceder somente com contraste hidrossolúvel e equipe experiente.

    Discussão das alternativas

    ✅ D) íleo meconial

    Alternativa correta. Quadro clássico: RN termo com distensão e vômitos biliosos, RX com “vidro moído” e clister com falhas de preenchimento por grumos de mecônio. O enema hidrossolúvel é diagnóstico e terapêutico.

    ❌ A) enterocolite necrotizante.

    Alternativa incorreta. Típica de prematuros/instáveis. RX mostra pneumatose intestinal, gás no sistema porta e níveis hidroaéreos. Aqui há RN termo, sem toxemia, com “vidro moído” e falhas de preenchimento, o que aponta para íleo meconial.

    ❌ B) doença de Hirschsprung.

    Alternativa incorreta. Espera-se zona de transição (reto estreito/cólon proximal dilatado) no enema e explosão fecal ao toque. Níveis hidroaéreos são comuns. O padrão “vidro moído” e as falhas por grumos favorecem íleo meconial.

    ❌ C) volvo intestinal.

    Alternativa incorreta. Em má rotação/volvo espera-se instabilidade potencial e sinais de isquemia; exame contrastado pode mostrar “bico de pássaro”. O achado radiológico chave deste caso é “vidro moído” com grumos de mecônio.

    ❌ E) sepse neonatal precoce.

    Alternativa incorreta. Pode cursar com íleo paralítico, mas sem padrão específico de “vidro moído” e falhas de enchimento por mecônio. Além disso, o RN não tem sinais sistêmicos de infecção no enunciado.


    Take-home message

    • RN com vômito biliar + distensão + RX “vidro moído” e enema com falhas de preenchimento = diagnóstico de íleo meconial.
    • Enema hidrossolúvel sob radioscopia é o próximo passo: diagnóstico e terapêutico na maioria dos casos.
    • Investigue fibrose cística após estabilização (triagem neonatal e teste do suor para confirmação).
    • Red flag: Nunca usar bário no enema do RN com suspeita de perfuração/obstrução alta — prefira contraste hidrossolúvel.
    • Falha do enema, perfuração ou peritonite meconial exigem abordagem cirúrgica imediata por equipe de cirurgia pediátrica.


    Questão 34EMERGÊNCIAS RESPIRATÓRIAS - Bronquiolite

    Paciente, 5 anos, do sexo masculino, apresenta quadro de coriza clara, faringite, tosse leve e febre baixa há 48 horas. Evolui com quadro de estridor leve em repouso, retração intercostal moderada, saturação de O2 de 94%, apresentando agitação sob estímulo. Sua ausculta pulmonar mostra murmúrio vesicular reduzido globalmente. Sobre o quadro descrito, é correto afirmar que

    • A)

      se trata de um quadro de crupe viral leve devendo ser realizada dose única de dexametasona 0,3 mg/kg e alta logo após.

    • B)

      se trata de um quadro de supraglotite e é indicada a intubação eletiva para proteção da via aérea.

    • C)

      o tratamento de escolha para esse caso é a realização de nebulização com epinefrina 0,5 ml/kg (dose máxima de 5 ml) associada a realização de dexametasona (0,3 a 0,6 mg/kg) pela via IM e observação mínima por 4 horas.

    • D)

      o tratamento de escolha para esse caso é a realização de Salbutamol 6 puffs a cada 20 minutos, associada à realização de dexametasona (0,3 a 0,6 mg/kg) podendo a criança ter alta após a melhora clínica.

    • E)

      a eficácia da dexametasona por administração oral é muito inferior da realizada pela via intramuscular e por isso o uso oral é proscrito nos casos de crupe viral.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Crupe viral é a principal causa de estridor agudo em crianças; gravidade define a conduta. Presença de estridor em repouso e retrações indica, no mínimo, crupe moderado e exige adrenalina nebulizada + corticoterapia e observação.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Predomina entre 6 meses e 6 anos; pico em 1–3 anos. Agentes mais comuns: Parainfluenza tipos 1–3; também Vírus sincicial respiratório, Influenza.
    • Vacinação contra Haemophilus influenzae tipo b tornou supraglotite rara e muda o diagnóstico diferencial do estridor agudo.

    Diagnóstico

    • Definição operacional: Laringotraqueíte viral (crupe) = infecção de via aérea superior com tosse “metálica/ladrante”, rouquidão, estridor inspiratório e graus variáveis de desconforto respiratório após pródromos de resfriado.
    • Avaliação de gravidade (prática): - Leve: estridor apenas ao choro/agitação, sem retrações significativas, sem hipoxemia.
      - Moderado: estridor em repouso + retrações moderadas, agitação eventual, alimentação mantida.
      - Grave/iminência de falência: estridor intenso ou silencioso por fluxo muito baixo, retrações graves ou torpor, hipóxia (saturação < 92–93%), fadiga.
    • Diagnósticos diferenciais chave: Supraglotite (febre alta, odinofagia intensa, sialorreia, posição de tripé, sem tosse ladrante), traqueíte bacteriana (toxicidade, febre alta, secreção purulenta, piora após crupe viral), corpo estranho.

    Conduta & Posologia

    • Oxigênio: Suplementar para saturação < 94% em ar ambiente. Evitar manobras que agitem a criança.
    • Corticoterapia (dose única): Dexametasona 0,15–0,6 mg/kg (máx 10 mg) por VO (preferencial), podendo ser IM/IV se vômitos ou indisponibilidade VO.
    • Broncodilatador adrenérgico inalatório (casos moderados a graves): Epinefrina (L-adrenalina) 1 mg/mL por nebulização: 0,5 mL/kg diluída em 3–5 mL de SF 0,9%, dose máxima 5 mL por nebulização. Efeito em 10–30 min, duração ~2 horas. Observar por, no mínimo, 2–4 horas após a última dose pela possibilidade de rebote.
    • Repetição: Pode repetir adrenalina a cada 20–30 min se necessário sob monitorização. Considerar internação se múltiplas doses forem necessárias.
    • O que não usar: Salbutamol e antitussígenos não têm papel no crupe (doença de via aérea superior).
    • Ajustes especiais: Dexametasona sem ajuste em doença renal crônica; cautela em insuficiência hepática grave. Epinefrina inalatório pode causar taquicardia/hipertensão; benefício supera risco, inclusive em cardiopatias, quando indicado.
    • Efeitos adversos relevantes: Epinefrina: taquicardia, palidez, tremor, hipertensão transitória. Dexametasona: hiperglicemia transitória, agitação, vômitos.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se estridor em repouso persistente após tratamento inicial, necessidade de repetidas nebulizações com adrenalina, saturação < 94% em ar ambiente, desidratação/incapacidade de hidratação oral, comorbidades importantes ou distância do serviço. UTI se exaustão, hipoxemia refratária, alteração de nível de consciência, necessidade de ventilação ou falha iminente da via aérea.
    • Alta segura: Sem estridor em repouso, recesso leve ou ausente, saturação ≥ 94% em ar ambiente, alimentação/ingesta adequadas, orientação de sinais de alarme e retorno imediato se piora.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) se trata de um quadro de crupe viral leve devendo ser realizada dose única de dexametasona 0,3 mg/kg e alta logo após.

    Alternativa incorreta.estridor em repouso, retração moderada e saturação 94%: quadro compatível com crupe moderado, não leve. Além da dexametasona, está indicado adrenalina nebulizada e observação por 2–4 horas antes de considerar alta.

    ❌ B) se trata de um quadro de supraglotite e é indicada a intubação eletiva para proteção da via aérea.

    Alternativa incorreta. Supraglotite cursa com febre alta, odinofagia intensa, sialorreia, recusa em deitar e sem tosse ladrante. Neste caso há pródromo viral, tosse típica e ausência de sialorreia, compatíveis com crupe. Intubação profilática não é indicada.

    ✅ C) o tratamento de escolha para esse caso é a realização de nebulização com epinefrina 0,5 ml/kg (dose máxima de 5 ml) associada a realização de dexametasona (0,3 a 0,6 mg/kg) pela via IM e observação mínima por 4 horas.

    Alternativa correta. Quadro moderado requer adrenalina inalatório em dose 0,5 mL/kg (máx 5 mL) da solução 1 mg/mL, associada à dexametasona 0,15–0,6 mg/kg (IM se não tolera VO). Observação mínima 2–4 horas é mandatória pelo risco de rebote após adrenalina.

    ❌ D) o tratamento de escolha para esse caso é a realização de Salbutamol 6 puffs a cada 20 minutos, associada à realização de dexametasona (0,3 a 0,6 mg/kg) podendo a criança ter alta após a melhora clínica.

    Alternativa incorreta. Salbutamol age em musculatura lisa de via aérea inferior e não trata obstrução subglótica do crupe. O fármaco broncodilatador de escolha é epinefrina nebulizada.

    ❌ E) a eficácia da dexametasona por administração oral é muito inferior da realizada pela via intramuscular e por isso o uso oral é proscrito nos casos de crupe viral.

    Alternativa incorreta. A via oral tem eficácia equivalente à IM/IV na maioria dos casos e é a via preferida quando possível. A via IM/IV é reservada para vômitos ou recusa de VO.


    Take-home message

    • Crupe moderado = estridor em repouso + retrações: precisa dexametasona e epinefrina nebulizada.
    • Epinefrina inalatório: 0,5 mL/kg (máx 5 mL) da solução 1 mg/mL por nebulização; observar por 2–4 h.
    • Dexametasona dose única: 0,15–0,6 mg/kg (máx 10 mg) VO preferencial; IM/IV se vômitos.
    • Red flag: não use salbutamol no crupe (doença de via aérea superior).
    • Suspeite supraglotite se febre alta + sialorreia + posição de tripé + ausência de tosse ladrante; maneje via aérea com cautela.
    • Indique internação se estridor em repouso persistente, hipoxemia, múltiplas nebulizações de adrenalina ou ingesta oral inadequada.


    Questão 35Contracepção/Anticoncepção

    Uma menina com 14 anos de idade é atendida pelo médico, enquanto a mãe a aguarda na sala de espera. A menina quer orientação (e pede sigilo), para uso de método contraceptivo, pois está namorando e tendo relações sexuais com um rapaz de 17 anos. Estão felizes e a menina apresenta plena capacidade de entendimento e de decisão acerca de sua saúde. O médico deve, além de deixar todas as decisões escritas em prontuário

    • A)

      realizar as orientações e certificar-se de que houve entendimento por parte da adolescente mantendo o sigilo.

    • B)

      solicitar que a menor retorne em alguns dias em uma consulta com alguém de sua confiança, com mais de 18 anos de idade, para ser o interlocutor responsável, a fim de evitar a quebra de sigilo.

    • C)

      comunicar aos responsáveis, de forma sigilosa, sem o conhecimento da adolescente, para que possam avaliar a situação e propor medidas para protegê-la.

    • D)

      orientar sobre o risco de doenças e dar um prazo de alguns dias para a paciente revelar aos pais, caso contrário, o médico deverá quebrar o sigilo.

    • E)

      avisar à menor que devem revelar aos responsáveis imediatamente, pois, caso haja algum evento adverso, incluindo gravidez não planejada, o profissional estará sujeito a penalidades.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em saúde sexual e reprodutiva, o sigilo do(a) adolescente capaz deve ser preservado. Quebra de sigilo só se justifica por risco relevante à vida/terceiros ou suspeita/certeza de violência. 


    Epidemiologia e Etiologia


    Contexto brasileiro: Iniciação sexual na adolescência é frequente; barreiras de acesso a métodos e medo de exposição reforçam a importância do sigilo para adesão e prevenção de gravidez não planejada e infecções sexualmente transmissíveis.


    Marco legal: ECA (Lei 8.069/1990) assegura direito à saúde, respeito, privacidade e confidencialidade (arts. 7, 17). Código de Ética Médica (Res. CFM 2.217/2018) protege o segredo profissional; permite revelação apenas por justa causa, dever legal ou autorização do(a) paciente.


    Capacidade: Adolescente (12–18 anos) com capacidade de entendimento pode consentir cuidados em saúde sexual e reprodutiva sem necessidade de responsável, preservado o sigilo, salvo risco/violência.


    Diagnóstico


    O que é “justa causa” para quebrar sigilo: Situações que expõem o(a) adolescente a risco grave e iminente à vida/saúde, ameaça a terceiros ou quando houver suspeita/certeza de violência (sexual, física, psicológica, negligência). No Brasil, suspeita de maus-tratos impõe notificação compulsória (ECA, art. 13).


    Quando manter sigilo: Relação sexual consentida entre adolescentes, sem indícios de violência/coerção/abuso, com paciente capaz de decidir. Exemplo: menina 14 anos e parceiro 17 anos, relação consensual, demanda por contracepção.


    Armadilha de prova: Relação sexual com menor de 14 anos configura estupro de vulnerável (crime) — exige notificação e proteção; o sigilo não se mantém nesse caso.


    Conduta & Posologia


    Passos práticos (ético-assistenciais):

    1) Garantir ambiente confidencial;

    2) Aferir e registrar capacidade de entendimento;

    3) Realizar aconselhamento contraceptivo e dupla proteção (preservativo + método eficaz);

    4) Ofertar métodos disponíveis no SUS e insumos;

    5) Rastrear sinais de violência/coerção;

    6) Testagem para ISTs conforme protocolos do MS;

    7) Documentar no prontuário todo o processo e a opção pelo sigilo.


    Quando envolver responsáveis: Preferencialmente com consentimento da adolescente. Sem consentimento, apenas se houver risco relevante ou violência (justa causa/dever legal).


    Itens de proteção adicional: Atualizar esquema vacinal (HPV, hepatite B), ofertar preservativos, discutir contracepção de emergência quando pertinente, e agendar retorno em 4–12 semanas para seguimento e revisão de método.


    Critérios de encaminhamento/acionamento de rede: Acionar serviços de proteção/notificação em suspeita de violência, ideação suicida, dependência química grave, risco social significativo ou incapacidade de decisão.


    Mini-exemplo clínico: Adolescente de 15 anos, capaz, pede pílula e nega violência: manter sigilo e prescrever método; se revelasse coerção por adulto, quebrar sigilo com notificação e proteção.


    Discussão das alternativas


    ✅ A) realizar as orientações e certificar-se de que houve entendimento por parte da adolescente mantendo o sigilo.

    Alternativa correta. Corresponde ao dever ético-legal: manter o sigilo quando a adolescente é capaz e não há indícios de violência/risco grave. Deve-se orientar, garantir compreensão e registrar em prontuário. Base: Código de Ética Médica (segredo profissional) e ECA (direito à privacidade).


    ❌ B) solicitar que a menor retorne em alguns dias em uma consulta com alguém de sua confiança, com mais de 18 anos de idade, para ser o interlocutor responsável, a fim de evitar a quebra de sigilo.

    Alternativa incorreta. Não se exige a presença de adulto como “interlocutor responsável” para cuidados em saúde sexual de adolescente capaz. Impor essa condição fere autonomia e pode criar barreira de acesso. Correto: atender, orientar e manter sigilo, convidando responsáveis apenas se a adolescente consentir.


    ❌ C) comunicar aos responsáveis, de forma sigilosa, sem o conhecimento da adolescente, para que possam avaliar a situação e propor medidas para protegê-la.

    Alternativa incorreta. Comunicação sem consentimento e sem justa causa configura quebra indevida de sigilo. Só é lícito comunicar responsáveis quando houver risco relevante/violência ou com autorização da paciente.


    ❌ D) orientar sobre o risco de doenças e dar um prazo de alguns dias para a paciente revelar aos pais, caso contrário, o médico deverá quebrar o sigilo.

    Alternativa incorreta. “Prazos” para revelar a responsáveis e ameaça de quebra de sigilo sem justa causa não têm amparo ético-legal. A decisão de revelar deve ser voluntária da adolescente capaz; o médico pode estimular o diálogo, mas não condicionar o cuidado a isso.


    ❌ E) avisar à menor que devem revelar aos responsáveis imediatamente, pois, caso haja algum evento adverso, incluindo gravidez não planejada, o profissional estará sujeito a penalidades.

    Alternativa incorreta. Não há previsão de penalidade ao médico por manter o sigilo em situação ética adequada. Pelo contrário, a quebra injustificada pode gerar sanção ética. Gravidez não planejada não é, por si, justificativa para romper sigilo.


    Take-home message

    • Adolescente capaz, sem indícios de violência/risco grave: manter sigilo e ofertar cuidado integral em saúde sexual e reprodutiva.
    • “Justa causa” para quebrar sigilo: risco relevante, ameaça a terceiros ou suspeita/certeza de violência (ECA impõe notificação).
    • Registrar no prontuário: capacidade, orientações dadas, decisão pelo sigilo e plano de seguimento.
    • Convidar responsáveis só com consentimento da adolescente ou por dever legal (violência/risco).
    • Red flag: Relação sexual com menor de 14 anos = estupro de vulnerável → notificação e proteção, sem manter sigilo.

    Questão 35Alergia a proteína do leite de vaca (APLV)

    Lactente de 4 meses, em aleitamento misto, apresenta sangue nas fezes e irritabilidade após as mamadas. A mãe iniciou dieta de exclusão de leite e derivados, há 2 semanas, com melhora parcial dos sintomas. O pediatra considera o diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV).

    Assinale a alternativa correta com relação à conduta adequada a ser seguida.

    • A)

      Realizar testes cutâneos de hipersensibilidade imediata (prick test) para confirmar o diagnóstico.

    • B)

      Manter a exclusão materna e realizar teste de provocação oral (TPO), após 2 a 4 semanas, para confirmação diagnóstica.

    • C)

      Introduzir fórmula à base de soja, pois apresenta menor potencial alergênico que as fórmulas extensamente hidrolisadas.

    • D)

      Solicitar endoscopia com biópsia intestinal para todos os casos de suspeita de APLV não IgE mediada.

    • E)

      Prescrever fórmula à base de aminoácidos imediatamente, independentemente da gravidade do quadro.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Alergia à proteína do leite de vaca (APLV) não imunoglobulina E mediada em lactentes é diagnóstico clínico confirmado por teste de provocação oral (padrão-ouro). Conduta inicial é exclusão do alérgeno por 2–4 semanas e, se precisar de complemento, usar fórmula extensamente hidrolisada. Soja não é de primeira linha antes de 6 meses.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Frequência: APLV acomete ~2–3% dos lactentes; formas não imunoglobulina E mediadas (proctocolite alérgica, enteropatia) predominam no primeiro semestre de vida. 
    • Mecanismo: Resposta imune anômala às proteínas do leite de vaca. Nas formas não imunoglobulina E, há inflamação gastrointestinal retardada (horas–dias) sem testes cutâneos positivos.

    Diagnóstico

    • Definição operacional: Lactente com hematochezia/irritabilidade pós-mamada e melhora com dieta de exclusão por 2–4 semanas, seguida de teste de provocação oral (TPO) positivo, confirma APLV não imunoglobulina E mediada. Padrão-ouro: TPO. 
    • Testes cutâneos (prick) e imunoglobulina E específica: Úteis apenas nas formas imunoglobulina E mediadas; via de regra negativos e não indicados nas formas não imunoglobulina E.
    • Endoscopia/biópsia: Reservadas a casos graves, refratários ou para diagnóstico diferencial (doença inflamatória intestinal, polipose, outras enteropatias). Não é rotina em suspeita típica de APLV não imunoglobulina E.

    Conduta & Posologia (DINÂMICO)

    • Amamentação: Manter aleitamento materno. Mãe em dieta de exclusão de leite e derivados por 2–4 semanas, com suplementação de cálcio e vitamina D conforme necessidade. Reavaliar sintomas.
    • Fórmula complementar: Se necessário, a primeira escolha é fórmula extensamente hidrolisada (caseína ou proteína do soro extensamente hidrolisada). Evitar leite in natura e fórmulas padrão.
    • Fórmula de aminoácidos: Indicar se: falha clínica com extensamente hidrolisada; anafilaxia; enteropatia grave com comprometimento nutricional; múltiplas alergias alimentares; forma grave de síndrome de enterocolite induzida por proteína alimentar. Não é de rotina inicial.
    • Soja: Não usar antes de 6 meses e não é de primeira linha devido à reatividade cruzada e menor tolerabilidade em lactentes pequenos.
    • Confirmação diagnóstica: Após 2–4 semanas de exclusão e melhora, realizar teste de provocação oral (ambulatorial em baixo risco; hospitalar se história de reação sistêmica). Se positivo, manter exclusão por 6–12 meses e reavaliar tolerância.
    • Critérios de internação/urgência: Internar se anafilaxia, desidratação/letargia por vômitos persistentes sugerindo síndrome de enterocolite induzida por proteína alimentar, anemia/hipoalbuminemia com repercussão clínica, falha de crescimento importante.

    Mini-exemplo: Lactente 4 meses, sangue nas fezes e irritabilidade; melhora parcial após 2 semanas de exclusão materna. Próximo passo para confirmar: manter exclusão até 2–4 semanas e realizar TPO supervisionado.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Manter a exclusão materna e realizar teste de provocação oral (TPO), após 2 a 4 semanas, para confirmação diagnóstica.

    Alternativa correta. Nas formas não imunoglobulina E mediadas, o diagnóstico é clínico e confirmado por TPO após 2–4 semanas de exclusão com melhora. É o padrão-ouro recomendado por SBP/ASBAI. 

    ❌ A) Realizar testes cutâneos de hipersensibilidade imediata (prick test) para confirmar o diagnóstico.

    Alternativa incorreta. O prick test avalia sensibilização imediata (imunoglobulina E). Nas formas não imunoglobulina E mediadas é usualmente negativo e não confirma o diagnóstico. Padrão-ouro é o TPO.

    ❌ C) Introduzir fórmula à base de soja, pois apresenta menor potencial alergênico que as fórmulas extensamente hidrolisadas.

    Alternativa incorreta. Soja não é de primeira linha, especialmente antes de 6 meses, devido à reatividade cruzada e pior tolerância. A fórmula extensamente hidrolisada é a escolha inicial quando necessário complementar.

    ❌ D) Solicitar endoscopia com biópsia intestinal para todos os casos de suspeita de APLV não IgE mediada.

    Alternativa incorreta. Endoscopia não é rotina. Indica-se apenas em casos graves, refratários ou para diagnóstico diferencial. Na suspeita típica, a estratégia é exclusão + TPO.

    ❌ E) Prescrever fórmula à base de aminoácidos imediatamente, independentemente da gravidade do quadro.

    Alternativa incorreta. Fórmula de aminoácidos é reserva para falha/intolerância à extensamente hidrolisada, anafilaxia ou enteropatia grave. Início direto é excesso e não segue diretriz.


    Take-home message

    • APLV não imunoglobulina E mediada: diagnóstico clínico + teste de provocação oral após 2–4 semanas de exclusão (padrão-ouro).
    • Manter aleitamento materno; se complementar, iniciar fórmula extensamente hidrolisada como primeira linha.
    • Fórmula de aminoácidos: reservar para falha à extensamente hidrolisada, anafilaxia ou enteropatia grave.
    • Red flag: não indicar soja antes de 6 meses e evitar testes cutâneos em suspeita não imunoglobulina E.
    • Internar se anafilaxia, síndrome de enterocolite induzida por proteína alimentar grave, desidratação, anemia/hipoalbuminemia com repercussão ou falha de crescimento importante.


    Questão 36Crise convulsiva e perda de consciência


    Menino, 4 anos de idade, histórico de epilepsia de difícil controle, em uso de fenobarbital, levetiracetam e ácido valproico, é admitido no pronto-socorro devido à crise convulsiva tônico-clônica generalizada iniciada há 30 minutos. Paciente foi encaminhado à sala de emergência onde foi monitorizado, ofertado oxigenoterapia a 100%, foi obtido acesso venoso periférico e foram coletados exames complementares, incluindo glicemia capilar, que resultou em 78 mg/dL. Após a administração de duas doses de diazepam com intervalo de 5 minutos entre as doses, paciente não apresentou melhora da crise. Devido à refratariedade, iniciou-se fenobarbital. Após administração de fenobarbital, paciente apresenta os sinais vitais demonstrados na imagem a seguir:

    Foi optado por intubação orotraqueal com uso de video-laringoscópio. Realizadas duas tentativas de intubação com dificuldade de introdução da cânula orotraqueal, sendo necessário abortar as tentativas e realizar ventilação com bolsa valva máscara com oxigênio a 100%. Paciente com boa resposta a ventilação bolsa valva máscara, recuperando saturação para 100%, com expansibilidade preservada do tórax bilateralmente.

    Baseando-se na imagem apresentada, assinale a alternativa com a melhor conduta no momento.

    • A)

      Solicitar avaliação da equipe da cirurgia infantil ou de profissional capacitado para realizar cricotireoidotomia por punção.

    • B)

      Solicitar troca da lâmina do videolaringoscópio por lâmina reta com intuito de melhor manejo da via aérea apresentada.

    • C)

      Realizar nova tentativa com intubador mais experiente e utilizar dispositivo bougie para auxílio na intubação.

    • D)

      Realizar passagem de máscara laríngea e intubar apenas por bronscopia em 48 horas, devido edema da via aérea.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Via aérea difícil pediátrica: prioridade é oxigenar. Se ventila bem com bolsa-válvula-máscara (BVM), afaste cricotireoidotomia e otimize a próxima tentativa com operador experiente e adjuvantes (bougie/guia, posicionamento, lâmina adequada).


    O que é: Via aérea difícil em criança com laringe anteriorizada e epiglote mais complacente. Dificuldade principal é passagem do tubo mesmo com visualização.


    Por que importa: Cada tentativa falha aumenta hipóxia e edema. Regra de prova: se oxigenação estável com BVM, prossiga com estratégia escalonada e intubador mais experiente + adjuvante antes de resgates invasivos.


    Como identificar: Falha prévia de IOT apesar de boa ventilação BVM; laringe anterior em VL; necessidade de manipulação externa (BURP) para ver glote; dificuldade em direcionar o tubo — sugere benefício de bougie.


    Como manejar (sequência prática):

    - Otimizar posição (sniffing; rolo suboccipital; alinhamento meato-trago-esterno).

    - Manobra de pressão laríngea otimizada (BURP) por assistente.

    - Manter oxigenação apneica (O2 alto fluxo por cânula nasal).

    - Nova tentativa por operador mais experiente com bougie/guia semi-rígido e tubo 0,5 mm menor se resistência.

    - Se nova falha mas BVM eficaz: dispositivo supraglótico (máscara laríngea) como ponte para nova IOT. Procedimentos cirúrgicos apenas em falha de ventilação e oxigenação.


    Conduta & Posologia

    • Status epiléptico pediátrico (linhas iniciais):
    • - Benzodiazepínico: midazolam 0,2 mg/kg IV/IM/IN (max 10 mg) ou diazepam 0,2–0,3 mg/kg IV (máx 10 mg), repetir 1x após 5 min se necessário.
    • - Segunda linha (uma das opções): levetiracetam 40–60 mg/kg IV (máx 4500 mg) OU fenitoína/fosfenitoína 20 mg/kg IV OU fenobarbital 20 mg/kg IV.

    • Indução para IOT (criança): Ketamina 1–2 mg/kg IV ou etomidato 0,2–0,3 mg/kg IV; bloqueador neuromuscular: rocurônio 1–1,2 mg/kg IV (preferível se via aérea difícil) ou succinilcolina 1–2 mg/kg IV.

    • Ajustes: DRC/Child-Pugh: reduzir dose de levetiracetam em DRC moderada-grave; fenitoína/fenobarbital cautela em hepatopatia e monitorar níveis. Em uso de ácido valproico, atenção a depressão do SNC com fenobarbital.

    • Contraindicações: Succinilcolina em suspeita de miopatia (ex.: Duchenne), hipercalemia, queimaduras extensas, hipertermia maligna. Evitar múltiplas tentativas sequenciais sem reoxigenação adequada.

    • Efeitos adversos relevantes: Benzodiazepínicos/fenobarbital: depressão respiratória e hipotensão; ketamina: sialorreia, hipertensão/taquicardia; rocurônio: paralisia prolongada se falha de IOT.

    • Critérios de UTI: Status epiléptico, necessidade de ventilação mecânica, uso de infusão contínua de sedativos/antiepilépticos, instabilidade hemodinâmica.

    • Reavaliação/monitorização: Oximetria contínua, capnografia durante IOT/VM; limite prático: máx 2 tentativas por operador antes de escalar; entre tentativas, reoxigenar com BVM por 1–2 min.

    Armadilhas de prova

    • Indicar cricotireoidotomia quando a ventilação BVM está eficazerrado.
    • Persistir com mesma técnica sem adjuvante (sem bougie) após duas falhas — errado.
    • Adiar IOT por “edema” sem critério e sem necessidade — não é manejo de via aérea difícil.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Realizar nova tentativa com intubador mais experiente e utilizar dispositivo bougie para auxílio na intubação.

    Alternativa correta. Paciente ventila/oxigena bem com BVM (SpO2 100%), portanto a conduta é otimizar a próxima tentativa: operador experiente + bougie (guia semi‑rígido) aumenta taxa de sucesso em via aérea anteriorizada e na dificuldade de passagem do tubo. Associar manobra BURP, tubo 0,5 mm menor e manutenção de O2 apneico.

    ❌ A) Solicitar avaliação da equipe da cirurgia infantil ou de profissional capacitado para realizar cricotireoidotomia por punção.

    Alternativa incorreta. Indicação de acesso cirúrgico é cenário “não intubo, não oxigeno”. Aqui BVM está eficaz com SpO2 100%. Procedimento invasivo é desnecessário e arriscado em criança.

    ❌ B) Solicitar troca da lâmina do videolaringoscópio por lâmina reta com intuito de melhor manejo da via aérea apresentada.

    Alternativa incorreta. Lâmina reta (padrão Miller em < 8 anos) pode ajudar na exposição, mas o problema descrito é introdução do tubo. Sem adjuvante, a falha tende a persistir. A prioridade é operador experiente + bougie; a escolha da lâmina é medida acessória.

    ❌ D) Realizar passagem de máscara laríngea e intubar apenas por bronscopia em 48 horas, devido edema da via aérea.

    Alternativa incorreta. Dispositivo supraglótico é opção de resgate imediato se novas falhas ocorrerem, mas adiar 48 h sem indicação de edema clinicamente relevante não é conduta padrão. O objetivo é nova tentativa otimizada agora.


    Mensagem para levar para casa:

    • Se BVM mantém SpO2 adequada, evite via aérea cirúrgica; otimize IOT com operador experiente e adjuvantes.
    • Em via aérea anteriorizada, o bougie aumenta a taxa de sucesso da passagem do tubo.
    • Limite tentativas: até 2 por operador, com reoxigenação entre elas e capnografia para confirmação.
    • Status epiléptico: benzo imediato; segunda linha com levetiracetam 40–60 mg/kg IV ou fenitoína/fosfenitoína 20 mg/kg IV ou fenobarbital 20 mg/kg IV.
    • Red flag: Cricotireoidotomia só no cenário “não intubo, não oxigeno”.
    • Use rocurônio 1–1,2 mg/kg em via aérea difícil; evite succinilcolina se risco de hipercalemia/miopatia.

    Questão 39Hérnias da parede abdominal

    Observe a imagem a seguir:

    (Arquivo pessoal; imagem usada com autorização)

    Sobre o defeito de parede abdominal evidenciado na imagem, assinale a alternativa correta.

    • A)

      É rara a ocorrência de malformações associadas.

    • B)

      O cordão umbilical sempre está no ápice do defeito.

    • C)

      O defeito pode estar à direita do cordão umbilical.

    • D)

      Há sofrimento de alças intestinais.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Diferenciar onfalocele de gastrosquise pela posição do defeito, presença de membrana e malformações associadas. O enunciado e a imagem sugerem onfalocele (defeito na linha média, saco peritoneo-amniótico e cordão no ápice).


    Epidemiologia e Etiologia

    • Onfalocele: defeito de fechamento da parede abdominal na linha média com herniação de vísceras recobertas por membrana (amnio + peritônio). Alta associação com malformações (cardíacas, cromossômicas como trissomias 13/18/21) e síndromes (p.ex., Beckwith–Wiedemann).
    • Gastrosquise: defeito parao​mbilical direito, sem membrana, alças expostas e espessadas por reação inflamatória. Baixa associação com malformações maiores não intestinais.
    • No Brasil, são malformações relevantes em maternidades de alto risco, frequentemente diagnosticadas no pré-natal por ultrassonografia.

    Diagnóstico

    • Padrão-ouro (operacional): diagnóstico clínico ao nascimento + achados ultrassonográficos pré-natais.
    • Onfalocele – como identificar: defeito mediano na base do cordão, cordão umbilical inserido no ápice do saco, vísceras recobertas por membrana translúcida; tamanho variável (pequena: conteúdo intestinal; gigante: fígado).
    • Gastrosquise – contraste rápido: defeito à direita do cordão, sem membrana, alças livres, espessadas, com risco maior de perda hídrica/contaminação.
    • Avaliação complementar na onfalocele: ecocardiograma, ultrassom craniano e abdominal; investigação genética quando disponível, devido à alta associação com anomalias.

    Conduta & Posologia (DINÂMICO)

    • Primeiro passo na sala de parto (onfalocele): estabilização térmica e hemodinâmica, proteger o saco com gazes estéreis umedecidas com soro morno e cobertura plástica estéril; sondagem orogástrica para descompressão; acesso venoso e reposição conforme necessidade.
    • Antibioticoprofilaxia: recomendada de amplo espectro em defeitos abertos ou risco de ruptura; em onfalocele com membrana íntegra, seguir protocolo institucional e avaliação cirúrgica imediata.
    • Cirurgia (onfalocele): fechamento primário se volume/pressão permitirem; técnica em estágios (uso de silo e redução progressiva) nas onfaloceles gigantes para evitar hipertensão intra-abdominal e disfunção ventilatória.
    • Critérios de internação/UTI neonatal: todos os recém-nascidos com defeitos de parede abdominal requerem UTI neonatal; prioridade a controle térmico, ventilatório e balanço hídrico rigoroso. Monitorar sinais de hipertensão intra-abdominal no pós-operatório.
    • Follow-up: rastrear malformações associadas (especialmente cardíacas) e monitorar complicações respiratórias e nutricionais nas onfaloceles gigantes.
    • Armadilha de prova: não confundir “cordão no ápice do defeito” (onfalocele) com “defeito à direita do cordão” (gastrosquise).

    • Discussão das alternativas

    ✅ B) O cordão umbilical sempre está no ápice do defeito.

    Alternativa correta. Definição operacional de onfalocele: defeito mediano com vísceras cobertas por membrana e inserção do cordão no ápice do saco, achado clássico que diferencia de gastrosquise (onde o cordão está intacto e o defeito é lateral, geralmente à direita). Isso guia a conduta (proteção do saco e investigação de malformações associadas).

    ❌ A) É rara a ocorrência de malformações associadas.

    Alternativa incorreta. Na onfalocele, as malformações associadas são frequentes (cardíacas, cromossômicas e síndromes). A assertiva descreve gastrosquise, que costuma ter menor associação com anomalias maiores não intestinais.

    ❌ C) O defeito pode estar à direita do cordão umbilical.

    Alternativa incorreta. Defeito à direita do cordão caracteriza gastrosquise. Na onfalocele o defeito é mediano, com o cordão no ápice do saco.

    ❌ D) Há sofrimento de alças intestinais.

    Alternativa incorreta. Sofrimento/lesão inflamatória das alças é típico da gastrosquise (exposição direta, sem membrana). Na onfalocele, a membrana protege as alças; o risco maior recai sobre malformações associadas e complicações respiratórias nas onfaloceles gigantes.


    Take-home message

    • Onfalocele: defeito mediano com cordão no ápice e vísceras cobertas por membrana; alta associação com malformações.
    • Gastrosquise: defeito à direita do cordão, sem membrana, alças espessadas e maior perda hídrica/risco infeccioso.
    • Manejo inicial na onfalocele: proteger o saco com gaze úmida estéril, manter aquecimento, sonda orogástrica, acesso venoso e avaliação cirúrgica precoce.
    • Cirurgia: fechamento primário se possível; nas gigantes, redução em estágios com silo para evitar hipertensão intra-abdominal.
    • Red flag: Não confundir “cordão no ápice” (onfalocele) com “defeito à direita do cordão” (gastrosquise).
    • Sempre investigar malformações associadas na onfalocele (ecocardiograma, avaliação genética quando disponível).

    Questão 40Gestão em saúde

    Ao visitar um idoso acamado de 80 anos, restrito ao lar e dependente em relação às atividades de vida diária, a médica de família e comunidade verificou que ele não havia recebido as vacinas indicadas pelo Ministério da Saúde para os idosos. Ao questionar a filha de 55 anos, principal cuidadora, sobre a vacinação do idoso, ela respondeu que o pai é muito frágil e não iria aguentar os efeitos colaterais, e como ele é restrito ao lar, a família preferiu não vacinar. Assinale a alternativa que inclui, respectivamente, vacinas disponibilizadas no calendário de imunização nacional para o idoso e uma forma de abordar a situação encontrada.

    • A)

      Pneumocócica 23-valente, 1 dose, com reforço em 5 anos; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos; contra influenza e covid-19, anualmente; contra hepatite B, 3 doses. Agendar uma nova visita domiciliar com mais membros da família para dialogar sobre a situação.

    • B)

      Contra influenza e covid-19, anualmente; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos; contra hepatite B, 3 doses; contra herpes-zoster, 2 doses. Fazer denúncia ao Conselho Municipal do Idoso sobre não vacinação do idoso.

    • C)

      Pneumocócica 10-valente, 1 dose, com reforço em 5 anos; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos; contra influenza e covid-19, anualmente; contra hepatite B, 3 doses. Solicitar que a filha assine um termo de responsabilidade em relação à não vacinação do pai.

    • D)

      Pneumocócica 10-valente, 1 dose, com reforço em 5 anos; contra influenza e covid-19, anualmente; contra herpes-zoster, 2 doses; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos. Respeitar a autonomia da filha sobre a vacinação, uma vez que é a cuidadora responsável.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Por que importa: Idosos frágeis têm maior risco de complicações e morte por doenças imunopreveníveis; a restrição ao lar não elimina risco (contatos domiciliares levam vírus/bactérias). A abordagem correta é educação/compartilhamento de decisão, não coerção.


    Como manejar: Ofertar e atualizar vacinas do PNI; em hesitação, realizar escuta qualificada, agendar nova conversa com familiares-chave e o idoso, sanar mitos e registrar as orientações. Observação pós-vacinal: 15 minutos (30 min se história de anafilaxia).


    Conduta 

    • Influenza (PNI): 1 dose anual para ≥60 anos, durante a campanha.
    • Covid-19 (PNI): reforço anual para ≥60 anos; intervalo mínimo usual 6 meses entre doses, conforme nota técnica vigente.
    • dT (dupla adulto: difteria+tétano): Esquema para não vacinados: 0-2-6 meses; reforço a cada 10 anos. Se esquema prévio desconhecido/incompleto, completar.
    • Hepatite B: 3 doses (0-1-6 meses) para suscetíveis; checar sorologia se disponível. Em DRC em diálise: considerar dose dobrada (rede especializada).
    • Pneumocócica VPP23 (PNI - grupos/locais): em idosos com indicação programática (ex.: institucionalizados, comorbidades elegíveis e conforme oferta local): 1 dose com possibilidade de revacinação após 5 anos quando indicado por norma local/NT.

    • Armadilhas de prova:
    • Herpes-zóster recombinante não integra o PNI nacional (pode existir em programas locais ou na rede privada).
    • PCV10 é pediátrica; não é a vacina pneumocócica de rotina no idoso.
    • Autonomia é do paciente capaz, não do cuidador; diante de hesitação, a conduta é educativa, não punitiva.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Pneumocócica 23-valente, 1 dose, com reforço em 5 anos; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos; contra influenza e covid-19, anualmente; contra hepatite B, 3 doses. Agendar uma nova visita domiciliar com mais membros da família para dialogar sobre a situação.

    Alternativa correta. Lista vacinas do PNI para o idoso: influenza anual, Covid-19 conforme campanha (anual para ≥60), dT com reforço decenal, hepatite B 0-1-6 para suscetíveis e VPP23 quando indicado por norma do PNI/local (ex.: institucionalizados/comorbidades). A abordagem proposta (nova visita com familiares para educação/compartilhamento de decisão) é ética e preconizada na APS.

    ❌ B) Contra influenza e covid-19, anualmente; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos; contra hepatite B, 3 doses; contra herpes-zoster, 2 doses. Fazer denúncia ao Conselho Municipal do Idoso sobre não vacinação do idoso.

    Alternativa incorreta. A vacina contra herpes-zóster não integra o PNI nacional para idosos (é da rede privada ou de programas locais). A "denúncia" é inadequada; a conduta é abordagem de hesitação vacinal com educação e reforço de benefícios/segurança.

    ❌ C) Pneumocócica 10-valente, 1 dose, com reforço em 5 anos; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos; contra influenza e covid-19, anualmente; contra hepatite B, 3 doses. Solicitar que a filha assine um termo de responsabilidade em relação à não vacinação do pai.

    Alternativa incorreta. A pneumocócica PCV10 é esquema pediátrico; para idosos, quando indicado no PNI, utiliza-se VPP23. Além disso, "termo de responsabilidade" do cuidador não substitui a decisão do paciente capaz; o caminho é o diálogo qualificado e registro em prontuário.

    ❌ D) Pneumocócica 10-valente, 1 dose, com reforço em 5 anos; contra influenza e covid-19, anualmente; contra herpes-zoster, 2 doses; dupla adulto (dT – contra difteria e tétano), a cada 10 anos. Respeitar a autonomia da filha sobre a vacinação, uma vez que é a cuidadora responsável.

    Alternativa incorreta. Erra a vacina pneumocócica (PCV10 não é a de rotina no idoso) e inclui herpes-zóster fora do PNI. No plano ético, a autonomia é do paciente; cuidador decide apenas quando há incapacidade formal, o que não foi demonstrado.


    Take-home message

    • Idoso no PNI: influenza anual, Covid-19 com reforço anual, dT com reforço a cada 10 anos, hepatite B 0-1-6 para suscetíveis; VPP23 quando indicado por norma do PNI/local.
    • PCV10 é pediátrica; pneumococo no idoso (quando indicado) é VPP23 com possibilidade de revacinação em 5 anos.
    • Herpes-zóster não faz parte do PNI nacional para idosos; evite confundir com recomendações da rede privada.
    • Hesitação vacinal: conduza com escuta qualificada, educação e retorno agendado com familiares; evite medidas punitivas.
    • Contraindicação maior: anafilaxia a componente/ dose prévia; observe 15–30 min pós-aplicação.

    Questão 45Vigilância Epidemiológica - Notificação Compulsória

    Mulher de 32 anos, parda, ensino fundamental incompleto, trabalhadora rural, diarista no plantio de morango, procura Unidade Básica de Saúde (UBS) com queixas de tonturas, dores de cabeça, cansaço, náuseas e falta de ar. Ela referiu que desde os 20 anos sofre com dores de cabeça frequentes, mas há 2 semanas, após uma pulverização de agrotóxicos, começou a apresentar os sintomas descritos. Disse ainda que sua colega de trabalho apresentava queixas similares. Ao ouvir esses relatos, a médica da UBS suspeita de intoxicação aguda por agrotóxicos. Nessa situação, qual é a conduta adequada a ser adotada na assistência?

    • A)

      Encaminhar como caso suspeito ao centro de referência em saúde do trabalhador estadual e formalizar denúncia ao Ministério Público do Trabalho.

    • B)

      Estabelecer nexo causal entre os sintomas e os resultados de exames complementares, para confirmar diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos, e notificar a Vigilância em Saúde municipal.

    • C)

      Tratar os sintomas, solicitar exames complementares, notificar o caso no Sistema de Notificação de Agravos e Doenças (Sinan), conceder atestado médico e solicitar matriciamento à Vigilância em Saúde do Trabalhador.

    • D)

      Informar não ser responsável pelo preenchimento da comunicação de acidente de trabalho (CAT), por ser atribuição exclusiva da medicina do trabalho, no centro municipal de referência em saúde do trabalhador.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Intoxicação por agrotóxicos é agravo de notificação compulsória no Sinan; manejo clínico imediato + vigilância (notificar, investigar, matriciamento VISAT) é a tríade que a banca cobra.


    O que é: Quadro de intoxicação exógena ocupacional por exposição a agrotóxicos (organofosforados, carbamatos, piretroides etc.). Pode causar síndrome colinérgica (miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia), sintomas gerais (cefaleia, tontura, náusea, fadiga) e achados respiratórios.


    Por que importa: É agravo relacionado ao trabalho, coletivo e de alta relevância em saúde pública; requer notificação, vínculo com Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) e, quando indicado, emissão de CAT. O diagnóstico é clínico-epidemiológico; exames confirmatórios não são pré-requisito para notificar.


    Como identificar: História de exposição recente no ambiente de trabalho + sintomas compatíveis em mais de um trabalhador após pulverização. 


    Armadilha de prova: Exigir confirmação laboratorial antes de notificar. A notificação é obrigatória na suspeita e preferencialmente em até 7 dias; surtos devem ser informados imediatamente à vigilância.


    Conduta 

    • Primeiro passo (segurança e descontaminação): Remover fonte, retirar roupas e lavar pele/mucosas com água e sabão por 15–20 min. Oxigenar, monitorizar sinais vitais, acesso venoso.

    • Tratamento sintomático: Antiêmicos, analgésicos, broncodilatadores se broncoespasmo; benzodiazepínico se convulsão (Diazepam 5–10 mg IV, repetir até controle).

    • Suspeita de síndrome colinérgica (organofosforado/carbamato):
    • Atropina (adulto): 1–3 mg IV a cada 3–5 min até secar secreções e manter FC/PA estáveis; depois infusão contínua titulada conforme necessidade.
    • Atropina (criança): 0,02–0,05 mg/kg IV a cada 3–5 min até atropinização.
    • Pralidoxima (se exposição a organofosforado): Adulto 1–2 g IV em 30 min; manutenção 500 mg/h ou 8–10 mg/kg/h por 24–48 h conforme evolução. Criança: 30 mg/kg IV carga (máx. 2 g), depois 8–10 mg/kg/h. Evitar oximas nos carbamatos puros.

    • Exames úteis (não condicionam notificação): Colinesterase plasmática/eritrocitária, hemograma, eletrólitos, função renal/hepática, gasometria. Solicitar conforme disponibilidade.

    • Notificação e vigilância: Notificar no Sinan (intoxicação exógena) em até 7 dias; se suspeita de surto, comunicar imediatamente a Vigilância Municipal. Solicitar matriciamento pela Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT)/CEREST para investigação ambiental e orientações ao serviço.

    • Aspectos trabalhistas: Conceder atestado conforme gravidade e afastamento necessário. Qualquer médico pode emitir CAT na suspeita de relação com o trabalho (Lei 8.213/91, art. 22).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se síndrome colinérgica moderada a grave (broncorreia/broncoespasmo, hipoxemia, bradicardia/hipotensão), rebaixamento de consciência/convulsão, instabilidade respiratória, necessidade de antídotos IV, ou colinesterase marcadamente reduzida (<50% do basal). Ambulatorial apenas se leve, estável e com suporte domiciliar e retorno em 24–48 h.

    • Contraindicações/alertas: Não atrasar a notificação à espera de exame. Pralidoxima indicada para organofosforado; evitar em carbamato isolado. Cautela com atropina em coronariopatas; titular por resposta clínica.



    Discussão das alternativas

    ❌ A) Encaminhar como caso suspeito ao centro de referência em saúde do trabalhador estadual e formalizar denúncia ao Ministério Público do Trabalho.

    Alternativa incorreta. O encaminhamento/apoio técnico deve ser solicitado via matriciamento à VISAT/CEREST, mas a denúncia ao MPT não é conduta assistencial imediata de UBS e não substitui a notificação no Sinan, que é obrigatória na suspeita.

    ❌ B) Estabelecer nexo causal entre os sintomas e os resultados de exames complementares, para confirmar diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos, e notificar a Vigilância em Saúde municipal.

    Alternativa incorreta. Exige confirmação laboratorial antes de notificar, o que contraria a diretriz: a notificação é por suspeita clínica-epidemiológica. Nexo causal formal pode ser construído posteriormente com a Vigilância/CEREST; não é pré-requisito para notificar.

    ✅ C) Tratar os sintomas, solicitar exames complementares, notificar o caso no Sistema de Notificação de Agravos e Doenças (Sinan), conceder atestado médico e solicitar matriciamento à Vigilância em Saúde do Trabalhador.

    Alternativa correta. Resume a conduta adequada: assistência clínica imediata, notificação no Sinan por suspeita, atestação/afastamento conforme necessidade e articulação com VISAT/CEREST para investigação e ações de proteção coletiva.

    ❌ D) Informar não ser responsável pelo preenchimento da comunicação de acidente de trabalho (CAT), por ser atribuição exclusiva da medicina do trabalho, no centro municipal de referência em saúde do trabalhador.

    Alternativa incorreta. Qualquer médico que atenda o trabalhador pode emitir CAT na suspeita de relação com o trabalho (Lei 8.213/91, art. 22). Não é atribuição exclusiva da medicina do trabalho ou do CEREST.


    Take-home message

    • Intoxicação por agrotóxicos é de notificação compulsória no Sinan por suspeita clínica-epidemiológica (não esperar exames).
    • Assistência na UBS: manejo sintomático, exames de suporte, atestados quando necessário e matriciamento com VISAT/CEREST.
    • Síndrome colinérgica: Atropina 1–3 mg IV repetida até atropinização; considerar Pralidoxima se organofosforado.
    • Red flag: não atrasar notificação aguardando colinesterase; surtos devem ser comunicados imediatamente à vigilância.
    • CAT pode ser emitida por qualquer médico que atenda o trabalhador, na suspeita de nexo ocupacional.
    • Internar se sinais moderados/graves (broncorreia, hipoxemia, bradicardia/hipotensão, convulsão) ou necessidade de antídoto IV.

    Questão 50Promoção da saúde e segurança do trabalhador

    Sobre as ações da vigilância à saúde do trabalhador desenvolvidas no SUS, analise as proposições abaixo.

    I. Realiza promoção da saúde dos trabalhadores e prevenção de riscos advindos das condições laborais, causadores de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.

    II. Realiza coleta, análise, interpretação e disseminação de dados epidemiológicos, bem como planejamento e implementação de estratégias e intervenções em prol da saúde dos trabalhadores.

    III. Monitora as estatísticas vitais da população trabalhadora por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

    IV. Realiza vigilância epidemiológica e vigilância sanitária dos ambientes e da população trabalhadora, visando a recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho.

    V. Realiza assistência à saúde da população trabalhadora por meio de serviços especializados de medicina do trabalho, preferencialmente privados, conforme o princípio da complementariedade do SUS.

    • A)

      I, II e III.

    • B)

      I, II e IV.

    • C)

      I, III e V.

    • D)

      II, III e IV.

    • E)

      II, IV e V.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): A banca cobra a definição e o escopo da Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) no SUS, a articulação com a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST/CEREST) e os sistemas de informação corretos (SINAN vs estatísticas vitais: SIM/SINASC).


    Epidemiologia e Etiologia


    Relevância no Brasil: Agravos relacionados ao trabalho são subnotificados, com impacto em incapacidade e mortalidade; o SUS estrutura a VISAT para promoção, proteção, prevenção, assistência e reabilitação articulada à rede (PNSTT/2012).


    Estrutura SUS: Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT), RENAST e Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) apoiam tecnicamente a atenção básica e especializada.


    Diagnóstico


    VISAT (definição operacional): Conjunto de ações de vigilância epidemiológica e sanitária sobre ambientes, processos e populações trabalhadoras, para identificar riscos, prevenir agravos e articular a assistência (recuperação e reabilitação) na rede SUS.


    Sistemas de informação-chave: SINAN para agravos relacionados ao trabalho (ex.: acidentes graves, intoxicações, LER/DORT), SIM para mortalidade (estatísticas vitais) e SINASC para nascidos vivos; apoio de SIH/SUS, e-SUS/APS e dados previdenciários (ex.: CAT/INSS) na análise.


    Princípio da atenção: Assistência é preferencialmente pública, integral e universal no SUS; a rede privada é complementar apenas quando houver insuficiência do SUS (princípio da complementaridade).


    Conduta & Posologia


    Próximo passo em caso típico (ex.: surto de intoxicação ocupacional): Notificar no SINAN em até 24 horas (quando de notificação imediata), acionar CEREST regional, inspecionar ambiente/processo de trabalho, emitir recomendações técnicas e articular cuidado clínico e reabilitação na rede SUS.


    Componentes da ação de VISAT: Identificação de perigo e avaliação de risco no local de trabalho, medidas de controle (eliminação, substituição, engenharia, administrativa, Equipamentos de Proteção Individual), educação permanente e monitoramento de indicadores.


    Encaminhamento assistencial: Acesso via Atenção Primária à Saúde com apoio matricial do CEREST; reabilitação física/psicossocial articulada a serviços do SUS e redes intersetoriais (Previdência/Trabalho).


    Alerta de prova: Estatísticas vitais = SIM/SINASC, não SINAN. Assistência preferencialmente privada contradiz a universalidade/centralidade do SUS.


    Discussão das alternativas


    ✅ B) I, II e IV.

    Alternativa correta. (I) Promoção e prevenção de riscos ocupacionais são eixos centrais da VISAT na PNSTT. (II) Coleta, análise e disseminação de dados com planejamento/implementação de intervenções compõem a vigilância. (IV) A VISAT atua sobre ambientes e populações trabalhadoras e articula a recuperação/rehabilitação na rede SUS, decorrentes de riscos e agravos do trabalho.


    ❌ A) I, II e III.

    Alternativa incorreta. O item III erra ao afirmar que as estatísticas vitais (nascidos vivos e óbitos) são monitoradas pelo SINAN. Correção: estatísticas vitais são monitoradas pelo SIM (mortalidade) e SINASC (nascidos vivos). O SINAN é para agravos de notificação, inclusive relacionados ao trabalho.


    ❌ C) I, III e V.

    Alternativa incorreta. Incorreções nos itens III (estatísticas vitais ≠ SINAN) e V (assistência não é preferencialmente privada). A assistência à saúde do trabalhador é garantida na rede SUS; setor privado é apenas complementar quando houver insuficiência do SUS.


    ❌ D) II, III e IV.

    Alternativa incorreta. Cai pelo item III, que atribui estatísticas vitais ao SINAN. Mantêm-se corretos II e IV, mas a presença de III invalida o conjunto.


    ❌ E) II, IV e V.

    Alternativa incorreta. O item V contraria a PNSTT. Correto: a assistência deve ocorrer preferencialmente na rede pública do SUS, com complementaridade privada apenas quando necessário (insuficiência de oferta pública).


    Take-home message

    • VISAT = vigilância de ambientes, processos e populações trabalhadoras + análise de dados + intervenção + articulação da assistência/rehabilitação.
    • Sistemas: agravos ocupacionais no SINAN; estatísticas vitais no SIM/SINASC (pulo do gato de prova).
    • CEREST/RENAST apoiam a rede SUS para prevenção, diagnóstico, notificação e reabilitação do trabalhador.
    • Red flag: Não atribua estatísticas vitais ao SINAN (use SIM/SINASC).
    • Assistência é preferencialmente pública no SUS; setor privado é apenas complementar quando a rede pública é insuficiente.

    Questão 51Choque

    Mulher, 88 anos de idade, previamente sem comorbidades e com boa funcionalidade, internada com CEC de língua oral, T2N2, EC IVA. Há cinco dias, foi submetida à hemiglossectomia e esvaziamento cervical homolateral, níveis I a III, traqueostomia e passagem de sonda nasoenteral. No momento, encontra-se gemente, sonolenta com FC de 110 bpm, PA de 80×60 mmHg e SpO₂ de 90%. Além de hidratação e radiografia de tórax, as medidas imediatas mais adequadas, para o caso, são:

    • A)

      Dosagem de cálcio sérico e antibioticoterapia.

    • B)

      Analgesia, coleta de culturas e antibioticoterapia.

    • C)

      Analgesia e acessar familiares em relação à limitação de suporte.

    • D)

      Aspiração da traqueostomia e dosagem de cálcio sérico.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de prova: Pós-operatório tardio (5º dia) de cirurgia de cabeça e pescoço com traqueostomia + hipotensão, taquicardia, hipoxemia e rebaixamento = triade que obriga suspeitar de sepse/choque séptico, frequentemente por pneumonia hospitalar/aspiração. A conduta inicial em sepse é tempo-dependente: coletar culturas e iniciar antibiótico de amplo espectro na primeira hora, após obtenção de culturas.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Cenário brasileiro: Sepse é causa líder de mortalidade hospitalar no SUS; risco elevado em idosos e no pós-operatório de cabeça e pescoço por aspiração, colonização da traqueostomia e pneumonia hospitalar.

    • Etiologias prováveis (5º dia de internação): Pneumonia hospitalar de início tardio (flora multirresistente), broncoaspiração, traqueobronquite associada à traqueostomia; foco alternativo: sítio cirúrgico/pescoço.

    Diagnóstico

    • Sepse (definição operacional): Infecção suspeita/confirmada + disfunção orgânica (aumento do escore SOFA ≥ 2). Em prova, hipotensão, hipoxemia e alteração de consciência sugerem disfunção múltipla.

    • Choque séptico: Necessidade de vasopressor para manter pressão arterial média ≥ 65 mmHg após reposição volêmica adequada e lactato > 2 mmol/L.

    • Pneumonia hospitalar: Infiltrado novo em radiografia de tórax + febre ou leucocitose/leucopenia + secreção purulenta e/ou piora da oxigenação. Mini-exemplo: traqueostomizado com dessaturação e secreção espessa + Rx compatível = tratar como pneumonia hospitalar.

    Conduta & Posologia

    • Primeira hora da sepse: Oxigênio para manter SpO₂ 92–96%; coletar 2 pares de hemoculturas e aspirado traqueal antes do antibiótico; medir lactato; iniciar cristaloide 30 mL/kg e antibiótico empírico de amplo espectro.

    • Antibioticoterapia empírica (pneumonia hospitalar tardia/aspiração):
      • Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h (cobre anaeróbios e Gram negativos, inclusive Pseudomonas). Ajuste em DRC: reduzir intervalo conforme ClCr.
      • Alternativas: Cefepime 2 g IV 8/8–12/12 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h (se alta suspeita de anaeróbios); ou Meropenem 1 g IV 8/8 h em risco muito alto de multirresistência.
      • Cobertura para Staphylococcus aureus resistente se fatores de risco locais: Vancomicina 15–20 mg/kg IV 12/12 h (dose de ataque 25–30 mg/kg em sepse; monitorar vale 15–20 mg/L; ajustar em DRC) ou Linezolida 600 mg IV 12/12 h (se contraindicação à vancomicina).

      • Duração: 7 dias se resposta clínica adequada e controle de foco.

    • Analgésicos (melhoram ventilação, reduzem delirium/dor):
      • Dipirona 1 g IV 6/6 h (evitar em história de agranulocitose/hipersensibilidade).
      • Opioide se dor moderada-intensa: Morfina 2–4 mg IV, titular a cada 5–10 min até alívio; monitorar sedação/ventilação.

    • Vasopressor (se PA média < 65 mmHg após volume):
      • Norepinefrina 0,05–0,1 mcg/kg/min IV, titular para PAM ≥ 65 mmHg; preferir via central, mas pode iniciar em veia periférica calibrosa até acesso central.

    • Contraindicações/alertas: Não atrasar antibiótico para exames (coletar culturas rapidamente e iniciar).

    • Efeitos adversos relevantes: Vancomicina (nefrotoxicidade), linezolida (trombocitopenia), piperacilina-tazobactam (hipersensibilidade), carbapenêmicos (convulsões em risco).

    • Critérios de UTI: Choque séptico (necessidade de vasopressor), hipoxemia refratária, rebaixamento do nível de consciência. Reavaliar em 1–3 horas com sinais vitais, débito urinário e lactato.

    Armadilhas de prova:

    • Dosar cálcio não modifica desfecho imediato em quadro compatível com sepse.
    • Aspirar traqueostomia pode ser necessário para desobstrução, mas não substitui culturas + antibiótico de largo espectro em instabilidade.
    • Discussão de limitação terapêutica em idosa funcional deve ocorrer, mas após estabilização do evento agudo.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Analgesia, coleta de culturas e antibioticoterapia.

    Alternativa correta. Quadro compatível com sepse/choque séptico no 5º dia de internação, provável pneumonia hospitalar/aspiração associada à traqueostomia. Medidas imediatas baseadas em diretrizes: coletar culturas (hemoculturas e aspirado traqueal) e iniciar antibiótico de amplo espectro na primeira hora, além de analgesia para controle álgico e melhor ventilação. Justifica-se cobertura para Gram negativos não fermentadores e anaeróbios (ex.: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h), com adição de cobertura para Staphylococcus aureus resistente conforme risco local.

    ❌ A) Dosagem de cálcio sérico e antibioticoterapia.

    Alternativa incorreta. Falta o passo essencial de coleta de culturas antes do antibiótico e deixa de tratar a dor. Hipocalcemia não explica de forma primária o choque e não muda conduta imediata. A correção conceitual: culturas + antibiótico empírico amplo + analgesia.

    ❌ C) Analgesia e acessar familiares em relação à limitação de suporte.

    Alternativa incorreta. Embora a comunicação seja ética, em instabilidade hemodinâmica a prioridade é tratamento tempo-dependente da sepse (culturas e antibiótico imediato). Adiar antibiótico aumenta mortalidade.

    ❌ D) Aspiração da traqueostomia e dosagem de cálcio sérico.

    Alternativa incorreta. Aspiração da cânula pode ser necessária se houver tampão mucoso, mas não substitui o início rápido de antibiótico após culturas em suspeita de pneumonia hospitalar/sepse. Dosar cálcio acrescenta pouco ao manejo imediato.

    Mensagem para levar para casa:

    • Pós-operatório com traqueostomia + hipotensão, taquicardia, hipoxemia = suspeitar fortemente de sepse por pneumonia hospitalar/aspiração.
    • Na primeira hora: oxigênio, culturas, lactato, cristaloide 30 mL/kg e antibiótico amplo (ex.: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h ± cobertura para Staphylococcus aureus resistente).
    • Se PAM < 65 mmHg após volume, iniciar norepinefrina 0,05–0,1 mcg/kg/min e encaminhar UTI.
    • Analgésicos (dipirona/opioide titulado) melhoram conforto e ventilação; não atrasam antibiótico.
    • Red flag: Não atrasar antibiótico para exames além das culturas iniciais.
    • Aspirar traqueostomia se secreção/tampão, mas isso é adjuvante; o determinante de desfecho é culturas + antibiótico precoce.



    Questão 52Ascite

    Homem, 53 anos de idade, tem esquistossomose hepatoesplênica e comparece em consulta ambulatorial de seguimento. Nota edema nos tornozelos desde a última consulta. Já teve episódios prévios de encefalopatia hepática. Faz uso crônico de lactulose. Sinais vitais com PA de 154×86 mmHg, FC de 89 bpm, FR de 16 irpm, SpO₂ de 98%. Ao exame clínico, apresenta bom estado geral, vigil, orientado no tempo e no espaço, tônus normais, abdome plano, lobo esquerdo do fígado palpável, baço palpável, edema perimaleolar de 2+/4+. Exames laboratoriais: Hb:12,9 g/dL, Leucócitos: 4.230/mm³, Plaquetas: 98 mil/mm³, TGO/AST: 37 U/L, TGP/ALT: 43 U/L, Albumina: 3,1 g/dL, INR: 1,8, Cr: 1,37 mg/dL, Na: 130 mEq/L, Urina tipo 1: normal. Endoscopia digestiva alta com duas varizes esofágicas de grosso calibre, sem sinais de sangramento recente. Ultrassonografia de abdome superior com líquido livre em pequena quantidade na cavidade, aumento do lobo esquerdo do fígado e aumento do baço. Com base no caso clínico apresentado, assinale a alternativa que indica a melhor conduta terapêutica a ser realizada neste momento.

    • A)

      Infundir albumina.

    • B)

      Introduzir carvedilol.

    • C)

      Indicar paracentese.

    • D)

      Restringir água diária.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Varizes esofágicas de grosso calibre SEM sangramento recente exigem profilaxia primária com betabloqueador não-seletivo (BBNS) ou ligadura elástica; carvedilol é BBNS com ação alfa-1 que reduz mais o gradiente portal.


    O que é: Hipertensão portal na esquistossomose hepatoesplênica (pré-sinusoidal) com varizes calibrosas e leve ascite/edema.


    Por que importa: Varizes grandes têm alto risco de sangramento; BBNS reduz sangramento e mortalidade. Carvedilol é opção de primeira linha para profilaxia primária quando não há hipotensão/insuficiência renal aguda/ascite refratária.


    Como identificar: EDA com varizes grandes; PA 154/86 mmHg, sem sangramento, sem sinais de infecção; ascite pequena; Na 130 mEq/L (hiponatremia leve, assintomática).


    Como manejar (regra prática): Iniciar BBNS (carvedilol) e titular até FC ~55–60 bpm mantendo PAS ≥90 mmHg. Reservar albumina para paracentese de grande volume, peritonite bacteriana espontânea (PBE) ou síndrome hepatorrenal (SHR). Não restringir água se Na ≥125 mEq/L e assintomático. Paracentese diagnóstica é mandatória em internados com ascite; em ambulatório com pequena ascite e sem red flags, não é obrigatória de imediato.


    Conduta & Posologia

    • Primeira linha (profilaxia primária de varizes grandes): Carvedilol 6,25 mg VO 1x/dia; após 3–7 dias, aumentar para 6,25 mg VO 12/12h (12,5 mg/dia). Em pacientes com ascite, usualmente não exceder 12,5 mg/dia.

    • Alvos e monitorização: FC 55–60 bpm, PAS ≥90 mmHg. Reavaliar PA/FC e sintomas em 1–2 semanas após cada ajuste.

    • Ajustes: DRC: sem ajuste rotineiro. Hepatopatia avançada (Child-Pugh C/ascite refratária): usar com cautela, doses menores e suspender se hipotensão, IRA ou hiponatremia piorar.

    • Contraindicações: Asma/broncoespasmo ativo, BAV de 2º/3º grau, FC <55 bpm, PAS <90 mmHg, IRA/SHR, ascite refratária.

    • Efeitos adversos relevantes: Hipotensão, bradicardia, fadiga, tontura; pode piorar hiponatremia/IR se reduzir perfusão renal.

    • Alternativas (se não tolerar carvedilol): Propranolol 20 mg VO 12/12h (titular até 80–160 mg/dia) ou ligadura elástica endoscópica.

    • Albumina – quando usar: Paracentese >5 L (6–8 g/L retirado), PBE (1,5 g/kg dia 1 + 1 g/kg dia 3), SHR em combinação com vasoconstritor. Fora desses cenários, benefício é incerto.

    • Hiponatremia – restrição hídrica: Considerar se Na <125 mEq/L ou sintomática. Para Na 125–134 assintomático, foco em manejo da volemia e drogas.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se hemorragia digestiva, PBE suspeita (dor/ febre), IRA/SHR, encefalopatia moderada-grave, hiponatremia grave (<125), ascite tensa. Seguimento ambulatorial se estável e sem red flags.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Introduzir carvedilol.

    Alternativa correta. Varizes de grosso calibre sem sangramento recente: profilaxia primária com BBNS. Carvedilol reduz pressão portal mais que propranolol, e o paciente está hipertenso (PAS 154), sem IRA/hipotensão/ascite refratária. Dose inicial: 6,25 mg VO 1x/dia, titular para 6,25 mg 12/12h conforme tolerância, visando FC 55–60 bpm e PAS ≥90 mmHg.

    ❌ A) Infundir albumina.

    Alternativa incorreta. Albumina está indicada em paracentese de grande volume, PBE e SHR. Pequena ascite e edema leve, ambulatoriais, sem PBE/IRA, não justificam infusão de albumina.

    ❌ C) Indicar paracentese.

    Alternativa incorreta. Paracentese diagnóstica é mandatória em internados com ascite ou se houver suspeita de infecção/ascite tensa. Aqui há pequena ascite, paciente estável e ambulatorial, sem dor/ febre; a conduta prioritária é a profilaxia das varizes.

    ❌ D) Restringir água diária.

    Alternativa incorreta. Restrição hídrica só tem papel em hiponatremia grave (tipicamente Na <125 mEq/L) ou sintomática. Na atual (130 mEq/L) assintomática, foco deve ser controle portal e diurese/edema conforme necessário.


    Mensagem para levar para casa:

    • Varizes esofágicas de grosso calibre sem sangramento recente: iniciar profilaxia primária com BBNS (carvedilol) ou ligadura.
    • Esquema: Carvedilol 6,25 mg VO 1x/dia → 6,25 mg 12/12h, alvo FC 55–60 bpm e PAS ≥90 mmHg; em ascite, evitar >12,5 mg/dia.
    • Red flags para não iniciar ou suspender BBNS: hipotensão, IRA/SHR, ascite refratária, BAV/asma.
    • Albumina: use em paracentese >5 L, PBE e SHR; fora disso, não é rotina.
    • Paracentese diagnóstica é obrigatória no internado com ascite; em ambulatório estável com pequena ascite, pode não ser necessária de imediato.
    • Restrição hídrica só ajuda se Na <125 mEq/L ou sintomas de hiponatremia.

    Questão 56Cirrose

    Homem, 65 anos de idade, com cirrose hepática Child-Pugh B, em avaliação para biópsia hepática percutânea. Hemodinamicamente estável e sem história prévia de sangramento grave. Apresenta INR de 2,1 e plaquetas de 55.000/mm³. A conduta mais adequada antes do procedimento é:

    • A)

      Vitamina K.

    • B)

      Plasma fresco congelado ou complexo protrombínico.

    • C)

      Transfusão de plaquetas.

    • D)

      Nenhum preparo é necessário.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em cirrose, o INR isolado NÃO prediz sangramento e não deve ser corrido com plasma de rotina antes de procedimentos. Para biópsia hepática percutânea, um limiar prático de segurança é plaquetas ≥50.000/mm³; acima disso, não há indicação de transfusão profilática.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Cenário brasileiro: Biópsia hepática é procedimento frequente em cirróticos para estadiamento/etiologia. Coagulograma alterado (INR elevado e plaquetopenia) é comum por disfunção hepatocelular e hiperesplenismo.

    • Relevância clínica: O estado hemostático do cirrótico é “re-equilibrado” (redução de pró e anticoagulantes), tornando o INR pouco útil para predizer risco hemorrágico. Correções empíricas aumentam eventos (sobrecarga volêmica, trombose) sem reduzir sangramento.

    Diagnóstico

    • Definições operacionais:
      • INR elevado na cirrose: reflete deficiência de fatores vitamina K-dependentes e anticoagulantes endógenos, não correlaciona com risco de sangramento de forma confiável.

      • Plaquetas: Limiar prático para procedimentos de maior risco (ex.: biópsia percutânea) é ≥50.000/mm³. Abaixo disso, preferir rota transjugular ou considerar transfusão.

    • Padrão-ouro de avaliação do risco de sangramento: Não há. Testes viscoelásticos (ex.: tromboelastografia) podem orientar em centros com expertise, mas não são exigidos para biópsia eletiva.

    Conduta & Posologia

    • Condução pré-procedimento (biópsia percutânea): Se plaquetas ≥50.000/mm³ e sem outros fatores de risco significativos (sangramento ativo, uso de anticoagulante), não corrigir INR e não transfundir plaquetas rotineiramente.

    • Quando evitar percutânea/optar por transjugular: Plaquetas <50.000/mm³, ascite importante não controlada, coagulopatia clínica, necessidade de monitorização intraprocedimento do gradiente venoso.

    • Vitamina K: Indicar apenas se suspeita de deficiência (colestase grave, desnutrição, uso prolongado de antibiótico). Em ausência dessa suspeita, não melhora o risco hemorrágico do cirrótico.

    • Plasma fresco/Complexo protrombínico: Não usar profilaticamente para “normalizar INR” em cirrose; risco de sobrecarga volêmica e trombose porto-sistêmica sem benefício comprovado.

    • Critérios práticos de local e monitorização: Procedimento eletivo em ambiente com ultrassonografia à beira-leito, controle de dor e observação por 4–6 horas; internação se dor incapacitante, queda de hemoglobina, instabilidade hemodinâmica ou sangramento.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Nenhum preparo é necessário.

    Alternativa correta. Em cirrose, o INR elevado (p.ex., 2,1) não prediz sangramento e não deve ser “corrigido”. Com plaquetas de 55.000/mm³ (≥50.000/mm³), não há indicação de transfusão profilática. A biópsia percutânea pode ser realizada sem correções, desde que em ambiente controlado e com ultrassom. Base: MS/ABHH/SBH.

    ❌ A) Vitamina K.

    Alternativa incorreta. A deficiência de vitamina K deve ser confirmada/suspeitada (colestase, desnutrição). No cirrótico típico, a alteração do INR reflete reequilíbrio hemostático e não se corrige risco hemorrágico com vitamina K. Se houver clara suspeita de deficiência, esquema usual: fitonadiona 10 mg IV/dia por 1–3 dias, monitorando reação anafilactoide rara; fora disso, não indicado.

    ❌ B) Plasma fresco congelado ou complexo protrombínico.

    Alternativa incorreta. Não há indicação profilática para “normalizar” INR em cirrose. Risco de sobrecarga volêmica, elevação da pressão portal e trombose. Complexo protrombínico é reservado principalmente para reversão de anticoagulantes em sangramento/urgência, não para cirrose eletiva.

    ❌ C) Transfusão de plaquetas.

    Alternativa incorreta. Para biópsia percutânea, limiar prático é ≥50.000/mm³. O paciente tem 55.000/mm³; logo, não há indicação de transfusão profilática. Considerar transfusão ou via transjugular apenas se <50.000/mm³ ou outros fatores de alto risco.

    Mensagem para levar para casa:

    • INR elevado na cirrose não prediz sangramento e não deve ser corrigido profilaticamente antes de biópsia.
    • Para biópsia hepática percutânea, use o limiar prático de plaquetas ≥50.000/mm³ para evitar transfusões desnecessárias.
    • Prefira via transjugular se plaquetas <50.000/mm³, ascite importante ou coagulopatia clínica.
    • Red flag: Evite plasma/complexo protrombínico para “normalizar” INR em cirróticos sem sangramento.
    • Vitamina K só se houver suspeita real de deficiência (colestase/desnutrição); fora isso, não reduz risco.
    • Realize com ultrassonografia e observe 4–6h; investigar dor intensa, queda de Hb ou instabilidade.

    Questão 58Infecção do trato urinário (ITU)

    Mulher, 26 anos, previamente saudável, procura atendimento em um posto de saúde com queixa de disúria, aumento da frequência miccional e dor suprapúbica há 2 dias. Nega febre, calafrios ou dor lombar. Relata que teve relações sexuais há 3 dias. No exame físico, não há sinais de corrimento vaginal ou irritação vulvar. A análise do sedimento urinário revela leucocitúria e presença de nitritos positivos. Não foram realizados exames de imagem ou urocultura no momento. O diagnóstico e a conduta mais prováveis no caso são, respectivamente:

    • A)

      Cistite aguda – iniciar nitrofurantoína por 5 dias.

    • B)

      Vulvovaginite – solicitar cultura de secreção vaginal e iniciar tratamento antifúngico.

    • C)

      Uretrite – solicitar cultura de secreção vaginal e uretral e iniciar azitromicina.

    • D)

      Síndrome da bexiga dolorosa – solicitar exame de urina, urocultura e cistoscopia.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Disúria + polaciúria + dor suprapúbica SEM febre/dor lombar e dipstick com nitrito/leucócitos → cistite aguda não complicada. Tratar empiricamente sem necessidade de urocultura inicial em mulher jovem saudável.


    O que é: Cistite aguda não complicada é infecção limitada à bexiga em mulheres imunocompetentes, sem alteração urológica, sem gestação nem comorbidades relevantes.


    Por que importa: Quadro típico tem alto valor preditivo; conduta correta reduz uso inadequado de exames e antimicrobianos de espectro amplo.


    Como identificar: Sintomas baixos (disúria, urgência, frequência, dor suprapúbica), ausência de febre (>38 °C), calafrios e dor em flancos; urina tipo I: leucocitúria, nitrito positivo (sugere Enterobacterales, sobretudo E. coli).


    Armadilhas de prova: corrimento/prurido vulvar → pense em vulvovaginite; disúria sem piúria/nitrito + corrimento uretral → uretrite; dor pélvica crônica (>6 semanas) com uroculturas negativas → síndrome da bexiga dolorosa.


    Conduta & Posologia

    • Antibióticos de 1ª linha (ambulatorial):
      • Nitrofurantoína (monoidrato/macrocristais): 100 mg VO 12/12 h por 5 dias.
      • Fosfomicina trometamol: 3 g VO, dose única.
      • SMX-TMP (800/160 mg): 1 comp VO 12/12 h por 3 dias (usar apenas se resistência local a E. coli < 20% e sem uso recente).
      Alternativas (quando 1ª linha indisponível/contraindicada): Amoxicilina-clavulanato 500/125 mg VO 8/8 h por 5–7 dias; cefalexina 500 mg VO 6/6–8/8 h por 5–7 dias.

    • Evitar em cistite não complicada de primeira escolha: fluoroquinolonas, pelo risco de eventos adversos e necessidade de preservação do espectro.

    • Reavaliação: clínica em 48–72 h. Se falha/recidiva precoce, colher urocultura e ajustar terapia.

    • Ajustes/Restrições:
      • Nitrofurantoína: Contraindicada se TFG/ClCr < 30 mL/min; evitar no período periparto (38–42 semanas), RN < 1 mês e deficiência de G6PD.

      • Fosfomicina: sem ajuste relevante em DRC leve-moderada; evitar se pielonefrite suspeita.

      • SMX-TMP: cautela em insuficiência renal/hepática; ajustar se ClCr < 30 mL/min.

      • Gestação: preferir nitrofurantoína (2º trimestre) por 5–7 dias ou cefalosporina; evitar nitrofurantoína próximo ao termo.

    • Efeitos adversos relevantes: Nitrofurantoína: náuseas, cefaleia; raros: pneumonite/hepatotoxicidade. SMX-TMP: rash, hiperK, interação com varfarina. Fosfomicina: diarreia, náusea.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Cistite típica → ambulatorial. Internar se sinais sistêmicos/septicemia, vômitos incoercíveis, suspeita de pielonefrite (febre, dor em flancos), gestante com PAH grave, imunossupressão ou impossibilidade de VO.

    Limitação e referência: Doses e escolhas alinhadas a diretrizes amplamente aceitas (IDSA) e consensos nacionais. Prática na APS brasileira adota os mesmos esquemas de 1ª linha. Consulte protocolos locais de sensibilidade.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Cistite aguda – iniciar nitrofurantoína por 5 dias.

    Alternativa correta. Quadro típico de ITU baixa não complicada (disúria, polaciúria, dor suprapúbica, sem febre/dor lombar) com nitrito positivo e leucocitúria. Conduta de 1ª linha: nitrofurantoína 100 mg VO 12/12 h por 5 dias. Não há indicação de imagem/urocultura inicial.

    ❌ B) Vulvovaginite – solicitar cultura de secreção vaginal e iniciar tratamento antifúngico.

    Alternativa incorreta. Vulvovaginite cursa com corrimento, prurido e irritação vulvar; aqui esses sinais estão ausentes. Sedimento urinário com nitrito/leucócitos sustenta origem urinária, não vaginal.

    ❌ C) Uretrite – solicitar cultura de secreção vaginal e uretral e iniciar azitromicina.

    Alternativa incorreta. Uretrite por IST costuma ter disúria com corrimento uretral/mucopurulento, piúria sem bacteriúria/nitrito e história de exposição. Aqui há nitrito positivo (Enterobacterales) e ausência de corrimento, favorecendo cistite.

    ❌ D) Síndrome da bexiga dolorosa – solicitar exame de urina, urocultura e cistoscopia.

    Alternativa incorreta. Síndrome da bexiga dolorosa (cistite intersticial) é dor pélvica crônica relacionada ao enchimento vesical, duração > 6 semanas e culturas negativas. Este é um quadro agudo, com marcadores infecciosos positivos.


    Take-home message

    • Cistite aguda típica: disúria + polaciúria + dor suprapúbica, sem febre/dor lombar, com nitrito/leucócitos.
    • Tratamento de 1ª linha: nitrofurantoína 100 mg VO 12/12 h por 5 dias ou fosfomicina 3 g DU.
    • Não é obrigatório colher urocultura inicial em mulher jovem saudável com quadro típico.
    • Red flag: febre, calafrios ou dor em flancos → suspeitar pielonefrite e mudar abordagem.
    • Reavaliar em 48–72 h; se falha, colher urocultura e ajustar antibiótico conforme sensibilidade.
    • Evitar nitrofurantoína se ClCr < 30 mL/min ou próximo ao termo da gestação.

    Questão 59Outros temas em Gastroenterologia

    Dumping é um complexo de sintomas causado pelo rápido esvaziamento gástrico pós-prandial. Sobre o Dumping, assinale a alternativa correta:

    • A)

      O Dumping precoce ocorre entre 2 e 3 horas da ingesta alimentar.

    • B)

      O Dumping Tardio se manifesta por sintomas de hipoglicemia.

    • C)

      Cintilografia de esvaziamento gástrico é exame de escolha para diagnóstico de Dumping.

    • D)

      No Dumping precoce, a ingesta de alimento hipotônico induz um deslocamento do líquido intraluminal para o espaço extracelular.

    • E)

      É mais comum após reconstrução em Y-de-Roux que em Billroth II.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Dumping = sintomas pós-prandiais em operados do estômago por esvaziamento rápido: precoce (10–30 min, hiperosmolaridade + vasomotor/ GI) vs tardio (1–3 h, hipoglicemia por hiperinsulinemia).


    O que é e por que importa: Síndrome de Dumping é um conjunto de sintomas decorrente da chegada rápida de quimo ao intestino delgado após gastrectomia/derivações gástricas. Importa por risco de hipovolemia/hipotensão (precoce), hipoglicemia (tardio), perda ponderal e queda da adesão alimentar.

    Como identificar: Diagnóstico é clínico (história típica + cirurgia gástrica). Use o Sigstad score (>7 sugere dumping). Testes provocativos (refeição-padrão ou OGTT com glicemia contínua) ajudam quando dúvida.

    Mecanismo (essencial de prova): Precoce: entrada de quimo hiperosmolar no jejuno → fluxo de líquido do intravascular para lúmen → distensão, hipotensão, taquicardia, rubor, diarreia. Tardio: rápida absorção de glicose → pico de GLP-1/insulina → hipoglicemia 1–3 h pós-refeição.


    Conduta & Posologia

    • Medidas dietéticas (primeira linha): 5–6 pequenas refeições/dia; reduzir carboidratos simples; priorizar proteína/fibra; adicionar fibras viscosas (pectina/psyllium); separar líquidos dos sólidos por 30–45 min; mastigação lenta; repouso em decúbito após comer (15–20 min).
    • Acarbose (dumping tardio/hipoglicemia): 50–100 mg VO com as principais refeições. Iniciar com 25–50 mg e titular conforme tolerância.
    • Ajustes/Restrições – Acarbose: Contraindicada em doença intestinal inflamatória ativa, obstrução intestinal, cirrose; evitar se TFG < 25 mL/min. Efeitos: flatulência, diarreia.
    • Octreotídeo (casos refratários, precoce e tardio): 50–100 mcg SC 2–3x/dia, 30 min antes das refeições. Alternativa: Octreotídeo LAR 10–20 mg IM mensal ou Lanreotídeo 90 mg SC profunda mensal.
    • Atenções – Octreotídeo: Efeitos: esteatorreia, dor abdominal, colelitíase, hiperglicemia/hipoglicemia, bradicardia. Cautela em diabéticos e colelitíase prévia. Ajuste pode ser necessário em insuficiência hepática avançada.
    • Outras opções selecionadas: Suplementos de fibra/espessantes com a refeição; diazóxido em hipoglicemia refratária supervisionada por endocrinologista. Cirurgia de revisão é exceção (falha refratária grave).
    • Critérios de internação: hipotensão/hipovolemia refratária, hipoglicemia grave (neuroglicopenia, convulsão, necessidade de infusão EV), perda ponderal acentuada com risco nutricional. Reavaliação ambulatorial em 4–8 semanas após iniciar medidas.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) O Dumping Tardio se manifesta por sintomas de hipoglicemia.

    Alternativa correta. Dumping tardio ocorre 1–3 horas pós-refeição por hiperinsulinemia reativa, gerando neuroglicopenia (sudorese, tremor, confusão, síncope). Conduta de escolha: dieta com baixo índice glicêmico e acarbose 50–100 mg VO com refeições; refratários: análogos de somatostatina.

    ❌ A) O Dumping precoce ocorre entre 2 e 3 horas da ingesta alimentar.

    Alternativa incorreta. Precoce ocorre em 10–30 minutos após a refeição, não em 2–3 horas. Entre 1–3 horas caracteriza o dumping tardio.

    ❌ C) Cintilografia de esvaziamento gástrico é exame de escolha para diagnóstico de Dumping.

    Alternativa incorreta. A cintilografia avalia gastroparesia/esvaziamento, mas o dumping é diagnóstico clínico, apoiado por escore de Sigstad e testes provocativos (refeição/OGTT com monitorização glicêmica). Não é exame de escolha para dumping.

    ❌ D) No Dumping precoce, a ingesta de alimento hipotônico induz um deslocamento do líquido intraluminal para o espaço extracelular.

    Alternativa incorreta. O gatilho é quimo hiperosmolar no jejuno, que puxa líquido do intravascular para o lúmen intestinal (inverso do descrito), causando distensão e sintomas vasomotores.

    ❌ E) É mais comum após reconstrução em Y-de-Roux que em Billroth II.

    Alternativa incorreta. Dumping é clássico após gastrectomia com Billroth II e também ocorre após Y-de-Roux bariátrico. Em termos históricos e de prova, a gastrectomia com Billroth II está mais fortemente associada ao dumping do que Y-de-Roux.


    Take-home message

    • Dumping precoce: 10–30 min pós-refeição por quimo hiperosmolar → deslocamento de líquido para o lúmen → sintomas GI/vasomotores.
    • Dumping tardio: 1–3 h com hipoglicemia hiperinsulinêmica (sintomas autonômicos e neuroglicopenia).
    • Diagnóstico é clínico (padrão pós-cirúrgico + escore de Sigstad); cintilografia não é exame de escolha.
    • Primeira linha: fracionar refeições, reduzir carboidratos simples, separar líquidos dos sólidos e usar fibras viscosas.
    • Tardio sintomático: acarbose 50–100 mg VO com refeições; refratário: octreotídeo 50–100 mcg SC 2–3x/dia.
    • Red flags: hipoglicemia grave e hipotensão/hipovolemia → considerar internação e suporte EV.


    Questão 60Choque

    Paciente do sexo masculino, de 32 anos, previamente hígido, é submetido a pancreatectomia distal, esplenectomia e colectomia parcial devido a ferimento por arma de fogo no quadrante superior esquerdo do abdome. Uma semana depois, desenvolve calafrios e tremores, e apresenta pico febril de 39,4°C. Sua pressão arterial é 70/40mmHg, a frequência de pulso é 140 batimentos por minuto e a frequência respiratória é 45 incursões respiratórias por minuto. Ele é transferido para a unidade de terapia intensiva (UTI), onde é intubado. Ao exame físico, apresenta extremidades quentes, enchimento capilar rápido e pele avermelhada. Qual das seguintes alterações é MAIS CONDIZENTE com o seu estado clínico?

    • A)

      Aumento da pressão arterial pulmonar

    • B)

      Aumento da pressão venosa central

    • C)

      Aumento da resistência vascular periférica

    • D)

      Aumento do débito cardíaco

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Choque séptico na fase hiperdinâmica (“choque quente”) cursa com vasodilatação sistêmica e déficit de extração de O2: pele quente, enchimento capilar rápido, Resistencia vascular sistemica (SVR) baixa e  Débito Cardiaco (DC) alto. A alternativa correta explora esse padrão hemodinâmico.

    O que é: Choque séptico = sepse com hipotensão necessitando vasopressor para manter PAM ≥65 mmHg e lactato >2 mmol/L apesar de ressuscitação volêmica adequada.

    Por que importa: Mortalidade elevada; conduta nas 1–3 horas muda desfecho (antibiótico, reposição volêmica, vasopressores).

    Como identificar (fase hiperdinâmica): Febre, taquicardia, taquipneia, extremidades quentes, pulso cheio, pressão de pulso alargada, DC elevado, SVR reduzida, Pressão venosa central (PVC)/ Pressão de oclusão da arteria pulmonar (PAOP) normais ou baixas, lactato elevado.

    Mecanismo essencial: Vasoplegia por NO/citocinas + shunt microcirculatório → queda da SVR; resposta simpática/β-adrenérgica → aumento do DC inicial.


    Conduta & Posologia

    • Ressuscitação com cristaloide: 30 mL/kg de cristaloide balanceado (ex.: Ringer lactato) nas primeiras 3 horas. Reavaliar perfusão (PAM, lactato, diurese >0,5 mL/kg/h) e usar índices dinâmicos de responsividade volêmica.
    • Vasopressor de 1ª linha: Noradrenalina 0,05–1,0 mcg/kg/min IV, titulando para PAM ≥65 mmHg. Adjuvante: Vasopressina 0,03 U/min se necessidade crescente de noradrenalina.
    • Inotrópico (se hipoperfusão com DC baixo/ScvO2 baixa): Dobutamina 2–20 mcg/kg/min.
    • Corticoterapia (refratariedade a vasopressor/volume): Hidrocortisona 200 mg/dia IV (contínua ou 50 mg 6/6h). Desmame após estabilização.
    • Antibioticoterapia empírica (iniciar até 1 hora): Pós-operatório abdominal com risco de gram-negativos/anaeróbios: - Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6h ou - Meropenem 1 g IV 8/8h. Cobrir MRSA se risco: Vancomicina 15–20 mg/kg IV (ajustar por TDM). Duração inicial típica: 7–10 dias, ajustar à fonte/controle.
    • Ajustes em DRC (exemplos): Piperacilina-tazobactam: ClCr 20–40 mL/min 4,5 g 8/8h; ClCr <20 mL/min 4,5 g 12/12h. Meropenem: ClCr 10–50 mL/min 1 g 12/12h; ClCr <10 mL/min 0,5 g 24/24h.
    • Contraindicações: Hidroxi-etilamido (HES) em sepse/DRC; excesso de volume em congestão pulmonar refratária.
    • Efeitos adversos relevantes: Noradrenalina: arritmias/isquemia periférica; dobutamina: taquiarritmias; vancomicina: nefrotoxicidade; meropenem: neurotoxicidade em DRC.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Choque séptico, necessidade de vasopressor, lactato elevado, ventilação mecânica, disfunções orgânicas = UTI imediata. Sepse sem choque pode internar em enfermaria monitorizada; ambulatorial não é apropriado.
    • Controle de fonte: Avaliar e intervir em foco abdominal (dreno/reoperação) o quanto antes.

    Armadilhas de prova:

    • Na fase “quente”, a PVC não está elevada e a SVR está baixa; o DC costuma estar alto.
    • PAP pode estar normal/baixa; só aumenta com disfunção pulmonar/SDRA ou sobrecarga de volume.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Aumento da pressão arterial pulmonar

    Alternativa incorreta. No choque séptico hiperdinâmico, a PAP costuma ser normal ou baixa. Eleva-se tardiamente se houver SDRA/sobrecarga. Não é o achado mais condizente com pele quente e vasodilatação.

    ❌ B) Aumento da pressão venosa central

    Alternativa incorreta. A PVC frequentemente é normal/baixa pela vasoplegia e vasodilatação venosa. Além disso, PVC é marcador imperfeito de responsividade volêmica e não caracteriza a fase “quente”.

    ❌ C) Aumento da resistência vascular periférica

    Alternativa incorreta. A fisiopatologia central é queda da SVR por vasodilatação mediada por NO/citocinas. Esse é o motivo da pele quente, pulso cheio e necessidade de vasopressor.

    ✅ D) Aumento do débito cardíaco

    Alternativa correta. Na fase hiperdinâmica, há DC elevado por estímulo β-adrenérgico e baixa pós-carga (SVR baixa). O quadro clínico “quente e ruborizado” com enchimento capilar rápido é típico desse padrão.


    Take-home message

    • Choque séptico “quente”: DC alto, SVR baixa, pele quente e pulso cheio.
    • Ressuscite cedo: cristaloide 30 mL/kg e vasopressor (noradrenalina) para PAM ≥65 mmHg.
    • Antibiótico na 1ª hora: ex. piperacilina-tazobactam 4,5 g 6/6h ou meropenem 1 g 8/8h (+/- vancomicina).
    • Red flag: NÃO usar coloides HES em sepse (piora renal/mortalidade).
    • Dobutamina se hipoperfusão com baixo DC; hidrocortisona se choque refratário a volume/vaso.
    • Controle de fonte e reavaliação seriada (lactato, diurese >0,5 mL/kg/h) determinam desfecho.

    Questão 60Saúde da Criança

    Menina de 5 anos de idade é levada à consulta pelos pais pois voltou a urinar na cama, está mais irritada, apresenta sono agitado, evita interações sociais e parece desatenta há 2 meses. Uso de tela: 4 horas por dia (vídeos e jogos), inclusive durante as refeições. AF: nascimento de irmão há 3 meses. Exame físico e neurológico: normal.

    A hipótese diagnóstica e a conduta inicial são, respectivamente:

    • A)

      transtorno do espectro autista; encaminhar para avaliação multidisciplinar e iniciar terapia de análise do comportamento aplicado (ABA).

    • B)

      quadro de regressão comportamental secundária a estresse psicossocial e uso disfuncional de telas; orientar para mudança de hábitos e suporte familiar.

    • C)

      transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; iniciar tratamento farmacológico após triagem cognitiva.

    • D)

      transtorno de conduta leve; incluir psicoterapia individual e iniciar terapia de análise do comportamento aplicado (ABA).

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Regressão comportamental em pré-escolar com estressor recente + uso excessivo de telas costuma cursar com enurese secundária, irritabilidade, sono ruim, retraimento e desatenção situacional. Conduta inicial é não farmacológica: higiene do sono, redução de telas, rotinas e suporte parental.


    O que é:

    Regressão comportamental: retorno transitório a comportamentos já superados (ex.: enurese) após estressor psicossocial (ex.: nascimento de irmão).

    Enurese secundária: reinício de micções noturnas involuntárias após ≥6 meses de continência prévia.

    Uso disfuncional de telas: tempo excessivo, conteúdo não supervisionado e uso em horários inadequados (refeições/antecedendo o sono) com impacto comportamental.


    Por que importa

    Estressores familiares e telas em excesso desorganizam rotinas, pioram higiene do sono e a autorregulação, mimetizando TDAH/TEA.

    Identificar quadro reativo e situacional evita medicalização desnecessária e direciona para intervenções ambientais eficazes.


    Como identificar

    Pistas clínicas: início temporal após evento (irmão novo), sintomas em múltiplos domínios leves/moderados, exame físico/neurológico normal, sem sinais de déficit global do desenvolvimento.

    Telas: 4 h/dia e durante refeições → acima do recomendado pela SBP; correlaciona-se a irritabilidade, sono agitado e desatenção.

    Enurese: secundária, sem sinais de alarme urinários (disúria, polaciúria, febre) na vinheta.


    Armadilhas de prova

    TDAH vs desatenção situacional: TDAH exige sintomas nucleares antes dos 12 anos, em ≥2 ambientes, com prejuízo funcional consistente e não explicados por outro transtorno.

    TEA vs retraimento reativo: TEA envolve déficits persistentes de comunicação social e padrões restritos desde a primeira infância; não é explicado por estressor recente isolado.

    Enurese: farmacoterapia (desmopressina) é 2ª linha e geralmente após ≥6 anos; primeiro é alarme e medidas comportamentais.


    Conduta & Posologia


    Intervenções ambientais (1ª linha): - Reduzir telas para limite curto diário, idealmente até 1 h/dia em pré-escolares/escolares iniciais; - Zero telas durante refeições e 1–2 h antes de dormir; - Co-viewing (responsável assiste junto) e conteúdo de qualidade.


    Higiene do sono: rotina consistente, horário regular, ambiente escuro/silencioso, evitar estimulantes e sonecas tardias.


    Suporte parental: psicoeducação, reforço positivo, estabelecer rotinas previsíveis, atenção individualizada à criança após chegada do irmão.


    Enurese (medidas comportamentais): restrição hídrica noturna leve, micção programada pré-sono, reforço positivo; considerar alarme de enurese se persistente e motivação familiar.


    Farmacoterapia: não indicada na apresentação atual. Se enurese monossintomática persistente a partir de ≥6 anos e falha do alarme, pode-se usar desmopressina sob supervisão especializada.


    Avaliações de triagem: urina tipo 1 se sintomas urinários/diabetes suspeito; rastrear estresse familiar e rotinas. Sem sinais orgânicos nesta vinheta.


    Critérios de internação/encaminhamento: - Internação: não aplicável em quadro leve sem risco. - Encaminhar para saúde mental se houver regressão global, ideação suicida, violência/abuso, falha das medidas após 4–8 semanas ou dúvida diagnóstica (TEA/TDAH).


    Reavaliação: retorno em 4–6 semanas para monitorar sono, comportamento e enurese.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) quadro de regressão comportamental secundária a estresse psicossocial e uso disfuncional de telas; orientar para mudança de hábitos e suporte familiar.

    Alternativa correta. Estressor (nascimento de irmão) + 4 h/dia de telas (incluindo refeições) explicam irritabilidade, sono ruim, desatenção situacional e enurese secundária. Conduta de primeira linha é intervenção ambiental, higiene do sono, limite de telas e suporte parental, com reavaliação programada.


    ❌ A) transtorno do espectro autista; encaminhar para avaliação multidisciplinar e iniciar terapia de análise do comportamento aplicado (ABA).

    Alternativa incorreta. O quadro iniciou após estressor claro, com história prévia de desenvolvimento normal e exame normal, sem déficits persistentes de comunicação social ou padrões restritos desde a primeira infância (critérios para TEA). Iniciar ABA sem critérios diagnósticos é inadequado.


    ❌ C) transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; iniciar tratamento farmacológico após triagem cognitiva.

    Alternativa incorreta. TDAH requer sintomas nucleares persistentes em ≥2 ambientes e prejuízo funcional não explicado por estressores. O início situacional e a melhora esperada com higiene de sono/telas desaconselham farmacoterapia neste momento.


    ❌ D) transtorno de conduta leve; incluir psicoterapia individual e iniciar terapia de análise do comportamento aplicado (ABA).

    Alternativa incorreta. Não há padrão de violação de normas/direitos alheios (critérios de transtorno de conduta). A indicação de ABA é deslocada; foco deve ser intervenção familiar e de rotina.


    Take-home message

    • Enurese secundária + irritabilidade + desatenção situacional após estressor e excesso de telas = regressão comportamental reativa.
    • Primeira linha: reduzir telas (ideal até ~1 h/dia), sem telas em refeições e antes de dormir, rotina de sono e reforço positivo.
    • Evite medicalização inicial; reavalie em 4–6 semanas e só encaminhe se persistência/gravidade ou sinais de alarme.
    • Red flags: regressão global do desenvolvimento, sintomas neurológicos, ideação suicida, abuso/violência, ITU.
    • Para enurese persistente ≥6 anos: priorize alarme; desmopressina é opção de 2ª linha sob supervisão.

    Questão 61Outras causas de abdome agudo obstrutivo

    Um paciente de 48 anos apresenta-se no pronto-socorro com dor abdominal intensa e intermitente há 18 horas, com náuseas e vômitos. Ele relata não ter evacuado ou eliminado gases nas últimas 48 horas. Sua história patológica pregressa inclui uma apendicectomia realizada há 20 anos e uma cirurgia para correção de hérnia inguinoescrotal há 5 anos. O exame físico mostrou o paciente lúcido e apirético; sinais vitais: PA 125/80 mmHg, FC 90 bpm, FR 20 ipm, T 36,8 °C. O abdômen está distendido. Peristalse de luta apresenta ruídos metálicos e hipercinéticos. Sente dor à palpação difusa, porém sem sinais de defesa e com ausência de hérnias palpáveis. Os exames laboratoriais registram hemograma com leucócitos de 8.000/mm3 e eletrólitos dentro dos limites normais. Os exames de imagem revelam rotina de abdômen agudo, mostrando distensão de alças intestinais com níveis hidroaéreos, e sem evidências de tumorações. Diante desse quadro clínico, a etapa inicial mais apropriada para o manejo do caso é:

    • A)

      colonoscopia urgente;

    • B)

      administração de laxantes e observação;

    • C)

      cirurgia imediata para exploração abdominal;

    • D)

      alta com orientação para retorno no caso de persistirem os sintomas;

    • E)

      administração intravenosa de líquidos, descompressão nasogástrica e observação.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Obstrução intestinal mecânica sem sinais de peritonite/estrangulamento: o passo inicial é suporte clínico no hospital (hidratação venosa, sonda nasogástrica, jejum e observação). Cirurgia fica para falha do tratamento clínico (24–48h) ou sinais de complicação.


    Epidemiologia e Etiologia


    • Cenário brasileiro: Aderências pós-operatórias (bridas) são a causa mais comum de obstrução de intestino delgado em adultos. Hérnias externas vêm a seguir; neoplasia predomina no cólon em idosos.

    • Fatores de risco do caso: Cirurgias abdominais prévias (apendicectomia; hernioplastia inguinal) favorecem bridas.


    Diagnóstico


    • Definição operacional: Quadro de dor abdominal tipo cólica, vômitos, distensão e parada de eliminação de fezes/gases, com níveis hidroaéreos (ar + líquido em alças) em imagem.

    • Achados clínicos típicos: Peristalse de luta com ruídos metálicos; dor sem peritonite nos estágios iniciais.

    • Imagem padrão inicial: Radiografia de abdome em ortostase/decúbito mostrando distensão de alças e níveis hidroaéreos. Tomografia computadorizada é o melhor exame para localizar a transição e detectar sinais de isquemia/estrangulamento (ex.: alça fechada, falta de realce, pneumatose).

    • Sinais de gravidade (estrangulamento/isquemia): dor desproporcional, febre, taquicardia, leucocitose, acidose/lactato elevado, peritonite, instabilidade, peritonite ou sinais tomográficos de sofrimento. Nesses, a conduta é cirúrgica imediata.


    Conduta & Posologia


    • Passo inicial (caso sem peritonite/instabilidade): Internar, jejum, hidratação venosa, descompressão nasogástrica, analgesia e antieméticos; observação clínica com reavaliações seriadas.

    • Hidratação venosa (cristaloides): Iniciar com 20–30 mL/kg nas primeiras horas, depois manutenção guiada por pressão arterial, frequência cardíaca, diurese alvo > 0,5 mL/kg/h e lactato.

    • Descompressão: Sonda nasogástrica calibrosa (14–18 Fr) para aspiração intermitente/contínua em casos com vômitos/distensão importante.

    • Analgésicos: Dipirona 1 g IV 6/6 h; se dor intensa, opioide em baixas doses (ex.: morfina 2–4 mg IV titulada), monitorando íleo.

    • Antiemético: Ondansetrona 4 mg IV 8/12 h se necessário.

    • Antibióticos (somente se suspeita de isquemia/perfuração/sepse): Opção: ceftriaxona 2 g IV 1x/dia + metronidazol 500 mg IV 8/8 h; alternativa: piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h.

    • Critérios de cirurgia imediata: peritonite, instabilidade hemodinâmica, acidose/lactato alto, febre + leucocitose importantes, sinais tomográficos de isquemia/estrangulamento.

    • Janela de observação: Obstrução de delgado por bridas, sem complicação: observar por 24–48 horas. Falha clínica ou piora = abordagem cirúrgica.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Toda obstrução mecânica é de internação. UTI se choque, sepse, acidose/lactato elevado, insuficiência orgânica.


    Discussão das alternativas


    ✅ E) administração intravenosa de líquidos, descompressão nasogástrica e observação.

    Alternativa correta. Quadro compatível com obstrução intestinal mecânica sem sinais de peritonite/estrangulamento. A conduta inicial padrão é suporte clínico hospitalar: jejum, reposição volêmica com cristaloides, sonda nasogástrica para descompressão, analgesia/antieméticos e observação por 24–48 horas, com reavaliação clínica e, se necessário, tomografia para definir causa e gravidade.


    ❌ A) colonoscopia urgente.

    Alternativa incorreta. Colonoscopia não é método de descompressão para obstrução mecânica de intestino delgado. Pode ter papel na pseudo-obstrução colônica (síndrome de Ogilvie) ou no volvo de sigmoide sem peritonite. No caso, o local provável é delgado por bridas e o passo é suporte clínico inicial.


    ❌ B) administração de laxantes e observação.

    Alternativa incorreta. Laxantes são contraindicados em obstrução mecânica, pois aumentam distensão e risco de perfuração. A conduta é jejum, hidratação IV e descompressão nasogástrica.


    ❌ C) cirurgia imediata para exploração abdominal.

    Alternativa incorreta. Sem sinais clínicos/laboratoriais de estrangulamento, instabilidade ou peritonite, indica-se tratamento clínico inicial por 24–48 horas. Cirurgia imediata se houver sinais de sofrimento intestinal ou falha do manejo conservador.


    ❌ D) alta com orientação para retorno no caso de persistirem os sintomas.

    Alternativa incorreta. Obstrução intestinal mecânica requer internação para suporte, descompressão, monitorização e possibilidade de intervenção rápida. Alta é insegura e pode atrasar tratamento de complicações.


    Take-home message

    • Obstrução intestinal mecânica sem peritonite: manejo inicial é hospitalar com jejum, hidratação IV e sonda nasogástrica.
    • Meta de reposição: cristaloide 20–30 mL/kg nas primeiras horas e diurese alvo > 0,5 mL/kg/h.
    • Observação por 24–48 h; falha clínica ou piora = indicação cirúrgica.
    • Red flag: peritonite, instabilidade, acidose/lactato alto ou sinais de isquemia exigem cirurgia imediata.
    • Evite erros: não usar laxantes em obstrução mecânica; colonoscopia não é para delgado.
    • Analgesia segura: dipirona e, se preciso, pequenas doses de opioide com monitorização do íleo.

    Questão 62Trauma de Tórax

    Homem, 25 anos de idade, vítima de facada na região do tórax, foi submetido à drenagem pleural, com dreno tubular em selo de água. Após 3 dias, paciente mantém escape. Observam-se bolhas somente quando paciente tosse. Radiografia não evidencia cavidade residual. Diante do caso, assinale a alternativa correta.

    • A)

      Trata-se de classificação Cerfolio grau IV.

    • B)

      Deve-se propor tratamento com dreno torácico em aspiração contínua por 14-21 dias, antes de considerar falha de tratamento conservador.

    • C)

      O uso da válvula de Heimlich permite manejo fora do ambiente hospitalar.

    • D)

      Deve-se associar um segundo dreno torácico, antes de considerar falha de tratamento conservador.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Escape aéreo que faz bolha apenas à tosse = fuga aérea pequena (Cerfolio I) com pulmão expandido em RX; manejo ambulatorial com válvula de Heimlich é opção segura.


    O que é: Fuga aérea/persistent air leak (PAL) é a passagem contínua de ar pelo dreno após pneumotórax/trauma ou pós-operatório. Definição varia: comumente >5–7 dias; em trauma muitos serviços reavaliam em 48–72 h. Quando a fuga ocorre só com tosse ou expiração forçada, é leve.


    Por que importa: Prolonga internação, risco de infecção pleural e desconforto. Identificar padrão (ciclo respiratório) e expansão pulmonar no RX direciona conduta (sucção, válvula, intervenção).


    Como identificar: Observação do selo d’água: padrão de borbulhamento e sincronia respiratória. Classificação de Cerfolio:

    I = apenas com tosse/expiração forçada;

    II = apenas na expiração;

    III = apenas na inspiração;

    IV = inspiração e expiração (maior fuga).


    Como manejar (regra prática): Se pulmão expandido no RX e fuga pequena (ex.: só à tosse), pode manter em selo d’água ou usar válvula de Heimlich para alta. Se colapso residual/expansão inadequada, considerar aspiração (-20 cmH2O) por 24–48 h. PAL >5–7 dias ou fuga moderada/alta persistente: avaliar intervenção (broncoscopia selante, pleurodese, VATS) conforme etiologia.


    Conduta & Posologia


    Sequência prática: Confirmar pulmão expandido no RX. Se sim e borbulha apenas à tosse, trocar selo d’água por válvula de Heimlich e programar alta com retorno.


    Aspiração (se não expandido): -20 cmH2O contínua por 24–48 h; reavaliar clinicamente e com RX. Evitar sucção prolongada sem objetivo.


    Tempo para considerar PAL: Usar faixa segura: 5–7 dias (limitação: há variação entre serviços; em trauma simples, muitos reavaliam em 48–72 h).


    Critérios para intervenção/encaminhar CTorácica: Fuga grau III–IV, não expansão apesar de sucção 24–48 h, subcutâneo progressivo, piora clínica, ou PAL >5–7 dias.


    Seguimento ambulatorial com Heimlich: Revisão em 24–72 h, depois semanal; RX de controle; educação sobre sinais de alarme.


    Red flags: Instabilidade hemodinâmica, pneumotórax hipertensivo, hemotórax significativo, febre e secreção pelo dreno (suspeita de empiema) → manter internado e escalar cuidado.


    Antibioticoprofilaxia: Não é rotineira para dreno torácico isolado; indicar apenas se empiema, mordedura/sujor contuso com contaminação, ou indicação específica.


    Obs. farmacológica: Sem fármaco de primeira linha específico; analgésicos multimodais conforme dor (ex.: dipirona/acetaminofeno; opioide se necessário) com ajustes renais/hepáticos habituais.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se não expansão, necessidade de aspiração contínua, fuga alta (Cerfolio III–IV), comorbidades descompensadas ou complicações. Ambulatorizar com Heimlich se estável, RX sem cavidade residual, e suporte domiciliar.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) O uso da válvula de Heimlich permite manejo fora do ambiente hospitalar.

    Alternativa correta. Válvula unidirecional que permite drenagem de ar mantendo o pulmão expandido sem sistema de sucção hospitalar. Em fuga leve (bolha só à tosse) com RX sem cavidade residual, é estratégia segura para alta com seguimento.


    ❌ A) Trata-se de classificação Cerfolio grau IV.

    Alternativa incorreta. Cerfolio IV é borbulhamento em inspiração e expiração (fuga importante). O caso descreve bolhas apenas quando tosse → Cerfolio I.


    ❌ B) Deve-se propor tratamento com dreno torácico em aspiração contínua por 14-21 dias, antes de considerar falha de tratamento conservador.

    Alternativa incorreta. Sucção prolongada por 14–21 dias não é conduta padrão. A avaliação de falha conservadora ocorre tipicamente em 24–48 h de sucção se não houver expansão, e PAL costuma ser definida em 5–7 dias. Com pulmão expandido e fuga leve, sucção nem é necessária; pode-se usar Heimlich e ambulatorizar.


    ❌ D) Deve-se associar um segundo dreno torácico, antes de considerar falha de tratamento conservador.

    Alternativa incorreta. Segundo dreno é reservado para cavidade residual/pneumotórax loculado ou hemotórax retido. O RX não mostra cavidade residual; logo, não há indicação de outro dreno.


    Take-home message

    • Cerfolio I: borbulha só à tosse; Cerfolio IV: em inspiração e expiração.
    • Pulmão expandido no RX + fuga leve → optar por válvula de Heimlich e seguimento ambulatorial.
    • Se não expandido: aspiração a -20 cmH2O por 24–48 h e reavaliar.
    • PAL é usualmente considerada se fuga persiste por >5–7 dias (há variações por serviço/etiologia).
    • Evite sucção prolongada sem objetivo e não adicionar segundo dreno se o RX mostra pulmão expandido.
    • Sinais de alarme (instabilidade, hipertensão pneumotórax, empiema) impõem manutenção hospitalar e escalonamento.

    Questão 63Cirurgia Bariátrica e Metabólica

    Homem, 44 anos, comparece à consulta ambulatorial para tratamento da obesidade. O paciente tem IMC de 42 e diabetes melito de difícil controle. Relata que já tentou diversas vezes o tratamento com dieta e exercício físico, sem sucesso. Sobre esse caso clínico, assinale a alternativa que indica a melhor conduta.

    • A)

      Indicar tratamento clínico com análogo de GLP1.

    • B)

      Indicar nova tentativa de dieta e exercício físico como tratamento da obesidade.

    • C)

      Indicar tratamento clínico com psicofármacos que tenham como efeito colateral a diminuição da fome.

    • D)

      O paciente é candidato à cirurgia bariátrica, sendo necessária avaliação da equipe multidisciplinar.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em provas brasileiras, IMC ≥ 40 kg/m² é indicação formal de cirurgia bariátrica, independentemente de comorbidades, após avaliação multidisciplinar e falha do tratamento clínico. Diabetes melito tipo 2 de difícil controle reforça a indicação.


    Epidemiologia e Etiologia


    • Brasil: Prevalência crescente de obesidade; maior risco de diabetes melito tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono e doença cardiovascular.

    • Etiologia multifatorial: Interação entre genética, ambiente obesogênico, sedentarismo e dieta hipercalórica.


    Diagnóstico


    • Definição operacional de obesidade: Índice de massa corporal (IMC) ≥ 30 kg/m². Graus: I (30–34,9), II (35–39,9), III (≥ 40).

    • Indicações formais de cirurgia bariátrica (adultos):
      • IMC ≥ 40 kg/m², independentemente de comorbidades.
      • IMC 35–39,9 kg/m² com comorbidade grave relacionada à obesidade (ex.: diabetes melito tipo 2, apneia obstrutiva do sono moderada/grave, hipertensão resistente).
      • IMC 30–34,9 kg/m² com diabetes melito tipo 2 inadequadamente controlado.

    • Pré-requisitos usuais: Falha documentada de tratamento clínico otimizado; capacidade de adesão; avaliação multidisciplinar (cirurgia, endocrinologia, nutrição, psicologia/psiquiatria, enfermagem).

    • Contraindicações típicas: Transtorno psiquiátrico grave descompensado, uso de substâncias ativo, doença endócrina tratável não corrigida (ex.: hipotireoidismo), incapacidade de adesão, gestação atual.


    Conduta & Posologia


    • Conduta principal neste caso: IMC 42 kg/m² + diabetes melito tipo 2 de difícil controle + falha de medidas de estilo de vida ⇒ indicação de cirurgia bariátrica/metabólica com encaminhamento para equipe multidisciplinar para avaliação pré-operatória.

    • Próximos passos práticos:
      • Estratificação de risco: hemograma, função renal/hepática, perfil glicêmico, perfil lipídico, vitaminas, função tireoidiana; avaliação cardiológica, pneumológica (apneia), endoscopia digestiva alta quando indicada.
      • Planejamento do procedimento: gastrectomia vertical (sleeve) ou bypass gástrico em Y de Roux, conforme perfil clínico/metabólico e equipe.
      • Otimização do diabetes melito tipo 2 e do estado nutricional (ferro, vitamina D, B12) no pré-operatório.

    • Resultados esperados: Maior perda ponderal sustentada e maior taxa de remissão/controle do diabetes melito tipo 2 vs tratamento clínico isolado.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Cirurgia bariátrica é procedimento eletivo hospitalar; necessidade de UTI baseada em risco anestésico-cirúrgico (idade, comorbidades, apneia grave, risco tromboembólico elevado).


    Discussão das alternativas


    ✅ D) O paciente é candidato à cirurgia bariátrica, sendo necessária avaliação da equipe multidisciplinar.

    Alternativa correta. IMC 42 kg/m² (obesidade grau III) é indicação formal de cirurgia bariátrica independentemente de comorbidades; a presença de diabetes melito tipo 2 de difícil controle reforça o benefício metabólico. Exige avaliação multidisciplinar pré-operatória.


    ❌ A) Indicar tratamento clínico com análogo de GLP1.

    Alternativa incorreta. Análogos de peptídeo semelhante ao glucagon 1 são úteis na obesidade e no diabetes melito tipo 2, porém não substituem a indicação cirúrgica quando há IMC ≥ 40 kg/m² com falha prévia do tratamento clínico. O manejo de primeira linha aqui é cirúrgico, com equipe multidisciplinar; fármacos podem ser adjuvantes no preparo ou no seguimento, mas não a melhor conduta isolada.


    ❌ B) Indicar nova tentativa de dieta e exercício físico como tratamento da obesidade.

    Alternativa incorreta. Medidas de estilo de vida são mandatórias em todas as fases, mas em obesidade grau III com falhas prévias documentadas e diabetes melito tipo 2 difícil de controlar, a estratégia isolada não é suficiente e não é a melhor conduta.


    ❌ C) Indicar tratamento clínico com psicofármacos que tenham como efeito colateral a diminuição da fome.

    Alternativa incorreta. Escolha de fármacos pelo “efeito colateral” não é abordagem adequada nem guideline-based. Em obesidade grau III com diabetes melito tipo 2 refratário, a conduta de maior efetividade é cirúrgica. Além disso, psicofármacos podem agravar peso dependendo da classe e têm perfil de segurança específico; não são terapia padrão para perda ponderal. 


    Take-home message

    • IMC ≥ 40 kg/m² é indicação formal de cirurgia bariátrica, mesmo sem comorbidades; com diabetes melito tipo 2 de difícil controle, o benefício é ainda maior.
    • A via correta é encaminhar para equipe multidisciplinar (cirurgia, endocrinologia, nutrição, psicologia) para avaliação e preparo pré-operatório.
    • Tratamento farmacológico (ex.: análogos de peptídeo semelhante ao glucagon 1) pode ser adjuvante, mas não substitui a cirurgia no IMC ≥ 40 kg/m² com falha clínica.
    • Red flag: evite adiar cirurgia indicada apostando apenas em “nova tentativa” de dieta/exercício em obesidade grau III refratária.
    • Contraindicações devem ser rastreadas: transtorno psiquiátrico descompensado, dependência química ativa, doença endócrina tratável não corrigida e incapacidade de adesão.

    Questão 64Colelitíase

    Assinale a alternativa que apresenta a prescrição pós-operatória adequada de uma colecistectomia videolaparoscópica eletiva por colelitíase sem colangiografia intraoperatória

    • A)

      jejum, analgesia simples de horário, antiemético se houver vômitos, antibioticoprofilaxia por 24 horas e alta após término do antibiótico

    • B)

      dieta leve, analgesia simples de horário, antiemético se houver vômitos, protetor gástrico, antibioticoprofilaxia por 24 horas e alta no dia seguinte

    • C)

      jejum, soro glicosado, analgesia com opioide, antiemético de horário, antibioticoprofilaxia por 24 horas e alta no dia seguinte

    • D)

      dieta leve, soro glicosado, analgesia simples e antiemético de horário e alta no dia seguinte

    • E)

      dieta leve, analgesia simples e antiemético de horário e alta no dia seguinte

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Pós-operatório imediato de colecistectomia videolaparoscópica eletiva e sem complicações é de baixo risco: dieta precoce, analgesia simples, antiemético conforme necessidade/primeiras 24h e sem antibiótico pós-operatório.


    • O que é: Rotina pós-operatória em cirurgia limpa-contaminada de baixo risco (vesícula sem colecistite/colangite).

    • Por que importa: Evita polifarmácia, náusea/dor inadequadas e uso indevido de antibióticos, reduzindo eventos adversos e IRAS.

    • Como identificar caso típico: Procedimento eletivo, sem bile leak, sem colangiografia, hemodinamicamente estável, dor leve a moderada.

    • Como manejar (regra prática): Dieta leve precoce + analgesia não opioide em horário + antiemético (profilático nas primeiras 24h ou se sintomas) + alta no mesmo dia ou dia seguinte, se critérios preenchidos.


    Conduta & Posologia

    • Dieta: Retomar dieta leve em 2–6 h, conforme tolerância. Evitar jejum prolongado.

    • Analgesia de primeira linha (multimodal, preferir VO):
      • Dipirona: 1 g VO 6/6 h por 24–48 h, depois se dor.
      • Paracetamol: 750 mg VO 6/6–8/8 h (máx. 3 g/dia) por 24–48 h.
      • AINE (se baixo risco GI/renal): Ibuprofeno 400 mg VO 8/8 h por 24–48 h.
      • Resgate: Tramadol 50 mg VO 8/8 h se dor moderada/intensa (curto prazo).

    • Antiemético:
      • Ondansetrona: 4 mg VO/IV 8–12/12 h nas primeiras 24 h OU se náuseas.
      • Metoclopramida: 10 mg VO/IV 8/8 h se náuseas.

    • O que não fazer rotineiramente: Antibioticoprofilaxia pós-operatória (se dose pré-operatória adequada), jejum prolongado, soro glicosado contínuo, opioide de rotina, protetor gástrico sem indicação.

    • Antibioticoprofilaxia (intraoperatória, quando indicada): Cefazolina 2 g IV dose única até 60 min antes da incisão; não manter após cirurgia em casos eletivos sem complicações.

    • Contraindicações relevantes: AINE em DRC, úlcera ativa, sangramento; metoclopramida em Parkinson.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) jejum, analgesia simples de horário, antiemético se houver vômitos, antibioticoprofilaxia por 24 horas e alta após término do antibiótico

    Alternativa incorreta. Jejum e manutenção de antibiótico por 24 h não são recomendados no pós-operatório eletivo sem complicações; dieta deve ser precoce e antibiótico deve ser apenas dose pré-operatória.

    ❌ B) dieta leve, analgesia simples de horário, antiemético se houver vômitos, protetor gástrico, antibioticoprofilaxia por 24 horas e alta no dia seguinte

    Alternativa incorreta. Apesar de acertar a dieta e analgesia, inclui antibiótico por 24 h (indevido) e protetor gástrico sem indicação.

    ❌ C) jejum, soro glicosado, analgesia com opioide, antiemético de horário, antibioticoprofilaxia por 24 horas e alta no dia seguinte

    Alternativa incorreta. Vários erros: jejum e soro venoso desnecessários, opioide de rotina, e antibiótico pós-operatório indevido.

    ❌ D) dieta leve, soro glicosado, analgesia simples e antiemético de horário e alta no dia seguinte

    Alternativa incorreta. Mantém soro glicosado sem necessidade em paciente tolerando VO; objetivo é rápida transição para via oral.

    ✅ E) dieta leve, analgesia simples e antiemético de horário e alta no dia seguinte

    Alternativa correta. Alinha-se às rotinas ERAS para cirurgia biliar eletiva: dieta precoce, analgesia não opioide e antiemético nas primeiras 24 h (pode ser em horário ou se sintomático), com alta precoce sem antibiótico.


    Take-home message

    • Colecistectomia videolaparoscópica eletiva sem complicações: dieta leve precoce e alta no mesmo dia/seguinte se estável.
    • Analgesia de primeira linha VO: Dipirona 1 g 6/6 h ± Paracetamol 750 mg 6–8/8 h; AINE se baixo risco.
    • Antiemético: Ondansetrona 4 mg 8–12/12 h nas primeiras 24 h ou se náuseas; metoclopramida como alternativa.
    • Não manter antibiótico pós-operatório em caso eletivo sem infecção/complicações.
    • Evite jejum/soro venoso se tolera VO; objetivo é deambulação e recuperação rápidas.
    • Red flags pós-alta: dor progressiva, febre, vômitos persistentes, icterícia, taquicardia.

    Questão 65Videolaparoscopia e seus princípios

    Sobre as técnicas de acesso de punção para confecção do pneumoperitônio em cirurgias videolaparoscópicas, assinale a alternativa INCORRETA.

    • A)

      Em pacientes obesos, recomenda-se a confecção da técnica aberta para punção.

    • B)

      Devem ser realizadas com cautela e seguir a técnica correta, pois é um dos principais momentos de complicações.

    • C)

      As complicações da punção podem envolver sangramentos e perfuração de vísceras.

    • D)

      As técnicas de punção podem ser aberta (técnica de Hasson) ou fechada (utilização da agulha de Veress).

    • E)

      Na grande maioria das cirurgias videolaparoscópicas, realiza-se a primeira punção com agulha de Veress na linha média do abdome junto à cicatriz umbilical. Nessa região, há riscos de lesão de grandes vasos devido à proximidade da parede anterior do abdome com as estruturas vasculares retroperitoneais.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Epidemiologia e Etiologia


    • Por que cai na prova: Acesso e criação do pneumoperitônio concentram a maior parte das lesões graves em videolaparoscopia (vasculares e viscerais), especialmente no primeiro trocáter.

    • Cenário brasileiro: Videolaparoscopia é via de escolha em múltiplos procedimentos eletivos e de urgência; conhecimento de técnica aberta (Hasson), fechada (agulha de Veress) e ótica é competência essencial.

    • Mecanismo de complicação: Direção/ângulo inadequados, cicatrizes/aderências, distância reduzida entre parede e grandes vasos (particularmente em pacientes magros) aumentam risco de perfuração vascular/visceral.


    Diagnóstico


    • Definições operacionais: - Técnica fechada: punção com agulha de Veress seguida de insuflação. - Técnica aberta (Hasson): mini-laparotomia com dissecção controlada até o peritônio e colocação de trocáter com selo. - Óptica direta: trocáter com ótica para visualização do plano de entrada.

    • Local padrão inicial: Linha média umbilical (por ser região mais delgada e avascular na maioria dos pacientes). Alternativas clássicas: ponto de Palmer (hipocôndrio esquerdo, 3 cm abaixo do rebordo costal na linha hemiclavicular) e locais fora de cicatrizes.

    • Segurança com Veress: Testes de posicionamento intraperitoneal: pressão inicial de insuflação baixa (tipicamente < 10 mmHg), teste da “gota”/salina, livre fluxo de CO₂ sem resistência.

    • Complicações de acesso: Hemorragia (paredes, vasos epigástricos, vasos maiores), lesão de vísceras ocas (intestino, estômago) e maciças (fígado, baço); enfisema subcutâneo extenso; insuflação extraperitoneal.


    Conduta & Posologia


    • Escolha da técnica (primeiro passo): - Sem cicatriz mediana prévia: via umbilical. - Cicatriz mediana/aderências suspeitas: evitar umbigo; preferir ponto de Palmer (após excluir esplenomegalia/varizes gástricas) ou técnica aberta fora da cicatriz.

    • Parâmetros de insuflação: Pressão de trabalho usual de 12–15 mmHg; em pacientes de alto risco cardiorrespiratório, considerar 10–12 mmHg com ajustes anestésicos.

    • Técnica fechada (Veress) – pontos-chave: Incisão cutânea adequada; elevação da parede; ângulo de 45° em não-obesos e mais perpendicular em obesos; confirmar posição com testes (pressão inicial baixa, gota); prosseguir com trocáter após pneumoperitônio.

    • Técnica aberta (Hasson) – pontos-chave: Incisão curta; dissecção romba por planos até peritônio; abertura controlada; fixação do cone de Hasson com suturas; insuflação sob visão direta.

    • Quando preferir cada uma: - Aberta: múltiplas laparotomias medianas, hérnia umbilical, falha repetida da Veress. - Fechada/óptica: obesidade (parede espessa dificulta dissecção aberta; Veress/óptico costuma ser mais eficiente), ausência de cicatrizes.

    • Contraindicações locais de punção umbilical: hérnia umbilical, grandes cicatrizes medianas, infecção cutânea.

    • Alertas de segurança: - Sangramento pulsátil após trocáter = suspeitar lesão vascular maior → compressão, estabilização hemodinâmica e conversão imediata. - Insuflação com pressão alta sem aumento de perímetro = plano errado (pré-peritônio/subcutâneo) → interromper e repuncionar em local seguro.


    Discussão das alternativas


    ✅ A) Em pacientes obesos, recomenda-se a confecção da técnica aberta para punção.

    Alternativa INCORRETA (como pede a questão). Em obesos, a parede abdominal espessa dificulta a mini-laparotomia e a vedação do cone de Hasson, aumentando falhas de pneumoperitônio. As diretrizes e revisões técnicas indicam que a punção fechada com agulha de Veress ou trocáter ótico, muitas vezes no umbigo (incisão um pouco maior e tração da parede) ou no ponto de Palmer, é segura e frequentemente preferível quando não há cicatriz/aderências conhecidas. A técnica aberta é opção sobretudo em cicatrizes medianas extensas, hérnia umbilical ou falha da Veress.


    ❌ B) Devem ser realizadas com cautela e seguir a técnica correta, pois é um dos principais momentos de complicações.

    Alternativa correta. A fase de entrada concentra a maioria das lesões vasculares/viscerais graves; por isso, técnica, local e ângulo são críticos. Correto afirmar a necessidade de cautela.


    ❌ C) As complicações da punção podem envolver sangramentos e perfuração de vísceras.

    Alternativa correta. Lista as complicações clássicas do acesso: sangramento (epigástricos, retroperitônio/vasos maiores) e perfuração de vísceras ocas/maciças. Conceito adequado.


    ❌ D) As técnicas de punção podem ser aberta (técnica de Hasson) ou fechada (utilização da agulha de Veress).

    Alternativa correta. Classificação padronizada: aberta (Hasson) e fechada (Veress); há ainda a ótica direta como variação aceita.


    ❌ E) Na grande maioria das cirurgias videolaparoscópicas, realiza-se a primeira punção com agulha de Veress na linha média do abdome junto à cicatriz umbilical. Nessa região, há riscos de lesão de grandes vasos devido à proximidade da parede anterior do abdome com as estruturas vasculares retroperitoneais.

    Alternativa correta. O umbigo é o sítio mais usado para a primeira punção; há risco (baixo, porém real) de lesão de grandes vasos pela curta distância a aorta/veia cava, especialmente em pacientes magros. Afirmativa está de acordo com a prática.


    Take-home message

    • Acesso laparoscópico: técnicas clássicas são fechada (Veress) e aberta (Hasson); ótica direta é alternativa válida.
    • Local inicial mais comum: umbigo; em cicatriz mediana/aderências, prefira ponto de Palmer ou Hasson fora da cicatriz.
    • Obesidade NÃO obriga técnica aberta: Veress ou trocáter ótico são frequentemente mais práticos/seguros quando sem aderências.
    • Pressão de trabalho usual do pneumoperitônio: 12–15 mmHg (reduzir para 10–12 mmHg em risco cardiorrespiratório).
    • Red flag: Sangramento pulsátil ou instabilidade após entrada → comprimir, reanimar e converter imediatamente.
    • Falha de Veress (pressão alta, ausência de distensão): interrompa e repuncione em local seguro (Palmer) ou faça Hasson.

    Questão 65Rastreio de Doenças

    Homem assintomático de 66 anos com histórico de hiperlipidemia, diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial é atendido em consulta de rotina. Ele tem antecedente de tabagismo de 15 anos-maço e parou de fumar há 30 anos. Refere beber uma taça de 300 mL de vinho tinto por dia e diz que faz longas caminhadas diariamente para se exercitar. Relata tomar a vacina contra a gripe anualmente e que recebeu a vacina pneumocócica no ano passado. Uma colonoscopia, realizada há 5 anos, com resultado normal. Medicações de uso contínuo: enalapril, anlodipino e rosuvastatina. Seus sinais vitais são normais e o exame físico não apresenta alterações. Com base nas melhores evidências comprovadas de benefício, a próxima conduta para o rastreamento e promoção da saúde é solicitar

    • A)

      angiotomografia de coronárias.

    • B)

      antígeno prostático específico.

    • C)

      teste de esforço em esteira (ergométrico).

    • D)

      tomografia computadorizada de tórax de baixa dose.

    • E)

      ultrassom abdominal.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em homem 65–75 anos que já fumou, o rastreamento de aneurisma de aorta abdominal (AAA) com ultrassom abdominal único reduz mortalidade por ruptura. É uma das poucas triagens vasculares com benefício líquido claro.


    O que é: AAA é dilatação da aorta abdominal ≥3,0 cm. Risco de ruptura cresce com o diâmetro.


    Por que importa: Ruptura tem alta letalidade; detecção precoce permite vigilância e correção eletiva.


    Como identificar: Rastreamento com ultrassom transabdominal (sensível, específico, barato, sem radiação).


    Quem rastrear (critérios operacionais):

    • Homens 65–75 anos com história de tabagismo (mesmo cessado) – rastreio uma vez na vida.
    • Homens ≥65 anos com parente de 1º grau com AAA: considerar (menor qualidade de evidência).
    • Mulheres: não rastrear rotineiramente; considerar se forte história familiar e tabagismo (evidência limitada).

    Mecanismo (fisiopatologia mínima): Tabagismo acelera inflamação e degradação da matriz na parede aórtica, promovendo dilatação e enfraquecimento.


    Conduta & Posologia

    • Exame de escolha: Ultrassom abdominal transabdominal (medida diâmetro anteroposterior da aorta infrarrenal).

    • Periodicidade de seguimento (se AAA detectado):
      • <3,0 cm: sem seguimento de rotina.
      • 3,0–3,9 cm: US a cada 3 anos.
      • 4,0–4,9 cm: US anual.
      • 5,0–5,4 cm: US a cada 6 meses.
      • ≥5,5 cm ou crescimento >1,0 cm/ano ou sintomático: encaminhar para cirurgia vascular (avaliação para correção eletiva).

    • O que muda a conduta: Diâmetro, velocidade de crescimento, presença de sintomas (dor abdominal/lombar, massa pulsátil), e condições anatômicas para reparo endovascular vs aberto.

    • Contraindicações/limitações: Poucas para ultrassom. Evite TC com contraste em DRC avançada sem hidratação/avaliação quando for necessário estadiamento anatômico.

    • Co-intervenções: Controle pressórico, cessação do tabagismo, estatina e antiagregante conforme risco cardiovascular global (não específico para reduzir crescimento do AAA, mas reduzem eventos CV).

    • Critérios de internação/urgência: Dor abdominal/lombar intensa com AAA conhecido, hipotensão/sincope, queda hematócrito: suspeita de ruptura → emergência cirúrgica.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) angiotomografia de coronárias.

    Alternativa incorreta. Não há benefício comprovado de angiotomografia coronária para rastreio em assintomáticos; aumenta falso-positivos e procedimentos. Diretrizes da SBC desaconselham triagem de DAC com imagem/ergometria em assintomáticos. Fonte: SBC. Diretriz DAC crônica. (2020). Disponível em: https://sociedadebrasileiradecardiologia.org.br. Acesso em: 22/01/2026.

    ❌ B) antígeno prostático específico.

    Alternativa incorreta. No Brasil, o INCA/MS não recomenda rastreamento populacional com PSA por balanço desfavorável entre benefícios e danos; decisão deve ser compartilhada e informada, não uma “próxima melhor conduta” padrão. Fonte: INCA. Rastreamento do câncer de próstata: posicionamento. (2018/2023). Disponível em: https://www.inca.gov.br. Acesso em: 22/01/2026.

    ❌ C) teste de esforço em esteira (ergométrico).

    Alternativa incorreta. Teste ergométrico não deve ser usado para rastreio de DAC em assintomáticos; não reduz eventos e gera falso-positivos/intervenções desnecessárias. Indica-se diante de sintomas ou para estratificação específica pré-operatória. Fonte: SBC. Diretriz DAC crônica. (2020).

    ❌ D) tomografia computadorizada de tórax de baixa dose.

    Alternativa incorreta. Critérios de rastreio com TCBD (ex.: USPSTF 2021): 50–80 anos, ≥20 anos-maço, fumante atual ou que cessou <=15 anos. O paciente tem 15 anos-maço e cessou há 30 anos → não elegível. Fonte: USPSTF. Lung Cancer Screening. (2021).

    ✅ E) ultrassom abdominal.

    Alternativa correta. Homem de 66 anos que já fumou cumpre critério clássico para rastreio de AAA com ultrassom único, intervenção com evidência de redução de mortalidade por ruptura. Se normal (<3,0 cm), não repetir.


    Armadilhas de prova

    • Confundir angiotomografia coronária (diagnóstica em dor torácica) com rastreio em assintomáticos.
    • Indicar TCBD em ex-fumante que parou há >15 anos ou com carga <20 anos-maço.
    • Tratar PSA como “padrão” de prevenção: no Brasil é decisão compartilhada e não rastreio populacional.

    Mensagem para levar para casa:

    • AAA: rastrear com ultrassom abdominal uma vez em homens 65–75 anos que já fumaram.
    • Achados e seguimento: 3,0–3,9 cm (US 3/3 anos), 4,0–4,9 (anual), 5,0–5,4 (6/6 meses); ≥5,5 cm → cirurgia vascular.
    • TCBD para câncer de pulmão só se 50–80 anos, ≥20 maços-ano e cessou ≤15 anos ou fumante atual.
    • Teste ergométrico e angio-TC coronária não são rastreios em assintomáticos.
    • PSA no Brasil: não há rastreio populacional; decisão deve ser informada e individualizada.
    • Colonoscopia normal há 5 anos: repetir em 10 anos (intervalo padrão), salvo riscos adicionais.

    Questão 66Antibióticoprofilaxia Cirúrgica

    Durante um checklist pré-operatório de retossigmoidectomia para o tratamento de adenocarcinoma de cólon esquerdo, em um paciente de 64 anos de idade com diabetes controlado, o anestesista pergunta ao cirurgião qual é o antibiótico preconizado neste momento. Qual é a melhor opção?

    • A)

      Cefoxitina.

    • B)

      Cefuroxima.

    • C)

      Cefazolina.

    • D)

      Ceftriaxona.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Cirurgia colorretal exige cobertura de Gram-negativos entéricos e Bacteroides fragilis (anaeróbios). Cefamicinas (ex.: cefoxitina) fazem isso em monoterapia.


    O que é: Antibioticoprofilaxia cirúrgica em cirurgia colorretal (ex.: retossigmoidectomia) para reduzir infecção de sítio cirúrgico e deiscência anastomótica.


    Por que importa: A flora colônica tem alta carga de anaeróbios; esquemas sem ação anti-anaeróbia aumentam risco de infecção.


    Como identificar o esquema adequado: Deve cobrir Gram-negativos entéricos + anaeróbios; administrar 30–60 min antes da incisão; redosar conforme meia-vida/sangramento; não prolongar além de 24 h.


    Padrão-ouro (prova): Cefoxitina 2 g IV na indução é opção de primeira linha em cirurgia colorretal. Alternativas aceitas: cefazolina + metronidazol; cefuroxima + metronidazol; ampicilina-sulbactam.


    Conduta & Posologia

    • Esquema preferencial: Cefoxitina 2 g IV administrada 30–60 min antes da incisão. Redose intraoperatória a cada 2 h se o procedimento se prolongar, ou se perda sanguínea > 1500 mL.

    • Duração: Dose única perioperatória é suficiente na maioria dos casos. Não manter além de 24 h.

    • Alternativas aceitas (se indisponível/CI): Cefazolina 2 g IV (3 g se ≥120 kg) + Metronidazol 500 mg IV; ou Cefuroxima 1,5 g IV + Metronidazol 500 mg IV; ou Ampicilina-sulbactam 3 g IV. Em alergia grave a beta-lactâmicos: Clindamicina 600–900 mg IV + (Gentamicina 5 mg/kg IV OU Aztreonam 2 g IV) + considerar Metronidazol 500 mg IV conforme combinação.

    • Ajustes em DRC: Para dose única, geralmente não requer ajuste. Se múltiplas redoses e ClCr < 30 mL/min, ampliar intervalo de redose (ex.: a cada 3–4 h) e limitar total a 24 h.

    • Ajustes em hepatopatia: Sem ajuste específico para dose única (Child-Pugh A–C). Monitorar se uso repetido.

    • Gestação e lactação: Cefalosporinas são geralmente seguras (Categoria B); cefoxitina pode ser usada.

    • Contraindicações: Alergia imediata grave a beta-lactâmicos (anafilaxia).

    • Efeitos adversos relevantes: Reações de hipersensibilidade, GI (náuseas/diarreia), elevação transitória de transaminases, colite por C. difficile (raro).

    • Interações críticas: Probenecida aumenta níveis; uso concomitante com anticoagulantes pode alterar INR (raro, monitorar).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Cirurgia colorretal é procedimento hospitalar. UTI se instabilidade hemodinâmica, sepse, ventilação prolongada ou alto risco respiratório/cardiovascular. Reavaliação clínica e sinais de infecção nas primeiras 24–48 h.

    Mini-exemplo: Retossigmoidectomia com duração de 3h e sangramento de 800 mL: cefoxitina 2 g IV na indução + redose aos 120 min intraop.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Cefoxitina.

    Alternativa correta. Cefamicina com boa atividade contra Gram-negativos entéricos e anaeróbios (inclui Bacteroides fragilis), permitindo monoterapia na profilaxia de cirurgia colorretal. Posologia típica: 2 g IV 30–60 min antes e redose a cada 2 h.

    ❌ B) Cefuroxima.

    Alternativa incorreta. Cefuroxima (2ª geração) tem cobertura limitada para anaeróbios; isoladamente é inadequada para cólon. Poderia ser usada apenas se associada a metronidazol.

    ❌ C) Cefazolina.

    Alternativa incorreta. Excelente para Gram-positivos de pele, mas não cobre anaeróbios. Em colorretal, só é aceitável se associada a metronidazol.

    ❌ D) Ceftriaxona.

    Alternativa incorreta. Boa cobertura para Gram-negativos, porém atividade inconsistente contra Bacteroides; monoterapia é insuficiente. Se escolhida, requereria associação com metronidazol.


    Mensagem para levar para casa:

    • Cirurgia colorretal exige cobertura de Gram-negativos + anaeróbios; monoterapia clássica: Cefoxitina 2 g IV.
    • Tempo correto: administrar 30–60 min antes da incisão e redose conforme meia-vida (cefoxitina: 2 h).
    • Alternativas válidas: Cefazolina + Metronidazol, Cefuroxima + Metronidazol, Ampicilina-sulbactam.
    • Evite monoterapia com cefazolina/cefuroxima/ceftriaxona em cólon: não cobrem adequadamente anaeróbios.
    • Não prolongar profilaxia além de 24 h; dose única costuma bastar.
    • Alergia grave a beta-lactâmicos: usar Clindamicina + (Gentamicina ou Aztreonam) ± Metronidazol.



    Questão 67Complicações pós-operatórias

    Homem de 47 anos foi submetido a hemorroidectomia aberta por doença hemorroidária grau III pela técnica de Milligan-Morgan. Evoluiu bem no pós-operatório imediato. Entretanto, cerca de 4 semanas após a cirurgia, passou a apresentar evacuações progressivamente difíceis, fezes afiladas e dor anal persistente. O mecanismo mais provavelmente responsável por esse quadro é a

    • A)

      ressecção excessiva da mucosa e pele anorretal.

    • B)

      lesão inadvertida de fibras nervosas do esfíncter anal externo.

    • C)

      infecção tardia do leito cirúrgico, determinando estreitamento secundário.

    • D)

      deiscência parcial da ferida operatória, com formação de cicatriz irregular e retração subsequente.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Pós-hemorroidectomia (Milligan-Morgan) pode evoluir com estenose anal por ressecção excessiva de mucosa/anoderme entre os pilares — típico entre 3–6 semanas, com fezes afiladas, evacuação difícil e dor.


    O que é: Estenose anal = redução patológica do diâmetro do canal anal por fibrose cicatricial do anoderma/mucosa.


    Por que importa: Complica a evacuação, provoca dor crônica, fissuras secundárias e pode exigir anoplastia se moderada/grave.


    Como identificar (operacional): - História típica pós-cirurgia (3–6 semanas), fezes finas “em lápis”, dor ao evacuar, sensação de obstrução.


    - Exame: inspeção com anoderme retraída, anel fibroso; toque retal difícil/doloroso; calibração anal reduzida. - Excluir infecção ativa (febre, secreção purulenta), fissura isolada e espasmo puro do EAE (esfíncter anal externo) sem fibrose.


    Fisiopatologia essencial: Ressecção ampla dos coxins com retirada excessiva de mucosa e pele entre os pilares hemorroidários leva à cicatrização por segunda intenção com fibrose concêntrica → estreitamento.


    Conduta & Posologia

    • Medidas conservadoras (estenose leve): fibras 20–30 g/dia, líquidos > 2 L/dia, banhos de assento mornos 10–15 min 2–3x/dia, dilatações anais graduais supervisionadas (1–3x/semana por 4–8 semanas).

    • Laxativos/osmóticos: Macrogol (PEG 3350) 17 g VO 1–2x/dia ajustando para fezes macias; alternativa: Lactulose 10–20 g VO 12/12h (titulando até 2 evacuações/dia).

    • Amolecedor fecal: Docusato de sódio 100 mg VO 8/8–12/12h por 2–4 semanas.

    • Analgia tópica/sistêmica: Lidocaína gel 2% tópica até 3–4x/dia; Dipirona 500–1.000 mg VO 6/6–8/8h conforme dor. Evitar opioide se possível (piora constipação).

    • Quando operar (anoplastia): falha do conservador em 6–8 semanas, estenose moderada/grave (impossibilidade de toque/calibradores adequados), fissuras múltiplas secundárias; técnicas: retalhos cutâneo-mucosos (V–Y, casa/"house flap"), avanço mucoso.

    • Contraindicações: Dilatação vigorosa em fase aguda de infecção (risco de abscesso); Lactulose em galactosemia;

    • Ajustes/precauções: DRC avançada: monitorar eletrólitos com laxativos osmóticos; cirrose/Child-Pugh: lactulose é segura e útil; idosos: iniciar com metade da dose e titular; gestação: PEG/lactulose/docusato são considerados seguros.

    • Efeitos adversos relevantes: PEG: distensão/flatulência; lactulose: cólica/flatulência; docusato: diarreia rara; lidocaína: dermatite de contato.

    • Critérios de internação vs ambulatorial: Ambulatorial na maioria. Internar se dor intratável, retenção urinária refratária, suspeita de abscesso/sepses (febre, celulite extensa), sangramento significativo, incapacidade de evacuar com risco de fecaloma.

    • Monitorização: Reavaliar em 2–4 semanas; metas: dor < 3/10, fezes moldadas e calibração anal em melhora progressiva.

    Limitação de diretrizes: Não há diretriz brasileira específica sobre estenose anal pós-hemorroidectomia; recomendações baseiam-se em revisões e guias internacionais de prática coloproctológica.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) ressecção excessiva da mucosa e pele anorretal.

    Alternativa correta. É o mecanismo clássico de estenose anal após técnica aberta (Milligan-Morgan). A retirada ampla de anoderme/mucosa entre pilares leva à cicatrização por segunda intenção com fibrose concêntrica → fezes afiladas, evacuação difícil e dor após 3–6 semanas.

    ❌ B) lesão inadvertida de fibras nervosas do esfíncter anal externo.

    Alternativa incorreta. Lesão neural do EAE se manifesta com incontinência/sensação de fraqueza esfincteriana, não com estreitamento e fezes em lápis. Não explica estenose estrutural tardia.

    ❌ C) infecção tardia do leito cirúrgico, determinando estreitamento secundário.

    Alternativa incorreta. Infecção tardia costuma cursar com dor exacerbada, eritema, secreção purulenta e/ou febre. Pode causar deformidade, mas é causa incomum de estenose isolada; o quadro descrito é típico de fibrose por ressecção excessiva.

    ❌ D) deiscência parcial da ferida operatória, com formação de cicatriz irregular e retração subsequente.

    Alternativa incorreta. Deiscência tende a ampliar a ferida, muitas vezes retardando a cicatrização, mas não causa estenose concêntrica típica. A retração irregular pode gerar desconforto, porém não explica fezes sistematicamente afiladas e anel fibroso uniforme.


    Mensagem para levar para casa:

    • Pós-hemorroidectomia aberta, fezes em lápis + dor após 3–6 semanas = pensar em estenose anal por ressecção excessiva de anoderme/mucosa.
    • Exame físico-chave: anel cicatricial fibroso e redução do calibre ao toque/calibração anal.
    • Tratamento inicial: fibras, banhos de assento, PEG 17 g 1–2x/dia ou lactulose 10–20 g 12/12h, dilatações graduais.
    • Falha em 6–8 semanas ou estenose moderada/grave → indicar anoplastia com retalhos.
    • Evite dilatação vigorosa em presença de infecção e opioides que pioram constipação.
    • Lesão de nervo do EAE causa incontinência (não estenose); infecção tardia é diagnóstico diferencial com sinais inflamatórios locais/sistêmicos.



    Questão 68Cirurgia Bariátrica e Metabólica

    Preencha a lacuna e assinale a alternativa correta. A deficiência de _______________ ocorre em cerca de 10% dos pacientes submetidos a Bypass Gástrico e relaciona-se com a má absorção de gorduras. Os sintomas são raros, mas o paciente pode queixar-se de pele seca, queda de cabelos e visão noturna comprometida.

    • A)

      vitamina C

    • B)

      ferro

    • C)

      vitamina A

    • D)

      vitamina D

    • E)

      ácido fólico

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Pós-bypass gástrico em Y de Roux há má absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K). A vitamina A é a que mais associa sintomas típicos de pele e visão noturna. Bancas cobram a associação “cegueira noturna + pele seca + alopecia = deficiência de vitamina A”.


    Epidemiologia e Etiologia


    • Frequência: Deficiência de vitamina A ocorre em cerca de 10% após bypass gástrico, por menor mistura de bile e lipase com o quimo e menor ingestão alimentar.

    • Mecanismo: A vitamina A é lipossolúvel (absorvida com gordura). O desvio do duodeno/jejuno proximal reduz emulsificação por sais biliares e absorção de micelas, levando à carência.

    • Risco aumentado: maior extensão de alça biliopancreática, vômitos persistentes, diarreia esteatorreica, baixa adesão a polivitamínico.


    Diagnóstico


    • Clínico: cegueira noturna (nictalopia), xeroftalmia (olho seco), hiperqueratose/pele seca, alopecia. Mini-exemplo: paciente relata “pioro muito para enxergar ao anoitecer”.

    • Laboratorial (definição operacional): retinol sérico < 0,70 µmol/L (≈ < 20 mcg/dL) sugere deficiência; < 0,35 µmol/L indica deficiência grave. Inflamação reduz retinol por queda da proteína ligadora do retinol; interpretar com proteína C reativa.

    • Exame oftalmológico: buscar manchas de Bitot, ceratopatia/ulceração. Se ceratomalácia/úlcera de córnea, urgência oftalmológica.


    Conduta & Posologia


    • Suplementação rotineira no pós-bariátrica (manutenção): multivitamínico com vitamina A 5.000–10.000 UI/dia VO de forma contínua (ajustar conforme níveis séricos e clínica).

    • Reposição terapêutica (deficiência confirmada ou sintomática):
      • 5.000–10.000 UI/dia VO por 1–3 meses, reavaliando retinol e sintomas.
      • Se deficiência moderada/grave ou má absorção importante: 25.000–50.000 UI/dia VO por 2–4 semanas, depois manutenção 5.000–10.000 UI/dia. Na ausência de dose nacional padronizada para terapia, utiliza-se faixa segura de consensos internacionais.

    • Via parenteral (exceção): se vômitos persistentes, síndrome de má absorção acentuada ou ceratopatia grave, considerar vitamina A intramuscular em ambiente especializado.

    • Ajustes e precauções:

      • Gestação: evitar doses elevadas de retinol (> 10.000 UI/dia) por teratogenicidade; preferir betacaroteno sob supervisão.

      • Hepatopatia/alcoolismo: reduzir dose e monitorar enzimas; risco de hepatotoxicidade.

      • Interações críticas: retinoides sistêmicos (isotretinoína, acitretina) somam toxicidade; cautela com varfarina (potencial alteração metabólica hepática).

    • Efeitos adversos relevantes: cefaleia, náuseas, irritabilidade, dor óssea/articular, pele seca/descamação, hepatotoxicidade e teratogenicidade em altas doses.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: manejo ambulatorial na maioria; encaminhar com urgência se ceratomalácia/úlcera de córnea, sinais infecciosos oculares ou incapacidade de via oral (pode requerer via parenteral e avaliação oftalmológica).

    • Monitorização: dosar retinol sérico em 8–12 semanas; acompanhar clínica ocular/cutânea e função hepática nas reposições mais altas.


    Discussão das alternativas


    ✅ C) vitamina A

    Alternativa correta. Vitamina A é lipossolúvel e sua deficiência pós-bypass relaciona-se à má absorção de gorduras. Sintomas clássicos: pele seca, queda de cabelos e comprometimento da visão noturna (nictalopia). É uma causa típica cobrada em provas.


    ❌ A) vitamina C

    Alternativa incorreta. Vitamina C é hidrossolúvel; deficiência causa escorbuto (gengivorragia, petéquias, má cicatrização), não nictalopia. Não está ligada diretamente à má absorção de gorduras.


    ❌ B) ferro

    Alternativa incorreta. Deficiência de ferro é comum após bypass (desvio do duodeno), porém cursa com anemia microcítica, fadiga, coiloniquia; não explica pele seca com nictalopia e não depende de absorção de gorduras.


    ❌ D) vitamina D

    Alternativa incorreta. Embora lipossolúvel, a deficiência de vitamina D manifesta-se com osteomalácia, dor óssea e fraqueza muscular proximal; a queixa típica de visão noturna não é esperada.


    ❌ E) ácido fólico

    Alternativa incorreta. Hidrossolúvel; deficiência cursa com anemia macrocítica e glossite. Não está relacionada à má absorção de gorduras nem a nictalopia.


    Take-home message

    • Pós-bypass gástrico: suspeite de deficiência de vitamina A se houver nictalopia + pele seca + alopecia.
    • Diagnóstico operacional: retinol sérico < 0,70 µmol/L confirma deficiência (interpretar com proteína C reativa).
    • Manutenção no pós-operatório: multivitamínico com vitamina A 5.000–10.000 UI/dia VO, com monitorização periódica.
    • Reposição terapêutica: 5.000–10.000 UI/dia VO por 1–3 meses; casos moderados/graves podem exigir 25.000–50.000 UI/dia por 2–4 semanas.
    • Red flag: gestantes não devem receber altas doses de retinol (> 10.000 UI/dia); preferir betacaroteno e acompanhamento especializado.
    • Emergência: sinais oculares graves (úlcera/ceratomalácia) demandam avaliação oftalmológica imediata e possível reposição parenteral.

    Questão 69Diverticulite aguda

    Mulher de 65 anos, com antecedente de hipertensão arterial sistêmica e câncer de mama, iniciou quadro de dor abdominal em abdome inferior há 3 dias, associado a febre baixa de 37,9 ºC. Nega alterações de hábito intestinal no período ou previamente, bem como nega náuseas, vômitos, perda de peso e sintomas urinários. Refere episódio prévio de dor semelhante há 6 meses, de menor intensidade, com resolução espontânea. Ao exame físico, encontra-se em bom estado geral, com frequência cardíaca de 82 bpm e pressão arterial de 140 x 90 mmHg. Abdome globoso, normodistendido, ruídos hidroaéreos presentes, sem visceromegalias ou massas palpáveis, doloroso à palpação de hipogastro e fossa ilíaca esquerda, sem sinais de irritação peritoneal. Toque retal sem alterações. Exames laboratoriais iniciais: hemoglobina: 13,2 g/dL; hematócrito: 40%; leucograma: 12,770 µL; amilase: 69 µL (0-110); creatinina: 1,0 mg/dL. Levando em conta a principal hipótese diagnóstica, assinale a alternativa que apresenta a conduta correta nesse momento.

    • A)

      Jejum, sintomáticos e preparo de cólon para colonoscopia.

    • B)

      Jejum, sintomáticos e tomografia computadorizada de abdome com contraste.

    • C)

      Dieta leve sem resíduos, ceftriaxone e metronidazol e tomografia de abdome com contraste.

    • D)

      Sintomáticos, orientações de sinais de alarme e investigação ambulatorial.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Dor em fossa ilíaca esquerda + febre baixa + leucocitose em idoso sem peritonite = suspeita de diverticulite aguda não complicada; exame de imagem de escolha é TC de abdome com contraste IV para confirmar e excluir complicações.


    O que é: Diverticulite aguda é a inflamação/infeção do divertículo colônico, usualmente no sigmoide.


    Por que importa: Diferenciar formas não complicadas (manejo ambulatorial possível) de complicadas (abscesso, perfuração, obstrução, fístula), que exigem antibiótico IV, drenagem/perfusão e, às vezes, cirurgia.


    Como identificar: Clínica compatível (dor em FIE/hipogástrio, febre baixa, leucocitose) + TC com contraste IV (padrão-ouro prático) mostrando espessamento da parede, inflamação da gordura pericólica; pesquisa de complicações.


    Armadilha de prova: Colonoscopia é contraindicada na fase aguda pelo risco de perfuração; está indicada 6–8 semanas após resolução para excluir neoplasia quando apropriado.


    Conduta & Posologia

    • Imagem inicial (estável, sem peritonite): TC de abdome e pelve com contraste IV (ideal sem preparo; contraste oral geralmente desnecessário).
    • Analgia e suporte: Dipirona 500–1.000 mg VO/IV 6/6–8/8h; evitar AINEs em idosos por risco renal/hemorragia. Hidratação conforme necessidade. Jejum relativo até completar avaliação.

    • Antibiótico (uso seletivo na forma não complicada, em imunocompetentes estáveis): pode-se observar sem antibiótico se ausência de sinais sistêmicos. Se optar por ATB ambulatorial ou houver sinais sistêmicos/comorbidades:

      • Esquema VO (ambulatorial):
        - Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h por 7 dias; ou
        - Ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h + Metronidazol 500 mg VO 8/8–12/12h por 7–10 dias.

      • Esquema IV (internação/complicada):
        - Ceftriaxone 1–2 g IV 24/24h + Metronidazol 500 mg IV 8/8h; ou
        - Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8h (monoterapia).

    • Ajustes especiais:
      - DRC: reduzir dose de ciprofloxacino se ClCr < 50 mL/min; metronidazol com intervalo maior se ClCr < 30 mL/min.
      - Hepatopatia: cautela com metronidazol em Child-Pugh C (reduzir dose/intervalo).
      - Idosos: atenção a QT longo com quinolonas e risco de delírio.

    • Contraindicações/alertas:
      Colonoscopia e preparo de cólon são contraindicados na fase aguda.
      Evitar AINEs em pacientes com risco renal/hemorrágico.

    • Critérios de internação (vs. ambulatorial): Internar se dor intensa, vômitos/sem via oral, imunossupressão, comorbidades descompensadas, idoso frágil, falha ambulatorial, suspeita de complicada (peritonite, abscesso, obstrução). Avaliar TC prontamente.

    • Reavaliação: 48–72 h. Piora clínica ou sinais sistêmicos = reavaliar com TC; abscesso ≥ 3–4 cm: considerar drenagem percutânea + antibiótico.

    • Pós-episódio: Colonoscopia em 6–8 semanas para excluir neoplasia se não houver colonoscopia recente ou se houver sinais de alarme.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Jejum, sintomáticos e tomografia computadorizada de abdome com contraste.

    Alternativa correta. Quadro típico de diverticulite sem sinais de peritonite requer TC com contraste IV para confirmar o diagnóstico e excluir complicações (abscesso, perfuração, obstrução). Jejum relativo enquanto aguarda exame e analgesia são condutas adequadas iniciais.

    ❌ A) Jejum, sintomáticos e preparo de cólon para colonoscopia.

    Alternativa incorreta. Colonoscopia e preparo intestinal são contraindicados na fase aguda pelo risco de perfuração. A endoscopia é indicada 6–8 semanas após resolução clínica.

    ❌ C) Dieta leve sem resíduos, ceftriaxone e metronidazol e tomografia de abdome com contraste.

    Alternativa incorreta. Lança mão de antibiótico IV de amplo espectro antes da estratificação. Em paciente estável, sem peritonite, a conduta inicial é confirmar com TC e, se não complicada, manejo pode ser ambulatorial com analgesia e, quando indicado, antibiótico VO (ou mesmo sem ATB em imunocompetentes selecionados). ATB IV (ex.: ceftriaxone 1–2 g IV 24/24h + metronidazol 500 mg IV 8/8h) fica reservado a formas complicadas ou critérios de internação.

    ❌ D) Sintomáticos, orientações de sinais de alarme e investigação ambulatorial.

    Alternativa incorreta. Em idosa com dor localizada e leucocitose, a hipótese de diverticulite exige confirmação por TC para diferenciar formas não complicadas de complicadas. Postergar imagem aumenta risco de perder abscesso/perfuração contida.


    Mensagem para levar para casa:

    • Suspeitou de diverticulite em paciente estável? Exame de escolha para confirmar/estratificar é a TC com contraste IV.
    • Antibiótico é seletivo em formas não complicadas; se usar ambulatorial: Amoxi-clav 875/125 mg VO 12/12h por 7 dias ou Cipro 500 mg 12/12h + Metro 500 mg 8/8–12/12h.
    • Internar se sinais sistêmicos, incapacidade de VO, imunossupressão, comorbidades descompensadas, falha ambulatorial ou complicações na TC.
    • Fase aguda: NÃO realizar colonoscopia/preparo pelo risco de perfuração.
    • Reavaliar clínica em 48–72 h; abscesso ≥ 3–4 cm costuma requerer drenagem percutânea + ATB.
    • Após resolução, considerar colonoscopia em 6–8 semanas para exclusão de neoplasia.

    Questão 70Diabetes

    Médica de uma Unidade Básica de Saúde atende um homem de 63 anos, 70 kg, IMC 25 kg/m2, sedentário, motorista aposentado por invalidez após ter a visão comprometida por diabetes e hipertensão, diagnosticados há mais de 20 anos. O paciente faz uso de metformina e dapaglifozina em doses otimizadas. Faz autoaplicação de insulina NPH 56 UI ao acordar e 34 UI antes de dormir. Ao exame físico, são observados nódulos endurecidos ao redor da cicatriz umbilical, edema discreto em membros inferiores, sem outros achados. Exames laboratoriais recentes demonstram hemoglobina glicada de 8,2% (VR: 4,7 a 5,7%) e função renal preservada. O monitoramento da glicemia capilar apresenta valores em jejum entre 140 mg/dL a 160 mg/dL e pós-prandiais entre 180 mg/dL a 240 mg/dL, sem episódios de hipoglicemia. Qual é o plano terapêutico condizente com o papel dessa médica no trabalho em equipe multiprofissional?

    • A)

      Aumentar a dose de insulina e encaminhar para um serviço de endocrinologia para que o médico especialista revise a medicação.

    • B)

      Manter a dose de insulina e encaminhar para consulta de enfermagem, a fim de investigar falhas relacionadas à aplicação e armazenamento da medicação.

    • C)

      Substituir a insulina NPH pela insulina regular e encaminhar para avaliação com psicólogo, visando motivá-lo a aderir à medicação e dieta.

    • D)

      Associar sulfonilureia às medicações em uso e encaminhar para avaliação com educador físico, único pilar de tratamento ainda não abordado.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de prova: Em usuário de insulina com controle subótimo e nódulos no sítio de aplicação, a primeira conduta na Atenção Primária é checar técnica, rodízio e armazenamento com a Enfermagem antes de intensificar esquema. Lipohipertrofia causa absorção imprevisível e hiperglicemia persistente.


    Epidemiologia e Etiologia

    Diabetes mellitus tipo 2 no SUS: alta prevalência em idosos; muitos necessitam de insulina NPH/regular por disponibilidade na rede (componente básico).

    Lipohipertrofia por insulina: nódulos endurecidos nos locais de aplicação por efeito anabólico local e repetição no mesmo ponto. Leva a variabilidade de absorção, hiperglicemia crônica e risco de hipoglicemias quando se muda o sítio.


    Diagnóstico

    Definição operacional (Atenção Primária): Inspeção e palpação revelando áreas endurecidas/nodulares, geralmente indolores, em locais usuais de aplicação (ex.: abdome peri-umbilical).

    Relevância clínica: Glicemias elevadas apesar de doses altas, sem hipoglicemia, sugerem má técnica/absorção irregular. Metas SBD/PCDT: jejum 80–130 mg/dL; pós-prandial <180 mg/dL; hemoglobina glicada alvo ~≤7,0–7,5% em idosos sem hipoglicemia grave (individualizar).

    Diferencial rápido: má conservação da insulina (quebra de cadeia fria), agulha reutilizada, técnica inadequada (ângulo, prega, profundidade), horário inconsistente vs. real falha terapêutica.


    Conduta & Posologia

    Passo 1 (papel da UBS): Manter esquema atual no curto prazo e encaminhar à Enfermagem para: inspeção dos sítios; identificação de lipohipertrofia; reeducação de técnica (agulha descartável a cada aplicação; ângulo 90° com prega conforme biotipo); rodízio sistemático entre abdome, coxas, nádegas e braços; suspender uso das áreas nodulares; revisar conservação (geladeira 2–8°C; frasco em uso até ~28–30 dias fora da geladeira, sem calor).

    Metas e monitorização: Reavaliar glicemias capilares e sintomas em 7–14 dias após correção da técnica; ajustar metas individualizadas (hemoglobina glicada alvo ~7,0–7,5% para este perfil, sem hipoglicemias).

    Se persistir fora da meta após técnica correta (2–4 semanas): considerar intensificação pelo SUS com insulina regular pré-prandial:

    Insulina regular inicial por refeição principal: 0,05 UI/kg/refeição (≈ 3–4 UI) 30 min antes, ajustar +1–2 UI a cada 2–3 dias conforme pós-prandial.

    Ajuste da NPH: Manter como basal e ajustar em passos de 2–4 UI conforme jejum, evitando escalonar antes de corrigir técnica.


    Evitar nesta fase: Associar sulfonilureia a esquema com insulina pelo maior risco de hipoglicemia e benefício modesto adicional; priorizar intensificação com insulina regular quando indicado.


    Critérios de referência/apoio multiprofissional: Enfermagem (educação e técnica) imediato; Nutrição e Educação Física para plano alimentar e atividade segura; Referir ao especialista se hipoglicemias graves/recorrentes, gestação, dúvida diagnóstica, falha após intensificação adequada, ou múltiplas comorbidades complexas.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Manter a dose de insulina e encaminhar para consulta de enfermagem, a fim de investigar falhas relacionadas à aplicação e armazenamento da medicação.

    Alternativa correta. O exame mostra nódulos endurecidos peri-umbilicais compatíveis com lipohipertrofia, achado clássico de má técnica/rodízio. Diretrizes brasileiras priorizam correção de técnica, rodízio e cadeia fria pela Enfermagem antes de intensificar esquema. A manutenção temporária da dose evita hipoglicemia súbita ao migrar para áreas íntegras.


    ❌ A) Aumentar a dose de insulina e encaminhar para um serviço de endocrinologia para que o médico especialista revise a medicação.

    Alternativa incorreta. Escalonar dose sem corrigir técnica perpetua variabilidade de absorção e pode causar hipoglicemia quando o paciente parar de aplicar em áreas de lipohipertrofia. Encaminhamento imediato ao especialista não é o primeiro passo na APS quando a causa provável é resolúvel com educação e manejo da Enfermagem.


    ❌ C) Substituir a insulina NPH pela insulina regular e encaminhar para avaliação com psicólogo, visando motivá-lo a aderir à medicação e dieta.

    Alternativa incorreta. Insulina regular não substitui a NPH como basal; regular é bolus prandial. Troca proposta desorganiza o regime e não aborda a causa (técnica/armazenamento). Apoio psicológico pode ser útil, mas não resolve o erro técnico central nem é o passo inicial.


    ❌ D) Associar sulfonilureia às medicações em uso e encaminhar para avaliação com educador físico, único pilar de tratamento ainda não abordado.

    Alternativa incorreta. Adicionar sulfonilureia a quem já usa insulina aumenta risco de hipoglicemia e agrega pouco controle quando a falha é de absorção. Educação física é importante, mas não é o único pilar faltante: a prioridade é a correção da técnica de aplicação e do armazenamento.


    Take-home message

    • Nódulos endurecidos em sítio de aplicação = lipohipertrofia: pense em falha de técnica/rodízio e cadeia fria.
    • Primeiro passo na APS: manter dose, reeducar técnica com Enfermagem e evitar áreas nodulares; reavaliar em 1–2 semanas.
    • Se persistir fora da meta após técnica correta: considerar regular pré-prandial inicial 3–4 UI/refeição e ajustar gradualmente.
    • Red flag: não aumente insulina antes de corrigir técnica — risco de hipoglicemia quando mudar o sítio.
    • Metas usuais: jejum 80–130 mg/dL; pós-prandial <180 mg/dL; hemoglobina glicada ~7,0–7,5% para este perfil.
    • Encaminhar ao especialista se hipoglicemias graves, gestação, falha após intensificação adequada ou comorbidades complexas.

    Questão 71Fios e técnicas cirúrgicas

    A reconstrução do trânsito no intestino delgado por anastomose término-terminal requer técnica padronizada para proteção da linha suturada. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta em dois planos:

    • A)

      Sutura seromuscular posterior → sutura em plano total contínuo → sutura seromuscular anterior.

    • B)

      Sutura em plano total contínuo → sutura seromuscular anterior → sutura seromuscular posterior.

    • C)

      Sutura seromuscular anterior → sutura em plano total contínuo → sutura seromuscular posterior.

    • D)

      Sutura seromuscular posterior → sutura seromuscular anterior → sutura em plano total contínuo.

    • E)

      Sutura em plano total contínuo único, sem plano seromuscular de proteção.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Bancas cobram a sequência técnica da anastomose término-terminal em dois planos, pois ela reduz tensão, assegura coaptação mucosa e protege a linha de sutura, diminuindo fístula e deiscência.


    • Cenário frequente: Ressecções e reconstruções do intestino delgado em urgência (isquemia, trauma, perfuração) e eletiva (tumores, doença de Crohn selecionada).

    • Risco de complicação: Fístula e deiscência variam conforme perfusão, tensão, técnica e comorbidades. A execução correta dos planos é fator modificável essencial.

    • Anastomose término-terminal em dois planos: Combina plano externo seromuscular (inversor/protetor; pontos de Lembert) com plano interno (sutura contínua de espessura total, garantindo coaptação mucosa).

    • Sequência correta:
    • 1) Seromuscular posterior para alinhamento e inversão inicial;
    • 2) Plano interno contínuo de espessura total (posterior e anterior, completando o anel mucoso);
    • 3) Seromuscular anterior para proteção e inversão final.

    • Por que importa (mecanismo): O plano externo reduz tensão e vazamento por imbricação serosa; o plano interno assegura estanqueidade pela coaptação mucosa e distribuição homogênea da força.

    • Armadilha de prova: Inverter a ordem dos planos externos (fazer anterior antes do interno) dificulta a coaptação mucosa; omitir o plano externo remove a proteção da anastomose.

    • Mini-exemplo: Em íleo saudável, sem tensão e bem perfundido, após sutura seromuscular posterior, o cirurgião executa o contínuo interno circunferencial e completa com seromuscular anterior.

    Conduta 

    • Técnica cirúrgica (passo a passo):
    • 1) Aproximar bordas sem tensão e com boa perfusão;
    • 2) Sutura seromuscular posterior com pontos separados de Lembert;
    • 3) Sutura interna contínua de espessura total circunferencial (posterior → anterior);
    • 4) Sutura seromuscular anterior com Lembert, cobrindo a linha interna.
    • Fios recomendados: Externo: absorvível lento 3-0 ou 4-0; Interno: absorvível 3-0/4-0. Evitar fios inabsorvíveis na mucosa.
    • Pontos críticos de qualidade: Sem tensão, bordas viáveis, hemostasia fina, espaçamento regular, inversão serosa suave (sem estrangular).
    • Quando NÃO fazer anastomose primária: instabilidade hemodinâmica, contaminação maciça, perfusão duvidosa → preferir estoma/derivação.
    • Monitorização pós-operatória: Sinais de fístula: taquicardia persistente, dor progressiva, leucocitose, débito turvo por dreno, íleo prolongado. Reabordar diante de peritonite/instabilidade.

    Discussão das alternativas

    ✅ A) Sutura seromuscular posterior → sutura em plano total contínuo → sutura seromuscular anterior.

    Alternativa correta. Sequência clássica em dois planos: o plano externo posterior alinha e inicia a inversão, o plano interno contínuo garante coaptação mucosa/estanqueidade, e o plano externo anterior protege a linha interna e completa a inversão.

    ❌ B) Sutura em plano total contínuo → sutura seromuscular anterior → sutura seromuscular posterior.

    Alternativa incorreta. Inicia pelo plano interno sem o suporte do posterior, dificultando o alinhamento e a inversão adequada; concluir com seromuscular posterior é tecnicamente inadequado (a proteção anterior deve ser o último passo).

    ❌ C) Sutura seromuscular anterior → sutura em plano total contínuo → sutura seromuscular posterior.

    Alternativa incorreta. Ancorar primeiro o plano externo anterior impede a adequada coaptação mucosa posterior e cria zonas de tensão; a ordem do plano externo está invertida.

    ❌ D) Sutura seromuscular posterior → sutura seromuscular anterior → sutura em plano total contínuo.

    Alternativa incorreta. Fechar primeiro os dois planos externos “encapsula” o lúmen e dificulta a execução segura do plano interno, além de não garantir coaptação mucosa antes da proteção serosa.

    ❌ E) Sutura em plano total contínuo único, sem plano seromuscular de proteção.

    Alternativa incorreta. Embora algumas equipes utilizem plano único extramucoso em cenários específicos, a questão pede dois planos com proteção seromuscular; omitir o plano externo remove a imbricação serosa e a barreira protetora.


    Take-home message

    • Sequência padrão da anastomose em dois planos (término-terminal de delgado): seromuscular posterior → plano interno contínuo total → seromuscular anterior.
    • A lógica: primeiro alinhamento/inversão posterior, depois coaptação mucosa estanque, e por fim proteção serosa anterior.
    • Qualidade técnica: sem tensão, perfusão adequada, pontos regulares, hemostasia fina, inversão suave sem estrangular paredes.
    • Red flag: não realizar anastomose primária em instabilidade, contaminação maciça ou perfusão duvidosa (optar por estoma/derivação).
    • Vigilância pós-operatória: taquicardia persistente, íleo prolongado e débito turvo em dreno sugerem fístula e exigem reavaliação precoce.

    Questão 72Colecistite aguda

    Paciente do sexo feminino, de 56 anos, ASA II, iniciou com dor abdominal no hipocôndrio direito há 36 horas associada a náuseas. Ultrassonografia de abdome evidenciou vesícula distendida, paredes espessadas e cálculo único impactado no infundíbulo. Dentre as alternativas abaixo, assinale a MELHOR CONDUTA:

    • A)

      Antibioticoterapia por 7-10 dias e colecistectomia tardia

    • B)

      Colecistectomia laparoscópica precoce com equipe experiente

    • C)

      Colecistostomia percutânea, sob anestesia local e sedação

    • D)

      Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica é obrigatória antes da cirurgia

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Colecistite aguda calculosa em paciente estável (ASA I–II) com <72 h de sintomas tem indicação de colecistectomia laparoscópica precoce durante a internação. Antibiótico é adjuvante, não definitivo.

    O que é: Inflamação aguda da vesícula por obstrução do ducto cístico (cálculo impactado no infundíbulo/Hartmann). Diagnóstico clínico-imagem (US: parede espessada, distensão, sinal de Murphy sonográfico, cálculo impactado).

    Por que importa: Conduta precoce reduz complicações (empiema, perfuração), tempo de internação e recidiva. Diretrizes (Tokyo/WSES) recomendam cirurgia precoce em casos leves/moderados em pacientes com bom risco cirúrgico.

    Como identificar gravidade (Tokyo Guidelines): - Grau I (leve): sem disfunção orgânica; inflamação local leve. - Grau II (moderada): leucócitos >18.000, massa dolorosa em HCD, duração >72 h, inflamação local marcada. - Grau III (grave): disfunção orgânica (cardio, neuro, resp, renal, hepático, coagulação).

    Aplicação no caso: Mulher 56 anos, ASA II, 36 h de dor, US sugestivo, sem choque/sepse/hiperbilirrubinemia. Quadro típico de gravidade leve. Melhor conduta é colecistectomia laparoscópica precoce com equipe experiente, idealmente em até 72 h do início dos sintomas (ou durante a internação).


    Conduta & Posologia

    • Analgesia: Dipirona 1 g IV 6/6–8/8 h; Opioide se dor intensa (morfina 2–4 mg IV a cada 2–4 h conforme necessidade).
    • Antibiótico empírico (cobrir enterobactérias/anaeróbios): - Regime 1: Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h. - Regime 2: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h (monoterapia). - Alergia a beta-lactâmico: Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
    • Duração do antibiótico: Se fonte controlada por colecistectomia e quadro leve-moderado: 24 h pós-operatórias. Se grave/colecistostomia ou controle subótimo: 4–7 dias.
    • Ajustes: - Piperacilina-tazobactam: reduzir intervalo/dose se ClCr <40 mL/min. - Metronidazol: reduzir dose/intervalo em Child-Pugh C. - Ceftriaxona: sem ajuste renal isolado; cautela em insuficiência hepatorrenal combinada. - Ciprofloxacino: ajustar se ClCr <50 mL/min; evitar na gestação.
    • Contraindicações/alertas: - Colecistostomia percutânea reservada a pacientes com alto risco operatório/choque séptico (Grau III) ou falha clínica. - ERCP apenas se alta probabilidade de coledocolitíase (icterícia + colédoco dilatado, colangite, BT >4 mg/dL com dilatação).
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: - Internar todos com colecistite aguda para antibiótico IV e cirurgia. - UTI se disfunção orgânica, choque, necessidade de vasopressores, PaO2/FiO2 <300, creatinina >2 mg/dL, plaquetas <100 mil.
    • Tempo de reavaliação: Reavaliar dor, sinais vitais e laboratório em 6–12 h. Programar colecistectomia na mesma internação, idealmente <72 h do início dos sintomas.

    Armadilhas de prova: - Antibiótico isolado não é tratamento definitivo na paciente estável. - ERCP não é “obrigatório” sem critérios de alto risco para coledocolitíase. - Colecistostomia não é primeira linha em ASA II sem falência orgânica.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Colecistectomia laparoscópica precoce com equipe experiente

    Alternativa correta. Paciente ASA II, 36 h de sintomas, sem disfunção orgânica: indica-se colecistectomia laparoscópica precoce durante a internação (ideal <72 h). Reduz tempo de internação, complicações e necessidade de reoperações. Antibiótico é adjuvante até a cirurgia. Diretrizes Tokyo/WSES sustentam essa conduta.

    ❌ A) Antibioticoterapia por 7-10 dias e colecistectomia tardia

    Alternativa incorreta. Antibiótico isolado sem colecistectomia na fase inicial aumenta recidiva e complicações; cirurgia tardia implica maior probabilidade de novas crises e internações. Em paciente estável, a melhor prática é abordagem precoce, não tardia.

    ❌ C) Colecistostomia percutânea, sob anestesia local e sedação

    Alternativa incorreta. Colecistostomia é opção de ponte em alto risco cirúrgico ou gravidade Grau III (disfunção orgânica) ou falha de tratamento clínico. Nesta paciente ASA II e estável, o padrão é colecistectomia laparoscópica.

    ❌ D) Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica é obrigatória antes da cirurgia

    Alternativa incorreta. ERCP pré-operatória somente se alta probabilidade de coledocolitíase (colangite, BT >4 mg/dL com colédoco dilatado, cálculo no colédoco em imagem). Sem icterícia/dilatação/cálculo em via biliar, ERCP não é indicada rotineiramente.


    Você sabe identificar um ultrassom de colecistite aguda calculosa? 

    👀Fique de olho na imagem abaixo

    (A) Corte longitudinal da vesícula biliar mostrando pequenos cálculos com sombra acústica na região declive da vesícula (seta). A ultrassonografia também evidencia parede espessada tanto na projeção longitudinal (ponta de seta pequena) quanto na transversal (B). (

    B) Nota-se pequena quantidade de líquido perivesicular (ponta de seta grande).

    (C) O estudo Doppler mostra aumento do fluxo sanguíneo na parede (seta tracejada), indicativo da hiperemia de um processo inflamatório. Estes achados são compatíveis com colecistite aguda calculosa.

    Fonte: Uptodate. Acesso em 27 de Janeiro de 2026.


    Take-home message

    • Colecistite aguda em paciente estável (ASA I–II) e <72 h: colecistectomia laparoscópica precoce na mesma internação.
    • Antibiótico é adjuvante: ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia + metronidazol 500 mg IV 8/8 h até a cirurgia.
    • ERCP não é obrigatória sem sinais de coledocolitíase/colangite.
    • Colecistostomia percutânea é ponte em alto risco ou Grau III (disfunção orgânica) ou falha clínica.
    • Duração do ATB pós-op após controle de foco em casos leves: 24 h; se grave/controle subótimo: 4–7 dias.
    • Critérios de UTI: qualquer disfunção orgânica (choque, insuf. respiratória, renal, coagulopatia, etc.).

    Questão 73Síndrome compartimental e fasciíte

    Em relação às lesões térmicas, assinale a alternativa correta.

    • A)

      O débito urinário deve ser de 0,5 ml/kg/h, independentemente da natureza da queimadura e idade do paciente.

    • B)

      Para o cálculo de área queimada irregular, utilizar a palma da mão do doente, excluindo‑se os dedos, que representará 1% da área corpórea queimada.

    • C)

      Logo após as queimaduras de segundo grau, quando a área de superfície corporal for maior que 10%, as bolhas devem ser rompidas e devem ser aplicadas compressas frias.

    • D)

      Nas queimaduras químicas provocadas por ácidos, agentes neutralizantes devem ser utilizados antes da irrigação com água.

    • E)

      A síndrome compartimental resulta da combinação da diminuição da elasticidade da pele com o aumento do edema dos tecidos moles.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema


    Âncora (por que cai): Queimaduras exigem condutas padronizadas no pré e intrahospitalar. Bancas cobram: metas de diurese, cálculo de superfície corporal queimada, manejo inicial de bolhas, irrigação em queimaduras químicas e fisiopatologia da síndrome compartimental.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Cenário Brasil: Queimaduras são causa frequente de urgência, com predominância em domicílio (escaldaduras em crianças; chama direta e eletricidade em adultos). Fonte: Ministério da Saúde. Linha de Cuidado ao Queimado (2012).
    • Etiologias principais: Térmica (chama, escaldadura, contato), elétrica, química e por inalação de fumaça.


    Diagnóstico

    • Classificação por profundidade: Superficial (1º grau), parcial (2º grau superficial/profundo), total (3º grau), e 4º grau (atinge fáscia/músculo/osso). Importa para conduta e necessidade de enxertia.
    • Estimativa da superfície corporal queimada (SCQ): Regra dos nove (adultos) e palma da mão do paciente incluindo os dedos = ~1% da SCQ para áreas irregulares. Em crianças, usar tabelas ajustadas (Lund-Browder) quando possível.
    • Gravidade inicial: Via aérea (suspeita de lesão inalatória), mecanismo (elétrica/química), SCQ e profundidade, localização crítica (face, mãos, períneo, circunferencial), comorbidades.
    • Síndrome compartimental em queimados: Resulta da escara inelástica + edema progressivo, elevando a pressão tecidual e comprometendo perfusão neurovascular. Sinais: dor desproporcional, parestesia, palidez, tônus aumentado, pulso difícil/de ausente (tardiamente).


    Conduta & Posologia

    • Reanimação volêmica (24h iniciais): Ringer Lactato, fórmula de Parkland: 4 mL × peso (kg) × %SCQ; dar metade nas primeiras 8 horas a partir do momento da queimadura e o restante nas 16 horas seguintes. Meta de diurese: adultos ≥0,5 mL/kg/h; crianças ≥1 mL/kg/h; queimadura elétrica/mioglobinúria 1–1,5 mL/kg/h. Ajustar infusão conforme metas clínicas e laboratoriais.
    • Controle da dor (exemplos): Dipirona 10–20 mg/kg IV a cada 6–8h (máx. 2 g/dose em adultos); Morfina 0,05–0,1 mg/kg IV titulada conforme dor, com monitorização. Evitar anti-inflamatórios não esteroides nas primeiras 24–48h se houver instabilidade hemodinâmica/risco renal.
    • Feridas e bolhas: Resfriar com água corrente por até 20 minutos se nas primeiras 3 horas, evitando hipotermia. Não usar gelo. Não romper bolhas intactas de rotina; desbridar bolhas rotas, muito tensas ou contaminadas. Coberturas limpas e úmidas.
    • Tópicos antimicrobianos (quando indicados): Sulfadiazina de prata 1% em camada fina, 1–2x/dia. Contraindicado em recém-nascidos, gestantes ao termo e alergia a sulfas; pode retardar epitelização em 2º grau superficial.
    • Profilaxia do tétano: dT adulto 0,5 mL IM conforme esquema vacinal; se esquema incerto e ferida tetanogênica, adicionar Imunoglobulina antitetânica 250–500 UI IM em sítio distinto.
    • Queimaduras químicas: Irrigação copiosa imediata com água por 20–30 min (ou até pH neutro), remoção de roupas/partículas. Não usar neutralizantes (reação exotérmica). Exceções específicas industriais devem ser manejadas com protocolos próprios.

    • Critérios de internação/transferência: SCQ ≥10% em adultos; ≥5% em crianças/idosos; qualquer 3º grau; face, mãos, pés, genitália, períneo, articulações maiores; queimadura elétrica de alta voltagem ou raio; lesão inalatória; queimadura química significativa; comorbidades graves; queimadura circunferencial com risco de síndrome compartimental.


    Armadilhas de prova

    • “Palma da mão” do paciente incluindo os dedos = ~1% da SCQ.
    • Bolhas: não romper sistematicamente; avaliar tensão, integridade e contaminação.
    • Químicas: nunca neutralizar; irrigar imediatamente e abundantemente.


    Discussão das alternativas


    ✅ E) A síndrome compartimental resulta da combinação da diminuição da elasticidade da pele com o aumento do edema dos tecidos moles.

    Alternativa correta. Em queimaduras (especialmente circunferenciais e profundas), a escara inelástica somada ao edema progressivo eleva a pressão compartimental, reduz perfusão e pode exigir escorotomia (e, se necessário, fasciotomia). Reconhecimento precoce evita isquemia irreversível.


    ❌ A) O débito urinário deve ser de 0,5 ml/kg/h, independentemente da natureza da queimadura e idade do paciente.

    Alternativa incorreta. A meta de diurese varia: adultos ≥0,5 mL/kg/h, crianças ≥1 mL/kg/h; queimaduras elétricas e suspeita de mioglobinúria exigem metas maiores 1–1,5 mL/kg/h


    ❌ B) Para o cálculo de área queimada irregular, utilizar a palma da mão do doente, excluindo‑se os dedos, que representará 1% da área corpórea queimada.

    Alternativa incorreta. O correto é usar a palma da mão do paciente incluindo os dedos ≈ 1% da SCQ. Excluir os dedos subestima a área. 


    ❌ C) Logo após as queimaduras de segundo grau, quando a área de superfície corporal for maior que 10%, as bolhas devem ser rompidas e devem ser aplicadas compressas frias.

    Alternativa incorreta. Não se recomenda romper bolhas intactas de rotina; apenas as tensas, muito grandes ou rotas/contaminadas devem ser desbridadas. Resfriamento com água corrente nas primeiras horas é útil, mas compressas frias extensas podem causar hipotermia


    ❌ D) Nas queimaduras químicas provocadas por ácidos, agentes neutralizantes devem ser utilizados antes da irrigação com água.

    Alternativa incorreta. O manejo é irrigação copiosa imediata com água e remoção de roupas/partículas. Neutralização química é desaconselhada por risco de reação exotérmica e agravamento tecidual. 


    Take-home message

    • Meta de diurese: adultos ≥0,5 mL/kg/h; crianças ≥1 mL/kg/h; elétrica/mioglobinúria 1–1,5 mL/kg/h.
    • Palma da mão do paciente com dedos ≈ 1% da SCQ para áreas irregulares.
    • Bolhas: não romper sistematicamente; desbridar as tensas/rotas/contaminadas; cobrir e monitorar.
    • Químicas: irrigar imediatamente com água abundante; não neutralizar.
    • Síndrome compartimental: escara rígida + edema → risco de isquemia; avaliar perfusão e indicar escarotomia precoce quando necessário.
    • Reanimação: Parkland 4 mL × kg × %SCQ (Ringer Lactato); metade em 8h, titular por diurese e sinais clínicos.

    Questão 75Doenças venosas

    Mulher de 42 anos refere dor em peso nas pernas ao final do dia, edema discreto e presença de veias dilatadas em membros inferiores. AP: G3P3, sem antecedente de trombose venosa profunda. Eco-Doppler: refluxo de 3,2 segundos na junção safeno femoral e maior que 0,5 segundos na veia safena magna esquerda desde a croça até o tornozelo. A melhor opção terapêutica é:

    • A)

      Cirurgia de varizes convencional com ligadura da croça e safenectomia ou termoablação por laser ou radiofrequência da safena magna.

    • B)

      Tratamento clínico com meia elástica por 6 meses.

    • C)

      Laserterapia transdérmica com luz intensa pulsada.

    • D)

      Escleroterapia líquida da safena magna.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Varizes com refluxo axial documentado na veia safena magna (>0,5s) desde a junção safeno-femoral até a perna = tratamento de escolha é ablação do tronco safeno (termoablação endovenosa por laser/radiofrequência) ou cirurgia convencional (ligadura da croça + safenectomia). Meia elástica isolada não trata refluxo axial.


    Epidemiologia e Etiologia

    • O que é: Doença venosa crônica com dilatação e tortuosidade de veias superficiais por incompetência valvar. Refluxo >0,5 s em veias superficiais define insuficiência hemodinâmica ao Doppler.
    • Por que importa: Causa dor, edema, piora funcional e risco de progressão para hiperpigmentação, dermatite ocre e úlcera venosa. Tratamento do refluxo axial previne recorrência e complicações.
    • Fatores de risco (BR): Multiparidade, ortostatismo ocupacional, idade, história familiar e obesidade.

    Diagnóstico

    • Padrão-ouro: Ecografia Doppler venosa com mapeamento hemodinâmico.
    • Definições operacionais:
      • Refluxo em veia safena/veias superficiais: tempo de refluxo >0,5 segundo após manobra (Valsalva/compressão-descompressão).
      • Refluxo na junção safeno-femoral: habitualmente considerado patológico quando >0,5 segundo; valores mais altos (ex.: 3,2 s) indicam incompetência franca.
    • Semiologia de prova: Veias dilatadas, dor em peso vespertina, edema discreto que melhora ao elevar MMII.
    • Achado que muda conduta: Refluxo axial contínuo na veia safena magna desde a croça até o tornozelo → indica tratamento do tronco safeno (cirúrgico ou endovenoso), não apenas medidas conservadoras.

    Conduta & Posologia

    • Primeira linha (quando há refluxo axial na safena): Abordagem do tronco da veia safena magna por termoablação endovenosa (laser ou radiofrequência) OU cirurgia convencional (ligadura da croça + safenectomia). Decisão conforme disponibilidade, anatomia venosa, preferência/experiência da equipe e do paciente.
    • Técnicas:
      • Termoablação endovenosa: punção percutânea, tumescência, energia térmica intraluminal com fechamento do tronco insuficiente; flebectomias associadas para colaterais varicosas.
      • Cirurgia convencional: ligadura da croça com controle de tributárias + stripping da safena doente; flebectomias dos ramos varicosos.
    • Quando considerar escleroterapia com espuma densa guiada por ultrassom: Alternativa em pacientes com alto risco cirúrgico/termoablação indisponível; maior taxa de recidiva em troncos safenos quando comparada às técnicas térmicas/cirúrgicas.
    • Tratamento conservador: Meias elásticas de compressão graduada aliviam sintomas, mas não corrigem refluxo axial. Úteis como ponte ou quando o paciente recusa/tem contraindicação a procedimentos.
    • Contraindicações relevantes: Gestação (adiar procedimentos eletivos na maioria dos casos), doença arterial periférica moderada/grave (cautela com compressão), trombose venosa profunda ativa (postergar ablação/cirurgia).
    • Critérios de internação vs ambulatorial: Procedimentos geralmente ambulatoriais/Day Clinic. Internar se comorbidades descompensadas, risco anestésico elevado ou complicações.

    Discussão das alternativas

    ✅ A) Cirurgia de varizes convencional com ligadura da croça e safenectomia ou termoablação por laser ou radiofrequência da safena magna.

    Alternativa correta. Há refluxo axial significativo (3,2 s na junção safeno-femoral e >0,5 s em todo o trajeto da veia safena magna), o que indica tratamento do tronco safeno por cirurgia convencional ou termoablação endovenosa. Ambas são terapias de primeira linha para incompetência da safena, com alívio de sintomas e menor recidiva quando comparadas ao manejo exclusivamente conservador.

    ❌ B) Tratamento clínico com meia elástica por 6 meses.

    Alternativa incorreta. A compressão pode reduzir sintomas, mas não corrige o refluxo axial da safena. Em presença de incompetência documentada ao longo do tronco safeno, a conduta definitiva é ablação/cirurgia. Meia isoladamente é subtratamento neste cenário.

    ❌ C) Laserterapia transdérmica com luz intensa pulsada.

    Alternativa incorreta. Métodos transdérmicos tratam telangiectasias e veias reticulares superficiais, não troncos safenos incompetentes. Não abordam a fonte do refluxo (junção safeno-femoral/safena magna).

    ❌ D) Escleroterapia líquida da safena magna.

    Alternativa incorreta. Escleroterapia líquida não é adequada para o tronco safeno devido a altas taxas de recanalização e falha. Quando a escleroterapia é considerada para tronco, prefere-se espuma densa guiada por ultrassom, ainda assim com resultados inferiores à termoablação/cirurgia em muitos cenários.


    Take-home message

    • Refluxo >0,5 s em veia safena magna ao Doppler define insuficiência superficial; se axial e extenso, indica tratar o tronco safeno.
    • Primeira linha: termoablação endovenosa (laser/radiofrequência) ou cirurgia (ligadura da croça + safenectomia) com flebectomias de colaterais.
    • Meias elásticas aliviam sintomas, mas não corrigem refluxo axial; use como ponte ou quando não há indicação/aceitação de procedimento.
    • Red flag: Evite escleroterapia líquida em tronco safeno pela alta taxa de falha/recanalização.
    • Laser transdérmico é para telangiectasias/reticulares, não para veia safena incompetente.
    • Procedimentos geralmente ambulatoriais; avaliar comorbidades e risco anestésico.


    Questão 75Perda Auditiva induzida por Ruído (PAIR)

    Jorge, 60 anos, casado, tocador de tamborim na escola de samba, aos sábados, há 4 anos, trabalha em construção civil e obras públicas há 38 anos (principalmente como operador de britadeira). Refere que os EPIs são antigos e às vezes quebrados. Traz uma audiometria solicitada para investigar perda auditiva, pela qual conclui-se: "Perda auditiva sensorioneural bilateral simétrica com perda global, mas mais intensa em frequências de 3, 4 e 6 kHz, com melhora relativa à frequência de 8 kHz". A partir do resultado da audiometria, é correto concluir pelo diagnóstico de:

    • A)

      Perda auditiva induzida por ruído não ocupacional, e deve-se propor tratamento adequado, orientar uso de protetores auriculares quando for tocar na escola de samba.

    • B)

      Perda auditiva não induzida por ruídos e deve-se solicitar exame de imagem, pois perdas auditivas sensorioneurais bilaterais simétricas tipicamente não estão relacionadas a doença ocupacional e devem ser investigadas com brevidade.

    • C)

      Presbiacusia, e deve-se propor tratamento adequado e orientar que a causa é essencialmente uma complicação da idade, recomendando repouso acústico aos fins de semana e uso mais intensivo de equipamentos de proteção individual no trabalho.

    • D)

      Perda auditiva induzida por ruído ocupacional, e deve-se propor tratamento adequado, orientar uso de protetores auriculares e reavaliação periódica da audiometria.

    • E)

      Perda auditiva induzida por níveis de pressão sonora elevados, e deve-se propor tratamento adequado e orientar uso de protetores auriculares no trabalho.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): O “entalhe” audiométrico em 3–6 kHz com recuperação em 8 kHz é o achado clássico de perda auditiva induzida por ruído. Em prova, bilateral, simétrica e neurossensorial + longa história ocupacional = diagnóstico.


    Epidemiologia e Etiologia


    Cenário brasileiro: Ruído ocupacional é um dos agentes nocivos mais prevalentes na indústria e construção. Nexo causal frequente em perícias trabalhistas e vigilância em saúde do trabalhador.


    Agente causal: Exposição crônica a níveis de pressão sonora acima do limite de tolerância (tipicamente ≥85 dB(A) para 8 horas), especialmente com ferramentas percussivas (ex.: britadeira) e música amplificada.


    Fisiopatologia (essencial): Lesão das células ciliadas externas da cóclea na região basal (frequências altas), gerando perda neurossensorial bilateral, simétrica e irreversível, com entalhe inicial em 3–6 kHz.


    Diagnóstico


    Definição operacional (PAIR): Perda auditiva neurossensorial, bilateral e geralmente simétrica, decorrente de exposição ocupacional a ruído acima dos limites de tolerância, com entalhe audiométrico típico em 3, 4 e/ou 6 kHz, com relativa recuperação em 8 kHz. História ocupacional é mandatória.


    Padrão-ouro: Audiometria tonal liminar com repouso acústico prévio (idealmente 14 horas) mostrando o entalhe característico. Logoaudiometria e imitanciometria complementam.


    O que diferencia de presbiacusia: Presbiacusia cursa com piora progressiva nas altas frequências sem recuperação em 8 kHz; muitas vezes não há entalhe pronunciado, mas inclinação contínua para agudos.


    Quando pedir imagem: Assimetria importante entre orelhas, perda súbita, sinais neurológicos ou outras red flags. No padrão bilateral simétrico típico, imagem não é exame de rotina.


    Mini-exemplo: Trabalhador de britadeira por décadas com entalhe 4 kHz bilateral e EPI ineficaz → PAIR ocupacional.


    Conduta & Posologia


    Próximo passo (não farmacológico): Reconhecimento do nexo ocupacional, controle ambiental (engenharia), programa de conservação auditiva, protetores auriculares adequados e íntegros, treinamento e vigilância audiométrica periódica (admissional, periódica ao menos anual, mudança de função e demissional conforme NR-7).


    Reabilitação: Encaminhar para otorrinolaringologia e fonoaudiologia para eventual adaptação de aparelho de amplificação sonora individual e manejo de zumbido/hiperacusia.


    Critérios de encaminhamento especializado/alerta: Assimetria >15 dB em 3, 4 ou 6 kHz, perda súbita, progressão rápida, sintomas vestibulares ou neurológicos → avaliar imagem e outras etiologias.


    Monitorização: Audiometria com repouso acústico (≈14 h) e comparação com traçados anteriores. Reforçar adesão e vedação correta do EPI; substituir EPI danificado.


    Ambulatorial vs afastamento: Manter em atividade com controle da exposição e EPI eficaz. Afastamento ou realocação quando, mesmo com medidas, persistir exposição acima do limite ou houver agravamento documentado.


    Discussão das alternativas


    ✅ D) Perda auditiva induzida por ruído ocupacional, e deve-se propor tratamento adequado, orientar uso de protetores auriculares e reavaliação periódica da audiometria.

    Alternativa correta. Audiometria com entalhe bilateral simétrico em 3–6 kHz e recuperação em 8 kHz, associada à longa exposição ocupacional a britadeira e EPI ineficaz, define PAIR ocupacional. Conduta: controle da exposição, EPI eficaz e vigilância (NR-7).


    ❌ A) Perda auditiva induzida por ruído não ocupacional, e deve-se propor tratamento adequado, orientar uso de protetores auriculares quando for tocar na escola de samba.

    Alternativa incorreta. A principal fonte é ocupacional (38 anos com britadeira) e o padrão audiométrico é típico de PAIR ocupacional. Orientar apenas para a escola de samba subestima o nexo laboral e falha no controle do risco no trabalho.


    ❌ B) Perda auditiva não induzida por ruídos e deve-se solicitar exame de imagem, pois perdas auditivas sensorioneurais bilaterais simétricas tipicamente não estão relacionadas a doença ocupacional e devem ser investigadas com brevidade.

    Alternativa incorreta. O padrão bilateral simétrico com entalhe 3–6 kHz é clássico de PAIR e dispensa imagem na ausência de red flags. Imagem é reservada para assimetria, perda súbita ou sinais neurológicos.


    ❌ C) Presbiacusia, e deve-se propor tratamento adequado e orientar que a causa é essencialmente uma complicação da idade, recomendando repouso acústico aos fins de semana e uso mais intensivo de equipamentos de proteção individual no trabalho.

    Alternativa incorreta. Presbiacusia tende a piorar progressivamente nas altas frequências sem recuperação em 8 kHz. Aqui há entalhe típico e forte exposição ocupacional. Repouso apenas nos fins de semana não é medida suficiente; é preciso controle no trabalho e EPI adequado.


    ❌ E) Perda auditiva induzida por níveis de pressão sonora elevados, e deve-se propor tratamento adequado e orientar uso de protetores auriculares no trabalho.

    Alternativa incorreta. Apesar de citar ruído, a opção não qualifica o nexo ocupacional e omite a vigilância periódica e medidas de controle ambiental exigidas pelas normas (NR-7/NR-15). O diagnóstico correto é PAIR ocupacional com seguimento formal.


    Take-home message

    • PAIR: perda neurossensorial, bilateral e simétrica com entalhe em 3–6 kHz e recuperação relativa em 8 kHz.
    • História ocupacional + audiometria típica fecham o diagnóstico; imagem não é de rotina sem sinais de alarme.
    • Conduta principal: controle da exposição, EPI íntegro e bem ajustado e audiometria periódica (NR-7).
    • Repouso acústico de aproximadamente 14 horas antes da audiometria para evitar fadiga auditiva e falsos resultados.
    • Red flag: assimetria significativa, perda súbita ou sintomas neurológicos → considerar imagem e investigação ampliada.
    • Presbiacusia vs PAIR: presbiacusia piora contínua para agudos sem recuperação em 8 kHz; PAIR tem entalhe e vínculo com ruído laboral.

    Questão 76Aneurisma

    Homem de 28 anos, corredor de média distância, relata dor em panturrilha direita quando atinge os 800 a 1.000 metros e que cessa em 2 a 3 minutos de repouso. Índice Tornozelo-Braço (ITB) em repouso: 1,00 bilateralmente. ITB pós-esteira: 0,62 à direita. Eco-Doppler arterial: onda trifásica em repouso; durante flexão plantar resistida, há redução acentuada do pico sistólico na artéria poplítea direita, com turbulência na topografia do hiato do músculo gastrocnêmio medial. O diagnóstico é:

    • A)

      Doença aterosclerótica femoropoplítea inicial.

    • B)

      Síndrome do aprisionamento poplíteo.

    • C)

      Dissecção espontânea da artéria poplítea.

    • D)

      Doença cística da adventícia.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Claudicação em jovem atleta com Índice Tornozelo-Braço normal em repouso, porém queda acentuada pós-esforço, associada a sinais doppler dinâmicos de compressão na topografia do hiato do gastrocnêmio medial, é clássico de síndrome do aprisionamento poplíteo.


    Epidemiologia e Etiologia

    • O que é: Síndrome do aprisionamento poplíteo é a compressão extrínseca, congênita (variações anatômicas) ou funcional (hipertrofia muscular), da artéria poplítea por estruturas músculo-tendíneas, sobretudo o feixe medial do músculo gastrocnêmio.
    • Por que importa: Em atletas/jovens, causa claudicação de esforço precoce sem fatores de risco ateroscleróticos; pode evoluir para estenose, trombose ou aneurisma poplíteo se não tratada.
    • Cenário brasileiro: Rara, subdiagnosticada; tipicamente homens jovens, fisicamente ativos (corrida, ciclismo) com sintomas reprodutíveis ao esforço.

    Diagnóstico

    • Clínica típica: Dor em panturrilha desencadeada por corrida/plantiflexão sustentada, alívio rápido com repouso. Pulsos podem ser normais em repouso.
    • ITB (Índice Tornozelo-Braço): Normal em repouso e reduzido após esforço (queda >20% sugere obstrução dinâmica). Exemplo do caso: 1,0 → 0,62 (direita) pós-esteira.
    • Doppler arterial com manobras dinâmicas: Onda trifásica em repouso; durante flexão plantar resistida, redução acentuada do pico sistólico/turbolência na artéria poplítea na topografia do hiato do gastrocnêmio medial. Achado chave para compressão extrínseca dinâmica.
    • Exame confirmatório (padrão-ouro prático): Angiotomografia ou angiorressonância com manobras dinâmicas (dorsiflexão/plantiflexão) demonstrando o conflito anatômico; arteriografia dinâmica quando necessário para planejamento cirúrgico.
    • Diferenciais:
      • Doença aterosclerótica femoropoplítea: Idosos, fatores de risco, ITB baixo já em repouso, placas ateromatosas no Doppler/angio.
      • Doença cística da adventícia: Homem 30–50 a., lesão cística na parede poplítea, compressão não posicional, sinal do “crescente”/“scimitar” no Doppler.
      • Dissecção poplítea: Dor súbita/quadros isquêmicos agudos, não claudicação previsível.

    Conduta & Posologia (DINÂMICO)

    • Próximo passo propedêutico: Solicitar angiotomografia ou angiorressonância com manobras dinâmicas para definir o tipo anatômico do aprisionamento e planejar cirurgia.
    • Tratamento de escolha (cirúrgico):
      • Descompressão cirúrgica com liberação/desinserção do feixe muscular/tendíneo anômalo (gastrocnêmio medial ou poplíteo) e transposição da artéria poplítea quando necessário.
      • Se houver lesão arterial (estenose, aneurisma, trombose): reconstrução com endarterectomia/patch ou interposição de enxerto autólogo (veia safena magna) conforme extensão.
    • Tratamento clínico isolado: Ineficaz para corrigir o conflito anatômico; pode ser usado apenas como ponte (analgesia, modulação de treino) enquanto se programa a cirurgia.
    • Critérios de internação vs ambulatorial:
      • Internação eletiva para descompressão/reconstrução quando diagnóstico confirmado.
      • Urgência se isquemia aguda, trombose ou síndrome compartimental iminente.
      • Ambulatorial apenas na investigação inicial de casos estáveis, sem perda de pulso persistente.
    • Seguimento: Reavaliação clínica e com Doppler em 4–6 semanas pós-operatório; retorno gradual ao esporte após liberação pelo cirurgião vascular.

    • Armadilhas de prova:
      • ITB normal em repouso não exclui doença arterial em atletas; é mandatória a prova funcional (pós-exercício).
      • Compressão dependente de manobra diferencia aprisionamento de doença cística da adventícia.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Síndrome do aprisionamento poplíteo.

    Alternativa correta. O quadro típico de atleta jovem com claudicação de esforço, ITB normal em repouso e reduzido após exercício, associado a Doppler dinâmico mostrando queda do pico sistólico/turbulência na artéria poplítea durante flexão plantar resistida no hiato do gastrocnêmio medial, é diagnóstico de compressão extrínseca compatível com síndrome do aprisionamento poplíteo. Conduta de escolha é descompressão cirúrgica com correção anatômica.

    ❌ A) Doença aterosclerótica femoropoplítea inicial.

    Alternativa incorreta. Doença aterosclerótica é rara em atleta de 28 anos sem fatores de risco, cursa com ITB baixo já em repouso e placas/estenoses ao Doppler. Aqui o Doppler é trifásico em repouso, com alteração apenas em manobra, sugerindo compressão dinâmica e não aterosclerose.

    ❌ C) Dissecção espontânea da artéria poplítea.

    Alternativa incorreta. Dissecção costuma manifestar-se com dor súbita e isquemia aguda ou dor atípica persistente, não claudicação previsível que regride em minutos com repouso. Exames funcionais demonstram compressão posicional, o que não é típico de dissecção.

    ❌ D) Doença cística da adventícia.

    Alternativa incorreta. Embora acometa frequentemente a artéria poplítea em homens jovens, o achado clássico é lesão cística na parede com estreitamento em scimitar sign ao Doppler/angio, causando compressão não dependente de manobra. No caso, a obstrução é dinâmica (flexão plantar) no hiato do gastrocnêmio medial, favorecendo aprisionamento.


    Take-home message

    • Em atleta jovem com claudicação, ITB normal em repouso e baixo pós-esforço + Doppler dinâmico alterado sugerem síndrome do aprisionamento poplíteo.
    • Padrão-ouro prático: angio-TC/angio-RM com manobras dinâmicas para confirmar o conflito anatômico e planejar a cirurgia.
    • Tratamento de escolha é descompressão cirúrgica ± reconstrução arterial se houver dano (estenose/aneurisma/trombose).
    • Aprisionamento poplíteo varia com a posição/manobra; doença cística da adventícia não é tipicamente posicional.
    • Red flag: não atribuir claudicação de atleta jovem à aterosclerose sem prova funcional e exame dinâmico.
    • ITB pós-exercício com queda >20% é critério objetivo de obstrução hemodinamicamente significativa em esforço.

    Questão 76DISTÚRBIOS HIDROELETROLÍTICOS - Disnatremias

    Pacientes politraumatizados em choque hemorrágico podem necessitar de um grande volume de transfusões num curto período. Como resultado, pode haver o acúmulo de substâncias presentes em cada bolsa que alterem a homeostasia do paciente. As alterações decorrentes do acúmulo de citrato presente nas hemotransfusões podem acarretar:

    • A)

      hipernatremia e acidose metabólica

    • B)

      hipercalcemia e arritmias cardíacas

    • C)

      hipocalcemia e distúrbios da coagulação

    • D)

      hipermagnesemia e bradicardia acentuada

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Citrato é anticoagulante presente nos hemocomponentes que quelata cálcio iônico. Em transfusão maciça/rápida, o acúmulo de citrato causa hipocalcemia e piora da coagulopatia.


    O que é: Toxicidade por citrato = excesso de citrato infundido + metabolismo hepático saturado → redução de cálcio iônico e magnésio iônico.


    Por que importa: Ca2+ iônico é cofator da cascata de coagulação (fator IV) e essencial para contratilidade miocárdica; sua queda leva a coagulopatia, hipotensão e arritmias.


    Como identificar: Politransfusão rápida (p.ex., >10 CH em 24 h ou >4 CH em 1 h) + sinais de hipocalcemia (QT longo, espasmo, hipotensão refratária). Confirmar com cálcio iônico sérico (alvo 1,1–1,3 mmol/L) e tromboelastometria/TPa/TTPa quando disponível.


    Mecanismo-chave: Citrato quelata Ca2+ e Mg2+ → hipocalcemia/hipomagnesemia; fígado metaboliza citrato a bicarbonato (pode gerar alcalose metabólica quando perfusão restabelece), mas no choque com baixo débito hepático há acúmulo.


    Conduta & Posologia

    • Antídoto funcional (reposição de cálcio): Gluconato de cálcio 10% 1–2 g IV (lentamente, 10–20 min) a cada 4–6 bolsas de CH ou guiado por cálcio iônico; alternativamente Cloreto de cálcio 10% 1 g IV (via acesso central) quando necessidade rápida/intensa.
    • Monitorização: Dosar cálcio iônico a cada 30–60 min durante transfusão maciça; acompanhar ECG (QTc), PA, tromboelastometria quando disponível.
    • Ajustes e precauções: Em disfunção hepática grave, o risco de toxicidade por citrato é maior → usar doses menores em intervalos mais curtos, guiado por Ca2+ iônico. Em DRC, atenção para hipercalcemia tardia; manter alvo 1,1–1,3 mmol/L.
    • Via de administração: Cloreto de cálcio preferir via central (vesicante). Gluconato de cálcio pode ser periférico lento.
    • Interações e cuidados de linha:
    • Não infundir na mesma via da hemotransfusão (risco de coagulação no equipo).
    • Não misturar com bicarbonato/fosfato na mesma linha.

    • Efeitos adversos relevantes: Extravasamento (necrose) com cloreto de cálcio, bradicardia/arrítmias se infusão rápida, hipercalcemia se excesso.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Politrauma em choque/necessidade de protocolo de transfusão maciça = UTI.
    • Reavaliar a cada ciclo de 30–60 min com metas: PAM ≥65 mmHg, Ca2+ iônico 1,1–1,3 mmol/L, fibrinogênio ≥150–200 mg/dL, plaquetas ≥50–100 mil/mm³.

    • Complementos da hemostasia: Aplicar pacote de MTP (p.ex., CH:plasma:plaquetas ~1:1:1), ácido tranexâmico precoce quando indicado, aquecimento ativo para evitar coagulopatia por hipotermia.

    Discussão das alternativas:

    ❌ A) hipernatremia e acidose metabólica

    Alternativa incorreta. O citrato não causa hipernatremia clinicamente relevante. Seu metabolismo hepático gera bicarbonato, favorecendo alcalose após reperfusão; acidose no choque decorre da hipoperfusão/lactato, não do citrato.

    ❌ B) hipercalcemia e arritmias cardíacas

    Alternativa incorreta. O efeito primário é hipocalcemia por quelagem. Arritmias podem ocorrer, mas por baixa de Ca2+, não por hipercalcemia.

    ✅ C) hipocalcemia e distúrbios da coagulação

    Alternativa correta. O citrato quelata Ca2+ iônico, reduzindo a atividade da cascata de coagulação (fator IV) e predispondo a sangramento; a hipocalcemia também compromete contratilidade e estabilidade elétrica miocárdica. Correção com 1–2 g de gluconato de cálcio IV ou 1 g de cloreto de cálcio IV guiado por cálcio iônico.

    ❌ D) hipermagnesemia e bradicardia acentuada

    Alternativa incorreta. O citrato também pode quelar magnésio, levando mais a hipomagnesemia, não hiper. Bradicardia pode ocorrer por hipocalcemia/hipermagnesemia iatrogênica, mas não é o padrão do acúmulo de citrato.


    Take-home message

    • Transfusão maciça pode causar toxicidade por citrato → hipocalcemia e coagulopatia.
    • Monitore cálcio iônico (alvo 1,1–1,3 mmol/L) e ECG (QTc) durante protocolo de hemorragia maciça.
    • Reposição: Gluconato de cálcio 1–2 g IV (periférico) ou Cloreto de cálcio 1 g IV (central), repetir conforme Ca2+ iônico.
    • Cuidado: não infundir cálcio na mesma via da sangue e evitar mistura com bicarbonato/fosfato.
    • Considere também hipomagnesemia na transfusão maciça; repor se baixo ou QTc prolongado.

    Questão 77Cirurgia Bariátrica e Metabólica

    Homem de 53 anos está interessado em fazer cirurgia bariátrica. Relata que consegue perder peso ao seguir uma dieta estruturada e uma rotina de atividade física, mas recupera peso quando não segue o plano de forma consistente. Ele se descreve como um comedor emocional. Várias vezes por mês, ele se envolve em uma “compulsão alimentar”, quando come grandes quantidades de comida. Refere que não tem controle sobre sua ingestão alimentar durante esses episódios e se sente culpado depois, mas não falou sobre esses episódios com ninguém e teme que o ganho de peso contínuo possa afetar negativamente sua saúde. Ao exame físico: pressão arterial: 142 x 82 mmHg; frequência cardíaca: 70 bpm; altura: 161,3 cm; peso: 106,1 kg; não há edema periférico; a circunferência abdominal é aumentada, com extremidades relativamente magras; ausência de gordura dorsocervical. Medicamentos em uso: lisinopril (20 mg/ dia); atorvastatina (20 mg/ dia); mirtazapina (45 mg ao deitar para insônia); omeprazol (20 mg/dia). Além de uma avaliação psicológica, o próximo passo de escolha é

    • A)

      encaminhar para bypass gástrico em Y de Roux.

    • B)

      encaminhar para gastrectomia vertical.

    • C)

      iniciar bupropiona.

    • D)

      iniciar lisdexanfetamina.

    • E)

      suspender a mirtazapina.

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Antes de indicar cirurgia bariátrica em paciente com índice de massa corporal ≥40 kg/m², é obrigatório excluir/otimizar causas iatrogênicas de ganho ponderal e tratar transtornos psiquiátricos ativos (ex.: transtorno de compulsão alimentar). Antidepressivos com potencial de ganho de peso (ex.: mirtazapina) devem ser revistos como primeiro passo.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Obesidade no Brasil: Prevalência crescente; indicação cirúrgica pelo SUS exige critérios clínicos e avaliação multiprofissional prévia.
    • Fármacos que favorecem ganho de peso: Mirtazapina (aumento de apetite e lipogênese), antipsicóticos, insulina, corticoides. Revisão medicamentosa é pilar do manejo.
    • Transtorno de compulsão alimentar (TCEAP): Episódios recorrentes de ingestão de grande quantidade de alimento com perda de controle e culpa subsequente, sem comportamentos compensatórios regulares.

    Diagnóstico

    • Obesidade: Índice de massa corporal = 106,1/(1,613²) ≈ 40,8 kg/m² (classe III). Circunferência abdominal aumentada indica adiposidade central.
    • TCEAP (definição operacional): Episódios de compulsão ≥1 vez/semana por ≥3 meses, com perda de controle e sofrimento, sem purgação regular (critério usado em diretrizes psiquiátricas nacionais).
    • Cirurgia bariátrica (pré-requisitos): Índice de massa corporal ≥40 kg/m² ou ≥35 kg/m² com comorbidades, após tentativa de tratamento clínico e avaliação psicológica/psiquiátrica. Transtornos alimentares devem ser identificados e manejados antes da cirurgia.

    Conduta & Posologia

    • Passo imediato (neste caso): Descontinuar mirtazapina por ganho ponderal/apetite. Sugestão de retirada: reduzir em passos de 15 mg a cada 1–2 semanas para minimizar sintomas de descontinuação, com monitoramento de humor/insônia.
    • Alternativas com menor impacto no peso (se houver necessidade antidepressiva): - Sertralina (neutra a ligeiro ganho no longo prazo): 50–200 mg/dia VO. Efeitos: disfunção sexual, náuseas.
      - Bupropiona (pode favorecer perda de peso, não é tratamento do TCEAP): iniciar 150 mg VO pela manhã, podendo aumentar para 300 mg/dia. Contraindicado em história de convulsão e anorexia/bulimia nervosa.
    • Lisdexanfetamina (tratamento específico do TCEAP moderado-grave; não é o próximo passo aqui antes de rever a causa iatrogênica): iniciar 30 mg VO pela manhã, titular em passos de 20 mg/sem até 50–70 mg/dia. Efeitos: insônia, xerostomia, aumento de pressão arterial e frequência cardíaca. Contraindicado com inibidores da monoamina oxidase, hipertensão não controlada, cardiopatia estrutural.
    • Critérios de internação vs ambulatorial: Manejo é ambulatorial. Internar apenas se risco agudo (ideação suicida, descompensação clínica grave, complicações metabólicas).
    • Próximos passos estruturados: Avaliação psicológica/psiquiátrica, terapia cognitivo-comportamental para TCEAP, educação alimentar, otimização anti-hipertensiva; só então reavaliar elegibilidade à cirurgia.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) encaminhar para bypass gástrico em Y de Roux.

    Alternativa incorreta. Apesar do índice de massa corporal ≈40,8 kg/m² permitir indicação, a etapa anterior é otimizar tratamento clínico, revisar fármacos que causam ganho ponderal (mirtazapina) e tratar TCEAP. Cirurgia sem manejo do transtorno alimentar aumenta risco de insucesso pós-operatório.

    ❌ B) encaminhar para gastrectomia vertical.

    Alternativa incorreta. Mesma justificativa da alternativa A. A escolha do tipo de técnica só ocorre após completar avaliação multiprofissional e otimização clínica.

    ❌ C) iniciar bupropiona.

    Alternativa incorreta. Embora seja antidepressivo com perfil de peso favorável, o primeiro passo racional é retirar o agente iatrogênico (mirtazapina). Além disso, bupropiona não é tratamento específico do TCEAP e tem contraindicação em transtornos alimentares como bulimia/anorexia e em casos de risco convulsivo.

    ❌ D) iniciar lisdexanfetamina.

    Alternativa incorreta. Lisdexanfetamina trata TCEAP moderado-grave, porém não é o próximo passo antes de corrigir a causa iatrogênica de ganho de peso. Além disso, o paciente tem hipertensão (142/82 mmHg), e o fármaco pode elevar pressão arterial e frequência cardíaca, exigindo cautela.

    ✅ E) suspender a mirtazapina.

    Alternativa correta. Mirtazapina está fortemente associada a aumento de apetite e ganho ponderal. Em candidato à cirurgia com TCEAP, a revisão medicamentosa é etapa mandatória pré-cirúrgica. Recomenda-se retirada gradual e substituição por agente com menor impacto ponderal, associada à psicoterapia para TCEAP.


    Take-home message

    • Antes da bariátrica, trate causas iatrogênicas de ganho de peso e transtornos alimentares (passo obrigatório nas diretrizes nacionais).
    • Mirtazapina aumenta apetite/peso; retire gradualmente (ex.: -15 mg a cada 1–2 semanas) e substitua por alternativa neutra em peso, se necessário.
    • Lisdexanfetamina é opção específica para TCEAP moderado-grave, mas só após corrigir iatrogenia e com controle pressórico.
    • Red flag: Evite indicar bariátrica sem manejo prévio do TCEAP—risco de maus resultados e recidiva.
    • Bupropiona pode ajudar no peso, mas é contraindicada em bulimia/anorexia e não trata diretamente o TCEAP.
    • Conduta principal: revisão medicamentosa, psicoterapia (terapia cognitivo-comportamental), ajuste de comorbidades e só então reavaliar cirurgia.

    Questão 78Queimaduras e Trauma elétrico

    Uma mulher de 35 anos foi socorrida pelo resgate após incêndio no seu local de trabalho. A paciente trabalhava em um ambiente pequeno e fechado e foi retirada do local, agitada e confusa, após vinte minutos do início do incêndio. Sinais vitais no local: pressão arterial de 120 x 70 mmHg, frequência cardíaca de 95 bpm, frequência respiratória de 22 ipm, saturação de O₂ de 96% em ar ambiente. Chega ao serviço de emergência em prancha rígida, com colar cervical e máscara de O₂ com fluxo de 12 L/min. Queixa-se de dor em face e tórax. Respiração sem ruídos. Queimadura de face e região anterior e superior do tórax não circunferencial, saturação de O₂ de 98%. Escala de coma de Glasgow: AO 4 RV 5 RM 6. Diante desse quadro, assinale a alternativa que descreve corretamente alteração(ões) do exame físico que é(são) indício(s) de gravidade e, respectivamente, a conduta prioritária no atendimento.

    • A)

      Cílios e vibrissas queimadas; a intubação orotraqueal é indicada.

    • B)

      Escarro carbonáceo; a aspiração da orofaringe é necessária.

    • C)

      Rouquidão ao falar; a utilização de spray de lidocaína trata essa condição.

    • D)

      Fuligem em cavidade oral; a remoção mecânica reduz a inflamação local.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Incêndio em ambiente fechado + queimadura de face = alto risco de lesão inalatória (lesão térmica e por toxinas em via aérea) e de intoxicações por CO e cianeto. A prioridade é via aérea definitiva precoce antes do edema.


    O que é: Lesão inalatória é a injúria da via aérea superior/inferior e parênquima pulmonar por calor, fumaça e gases tóxicos (CO, cianeto). Importa porque evolui rapidamente com edema de via aérea e hipóxia por deslocamento de O₂ da hemoglobina e por bloqueio da cadeia respiratória.


    Como identificar (padrões de prova): - Incêndio em espaço fechado; fuligem em cavidade oral; escarro carbonáceo; cílios/vibrissas chamuscados; rouquidão, estridor, tosse, queimadura de face/pescoço; rebaixamento do sensório; lactato elevado (>10 mmol/L sugere cianeto); COHb elevada.


    Aplicação prática: Não espere dessaturar. A oximetria é falsa normal em CO. Se múltiplos sinais de via aérea + incêndio fechado, intubação orotraqueal precoce é a conduta prioritária.


    Conduta & Posologia

    • Oxigenação imediata: O₂ a 100% (reservatório) ou via IOT, até COHb < 5% (gestantes < 3%). A meia-vida do CO com O₂ a 100% cai para ~60–90 min.

    • Via aérea definitiva (prioridade): Intubação orotraqueal precoce diante de: queimadura de face/pescoço, cílios/vibrissas chamuscados, fuligem orofaríngea, rouquidão/estridor, exposição em ambiente fechado, rebaixamento de consciência, necessidade de transferência prolongada.

    • Suspeita de cianeto (fumaça + rebaixamento/síncope, convulsão, lactato > 10 mmol/L): Hidroxocobalamina 5 g IV em 15 min; repetir 5 g IV (total 10 g) se refratário. Ajuste: sem ajuste formal em DRC/idoso; usar com cautela em gestação se benefício > risco.

    • Analgesia inicial: Fentanil 0,5–1 mcg/kg IV a cada 5–10 min até controle da dor, monitorizando FR/PA; ou morfina 0,05–0,1 mg/kg IV.

    • HBO (oxigênio hiperbárico): Considerar em COHb >25% (ou >15% gestantes), perda de consciência, sinais neurológicos focais, arritmia/isquemia. Disponibilidade limitada; não atrasar medidas básicas.

    • Contraindicações/alertas: Não atrasar IOT por aparência de saturação normal. Hidroxocobalamina: evitar se hipersensibilidade. Efeitos: rubor, hipertensão transitória, cromaturia vermelha, interferência em laboratoriais e hemodiálise por coloração do dialisato.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se: qualquer suspeita de lesão inalatória, queimadura de face, necessidade de O₂ suplementar, COHb elevada, queimaduras >10% SCQ adulto, comorbidades, dor não controlada. UTI se: necessidade de via aérea definitiva/ventilação, estridor, rebaixamento, lactato elevado persistente, instabilidade hemodinâmica, %SCQ extensa, queimaduras circunferenciais de tórax/pescoço.

    • Monitorização e reavaliação: COHb (gasometria com co-oximetria) seriada a cada 1–2 h até normalizar; gasometria arterial, lactato; broncoscopia diagnóstica conforme disponibilidade; reavaliar edema de via aérea a cada 15–30 min na fase inicial.

    Mini-exemplo: Vítima de incêndio em quarto fechado, com cílios chamuscados e rouquidão, SpO₂ 98%: a conduta é IOT precoce + O₂ 100%, não nebulizar anestésico.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Cílios e vibrissas queimadas; a intubação orotraqueal é indicada.

    Alternativa correta. Cílios/vibrissas chamuscados em incêndio fechado indicam exposição térmica e fumaça na via aérea. O risco de edema progressivo e obstrução recomenda IOT precoce antes que a intubação se torne impossível. Oximetria normal não afasta gravidade (CO eleva SpO₂ falsamente).

    ❌ B) Escarro carbonáceo; a aspiração da orofaringe é necessária.

    Alternativa incorreta. Escarro carbonáceo é sinal de lesão inalatória inferior, mas a prioridade é via aérea definitiva e O₂ 100%. Aspiração isolada não muda desfecho e não substitui IOT/broncoscopia quando indicada.

    ❌ C) Rouquidão ao falar; a utilização de spray de lidocaína trata essa condição.

    Alternativa incorreta. Rouquidão sugere edema/lesão laríngea. Spray de lidocaína não trata edema térmico e pode atrasar a IOT. Conduta: IOT precoce + O₂ 100%.

    ❌ D) Fuligem em cavidade oral; a remoção mecânica reduz a inflamação local.

    Alternativa incorreta. Fuligem orofaríngea é marcador de inalação de fumaça; remoção mecânica não reduz inflamação. Prioridade: via aérea definitiva, O₂ 100%, investigação de CO/cianeto.


    Mensagem para levar para casa:

    • Incêndio em ambiente fechado + queimadura de face/cílios chamuscados = alto risco de lesão inalatória; IOT precoce é a conduta que salva via aérea.
    • SpO₂ pode ser normal na intoxicação por CO; trate com O₂ 100% até COHb normalizar.
    • Sinais de gravidade de via aérea: fuligem oral, escarro carbonáceo, rouquidão/estridor, vibrissas chamuscadas, rebaixamento do sensório.
    • Suspeita de cianeto (lactato > 10, coma/convulsão): hidroxocobalamina 5–10 g IV.
    • Não atrasar IOT por oximetria aparentemente normal ou por medidas locais (aspiração/lidocaína).



    Questão 78Icterícia neonatal

    Lactente de 40 dias é encaminhado para hospital terciário devido a icterícia colestática persistente e acolia fecal. Realiza os seguintes exames de imagem: US: ausência de vesícula biliar, presença de triângulo fibroso. Colangiorressonância: ausência de ductos biliares extra-hepáticos. De acordo com o diagnóstico em questão, assinale a alternativa que indique a melhor conduta a ser adotada e o fator determinante para o prognóstico:

    • A)

      Conduta expectante, pois o quadro pode ter resolução espontânea em até 4 meses.

    • B)

      Iniciar uso de ácido ursodesoxicólico e banho se sol, com reavaliação após os 2 meses.

    • C)

      Indicar hepatoportoenterostomia (Cirurgia de Kasai), com tempo ideal para a cirurgia de até 2 meses.

    • D)

      Indicar transplante hepático, uma vez que a hepatoportoenterostomia deve ser realizada até 1 mês de vida.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de prova: Icterícia colestática nas primeiras semanas de vida + fezes acólicas + ultrassonografia com "cordão triangular" e ausência de vesícula biliar = forte suspeita de atresia biliar. O desfecho depende do tempo até a hepatoportoenterostomia (Kasai), idealmente até 60 dias de vida.


    Epidemiologia e Etiologia

    • O que é: Atresia biliar é colangiopatia fibro-obliterativa dos ductos biliares extra-hepáticos, levando à obstrução biliar progressiva no período neonatal.
    • Por que importa: É a principal causa de colestase cirúrgica e a indicação mais comum de transplante hepático pediátrico.
    • Brasil: Incidência estimada semelhante a séries internacionais (~1:8.000–1:18.000 nascidos vivos). Apresenta-se tipicamente entre 2–6 semanas com icterícia colestática e acolia/hipocolia.

    Diagnóstico

    • Definição operacional: Lactente com bilirrubina direta elevada (≥1,0 mg/dL se BT <5 mg/dL ou ≥20% da BT se BT ≥5 mg/dL) + fezes acólicas/hipocólicas persistentes.
    • Imagem (padrões típicos): Ultrassonografia com triângulo fibroso (sinal do cordão triangular) e vesícula ausente ou atrófica. Colangiorressonância mostrando ausência de ductos extra-hepáticos reforça o diagnóstico.
    • Padrão-ouro prático: Colangiografia intraoperatória (com confirmação histológica por biópsia hepática) quando a suspeita é alta, seguida do procedimento de Kasai na mesma anestesia.
    • Laboratório de suporte: Gama-glutamiltransferase elevada, enzimas canaliculares aumentadas; excluir causas infecciosas/metabólicas auto-limitadas.

    Conduta & Posologia 

    • Conduta de primeira linha: Hepatoportoenterostomia (Cirurgia de Kasai) o mais precocemente possível. Ponto crítico: melhor prognóstico se realizada até 60 dias de vida; após 90 dias, queda acentuada da taxa de clearance da icterícia.
    • Técnica (resumo): Ressecção das vias biliares fibrosadas no hilo hepático até a placa portal e confecção de alça de Roux-en-Y para drenagem biliar.

    • Prognóstico — fator determinante: Idade na cirurgia (quanto mais precoce, melhor) e clearance da icterícia até 3 meses pós-Kasai são os principais preditores de sobrevida nativa do fígado.

    • Adjuvância (pós-operatório, quando indicado pelo especialista): suporte nutricional hiperenergético; vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K); ácido ursodesoxicólico pode ser empregado como colerético adjuvante a critério do especialista; profilaxia de colangite conforme protocolo do serviço.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Suspeita de atresia biliar deve ser sempre referenciada e manejada em nível hospitalar terciário para confirmação diagnóstica e Kasai precoce. UTI conforme gravidade hepática, colangite, coagulopatia ou descompensação clínica.

    Armadilha de prova: "Esperar até 2–4 meses" ou tratar apenas com ácido ursodesoxicólico atrasa o Kasai e piora irreversivelmente o prognóstico.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Indicar hepatoportoenterostomia (Cirurgia de Kasai), com tempo ideal para a cirurgia de até 2 meses.

    Alternativa correta. Diante de sinais de atresia biliar (vesícula ausente, sinal do cordão triangular na ultrassonografia, ausência de ductos extra-hepáticos na colangiorressonância), a conduta é Kasai precoce. O principal determinante prognóstico é a idade na cirurgia (ideal ≤60 dias) e a obtenção de clearance da icterícia nos meses subsequentes.


    ❌ A) Conduta expectante, pois o quadro pode ter resolução espontânea em até 4 meses.

    Alternativa incorreta. Atresia biliar não se resolve espontaneamente; a progressão leva à cirrose. Aguardar 4 meses retarda o Kasai e reduz chance de drenagem biliar efetiva.


    ❌ B) Iniciar uso de ácido ursodesoxicólico e banho se sol, com reavaliação após os 2 meses.

    Alternativa incorreta. Ácido ursodesoxicólico pode ser adjuvante em colestase, mas não corrige obstrução mecânica da atresia biliar. Fototerapia/banho de sol não tem papel na colestase obstrutiva. A conduta adequada é referência imediata para Kasai.


    ❌ D) Indicar transplante hepático, uma vez que a hepatoportoenterostomia deve ser realizada até 1 mês de vida.

    Alternativa incorreta. O transplante hepático é indicado quando há falha do Kasai, cirrose descompensada ou colangite recorrente refratária. O tempo ideal para o Kasai é até 2 meses (≈60 dias), não apenas até 1 mês. Diante de 40 dias, a primeira conduta é o Kasai, não o transplante primário.


    Take-home message

    • Icterícia colestática + acolia nas primeiras semanas exige investigação imediata para atresia biliar.
    • Ultrassonografia com sinal do cordão triangular e vesícula ausente/atrófica são achados característicos; confirmação com colangiografia intraoperatória.
    • Conduta principal: Hepatoportoenterostomia (Kasai) idealmente até 60 dias de vida.
    • Fator prognóstico chave: idade na cirurgia e clearance da icterícia em até 3 meses pós-operatório.
    • Red flag: Não aguardar resolução espontânea e não tratar apenas com coleréticos/fototerapia.
    • Encaminhamento terciário imediato para confirmar diagnóstico e operar no mesmo tempo da colangiografia quando indicado.

    Questão 79HEMORRAGIA DIGESTIVA ALTA - Varicosa

    Assinale a alternativa que apresenta algumas vantagens e desvantagens no uso do balão de Sengstaken‑Blakemore no tamponamento de varizes esofágicas sangrantes.

    • A)

      Vantagens: uso prolongado em pacientes com contraindicação para endoscopia e facilidade de uso; desvantagens: risco de ruptura esofágica e desconforto considerável para o paciente.

    • B)

      Vantagens: facilidade de uso, incluindo em ambiente domiciliar e cessação do sangramento em 50% dos casos; desvantagens: risco de ruptura esofágica e desconforto considerável para o paciente.

    • C)

      Vantagens: cessação do sangramento e baixa taxa de hemorragia recorrente; desvantagens: risco de ruptura esofágica e desconforto considerável para o paciente.

    • D)

      Vantagens: imediata cessação do sangramento em mais de 85% dos pacientes e a disponibilidade difundida desse dispositivo; desvantagens: hemorragia recorrente em até 50% dos pacientes e alta incidência de complicações graves quando usado incorretamente por profissional inexperiente.

    • E)

      Vantagens: cessação do sangramento em aproximadamente 40% dos pacientes e facilidade de uso; desvantagens: hemorragia recorrente em até 90% dos casos e desconforto considerável para o paciente.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Balão de Sengstaken‑Blakemore é método de ponte para controle imediato do sangramento varicoso quando falha/indisponibilidade da endoscopia, com alta taxa de controle inicial, porém grande recorrência e complicações graves se mal utilizado.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Hemorragia digestiva alta por varizes ocorre em 10–15%/ano nos cirróticos; mortalidade do episódio agudo ~15–20% em centros especializados.
    • Mecanismo: hipertensão portal com ruptura de varizes esofagogástricas; ressangramento precoce é comum sem controle definitivo.


    Diagnóstico


    • Definição operacional: Hematêmese/melena em paciente com cirrose/hipertensão portal, confirmada por endoscopia digestiva alta com varizes sangrantes.

    • Padrão-ouro: Endoscopia com identificação de ponto de sangramento varicoso e tratamento endoscópico (ligadura elástica preferencial).

    • Quando usar balão de Sengstaken‑Blakemore: Hemorragia contínua com instabilidade ou não responsiva a vasoativo + reposição, quando a endoscopia é indisponível, atrasada ou ineficaz. É ponte para nova endoscopia/TIPS/terapia definitiva.


    Conduta & Posologia (Dinâmico)


    • Medidas iniciais (todas as HDA varicosas): Reanimação hemodinâmica dirigida (alvo pressão arterial média ≥65 mmHg, hemoglobina ~7–8 g/dL), correção de coagulopatia se sangramento ativo importante.

    • Vasoativo de primeira linha: Terlipressina 2 mg IV em bolus, seguida de 1 mg IV a cada 4 horas (pode manter 2 mg 4/4h nas primeiras 24–48h em sangramento grave), por 2 a 5 dias. Ajustar/cessar se isquemia/hiponatremia significativa. Alternativas quando disponíveis: somatostatina 250 mcg IV bolus + 250–500 mcg/h IV contínua.

    • Profilaxia antibiótica: Ceftriaxona 1 g IV 1x/dia por 5–7 dias (reduz infecção e mortalidade). Em alergia grave a beta‑lactâmico: considerar quinolona se epidemiologia local permitir.

    • Endoscopia terapêutica: Realizar idealmente em até 12 horas. Ligadura elástica é técnica preferida para varizes esofágicas; cianoacrilato para gástricas.

    • Balão de Sengstaken‑Blakemore (ponte): Indicado em hemorragia incontrolável ou indisponibilidade de endoscopia.

      • Pré‑requisito: Proteção de via aérea (idealmente intubação orotraqueal), monitorização em UTI.

      • Técnica resumida: Confirmar posição gástrica; inflar balão gástrico com 250–300 mL de ar; tracionar e fixar (0,5–1 kg). Se persistir sangramento, inflar balão esofágico até 25–45 mmHg (alvo ~35–40 mmHg), com manometria.

      • Duração: Máximo 24 horas (ideal <12h) para reduzir risco de necrose/ruptura; desinsuflar periodicamente conforme protocolo do serviço.

      • Complicações principais: aspiração, obstrução de via aérea, necrose/ruptura esofágica, úlcera de pressão.
      • Nunca usar em ambiente domiciliar e nunca sem treinamento.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Todo sangramento varicoso é de internação; UTI se instabilidade hemodinâmica, necessidade de vasoativo, balão tamponante, encefalopatia moderada/grave ou alto risco (Child‑Pugh C, escore MELD elevado).


    Limitação de diretriz nacional: Na ausência de um protocolo nacional único e público detalhando técnica e parâmetros do balão, utilizam‑se consensos internacionais contemporâneos (Baveno VII) para técnica/segurança, mantendo princípios universais de manejo no SUS.


    Discussão das alternativas


    ✅ D) Vantagens: imediata cessação do sangramento em mais de 85% dos pacientes e a disponibilidade difundida desse dispositivo; desvantagens: hemorragia recorrente em até 50% dos pacientes e alta incidência de complicações graves quando usado incorretamente por profissional inexperiente.

    Alternativa correta. O balão controla o sangramento inicial em ~80–90% como medida de ponte, mas o ressangramento após desinsuflação pode chegar a ~50%. Dispositivo é disponível em centros de referência; uso requer equipe treinada devido ao risco de complicações severas (aspiração, necrose/ruptura).


    ❌ A) Vantagens: uso prolongado em pacientes com contraindicação para endoscopia e facilidade de uso; desvantagens: risco de ruptura esofágica e desconforto considerável para o paciente.

    Alternativa incorreta. Não é para uso prolongado (limite prático <24h) e não é de fácil uso; é técnica complexa, exigindo via aérea protegida e UTI. A justificativa de contraindicação à endoscopia como indicação principal é rara; o balão é ponte, não tratamento definitivo.


    ❌ B) Vantagens: facilidade de uso, incluindo em ambiente domiciliar e cessação do sangramento em 50% dos casos; desvantagens: risco de ruptura esofágica e desconforto considerável para o paciente.

    Alternativa incorreta. Jamais é utilizado em domicílio; exige monitorização contínua. A taxa de controle inicial é superior a 50% (tipicamente 80–90%).


    ❌ C) Vantagens: cessação do sangramento e baixa taxa de hemorragia recorrente; desvantagens: risco de ruptura esofágica e desconforto considerável para o paciente.

    Alternativa incorreta. A taxa de ressangramento após desinsuflação é alta (até ~50%), por isso o balão é exclusivamente uma medida temporária até terapia definitiva.


    ❌ E) Vantagens: cessação do sangramento em aproximadamente 40% dos pacientes e facilidade de uso; desvantagens: hemorragia recorrente em até 90% dos casos e desconforto considerável para o paciente.

    Alternativa incorreta. Subestima a eficácia inicial (não ~40%, e sim ~80–90%) e superestima o ressangramento (tipicamente <=50%). Além disso, não é de “facilidade” operacional; requer treinamento.


    Take-home message

    • Balão de Sengstaken‑Blakemore é ponte para controle imediato: controla 80–90% inicialmente, mas ressangra até ~50% após desinsuflação.
    • Usar em UTI, com via aérea protegida e equipe treinada; duração máxima recomendada < 24 h.
    • Vasoativo imediato: Terlipressina 2 mg IV bolus, depois 1 mg IV 4/4h por 2–5 dias; antibiótico: Ceftriaxona 1 g IV/dia por 5–7 dias.
    • Endoscopia terapêutica em até 12 h (ligadura elástica) é o tratamento definitivo inicial; considerar TIPS se falha precocemente.
    • Red flag: Não usar balão em ambiente domiciliar ou sem monitorização; risco de asfixia, aspiração e ruptura esofágica.
    • Reavaliar continuamente; planejar transição rápida para terapia definitiva para reduzir ressangramento e complicações.

    Questão 80Níveis de Prevenção

    A neoplasia de próstata é o câncer mais frequente no homem, quando não consideramos tumores de pele. No Brasil, devido estado atual de cobertura de detecção e assistência, cerca de um quarto dos pacientes vão morrer da doença. O rastreamento tem como objetivo identificar a doença em estágio localizado, o que está associado a taxas de cura superiores a 90%, contribuindo para modificar significativamente o atual panorama da condição. Para o rastreamento de câncer de próstata, assinale a alternativa correta:

    • A)

      Em indivíduos em grupo de alto risco, é recomendado iniciar aos 50 anos e ser realizado anualmente.

    • B)

      Indivíduos saudáveis e com mais de 10 anos de expectativa de vida podem repetir exames de rastreamento em 2-4 anos.

    • C)

      Ao encontrar valor baixo de PSA em indivíduos com mais de 50 anos, há necessidade de associar o toque retal para exclusão de câncer de próstata.

    • D)

      Familiares de portadores de polipose adenomatosa familiar são pacientes em alto risco para câncer de próstata.

    • E)

      Diferente do câncer de bexiga, o câncer de próstata não tem relação com tabagismo.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Rastreamento de câncer de próstata no Brasil é decisão compartilhada; SBU recomenda PSA ± toque retal conforme risco; INCA não recomenda rastreamento populacional. Expectativa de vida >10 anos é requisito básico.


    O que é: Rastreamento = aplicação de PSA (antígeno prostático específico) com/sem toque retal (TR) em homens assintomáticos para detectar doença localizada.

    Por que importa: Doença localizada tem taxa de cura >90%; porém, há sobrediagnóstico e sobretratamento. Balancear benefícios e danos.

    Como identificar (quem rastrear): - Risco habitual: iniciar por volta de 50 anos, se expectativa de vida >10 anos, com periodicidade a depender do PSA basal (SBU). - Alto risco: homens negros e/ou com história familiar de 1º grau de câncer de próstata antes de 60 anos ou ≥2 parentes afetados; iniciar aos 45 anos (SBU). - Não realizar rastreamento se expectativa de vida <10 anos, fragilidade importante ou sem decisão informada (INCA).

    Como manejar (fluxo simplificado): - PSA baixo (ex.: <1 ng/mL aos 50 anos): baixo risco; repetir em 2–4 anos. - PSA intermediário-elevado (ex.: ≥2,5–3 ng/mL) ou TR alterado: repetir PSA, ajustar por idade, considerar densidade/velocidade do PSA, ressonância multiparamétrica e, se indicado, biópsia guiada. - Decisão sempre compartilhada, explicando benefícios/risco de sobrediagnóstico.


    Conduta & Posologia

    • Exame(s) de rastreamento de 1ª linha: PSA sérico; TR é complementar (aumenta detecção de tumores de base posterior), mas pode ser omitido se PSA muito baixo e paciente recusar.
    • Intervalos (SBU): Risco habitual: PSA basal <1 ng/mL aos 50 anos → repetir em 2–4 anos; PSA 1–3 ng/mL → anual a bienal. Alto risco: iniciar aos 45 anos, em geral anual, podendo individualizar.
    • Critérios para indicar rastreamento: Homem assintomático, informado, com expectativa de vida >10 anos.
    • Contraindicações: Expectativa de vida <10 anos, fragilidade significativa, ou quando não há decisão informada (INCA).
    • Efeitos adversos potenciais do rastreamento: Ansiedade, biópsias desnecessárias (sangramento, infecção), sobrediagnóstico, sobretratamento (disfunção erétil/incontinência após terapias).
    • Ajustes e situações especiais: Uso de inibidores de 5α-redutase (finasterida/dutasterida) reduz PSA ~50% após ≥6 meses; dobrar o valor para interpretar. Prostatite/infecção urinária podem elevar PSA (repetir 6–8 semanas após resolução).
    • Critérios de referência/encaminhamento: PSA persistentemente elevado para idade, TR suspeito, ou PSA em elevação rápida; considerar ressonância multiparamétrica pré-biópsia.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Não aplicável ao rastreamento. Internação apenas para complicações sépticas pós-biópsia (raro).
    • Tempo de reavaliação: Conforme PSA basal (2–4 anos se muito baixo; anual-bienal se intermediário). Após resultado alterado, reavaliar em 6–8 semanas ou conforme especialista.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Indivíduos saudáveis e com mais de 10 anos de expectativa de vida podem repetir exames de rastreamento em 2-4 anos.

    Alternativa correta. Em risco habitual com PSA basal baixo (especialmente <1 ng/mL por volta dos 50 anos), a SBU admite intervalo de 2–4 anos. Pré-requisito: expectativa de vida >10 anos e decisão informada. Corresponde ao manejo baseado no risco do PSA basal.

    ❌ A) Em indivíduos em grupo de alto risco, é recomendado iniciar aos 50 anos e ser realizado anualmente.

    Alternativa incorreta. Alto risco (negros, história familiar significativa) deve iniciar aos 45 anos (SBU), não aos 50. A periodicidade costuma ser anual, mas a idade inicial está errada.

    ❌ C) Ao encontrar valor baixo de PSA em indivíduos com mais de 50 anos, há necessidade de associar o toque retal para exclusão de câncer de próstata.

    Alternativa incorreta. PSA baixo implica risco muito reduzido; o TR é opcional e não “exclui” câncer. Em PSA muito baixo, pode-se estender o intervalo para 2–4 anos sem TR obrigatório.

    ❌ D) Familiares de portadores de polipose adenomatosa familiar são pacientes em alto risco para câncer de próstata.

    Alternativa incorreta. Alto risco clássico: raça negra e história familiar de câncer de próstata (1º grau <60 anos ou múltiplos parentes). Polipose adenomatosa familiar (APC) se associa principalmente a câncer colorretal, não sendo marcador de alto risco para próstata.

    ❌ E) Diferente do câncer de bexiga, o câncer de próstata não tem relação com tabagismo.

    Alternativa incorreta. Embora o tabagismo não seja fator de risco principal para incidência, há associação com pior prognóstico (maior mortalidade/recorrência) em câncer de próstata. Logo, dizer que “não tem relação” é falso.


    Take-home message

    • Rastreamento: decisão compartilhada. Exigir expectativa de vida >10 anos e informação adequada.
    • SBU: risco habitual inicia ~50 anos; alto risco (negros/forte história familiar) aos 45 anos.
    • PSA basal baixo (<1 ng/mL) permite intervalos de 2–4 anos; PSA 1–3 ng/mL: anual-bienal.
    • Red flag: não rastrear se expectativa de vida <10 anos ou sem decisão informada (INCA).
    • TR é complementar; não “exclui” câncer. Ressonância multiparamétrica ajuda a orientar biópsia quando indicada.
    • Atenção a fármacos que reduzem PSA (finasterida/dutasterida): dobrar valor para interpretação após ≥6 meses de uso.

    Questão 81Diabetes

    Homem de 45 anos, com diagnóstico recente de diabetes mellitus tipo 2, refere história familiar positiva para doença renal crônica dialítica na família (pais e irmãos, também diabéticos). Encontra-se assintomático e sem alterações no exame físico. Exames laboratoriais: creatinina 0,6 mg/dl (TFG estimada 141 ml/min/1,73 cm2) e ultrassonografia com discreto aumento de dimensões de ambos os rins. Entre os exames abaixo, o mais importante no momento é

    • A)

      urina rotina.

    • B)

      relação albumina/creatinina urinária.

    • C)

      proteinúria de 24 horas.

    • D)

      dismorfismo eritrocitário.

    • E)

      biópsia renal.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Em diabetes mellitus tipo 2, o rastreio imediato de doença renal do diabetes deve ser feito com relação albumina/creatinina urinária na amostra isolada (primeira urina da manhã). É o exame de escolha para detecção precoce de albuminúria e estratificação de risco renal e cardiovascular.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Contexto brasileiro: Doença renal do diabetes é a principal causa de doença renal crônica em diálise no Brasil. Risco aumentado com história familiar positiva e tempo de doença.
    • Fisiopatologia (essencial para prova): Hiperglicemia crônica leva a hiperfiltração glomerular, lesão endotelial e aumento progressivo de excreção de albumina, que precede declínio da taxa de filtração glomerular.

    Diagnóstico

    • Exame de escolha para rastreio em DM2: Relação albumina/creatinina urinária (RAC) em amostra isolada, preferencialmente a primeira urina da manhã.
    • Classificação (KDIGO/SBD; termos usuais no Brasil): A1: <30 mg/g (normal); A2: 30–300 mg/g (albuminúria moderada, “micro”); A3: >300 mg/g (albuminúria acentuada, “macro”).
    • Confirmação: Necessário 2 de 3 exames alterados em 3 a 6 meses, excluindo causas transitórias (febre, exercício extenuante, infecção urinária).
    • Por que não urina tipo 1/dipstick? Baixa sensibilidade para A2; detecta proteinúria mais alta e não quantifica albumina com acurácia.
    • Por que não proteinúria de 24h? Mais trabalhosa e sujeita a erro de coleta; não é necessária para rastreio inicial.

    Conduta & Posologia

    • Próximo passo (propedêutica): Solicitar RAC na primeira urina da manhã. Se A2/A3, repetir para confirmar (2/3 amostras em 3–6 meses).
    • Estratificação de risco: Combinar RAC (A1–A3) com TFG estimada (G1–G5) para definir risco e frequência de seguimento.
    • Medidas iniciais se albuminúria confirmada: Otimizar controle glicêmico (meta individualizada), controlar pressão arterial (alvo habitual ≤130/80 mmHg se albuminúria), e usar bloqueador do sistema renina-angiotensina (inibidor da enzima conversora de angiotensina ou bloqueador do receptor de angiotensina) em diabético hipertenso com albuminúria. Considerar inibidor de cotransportador sódio-glicose 2 na presença de albuminúria e TFG adequada, conforme diretriz.
    • Encaminhamento à Nefrologia: A3, declínio rápido de TFG, hematúria glomerular persistente, hipertensão refratária ou dúvida diagnóstica.

    • Armadilha de prova: Biópsia renal NÃO é indicada para rastreio em diabético assintomático com TFG normal e sem sinais atípicos (síndrome nefrótica abrupta, hematúria dismórfica importante, queda rápida de TFG).


    Discussão das alternativas

    ✅ B) relação albumina/creatinina urinária.

    Alternativa correta. Exame de escolha para rastreio imediato em diabetes mellitus tipo 2, quantifica albumina ajustada pela creatinina em amostra isolada, detecta precocemente A2/A3 e orienta estratificação e conduta. Deve ser confirmada em 2 de 3 coletas.

    ❌ A) urina rotina.

    Alternativa incorreta. A urina tipo 1/dipstick tem baixa sensibilidade para albuminúria moderada, não quantifica albumina com precisão e pode ser negativa na fase inicial de doença renal do diabetes. O exame de escolha é a RAC.

    ❌ C) proteinúria de 24 horas.

    Alternativa incorreta. Não é método de rastreio inicial. É trabalhosa, sujeita a erros de coleta e não oferece vantagem sobre a RAC para detecção precoce. Reserva-se a casos específicos quando a quantificação for imprescindível e houver dúvida.

    ❌ D) dismorfismo eritrocitário.

    Alternativa incorreta. Avalia origem glomerular de hematúria, indicada quando há hematúria suspeita. No caso, paciente assintomático, sem hematúria descrita. Não é exame de rastreio de doença renal do diabetes.

    ❌ E) biópsia renal.

    Alternativa incorreta. Não se indica biópsia para rastreio em diabético com TFG normal e sem sinais atípicos. Indicação típica: quadro não compatível com nefropatia diabética (hematúria glomerular significativa, síndrome nefrótica abrupta, queda rápida de TFG, doença sistêmica suspeita).


    Take-home message

    • Em diabetes mellitus tipo 2, o rastreio de doença renal deve começar no diagnóstico com a relação albumina/creatinina urinária (amostra isolada).
    • Classifique albuminúria: A1 <30 mg/g; A2 30–300 mg/g; A3 >300 mg/g. Confirme com 2 de 3 amostras em 3–6 meses.
    • Urina tipo 1 não substitui a RAC no rastreio precoce (baixa sensibilidade para A2).
    • Proteinúria de 24 horas não é necessária para rastrear; use quando houver necessidade específica de quantificação.
    • Red flag: não indicar biópsia renal em diabético assintomático com TFG normal e sem sinais atípicos.
    • Se albuminúria confirmada, otimize glicemia e pressão; usar bloqueador do sistema renina-angiotensina em hipertensos com albuminúria e considerar terapia nefroprotetora conforme diretrizes.

    Questão 81Doença de Wilson

    Um jovem de 20 anos foi admitido com um quadro de hepatite, esplenomegalia com hiperesplenismo, anemia hemolítica com Coombs negativo, hipertensão portal e confusão mental. O exame neurológico mostrou síndrome rígida-acinética semelhante ao parkinsonismo, tremores e ataxia. Foram também observadas disartria, disfagia e incoordenação motora. Tais achados neurológicos se associam a disfunção dos gânglios da base. O tratamento instituído foi D-penicilamina oral (0,75 - 2 g/dia em doses divididas, tomadas 1 hora antes ou 2 horas após a refeição) associada a piridoxina oral, 50 mg por semana. Foi também prescrito zinco elementar na dose de 50 mg três vezes ao dia. Houve melhora clínica e indicação para que o tratamento fosse continuado inde"nidamente, além de uma dieta específica. A doença em questão é:

    • A)

      hemocromatose;

    • B)

      hepatite autoimune;

    • C)

      colangite esclerosante primária;

    • D)

      doença de Wilson;

    • E)

      síndrome de Budd-Chiari.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Jovem com hepatopatia + anemia hemolítica de Coombs negativo + sintomas extrapiramidais + anéis de Kayser-Fleischer (quando examinados) = alta suspeita de Doença de Wilson. Tratamento de primeira linha no SUS: D-penicilamina e sais de zinco, por tempo indefinido.


    Epidemiologia e Etiologia


    • O que é: Doença de Wilson é distúrbio genético autossômico recessivo por mutação no gene ATP7B com acúmulo tóxico de cobre no fígado, cérebro (gânglios da base) e córnea.

    • Por que importa: Causa tratável de hepatopatia crônica em jovens, movimentos extrapiramidais e transtornos psiquiátricos. Sem tratamento, evolui para cirrose descompensada e morte.

    • Cenário brasileiro: Início típico na 1ª–3ª décadas; acesso a quelantes (D-penicilamina) e zinco pelo SUS conforme Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas.


    Diagnóstico


    • Padrão-ouro: Cobre hepático em biópsia > 250 µg/g de tecido seco.

    • Critérios operacionais (prática):
      • Ceruloplasmina sérica baixa (< 20 mg/dL) – atenção: pode ser normal em fase inflamatória.
      • Cobre urinário 24h > 100 µg/24h em não tratados; eleva-se após teste de sobrecarga com quelante.
      • Anéis de Kayser-Fleischer (biomicroscopia com lâmpada de fenda).
      • Manifestações neurológicas típicas: parkinsonismo rígido-acinético, tremor, ataxia, disartria, distonia.
      • Hemólise Coombs-negativa + hepatopatia em jovem favorecem o diagnóstico.
      • Genética: Identificação de variantes patogênicas em ATP7B corrobora, mas não é necessária quando clínica/laboratório são típicos.

    • Quando internar/encaminhar urgente: Encefalopatia hepática, insuficiência hepática aguda, sangramento digestivo alto por varizes, hemólise grave, ou rápida piora neurológica.


    Conduta & Posologia


    • Objetivo terapêutico: Remover cobre (fase de indução) e manter balanço negativo de cobre (manutenção) por toda a vida.

    • D-penicilamina (primeira linha no SUS): Iniciar com 250 mg VO/dia e titular a cada 1–2 semanas até 750–1.500 mg/dia VO (pode chegar a 2 g/dia) em 2–4 tomadas, 1 hora antes ou 2 horas após refeições. Associar piridoxina.

    • Piridoxina (vitamina B6): 25–50 mg VO/dia (alguns serviços utilizam semanal, porém prática mais difundida é diária durante quelante).

    • Zinco (acetato ou sulfato) – alternativa/adição e manutenção: 50 mg de zinco elementar VO 8/8h (ex.: sulfato de zinco 220 mg ≈ 50 mg de zinco elementar), 1 h antes ou 2–3 h após refeições e separando 2–3 h de outros fármacos/quelantes.

    • Metas de monitorização:

      • Cuprúria 24h: indução com quelante geralmente > 500 µg/24h; manutenção alvo ~200–500 µg/24h com D-penicilamina; com zinco, alvo < 75 µg/24h.

      • Hemograma e urina mensal no início (proteinúria/citopenias), depois trimestral/semestral.

      • Função hepática (TGO/TGP, bilirrubinas, INR) e exame oftalmológico periódicos.

    • Ajustes e situações especiais:

      • Doença renal crônica: Usar D-penicilamina com cautela; considerar menores doses e monitorar proteinúria e função renal estreitamente.

      • Gestação: Manter terapia. Preferir zinco; se D-penicilamina necessária, usar a menor dose eficaz e reduzir no 3º trimestre para mitigar risco de alterações do tecido conjuntivo fetal; evitar suspensão completa.

      • Insuficiência hepática: Não há ajuste específico de dose por via hepática, mas monitorização clínica/laboratorial deve ser intensiva.

    • Efeitos adversos relevantes: D-penicilamina: rash, febre, proteinúria/síndrome nefrótica, leucopenia/trombocitopenia, lúpus-like, piora neurológica inicial (até 10–20%). Zinco: gastralgia, náusea, deficiência de ferro.

    • Interações críticas: Zinco reduz absorção de quelantes e vice-versa; espaçar 2–3 horas. Antiácidos/ferro também interferem na absorção do zinco.

    • Contraindicações: Hipersensibilidade à D-penicilamina; cautela em nefrite ativa/doença autoimune grave induzida por droga.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se encefalopatia hepática, insuficiência hepática aguda, hemólise grave, hemorragia varicosa ou piora neurológica incapacitante. Avaliar transplante hepático em falência hepática aguda (escala de Kings/Wilson) ou cirrose descompensada refratária.

    • Dieta: Restrição inicial de alimentos ricos em cobre (fígado, mariscos, nozes, chocolate, cogumelos) por 3–6 meses, mantendo tratamento medicamentoso por tempo indefinido.


    Discussão das alternativas


    ✅ D) doença de Wilson;

    Alternativa correta. Jóvem com hepatopatia, hemólise de Coombs negativo, hipertensão portal e sinais extrapiramidais por disfunção dos gânglios da base é clássico. O esquema instituído (D-penicilamina + piridoxina + zinco) é de primeira linha no SUS. Achados oftalmológicos (anéis de Kayser-Fleischer) e cobre urinário elevado consolidam o diagnóstico.


    ❌ A) hemocromatose;

    Alternativa incorreta. Hemocromatose cursa com hiperpigmentação cutânea, diabetes, cardiomiopatia e artropatia; não explica parkinsonismo/ataxia típicos da deposição de cobre nos gânglios da base. Tratamento é flebotomia, não D-penicilamina/zinco.


    ❌ B) hepatite autoimune;

    Alternativa incorreta. Espera-se autoanticorpos (ANA/SMA), hipergamaglobulinemia e boa resposta a corticoide/azatioprina. Não cursa com hemólise Coombs-negativa típica, nem com sinais extrapiramidais por gânglios da base.


    ❌ C) colangite esclerosante primária;

    Alternativa incorreta. Doença colestática associada a retocolite ulcerativa; colangiorressonância com estenoses e dilatações multifocais. Não explica quadro neurológico extrapiramidal, e o tratamento não é com quelantes de cobre.


    ❌ E) síndrome de Budd-Chiari.

    Alternativa incorreta. Trombose das veias hepáticas com dor abdominal, hepatomegalia e ascite de instalação aguda/subaguda. Não há hemólise Coombs-negativa típica nem sinais extrapiramidais. Manejo envolve anticoagulação/descompressão venosa, não quelantes.


    Take-home message

    • Jovem com hepatopatia + hemólise de Coombs negativo + sinais extrapiramidais = suspeitar fortemente de Doença de Wilson.
    • Diagnóstico se apoia em ceruloplasmina baixa, cobre urinário 24h elevado e, se disponível, cobre hepático > 250 µg/g (padrão-ouro).
    • Tratamento de 1ª linha: D-penicilamina 750–1.500 mg/dia VO + piridoxina 25–50 mg/dia e/ou zinco 50 mg elementar VO 8/8h, por tempo indefinido.
    • Separar zinco e quelantes por 2–3 horas para evitar interação e monitorar cuprúria 24h como parâmetro de controle.
    • Red flag: piora neurológica inicial pode ocorrer com D-penicilamina; não suspender abruptamente sem reavaliação especializada.
    • Internar se encefalopatia hepática, insuficiência hepática aguda, hemorragia varicosa ou hemólise grave; considerar transplante em falência hepática.

    Questão 83Síndrome Nefrótica

    Criança de 5 anos chega ao consultório com inchaço nas pálpebras e nos pés há 7 dias. A mãe relata que a urina está “espumosa” e que o volume urinário diminuiu. A criança está afebril, com pressão arterial normal e sem dor à palpação abdominal. Exames laboratoriais: Urina tipo I: proteinúria intensa (+++), sem hematúria; Relação proteína/creatinina urinária: 4,5 mg/mg; Albumina sérica: 1,8 g/dL; Colesterol total: 310 mg/dL; Creatinina sérica: normal. Segundo essas informações, é correto afirmar que o diagnóstico provável é

    • A)

      infecção urinária.

    • B)

      glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica.

    • C)

      síndrome nefrótica.

    • D)

      nefropatia por IgA.

    • E)

      desidratação.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Epidemiologia e Etiologia

    • Âncora de prova: Em idade pré-escolar, a síndrome nefrótica corticosensível por doença de lesões mínimas é a causa mais comum no Brasil.
    • O que é: Síndrome nefrótica é o conjunto de proteinúria nefrótica, hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia. Em crianças, predomina a etiologia primária (lesões mínimas).
    • Por que importa: Reconhecimento clínico-laboratorial direciona o início imediato de corticoide e medidas anti-edema, evitando complicações infecciosas e trombóticas.

    Diagnóstico

    • Critério operacional (pediatria): Proteinúria nefrótica definida por relação proteína/creatinina urinária ≥ 2 mg/mg (ou ≥ 2000 mg/g), com albumina sérica < 2,5 g/dL, edema e hiperlipidemia. Padrão-ouro é a quantificação de 24 h, mas a relação proteína/creatinina substitui em crianças.
    • Aplicação ao caso: Relação proteína/creatinina 4,5 mg/mg, albumina 1,8 g/dL, edema palpebral e de tornozelos, hiperlipidemia (310 mg/dL), sem hematúria e PA normal → quadro típico de síndrome nefrótica primária (provável lesões mínimas).
    • Armadilha de prova: Glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica cursa com hematúria, hipertensão e complemento baixo; nefropatia por IgA dá hematúria macroscópica pós-infecção; infecção urinária exige bacteriúria/leucocitúria e febre.
    • Quando internar: Edema grave (anasarca, derrames), desconforto respiratório, hipovolemia (dor abdominal, taquicardia, extremidades frias), infecção sistêmica, trombose, insuficiência renal aguda, hipertensão grave.

    Conduta & Posologia

    • Corticoide (primeira linha em SN primária corticosensível): Prednisona 60 mg/m²/dia VO (máx 60 mg) em dose única matinal por 6 semanas, seguida de 40 mg/m² VO em dias alternados por 6 semanas, com desmame subsequente conforme resposta. Alternativa por peso: 2 mg/kg/dia (máx 60 mg) diária → 1,5 mg/kg em dias alternados. Fonte: PCDT/MS.
    • Controle do edema: Restrição de sal (≈ 1–2 g/dia). Furosemida 1 mg/kg VO 12/12 h; pode titular até 2 mg/kg/dose VO/EV conforme resposta. Em edema grave/hipovolemia com hipoalbuminemia: Albumina 20% 1 g/kg EV infundida em 2–4 h, seguida de Furosemida 1 mg/kg EV. Monitorar peso, diurese e eletrólitos.
    • Hiperlipidemia: Não iniciar estatina na fase aguda em crianças; tende a normalizar com remissão.
    • Profilaxias: Vacinar contra influenza anual e pneumococo (conjugada e polissacarídica, conforme calendário). Evitar vacinas de vírus vivos enquanto em dose imunossupressora (prednisona ≥ 2 mg/kg/dia ou ≥ 20 mg/dia por > 14 dias).
    • Contraindicações/alertas chave: Não usar diurético de alça de forma agressiva na hipovolemia; cuidado com anti-inflamatórios não esteroidais (pioram perfusão renal e edema). Albumina é contraindicada em insuficiência cardíaca descompensada.
    • Efeitos adversos relevantes: Prednisona: ganho ponderal, hiperglicemia, hipertensão, alterações de humor, risco infeccioso. Furosemida: hipocalemia, alcalose metabólica, hipovolemia. Albumina: sobrecarga volêmica.
    • Ajustes: Prednisona não requer ajuste em doença renal crônica; cautela em insuficiência hepática grave. Furosemida pode demandar doses maiores em hipoalbuminemia; monitorar função renal/eletrólitos.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Ambulatorial se edema leve/moderado, hemodinamicamente estável, sem complicações; internar se sinais acima. Reavaliar em 48–72 h (peso, diurese, pressão arterial, eletrólitos). Remissão: fita urinária negativa/traço por 3 dias consecutivos.

    Discussão das alternativas

    ✅ C) síndrome nefrótica.

    Alternativa correta. Proteinúria nefrótica (relação proteína/creatinina 4,5 mg/mg), hipoalbuminemia (1,8 g/dL), edema e hiperlipidemia definem síndrome nefrótica. Ausência de hematúria e pressão arterial normal favorecem doença de lesões mínimas em pré-escolar.

    ❌ A) infecção urinária.

    Alternativa incorreta. ITU pediátrica cursa com febre, disúria, urgência, leucocitúria e bacteriúria; não causa síndrome edematosa com hipoalbuminemia e hiperlipidemia. A proteinúria isolada intensa não é achado típico de ITU.

    ❌ B) glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica.

    Alternativa incorreta. Espera-se hematúria (muitas vezes macroscópica), hipertensão, edema e complemento C3 baixo. No caso, não há hematúria nem hipertensão e há hiperlipidemia marcada, compatível com síndrome nefrótica.

    ❌ D) nefropatia por IgA.

    Alternativa incorreta. Nefropatia por IgA tipicamente apresenta hematúria macroscópica na vigência de infecção de vias aéreas superiores e não cursa com hipoalbuminemia/hiperlipidemia significativas.

    ❌ E) desidratação.

    Alternativa incorreta. Desidratação leva a oligúria e sinais de hipovolemia, não a edema; não explica proteinúria maciça e hiperlipidemia.


    Take-home message

    • Síndrome nefrótica pediátrica: proteinúria nefrótica (relação proteína/creatinina ≥ 2 mg/mg), hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia.
    • Quadro sem hematúria e com PA normal em pré-escolar sugere lesões mínimas (corticosensível).
    • Corticoide de primeira linha: Prednisona 60 mg/m²/dia por 6 semanas → 40 mg/m² em dias alternados por 6 semanas.
    • Edema: restrição de sal, Furosemida 1–2 mg/kg/dose; em hipovolemia/edema grave, Albumina 20% 1 g/kg EV + Furosemida.
    • Red flag: Evitar diurético agressivo na hipovolemia e não aplicar vacinas de vírus vivos durante altas doses de corticoide.
    • Internar se anasarca/derrames, desconforto respiratório, infecção, trombose, IRA ou hipertensão grave.



    Questão 85Vacinação no adulto/idoso

    Homem de 45 anos, hipertenso e diabético, em uso de hidroclorotiazida 25 mg/dia e metformina 850 mg 2x/dia, comparece ao ambulatório para atualização vacinal. Refere apendicectomia há vinte anos e esplenectomia há quinze anos por trauma abdominal. Nega alergias medicamentosas, tabagismo ou etilismo. PA: 130 x 80 mmHg; FC: 78 bpm; FR: 16 irpm; T: 36,6  ºC. Exame físico sem alterações relevantes. Qual o regime vacinal recomendado para esse paciente, considerando que ele nunca recebeu vacina pneumocócica?

    • A)

      VPC13 seguida de VPP23 após oito semanas, com reforço da VPP23 em cinco anos.

    • B)

      Apenas VPC13, em dose única, sem reforços.

    • C)

      VPP23 imediata, sem necessidade de VPC13.

    • D)

      Esquema de duas doses de VPC13 com intervalo de seis meses.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Asplenia anatômica/funcional é indicação clássica de esquema sequencial pneumocócico no adulto: vacina pneumocócica conjugada 13-valente (VPC13) seguida da polissacarídica 23-valente (VPP23), com reforço da VPP23 em 5 anos.

    Epidemiologia e Etiologia

    • Risco no Brasil: Pessoas asplênicas têm risco muito aumentado de doença pneumocócica invasiva e sepse por germes encapsulados (Streptococcus pneumoniae), com maior letalidade precoce.
    • Asplenia (definição): Perda anatômica do baço (pós-trauma/cirurgia) ou disfunção funcional (ex.: anemia falciforme), com déficit de resposta imune a polissacarídeos capsulares.

    Diagnóstico (definições operacionais para o calendário vacinal)

    • Indicação: Adultos com asplenia que nunca receberam vacina pneumocócica devem receber VPC13 → VPP23 (8 semanas depois) e reforço de VPP23 em 5 anos.
    • Prioridade temporal: Idealmente vacinar pelo menos 2 semanas antes de esplenectomia eletiva; se a cirurgia foi de urgência, iniciar esquema a partir de 2 semanas pós-operatório.


    Conduta & Posologia

    • Esquema recomendado (nunca vacinado): 1) VPC13 0,5 mL IM dose única hoje → 2) VPP23 0,5 mL IM ou SC após 8 semanas → 3) Reforço VPP23 após 5 anos. Considerar uma dose adicional de VPP23 aos 65 anos se já estiverem passados ≥5 anos da última VPP23.
    • Via/local: VPC13 exclusivamente intramuscular (deltoide); VPP23 intramuscular (preferencial) ou subcutânea.
    • Co-administração: Pode ser coadministrada com outras vacinas inativadas em locais distintos. Manter registro claro de datas para respeitar os intervalos.
    • Contraindicações: Anafilaxia prévia a dose anterior ou a componentes da vacina. Doenças febris agudas moderadas/gravES: adiar.
    • Efeitos adversos relevantes: Dor/eritema no local, febre baixa, mialgia. Reações graves são raras.
    • Interações/condicionantes clínicos: Imunossupressores e quimioterapia reduzem resposta; vacinar idealmente ≥2 semanas antes do início ou ≥3 meses após término quando possível.
    • Cenário assistencial: Realizar em UBS/CRIE com registro nominal. Internação não se aplica; monitorar eventos adversos conforme PNI.

    Mini-exemplo: Adulto asplênico nunca vacinado: hoje VPC13; em 8 semanas VPP23; reforço VPP23 em 5 anos.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) VPC13 seguida de VPP23 após oito semanas, com reforço da VPP23 em cinco anos.

    Alternativa correta. Em adultos com asplenia, o PNI/CRIE recomenda sequência conjugada (VPC13) para priming T-dependente e, após 8 semanas, VPP23 para ampliar cobertura sorotípica, com reforço de VPP23 em 5 anos. Fundamenta-se no maior risco de doença invasiva e melhor imunogenicidade quando a conjugada precede a polissacarídica.

    ❌ B) Apenas VPC13, em dose única, sem reforços.

    Alternativa incorreta. VPC13 isolada não é suficiente em asplenia. É necessário completar com VPP23 para ampliar cobertura e fazer reforço em 5 anos. O erro é omitir a VPP23 e o reforço.

    ❌ C) VPP23 imediata, sem necessidade de VPC13.

    Alternativa incorreta. Em imunocomprometidos/asplênicos, iniciar pela polissacarídica reduz a resposta subsequente à conjugada. A sequência correta é VPC13 → VPP23 com 8 semanas de intervalo, e reforço da VPP23 em 5 anos.

    ❌ D) Esquema de duas doses de VPC13 com intervalo de seis meses.

    Alternativa incorreta. No adulto, VPC13 é dose única. O reforço indicado em asplenia é com VPP23 (e não repetir VPC13), respeitando os intervalos padronizados.


    Take-home message

    • Asplenia no adulto: esquema pneumocócico sequencial obrigatório — VPC13 → VPP23 (8 semanas) → reforço VPP23 em 5 anos.
    • Posologia prática: VPC13 0,5 mL IM, dose única; VPP23 0,5 mL IM/SC após 8 semanas; reforçar VPP23 em 5 anos.
    • Se VPP23 tiver sido aplicada antes por engano, agendar VPC13 após 1 ano e manter reforço da VPP23 em 5 anos a partir da primeira VPP23.
    • Red flag: Não iniciar por VPP23 em asplenia — piora a resposta à conjugada e foge da diretriz.
    • Ideal vacinar ≥2 semanas antes de esplenectomia eletiva; se pós-trauma, iniciar quando clinicamente estável (≈2 semanas pós-cirurgia).

    Questão 86Distúrbios do movimento

    Homem de 72 anos de idade apresenta febre alta, redução do nível de consciência e rigidez muscular há seis horas. AP: uso de haloperidol, sertralina, dipirona e metoclopramida. Exame físico: escala de coma de Glasgow: 12; PA: 160  ×  80 mmHg; FC: 120 bpm; FR: 24 irpm; SatO2 : 97% em ar ambiente; temperatura axilar: 40 ºC; rigidez muscular em membros superiores; reflexo patelar reduzido bilateralmente. Assinale a alternativa correta sobre o quadro descrito.

    • A)

      Sua principal causa é o uso de sertralina.

    • B)

      O bloqueio de receptores dopaminérgicos D2 está relacionado à sua patogênese.

    • C)

      A principal hipótese é síndrome de abstinência ao uso de cocaína.

    • D)

      O valor de CPK está frequentemente reduzido.

    • E)

      Benzodiazepínicos estão contraindicados no tratamento.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM) = tríade clássica: hipertermia, rigidez "em cano de chumbo", alteração do nível de consciência + disautonomia e CPK elevada. Desencadeada por antagonismo dopaminérgico (D2), tipicamente por antipsicóticos (p.ex., haloperidol) e metoclopramida.


    O que é: Emergência iatrogênica por bloqueio D2 no hipotálamo (falha de termorregulação) e vias nigroestriatais (rigidez), com risco de rabdomiólise e insuficiência renal aguda.


    Por que importa: Mortalidade significativa se não reconhecida/tratada precocemente; manejo é suspensão imediata do agente, suporte intensivo e, em casos moderados-graves, dantrolene e/ou bromocriptina.


    Como identificar (clínico/laboratorial):

    • Início em horas–dias após início/aumento de dose de antipsicótico ou uso de outros D2 antagonistas (metoclopramida).
    • Hipertermia (>38,5–40 ºC), rigidez generalizada, rebaixamento do sensório, instabilidade autonômica (taquicardia, labilidade pressórica, sialorreia, diaforese).
    • Reflexos tendíneos geralmente reduzidos (diferencia da síndrome serotoninérgica, que cursa com hiperreflexia/clônus).
    • CPK elevada (frequentemente >1.000 UI/L), leucocitose, elevação de transaminases, mioglobinúria; risco de IRA por rabdomiólise.


    Diferenciais-chave (X vs Y):

    • SNM vs Síndrome serotoninérgica: SNM = rigidez "plástica", hiporreflexia, instalação horas–dias, gatilho D2 antagonista; Serotoninérgica = clônus/hiperreflexia, instalação rápida, gatilho ISRS/IMAOs/associação serotoninérgica.
    • SNM vs Abstinência de cocaína: abstinência cursa com fadiga, anedonia e hipersonia (não hipertermia/rigidez).


    Conduta & Posologia


    • Suspender imediatamente todos os agentes dopaminérgicos antagonistas (p.ex., haloperidol, metoclopramida).

    • Suporte intensivo: hidratação vigorosa, correção de eletrólitos, monitorização contínua, medidas físicas de resfriamento. Antitérmicos têm efeito limitado.

    • Benzodiazepínicos (controle de agitação/rigidez e redução de consumo metabólico): Diazepam 5–10 mg IV repetir conforme resposta (ou lorazepam 1–2 mg IV 4/4–6/6h). Ajustar no idoso e em DRC/DRH pela sedação.

    • Dantrolene IV (relaxante muscular periférico) em casos moderados–graves: 1–2,5 mg/kg IV em bolus; repetir a cada 6h se necessário até controle, dose diária máxima habitual 10 mg/kg/dia. Evitar em hepatopatia ativa; monitorar TGO/TGP.

    • Bromocriptina VO/sonda (agonista dopaminérgico): iniciar 2,5 mg VO/SGA 8/8h, titulando até 5–10 mg 8/8h conforme resposta. Efeitos adversos: hipotensão, náusea; cautela em coronariopatia. Metabolização hepática (usar com cautela em insuficiência hepática).

    • Amantadina (alternativa/adjunto): 100–200 mg VO 12/12h. Ajustar em DRC (p.ex., ClCr 30–50 mL/min: 100 mg/dia; ClCr <30 mL/min: 100 mg a cada 48h). Efeitos: confusão, alucinações.

    • Ventilação mecânica se falha de proteção de vias aéreas/hipóxia; EVITAR neurolépticos enquanto quadro ativo.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: SNM é indicação de internação; UTI se T ≥40 ºC, instabilidade autonômica, CPK >1.000–2.000 UI/L, IRA/rabdomiólise, rebaixamento importante (Glasgow ≤12) ou comorbidades.

    • Monitorização/tempo: reavaliar clinicamente e dosar CPK, creatinina, eletrólitos diariamente até queda sustentada; risco de complicações em 24–72h. Retomar antipsicótico apenas após resolução completa (≥2 semanas), com baixa potência/dose baixa e titulação lenta; evitar o agente implicado.

    • Contraindicações e alertas: Dantrolene: hepatotoxicidade; Antipsicóticos: não reintroduzir durante SNM. Evitar anticolinérgicos como rotina (podem piorar delirium/hipertermia).


    Discussão das alternativas


    ✅ B) O bloqueio de receptores dopaminérgicos D2 está relacionado à sua patogênese.

    Alternativa correta. A SNM decorre de antagonismo D2 em hipotálamo (falha de termorregulação) e vias nigroestriatais (rigidez). O caso usa haloperidol e metoclopramida (ambos D2 antagonistas), somados ao quadro clássico (hipertermia, rigidez, rebaixamento, hiporreflexia), sustentando o diagnóstico. Conduta: suspensão dos culpados, suporte e considerar dantrolene/bromocriptina.


    ❌ A) Sua principal causa é o uso de sertralina.

    Alternativa incorreta. ISRS (sertralina) estão associados a síndrome serotoninérgica, que cursa com hiperreflexia/clônus, não com hiporreflexia/rigidez plástica. Na SNM, os principais gatilhos são antipsicóticos típicos (p.ex., haloperidol) e metoclopramida.


    ❌ C) A principal hipótese é síndrome de abstinência ao uso de cocaína.

    Alternativa incorreta. Abstinência de cocaína causa fadiga, anedonia, hipersonia e disforia, sem hipertermia/rigidez. O quadro e a farmacologia implicam SNM.


    ❌ D) O valor de CPK está frequentemente reduzido.

    Alternativa incorreta. Na SNM a CPK costuma estar elevada (muitas vezes >1.000 UI/L) por rabdomiólise; redução de CPK não é característica.


    ❌ E) Benzodiazepínicos estão contraindicados no tratamento.

    Alternativa incorreta. Benzodiazepínicos são úteis para reduzir agitação, rigidez e demanda metabólica, além de facilitar medidas de suporte. Não estão contraindicados; ver doses acima.


    Take-home message

    • SNM: hipertermia + rigidez "em cano de chumbo" + rebaixamento + disautonomia, após D2 antagonistas (haloperidol/metoclopramida).
    • Diferença-chave: SNM tem hiporreflexia e instalação horas–dias; serotoninérgica tem clônus/hiperreflexia e início rápido.
    • Conduta: suspender agente, suporte intensivo, benzodiazepínico e considerar dantrolene 1–2,5 mg/kg IV e bromocriptina 2,5–10 mg 8/8h VO.
    • Red flag: CPK elevada e risco de rabdomiólise/IRA → internar (geralmente UTI).
    • Monitorize CPK, função renal e eletrólitos diariamente até normalizar; reintroduza antipsicótico só após resolução completa (≥2 semanas), em baixa dose/potência menor.
    • Evitar dantrolene em hepatopatia ativa; cautela com bromocriptina em hipotensão/coronariopatia; ajustar amantadina na DRC.

    Questão 88Artrite idiopática juvenil (AIJ)

    Um garoto de quatro anos de idade foi levado ao pronto atendimento com dor leve na região do quadril esquerdo e com claudicação, sentida já havia um dia. Os responsáveis negaram febre. Foi referido que tem ocorrido um episódio de resfriado há uma semana. No exame físico, encontrava‑se em bom estado geral, com limitação dolorosa da rotação interna e abdução do quadril esquerdo, sem outras alterações. Exames laboratoriais: VHS 2 mm/h; PCR 0,1 mg/dl; hemograma normal (Hb 12,5 g/dl, leucócitos 9.000/mm³, plaquetas 220.000/mm³). A radiografia de quadris não apresentou alterações. A ultrassonografia mostrava um pequeno derrame articular no quadril esquerdo. Com base nesse caso clínico hipotético, assinale a opção que apresenta a principal hipótese diagnóstica.

    • A)

      sinovite transitória do quadril

    • B)

      osteomielite de fêmur

    • C)

      doença de Legg‑Calvé‑Perthes

    • D)

      artrite séptica do quadril

    • E)

      síndrome de Osgood‑Schlatter

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Criança 3–8 anos, dor/claudicação pós-viral, sem febre, marcadores inflamatórios normais e USG com pequeno derrame = padrão clássico de sinovite transitória do quadril (STQ). Principal diagnóstico diferencial crítico: artrite séptica (emergência).

    O que é: STQ é inflamação autolimitada da membrana sinovial do quadril, geralmente após infecção viral de vias aéreas superiores.

    Por que importa: Diferenciar de artrite séptica evita atraso de drenagem/antibiótico em infecção articular e evita antibiótico/internação desnecessários na STQ.

    Como identificar (regra prática): Critérios de Kocher modificados para artrite séptica (marcadores de gravidade): febre ≥38°C, incapacidade de deambular, VHS ≥40 mm/h, leucócitos ≥12.000/mm³, PCR ≥20 mg/L (2 mg/dL). Quanto mais critérios, maior probabilidade de artrite séptica. Na STQ, tipicamente 0–1 critério.

    Aplicação ao caso: 4 anos, pós-resfriado, sem febre, deambula (claudica), VHS 2, PCR 0,1 mg/dL, leucócitos 9.000, RX normal, USG com pequeno derrame. Soma de critérios de Kocher = 0 → STQ é a hipótese principal.


    Conduta & Posologia

    • Medidas gerais: repouso relativo, restrição de atividades de impacto por 7–10 dias; apoio conforme dor; gelo local.
    • Analgésico/AINE de primeira linha: Ibuprofeno 10 mg/kg/dose VO a cada 8 horas, por 5–7 dias ou até 48 h assintomático. Alternativa: Naproxeno 5–7 mg/kg/dose VO 12/12h.
    • Opção de analgesia simples: Paracetamol 10–15 mg/kg/dose VO 6/6–8/8h, máx. 60 mg/kg/dia.
    • Ajustes e cautelas: Ibuprofeno: evitar se TFG <30 mL/min/1,73 m² ou desidratação; usar a menor dose eficaz em Child-Pugh B e evitar em Child-Pugh C. Paracetamol: não exceder 75 mg/kg/dia em hepatopatia; preferir 10 mg/kg/dose.

    • Contraindicações: AINE em insuficiência renal aguda, úlcera péptica ativa, sangramento GI, alergia a AINE; paracetamol em hepatite aguda grave.
    • Efeitos adversos relevantes: AINE: dor epigástrica, vômitos, disfunção renal; Paracetamol: hepatotoxicidade em superdose.
    • Antibiótico: Não indicado na STQ.
    • Critérios de internação vs ambulatorial: Ambulatorial se sem febre, deambulação possível, dor controlável e PCR/VHS baixos. Internar/avaliar para artrite séptica se febre ≥38°C, incapacidade de deambular, PCR ≥2 mg/dL (20 mg/L) ou VHS ≥40, leucócitos ≥12.000, toxemia, dor intensa não controlada, ou derrame volumoso com defesa intensa.
    • Reavaliação: 24–48 h. Se piora ou ausência de melhora clinicamente significativa em 48–72 h, repetir exame físico, laboratórios e imagem; considerar punção articular.

    Discussão das alternativas

    ✅ A) sinovite transitória do quadril

    Alternativa correta. Idade típica (3–8 anos), antecedente viral recente, dor leve/moderada com limitação principalmente da rotação interna, afebril, VHS e PCR normais, leucócitos normais, RX normal e USG com pequeno derrame são clássicos de STQ. Pelos critérios de Kocher modificados, probabilidade de artrite séptica é muito baixa quando 0–1 critério presente.

    ❌ B) osteomielite de fêmur

    Alternativa incorreta. Osteomielite costuma cursar com febre, dor localizada progressiva, sinais inflamatórios, PCR/VHS elevados e, com frequência, leucocitose; a articulação pode estar poupada. Aqui há marcadores normais e quadro articular com derrame intra-articular.

    ❌ C) doença de Legg‑Calvé‑Perthes

    Alternativa incorreta. Embora a idade seja compatível, a Perthes é subaguda/crônica, com limitação funcional insidiosa, marcha em Trendelenburg e, ao longo do tempo, alterações radiográficas (esclerose/colapso da cabeça femoral). O caso é agudo pós-viral, RX normal e marcadores normais, favorecendo STQ.

    ❌ D) artrite séptica do quadril

    Alternativa incorreta. Artrite séptica é emergência com dor intensa, incapacidade de deambular, febre e elevação de PCR/VHS/leucócitos. Critérios de Kocher aqui são todos negativos (0/4–5), tornando o diagnóstico improvável. Na suspeita, a conduta seria artrocentese e antibiótico empírico imediato.

    ❌ E) síndrome de Osgood‑Schlatter

    Alternativa incorreta. Osgood‑Schlatter é apofisite da tuberosidade tibial em adolescentes fisicamente ativos, com dor anterior no joelho, não no quadril. Não cursa com derrame articular do quadril.


    Take-home message

    • STQ: criança 3–8 anos, quadro agudo pós-viral, afebril, dor/claudicação leve, USG com pequeno derrame, VHS/PCR normais.
    • Use os critérios de Kocher (febre, incapacidade de deambular, VHS ≥40, leucócitos ≥12k, PCR ≥2 mg/dL): 0–1 critério → baixa probabilidade de artrite séptica.
    • Tratamento da STQ é suporte: repouso e AINE (ex.: Ibuprofeno 10 mg/kg 8/8h VO por 5–7 dias).
    • Red flags: febre, PCR/VHS elevados, incapacidade de deambular → investigar artrite séptica (artrocentese + ATB).
    • Reavaliar em 24–48 h; ausência de melhora em 48–72 h exige reavaliação laboratorial e de imagem.

    Questão 90Vacinação no adulto/idoso

    Durante uma ação de vacinação em uma Unidade de Saúde da Família, o enfermeiro observa três situações distintas: I. Uma adolescente de 13 anos comparece para atualização da caderneta, sem registro da vacina HPV. II. Um idoso de 70 anos, com doença pulmonar crônica, solicita a vacina contra influenza. III. Uma criança de 1 ano e 3 meses apresentou febre e irritabilidade leve por 24 horas após receber a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). Com base nas recomendações do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e no manejo adequado de eventos adversos pós-vacinação, qual é a conduta mais apropriada da equipe de saúde?

    • A)

      Aguardar o próximo calendário nacional de campanhas antes de realizar qualquer vacinação, garantindo que todos os usuários recebam vacinas simultaneamente.

    • B)

      Administrar apenas uma dose de HPV na adolescente, pois ela já ultrapassou a faixa etária ideal; adiar a vacina contra influenza por causa da doença pulmonar; e notificar a febre como evento adverso grave.

    • C)

      Iniciar o esquema de HPV com duas doses na adolescente; aplicar a vacina contra influenza no idoso; e orientar a família que febre leve pós-vacinal é um evento esperado, sem necessidade de notificação.

    • D)

      Iniciar o esquema de HPV com três doses na adolescente; encaminhar o idoso para avaliação médica antes da vacina; e suspender futuras doses de tríplice viral.

    • E)

      Aplicar dose única de HPV; vacinar o idoso se não apresentar sintomas gripais; e considerar o evento adverso como contraindicação definitiva à tríplice viral.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: PNI: HPV em adolescentes imunocompetentes é esquema 2 doses (0 e 6 meses); Influenza é anual para idosos e comorbidades; febre leve pós-tríplice viral é evento esperado, sem notificação.


    O que é e por que importa: Atualização vacinal reduz doenças preveníveis; manejo correto de EAPV (evento adverso pós-vacinação) evita atrasos e subnotificação.


    Como identificar: Verificar calendário PNI por faixa etária/comorbidades; classificar EAPV por gravidade (leve x grave) e necessidade de notificação.


    Como manejar: Iniciar/atualizar esquemas conforme PNI; não adiar vacina por comorbidade estável; orientar EAPV esperado e sinais de alarme.


    Conduta & Posologia

    • HPV (adolescente 13 anos, imunocompetente): Esquema de 2 doses (0 e 6 meses), IM, 0,5 mL por dose. Iniciar hoje se sem registro.

    • Influenza (idoso 70 anos com DPOC/doença pulmonar crônica): 1 dose anual, IM, 0,5 mL, independentemente de campanhas (oferta contínua nas salas de vacina).

    • Tríplice viral (MMR) – eventos esperados: Febre e irritabilidade leves entre 5–12 dias pós-aplicação, autolimitados em 1–3 dias. Sem necessidade de notificar se leves e sem sinais de alarme.

    • Manejo sintomático (antitérmico): Paracetamol 10–15 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h (máx. 60 mg/kg/dia ou 3 g/dia em adultos). Ibuprofeno 5–10 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h (evitar em desidratação/DRC).

    • Contraindicações principais: - HPV: anafilaxia prévia a dose/componente.
    • - Influenza: anafilaxia prévia à vacina/componente. Doença aguda febril moderada/grave → adiar até melhora.
    • - Tríplice viral: gestação, imunodeficiência grave, anafilaxia a dose prévia/gelatina/neomicina.

    • Efeitos adversos relevantes: - HPV: dor local, síncope vasovagal (observar 15 min).
    • - Influenza: dor local, febre baixa, mialgia.
    • - Tríplice viral: febre, exantema leve; raros: púrpura trombocitopênica, convulsão febril.

    • Notificação de EAPV (quando notificar): Notificar eventos graves (anafilaxia, óbito, internação, risco de morte, incapacidade, eventos neurológicos, surtos) ou eventos inusitados. Febre leve isolada não é notificável.

    • Critérios de internação/observação: - Observar em sala por 15–30 min após vacinação se risco de síncope.
    • - Anafilaxia → epinefrina IM imediata e encaminhar para serviço de urgência.

    • Reavaliação: Orientar retorno se febre > 72 h, sinais de alarme (vômitos persistentes, prostração intensa, convulsão, exantema petequial, dispneia) ou dúvidas sobre continuidade do esquema.

    Discussão das alternativas

    ✅ C) Iniciar o esquema de HPV com duas doses na adolescente; aplicar a vacina contra influenza no idoso; e orientar a família que febre leve pós-vacinal é um evento esperado, sem necessidade de notificação.

    Alternativa correta. HPV em imunocompetentes 9–14 anos: 2 doses (0 e 6 meses). Influenza é indicada anualmente para idosos e portadores de doença crônica, sem necessidade de adiar por comorbidade estável. Febre leve após MMR é evento esperado e não é de notificação compulsória na ausência de gravidade.

    ❌ A) Aguardar o próximo calendário nacional de campanhas antes de realizar qualquer vacinação, garantindo que todos os usuários recebam vacinas simultaneamente.

    Alternativa incorreta. Salas de vacinação funcionam em oferta contínua; não se deve atrasar esquemas aguardando campanhas. Atraso aumenta risco de susceptibilidade.

    ❌ B) Administrar apenas uma dose de HPV na adolescente, pois ela já ultrapassou a faixa etária ideal; adiar a vacina contra influenza por causa da doença pulmonar; e notificar a febre como evento adverso grave.

    Alternativa incorreta. - HPV 13 anos: duas doses, não dose única. - Doença pulmonar crônica é indicação de influenza, não motivo para adiar. - Febre leve pós-MMR não é evento grave e não requer notificação.

    ❌ D) Iniciar o esquema de HPV com três doses na adolescente; encaminhar o idoso para avaliação médica antes da vacina; e suspender futuras doses de tríplice viral.

    Alternativa incorreta. Três doses de HPV são reservadas a imunossuprimidos. Avaliação médica prévia não é exigida para influenza em idoso estável. Evento leve pós-MMR não contraindica doses futuras.

    ❌ E) Aplicar dose única de HPV; vacinar o idoso se não apresentar sintomas gripais; e considerar o evento adverso como contraindicação definitiva à tríplice viral.

    Alternativa incorreta. HPV não é dose única nessa faixa etária no PNI clássico (são 2 doses). Influenza deve ser aplicada independentemente de “sintomas gripais” ausentes; a avaliação é por gravidade febril, não por sintomas inespecíficos. Febre leve pós-MMR não é contraindicação definitiva.


    Mensagem para levar para casa:

    • HPV em adolescentes imunocompetentes (9–14 anos): 2 doses (0 e 6 meses, 0,5 mL IM).
    • Influenza: 1 dose anual para idosos e pessoas com comorbidades, sem necessidade de avaliação médica prévia se estáveis.
    • Febre leve pós-tríplice viral é evento esperado e não é de notificação; orientar sinais de alarme e manejo sintomático.
    • Notificar EAPV apenas quando grave/inusitado (anafilaxia, internação, óbito, eventos neurológicos, surtos).
    • Não adiar vacinação aguardando campanha: salas de vacina têm oferta contínua.



    Questão 91Tromboembolismo Pulmonar

    Mulher, 67 anos, foi levada ao Pronto Socorro com falta de ar que iniciou há 3 horas, associada à dor torácica no hemitórax direito que piorava à inspiração profunda. Faz acompanhamento por hipertensão arterial e câncer de mama, em uso de hidroclorotiazida. Foi iniciada expansão volêmica e noradrenalina na Sala Vermelha por hipotensão e sonolência, e agora encontra-se vígil e orientada, PA 116 x 64 mmHg; FC 126 bpm; FR 20 irpm; SpO2 93% sob máscara não reinalante a 15 L/min. Tempo de enchimento capilar 4s. Exames complementares: eletrocardiograma taquicardia sinusal; troponina T ultrassensível 28 ng/L (VR < 14ng/L); creatinina sérica 2,1 mg/dL (VR: 0,5 a 0,9 mg/dL). Angiotomografia de tórax mostrou falha de enchimento em tronco de artéria pulmonar direita. Considerando o caso descrito, a conduta imediata adequada é prescrever

    • A)

      ácido acetilsalicílico e clopidogrel via oral.

    • B)

      enoxaparina subcutânea.

    • C)

      heparina não fracionada em bomba de infusão contínua.

    • D)

      alteplase em via venosa periférica.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora (por que cai): Embolia pulmonar de alto risco (choque/hipotensão) exige reperfusão imediata com trombólise sistêmica. Anticoagulação isolada não reverte rapidamente a obstrução. Banca explora a distinção entre alto risco vs intermediário/baixo risco e o impacto da disfunção de ventrículo direito.


    Epidemiologia e Etiologia

    Cenário brasileiro: Tromboembolia venosa é frequente em idosos e oncológicos. Câncer de mama aumenta risco de embolia pulmonar por estado pró-trombótico e tratamentos antineoplásicos.

    Alto risco (definição operacional): Embolia pulmonar com choque ou hipotensão sustentada (pressão arterial sistólica < 90 mmHg ou queda ≥ 40 mmHg por > 15 min) não explicada por outras causas. Requer terapia de reperfusão.


    Diagnóstico

    Padrão-ouro de imagem: Angiotomografia pulmonar com contraste mostrando falha de enchimento em artéria pulmonar (confirmou o diagnóstico neste caso).

    Estratificação de risco: Instabilidade hemodinâmica (choque prévio, necessidade de vasopressor), taquicardia, hipoxemia e biomarcadores de sobrecarga (troponina elevada) sugerem disfunção do ventrículo direito e alto risco de mortalidade precoce.

    Mini-exemplo: Paciente com embolia pulmonar, pressão arterial inicialmente baixa com noradrenalina e tempo de enchimento capilar 4 s = alto risco, indica reperfusão.


    Conduta & Posologia

    Conduta imediata (primeira linha no alto risco): Trombólise sistêmica com alteplase se não houver contraindicações absolutas.

    Alteplase (dose padrão em embolia pulmonar): 100 mg EV em 2 horas por via periférica. Alternativa aceita em alguns protocolos: 0,6 mg/kg (máx. 50 mg) em 15 min quando necessidade de reperfusão ultrarrápida.

    Heparina não fracionada (adiuvante): Se já em infusão, pausar durante a trombólise e retomar após término quando tempo de tromboplastina parcial ativado < 2 vezes o controle. Se não estava anticoagulado, iniciar após trombólise quando seguro pelo risco de sangramento.


    Por que não enoxaparina agora? Anticoagulação isolada não reverte rapidamente a obstrução em choque; além disso, há insuficiência renal aguda (creatinina 2,1 mg/dL), o que favorece heparina não fracionada se o cenário fosse apenas anticoagulação.


    Contraindicações absolutas à trombólise: Hemorragia ativa, acidente vascular cerebral hemorrágico prévio ou isquêmico < 3 meses, neoplasia intracraniana, traumatismo cranioencefálico/craniofacial recente, cirurgia maior recente (em geral < 2–3 semanas), discrasias hemorrágicas.

    Efeitos adversos relevantes (trombólise): Hemorragia maior, hemorragia intracraniana, hipotensão transitória, reações alérgicas.


    Critérios de internação/UTI vs. enfermaria: UTI para todos os casos de alto risco (uso de vasopressor, necessidade de trombólise), com monitorização contínua, gasometria seriada, tempo de tromboplastina parcial ativado, hemograma e vigilância de sangramento.

    Reavaliação/monitorização: Checar estabilidade hemodinâmica e oxigenação nas primeiras 2–6 h pós-trombólise; avaliar sinais de sangramento a cada hora nas primeiras 6 h; ajustar anticoagulação conforme tempo de tromboplastina parcial ativado quando reiniciada.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) alteplase em via venosa periférica.

    Alternativa correta. Embolia pulmonar de alto risco (instabilidade hemodinâmica/choque, necessidade de noradrenalina, troponina elevada e trombo central) requer trombólise sistêmica imediata. Esquema clássico: alteplase 100 mg EV em 2 h. Via periférica é adequada quando não há acesso central.


    ❌ A) ácido acetilsalicílico e clopidogrel via oral.

    Alternativa incorreta. Antiagregantes plaquetários não tratam trombo de embolia pulmonar. Não há benefício e há aumento de risco de sangramento, especialmente se trombólise for necessária.


    ❌ B) enoxaparina subcutânea.

    Alternativa incorreta. Em alto risco/choque, anticoagulação isolada é insuficiente. Além disso, com insuficiência renal aguda (creatinina 2,1 mg/dL), a enoxaparina acumula e aumenta sangramento; se a opção fosse apenas anticoagular, a heparina não fracionada seria preferível pelo controle e reversibilidade.


    ❌ C) heparina não fracionada em bomba de infusão contínua.

    Alternativa incorreta. Heparina não fracionada é útil e preferível em insuficiência renal, mas não é terapia de reperfusão. No alto risco, a conduta de escolha é trombólise sistêmica; a heparina entra como adjuvante antes/depois conforme protocolo e risco de sangramento.


    Take-home message

    • Embolia pulmonar alto risco = choque/hipotensão → trombólise sistêmica imediata.
    • Esquema padrão: alteplase 100 mg EV em 2 h (via periférica).
    • Após trombólise, anticoagular com heparina não fracionada quando seguro (monitorar tempo de tromboplastina parcial ativado e sangramento).
    • Red flag: antiagregantes (AAS/clopidogrel) não tratam embolia pulmonar e aumentam risco hemorrágico.
    • Na insuficiência renal, se só anticoagular, prefira heparina não fracionada (controle fino e reversibilidade).
    • UTI para monitorização contínua pós-trombólise: hemodinâmica, oxigenação e sangramento nas primeiras horas.

    Questão 93Intussuscepção intestinal

    Menino, um ano de idade, apresenta dor abdominal em cólica, vômitos e distensão abdominal há 8 horas. Exame físico: abdômen distendido, sem sinais de irritação peritoneal e ruídos hidroaéreos aumentados. Toque retal: presença de sangue na ampola retal, sem qualquer outra alteração. Qual é o exame complementar mais adequado?

    • A)

      RX contrastado de abdome

    • B)

      Tomografia de abdome

    • C)

      Colonoscopia

    • D)

      Ultrassonografia de abdome

    Gabarito: D.

    Âncora de memorização: Lactente 6–36 meses com dor em cólica + vômitos + sangue em fezes/toque retal → pensar em invaginação intestinal (intussuscepção). Exame de primeira linha: ultrassonografia com sinais de "alvo/rosca" e "pseudorrim".

    O que é: Invaginação é a telescopagem de um segmento intestinal sobre outro, causando obstrução e isquemia.

    Por que importa: É causa mais comum de obstrução intestinal em lactentes; atraso diagnóstico aumenta risco de necrose/perfuração.

    Como identificar:

    - Quadro típico: dor súbita e intermitente (cólica), vômitos, distensão, irritabilidade, fezes com sangue (por vezes “geleia de morango”), toque retal com sangue. Como visto na imagem a seguir:

    Al-Salem, A.H. (2020). Intussusception. Atlas of Pediatric Surgery. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-29211-9_36

    - Exame padrão inicial: USG de abdome (alta acurácia, sem radiação, identifica sinal do alvo/pseudorrim).

    Como manejar (visão geral): Estabilizar (via aérea/volemia), jejum, descompressão gástrica, analgesia, e redução por enema pneumático ou com contraste hidrossolúvel guiado por imagem se sem sinais de perfuração/peritonite. Cirurgia se instabilidade, peritonite, perfuração ou falha do enema.


    Conduta & Posologia

    • Estabilização hemodinâmica: Cristaloide (SF 0,9% ou Ringer): 20 mL/kg em bolus, repetir conforme perfusão/lactato.
    • Jejum e descompressão: Sonda orogástrica para descompressão e jejum absoluto.
    • Analgésia antiemética: Dipirona 10–15 mg/kg VO/IV 6/6–8/8h; Morfina 0,05–0,1 mg/kg IV se dor intensa; Ondansetrona 0,15 mg/kg IV (máx. 4 mg).
    • Antibiótico (se febre, toxemia, suspeita de perfuração/peritonite): Ceftriaxona 50–75 mg/kg/dia IV + Metronidazol 7,5–10 mg/kg IV 8/8h.
    • Redução não operatória (diagnóstica/terapêutica): Enema pneumático ou com contraste hidrossolúvel, guiado por fluoroscopia ou USG, realizado por equipe experiente.
    • Contraindicações de enema: peritonite, choque não controlado, perfuração suspeita/confirmada.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar todos para observação pós-redução. UTI se choque, sepse, necessidade de suporte avançado, lactato elevado, peritonite.
    • Ajustes e cautelas: Em DRC/Child-Pugh, ajustar antibióticos conforme função renal/hepática; ondansetrona com cautela em QT longo; opióides com monitorização respiratória.
    • Tempo de reavaliação: Monitorização contínua nas primeiras 12–24 h (dor, distensão, RUQ massa, sinais vitais). Recidiva pode ocorrer nas primeiras 24–48 h.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) RX contrastado de abdome

    Alternativa incorreta. O enema contrastado é diagnóstico/terapêutico, porém não é o exame complementar inicial mais adequado para confirmação. Primeiro método de imagem: USG. Enema é indicado após estabilização e ausência de sinais de perfuração.

    ❌ B) Tomografia de abdome

    Alternativa incorreta. TC envolve radiação, não é necessária na maior parte dos casos pediátricos e não é primeira linha. Reserva-se para dúvida diagnóstica atípica ou complicações quando USG é inconclusiva e não disponível.

    ❌ C) Colonoscopia

    Alternativa incorreta. Não é exame de escolha para invaginação no lactente; não diagnostica/resolve a forma ileocólica típica. Risco de perfuração e não avalia adequadamente intestino delgado.

    ✅ D) Ultrassonografia de abdome

    Alternativa correta. USG é o método de imagem inicial de escolha por alta acurácia, ausência de radiação e disponibilidade. Achados clássicos: sinal do alvo/rosca no plano axial e pseudorrim no longitudinal.


    Take-home message

    • Lactente com dor em cólica + vômitos + sangue ao toque retal = forte suspeita de invaginação intestinal.
    • Exame inicial de escolha: Ultrassonografia (sinais do alvo/pseudorrim).
    • Estabilize primeiro: cristaloide 20 mL/kg, jejum, sonda OG, analgesia adequada.
    • Tratamento de primeira linha se sem peritonite/perfuração: enema pneumático/hidrossolúvel guiado por imagem.
    • Evite enema se peritonite/choque não controlado/perfuração.
    • Internação obrigatória para observação 12–24 h; recidiva possível nas primeiras 48 h.

    Questão 95Nódulos de Pulmão e Câncer de pulmão

    Mylena, 42 anos, fuma 50 cigarros/dia desde os 16 anos. Seu Fagerström é igual a 10. Na escala de razões para fumar, declara que fuma para controlar o peso, para mediar situações de estresse e ansiedade e porque o cigarro é uma companhia. Diz que não consegue nem imaginar tentar parar de fumar e que, por isso, nunca tentou fazê-lo. Declara não se ver sem o cigarro. Recentemente, Mylena foi diagnosticada com neoplasia de pulmão. Nesse caso, a abordagem a essa fumante deve considerar:

    • A)

      uso de vapers para iniciar o processo de mudança;

    • B)

      cessação do tabagismo sem uso de suporte farmacoterápico;

    • C)

      cessação do tabagismo com uso de reposição de nicotina apenas;

    • D)

      entrevista motivacional, com o suporte comportamental e farmacoterápico necessário;

    • E)

      prescrição de bupropiona para cessação do tabagismo.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em paciente fortemente dependente (Fagerström ≥ 6), especialmente com neoplasia de pulmão, a conduta-padrão é abordagem intensiva: entrevista motivacional + suporte comportamental estruturado + farmacoterapia de 1ª linha. Reduz recaída e melhora desfechos oncológicos.


    Epidemiologia e Etiologia


    • Carga no Brasil: Tabagismo é a principal causa evitável de morte. Em oncologia, parar fumar após o diagnóstico reduz mortalidade e complicações do tratamento (quimio/radioterapia) e risco de segundo tumor.

    • Dependência de nicotina: Transtorno por uso de tabaco (CID-10 F17). Fisiopatologia: reforço dopaminérgico mesolímbico + sintomas de abstinência (ansiedade, irritabilidade, aumento de apetite) que perpetuam o uso.


    Diagnóstico


    • Gravidade da dependência: Teste de Fagerström ≥ 6 = alta dependência; 10 = máxima. Indica maior benefício da terapêutica farmacológica combinada.

    • Estágio motivacional: Pré-contemplação ("não consigo imaginar parar"). Indica necessidade de entrevista motivacional para aumentar prontidão, sem confrontação.

    • Contexto oncológico: Intervenção deve ser imediata: cessação melhora resposta ao tratamento, cicatrização e prognóstico.


    Conduta & Posologia


    • Primeira linha (abordagem combinada): Entrevista motivacional + terapia cognitivo-comportamental breve + farmacoterapia. Preferir terapia de reposição de nicotina combinada (adesivo + forma de ação rápida) ou vareniclina, conforme disponibilidade e perfil clínico. Fonte: INCA/MS, Diretrizes brasileiras de tratamento do tabagismo.

    • Terapia de reposição de nicotina (TRN) – esquema combinado:

      • Adesivo transdérmico de nicotina: 21 mg/24h por 6–8 semanas, depois 14 mg/24h por 2–4 semanas, depois 7 mg/24h por 2–4 semanas. Aplicar em pele íntegra, rotacionando sítios.

      • Goma/pastilha de nicotina: 2 mg a cada 1–2 h (máx 24 gomas/dia) ou pastilha 2–4 mg (máx 15 pastilhas/dia) por 8–12 semanas, reduzindo gradualmente. Indicado para picos de craving.

      • Ajustes/precauções: Evitar uso simultâneo de outros produtos com nicotina não prescritos. Em gestação, priorizar estratégias não farmacológicas; se necessário, TRN de curta ação com avaliação especializada. Em dermatite de contato, preferir formas orais.

      • Efeitos adversos relevantes: Adesivo: irritação cutânea, insônia se mantido à noite. Goma/pastilha: dispepsia, soluços.

    • Vareniclina (quando disponível):

      • Posologia: Iniciar 1–2 semanas antes do Dia D. Dia 1–3: 0,5 mg VO 1x/dia; Dia 4–7: 0,5 mg VO 12/12h; a partir do Dia D: 1 mg VO 12/12h por 12 semanas.

      • Ajuste em doença renal: TFG < 30 mL/min: iniciar e manter até 0,5 mg VO 1–2x/dia; em hemodiálise: máx 0,5 mg/dia.

      • Efeitos adversos: Náusea, insônia, sonhos vívidos. Monitorar humor/ideação suicida em histórico psiquiátrico.

    • Bupropiona (opção de 1ª linha, avaliar perfil):

      • Posologia: Iniciar 1–2 semanas antes do Dia D: 150 mg VO pela manhã por 3 dias, depois 150 mg VO 12/12h por 7–12 semanas.

      • Contraindicações: epilepsia/convulsões, transtornos alimentares, uso de inibidor da monoaminoxidase nos últimos 14 dias, abstinência abrupta de álcool/benzodiazepínicos, insuficiência hepática grave.

      • Ajustes: Doença renal (TFG reduzida): considerar 150 mg VO 1x/dia. Cirrose: reduzir para 150 mg VO em dias alternados.

      • Efeitos adversos: Insônia, boca seca, ansiedade; raro: convulsão (risco dose-dependente).

    • Suporte comportamental estruturado: Entrevista motivacional (explorar ambivalência, escala de importância/confiança, eliciar razões pessoais), plano de Dia D, manejo de gatilhos, prevenção de recaída, manejo de peso/ansiedade.

    • Dispositivos eletrônicos para fumar (vapers): Proibidos no Brasil (ANVISA RDC nº 46/2009). Não são terapia para cessação; evidências de eficácia/segurança são insuficientes e há risco de dependência e lesão pulmonar.

    • Critérios de internação vs ambulatorial: Manejo é ambulatorial. Encaminhar/avaliar urgência se ideação suicida, psicose/abstinência complicada ou intercorrências clínicas agudas. Reavaliação semanal nas primeiras 4–6 semanas.


    Mini-exemplo: Fagerström 10 + câncer de pulmão + baixa prontidão: iniciar MI imediata, marcar Dia D nas próximas 2–4 semanas, prescrever adesivo 21 mg + goma 2 mg e agendar seguimento semanal.


    Discussão das alternativas


    ✅ D) entrevista motivacional, com o suporte comportamental e farmacoterápico necessário;

    Alternativa correta. Em alta dependência e cenário oncológico, a conduta baseada em diretrizes brasileiras é combinar entrevista motivacional + suporte comportamental + farmacoterapia (TRN combinada e/ou vareniclina; bupropiona conforme perfil). A abordagem integrada dobra as taxas de abstinência e reduz eventos adversos do tratamento oncológico.


    ❌ A) uso de vapers para iniciar o processo de mudança;

    Alternativa incorreta. Dispositivos eletrônicos para fumar têm comercialização proibida no Brasil (ANVISA RDC nº 46/2009) e não são recomendados como tratamento. Há risco de manutenção da dependência e eventos pulmonares.


    ❌ B) cessação do tabagismo sem uso de suporte farmacoterápico;

    Alternativa incorreta. Em Fagerström 10, "apenas aconselhamento" tem baixa eficácia. Diretrizes recomendam farmacoterapia para reduzir sintomas de abstinência e craving. O adequado é aconselhamento + fármaco de 1ª linha.


    ❌ C) cessação do tabagismo com uso de reposição de nicotina apenas;

    Alternativa incorreta. Embora a TRN seja 1ª linha, apenas farmacoterapia sem suporte comportamental é inferior. Além disso, em dependência muito alta, prefere-se TRN combinada (adesivo + curta ação) associada a intervenção comportamental estruturada.


    ❌ E) prescrição de bupropiona para cessação do tabagismo.

    Alternativa incorreta. Foca apenas no fármaco e ignora a entrevista motivacional e o suporte comportamental indispensáveis. Além disso, em dependência máxima, a TRN combinada ou vareniclina tendem a maior eficácia. Bupropiona é opção, mas deve integrar plano multimodal e respeitar contraindicações.


    Take-home message

    • Alta dependência (Fagerström ≥ 6) e câncer de pulmão exigem abordagem intensiva: entrevista motivacional + suporte comportamental + farmacoterapia.
    • TRN combinada: adesivo 21→14→7 mg/24h por 10–16 semanas + goma/pastilha 2 mg a cada 1–2 h para craving.
    • Vareniclina (quando disponível): titular até 1 mg 12/12h por 12 semanas; ajustar em DRC grave.
    • Bupropiona: 150 mg manhã 3 dias → 150 mg 12/12h, iniciar 1–2 semanas antes do Dia D; atenção a contraindicações.
    • Red flag: Vapers são proibidos (ANVISA RDC 46/2009) e não são terapia de cessação.
    • Reavaliação semanal nas primeiras 4–6 semanas aumenta a abstinência e previne recaídas.

    Questão 96Taquiarritmias

    Durante o atendimento de uma Parada Cardiorrespiratória (PCR) em ritmo chocável (Fibrilação Ventricular - FV ou Taquicardia Ventricular sem Pulso - TVSP), a administração de drogas antiarrítmicas segue um protocolo específico após falha das tentativas iniciais de desfibrilação e uso de vasopressor. Segundo as diretrizes de Ressuscitação Cardiopulmonar (RCP), a Amiodarona é o antiarrítmico de primeira escolha. Assinale a alternativa correta de acordo com as diretrizes atuais de ressuscitação cardiopulmonar para ritmos chocáveis.

    • A)

      A dose inicial de Amiodarona é de 300 mg em bolus IV/IO, administrada se a FV/TVSP persistir após o terceiro choque.

    • B)

      A Lidocaína é a primeira escolha absoluta, na dose de 3 mg/kg, devendo substituir a Amiodarona em todos os casos de FV/TVSP.

    • C)

      A dose inicial de Amiodarona é de 150 mg em bolus IV/IO, administrada imediatamente após o primeiro choque.

    • D)

      A Amiodarona deve ser administrada em infusão contínua de 900 mg em 24 horas, sem dose de ataque em bolus durante a PCR.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em ritmos chocáveis (Fibrilação Ventricular e Taquicardia Ventricular sem pulso), a sequência padrão é: desfibrilação precoce + compressões de alta qualidade + vasopressor (após ciclos iniciais) + amiodarona 300 mg IV/IO após o 3º choque.

    Epidemiologia e Etiologia

    • Ritmos chocáveis respondem melhor à desfibrilação precoce; são causa frequente de Parada Cardiorrespiratória (PCR) extra-hospitalar de etiologia isquêmica.
    • No Brasil, diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia padronizam o uso de amiodarona como antiarrítmico de primeira linha na PCR refratária à desfibrilação.

    Diagnóstico

    • Definição operacional: PCR em ritmo chocável = ausência de pulso central palpável associada a Fibrilação Ventricular (FV) ou Taquicardia Ventricular sem pulso (TVSP) no monitor.
    • Padrão-ouro: Monitor/DEA identificando FV/TVSP e indicação de choque/desfibrilação.
    • O que muda a conduta: Persistência de FV/TVSP após tentativas de desfibrilação e vasopressor abre indicação para antiarrítmico (amiodarona).

    Conduta & Posologia

    • Amiodarona (primeira escolha na PCR FV/TVSP refratária): Dose de ataque: 300 mg IV/IO em bolus se FV/TVSP persistir após o 3º choque. Pode-se repetir 150 mg IV/IO em bolus se refratária após choques subsequentes.
    • Manutenção (pós-retorno da circulação espontânea, se indicado): 900 mg em 24 h (ex.: 1 mg/min por 6 h, depois 0,5 mg/min por 18 h). Não iniciar infusão contínua durante a PCR.
    • Alternativa (quando amiodarona indisponível/contraindicada): Lidocaína ataque 1–1,5 mg/kg IV/IO; doses adicionais de 0,5–0,75 mg/kg a cada 5–10 min, dose total máxima 3 mg/kg.
    • Vasopressor (contexto para sequência): Adrenalina 1 mg IV/IO a cada 3–5 min nos ciclos apropriados da RCP para ritmos chocáveis refratários (conforme diretriz vigente).
    • Contraindicações relevantes (contexto de PCR): Não há contraindicação absoluta à amiodarona na PCR; evitar lidocaína em bloqueios avançados sem marca-passo.
    • Efeitos adversos-chave (amiodarona em bolus): hipotensão e bradicardia; flebite em acesso periférico. Lidocaína: depressão miocárdica, convulsões em superdose.
    • Ajustes: Em PCR, sem ajustes práticos imediatos. Pós-ROSC: cautela com amiodarona em insuficiência hepática; lidocaína requer redução em insuficiência hepática/idosos.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Pós-ROSC, todos devem ir à UTI com protocolo pós-parada (temperatura alvo, hemodinâmica, coronariografia quando indicado).

    Mini-exemplo: Após 3 choques eficazes e adrenalina no ciclo recomendado, a FV persiste: administre amiodarona 300 mg IV/IO em bolus; se mantiver FV após novo choque, repetir 150 mg.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) A dose inicial de Amiodarona é de 300 mg em bolus IV/IO, administrada se a FV/TVSP persistir após o terceiro choque.

    Alternativa correta. Diretriz brasileira de RCP recomenda amiodarona 300 mg IV/IO em bolus após falha de três choques em FV/TVSP, com possibilidade de repetir 150 mg se refratária.

    ❌ B) A Lidocaína é a primeira escolha absoluta, na dose de 3 mg/kg, devendo substituir a Amiodarona em todos os casos de FV/TVSP.

    Alternativa incorreta. A primeira escolha é a amiodarona. A lidocaína é alternativa quando amiodarona é indisponível/contraindicada. Além disso, a dose inicial correta de lidocaína é 1–1,5 mg/kg, com incrementos de 0,5–0,75 mg/kg, máximo 3 mg/kg (não como dose única).

    ❌ C) A dose inicial de Amiodarona é de 150 mg em bolus IV/IO, administrada imediatamente após o primeiro choque.

    Alternativa incorreta. A dose de ataque na PCR é 300 mg, não 150 mg. O momento também está incorreto: indica-se após refratariedade a três choques, não imediatamente após o primeiro.

    ❌ D) A Amiodarona deve ser administrada em infusão contínua de 900 mg em 24 horas, sem dose de ataque em bolus durante a PCR.

    Alternativa incorreta. Durante a PCR, utiliza-se bolus de amiodarona. A infusão contínua de 900 mg/24 h é regime de manutenção pós-retorno da circulação espontânea, não substitui a dose de ataque.


    Você sabe identificar uma das principais taquiarritmias? 👀Fique de olho no ECG abaixo.

    ECG de 12 derivações de um paciente com Fibrilação Ventricular. 

    Fonte: Uptodate. Acesso em 17 de Abril de 2026.


    Take-home message

    • Ritmo chocável refratário: após 3 choques e RCP de alta qualidade, usar amiodarona 300 mg IV/IO em bolus; pode repetir 150 mg.
    • Lidocaína é alternativa: 1–1,5 mg/kg + reforços 0,5–0,75 mg/kg até 3 mg/kg total.
    • Infusão contínua (ex.: 900 mg/24 h) é para manutenção pós-ROSC; não substitui o bolus durante a PCR.
    • Red flag: Não atrasar desfibrilação e compressões por preparo de drogas; antiarrítmico nunca antecede o choque.
    • Mantenha adrenalina 1 mg IV/IO a cada 3–5 min nos ciclos indicados para ritmos chocáveis refratários.
    • Pós-ROSC: encaminhar à UTI e iniciar cuidados pós-parada (temperatura alvo, hemodinâmica, investigação da causa).


    Referências

    • Fonte: Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência (2019). Disponível em: https://abccardiol.org/wp-content/uploads/articles_xml/0066-782X-abc-113-03-0430/0066-782X-abc-113-03-0430.pdf. Acesso em: 15/04/2026.
    • Fonte: American Heart Association. Adult Advanced Cardiovascular Life Support (ACLS) – Guidelines Update (2020). Disponível em: https://cpr.heart.org. Acesso em: 15/04/2026. (usada apenas como suporte quando não especificado nas nacionais)

    Questão 98Questão

    Letícia está na 10ª semana de gestação. Diante do aumento de casos de gripe entre familiares e conhecidos, ela foi à unidade básica de saúde para saber se precisava tomar a vacina contra influenza. Na análise em seu prontuário, verificou-se que sua última vacina havia sido no ano anterior. Em relação a esse caso, é correto afirmar que:

    • A)

      não se recomenda a vacina nesse estágio da gestação;

    • B)

      não é necessário o reforço da vacina, pois ela confere imunidade por 10 anos;

    • C)

      deve-se evitar a vacina na gestação;

    • D)

      a paciente deve ser revacinada;

    • E)

      a vacina deve ser tomada, por segurança, após 12 semanas de gestação.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Gestante é grupo prioritário para influenza e deve receber vacina em qualquer idade gestacional, com revacinação anual.


    Epidemiologia e Etiologia


    • Por que importa: Gestantes têm maior risco de complicações por influenza (pneumonia, hospitalização e óbito) e de desfechos adversos perinatais. A vacinação reduz internações maternas e eventos graves.

    • Cenário brasileiro: O Ministério da Saúde inclui gestantes como público-alvo da campanha anual de influenza, independentemente do trimestre gestacional.


    Diagnóstico


    • Definição operacional (prova): Indicação de vacina influenza para gestante: toda gestante, em qualquer trimestre, mesmo que tenha se vacinado no ano anterior.

    • Padrão-ouro de conduta preventiva: Vacina influenza inativada, dose única anual, preferencialmente durante a campanha; fora da campanha, vacinar na primeira oportunidade.


    Conduta & Posologia


    • Esquema vacinal na gestação: 0,5 mL intramuscular (deltoide), dose única anual, com revacinação a cada nova campanha.

    • Momento na gestação: Qualquer idade gestacional (1º, 2º ou 3º trimestre). Não há necessidade de aguardar 12 semanas.

    • Tipo de vacina: Vírus inativado (trivalente/quadrivalente, conforme disponibilizado no SUS na campanha vigente).

    • Contraindicações: Anafilaxia prévia a dose anterior ou a componente da vacina. Alergia a ovo não é contraindicação absoluta; realizar em ambiente com observação pós-vacinal quando história de reação grave prévia.

    • Efeitos adversos relevantes: Dor e rubor no local, febre baixa e mialgia autolimitadas em 24–48 horas.

    • Interações/precauções: Adiar se doença febril aguda moderada a grave. Anticoaguladas podem receber via intramuscular com compressão local prolongada.

    • Critérios de encaminhamento/observação: Rotina ambulatorial em UBS. Observação 15–30 min pós-vacina em casos com história de alergia importante.


    Discussão das alternativas


    ✅ D) a paciente deve ser revacinada;

    Alternativa correta. Revacinação anual é obrigatória, independentemente de dose no ano anterior e do trimestre atual da gestação.


    ❌ A) não se recomenda a vacina nesse estágio da gestação;

    Alternativa incorreta. A vacina é recomendada em qualquer trimestre, inclusive na 10ª semana. Adiar aumenta risco de influenza e complicações.


    ❌ B) não é necessário o reforço da vacina, pois ela confere imunidade por 10 anos;

    Alternativa incorreta. A proteção da vacina influenza é anual devido à deriva antigênica do vírus. A recomendação é revacinar todo ano (dose 0,5 mL IM).


    ❌ C) deve-se evitar a vacina na gestação;

    Alternativa incorreta. Vacina influenza inativada é segura e indicada para gestantes; evita formas graves e hospitalização.


    ❌ E) a vacina deve ser tomada, por segurança, após 12 semanas de gestação.

    Alternativa incorreta. Não há necessidade de aguardar o 2º trimestre; a aplicação é recomendada desde o 1º trimestre. Adiar posterga proteção em período epidêmico.


    Take-home message

    • Gestante é grupo prioritário: vacinar contra influenza em qualquer trimestre.
    • Proteção é anual: 0,5 mL IM, dose única a cada campanha.
    • Vacina inativada é segura na gestação; não esperar 12 semanas.
    • Red flag: Contraindicar apenas em anafilaxia prévia a dose/componente.
    • Se não vacinou na campanha, aplique na primeira oportunidade na UBS.

    Questão 98Anemia Ferropriva

    Lactente de 18 meses, em aleitamento materno exclusivo e sem introdução de alimentos ricos em ferro, apresenta palidez e irritabilidade. O hemograma revela hemoglobina de 8,5 g/dL, VCM de 68 fL (baixo) e RDW de 18% (alto). Qual o achado laboratorial a seguir é o MAIS precoce e sensível para o diagnóstico de deficiência de ferro, mesmo antes do desenvolvimento da anemia franca?

    • A)

      Reticulócitos aumentados.

    • B)

      VCM aumentado.

    • C)

      Ferritina sérica baixa.

    • D)

      Esferócitos no esfregaço.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Na deficiência de ferro, o marcador laboratorial mais precoce e sensível é a ferritina sérica baixa, desde que não haja inflamação (ferritina = proteína de estoque e reagente de fase aguda).


    O que é: Anemia ferropriva é a anemia por depleção de ferro, levando a eritropoiese ineficaz e microcitose.


    Por que importa: Em lactentes, o déficit de ferro associa-se a atraso do desenvolvimento neuropsicomotor; diagnóstico e reposição precoces reduzem dano.


    Como identificar (fisiopatologia mínima): O esgotamento do ferro segue estágios: (1) depleção de estoques → ferritina cai; (2) eritropoiese deficiente em ferro → saturação de transferrina cai, RDW sobe; (3) anemia franca → Hb cai, VCM reduz.


    Achados laboratoriais típicos: Hb baixa, VCM baixo (microcitose), RDW alto (anisocitose), ferritina baixa (exceto se inflamação), saturação de transferrina baixa, ferro sérico baixo, TIBC/CTLF alto.


    Armadilha de prova: Ferritina é reagente de fase aguda e pode estar normal/alta em infecção/inflamação; porém ferritina baixa é específica para deficiência de ferro.


    Conduta & Posologia


    • Reposição de ferro (via oral, 1ª linha): 3 mg/kg/dia de ferro elementar em 1 tomada/dia (pode fracionar até 6 mg/kg/dia em anemia moderada-grave), por 3 meses após normalizar Hb (curso total 3–6 meses).

    • Exemplo prático (sulfato ferroso xarope 25 mg/mL de ferro elementar): lactente 10 kg → 30 mg/dia (≈1,2 mL) VO, 1x/dia, fora das refeições.

    • Monitorização de resposta: reticulocitose em 7–10 dias; Hb sobe ≈ 1 g/dL em 2–4 semanas; normalização do VCM e ferritina até 2–3 meses.

    • Ajustes/considerações: DRC/Child-Pugh: preferir avaliação individual; via oral mantida se tolerada. Gestação (para adolescentes): 40–60 mg/dia ferro elementar profilático; terapêutico 100–200 mg/dia, conforme diretriz obstétrica.

    • Interações: leite, cálcio, inibidores de bomba, fitatos diminuem absorção; vitamina C aumenta absorção. Administrar longe de laticínios e antiácidos.

    • Efeitos adversos: náuseas, dor abdominal, constipação, escurecimento das fezes. Reduzir dose ou fracionar se intolerância.

    • Contraindicações: Hemocromatose/sobrecarga de ferro, anemias não ferroprivas (ex.: talassemias) sem comprovação de deficiência.

    • Quando considerar ferro IV / internação: falha/intolerância grave à via oral; má-absorção; necessidade de reposição rápida; anemia grave com instabilidade. Internar se Hb ≲ 5–6 g/dL com sinais de hipóxia/ICC, ou sangramento ativo.

    • Reavaliação: 2–4 semanas para Hb e sintomas; 8–12 semanas para ferritina/meta de reposição.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Reticulócitos aumentados.

    Alternativa incorreta. Na deficiência de ferro, há hiporreticulocitose (produção medular reduzida). Reticulocitose ocorre após iniciar ferro, tipicamente em 7–10 dias.


    ❌ B) VCM aumentado.

    Alternativa incorreta. A anemia ferropriva é microcítica, com VCM baixo. VCM aumentado sugere deficiência de B12/folato, hipotireoidismo, entre outros.


    ✅ C) Ferritina sérica baixa.

    Alternativa correta. A ferritina reflete o estoque de ferro; é o marcador mais precoce e sensível da deficiência antes de surgir anemia/ microcitose. Limitação: é reagente de fase aguda; em inflamação pode estar normal/alta, mas ferritina baixa confirma deficiência.


    ❌ D) Esferócitos no esfregaço.

    Alternativa incorreta. Esferócitos indicam esferocitose hereditária ou hemólise autoimune, não deficiência de ferro.


    Take-home message

    • Ferritina sérica baixa é o achado mais precoce e sensível da deficiência de ferro (semeada por ausência de inflamação).
    • Anemia ferropriva típica: Hb baixa, VCM baixo, RDW alto, ferro e saturação de transferrina baixos, TIBC alto.
    • Tratamento padrão: ferro elementar 3 mg/kg/dia VO, por 3 meses após normalizar Hb; reticulócitos 7–10 dias, Hb +1 g/dL em 2–4 semanas.
    • Cuidado: ferritina é reagente de fase aguda; se inflamação, usar ponto de corte mais alto ou apoiar-se em saturação de transferrina/índice reticulocitário.
    • Evite erros: reticulocitose não é marcador inicial de deficiência de ferro; ocorre após reposição.

    Questão 100Intoxicações exógenas no trabalhador

    Homem de 52 anos atua, há 25 anos, na aplicação de agrotóxicos em lavouras de grande escala. Ele relata contato frequente com defensivos dos grupos organofosforados e carbamatos, muitas vezes com equipamento de proteção individual inadequado. Nos últimos dois anos, vem apresentando fraqueza muscular progressiva, fasciculações, dores de cabeça persistentes e lapsos de memória. Ele evolui com episódio de tontura intensa, visão turva e dificuldade respiratória durante a jornada de trabalho, sendo hospitalizado. O exame físico revela: miose simétrica, bradicardia, salivação excessiva e tremores nas extremidades.

    Considerando o quadro clínico e o histórico ocupacional apresentados, é correto afirmar que

    • A)

      a dosagem da atividade da acetilcolinesterase no plasma e nos eritrócitos, que se espera estar reduzida, constitui um exame laboratorial que confirma o diagnóstico.

    • B)

      a principal hipótese diagnóstica é a de intoxicação crônica por agrotóxicos agonistas da colinesterase, com uma agudização recente do quadro.

    • C)

      a sintomatologia de tontura e visão turva sugere uma intoxicação por piretroides, que atuam principalmente nos canais de sódio do sistema nervoso.

    • D)

      o quadro neurológico com fraqueza muscular e fasciculações é compatível com a síndrome avançada medular, uma complicação conhecida nesse tipo de exposição ocupacional.

    • E)

      o tratamento, na fase aguda, inclui atropina para o controle dos efeitos muscarínicos e um agente quelante, como o EDTA, para remover os tóxicos da corrente sanguínea do paciente.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Organofosforados e carbamatos são inibidores da acetilcolinesterase (AChE), causando síndrome colinérgica (muscarínica, nicotínica e central). Diagnóstico é clínico e é confirmado por redução da atividade colinesterásica (plasmática e eritrocitária).


    O que é: Intoxicação aguda e/ou crônica por inibidores de AChE. Carbamatos inibem de forma reversível; organofosforados sofrem “aging” (inibição irreversível com o tempo) da enzima.


    Por que importa: Alta letalidade por broncorreia/broncoespasmo, depressão respiratória e choque. Tratamento é tempo-dependente (oximas antes do aging) e guiado por sinais.


    Como identificar: - Muscarínico: miose, sialorreia, broncorreia, bradicardia, diarreia, vômitos, sudorese. - Nicotínico: fraqueza, fasciculações, paralisia respiratória. - Central: cefaleia, confusão, convulsões, coma. - Laboratório: atividade de butirilcolinesterase plasmática (pseudocholinesterase) e acetilcolinesterase eritrocitária reduzidas; AChE eritrocitária reflete melhor bloqueio sináptico.


    Armadilha de prova: piretroides agem em canais de sódio, cursam com parestesias e hiperexcitabilidade; não explicam quadro colinérgico com miose/bradicardia/broncorreia.


    Conduta & Posologia

    • Descontaminação: Remover roupas, banho com água e sabão. Não atrasar atropina por descontaminação.

    • Atropina (muscarínico): Adultos: 2 mg IV em bolus, repetir a cada 3–5 min dobrando a dose até atropinização clínica (pulmões secos, FC > 80 bpm, PAS > 80 mmHg, midríase não é alvo). Manutenção: 10–20% da dose de carga por hora em infusão contínua, titulando conforme secreção brônquica.

    • Oxima (reativador de AChE): Preferir em organofosforado ou intoxicação grave. Pralidoxima: 30 mg/kg IV em 20–30 min, seguida de 8–10 mg/kg/h por 24–48 h (ou 1–2 g IV, depois 0,5 g/h). Ajuste em DRC: reduzir manutenção (ex.: 50% se ClCr < 20 mL/min). Obidoxima: 250 mg IV, repetir conforme resposta (onde disponível).

    • Convulsões: Benzodiazepínico (diazepam 10 mg IV, repetir; ou midazolam).

    • Via aérea: Oxigênio, aspiração, ventilação. Evitar succinilcolina (apneia prolongada por inibição de colinesterase).

    • O que não usar: Quelantes (EDTA, BAL) não têm papel; evitar fenotiazinas, teofilina e morfina.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar todos sintomáticos. UTI se insuficiência respiratória, necessidade de altas doses de atropina/infusão, bradicardia/choque, convulsões, acidose/lactato elevados.

    • Monitorização: Sinais respiratórios, secreções, FC/PA, temperatura. Dosar colinesterases para confirmar/seguimento (queda > 50% sugere exposição significativa).

    Discussão das alternativas

    ✅ A) a dosagem da atividade da acetilcolinesterase no plasma e nos eritrócitos, que se espera estar reduzida, constitui um exame laboratorial que confirma o diagnóstico.

    Alternativa correta. O quadro é típico de síndrome colinérgica em trabalhador exposto a organofosforados/carbamatos. A redução de butirilcolinesterase plasmática e de acetilcolinesterase eritrocitária confirma exposição/efeito; AChE eritrocitária correlaciona-se melhor com gravidade clínica.

    ❌ B) a principal hipótese diagnóstica é a de intoxicação crônica por agrotóxicos agonistas da colinesterase, com uma agudização recente do quadro.

    Alternativa incorreta. O termo está errado: organofosforados/carbamatos são inibidores, não “agonistas”, da colinesterase. Embora haja elementos de exposição crônica com agudização, a nomenclatura incorreta torna a assertiva falsa em prova.

    ❌ C) a sintomatologia de tontura e visão turva sugere uma intoxicação por piretroides, que atuam principalmente nos canais de sódio do sistema nervoso.

    Alternativa incorreta. Piretroides atuam em canais de sódio, mas o paciente tem miose, bradicardia, sialorreia e broncorreia, compatíveis com síndrome colinérgica, não com intoxicação por piretroides.

    ❌ D) o quadro neurológico com fraqueza muscular e fasciculações é compatível com a síndrome avançada medular, uma complicação conhecida nesse tipo de exposição ocupacional.

    Alternativa incorreta. Fraqueza e fasciculações decorrem de efeitos nicotínicos periféricos na junção neuromuscular. “Síndrome avançada medular” não é entidade reconhecida. Complicações tardias clássicas: síndrome intermediária e neuropatia periférica retardada (OPIDN).

    ❌ E) o tratamento, na fase aguda, inclui atropina para o controle dos efeitos muscarínicos e um agente quelante, como o EDTA, para remover os tóxicos da corrente sanguínea do paciente.

    Alternativa incorreta. Não há papel para quelantes (EDTA) em organofosforados/carbamatos. O antídoto específico é a oxima (pralidoxima/obidoxima), que reativa a AChE antes do aging, além da atropina.


    Mensagem para levar para casa:

    • Síndrome colinérgica em exposto a agrotóxicos = pensar em organofosforados/carbamatos (inibidores de AChE).
    • Confirmação laboratorial: redução de butirilcolinesterase plasmática e AChE eritrocitária; AChE-RBC correlaciona melhor com gravidade.
    • Tratamento de primeira linha: Atropina em bolus repetidos até pulmões secos + suporte ventilatório.
    • Antídoto específico: Pralidoxima 30 mg/kg IV, depois 8–10 mg/kg/h (especialmente organofosforados/severo).
    • Red flag: Quelantes (EDTA) não funcionam e evitar succinilcolina.
    • Internar todo paciente sintomático; UTI se insuficiência respiratória, convulsões ou necessidade de altas doses de atropina.