SIMULACRO CACES/ECUADOR - MEDICINA 2026: correção comentada

    SIMULACRO CACES/ECUADOR - MEDICINA 2026

    Questão 1 — Insuficiência Cardíaca

    Um paciente de 60 anos de idade apresentou dispneia progressiva aos esforços, ortopneia e edema de membros inferiores. O exame físico mostrou B3 presente e turgência jugular elevada. A radiografia de tórax evidenciou cardiomegalia difusa. Nesse caso, qual é o exame de escolha para avaliar com precisão as funções sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo nesse paciente?

    • A)

      Eletrocardiograma de repouso

    • B)

      Ecocardiograma transtorácico

      ✓
    • C)

      Radiografia de tórax

    • D)

      Tomografia computadorizada de tórax

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de prova: Na avaliação inicial da insuficiência cardíaca (IC) com sinais de congestão, o exame de escolha para mensurar com precisão as funções sistólica e diastólica do VE é o ecocardiograma transtorácico (ETT) com Doppler.


    O que é: Ecocardiograma transtorácico é método ultrassonográfico que avalia morfologia, volumes, fração de ejeção (FEVE) e hemodinâmica por Doppler (fluxos e velocidades tecidual/valvar).


    Por que importa: Define fenótipo de IC (FE reduzida, levemente reduzida, preservada), identifica etiologias/agravos (valvopatias, cardiomiopatias), estratifica risco e orienta terapia.


    Como identificar: FEVE (Simpson biplano), volumes indexados, espessuras; diástole por Doppler transmitral (E/A), onda e' (Tissue Doppler), relação E/e' (estimativa de pressões de enchimento), volume do átrio esquerdo, velocidade da regurgitação tricúspide, pressão sistólica pulmonar.


    Padrão-ouro prático: Para função sistólica/diastólica na beira do leito, ETT é o método recomendado pela diretriz; a ressonância cardíaca é gold standard anatômico/tecidual, mas não é exame de primeira linha para função diastólica em cenário geral.


    Conduta & Posologia


    • Descompensação congestiva (alívio de sintomas): Furosemida IV inicial 20–40 mg, titular a cada 2–4 h conforme diurese/PA; em uso domiciliar prévio, dose IV inicial ≈ 1–2× a dose VO diária.

    • IC-FEr (estabilizado, após otimizar volume/PA): - IECA (ex.: Captopril 6,25–25 mg VO 8/8h) ou ARNI (Sacubitril/valsartana 49/51 mg VO 12/12h; iniciar 24–36 h após suspender IECA; iniciar 24/26 mg 12/12h se PA baixa/DRC/idoso).

    • Betabloqueador (após euvolemia, sem choque): Carvedilol 3,125 mg VO 12/12h, titular a cada 2–4 semanas.

    • Antagonista de mineralocorticoide: Espironolactona 25 mg VO/dia (evitar se K ≥5,0 mEq/L ou TFGe <30 mL/min/1,73m²).

    • iSGLT2: Dapagliflozina 10 mg VO/dia (pode iniciar durante internação; evidência até TFGe ≥25 mL/min/1,73m²).

    • Ajustes em DRC/idoso: Reduzir doses iniciais de IECA/ARNI/diurético se TFGe <30 ou PA limítrofe; monitorar K e creatinina 2–7 dias após mudanças.

    • Contraindicações: IECA/ARA/ARNI na gestação; betabloqueador em choque/edema agudo com baixo débito; espironolactona se K alto/TFGe <30.

    • Efeitos adversos relevantes: IECA/ARNI: tosse, angioedema, hiperK; espironolactona: hiperK, ginecomastia; iSGLT2: euglycemic ketoacidosis rara, ITU/micose; diurético de alça: hipovolemia, hipocalemia.

    • Critérios de internação vs ambulatorial: Internar se PAS <90 mmHg, hipoxemia (SatO2 <90% RA), congestão refratária, lesão renal aguda, troponina elevada, arritmia sustentada, IC de início recente grave. Reavaliar ambulatorial em 48–72 h após ajuste terapêutico.


    Mini-exemplo: Paciente com IC e ortopneia: ETT mostra FEVE 30% e E/e' >15 → confirma disfunção sistólica e pressões de enchimento elevadas.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Ecocardiograma transtorácico

    Alternativa correta. É o exame de escolha para avaliar com precisão função sistólica (FEVE por Simpson) e diastólica (E/A, e', E/e', volume de AE, TR) do VE, conforme diretrizes da SBC. Não invasivo, disponível e orienta conduta.


    ❌ A) Eletrocardiograma de repouso

    Alternativa incorreta. ECG detecta ritmo, isquemia/necrose e sobrecarga, mas não quantifica FEVE nem pressões de enchimento. Serve como triagem, não para mensurar função sistólica/diastólica.


    ❌ C) Radiografia de tórax

    Alternativa incorreta. Rx avalia cardiomegalia e congestão pulmonar, porém não mede FEVE ou parâmetros diastólicos. Útil para diagnóstico diferencial e sinais de congestão, não para função do VE.


    ❌ D) Tomografia computadorizada de tórax

    Alternativa incorreta. TC é útil para parênquima pulmonar e aorta, mas não é método de escolha para função ventricular. Exige contraste/radiação e não substitui ETT na avaliação sistólico-diastólica.


    Take-home message

    • Exame de escolha para avaliar FEVE e função diastólica do VE: Ecocardiograma transtorácico com Doppler.
    • Diástole no eco: E/A, e' (TDI), E/e', volume de AE e TR compõem a estimativa de pressões de enchimento.
    • ECG e Rx são complementares, mas não quantificam função ventricular; TC não é método funcional primário.
    • Na IC descompensada, iniciar diurético de alça IV (ex.: furosemida 20–40 mg IV) e estabilizar antes de otimizar terapia modificadora de prognóstico.
    • Evite IECA/ARA/ARNI na gestação e betabloqueadores em choque.

    Questão 2 — Insuficiência Cardíaca

    Assinale a alternativa que corresponde ao medicamento que tem efeito comprovado na redução de mortalidade em insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (HFrEF).

    • A)

      Nitrato sublingual isolado

    • B)

      Diurético de alça isolado

    • C)

      Bloqueador beta seletivo

    • D)

      Inibidor da enzima conversora de angiotensina

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em HFrEF (fração de ejeção ≤40%), fármacos que comprovadamente reduzem mortalidade: IECA/ARNI, betabloqueadores com evidência (carvedilol, bisoprolol, metoprolol succinato), antagonistas de aldosterona (espironolactona/eplerenona) e SGLT2. Diuréticos e nitratos isolados aliviam sintomas, mas não reduzem mortalidade.


    Por que importa: Bloqueio do SRAA (IECA) diminui pós-carga, remodelamento e neuro-hormônios, reduzindo hospitalizações e mortalidade.


    Como identificar (regra de prova): Em HFrEF estável, IECA é terapia de base quando ARNI não está disponível/indicado; titular a dose até alvo ou máxima tolerada com monitorização de creatinina e potássio.


    Armadilha de prova: “Betabloqueador seletivo” genericamente não é resposta segura; apenas metoprolol succinato e bisoprolol (além de carvedilol) têm evidência robusta de redução de mortalidade, com titulação em paciente euvolêmico.


    Conduta & Posologia


    • IECA (fármacos e alvos):
      • Enalapril: iniciar 2,5 mg VO 12/12h, titular até 10–20 mg 12/12h.
      • Captopril: iniciar 6,25 mg VO 8/8h, titular até 50 mg 8/8h.
      • Lisinopril: iniciar 2,5–5 mg VO 1x/dia, titular até 20–40 mg 1x/dia.
      • Ramipril: iniciar 1,25–2,5 mg VO 1–2x/dia, titular até 10 mg/dia.

    • Início e titulação: iniciar em HFrEF estável, PA sistólica ≥100–110 mmHg, K+ <5,0 mEq/L, eTFG ≥30 mL/min/1,73m²; dobrar dose a cada 1–2 semanas se tolerado.

    • Monitorização: ureia, creatinina e K+ em 7–14 dias após início/aumento e a cada 3–6 meses depois. Até 30% de aumento de creatinina pode ser aceitável.

    • Ajustes em DRC: eTFG 30–60: começar metade da dose e titular lentamente. eTFG <30: iniciar com dose mínima e monitorização mais estreita; evitar se K+ >5,5 mEq/L.

    • Gestação/idosos/hepática: Contraindicado na gestação. Em idosos, iniciar doses menores e titular devagar. Sem ajuste específico em hepatopatia leve/moderada; atenção a hipotensão.

    • Contraindicações: Gravidez, estenose bilateral de artérias renais, angioedema prévio por IECA, K+ >5,5 mEq/L.

    • Efeitos adversos relevantes: tosse, hipotensão, hipercalemia, piora da função renal, angioedema (raro, porém grave).

    • Interações críticas: AINEs (piora renal), poupadores de K+ e suplementos de K+ (hipercalemia), aliscireno em diabéticos (evitar).

    • Critérios de internação vs ambulatorial: Internar se IC descompensada (edema pulmonar, hipoxemia, hipotensão, choque, deterioração renal aguda, hiponatremia grave). Ambulatorial se estável, sem congestão importante. Reavaliar PA, creatinina e K+ em 7–14 dias.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Inibidor da enzima conversora de angiotensina

    Alternativa correta. IECA (e.g., enalapril 10–20 mg 12/12h) reduzem mortalidade e hospitalizações em HFrEF, sendo terapia de base quando ARNI não é utilizado/indicado, conforme diretrizes brasileiras.


    ❌ A) Nitrato sublingual isolado

    Alternativa incorreta. Nitratos isolados melhoram sintomas/angina, mas não reduzem mortalidade em HFrEF. Redução de mortalidade ocorre com hidralazina + dinitrato de isossorbida em combinação, especialmente quando IECA/ARB são intolerados.


    ❌ B) Diurético de alça isolado

    Alternativa incorreta. Furosemida/torasemida aliviam congestão e reduzem internações por descompensação, mas não demonstram redução de mortalidade.


    ❌ C) Bloqueador beta seletivo

    Alternativa incorreta (conforme banca). Embora bisoprolol e metoprolol succinato (seletivos) reduzam mortalidade quando corretamente titulados em HFrEF estável, a redação genérica “bloqueador beta seletivo” é imprecisa (nem todos os betabloqueadores seletivos têm evidência). Em prova, a opção clássica e inequívoca é IECA.


    Take-home message

    • Em HFrEF, IECA reduzem mortalidade e são pilar terapêutico quando ARNI não está indicado.
    • Alvo de IECA: enalapril até 10–20 mg 12/12h, captopril até 50 mg 8/8h, lisinopril até 20–40 mg/dia.
    • Monitorar K+ e creatinina 7–14 dias após início/aumento; aumento de creatinina até 30% pode ser aceitável.
    • Red flag: IECA é contraindicado em gestação, angioedema prévio e K+ >5,5.
    • Diuréticos e nitratos isolados não reduzem mortalidade; BB com evidência e ARM reduzem quando bem indicados.

    Questão 3 — Síndrome Coronariana Aguda (SCA) / IAM

    Um homem de 58 anos de idade, hipertenso, buscou a emergência hospitalar apresentando dor torácica há 40 minutos, do tipo opressiva, irradiada para o braço esquerdo. A avaliação médica revelou PA = 128 mmHg x 78 mmHg, e o ECG mostrou supradesnivelamento de ST em DII, DIII e aVF. Com base nesse caso clínico, assinale a alternativa que apresenta a conduta imediata mais adequada para esse paciente.

    • A)

      Administração intravenosa de betabloqueador como primeira medida

    • B)

      Liberação para investigação ambulatorial por boa estabilidade hemodinâmica.

    • C)

      Indicação de reperfusão imediata por trombólise ou angioplastia primária.

      ✓
    • D)

      Administração de nitroglicerina sublingual sem necessidade de reperfusão.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Dor torácica típica + supra de ST em DII, DIII e aVF = IAM com supra de ST (STEMI) de parede inferior. Conduta que salva vida é reperfusão imediata (angioplastia primária preferencial; trombólise se atraso excessivo para ICP).


    O que é: STEMI = oclusão coronariana aguda com elevação persistente do ST em derivações correspondentes. Parede inferior (DII, DIII, aVF) geralmente envolve artéria coronária direita. Pode haver infarto de ventrículo direito associado.


    Por que importa: A mortalidade aumenta minuto a minuto. Reperfusão precoce limita necrose. Tempo-alvo: door-to-balloon ≤ 90 min (até 120 min em redes); se não factível, door-to-needle ≤ 30 min para trombólise.


    Como identificar: Dor opressiva >20 min, supradesnivelamento de ST em ≥2 derivações contíguas. Em parede inferior, avaliar V3R–V4R se suspeita de ventrículo direito (hipotensão, turgência jugular, pulmões limpos).


    Figura 1. Padrão de ECG com supradesnivelamento do segmento ST.

    Fonte: Scheffer, Matheus Kiszka. Supradesnivelamento de ST — página do site Aprenda ECG. Disponível em: https://aprendaecg.com.br/supra-de-st/. Acesso em 30/01/2026.


    Conduta & Posologia


    • Reperfusão (primeira linha): Angioplastia primária imediata se tempo estimado até balão ≤120 min. Se atraso >120 min e sem contraindicações, realizar trombólise (door-to-needle ≤30 min). Reperfusão indicada até 12 h do início dos sintomas (e além se isquemia/instabilidade).

    • AAS ataque: 160–300 mg VO mastigável o mais precoce possível; manutenção 81–100 mg/dia.

    • P2Y12 (associar ao AAS):
    • • Ticagrelor 180 mg VO ataque; manutenção 90 mg 12/12 h; preferir na ICP se disponível.
      • Clopidogrel 600 mg VO (ICP) ou 300 mg (trombólise), manutenção 75 mg/dia.

    • Anticoagulação:
    • • ICP com heparina não fracionada: 70–100 U/kg IV em bolus (ou 50–70 U/kg se usar inibidor de GP IIb/IIIa).
    • • Após trombólise: enoxaparina 30 mg IV bolus + 1 mg/kg SC 12/12 h (se idade ≥75 anos: omitir bolus IV e usar 0,75 mg/kg SC 12/12 h, dose máx 75 mg nas 2 primeiras doses). DRC (TFG <30): ajustar para 1 mg/kg SC 24/24 h.

    • Nitrato sublingual (alívio da dor/isquemia): 0,4 mg SL a cada 5 min até 3 doses se PAS ≥100–110 mmHg, sem sinais de VD e sem uso de inibidor de PDE5 em 24–48 h. Evitar em suspeita de infarto de VD.

    • Analgesia: morfina 2–4 mg IV, repetir conforme dor. Usar apenas se dor refratária após nitrato/AAS.

    • Betabloqueador: iniciar VO nas primeiras 24 h se não houver contraindicações (ex.: carvedilol 6,25 mg VO 12/12 h). Evitar IV de rotina na admissão (risco de choque/bradicardia).

    • Oxigênio: apenas se SpO2 <90%, sinais de hipoxemia ou ICC.

    • Estatina alta potência: atorvastatina 80 mg VO o mais cedo possível, manutenção diária.

    • Contraindicações à trombólise (principais): AVE hemorrágico prévio, AVC isquêmico <3 meses, neoplasia/ malformação vascular SNC, sangramento ativo, suspeita de dissecção de aorta, TCE/trauma significativo <3 meses, PA não controlada (>180/110) refratária.

    • Cuidados em IAM inferior: suspeitar infarto de VD se hipotensão, turgência jugular e pulmões limpos; solicitar derivações direitas (V3R–V4R). Evitar nitratos/diuréticos se infarto de VD; pode necessitar de volume IV cauteloso.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Todo STEMI deve ser internado em unidade coronariana/UTI cardiológica. Ambulatorial é contraindicado.

    • Reavaliação/monitorização: Monitorização contínua, ECG seriado, troponina seriada, metas de tempo (ECG ≤10 min, AAS imediato, trombólise ≤30 min, ICP ≤90–120 min). Vigiar complicações elétricas e mecânicas.


    Mini-exemplo: Dor 40 min + supra em DII, DIII, aVF. Hospital com hemodinâmica imediata: encaminhar para ICP primária + AAS 300 mg mastigável + ticagrelor 180 mg + HNF 70–100 U/kg IV. Nitrato SL só se PA adequada e sem VD.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Indicação de reperfusão imediata por trombólise ou angioplastia primária.

    Alternativa correta. STEMI inferior com 40 min de dor exige reperfusão imediata. Preferir angioplastia primária se door-to-balloon ≤120 min; se não for possível, trombólise em até 30 min de porta, na ausência de contraindicações. Associar AAS + P2Y12 + anticoagulação conforme estratégia.


    ❌ A) Administração intravenosa de betabloqueador como primeira medida

    Alternativa incorreta. Betabloqueador IV de rotina na admissão aumenta risco de choque/bradicardia, especialmente em IAM inferior/VD. O foco inicial é reperfusão e antiagregação. Betabloqueador VO é iniciado nas primeiras 24 h se estável e sem contraindicações.


    ❌ B) Liberação para investigação ambulatorial por boa estabilidade hemodinâmica.

    Alternativa incorreta. STEMI nunca é manejado ambulatorialmente. Requer internação em unidade coronariana e reperfusão urgente, independentemente da estabilidade inicial.


    ❌ D) Administração de nitroglicerina sublingual sem necessidade de reperfusão.

    Alternativa incorreta. Nitrato pode aliviar dor, mas não substitui a reperfusão. Em IAM inferior, há risco de infarto de VD; nitratos podem precipitar hipotensão grave. Usar apenas se PA adequada, sem VD e sem uso recente de inibidor de PDE5.


    Take-home message

    • STEMI inferior (DII, DIII, aVF) = reperfusão imediata (ICP primária ≤120 min; se não, trombólise ≤30 min).
    • Ataque: AAS 160–300 mg VO + P2Y12 (ticagrelor 180 mg ou clopidogrel 300–600 mg) + anticoagulação adequada à estratégia.
    • Red flag: Evitar nitratos se suspeita de infarto de VD, hipotensão ou uso de inibidor de PDE5.
    • Betabloqueador não IV de rotina na admissão; iniciar VO até 24 h se estável e sem contraindicações.
    • Todo STEMI deve ser internado em unidade coronariana; monitorização contínua e metas de tempo são determinantes de prognóstico.

    Questão 4 — Síndrome Coronariana Aguda (SCA) / IAM

    Nos casos de infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do ST (STEMI), qual é a intervenção considerada primordial para reduzir a mortalidade dos pacientes?

    • A)

      Reperfusão imediata por angioplastia primária ou trombólise

      ✓
    • B)

      Administração isolada de nitrato sublingual

    • C)

      Controle ambulatorial da pressão arterial

    • D)

      Administração isolada de betabloqueador

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: No STEMI, mortalidade cai com reperfusão precoce. Todo o resto é adjuvante.


    O que é: STEMI = infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do ST por oclusão coronária aguda.


    Por que importa: Cada minuto de atraso aumenta necrose miocárdica e mortalidade. Time is muscle.


    Como identificar: Dor torácica típica + ECG com supra de ST em derivações contíguas ou BRE novo presumido + troponina (não esperar troponina para reperfundir).


    Conduta-chave que muda desfecho: Reperfusão imediata por angioplastia primária (PPCI) preferencial; trombólise se PPCI indisponível dentro do tempo-alvo.


    Conduta & Posologia


    • Estratégia de reperfusão (padrão-ouro): PPCI com meta tempo contato-médico–dispositivo ≤120 min e porta–balão ≤90 min. Se não for possível, realizar trombólise até 12 h do início dos sintomas, ideal porta–agulha ≤30 min.

    • Trombólise (tenecteplase – TNK): Bolus IV único por peso: <60 kg: 30 mg; 60–69 kg: 35 mg; 70–79 kg: 40 mg; 80–89 kg: 45 mg; ≥90 kg: 50 mg. Ajuste idade ≥75 anos: pode-se omitir bolo de enoxaparina e usar doses reduzidas de antitrombótico conforme abaixo.

    • Trombólise (alteplase – t-PA, regime acelerado): 15 mg IV bolus + 0,75 mg/kg (máx. 50 mg) em 30 min + 0,5 mg/kg (máx. 35 mg) em 60 min (dose total máx. 100 mg).

    • Antiagregação (antes da PPCI ou trombólise):
    • • AAS ataque 162–300 mg VO mastigável, manutenção 81–100 mg/dia.
    • • P2Y12: PPCI – ticagrelor 180 mg ataque (manut. 90 mg 12/12h) ou prasugrel 60 mg ataque (manut. 10 mg/d) contraindicado se AVC/AIT prévio; alternativa clopidogrel 600 mg ataque (manut. 75 mg/d).
    • • Trombólise – preferir clopidogrel: 300 mg (<75 anos) ou 75 mg (≥75 anos), manut. 75 mg/d.

    • Anticoagulação: PPCI – heparina não fracionada: 70–100 U/kg IV (sem inibidor GPI) ou 50–70 U/kg (com GPI). Trombólise – enoxaparina: <75 anos: 30 mg IV bolus + 1 mg/kg SC 12/12h; ≥75 anos: sem bolus IV, 0,75 mg/kg SC 12/12h. Ajuste DRC ClCr <30 mL/min: 1 mg/kg SC 24/24h.

    • Nitrato: para dor/IC e controle de PA se não houver hipotensão/VD direito: dinitrato sublingual 5 mg SL repetível a cada 5 min até 3 doses; IV se necessário. Evitar se PAS <90 mmHg, bradicardia <50 bpm, uso de inibidores de PDE5 <24–48 h.

    • Betabloqueador: após estabilização hemodinâmica, preferir via oral nas primeiras 24 h: metoprolol 25–50 mg VO 12/12h. Evitar se IC descompensada, choque, BAV avançado, broncoespasmo agudo.

    • Estatina alta potência: atorvastatina 80 mg VO o mais cedo possível, manutenção diária.

    • Contraindicações absolutas à trombólise: Qualquer sangramento ativo, AVC hemorrágico prévio ou AVC isquêmico <3 meses, neoplasia/AVM SNC, dissecção de aorta, trauma craniano/face recente, PAS >180 ou PAD >110 refratárias.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Todo STEMI deve ser internado em UTI coronariana. Reavaliação clínica, ECG e marcadores em série; monitorização contínua por ≥24–48 h.

    • Follow-up da reperfusão farmacológica: Se trombólise bem-sucedida, planejar estratégia fármaco-invasiva: angiografia 2–24 h. Se falha (sinais de reperfusão ausentes em 60–90 min), indicar resgate com PPCI imediata.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Reperfusão imediata por angioplastia primária ou trombólise

    Alternativa correta. É a única intervenção comprovadamente capaz de reduzir mortalidade de forma robusta no STEMI quando realizada nos tempos-alvo (PPCI ≤90–120 min; fibrinólise ≤30 min). Demais medidas são adjuvantes.


    ❌ B) Administração isolada de nitrato sublingual

    Alternativa incorreta. Nitratos aliviam dor/ischemia, mas não reduzem mortalidade e não substituem reperfusão. Além disso, têm contraindicações hemodinâmicas.


    ❌ C) Controle ambulatorial da pressão arterial

    Alternativa incorreta. STEMI é emergência com internação e reperfusão imediata. Controle ambulatorial ignora a oclusão coronária aguda e atrasa tratamento salvador.


    ❌ D) Administração isolada de betabloqueador

    Alternativa incorreta. Betabloqueadores reduzem arritmias e consumo de O2, mas não reperfundem artéria culpada. Uso precoce IV pode ser deletério em instabilidade.


    Take-home message

    • STEMI mata por oclusão coronária: reperfusão imediata é a intervenção que salva vidas.
    • Metas de tempo: porta–balão ≤90 min ou porta–agulha ≤30 min; se PPCI não disponível ≤120 min, fibrinólise precoce.
    • AAS ataque 162–300 mg + P2Y12 adequado à estratégia (ticagrelor/prasugrel na PPCI; clopidogrel na trombólise).
    • Anticoagulação correta e ajustes: enoxaparina com redução em DRC (ClCr <30) e em idosos ≥75 a (trombólise).
    • Trombólise: respeite contraindicações absolutas (ex.: AVC hemorrágico prévio, sangramento ativo, dissecção de aorta).
    • Todo STEMI interna em UTI coronariana com monitorização contínua por 24–48 h.

    Questão 5 — Atenção primária à Saúde (APS) - PACS, PSF, ESF, Mais médicos

    Um paciente de 52 anos de idade, pedreiro, compareceu à Unidade Básica de Saúde para reavaliação de hipertensão. Relatou boa adesão medicamentosa e ausência de sintomas. A PA média das últimas três consultas foi 128 mmHg x 82 mmHg. Informou ter histórico familiar de doença cardiovascular. IMC = 29 kg/m². Exames recentes mostraram glicemia de jejum = 94 mg/dL e função renal normal. Qual é a conduta mais apropriada nesse momento, segundo os princípios da atenção primária?

    • A)

      Aumentar a dose do anti-hipertensivo para reduzir ainda mais a PA.

    • B)

      Iniciar estatina independentemente do perfil lipídico, em razão do risco familiar.

    • C)

      Solicitar teste ergométrico de rotina para rastreio cardiovascular.

    • D)

      Manter o esquema atual, reforçando orientações de estilo de vida e programando o retorno.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em atenção primária, PA controlada no alvo e paciente assintomático → manter esquema, reforçar mudanças de estilo de vida, estratificar risco global e programar seguimento periódico. Evite intensificar terapias ou rastreios sem indicação.


    O que é: Acompanhamento de hipertensão controlada (PA ~128/82 mmHg) em adulto sem sintomas e com fatores de risco modificáveis.


    Por que importa: Intensificação desnecessária aumenta eventos adversos; rastreios sem indicação geram falso-positivos e cascatas. O foco é manutenção do controle, prevenção cardiovascular com abordagem multifatorial e seguimento.


    Como identificar: Média de PA em metas (<130/80 mmHg na maioria; tolerado se sem hipotensão), adesão referida, ausência de lesão de órgão-alvo, comorbidades estáveis.


    Como manejar: Manter esquema anti-hipertensivo atual; reforçar medidas não farmacológicas; avaliar risco global com lipidograma e cálculo de risco; definir periodicidade de retorno; atualizar vacinas e rastreios indicados por idade/sexo.


    Conduta & Posologia


    • Manutenção do anti-hipertensivo: Sem mudanças de fármaco/dose, pois a PA está em alvo (<130/80 mmHg) e o paciente está assintomático.

    • Metas pressóricas (SBC 2020): Geral: <130/80 mmHg se tolerado; em maiores de 65–79 anos, PAS 120–129 mmHg se bem tolerado; evitar PAS <120 mmHg se sintomas.

    • Estilo de vida (prescrição prática): - Sódio <2 g/dia (≈5 g de sal/dia); - Atividade física ≥150 min/semana (aeróbico + 2 sessões de resistência); - Perda ponderal 5–10% se sobrepeso (IMC 29 kg/m²); - Padrão alimentar tipo DASH/mediterrâneo, álcool moderado, cessação de tabaco (se aplicável).

    • Risco cardiovascular e lipídios: Solicitar lipidograma em jejum e calcular risco global (Escore de Risco Global/Framingham adaptado-SBC). Indicar estatina conforme risco e LDL alvo por diretriz; não iniciar estatina sem perfil lipídico/estratificação.

    • Exames de seguimento na APS: Creatinina e potássio 1x/ano (se IECA/BRA/diurético), glicemia/hemoglobina glicada conforme risco, lipidograma 1 ano (ou 3–5 anos se baixo risco e normal).

    • Critérios de internação/encaminhamento vs ambulatorial: Ambulatorial se assintomático e PA controlada. Encaminhar/avaliar com prioridade se PA ≥180/120 mmHg, sinais de emergência hipertensiva (dor torácica, dispneia, déficit focal, EAP), lesão renal aguda, suspeita de causas secundárias marcantes.

    • Tempo de reavaliação/monitorização: Retorno em 3–6 meses se estável; antes se intercorrências, EAs ou mudança de risco/laboratórios.

    • Armadilhas de prova: Evitar teste ergométrico de rastreio em assintomáticos de baixo-intermediário risco; evitar intensificar anti-hipertensivo com PA já em alvo.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Manter o esquema atual, reforçando orientações de estilo de vida e programando o retorno.

    Alternativa correta. PA controlada e ausência de sintomas → manter tratamento vigente, reforçar medidas não farmacológicas, solicitar exames de rotina (incluindo lipidograma para estratificação) e agendar seguimento em 3–6 meses, conforme diretrizes da APS e SBC.


    ❌ A) Aumentar a dose do anti-hipertensivo para reduzir ainda mais a PA.

    Alternativa incorreta. A PA média (128/82 mmHg) está dentro da meta recomendada para a maioria dos hipertensos. Intensificar pode aumentar risco de hipotensão iatrogênica sem ganho clínico. Conduta: manter e monitorar.


    ❌ B) Iniciar estatina independentemente do perfil lipídico, em razão do risco familiar.

    Alternativa incorreta. Em prevenção primária, a indicação de estatina depende do risco cardiovascular global e do LDL-C. História familiar aumenta risco, mas não substitui lipidograma e cálculo de risco. Diretrizes brasileiras recomendam estratificar antes de prescrever.


    ❌ C) Solicitar teste ergométrico de rotina para rastreio cardiovascular.

    Alternativa incorreta. Teste ergométrico de rastreio em assintomáticos não é recomendado na APS; aumenta falso-positivos e intervenções desnecessárias. Reservar para sintomas sugestivos ou avaliação funcional específica.


    Take-home message

    • Hipertenso assintomático com PA ~128/82 mmHg está em meta → não intensificar anti-hipertensivo.
    • Atenção primária prioriza manutenção do controle, estilo de vida (sódio <2 g/d, 150 min/semana, perda de 5–10%) e seguimento em 3–6 meses.
    • Estatina em prevenção primária exige lipidograma e cálculo de risco global (Framingham/SBC) antes da decisão.
    • Evite teste ergométrico de rastreio em assintomáticos de baixo-intermediário risco.
    • Revisar função renal/potássio anualmente se IECA/BRA/diurético; solicitar lipidograma para estratificação.

    Questão 6 — Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

    Uma paciente de 40 anos de idade buscou atendimento com quadro de hipertensão refratária, cefaleia intensa e hipertrofia de ventrículo esquerdo à ecocardiografia. A investigação laboratorial revelou aldosterona elevada e renina suprimida. A respeito desse caso clínico, assinale a alternativa correta.

    • A)

      O diagnóstico é de hipertensão essencial com controle clínico apenas.

    • B)

      Deve-se realizar investigação de feocromocitoma antes de qualquer tratamento.

    • C)

      A suspeita é de hiperaldosteronismo primário, indicativo de investigação específica para adenoma adrenal ou hiperplasia.

      ✓
    • D)

      O controle deve ser feito apenas com diurético tiazídico.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Hipertensão resistente + aldosterona alta com renina suprimida = forte suspeita de Hiperaldosteronismo Primário (HAP). É causa curável de hipertensão em parte dos casos.


    O que é: HAP é produção autônoma de aldosterona (adenoma unilateral ou hiperplasia bilateral), levando a retenção de sódio, expansão volêmica, supressão de renina e hipocalemia variável.


    Por que importa: HAP aumenta risco cardiovascular (AVC, FA, HVE) acima do esperado para a mesma PA e tem tratamento específico (adrenalectomia unilateral ou antagonista de mineralocorticoide).


    Como identificar (prova): Triagem com razão aldosterona/renina (RAR): aldosterona plasmática elevada (ex.: ≥10 ng/dL) com renina suprimida (atividade de renina plasmática <1 ng/mL/h ou concentração <2-5 mU/L) e RAR elevada (valores de corte variam por método; bancos usam frequentemente RAR >20-30 ng/dL por ng/mL/h). Confirmar com teste de supressão (infusão salina 2 L/4 h; captopril; fludrocortisona; carga oral de sal).


    Armadilha de prova: hipocalemia NÃO é obrigatória; até 50% dos HAP têm potássio normal.


    Subtipagem: TC adrenais para anatomia e amostragem venosa adrenal (AVA) como padrão-ouro para lateralização (exceto jovens <35 anos com adenoma típico unilateral >1 cm e bioquímica convincente).


    Conduta & Posologia


    • Medidas gerais: Restrição moderada de sal (≈ <2 g de sódio/dia), controle de PA e potássio.

    • Tratamento etiológico:
      • • Adenoma unilateral: adrenalectomia laparoscópica após preparo (controle pressórico e K+).
      • • Hiperplasia bilateral ou não candidato à cirurgia: antagonista de mineralocorticoide.

    • Espironolactona (primeira linha): iniciar 25 mg VO/dia, titular a cada 2–4 semanas até 50–100 mg/dia (máx. 200 mg/dia) visando PA e K+ 4,0–4,5 mEq/L.

    • Eplerenona (alternativa com menos efeitos sexuais): iniciar 25 mg VO 12/12 h, titular até 50 mg 12/12 h.

    • Ajustes em DRC: Se TFG 30–59 mL/min/1,73m², iniciar com metade da dose e monitorar K+ e creatinina em 3–7 dias. Evitar se TFG <30 mL/min/1,73m² ou K+ >5,0 mEq/L.

    • Gestação: Espironolactona é contraindicada (efeito antiandrogênico fetal). Considerar eplerenona com avaliação especializada; evidência limitada.

    • Interações/alertas: Risco de hipercalemia com IECA/BRAs, AINEs. Eplerenona é substrato CYP3A4: evitar inibidores potentes (cetoconazol, claritromicina).

    • Efeitos adversos relevantes:
      • • Espironolactona: mastalgia, ginecomastia, irregularidade menstrual, hipercalemia.
      • • Eplerenona: hipercalemia (menor efeito sexual).

    • Suplementação de potássio (se K+ <3,5): Cloreto de potássio 10–20 mEq VO 8/8–12/12 h, ajustar conforme K+ sérico.

    • PA difícil controle: Associar anlodipino 5–10 mg/dia e tiazídico de longa ação (clortalidona 12,5–25 mg/dia) se necessário.

    • Antes de testes hormonais: Suspender por 2–4 semanas: espironolactona/eplerenona, amilorida, triantereno; preferir bloqueador de canal de cálcio diidropiridínico, alfa-bloqueador e/ou hidralazina. Corrigir K+ e manter ingesta habitual de sal.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se crise hipertensiva (PA ≥180/120 mmHg com lesão de órgão-alvo), hipocalemia grave (K+ <3,0 mEq/L) com arritmia/sintomas, ou declínio renal agudo. Demais casos: seguimento ambulatorial com reavaliação laboratorial em 1–2 semanas após iniciar/ajustar antagonista mineralocorticoide.


    Comparação rápida: HAP vs feocromocitoma

    • • HAP: renina baixa, aldosterona alta; hipocalemia; sem crises adrenérgicas típicas.
    • • Feo: catecolaminas/metanefrinas elevadas; crises paroxísticas (cefaleia, sudorese, palpitação); potássio geralmente normal.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) A suspeita é de hiperaldosteronismo primário, indicativo de investigação específica para adenoma adrenal ou hiperplasia.

    Alternativa correta. Resistência ao tratamento, HVE e aldosterona alta com renina suprimida sustentam HAP. Conduta: confirmar (teste de supressão) e subtipar (TC e AVA) para definir adrenalectomia unilateral vs antagonista mineralocorticoide.


    ❌ A) O diagnóstico é de hipertensão essencial com controle clínico apenas.

    Alternativa incorreta. Hipertensão essencial não cursa com aldosterona elevada e renina suprimida. Esse perfil hormonal define suspeita de HAP e exige investigação específica e terapia direcionada.


    ❌ B) Deve-se realizar investigação de feocromocitoma antes de qualquer tratamento.

    Alternativa incorreta. O quadro clínico-hormonal é típico de HAP, não de feocromocitoma. Feocromocitoma é investigado quando há metanefrinas/catecolaminas elevadas e crises adrenérgicas. Aqui, a prioridade é confirmar e subtipar HAP.


    ❌ D) O controle deve ser feito apenas com diurético tiazídico.

    Alternativa incorreta. Tiazídico isolado não corrige o mecanismo central (excesso de aldosterona). O tratamento de primeira linha é espironolactona ou eplerenona, e, quando unilateral, cirurgia é potencialmente curativa.


    Take-home message

    • Hipertensão resistente + aldosterona alta com renina suprimida = suspeitar de Hiperaldosteronismo Primário.
    • Confirmar com teste de supressão (ex.: infusão salina) e subtipar com TC e, se possível, amostragem venosa adrenal.
    • Tratamento: adenoma unilateral → adrenalectomia; hiperplasia bilateral/não operável → antagonista de mineralocorticoide.
    • Posologia prática: espironolactona 25–100 mg/dia VO (titulável até 200 mg); eplerenona 25–50 mg 12/12 h.
    • Red flag: evitar antagonista mineralocorticoide se TFG <30 ou K+ >5,0; monitorar K+ e creatinina em 1–2 semanas após ajustes.
    • Antes da triagem (RAR): suspender espironolactona/eplerenona por 2–4 semanas e corrigir hipocalemia.

    Questão 7 — Hipertireoidismo e Tireotoxicose

    Assinale a alternativa que apresenta o exame que confirma o diagnóstico de hipertireoidismo em paciente com TSH suprimido.

    • A)

      Dosagem de TSH isolada

    • B)

      Ultrassonografia de tireoide

    • C)

      Dosagem de T4 livre e T3 total ou livre

      ✓
    • D)

      Punção aspirativa de tireoide

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: TSH suprimido sugere hipertiroidismo, mas quem confirma é o hormônio periférico (T4 livre e/ou T3).

    O que é: Hipertireoidismo (tireotoxicose por excesso de síntese) é definido laboratorialmente por TSH baixo com T4 livre (T4L) e/ou T3 elevados. Quando T4L e T3 são normais com TSH baixo, trata-se de hipertireoidismo subclínico.


    Por que importa: TSH isolado não quantifica o grau de tirotoxicose nem distingue formas T3-tóxicas; confirmar com T4L/T3 direciona urgência e manejo.


    Como identificar (prova):

    • Exame confirmatório: T4 livre e T3 (total ou livre).

    • Padrões clássicos: Doença de Graves típica com T4L↑ e T3↑; forma T3-tóxica com T3↑ e T4L N; subclínico com T4L/T3 N e TSH suprimido.


    Exames etiológicos (após confirmar): TRAb (Graves), cintilografia/captação tireoidiana, US com Doppler para morfologia/fluxo (não confirma hiperfunção).


    Conduta & Posologia


    • Controle sintomático (1ª linha): Propranolol 10–40 mg VO a cada 6–8 h; alvo: FC repouso < 90 bpm. Em asma: considerar metoprolol/atenolol com cautela.

    • Antitireoidianos (síntese):
    • • Metimazol (tiamazol) 10–30 mg/dia VO em 1–2 tomadas; manutenção 5–10 mg/dia após normalizar T4L.
      • Gestação 1º trimestre: preferir Propiltiouracil (PTU) 50–150 mg VO 8/8 h; após 1º trimestre, migrar para metimazol 5–20 mg/dia.

    • Ajustes: DRC: sem ajuste rotineiro. Hepatopatia (Child-Pugh B/C): evitar PTU (hepatotoxicidade); metimazol com cautela e monitorização.

    • Contraindicações: 
    • • Iodo radioativo é contraindicado em gestação e lactação. 
    • • PTU: risco de hepatotoxicidade grave. Metimazol: evitar no 1º trimestre (embriopatia).
      • Tireoidites destrutivas: antitireoidianos não são indicados.

    • Efeitos adversos relevantes: Exantema, artralgia, agranulocitose (febre/dor de garganta → suspender e hemograma), colestase (metimazol), hepatotoxicidade (PTU).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se crise tireotóxica (Burch-Wartofsky alto), FA com instabilidade, IC descompensada, delirium, febre > 38,5°C refratária, vômitos/desidratação.

    • Monitorização: Reavaliar T4L em 4–6 semanas; TSH pode normalizar em 6–8+ semanas. Ajustar dose para manter T4L no alvo baixo-normal.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Dosagem de T4 livre e T3 total ou livre

    Alternativa correta. Em TSH suprimido, a confirmação do hipertireoidismo é pela elevação de T4L e/ou T3 (total ou livre). Identifica inclusive T3-tireotoxicose.


    ❌ A) Dosagem de TSH isolada

    Alternativa incorreta. TSH suprimido sugere hipertireoidismo, mas não confirma sem T4L/T3. TSH isolado não quantifica a tirotoxicose nem detecta forma T3-tóxica.


    ❌ B) Ultrassonografia de tireoide

    Alternativa incorreta. US avalia anatomia/vascularização e auxilia etiologia (ex.: padrão difuso em Graves, nódulos), mas não confirma hiperfunção. Confirmação é bioquímica.


    ❌ D) Punção aspirativa de tireoide

    Alternativa incorreta. PAAF é método citológico para nódulos suspeitos de neoplasia; não avalia função tireoidiana e não confirma hipertireoidismo.


    Take-home message

    • TSH suprimido exige confirmação com hormônios periféricos: T4 livre e T3.
    • T3-tóxico: T3↑ com T4L normal — só é detectado se você dosar T3.
    • US e PAAF não confirmam função; são complementares para etiologia/morfologia.
    • Controle sintomático imediato: Propranolol 10–40 mg VO 6/6–8/8 h.
    • Gestação: evitar iodo radioativo; usar PTU no 1º tri e metimazol após.

    Questão 8 — Emergências hiperglicêmicas (Cetoacidose diabética e estado hiperglicêmico hiperosmolar)

    Uma paciente de 30 anos de idade apresentou os seguintes achados clínicos: poliúria, polidipsia e glicemia de 380 mg/dL com cetonemia positiva. O diagnóstico mais provável para essa paciente é

    • A)

      insuficiência adrenal aguda.

    • B)

      síndrome hiperosmolar sem cetose.

    • C)

      hipoglicemia por sulfonilureia.

    • D)

      cetoacidose diabética.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Poliúria + polidipsia + hiperglicemia com cetonemia positiva em adulto jovem = quadro clássico de cetoacidose diabética (CAD). HHS não tem cetose significativa.


    O que é: CAD é emergência metabólica por deficiência absoluta/relativa de insulina com hiperglicemia, cetonemia/cetonúria e acidose metabólica de ânion gap elevado.


    Por que importa: Evolui com desidratação, distúrbios eletrolíticos e risco de choque/edema cerebral. Mortalidade aumenta com atraso terapêutico.


    Como identificar (padrão-ouro laboratorial):

    • Glicemia geralmente >250 mg/dL; pH venoso <7,30; bicarbonato <18 mEq/L; ânion gap elevado; cetonemia/cetonúria positiva.

    • Na HHS: osmolaridade efetiva >320 mOsm/kg, cetose ausente ou discreta.


    Mecanismo-chave: Déficit de insulina + excesso de catecolaminas/cortisol favorecem lipólise → corpos cetônicos (ácido acetoacético/β-hidroxibutirato) → acidose; hiperglicemia osmótica → diurese osmótica → desidratação e perda de K.


    Conduta & Posologia


    • Reposição volêmica inicial: SF 0,9% 15–20 mL/kg (≈1–1,5 L) em 1ª hora. Após estabilização, ajustar conforme sódio corrigido e perfusão (tipicamente 250–500 mL/h). Cautela em ICC/DRC: reduzir velocidade e monitorar congestão.

    • Insulina regular EV: iniciar quando K⁺ ≥3,3 mEq/L. Opções: 0,1 U/kg em bolus EV seguido de 0,1 U/kg/h em bomba; ou iniciar direto 0,14 U/kg/h sem bolus. Meta: queda da glicemia de 50–70 mg/dL/h.

    • Ajuste da insulina quando glicemia ≤200 mg/dL: reduzir para 0,02–0,05 U/kg/h e adicionar SG 5–10% para manter glicemia 150–200 mg/dL até resolução da CAD (pH >7,30, HCO₃⁻ ≥18, AG normal).

    • Potássio (K⁺): - Se K⁺ <3,3 mEq/L: NÃO iniciar insulina. Repor 20–30 mEq/h EV até K⁺ ≥3,3. - Se K⁺ 3,3–5,2: adicionar 20–30 mEq de KCl por litro de fluido para alvo 4–5 mEq/L. - Se K⁺ >5,2: não repor inicialmente; monitorar K⁺ a cada 2–4 h.

    • Bicarbonato: apenas se pH <6,9. Esquema: 100 mmol (≈2 ampolas) em 400 mL de água destilada + 20 mEq KCl em 2 h; repetir até pH ≥7,0.

    • Fósforo: repor se hipofosfatemia grave (<1,0 mg/dL), ICC, insuficiência respiratória ou rabdomiólise.

    • Contraindicações/alertas: 
    • • Insulina com K⁺ <3,3 mEq/L é contraindicada. 
    • • Cautela com volume em IC/DRC; monitorar balanço e oxigenação.
    • • Evitar hipoglicemia e hipocalemia por excesso de insulina.

    • Ajustes em DRC/idosos: Insulina EV não requer ajuste renal, mas reduzir velocidade de hidratação e repor K⁺ com cautela (risco de hipercalemia se oligúria/anúria). Evitar bicarbonato em sobrecarga volêmica descompensada.

    • Monitorização: glicemia capilar de hora em hora; eletrólitos, ureia/creatinina, ânion gap e gasometria a cada 2–4 h; débito urinário (alvo ≥0,5 mL/kg/h).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: CAD sempre requer internação. UTI se pH <7,0, instabilidade hemodinâmica/choque, rebaixamento de consciência, hipo/hipercalemia grave, hipóxia ou comorbidades descompensadas.


    Comparação rápida – CAD vs HHS:

    • CAD: idade mais jovem, cetonemia marcante, pH baixo, HCO₃⁻ baixo, osmolaridade moderadamente elevada, início rápido.

    • HHS: idosos, osmolaridade >320, glicemias muitas vezes >600 mg/dL, cetose mínima/ausente, pH geralmente >7,30, alteração neurológica proeminente.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) cetoacidose diabética.

    Alternativa correta. Quadro clínico clássico: poliúria/polidipsia + hiperglicemia importante e cetonemia positiva. Em adulto jovem, pensar em diabetes tipo 1 descompensado. Conduta imediata: hidratação, insulina EV e correção do K⁺ conforme descrito.


    ❌ A) insuficiência adrenal aguda.

    Alternativa incorreta. Insuficiência adrenal cursa com hipotensão, hiponatremia, hipercalemia e hipoglicemia, não com glicemia de 380 mg/dL e cetonemia positiva.


    ❌ B) síndrome hiperosmolar sem cetose.

    Alternativa incorreta. HHS é típica de idosos, com hiperglicemia extrema e ausência ou cetose mínima. O enunciado destaca cetonemia positiva, o que aponta para CAD.


    ❌ C) hipoglicemia por sulfonilureia.

    Alternativa incorreta. Hipoglicemia exige glicemias baixas, frequentemente <54 mg/dL para gravidade. Aqui há hiperglicemia marcada (380 mg/dL), incompatível.


    Take-home message

    • CAD = hiperglicemia + cetonemia/cetonúria + acidose (pH <7,30; HCO₃⁻ <18) com ânion gap elevado.
    • Hidratação inicial: SF 0,9% 15–20 mL/kg em 1 h.
    • Insulina EV: 0,1 U/kg/h (com ou sem bolus), reduzir e associar dextrose quando glicemia ≤200 mg/dL.
    • Red flag: NÃO iniciar insulina se K⁺ <3,3 mEq/L; repor K⁺ primeiro.
    • Bicarbonato apenas se pH <6,9.
    • CAD sempre interna; UTI se pH <7,0, choque ou rebaixamento de consciência.

    Questão 9 — GLOMERULOPATIAS - Síndrome Nefrítica

    Uma paciente de 55 anos de idade, diabética, apresenta edema de membros inferiores e proteinúria de 3,5 g/24h; creatinina sérica = 1,6 mg/dL e exame de urina com hematúria microscópica. Nesse caso, qual é o método diagnóstico definitivo para caracterizar a lesão renal da paciente?

    • A)

      Ultrassonografia renal

    • B)

      Biópsia renal percutânea

      ✓
    • C)

      Tomografia computadorizada com contraste

    • D)

      Proteinúria de 24 horas repetida

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em síndrome nefrótica com hematúria e/ou queda da TFG, o padrão-ouro para definir a etiologia glomerular é a biópsia renal percutânea.


    O que é: Paciente diabética com proteinúria de 3,5 g/24h (faixa nefrótica), edema e hematúria microscópica. Hematúria sugere glomerulopatia não diabética e indica biópsia para classificação histológica (imunofluorescência e microscopia eletrônica).


    Por que importa: O tratamento depende do subtipo histológico (ex.: nefropatia membranosa, lesões mínimas, glomeruloesclerose segmentar e focal). Exames de imagem/laboratoriais quantificam dano, mas não definem tipo de lesão.


    Como identificar: Síndrome nefrótica = proteinúria ≥ 3,5 g/24h, hipoalbuminemia, edema e dislipidemia. Sinais de alarme para biópsia em diabéticos: hematuria persistente, início rápido de proteinúria nefrótica, declínio acelerado da TFG, ausência de retinopatia diabética.


    Armadilha de prova: Repetir proteinúria/usar imagem não substitui biópsia para etiologia. TC com contraste não caracteriza histologia e expõe a risco de nefrotoxicidade.


    Conduta & Posologia


    • Confirmação diagnóstica: biópsia renal percutânea guiada por imagem após avaliação de coagulograma e controle de PA.

    • Bloqueio do SRAA (antiproteinúrico): Enalapril 5–20 mg VO 12/12h ou Losartana 50–100 mg VO 1x/dia; titular para PA <130/80 e redução da proteinúria. Reavaliar creatinina e potássio em 7–14 dias após início/aumento.

    • Ajustes em DRC: Tolerar aumento de creatinina até ~30% do basal após IECA/BRA. Se K+ >5,5 mEq/L ou subida >30%, reduzir/suspender e reavaliar causas (depleção de volume, AINEs, estenose de artérias renais).

    • Diurético de alça (edema): Furosemida 20–80 mg VO 12/12h, podendo titular até 160–240 mg/dia conforme resposta e TFG. Em DRC avançada, podem ser necessárias doses maiores ou associação com tiazídico.

    • Dislipidemia: Atorvastatina 10–40 mg VO à noite visando LDL <70 mg/dL em alto risco cardiovascular.

    • Profilaxia/terapia antitrombótica (alto risco): Considerar se albumina sérica <2,0–2,5 g/dL, trombose prévia ou nefropatia membranosa: Varfarina (INR 2–3) ou Enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12h (ClCr <30 mL/min: 1 mg/kg SC 24/24h).

    • Contraindicações: IECA/BRA em gestação, hipercalemia refratária, estenose bilateral de artérias renais; evitar bloqueio duplo IECA+BRA. Estatinas: doença hepática ativa. Anticoagulação: sangramento ativo.

    • Efeitos adversos relevantes: IECA/BRA: tosse, hipercalemia, aumento de creatinina; Furosemida: hipovolemia, hipocalemia; Estatinas: mialgia, elevação de transaminases; Anticoagulantes: sangramento.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se anasarca refratária, insuficiência renal aguda, hipertensão grave, trombose, infecção sistêmica ou necessidade de biópsia com risco aumentado.


    Limitação: O tratamento específico (ex.: corticoide, imunossupressor) depende do laudo histológico da biópsia.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Biópsia renal percutânea

    Alternativa correta. É o método definitivo para caracterização histológica da lesão glomerular (microscopia óptica, imunofluorescência e eletrônica), essencial em diabética com proteinúria nefrótica + hematúria.


    ❌ A) Ultrassonografia renal

    Alternativa incorreta. Útil para tamanho, ecogenicidade e excluir obstrução, mas não define histologia glomerular; não é método diagnóstico definitivo.


    ❌ C) Tomografia computadorizada com contraste

    Alternativa incorreta. Não caracteriza a etiologia glomerular e pode expor a nefropatia induzida por contraste, especialmente com TFG reduzida.


    ❌ D) Proteinúria de 24 horas repetida

    Alternativa incorreta. Quantifica/monitora a perda proteica, porém não diferencia o tipo de glomerulopatia. Persistindo a suspeita, a biópsia é mandatória.


    Take-home message

    • Síndrome nefrótica com hematúria e/ou queda da TFG em diabético indica biópsia renal percutânea para etiologia.
    • Imagem (US/TC) não define histologia glomerular; é complementar, não definitiva.
    • Reduza proteinúria e proteja rim com IECA/BRA (ex.: Enalapril 5–20 mg 12/12h ou Losartana 50–100 mg/d), monitorando creatinina e K+ em 7–14 dias.
    • Evite duplo bloqueio IECA+BRA e atenção à hipercalemia.
    • Edema: Furosemida 20–80 mg VO 12/12h, titular conforme resposta/TFG.
    • Considere anticoagulação se albumina <2–2,5 g/dL ou alto risco trombótico, individualizando risco/benefício.

    Questão 10 — Meningite e encefalite

    Uma paciente de 14 anos de idade foi levada ao pronto atendimento com sintomas de cefaleia intensa, febre alta há dois dias e vômitos. Ao exame físico, apresentou rigidez de nuca, FC = 118 bpm, FR = 24 irpm, SpO₂ = 98% e temperatura = 38,7 °C; sem déficits neurológicos focais no momento. O pediatra decidiu realizar punção lombar. A análise inicial do líquor mostrou aspecto turvo; proteínas = 220 mg/dL; glicose = 28 mg/dL (glicemia capilar = 95 mg/dL) e predominância de neutrófilos. Qual a conduta terapêutica mais apropriada para esse caso?

    • A)

      Início de antiviral específico para meningite enquanto aguarda o resultado da cultura

    • B)

      Observação em enfermaria, com hidratação oral

    • C)

      Administração apenas de corticosteroide por 24 horas, antes de iniciar antibiótico

    • D)

      Início imediato de antibioticoterapia empírica para meningite bacteriana

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Líquor com aspecto turvo, hipoglicorraquia (glicose baixa; relação LCR/sangue < 0,4), hiperproteinorraquia e predomínio de neutrófilos = meningite bacteriana até prova em contrário. Conduta-chave: iniciar antibiótico empírico imediatamente, sem aguardar cultura.


    O que é: Meningite bacteriana aguda em adolescente.

    Por que importa: alta morbimortalidade; atraso no antibiótico piora desfechos.


    Como identificar: febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca; LCR compatível (turbidez, proteína > 100 mg/dL, glicose baixa com relação < 0,4, citologia com PMN).


    Como manejar (racional): Cobrir pneumococo potencialmente resistente com beta-lactâmico de 3ª geração + vancomicina; adjuvar com dexametasona antes/junto à 1ª dose para reduzir complicações, principalmente por S. pneumoniae/H. influenzae.


    Conduta & Posologia


    Antibioticoterapia empírica imediata (14 anos, sem risco de Listeria): Ceftriaxona 100 mg/kg/dia IV dividida 12/12h (máx. 4 g/dia) + Vancomicina 60 mg/kg/dia IV dividida 6/6h (máx. 2 g/dia).


    Corticoterapia adjuvante: Dexametasona 0,15 mg/kg IV 6/6h por 2–4 dias, iniciar 10–20 min antes ou junto à 1ª dose de antibiótico.


    Duração do tratamento (ajustar à etiologia/cultura): N. meningitidis 7 dias; H. influenzae 7–10 dias; S. pneumoniae 10–14 dias.


    Ajustes de dose: Ceftriaxona: sem ajuste em DRC leve a moderada; cautela em icterícia neonatal (não aplicável aqui). Vancomicina: ajustar por ClCr e monitorar níveis (valesco 15–20 mg/L; se disponível).


    Contraindicações/alertas: Não atrasar antibiótico para realizar exames. Evitar ceftriaxona com soluções contendo cálcio IV simultâneas. Dexametasona: evitar se início tardio (> 4 h após antibiótico), pois perde benefício.


    Efeitos adversos relevantes: Ceftriaxona: diarreia, colestase/biliar. Vancomicina: nefrotoxicidade, ototoxicidade, reação "red man" (infundir lentamente). Dexametasona: hiperglicemia, GI.


    Medidas de suporte & controle de infecção: Isolamento por gotículas até 24 h após antibiótico; controle de dor, antitérmico, hidratação IV. Monitorar pressão intracraniana se deterioração neurológica.


    Quimioprofilaxia de contatos (se N. meningitidis ou H. influenzae): Rifampicina conforme protocolos locais; iniciar o mais precoce possível.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Sempre internar. UTI se rebaixamento do nível de consciência (GCS < 13), instabilidade hemodinâmica, convulsões recorrentes, insuficiência respiratória, choque séptico ou sinais de hipertensão intracraniana.


    Reavaliação/monitorização: Checar resposta em 24–48 h; ajustar conforme cultura/antibiograma. Repetir punção lombar apenas se má evolução, suspeita de complicações ou S. pneumoniae sem resposta clínica.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Início imediato de antibioticoterapia empírica para meningite bacteriana

    Alternativa correta. LCR turvo, proteína 220 mg/dL, glicose 28 mg/dL (relação LCR/sangue ≈ 0,29) e neutrófilos confirmam padrão bacteriano. A conduta de primeira linha é iniciar imediatamente ceftriaxona IV + vancomicina IV e considerar dexametasona 0,15 mg/kg antes/na 1ª dose.


    ❌ A) Início de antiviral específico para meningite enquanto aguarda o resultado da cultura

    Alternativa incorreta. Antiviral (ex.: aciclovir) é para encefalite viral suspeita. O LCR é típico de bactéria; aguardar cultura sem antibiótico é erro grave.


    ❌ B) Observação em enfermaria, com hidratação oral

    Alternativa incorreta. Meningite bacteriana exige antibiótico IV imediato e medidas de suporte. Observação isolada aumenta risco de piora e sequelas.


    ❌ C) Administração apenas de corticosteroide por 24 horas, antes de iniciar antibiótico

    Alternativa incorreta. Dexametasona é adjuvante, não substitui antibiótico e deve ser administrada antes ou junto da 1ª dose, não isoladamente nem atrasando a antibioticoterapia.


    Take-home message

    • LCR com turvação, proteína alta, glicose baixa (relação < 0,4) e neutrofilia define quadro típico de meningite bacteriana.
    • Não atrasar antibiótico: iniciar ceftriaxona IV + vancomicina IV imediatamente em adolescente.
    • Dexametasona 0,15 mg/kg IV 6/6h antes/junto à 1ª dose reduz complicações por pneumococo/Hib.
    • Red flag: não usar antiviral em LCR típico bacteriano; não observar sem antibiótico.
    • Isolamento por gotículas por 24 h após antibiótico e monitorização estreita; considerar UTI se sinais de gravidade.
    • Ajustar terapia conforme cultura/antibiograma em 24–48 h; duração típica 7–14 dias conforme agente.

    Questão 11 — Meningite

    Um paciente de 33 anos de idade apresentou febre alta, cefaleia intensa e rigidez de nuca; além de líquor turvo, com neutrofilia e hipoglicorraquia. Para o caso apresentado, qual é a conduta mais adequada?

    • A)

      Dar início imediato ao antibiótico intravenoso para meningite bacteriana.

      ✓
    • B)

      Utilizar corticoide isolado como primeira opção.

    • C)

      Realizar hidratação venosa exclusiva.

    • D)

      Esperar a cultura do líquor para iniciar antibiótico.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: LCR turvo + neutrofilia + hipoglicorraquia = meningite bacteriana até prova em contrário. Conduta que aprova: antibioticoterapia intravenosa imediata (não esperar cultura), idealmente após coleta de hemoculturas e, quando possível, início de dexametasona antes/junto à 1ª dose.


    O que é: Infecção bacteriana das meninges com inflamação purulenta; curso fulminante com alto risco de morte e sequela.


    Por que importa: Cada hora de atraso no antibiótico piora desfechos. Dexametasona reduz complicações em doença pneumocócica.


    Como identificar (padrão de prova): Febre + cefaleia + rigidez de nuca; LCR com neutrofilia, hipoglicorraquia (glicose LCR < 40 mg/dL ou relação LCR/soro < 0,4) e hiperproteinorraquia = meningite bacteriana.


    Armadilha de prova: Não aguarde cultura de LCR. Inicie antibiótico IV imediatamente após coleta (ou mesmo antes, se coleta não for possível sem atraso significativo).


    Conduta & Posologia


    • Antibioticoterapia empírica (adulto imunocompetente, 18–50 anos): Ceftriaxona 2 g IV a cada 12 h + Vancomicina 15–20 mg/kg IV a cada 8–12 h (considerar dose de ataque 25–30 mg/kg em sepse). Ajustar após cultura/antibiograma (7 dias para meningococo; 10–14 dias para pneumococo).

    • Corticoide adjuvante: Dexametasona 10 mg IV a cada 6 h por 4 dias, iniciar 10–20 min antes ou junto da 1ª dose de antibiótico. Manter se pneumococo suspeito/confirmado; pode suspender se outro agente.

    • Coletas antes do antibiótico (se não atrasar > 30 min): Hemoculturas (2 pares). Punção lombar se seguro. Não atrasar antibiótico para aguardar cultura ou TC sem indicação.

    • Quando solicitar TC antes da punção lombar: Imunossupressão, sinais focais, crise convulsiva no último semana, papiledema, rebaixamento importante (ECG < 11), lesão expansiva suspeita. Nesses casos: colete hemoculturas e inicie antibiótico + dexametasona antes da TC.

    • Ajustes de dose:
    • • Ceftriaxona: usualmente sem ajuste na DRC; cautela em insuficiência hepática grave/colestase. 
    • • Vancomicina: ajustar por ClCr; monitorar níveis (alvo AUC/MIC 400–600; na prática, vale trough 15–20 mg/L em meningite). 
    • • Dexametasona: sem ajuste renal; atenção a hiperglicemia.

    • Contraindicações/alertas: 
    • • Dexametasona isolada é inadequada (nunca substituir antibiótico). 
    • • Atrasar antibiótico para aguardar cultura/TC piora prognóstico.
    • • Vancomicina: nefrotoxicidade; evitar associação com outros nefrotóxicos quando possível.

    • Efeitos adversos relevantes: Ceftriaxona: colestase/biliosa; diarreia. Vancomicina: nefrotoxicidade, síndrome do homem vermelho. Dexametasona: hiperglicemia, sangramento GI (profilaxia se risco), piora de controle glicêmico.

    • Suporte: Hidratação IV, antitérmicos, controle de pressão intracraniana se necessário, manejo de crises convulsivas (levetiracetam preferível).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Toda meningite bacteriana deve ser internada. UTI se Glasgow ≤ 10, instabilidade hemodinâmica, insuficiência respiratória, convulsões recorrentes/status, sinais de hipertensão intracraniana, sepse grave/choque.

    • Reavaliação/monitorização: Avaliar em 24–48 h; ajustar esquema conforme cultura/antibiograma. Repetir punção se piora clínica ou ausência de melhora em 48–72 h.

    • Profilaxia de contatos (se Neisseria meningitidis): Rifampicina 600 mg VO 12/12 h por 2 dias (adultos) ou alternativa ciprofloxacino 500 mg VO dose única/ceftriaxona 250 mg IM dose única.

    • Discussão das alternativas

    ✅ A) Dar início imediato ao antibiótico intravenoso para meningite bacteriana.

    Alternativa correta. Quadro clínico + LCR compatível exigem antibioticoterapia IV imediata. Esquema empírico para adulto jovem: ceftriaxona 2 g IV 12/12 h + vancomicina 15–20 mg/kg IV 8–12/12 h, com dexametasona 10 mg IV 6/6 h por 4 dias iniciada antes/junto à 1ª dose.


    ❌ B) Utilizar corticoide isolado como primeira opção.

    Alternativa incorreta. Corticoide é adjuvante e nunca substitui antibiótico. Objetivo é reduzir inflamação e complicações, sobretudo em pneumococo. Dexametasona isolada é inadequada e perigosa.


    ❌ C) Realizar hidratação venosa exclusiva.

    Alternativa incorreta. Suporte hemodinâmico é importante, mas não trata a infecção. Atrasar antibiótico aumenta mortalidade e sequelas.


    ❌ D) Esperar a cultura do líquor para iniciar antibiótico.

    Alternativa incorreta. Conduta vai contra diretrizes. Deve-se coletar amostras (hemoculturas ± LCR) e iniciar antibiótico imediatamente. Não aguardar cultura.


    Take-home message

    • LCR turvo + neutrofilia + hipoglicorraquia define meningite bacteriana no contexto clínico.
    • Tratamento empírico imediato: ceftriaxona 2 g IV 12/12 h + vancomicina 15–20 mg/kg IV; iniciar dexametasona 10 mg IV 6/6 h antes/junto da 1ª dose.
    • Nunca esperar cultura/TC sem indicação urgente para iniciar antibiótico.
    • Red flag: Corticoide jamais isolado; é apenas adjuvante.
    • Solicitar TC antes da punção só se sinais de efeito de massa/risco de herniação (imunossupressão, déficit focal, convulsão recente, papiledema, Glasgow baixo).
    • Internação é mandatória; UTI se Glasgow ≤ 10, choque, insuficiência respiratória ou convulsões.

    Questão 12 — Pneumonia adquirida na comunidade (PAC)

    Um paciente de 28 anos de idade procurou atendimento médico em razão de febre alta, tosse produtiva com expectoração purulenta, dor torácica unilateral e leucocitose significativa. A radiografia mostrou condensação lobar no lobo inferior direito. No caso, o tratamento mais adequado a ser iniciado nesse paciente é a

    • A)

      administração de corticosteroide isolado.

    • B)

      solicitação de cultura de escarro seguida de antibiótico empírico adequado.

      ✓
    • C)

      administração de antibiótico empírico intravenoso.

    • D)

      observação ambulatorial por 48 horas.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Pneumonia adquirida na comunidade (PAC) com condensação lobar + febre + tosse purulenta em adulto jovem sugere etiologia bacteriana típica (p. ex., Streptococcus pneumoniae). Manejo-padrão: colher culturas (se internação/moderada a grave) e iniciar antibiótico empírico sem atraso.


    O que é: PAC é infecção do parênquima pulmonar adquirida fora do hospital, comprovada por clínica e imagem (consolidação/infiltrado novo).


    Por que importa: Início precoce de antibiótico adequado reduz mortalidade. Coleta de cultura antes do antibiótico aumenta o rendimento etiológico quando há internação/severidade.


    Como identificar: Quadro típico (febre, tosse produtiva, dor torácica pleurítica, leucocitose) + RX com consolidação lobar. Avaliar gravidade (CURB-65/PSI, sinais de instabilidade hemodinâmica/respiratória).


    Como manejar:

    1) Coletar escarro e hemoculturas se critério de internação ou gravidade;

    2) Iniciar antibiótico empírico conforme cenário (ambulatorial vs hospital/UTI);

    3) Reavaliar em 48–72h.


    Conduta & Posologia


    • Exames antes do antibiótico (quando aplicável): Hemoculturas (2 pares) e cultura/Gram de escarro antes da primeira dose se internação, gravidade (choque, necessidade de O2 alto, FR ≥ 30/min, SatO2 < 92%, PAS < 90 mmHg, confusão, uréia ≥ 50 mg/dL) ou falha terapêutica prévia.

    • Ambulatorial (adulto saudável, sem comorbidades/uso recente de antibiótico):
    • • Amoxicilina 1 g VO 8/8h por 5–7 dias ou;
    • • Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 5–7 dias ou; 
    • • Azitromicina 500 mg VO no dia 1, depois 250 mg VO/dia até completar 5 dias (se baixa resistência local).

    • Ambulatorial (com comorbidades ou uso de antibiótico < 3 meses):
    • • Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h por 5–7 dias ± macrolídeo ou;
    • • Levofloxacino 750 mg VO 1x/dia por 5 dias (evitar se alternativas adequadas).

    • Internação (enfermaria):
    • • Ceftriaxona 1–2 g IV 24/24h + Azitromicina 500 mg IV/VO 1x/dia ou;
    • • Monoterapia com fluoroquinolona respiratória (Levofloxacino 750 mg IV/VO 1x/dia ou Moxifloxacino 400 mg IV/VO 1x/dia).

    • UTI/severa: Beta-lactâmico anti-pneumococo (Ceftriaxona 2 g IV/dia, Cefotaxima 1–2 g IV 8/8h, Ampicilina-sulbactam 1,5–3 g IV 6/6–8/8h) + Macrolídeo (Azitromicina 500 mg/dia) OU + Fluoroquinolona respiratória; ajustar para risco de Pseudomonas/MRSA quando presentes.

    • Duração: 5 dias (resposta clínica adequada), podendo estender a 7–10 dias se bacteremia por pneumococo, foco extrapulmonar, Pseudomonas, ou evolução lenta.

    • Ajustes: 
    • • DRC: Amoxicilina/Amox-clav/Levofloxacino exigem redução conforme ClCr; Moxifloxacino usualmente não requer ajuste; Ceftriaxona sem ajuste na DRC (ajustar em diálise grave). 
    • • Hepatopatia (Child-Pugh B/C): Cautela com macrolídeos e moxifloxacino; preferir beta-lactâmicos e monitorar transaminases.
    • • Gestação: Preferir beta-lactâmicos; evitar doxiciclina e fluoroquinolonas.

    • Contraindicações:
    • • Beta-lactâmicos: anafilaxia a penicilina/cefalosporina.
    • • Macrolídeos/Fluoroquinolonas: prolongamento de QT/arrítmias e interações (claritromicina com estatinas/varfarina).
    • • Doxiciclina: gestação e crianças < 8 anos.

    • Efeitos adversos relevantes: Beta-lactâmicos (hipersensibilidade), macrolídeos (QT longo, GI), fluoroquinolonas (tendinopatia, QT, hipoglicemia, neuropatia), doxiciclina (fotossensibilidade, GI).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se CURB-65 ≥ 2, PSI III–V, SatO2 < 92%, FR ≥ 30/min, PAS < 90 mmHg, confusão, uréia ≥ 50 mg/dL, falha ambulatorial. UTI se choque séptico/vasoativo, ventilação mecânica, PaO2/FiO2 ≤ 250, necessidade de alto fluxo/VMNI, comprometimento multilobar.

    • Reavaliação: 48–72h para resposta clínica; investigar complicações se piora (derrame, empiema, abscesso).


    Discussão das alternativas

    ✅ B) solicitação de cultura de escarro seguida de antibiótico empírico adequado.

    Alternativa correta. Em PAC com consolidação lobar e quadro sistêmico (provável internação ou gravidade), recomenda-se coletar escarro (e hemoculturas) antes da primeira dose e iniciar imediatamente antibiótico empírico adequado ao cenário (sem atrasar a terapia). Essa sequência maximiza o rendimento microbiológico sem postergar o tratamento.


    ❌ A) administração de corticosteroide isolado.

    Alternativa incorreta. Corticoide isolado não trata PAC bacteriana. Mesmo como adjuvante, não é rotina em PAC não grave; é reservado a choque séptico refratário. Foco deve ser antibiótico empírico adequado.


    ❌ C) administração de antibiótico empírico intravenoso.

    Alternativa incorreta. Pode ser necessário se houver critério de internação; porém a alternativa ignora a etapa recomendada de coleta de culturas antes da primeira dose no paciente que provavelmente será internado. Além disso, a via IV não é obrigatória em todos os casos; casos leves são tratados VO.


    ❌ D) observação ambulatorial por 48 horas.

    Alternativa incorreta. Há evidência clínica e radiológica de PAC bacteriana. Adiar antibiótico aumenta risco de piora e complicações. O manejo deve incluir antibiótico imediato, não apenas observação.


    Take-home message

    • PAC típica: clínica + consolidação lobar = iniciar antibiótico precoce; colher escarro/hemoculturas antes se internação/severidade.
    • Ambulatorial sem comorbidades: Amoxicilina 1 g VO 8/8h por 5–7 dias é primeira linha.
    • Internação (enfermaria): Ceftriaxona 1–2 g IV/d + Azitro 500 mg/d ou fluoroquinolona respiratória.
    • Red flags para internar: SatO2 < 92%, FR ≥ 30, PAS < 90, confusão, uréia ≥ 50 mg/dL, falha ambulatorial.
    • Reavaliar em 48–72h; ausência de resposta exige busca de complicações e ajuste de antibiótico.
    • Evite macrolídeo/fluoroquinolona se QT longo; evite doxiciclina na gestação.

    Questão 13 — Distúrbios hipertensivos na gestação (pré eclâmpsia)

    Uma gestante de 32 anos de idade, G1P0, com 31 semanas de gestação, apresentou PA = 152 mmHg x 98 mmHg em dois momentos distintos, sem proteinúria. Ao exame, verificou-se boa vitalidade fetal, sem sintomas. Exames laboratoriais e de imagem: hemograma e enzimas hepáticas normais; ácido úrico normal; doppler de artérias uterinas com incisura bilateral. Qual é o diagnóstico mais provável nesse caso?

    • A)

      Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade

    • B)

      Hipertensão gestacional

      ✓
    • C)

      Hipertensão crônica

    • D)

      Doença trofoblástica gestacional

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Hipertensão gestacional = PA ≥140/90 após 20 semanas, em gestante previamente normotensa, sem proteinúria e sem sinais de disfunção de órgão-alvo; diagnóstico de exclusão vs pré-eclâmpsia e hipertensão crônica.


    O que é e por que importa: Condição frequente do terceiro trimestre com risco de evoluir para pré-eclâmpsia. A identificação precoce permite vigilância materno-fetal e definição do momento do parto (geralmente 37s em casos sem gravidade).


    Como identificar (critério operacional): PA ≥140/90 mmHg em 2 ocasiões com intervalo ≥4h, após 20s, sem proteinúria (≥300 mg/24h, relação P/C ≥0,3 ou fita ≥1+/2+ conforme protocolo) e sem disfunção orgânica (plaquetas <100 mil, TGO/TGP ≥2x, creatinina >1,1 mg/dL ou duplicação, DHEG neurológicos/visuais, edema agudo de pulmão, dor epigástrica/hipocôndrio direito persistente).


    Fisiopatologia mínima: Aumento da resistência vascular periférica no final da gestação sem a cascata endotelial sistêmica típica da pré-eclâmpsia.


    Aplicação ao caso: PA 152/98 em duas medidas, 31s, sem proteinúria, sem sintomas, exames normais. Doppler uterino com incisura bilateral = marcador de risco, não critério diagnóstico.


    Conduta & Posologia


    Ambulatório vs internação: Ambulatorial se PA <160/110, assintomática, exames maternos normais e bem-estar fetal preservado; reavaliar em 48–72h para confirmar controle e adesão. Internar se PA ≥160/110, sintomas (cefaleia, escotomas, dor epigástrica), plaquetopenia, creatinina elevada, TGO/TGP ≥2x, sofrimento fetal ou sinais de pré-eclâmpsia.


    Meta pressórica: 120–159/80–109 mmHg (evitar hipotensão materna).


    Início de anti-hipertensivo de manutenção: Indicado se PA persistente ≥150/100 mmHg ou qualquer PA ≥160/110 mmHg.


    Opções de 1ª linha (manutenção):

    • Metildopa: 250–500 mg VO 8/8h (máx. 2–3 g/dia). Ajuste: evitar em hepatopatia; EA: sedação, elevação de transaminases.

    • Nifedipina retard: 30 mg VO 12/12h (titular até 60 mg/dia). Cautela em taquicardia/edema; evitar formulação SL.

    • Labetalol: 100–200 mg VO 12/12h (até 1200–2400 mg/dia). Contraindicar em asma/bradicardia/ BAV; EA: fadiga, hipotensão.


    Crise hipertensiva (PA ≥160/110, confirmação em 15–30 min):

    • Hidralazina: 5 mg IV a cada 20 min até controle (máx. 20 mg), ou

    • Labetalol: 20 mg IV, seguido de 40–80 mg IV a cada 10 min (máx. 220 mg), ou

    • Nifedipina: 10 mg VO de liberação imediata, repetir em 20–30 min conforme resposta.


    Magnésio (profilaxia de eclampsia): Somente se pré-eclâmpsia com sinais de gravidade/eclâmpsia.


    Esquema de vigilância: PA domiciliar/ambulatorial 2–3x/semana; lab semanal (Hb/plaquetas, TGO/TGP, creatinina, EAS/rP/C); avaliação fetal semanal (CTG/perfil biofísico) e Doppler conforme risco.


    Momento do parto: Sem gravidade: 37 semanas. Antecipar se piora materna/fetal.


    Contraindicações/alertas: IECA/BRAs/Aliscireno são contraindicados na gestação. Evitar diurético de rotina.


    Gestação futura (profilaxia): AAS 75–150 mg/noite desde 12–16s até 36s em alto risco; cálcio 1–1,5 g/dia se baixa ingesta. Neste caso (31s), profilaxia já não traz benefício primordial.


    Ajustes especiais: DRC: preferir nifedipina/labetalol; monitorar creatinina/kalemia. Hepatopatia: evitar metildopa. Idosa: titular lentamente.


    • Discussão das alternativas
    • ✅ B) Hipertensão gestacional

      Alternativa correta. PA ≥140/90 após 20s, sem proteinúria/disfunção orgânica, exames maternos normais e feto bem. Doppler uterino com incisura bilateral é marcador de risco para PE/RCIU, não muda o diagnóstico atual.


    ❌ A) Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade

    Alternativa incorreta. Falta proteinúria e qualquer sinal de gravidade (plaquetas <100 mil, TGO/TGP ≥2x, creatinina >1,1, sintomas neurológicos, dor epigástrica persistente, EAP). PA não atingiu 160/110.


    ❌ C) Hipertensão crônica

    Alternativa incorreta. Requer PA elevada antes da gestação ou até 20 semanas. Caso iniciou após 20s.


    ❌ D) Doença trofoblástica gestacional

    Alternativa incorreta. Quadro clínico/laboratorial não é compatível (esperam-se HCG muito elevado, sangramento anormal, achados ultrassonográficos típicos). Aqui há gestação de 31s com feto viável.


    Take-home message

    • Hipertensão gestacional: PA ≥140/90 após 20s, sem proteinúria/disfunção orgânica.
    • Pré-eclâmpsia exige proteinúria ou lesão de órgão-alvo; gravidade com PA ≥160/110 ou marcadores de dano.
    • Iniciar anti-hipertensivo se PA persistente ≥150/100; crise ≥160/110 requer tratamento imediato.
    • Esquemas: Metildopa 250–500 mg VO 8/8h; Nifedipina retard 30 mg 12/12h; Labetalol 100–200 mg 12/12h.
    • Red flag: IECA/BRAs são contraindicados na gestação.
    • Parto em 37s se sem gravidade; antecipar se piora materna/fetal.

    Questão 14 — Distúrbios hipertensivos na gestação (pré eclâmpsia)

    Uma gestante de 32 anos de idade, G1P0, com 31 semanas de gestação, apresentou PA = 152 mmHg x 98 mmHg em dois momentos distintos, sem proteinúria. Ao exame, verificou-se boa vitalidade fetal, sem sintomas. Exames laboratoriais e de imagem: hemograma e enzimas hepáticas normais; ácido úrico normal; doppler de artérias uterinas com incisura bilateral. Assinale a alternativa que indica a conduta ideal para essa paciente.

    • A)

      Controle ambulatorial com anti-hipertensivos e vigilância fetal seriada

      ✓
    • B)

      Internação imediata por risco iminente

    • C)

      Uso de sulfato de magnésio profilático até o parto

    • D)

      Realização de parto imediato

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: PA ≥140/90 mmHg após 20 semanas, sem proteinúria e sem sinais de gravidade = hipertensão gestacional (HG). Conduta é ambulatorial com anti-hipertensivos orais se PA sustentada ≥150/100 e vigilância materno-fetal. Sulfato de magnésio e parto imediato ficam para quadros com gravidade.


    O que é e por que importa: HG é hipertensão de início na gestação, sem proteinúria/disfunção de órgão-alvo. Eleva risco de progressão para pré-eclâmpsia e complicações fetais; manejo adequado reduz eventos maternos e perinatais.


    Como identificar: PA ≥140/90 em duas medidas, após 20 semanas, em previamente normotensa; ausência de proteinúria (≥300 mg/24 h ou relação P/Cr ≥0,3) e de sinais de gravidade (plaquetas <100 mil, creatinina ≥1,1 mg/dL ou dobrada, TGO/TGP elevadas com dor epigástrica, cefaleia/escotomas persistentes, edema agudo de pulmão, RCF grave). No caso: 31 semanas, 152/98 mmHg, assintomática, exames normais, feto com boa vitalidade. Doppler uterino com incisura bilateral = marcador de risco, não indicação de parto imediato.


    Aplicação prática: A PA 152/98 mmHg é limítrofe para início de anti-hipertensivo (≥150/100, se sustentada). Sem critérios de gravidade, é manejo ambulatorial + vigilância fetal seriada + educação para sinais de alarme.


    Conduta & Posologia


    Início de fármaco anti-hipertensivo (se PA sustentada ≥150/100): alvo pressórico em gestante: PA ~120–150/80–100 mmHg.


    Opções de 1ª linha (VO):

    • Metildopa: 250–500 mg VO 8/8h (pode titular até 3 g/dia). Efeitos: sonolência, boca seca, elevação de transaminases; rara anemia hemolítica.

    • Nifedipino retard (XR): 30 mg VO 1x/dia, titular para 30–60 mg/dia. Efeitos: cefaleia, rubor, taquicardia.

    • Labetalol: 100–200 mg VO 12/12h, titular até 1,2–2,4 g/dia conforme resposta. Efeitos: fadiga, bradicardia; cautela em asma.


    Ajustes/precauções:

    • Metildopa: evitar em insuficiência hepática; monitorar TGO/TGP se sintomas. Sem ajuste renal usual.

    • Nifedipino: sem ajuste renal; evitar em choque/estenose aórtica crítica.

    • Labetalol: cautela em asma/broncospasmo e BAV/bradicardia.


    Fármacos contraindicados na gestação: IECA, BRA, inibidor direto da renina. Evitar diuréticos de rotina em HG/PE não complicada.


    Vigilância materna: PA domiciliar/ambulatorial 2–3x/semana; consultas semanais; laboratórios semanais a cada 1–2 semanas: hemograma, plaquetas, TGO/TGP, creatinina, proteinúria (EAS/rel. P/Cr) até estabilidade.


    Vigilância fetal: CTG semanal se disponível; USG de crescimento a cada 2–4 semanas com Doppler umbilical/uterino; PBF conforme indicação.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Ambulatorial se PA <160/110, assintomática, exames normais e vitalidade fetal preservada. Internar se: PA ≥160/110, cefaleia/escotomas persistentes, dor epigástrica, vômitos, dispneia/EAP, plaquetas <100 mil, creatinina ≥1,1 mg/dL ou em ascensão, TGO/TGP elevadas com dor, RCF/oligoâmnio, alterações Doppler graves, deterioração clínica.


    Tempo de reavaliação: reavaliar 48–72 h após iniciar/ajustar fármaco; depois semanal até estabilidade.


    Momento do parto: HG sem gravidade: planejar com 37 semanas, salvo intercorrências. Antes disso, conduta expectante com vigilância.


    Magnésio: não indicado na HG sem gravidade; usar para prevenção/controle de eclampsia em pré-eclâmpsia com sinais de gravidade.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Controle ambulatorial com anti-hipertensivos e vigilância fetal seriada

    Alternativa correta. Quadro compatível com hipertensão gestacional sem gravidade (PA ~152/98, sem proteinúria, exames e feto normais). Conduta padrão: acompanhamento ambulatorial, iniciar anti-hipertensivo se PA sustentada ≥150/100, vigilância materno-fetal e programar parto com 37 semanas se estabilidade.


    ❌ B) Internação imediata por risco iminente

    Alternativa incorreta. Internação é indicada em PA ≥160/110, sinais de gravidade, alteração laboratorial ou sofrimento fetal. Ausentes no caso; Doppler uterino com incisura bilateral é fator de risco, não critério isolado de internação.


    ❌ C) Uso de sulfato de magnésio profilático até o parto

    Alternativa incorreta. Sulfato de magnésio previne/trata eclampsia em pré-eclâmpsia com sinais de gravidade. Não há indicação em hipertensão gestacional sem gravidade.


    ❌ D) Realização de parto imediato

    Alternativa incorreta. Na HG sem gravidade com 31 semanas, a conduta é expectante com vigilância. Indicar parto imediato apenas diante de gravidade materna/fetal ou idade gestacional ≥37 semanas com estabilidade.


    Take-home message

    • Hipertensão gestacional: PA ≥140/90 após 20s, sem proteinúria/sinais de gravidade; risco de progressão para pré-eclâmpsia exige vigilância.
    • Sem gravidade: manejo ambulatorial, anti-hipertensivo se PA ≥150/100, alvo ~120–150/80–100 mmHg.
    • Esquemas usuais: Metildopa 250–500 mg 8/8h, Nifedipino XR 30 mg 1x/dia ou Labetalol 100–200 mg 12/12h.
    • Red flag: PA ≥160/110, cefaleia/escotomas, dor epigástrica, plaquetas <100 mil, creatinina ≥1,1, TGO/TGP elevadas, EAP → internação e magnésio se pré-eclâmpsia grave.
    • Vigilância fetal: CTG semanal, USG de crescimento a cada 2–4 semanas e Doppler; planejar parto com 37 semanas se estabilidade.
    • Evite IECA/BRAs na gestação; magnésio não é profilático em HG sem gravidade.

    Questão 15 — Infertilidade

    Uma paciente de 29 anos de idade procurou atendimento em razão de dismenorreia intensa, dor pélvica crônica e infertilidade há um ano. A ultrassonografia evidenciou imagem sugestiva de endometrioma ovariano de 3 cm. Acerca da abordagem terapêutica, assinale a alternativa que representa a conduta adequada considerando o desejo reprodutivo da paciente.

    • A)

      Início de contraceptivo combinado contínuo como terapia de primeira linha.

    • B)

      Indicação de cirurgia imediata para retirada do endometrioma, independentemente do tamanho.

    • C)

      Início de agonista de GnRH como tratamento definitivo para infertilidade.

    • D)

      Avaliação individualizada considerando manejo conservador e possível abordagem cirúrgica apenas se houver piora dos sintomas ou impacto na fertilidade.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Endometrioma pequeno (≈3 cm) em mulher com desejo reprodutivo: priorize manejo conservador para dor e proteção da reserva ovariana; cirurgia é individualizada e não é obrigatória para todos os casos.


    O que é: Endometrioma = cisto ovariano por tecido endometrial ectópico. Em geral, cisto espesso, conteúdo achocolatado, US com ecos homogêneos finos.


    Por que importa: Dor pélvica e infertilidade; cirurgia pode reduzir dor/recorrência, mas também pode reduzir reserva ovariana (queda de AMH), especialmente em cistos pequenos ou cirurgias repetidas.


    Como identificar: US transvaginal com massa cística de paredes espessas, conteúdo finamente ecogênico; avaliar bilateralidade, sinais de aderências e mapeamento de dor.


    Figura 1. Ultrssonografia pélvica evidenciando múltiplas formações arredondadas hipoecoicas em ambos os ovários, com útero de morfologia preservada.

    Fonte: Radiopaedia.org. Endometriomas-1 — caso radiológico. Disponível em: https://radiopaedia.org/cases/endometriomas-1. Acesso em 30/01/2026.


    Como manejar (regra prática de prova): 

    • Dor: AINEs e terapia hormonal (1ª linha) se não houver tentativa imediata de concepção. 

    • Infertilidade e cisto < 4 cm: evitar cirurgia rotineira; discutir tentativa de concepção, reprodução assistida conforme idade/tempo de infertilidade, e operar apenas se dor refratária, suspeita de malignidade, crescimento, ou impacto no acesso folicular.


    Conduta & Posologia


    AINEs (dor): Ibuprofeno 400–600 mg VO 8/8h ou Naproxeno 500 mg VO 12/12h, com alimento, por 5–7 dias nos piores dias da dor.


    Terapia hormonal combinada (se não estiver tentando engravidar): ACO contínuo (ex.: etinilestradiol 30 mcg + levonorgestrel 150 mcg) 1 cp VO/dia, uso contínuo. Reduz dor/recorrência, mas anticoncepcional.


    Progestagênio isolado (1ª linha para dor): Dienogeste 2 mg VO 1x/dia, contínuo. Alternativas: Acetato de medroxiprogesterona 10 mg VO/dia.


    DIU-LNG 52 mg: eficaz para dor/dispareunia e sangramento; contraceptivo, não melhora fertilidade.


    Agonista de GnRH (2ª linha para dor): Leuprorrelina 3,75 mg IM mensal por 3–6 meses; considerar add-back (ex.: Estradiol 1 mg + Noretisterona 0,5 mg VO/dia) se >3 meses para preservar osso.


    Cirurgia (cistectomia laparoscópica): indicada se dor refratária, suspeita oncológica, crescimento, torção/ruptura ou impacto em punção na FIV. Para cistos ≤3–4 cm, ponderar risco de perda de tecido ovariano.


    Ajustes/precauções: AINEs: reduzir dose/evitar em DRC estágio 4–5 e risco GI; ACO: evitar em TEV prévia, enxaqueca com aura, tabagismo ≥35a; GnRH: risco de perda mineral óssea (limitar duração; usar add-back).


    Critérios de internação/urgência: Raros. Internar se torção, ruptura com instabilidade ou abdome agudo. Caso típico é ambulatorial, reavaliar dor e plano reprodutivo em 8–12 semanas.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Avaliação individualizada considerando manejo conservador e possível abordagem cirúrgica apenas se houver piora dos sintomas ou impacto na fertilidade.

    Alternativa correta. Para endometrioma de 3 cm em mulher com desejo reprodutivo, a conduta é individualizar: priorizar proteção da reserva ovariana, controle de sintomas com AINEs; discutir janela fértil/concepção e, se necessário, reprodução assistida. Cirurgia apenas se critérios clínicos claros (dor refratária, suspeita oncológica, impacto no acesso à FIV, crescimento).


    ❌ A) Início de contraceptivo combinado contínuo como terapia de primeira linha.

    Alternativa incorreta. ACO contínuo é 1ª linha para dor, mas é contraceptivo e não trata infertilidade. Em paciente com desejo reprodutivo atual, usá-lo impediria a concepção. Correto: discutir manejo conservador voltado à fertilidade e analgésicos; reservar hormônios se a paciente não for tentar engravidar no momento.


    ❌ B) Indicação de cirurgia imediata para retirada do endometrioma, independentemente do tamanho.

    Alternativa incorreta. Cirurgia não é mandatória em endometrioma de 3 cm e pode reduzir a reserva ovariana. Indicar de forma individualizada: dor refratária, suspeita de malignidade, crescimento, torção/ruptura ou quando prejudica FIV.


    ❌ C) Início de agonista de GnRH como tratamento definitivo para infertilidade.

    Alternativa incorreta. Agonista de GnRH é opção para controle de dor, não é tratamento definitivo da infertilidade. Além disso, é contraceptivo temporário e causa hipoestrogenismo; uso limitado (3–6 meses) com add-back se prolongar.


    Take-home message

    • Endometrioma ≤3–4 cm + desejo reprodutivo: evitar cirurgia rotineira; priorize manejo conservador e preservação da reserva ovariana.
    • Terapia hormonal (ACO contínuo, progestagênio/DIU-LNG) controla dor mas é contraceptiva; use apenas se não houver tentativa de gestação imediata.
    • Agonistas de GnRH: 2ª linha para dor, por 3–6 meses, considerar add-back; não resolvem infertilidade.
    • Indicações cirúrgicas: dor refratária, suspeita de malignidade, crescimento, torção/ruptura, ou interferência no acesso folicular para FIV.
    • Evite cistectomia indiscriminada: risco de redução da reserva ovariana, principalmente em cistos pequenos ou cirurgias repetidas.
    • Reavalie em 8–12 semanas a dor e o plano reprodutivo; considere encaminhamento à reprodução assistida após 12 meses de infertilidade (ou antes, conforme idade/AMH)..

    Questão 16 — Ciclo menstrual

    Uma paciente de 25 anos de idade procurou atendimento por sangramento uterino irregular há quatro meses, com intervalos variáveis entre 15 e 45 dias, acompanhado de fluxo aumentado. Negou uso de anticoncepcionais, histórico de doenças crônicas ou gestação. O exame físico não mostrou alterações relevantes. Os exames laboratoriais revelaram: Beta-hCG negativo, Hemograma: Hb = 11,2 g/dL. A ultrassonografia transvaginal mostrou útero de volume normal, endométrio com 11 mm na fase tardia do ciclo, sem pólipos ou miomas visíveis. Qual alteração fisiopatológica é mais comum nesses casos?

    • A)

      Redução da produção hipotalâmica de GnRH

    • B)

      Falha na seleção e dominância folicular, levando à anovulação persistente

      ✓
    • C)

      Aumento da atividade dopaminérgica

    • D)

      Excesso de FSH na fase folicular

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Sangramento uterino anormal (SUA) em mulher jovem, com ciclos irregulares e fluxo aumentado, beta-hCG negativo e USG sem lesões estruturais, aponta para disfunção ovulatória (PALM-COEIN: O). A fisiopatologia típica é a anovulação persistente por falha na seleção/dominância folicular → estímulo estrogênico não contrabalançado por progesterona → endométrio proliferativo e sangramento irregular.


    Por que importa: Define a conduta (regulação endometrial com progestagênio/ACO, antifibrinolítico/AINE no fluxo) e afasta causas estruturais/gestacionais e endócrinas graves.


    Como identificar: História de irregularidade (intervalos 15–45 dias), fluxo aumentado, sem sinais estruturais na USG, beta-hCG negativo, Hb discretamente reduzida. Endométrio até ~11 mm em fase tardia, sem pólipo/mioma.


    Fisiopatologia mínima (prova): Sem ovulação não há corpo lúteo → deficiência de progesterona → endométrio sob estrogênio contínuo e instável → descamações irregulares (metrorragias/menorragias).


    Conduta & Posologia


    • Primeira linha (regular o endométrio): 
    • Progestagênio cíclico: Acetato de medroxiprogesterona 10 mg VO/dia, do D15–25 do ciclo, por 3–6 meses (ou contínuo 5–10 mg/dia se ciclos muito irregulares). Alternativa: Noretisterona 5 mg VO 8/8h por 5–7 dias para conter sangramento agudo.

    • ACO combinados (se desejar contracepção e sem contraindicação):
    • • Etinilestradiol 30–35 mcg + levonorgestrel 150 mcg, controle cíclico: 1 cp VO 1x/dia por 3 meses.
    • • Esquema agudo: 1 cp 8/8h por 3–5 dias → 12/12h por 3–5 dias → 1x/dia até completar 21 dias.

    • DIU-LNG 52 mg (levonorgestrel): liberação intrauterina contínua; reduz perda menstrual em 80–90% e previne hiperplasia.

    • Antifibrinolítico (redução do fluxo):
    • • Ácido tranexâmico 1 g VO 8/8h por até 5 dias nos dias de sangramento.
    • • Ajuste em DRC: ClCr 30–59 mL/min: 1 g 12/12h; 15–29: 1 g 24/24h; <15: 500 mg 24/24h. 
    • • Contraindicações: TEV/AVE ativo ou histórico recente; cautela com ACO combinado (risco trombótico aditivo).

    • AINEs (↓ prostaglandinas, reduzem fluxo e cólica): Ibuprofeno 400 mg VO 8/8h ou Naproxeno 500 mg VO, seguido de 250 mg 12/12h durante o fluxo. Evitar em DRC avançada, úlcera péptica ativa, gestação 3º tri.

    • Reposição de ferro: Sulfato ferroso (Fe elementar) 60–120 mg/dia por 8–12 semanas (ou até ferritina >30 ng/mL).

    • Contraindicações hormonais importantes:
    • • ACO combinado: enxaqueca com aura, TEV prévio, tabagismo ≥15 cig/dia e idade ≥35, hipertensão grave, LES com antifosfolípide, câncer de mama ativo.
    • • Progestagênio isolado: via de regra seguro; cautela em câncer de mama atual.

    • Efeitos adversos relevantes: ACO/Progestagênio: intercurrências dispépticas, mastalgia, spotting inicial. Tranexâmico: náusea, risco trombótico. AINE: gastrite, lesão renal, sangramento GI.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se instabilidade hemodinâmica, Hb ≤7–8 g/dL com sintomas, hemorragia ativa >1 absorvente/h por >2 h, coagulopatia, ou falha da terapia ambulatorial. Ambulatorial se estável, Hb >8–9 g/dL e sem comorbidades.

    • Reavaliação e monitorização: Reavaliar em 4–6 semanas (sintomas, Hb/ferritina). Se persistência/recorrência, investigar endócrino (TSH, prolactina, androgênios) e considerar biópsia endometrial se risco para hiperplasia (obesidade, anovulação crônica, sangramento persistente).


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Falha na seleção e dominância folicular, levando à anovulação persistente

    Alternativa correta. Na SUA anovulatória, o folículo não atinge dominância/ovulação, não há corpo lúteo e a progesterona não se eleva. Resultado: estrogênio contínuo, endométrio proliferativo instável e sangramento irregular. Contexto clínico e USG sem lesões sustentam essa fisiopatologia.


    ❌ A) Redução da produção hipotalâmica de GnRH

    Alternativa incorreta. Hipogonadismo hipogonadotrófico (↓GnRH/↓FSH/LH) cursa tipicamente com amenorreia ou hipomenorreia, não com fluxo aumentado irregular em mulher previamente saudável. Aqui o padrão é de anovulação periférica/funcional.


    ❌ C) Aumento da atividade dopaminérgica

    Alternativa incorreta. Dopamina inibe prolactina; o quadro clássico de SUA anovulatória por endocrinopatia é a hiperprolactinemia (↓dopamina relativa), que suprime GnRH. Aumento dopaminérgico tenderia ao oposto (↓PRL), não explicando o caso.


    ❌ D) Excesso de FSH na fase folicular

    Alternativa incorreta. FSH excessivo é visto na insuficiência ovariana/menopausa (↓reserva ovariana) e cursa com hipoestrogenismo e amenorreia/oligomenorreia, não com endométrio proliferativo e sangramento aumentado em mulher jovem.


    Take-home message

    • SUA na menacme sem lesão estrutural e beta-hCG negativo: pense em anovulação (PALM-COEIN: O).
    • Fisiopatologia-chave: falha na dominância folicular → ausência de progesterona → endométrio instável e sangramento irregular.
    • Controle ambulatorial: progestagênio cíclico (ex.: AMP 10 mg D15–25) ou ACO combinado; DIU-LNG é opção eficaz e duradoura.
    • Redução do fluxo: Ácido tranexâmico 1 g 8/8h (ajustar em DRC) e AINEs durante o fluxo.
    • Red flags para internação: instabilidade, Hb ≤7–8 g/dL sintomática, sangramento >1 absorvente/h por >2 h.
    • Sempre excluir gestação e revisar causas endócrinas se recidiva (TSH, prolactina, hiperandrogenismo).

    Questão 17 — Sangramento Uterino Anormal (SUA)

    Uma paciente de 25 anos de idade procurou atendimento por sangramento uterino irregular há quatro meses, com intervalos variáveis entre 15 e 45 dias, acompanhado de fluxo aumentado. Negou uso de anticoncepcionais, histórico de doenças crônicas ou gestação. O exame físico não mostrou alterações relevantes. Os exames laboratoriais revelaram: Beta-hCG negativo, Hemograma: Hb = 11,2 g/dL. A ultrassonografia transvaginal mostrou útero de volume normal, endométrio com 11 mm na fase tardia do ciclo, sem pólipos ou miomas visíveis. No caso clínico apresentado, qual é a hipótese diagnóstica mais provável?

    • A)

      Sangramento uterino anovulatório por disfunção ovulatória

      ✓
    • B)

      Miomatose uterina submucosa

    • C)

      Síndrome de Asherman

    • D)

      Adenomiose difusa

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Sangramento Uterino Anormal (SUA) em idade reprodutiva é classificado pela FIGO (PALM-COEIN). Em ultrassom normal e exclusão de gestação, a causa funcional mais comum é disfunção ovulatória (AUB-O).


    O que é: Sangramento uterino anovulatório (AUB-O) é sangramento irregular, imprevisível, frequentemente com intervalos variáveis e fluxo aumentado, decorrente de ciclos sem ovulação e sem fase lútea adequada.


    Por que importa: É a principal causa de SUA estruturalmente normal em mulheres jovens; diagnóstico é clínico de exclusão e o manejo reduz perda sanguínea, corrige anemia e protege endométrio de hiperplasia.


    Como identificar (prova): História de ciclos irregulares (p.ex., 15–45 dias), sem gestação, USG sem lesões (sem pólipo/mioma), endométrio dentro do esperado para a fase; hemograma com anemia leve; sinais de anovulação (irregularidade, ausência de dor intermenstrual típica). Avaliar TSH e prolactina conforme diretrizes.


    Mecanismo essencial: Ausência de pico de LH → sem corpo lúteo → deficiência de progesterona → estímulo estrogênico contínuo e desorganizado do endométrio → descamações irregulares e fluxo aumentado.


    Armadilhas de prova

    • Mioma submucoso costuma cursar com massa intracavitária visível ao USG e útero aumentado. Se US é normal, afasta o diagnóstico.

    • Asherman dá hipomenorreia/amenorreia e infertilidade pós-curetagem/infeção endometrial, não menorragia irregular.

    • Adenomiose tende a útero globoso, dor pélvica/dismenorreia e US heterogêneo; aqui o útero é normal.


    Conduta & Posologia


    Objetivo: controlar o sangramento, tratar anemia, regularizar ciclos e proteger o endométrio.


    1ª linha ambulatorial (hemodinamicamente estável):

    • ACO combinado contínuo ou cíclico: p.ex., etinilestradiol 30–35 mcg + levonorgestrel 150 mcg, 1 cp VO/dia por 21/7 ou contínuo por 3–6 meses.

    • Progestagênio cíclico: acetato de medroxiprogesterona 10 mg VO/dia do D15–25 do ciclo por 3–6 meses; alternativa: 10–20 mg VO/dia por 10–14 dias/mês.

    • DIU-LNG 52 mg: opção de alta eficácia para redução de sangramento e proteção endometrial; efeito a partir de 3–6 meses.

    • AINEs durante a menstruação: ibuprofeno 400 mg VO 8/8h ou naproxeno 500 mg VO dose ataque, depois 250–500 mg 12/12h, por 3–5 dias.

    • Ácido tranexâmico (se menorragia): 1 g VO 8/8h por até 5 dias do ciclo.

    • Sulfato de ferro: tratar anemia de acordo com Hb e ferritina (ex.: ferro elementar 60–120 mg/dia VO).


    Ajustes/precauções:

    • Estrogênio/ACO: evitar em TEV/TEP ativo, trombofilia de alto risco, enxaqueca com aura, tabagismo pesado ≥35 anos, IMC muito elevado com outros fatores, HAS não controlada, doença hepática grave.

    • Ácido tranexâmico: contraindicado em TEV/TEP ativo; ajustar em DRC (clearance 30–59 ml/min: 1 g 12/12h; 15–29 ml/min: 1 g 24/24h). Monitorar risco trombótico.

    • AINEs: cautela em DRC, úlcera péptica, uso de anticoagulantes; evitar em gestação tardia.

    • Progestagênios: opção segura quando estrogênio é contraindicado.


    Sangramento agudo intenso (instável): estabilizar, cristaloide, hemocomponentes se necessário; considerar estrogênio EV (se elegível), altas doses de progestagênio, ácido tranexâmico EV e medidas mecânicas (balão). Encaminhar para serviço de urgência.


    Critérios de internação/urgência: instabilidade hemodinâmica, Hb ≤7–8 g/dL com sintomas, coagulopatia, sangramento refratário ao manejo ambulatorial, síncope, necessidade de transfusão.


    Follow-up: reavaliar em 4–8 semanas (controle do sangramento, adesão, efeitos adversos, Hb/ferritina). Investigar causas endócrinas (TSH, prolactina) se clínica sugerir.


    • Discussão das alternativas

    ✅ A) Sangramento uterino anovulatório por disfunção ovulatória

    Alternativa correta. Ciclos irregulares (15–45 dias), fluxo aumentado, beta-hCG negativo e US sem lesões estruturais favorecem AUB-O. Endométrio de 11 mm na fase tardia é compatível com estímulo estrogênico sem padronização lútea.


    ❌ B) Miomatose uterina submucosa

    Alternativa incorreta. Mioma submucoso usualmente cursa com útero aumentado e massa intracavitária/contorno endometrial irregular no USG, ausentes no caso. O exame foi normal.


    ❌ C) Síndrome de Asherman

    Alternativa incorreta. Caracteriza-se por aderências intrauterinas pós-curetagem/infeção, com hipomenorreia/amenorreia e infertilidade. Aqui há menorragia irregular e nenhum antecedente sugestivo.


    ❌ D) Adenomiose difusa

    Alternativa incorreta. Adenomiose dá dismenorreia progressiva, dispareunia e útero globoso/heterogêneo ao US. O útero é de volume normal e sem achados típicos.


    Take-home message

    • SUA com US normal e ciclos irregulares sugere AUB-O (anovulatório) após excluir gestação.
    • Manejo inicial: ACO 1 cp/dia ou progestagênio cíclico (MPA 10 mg D15–25); DIU-LNG reduz sangramento e protege endométrio.
    • Para menorragia: ácido tranexâmico 1 g 8/8h por até 5 dias e AINEs durante a menstruação.
    • Red flags para internação: instabilidade hemodinâmica, Hb ≤7–8 g/dL sintomática, sangramento refratário, coagulopatia.
    • Mioma submucoso e adenomiose geralmente alteram US; Asherman cursa com pouco sangramento, não com menorragia irregular.

    Questão 18 — Sangramento Uterino Anormal (SUA)

    Uma paciente de 25 anos de idade procurou atendimento por sangramento uterino irregular há quatro meses, com intervalos variáveis entre 15 e 45 dias, acompanhado de fluxo aumentado. Negou uso de anticoncepcionais, histórico de doenças crônicas ou gestação. O exame físico não mostrou alterações relevantes. Os exames laboratoriais revelaram: Beta-hCG negativo, Hemograma: Hb = 11,2 g/dL. A ultrassonografia transvaginal mostrou útero de volume normal, endométrio com 11 mm na fase tardia do ciclo, sem pólipos ou miomas visíveis. No caso, qual é a conduta terapêutica inicial mais adequada?

    • A)

      Uso de análogos de GnRH por 3 meses

    • B)

      Ablação endometrial

    • C)

      Uso de contraceptivo hormonal combinado cíclico

      ✓
    • D)

      Histeroscopia diagnóstica de rotina

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Sangramento uterino anormal (SUA) em mulher jovem, beta-hCG negativo, US sem lesão estrutural e exame físico normal = provável SUA por disfunção ovulatória (PALM-COEIN: AUB-O). Primeira linha: terapia hormonal combinada cíclica se não houver contraindicações ao estrogênio.


    O que é: SUA é alteração de volume, regularidade ou frequência do sangramento uterino, fora da gestação. Classificação PALM-COEIN: causas estruturais (Pólipo, Adenomiose, Leiomioma, Malignidade/Hiperplasia) e não estruturais (Coagulopatia, Disfunção ovulatória, Endometrial, Iatrogênica, Não classificado).


    Por que importa: Define conduta: excluir gravidez e lesões estruturais; na AUB-O a terapia hormonal regula o endométrio, reduz fluxo e corrige anovulação.


    Como identificar: História de ciclos irregulares (15–45 dias), fluxo aumentado, exames: beta-hCG negativo, Hb levemente reduzida, US transvaginal sem pólipo/mioma; endométrio 11 mm em fase tardia pode ser fisiológico sem red flags na ausência de fatores de risco para hiperplasia.


    Como manejar (essencial de prova): Estável, sem causa estrutural: contraceptivo hormonal combinado (CHC) cíclico 21/7 ou contínuo. Alternativas se contraindicado estrogênio: progestagênio cíclico/contínuo, SIU-LNG, AINEs ou ácido tranexâmico para controle de fluxo.


    Conduta & Posologia


    Primeira linha (crônico, hemodinamicamente estável): CHC cíclico com etinilestradiol 30–35 mcg + levonorgestrel 150 mcg 1 comprimido VO ao dia por 21 dias + 7 dias de pausa, por 3–6 meses; reavaliar resposta (redução de volume e regularização do ciclo).


    Esquema alternativo (baixa dose): Etinilestradiol 20 mcg + gestodeno/desogestrel 1 cp VO/dia 24/4 se boa adesão e sem sangramento de escape frequente.


    Se contraindicação ao estrogênio: Acetato de medroxiprogesterona 10 mg VO/dia do D14–D25 do ciclo (cíclico) ou 5–10 mg VO/dia contínuo; ou SIU-LNG 52 mg (levonorgestrel intrauterino) se desejar método de longa duração.


    Adjuvantes para redução do fluxo: AINE (ácido mefenâmico 500 mg VO 8/8–12/12h apenas durante a menstruação) ou ácido tranexâmico 1 g VO 8/8h por 3–5 dias no início do sangramento.


    Reposição de ferro: Hemoglobina 11,2 g/dL: Ferro elementar 40–60 mg VO/dia até normalizar ferritina (>30 ng/mL) e Hb.


    Contraindicações ao estrogênio (CHC): TEV/TEA atual ou prévio, trombofilias de alto risco, enxaqueca com aura, tabagismo ≥15 cigarros/dia e idade ≥35 anos, PA ≥160/100 mmHg, doença cardiovascular/cerebrovascular, câncer de mama atual, hepatopatia grave/Child-Pugh C, pós-parto <21 dias.


    Ajustes/Populações especiais: Hepatopatia: evitar CHC se Child-Pugh B/C; preferir progestagênio isolado/SIU-LNG. DRC avançada/diálise: evitar CHC por risco trombótico; preferir progestagênio/SIU-LNG. Obesidade/TEV prévio: evitar CHC; considerar SIU-LNG.


    Efeitos adversos relevantes: CHC: náusea, mastalgia, cefaleia, spotting inicial, raro TEV. Progestagênio: sangramento irregular, ganho ponderal. Ácido tranexâmico: náusea; evitar em TEV/TEA ativo. AINE: dispepsia, risco GI/renal.


    Critérios de internação/urgência vs ambulatorial: Internar se instabilidade hemodinâmica, Hb <7–8 g/dL com sintomas, sangramento intenso com coágulos e sinais de hipoperfusão ou falha do manejo ambulatorial. Caso atual: ambulatorial com reavaliação.


    Monitorização: Reavaliar em 8–12 semanas (padrão de sangramento, efeitos adversos). Hemograma/ferritina em 8–12 semanas se anemia. Investigar endométrio (biópsia) se fatores de risco para hiperplasia (obesidade importante, anovulação crônica, uso de estrogênio sem oposição) ou falha terapêutica em 3–6 meses.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) Uso de contraceptivo hormonal combinado cíclico

    Alternativa correta. Corresponde ao manejo inicial de primeira linha em SUA não estrutural (AUB-O) em mulher hemodinamicamente estável e sem contraindicações ao estrogênio. Reduz o fluxo em ~40–50% e regulariza ciclos. Esquema típico: etinilestradiol 30–35 mcg + levonorgestrel 150 mcg, 1 cp VO/dia por 21 dias + 7 de pausa por 3–6 meses.


    ❌ A) Uso de análogos de GnRH por 3 meses

    Alternativa incorreta. Análogos de GnRH são terapêutica de segunda/terceira linha, de uso curto, para casos refratários ou preparo pré-operatório devido a hipoestrogenismo e perda mineral óssea; não são primeira linha em mulher jovem sem lesão estrutural.


    ❌ B) Ablação endometrial

    Alternativa incorreta. Procedimento definitivo para menorragia refratária após falha do tratamento clínico e não indicado em mulheres que desejam manter fertilidade. Exige exclusão de patologia endometrial e tentativa prévia de terapia medicamentosa.


    ❌ D) Histeroscopia diagnóstica de rotina

    Alternativa incorreta. Com US normal, ausência de pólipos/miomas e sem fatores de risco para neoplasia endometrial, não há indicação de histeroscopia de rotina na abordagem inicial. É reservada para sangramento persistente/refratário ou achados suspeitos.


    Take-home message

    • SUA com US normal e beta-hCG negativo em mulher jovem = pensar em AUB-O (PALM-COEIN) e iniciar tratamento clínico.
    • Primeira linha: CHC cíclico (EE 30–35 mcg + LNG 150 mcg 1 cp/dia, 21/7) por 3–6 meses.
    • Se contraindicação ao estrogênio: progestagênio cíclico/contínuo ou SIU-LNG; adjuvantes: AINEs e ácido tranexâmico durante a menstruação.
    • Red flags: instabilidade hemodinâmica, Hb <7–8 g/dL sintomática, suspeita de neoplasia endometrial → avaliação urgente e/ou internação.
    • Reavaliar em 8–12 semanas; investigar endométrio se falha terapêutica em 3–6 meses ou fatores de risco para hiperplasia.

    Questão 19 — Hemorragia pós-parto

    Uma puérpera apresentou sangramento vaginal aumentado no primeiro dia após o parto vaginal sem lacerações significativas. Ao exame, foram detectados útero amolecido e presença de coágulos. Considerando o quadro clínico descrito, assinale a alternativa que indica a causa mais provável da hemorragia pós-parto precoce.

    • A)

      Acretismo placentário residual

    • B)

      Retenção urinária em bexiga pouco distendida

    • C)

      Laceração de vasos cervicais sem sinais externos

    • D)

      Atonia uterina por falha de contração miometrial

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Hemorragia pós-parto precoce (HPP) nas primeiras 24h tem como principal causa a atonia uterina (Tone, uma das “4Ts”: Tone, Tissue, Trauma, Thrombin). Útero amolecido + sangramento com coágulos, sem lacerações evidentes, aponta para atonia.


    Definições operacionais: HPP = perda sanguínea ≥500 mL após parto vaginal (ou ≥1000 mL/qualquer parto com instabilidade hemodinâmica) até 24h. Atonia uterina = falha de contração do miométrio, impedindo hemostasia por compressão dos vasos placentários.


    Por que importa: É a principal causa de mortalidade materna evitável no pós-parto. Reconhecimento imediato reduz choque, coagulopatia e necessidade de histerectomia.


    Como identificar (clínico, padrão-ouro na prática): útero globoso e amolecido à palpação, sangramento ativo com coágulos, sem lacerações no trajeto e sem restos evidentes; melhora após massagem uterina e ocitócicos corrobora.


    Armadilhas de prova: laceração cervical cursa com sangramento com útero contraído; restos placentários costumam deixar o útero maior/atônico porém há história/achados de placenta incompleta; bexiga cheia pode agravar atonia, mas não é a causa primária quando “pouco distendida”.


    Conduta & Posologia


    • Passos iniciais (em minutos): Chamar equipe, acesso venoso calibroso x2, hemograma/coagulograma/fibrinogênio, tipagem e prova cruzada, aquecimento. Massagem uterina bimanual imediata e esvaziar bexiga (sondagem).

    • Ocitocina (1ª linha): 10 UI IM OU 5 UI IV lento; manutenção em bomba: 10–40 UI em 500–1000 mL de SF/ringer, ajustando à resposta. Efeitos: hipotensão se bolus rápido IV.

    • Metilergometrina (2ª linha se sem HAS/preeclâmpsia): 0,2 mg IM ou IV lento, repetir a cada 2–4 h se necessário. Contraindicado em hipertensão, preeclâmpsia/eclampsia, cardiopatia.

    • Misoprostol (adição/alternativa): 800–1000 mcg SL/retal dose única. EA: febre, calafrios, diarreia.

    • Carboprost (15-metil PGF2α, se disponível): 250 mcg IM a cada 15–90 min até controle (máx 2 mg). Contraindicado em asma; cautela em doença hepática/renal.

    • Ácido tranexâmico (TXA, adjuvante hemostático): 1 g IV em 10 min, idealmente até 3 h do parto; repetir 1 g se sangramento persiste/recidiva após 30 min. EA: náusea, raro evento trombótico. Ajuste em DRC: Para uso obstétrico em dose única, OMS admite esquema padrão; em DRC moderada/grave, preferir não repetir sem avaliação especializada. Limitação: dados específicos de ajuste na HPP são escassos.

    • Terapias mecânico-cirúrgicas (se falha de uterotônicos): tamponamento intrauterino (balão tipo Bakri), suturas de compressão (B-Lynch), ligaduras vasculares; histerectomia como medida salvadora.

    • Reposição volêmica e hemocomponentes: Cristaloide aquecido; ativar protocolo de hemorragia maciça se perda >1000 mL ou instabilidade: CH/FFP/plaquetas em razão aproximada 1:1:1; alvo de fibrinogênio >200 mg/dL (crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio).

    • Critérios de UTI vs enfermaria: UTI se choque, vasopressor, necessidade de ventilação, transfusão maciça, coagulopatia, acidose/lactato elevado. Enfermaria/acompanhamento se estabilidade hemodinâmica mantida por ≥24 h sem novas perdas.

    • Monitorização e reavaliação: Sinais vitais e sangramento a cada 15 min nas 2 primeiras horas, depois espaçar se estável; balanço hídrico e diurese >0,5 mL/kg/h.

    • Discussão das alternativas
    • ✅ D) Atonia uterina por falha de contração miometrial

      Alternativa correta. Útero amolecido no 1º dia pós-parto, sem lacerações significativas e com coágulos, é o padrão de atonia. Conduta: massagem uterina, esvaziar bexiga, ocitocina 10 UI IM ou 5 UI IV + infusão 10–40 UI, associar uterotônicos de 2ª linha (metilergometrina se não HAS; misoprostol; carboprost) e ácido tranexâmico 1 g IV precoce.


    ❌ A) Acretismo placentário residual

    Alternativa incorreta. Acretismo implica anomalia de aderência placentária geralmente reconhecida no terceiro período/parto; quando há “resíduo”, o quadro típico é de retenção de restos suspeitada por placenta incompleta e/ou USG. Aqui, o dado-chave é útero amolecido, favorecendo atonia primária.


    ❌ B) Retenção urinária em bexiga pouco distendida

    Alternativa incorreta. Bexiga muito cheia pode perpetuar atonia por impedimento mecânico da contração, mas a alternativa descreve “pouco distendida”, o que não explica sangramento significativo. Além disso, o achado central (útero amolecido) indica falha contrátil primária.


    ❌ C) Laceração de vasos cervicais sem sinais externos

    Alternativa incorreta. Lacerações cursam com útero contraído e sangramento vermelho vivo que persiste apesar de ocitócicos. O caso descreve útero amolecido com coágulos, achado típico de atonia.


    Take-home message

    • HPP precoce até 24h: principal causa é atonia uterina; útero amolecido + coágulos sem laceração = diagnóstico clínico provável.
    • 1ª linha: massagem + ocitocina 10 UI IM ou 5 UI IV e manutenção (10–40 UI em 500–1000 mL).
    • Adjuvantes: TXA 1 g IV (até 3h); 2ª linha uterotônicos: metilergometrina 0,2 mg (sem HAS), misoprostol 800–1000 mcg, carboprost 250 mcg IM (sem asma).
    • Red flag: Metilergometrina é contraindicada em HAS/preeclâmpsia; carboprost é contraindicado em asma.
    • Falha clínica: avançar para tamponamento (balão), suturas de compressão e cirurgias conservadoras; histerectomia salva-vidas.
    • Ativar protocolo de hemorragia se >1000 mL ou instabilidade; alvo de fibrinogênio >200 mg/dL e razão 1:1:1 de hemocomponentes.

    Questão 20 — Icterícia neonatal

    Um recém-nascido a termo, de três dias de vida, em aleitamento materno exclusivo, apresentou icterícia visível até o abdome. Está em bom estado geral, mamando bem, sem alterações ao exame físico. Os exames laboratoriais apresentaram bilirrubina total = 11 mg/dL e bilirrubina direta = 0,4 mg/dL. Qual é a conduta mais adequada para esse paciente?

    • A)

      Manter aleitamento materno e reavaliar clinicamente em 24 horas.

      ✓
    • B)

      Interromper o aleitamento e complementar com fórmula.

    • C)

      Iniciar fototerapia imediatamente.

    • D)

      Solicitar ultrassonografia hepática e investigar colestase.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em RN termo saudável com 72h, icterícia fisiológica costuma ter bilirrubina total < 12–13 mg/dL; fototerapia só se atingir limiares por hora de vida (curvas). Bilirrubina direta normal afasta colestase.


    O que é: Icterícia neonatal fisiológica é a hiperbilirrubinemia indireta transitória por maior produção, menor captação/conjugação hepática e maior circulação entero-hepática no RN.


    Por que importa: Objetivo é prevenir encefalopatia bilirrubínica. Tratar quando a bilirrubina atinge limiares específicos por idade pós-natal e fatores de risco.


    Como identificar: RN a termo, bom estado geral, sem hemólise, com BT em faixas abaixo dos limiares de fototerapia. BD normal (tipicamente < 1 mg/dL e < 20% da BT) exclui colestase.


    Como manejar (regra prática): Manter aleitamento sob livre demanda; reavaliar clinicamente/laboratorial em 24–48h se próximo do limiar; indicar fototerapia se TSB atingir curva-idade (AAP/SBP); investigar colestase se BD ≥ 1 mg/dL quando BT ≤ 5 mg/dL, ou BD ≥ 20% da BT quando BT > 5 mg/dL, ou icterícia persistente > 14 dias no termo.


    Conduta & Posologia


    Caso típico (72h, termo, sem risco): Com BT 11 mg/dL e BD 0,4 mg/dL, conduta é ambulatorial: manter AME, orientar mamadas 8–12x/dia e reavaliar em 24 h clinicamente (e TSB se progressão clínica).


    Limiar de fototerapia (referência prática): RN ≥38s sem fatores de risco, ~16–17 mg/dL em ~72h; com risco intermediário, ~14–15 mg/dL. Abaixo disso, observação e AME. (Usar curvas por hora de vida da AAP/SBP).


    Fototerapia (parâmetros, se indicada): Intensiva com irradiância ≥ 30 µW/cm²/nm (luz azul 430–490 nm), superfície corporal máxima exposta, proteção ocular, hidratação adequada.


    Exsanguíneotransfusão (referência): Considerar se TSB em zona de troca nas curvas (≈ ≥ 22–26 mg/dL em 72h conforme risco) ou falha/TSB próximo (≤2–3 mg/dL) do limiar de troca com sinais neurológicos.


    Contraindicações: Não interromper aleitamento materno de rotina em icterícia fisiológica; suplementar só se desidratação, perda de peso excessiva ou hipoglicemia.


    Efeitos adversos relevantes (fototerapia): Perda insensível de água, hipertermia/hipotermia, eritema, diarreia; monitorar temperatura, hidratação, ingestas e TSB seriado.


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se fototerapia indicada, TSB a ≤ 2–3 mg/dL do limiar de troca, suspeita de hemólise/sepses, má sucção/desidratação, ou TSB ascenso rápido (>0,2–0,3 mg/dL/h). Ambulatorial se abaixo dos limiares, boa sucção e vigilância garantida.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Manter aleitamento materno e reavaliar clinicamente em 24 horas.

    Alternativa correta. RN termo, 72h, bom estado geral, BT 11 mg/dL está abaixo dos limiares de fototerapia nas curvas por hora de vida (SBP/AAP). BD 0,4 mg/dL é normal, afastando colestase. Conduta: manter AME e reavaliar em 24 h (clínica ± TSB se progressão).


    ❌ B) Interromper o aleitamento e complementar com fórmula.

    Alternativa incorreta. Não há indicação de interromper AME em icterícia fisiológica. Suplementação só se houver desidratação, perda de peso excessiva (>10%) ou hipoglicemia. Interrupção pode reduzir ingesta e piorar a icterícia.


    ❌ C) Iniciar fototerapia imediatamente.

    Alternativa incorreta. O valor de 11 mg/dL em 72h no termo sem fatores de risco está abaixo do limiar de fototerapia (≈14–17 mg/dL conforme risco). Fototerapia indevida expõe a efeitos adversos e custos sem benefício.


    ❌ D) Solicitar ultrassonografia hepática e investigar colestase.

    Alternativa incorreta. BD 0,4 mg/dL (<1 mg/dL e <20% da BT) é normal. Colestase suspeita-se com BD elevada ou icterícia persistente >14 dias (termo). USG hepática não é indicada neste cenário.


    Take-home message

    • Icterícia fisiológica no termo: pico no 3º–5º dia; tratar apenas se atingir limiar por hora de vida nas curvas (AAP/SBP).
    • Aos ~3 dias, RN termo sem risco costuma ter limiar de fototerapia ≈ 16–17 mg/dL; 11 mg/dL é observação e AME.
    • Bilirrubina direta normal (<1 mg/dL e <20% da total) afasta colestase; investigar se BD alta ou icterícia >14 dias (termo).
    • Red flag: hemólise, prematuridade, sepse, perda de peso >10%, má sucção, TSB subindo >0,2–0,3 mg/dL/h → internar/avaliar para fototerapia.
    • Fototerapia (se indicada): irradiância ≥ 30 µW/cm²/nm, máxima exposição cutânea, proteção ocular, monitorização.
    • Evite interromper AME; suplementar apenas por indicação clínica (desidratação/hipoglicemia).

    Questão 21 — Diarreia e desidratação

    Um paciente de três anos de idade, previamente hígido, foi levado ao pronto atendimento por apresentar há dois dias diarreia líquida, com seis episódios por dia, e vômitos ocasionais. A mãe relatou que ele mantém aceitação moderada de líquidos. Ao exame, mostrou-se hidratado, com mucosas úmidas, sem alterações respiratórias, com FC = 110 bpm, FR = 26 irpm, SpO₂ = 97%, e temperatura = 37,3 °C. Abdome sem dor à palpação. No contexto da diarreia aguda não complicada, a principal indicação de investigação laboratorial é para

    • A)

      todas as crianças com mais de 24 horas de sintomas.

    • B)

      os casos de diarreia líquida sem sangue.

    • C)

      os casos de suspeita de desidratação moderada a grave ou disenteria.

      ✓
    • D)

      qualquer diarreia viral autolimitada.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Diarreia aguda infantil é, na maioria, viral e autolimitada; exames NÃO são de rotina. Peça exames quando há gravidade (desidratação moderada/grave) ou disenteria (sangue/muco).


    O que é: Diarreia aguda = aumento de número/liquidez das fezes por até 14 dias. Disenteria = diarreia com sangue/muco e dor/tenesmo, sugerindo invasão bacteriana.


    Por que importa: Exames desnecessários atrasam a hidratação e aumentam custo. A exceção é quando sinais de gravidade mudam conduta (internação, antibiótico, correção eletrolítica).


    Como identificar quem precisa de exames: Avalie estado de hidratação, presença de sangue nas fezes, febre alta persistente, toxicidade sistêmica, vômitos incoercíveis, idade de risco e imunossupressão.


    Quando pedir exames (padrão banca):

    • Química sérica (Na, K, Cl, bicarbonato), glicemia e função renal: se desidratação moderada a grave, alteração do nível de consciência, convulsão, choque ou risco de distúrbio hidroeletrolítico.

    • Coprocultura/PCR fezes: se disenteria, surto, viagem internacional, imunossupressão ou doença grave persistente.

    • Parasitológico de fezes: se diarreia persistente (>14 dias), perda ponderal, exposição a creche/água não tratada, eosinofilia.

    • Pesquisa de toxinas (C. difficile): pós-antibiótico recente ou internação.

    • Hemograma: se toxicidade sistêmica, febre alta prolongada, disenteria.


    Armadilhas de prova

    • Solicitar fezes de rotina em diarreia líquida sem sangue e sem sinais de alarme: errado.

    • Antibiótico empírico em diarreia aquosa não complicada: errado.

    • Ignorar zinco em menores de 5 anos: perde ponto.


    Conduta & Posologia


    Reidratação oral (primeira linha): Solução de Reidratação Oral (SRO) padronizada OMS/MS. Plano A (sem desidratação): ofertar após cada evacuação 50–100 mL (<1 ano) e 100–200 mL (≥1 ano) + líquidos caseiros, dieta habitual. Plano B (desidratação moderada): 50–100 mL/kg em 4–6 h, reavaliando a cada 1–2 h.


    Zinco (reduz duração/recorrência): por 10–14 dias: 10 mg/dia se <6 meses; 20 mg/dia se ≥6 meses (VO).


    Antiemético para facilitar SRO: Ondansetrona VO dose única 0,15 mg/kg (máx. 8 mg) se vômitos impedem a hidratação. Evitar uso repetido.


    Probióticos: Podem reduzir duração (ex.: Lactobacillus rhamnosus GG 10^9–10^10 UFC/dia por 5 dias). Evidência moderada; não essencial.


    Antibióticos: Apenas se disenteria, cólera suspeita, febre alta com toxemia, ou imunossupressão. Escolha conforme agente/epidemiologia local.


    Evitar: Loperamida e antissecretores em crianças; podem causar íleo paralítico/efeitos adversos graves.


    Critérios de internação: Desidratação grave/choque, incapacidade de ingerir SRO, vômitos incoercíveis, alteração de consciência/convulsão, disenteria com toxemia, falha da SRO, lactentes pequenos (<6 meses) com sinais de risco, doença de base relevante (cardiopatia, nefropatia, imunodeficiência).


    Reavaliação: Ambulatorial em 24–48 h ou antes se piora (diminuição diurese, letargia, sangue nas fezes, febre alta persistente, sede intensa).


    Ajustes/segurança: Ondansetrona: cautela em QT longo, uso com outros fármacos que prolongam QT. Zinco geralmente bem tolerado (náuseas/epigastralgia). Em DRC: preferir SRO com osmolaridade padrão; monitorar eletrólitos se desidratação importante.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) os casos de suspeita de desidratação moderada a grave ou disenteria.

    Alternativa correta. Exames são indicados quando houver gravidade (desidratação moderada/grave) para guiar correção hidroeletrolítica e quando houver disenteria para investigação etiológica (coprocultura/PCR) e definição de antibiótico. Essa é a orientação de MS/SBP para diarreia aguda não complicada.


    ❌ A) todas as crianças com mais de 24 horas de sintomas.

    Alternativa incorreta. A maioria das diarreias virais resolve-se sem exames. Solicitar por tempo isolado (>24 h) é conduta excessiva e não recomendada.


    ❌ B) os casos de diarreia líquida sem sangue.

    Alternativa incorreta. Diarreia aquosa sem sangue e sem sinais de alarme é manejada clinicamente com SRO/zinco, sem exames de rotina.


    ❌ D) qualquer diarreia viral autolimitada.

    Alternativa incorreta. Em quadros autolimitados e sem gravidade, os exames não são indicados. Prioriza-se hidratação, dieta e orientação.


    Take-home message

    • Exames laboratoriais na diarreia aguda infantil: peça quando há desidratação moderada/grave ou disenteria.
    • Hidrate com SRO: Plano A (sem desidratação) e Plano B (50–100 mL/kg em 4–6 h) com reavaliação clínica frequente.
    • Zinco por 10–14 dias (10 mg/d <6m; 20 mg/d ≥6m) reduz duração/recorrência.
    • Red flag: sangue nas fezes, letargia, vômitos incoercíveis, anúria → considerar exames e possível internação.
    • Ondansetrona VO 0,15 mg/kg (máx. 8 mg) pode facilitar SRO quando há vômitos.
    • Evite loperamida em crianças; não usar antibiótico de rotina em diarreia aquosa não complicada.

    Questão 22 — Diarreia e desidratação

    Um paciente de três anos de idade, previamente hígido, foi levado ao pronto atendimento por apresentar há dois dias diarreia líquida, com seis episódios por dia, e vômitos ocasionais. A mãe relatou que ele mantém aceitação moderada de líquidos. Ao exame, mostrou-se hidratado, com mucosas úmidas, sem alterações respiratórias, com FC = 110 bpm, FR = 26 irpm, SpO₂ = 97%, e temperatura = 37,3 °C. Abdome sem dor à palpação. Considerando o quadro apresentado, qual é a principal medida terapêutica inicial?

    • A)

      Reposição venosa rápida com solução isotônica

    • B)

      Terapia de reidratação oral com solução padrão de sais

      ✓
    • C)

      Uso imediato de antibiótico para prevenção de disbiose

    • D)

      Uso de antidiarreicos para reduzir número de evacuações

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em criança estável e sem sinais de desidratação, a medida inicial padrão-ouro é Terapia de Reidratação Oral (TRO) com Solução de Reidratação Oral (SRO) + manutenção da alimentação e hidratação domiciliar.


    O que é: TRO utiliza solução equilibrada de glicose e eletrólitos (SRO) para prevenir/corrigir perdas gastrointestinais.


    Por que importa: Reduz hospitalizações, mortalidade e necessidade de acesso venoso; é recomendação central da AIDPI/OMS/SBP em diarreia aguda.


    Como identificar a indicação: Criança alerta, mucosas úmidas, diurese presente, sem sinais de desidratação (olhos não encovados, prega cutânea normal, sede ausente/leve, perfusão adequada) → Plano A (TRO domiciliar).


    Armadilha de prova: Hidratação venosa rápida é reservada a desidratação grave/choque; antidiarreicos e antibiótico de rotina são contraindicados.


    Conduta & Posologia


    TRO (Plano A - sem desidratação): Oferecer SRO após cada episódio: < 2 anos: 50–100 mL; ≥ 2 anos: 100–200 mL. Alternativa prática: 10 mL/kg por episódio de diarreia e 5–10 mL/kg após vômito, fracionando em pequenas ofertas.


    Alimentação: Manter aleitamento materno e dieta habitual, evitando jejum. Evitar refrigerantes/sucos hipertônicos.


    Zinco (adjuvante, reduz duração e recidiva): 10 mg VO 1x/dia se < 6 meses; 20 mg VO 1x/dia se ≥ 6 meses por 10–14 dias. Efeitos adversos: náusea/vômito leves.


    Ondansetrona (facilitar TRO se vômitos persistentes): dose única 0,15 mg/kg VO (máx. 8 mg). Evitar se QT prolongado, uso de outros fármacos que prolongam QT, hepatopatia grave (Child-Pugh C) ou obstrução intestinal.


    Quando fazer TRO de reposição (Plano B - desidratação leve/moderada): 50–75 mL/kg de SRO em 4 h, reavaliando clinicamente.


    Quando hidratar venoso (Plano C): Desidratação grave/choque: SF 0,9% 20 mL/kg em bolus, repetir conforme perfusão, e transicionar para TRO assim que possível.


    Contraindicações/alertas: Antidiarreicos opioides (ex.: loperamida) contraindicados em < 5 anos; antibiótico não é de rotina (exceto suspeita de cólera, shigelose, diarreia sanguinolenta febril grave, imunossupressão, ou suspeita clínica/epidemiológica específica).


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se desidratação grave, choque, falha da TRO (vômitos incoercíveis/ingestão < 50% do necessário), letargia, desnutrição grave, comorbidades relevantes, diarreia sanguinolenta com toxemia, ou impossibilidade de cuidado domiciliar. Ambulatorial se estável, sem desidratação, com orientação e retorno em 24–48 h ou antes se piora.


    Ajustes especiais: TRO/SRO não requer ajuste em DRC ou hepatopatia leve/moderada; monitorar balanço hídrico em cardiopatas/nefropatas. Ondansetrona: usar com cautela em hepatopatia (evitar dose repetida).


    Red flags para reavaliação imediata: sede intensa, diurese reduzida, letargia/irritabilidade, vômitos persistentes, sangue nas fezes, febre alta persistente.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Terapia de reidratação oral com solução padrão de sais

    Alternativa correta. Criança hidratada, sinais vitais estáveis, sem sinais de desidratação → Plano A: SRO após cada evacuação/vômito, manutenção da dieta e observação domiciliar. Evidência forte de redução de complicações e necessidade de hidratação venosa.


    ❌ A) Reposição venosa rápida com solução isotônica

    Alternativa incorreta. Indicada em desidratação grave/choque (Plano C). No caso, não há taquicardia desproporcional, perfusão ruim, olhar encovado, prega cutânea lentificada ou alteração de consciência; portanto, TRO é preferível.


    ❌ C) Uso imediato de antibiótico para prevenção de disbiose

    Alternativa incorreta. Antibiótico não previne disbiose e não é indicado de rotina em diarreia aquosa não invasiva. Reservar a casos específicos (ex.: shigelose, cólera, diarreia sanguinolenta febril grave, imunossuprimidos), conforme clínica/epidemiologia.


    ❌ D) Uso de antidiarreicos para reduzir número de evacuações

    Alternativa incorreta. Fármacos antiperistálticos (ex.: loperamida) são contraindicados em crianças pequenas por risco de íleo, efeitos adversos e mascaramento de gravidade. O manejo correto é SRO, alimentação e zinco.


    Take-home message

    • Criança com diarreia aguda, hidratada e estável → Plano A: TRO com SRO + dieta habitual.
    • Posologia prática: 50–100 mL (<2 anos) ou 100–200 mL (≥2 anos) de SRO após cada evacuação ou 10 mL/kg/episódio.
    • Zinco adjuvante: 10–20 mg VO/dia por 10–14 dias reduz duração e recidiva.
    • Red flag: antidiarreicos são contraindicados e antibiótico não é de rotina.
    • Hidratação venosa é para desidratação grave/choque (SF 0,9% 20 mL/kg em bolus).
    • Reavaliar em 24–48 h ou antes se piora (sede intensa, oligúria, sangue nas fezes, vômitos persistentes, febre alta).

    Questão 23 — Aleitamento e Alimentação infantil

    Um lactente de 10 meses de vida foi levado à consulta ambulatorial. A mãe referiu alimentação predominante com leite de vaca integral desde os quatro meses, bem como palidez progressiva. Ao exame, o paciente mostrava-se ativo, com palidez cutânea leve, sem sopros; FC = 124 bpm, FR = 30 irpm, SpO₂ = 98%, e peso e estatura adequados. Hemograma mostrou Hb = 8,7 g/dL; VCM = 68 fL e RDW aumentado. A estratégia mais efetiva para prevenção desse tipo de anemia é a

    • A)

      introdução de leite de vaca integral a partir dos dois meses.

    • B)

      introdução de ferro na dieta após seis meses, com alimentos ricos e suplementação, quando indicada.

      ✓
    • C)

      restrição completa de carnes por um ano.

    • D)

      redução de ingestão de frutas cítricas.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Lactente com anemia microcítica/hipocrômica (VCM 68 fL) e RDW aumentado, com introdução precoce de leite de vaca integral, é clássico de anemia ferropriva por baixa oferta e perdas gastrointestinais ocultas. Prevenção se faz com ferro na alimentação complementar a partir de 6 meses e suplementação profilática quando indicada.


    O que é: Anemia ferropriva = anemia por deficiência de ferro, com hematimetria microcítica e anisocitose (RDW alto). Padrão-ouro para reserva = ferritina baixa (lembrar que inflamação pode elevá-la falsamente).


    Por que importa: Causa mais comum de anemia em lactentes; impacta neurodesenvolvimento. Leite de vaca precoce aumenta risco por baixa biodisponibilidade de ferro e micro-hemorragias intestinais.


    Como identificar: História de dieta pobre em ferro/uso de leite de vaca < 12 meses; hemograma com Hb baixa, VCM baixo e RDW alto. Resposta terapêutica ao ferro (↑ reticulócitos em 7–10 dias) confirma.


    Como prevenir: Alimentação complementar rica em ferro a partir de 6 meses (carnes, feijões, alimentos fortificados) + suplementação profilática conforme risco/idade; evitar leite de vaca até 12 meses.


    Conduta & Posologia


    • Profilaxia (termo, sem fatores de risco, 6–24 meses): Ferro elementar 1 mg/kg/dia VO (ex.: sulfato ferroso gotas, 25 mg Fe/mL), preferir 1x/dia, idealmente em jejum ou com fonte de vitamina C.

    • Profilaxia (prematuro/baixo peso): Ferro elementar 2 mg/kg/dia VO a partir de 30 dias até 24 meses (ajustar conforme ganho ponderal e ferritina).

    • Tratamento (anemia ferropriva): Ferro elementar 3–5 mg/kg/dia VO, 1–2 tomadas, por 3 meses e manter por 4–8 semanas após normalizar Hb/ferritina para repleção de estoques.

    • Duração e monitorização: Reticulocitose em 7–10 dias; Hb sobe ~ 0,5–1 g/dL/semana. Reavaliar Hb em 4 semanas e ferritina ao fim do esquema.

    • Ajustes/Populações especiais: Em DRC, considerar formulações IV se intolerância/ineficácia VO; em hepatopatias crônicas, mesma dose com monitorização de ferritina e saturação de transferrina. Gestantes/lactantes seguem protocolos específicos; para lactentes, usar dose por kg acima.

    • Interações: Leite/cálcio, fitatos (cereais integrais), chás e antiácidos reduzem absorção. Preferir dar longe de lácteos; vitamina C aumenta absorção.

    • Contraindicações: Hemocromatose/sobrecarga de ferro, anemias hemolíticas não ferroprivas.

    • Efeitos adversos relevantes: Náuseas, dor abdominal, constipação/diarreia, escurecimento das fezes; manchas dentárias com gotas (diluir e higienizar).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Ambulatorial se estável. Internar/avaliar transfusão se Hb muito baixa com instabilidade, sinais de insuficiência cardíaca, hipóxia ou síncope. Em pediatria, considerar transfusão se Hb < 6–7 g/dL com sintomas ou < 5 g/dL independentemente, sempre individualizando.


    Medidas dietéticas-chave: Introduzir carnes/visceras desde 6 meses; leguminosas diariamente; cereais fortificados com ferro; limitar leite de vaca após 12 meses a < 500 mL/dia; associar frutas cítricas às refeições para aumentar absorção.

    .

    Discussão das alternativas

    ✅ B) introdução de ferro na dieta após seis meses, com alimentos ricos e suplementação, quando indicada.

    Alternativa correta. Padrão-ouro de prevenção: alimentação complementar a partir de 6 meses com fontes de ferro (heme e não heme) + suplementação profilática conforme diretrizes (ex.: 1 mg/kg/dia de ferro elementar em lactentes termo até 24 meses; 2 mg/kg/dia em prematuros/baixo peso). Evita deficiência e suas sequelas.


    ❌ A) introdução de leite de vaca integral a partir dos dois meses.

    Alternativa incorreta. Leite de vaca antes de 12 meses aumenta risco de anemia por baixa biodisponibilidade de ferro e micro-sangramentos intestinais. Contraindicado em lactentes < 12 meses.


    ❌ C) restrição completa de carnes por um ano.

    Alternativa incorreta. Carnes são a principal fonte de ferro heme (alta absorção). Restringi-las aumenta o risco de deficiência; diretriz recomenda introdução de carnes a partir de 6 meses.


    ❌ D) redução de ingestão de frutas cítricas.

    Alternativa incorreta. Vitamina C das frutas cítricas aumenta a absorção do ferro não heme; não deve ser reduzida, e sim incentivada junto às refeições.


    Take-home message

    • Anemia ferropriva em lactentes: microcitose + RDW alto, associada a leite de vaca precoce e baixa ingestão de ferro.
    • Prevenção padrão: ferro na dieta a partir de 6 meses + profilaxia medicamentosa quando indicada (1 mg/kg/dia termo; 2 mg/kg/dia prematuros).
    • Tratamento: ferro 3–5 mg/kg/dia VO por ~3 meses, com reticulocitose em 7–10 dias e ↑Hb 0,5–1 g/dL/semana.
    • Red flag: não oferecer leite de vaca < 12 meses; após 12 meses, limitar a < 500 mL/dia.
    • Vitamina C junto às refeições melhora absorção do ferro; leite/cálcio e antiácidos reduzem.

    Questão 24 — Anemia ferropriva

    Um lactente de 10 meses de vida foi levado à consulta ambulatorial. A mãe referiu alimentação predominante com leite de vaca integral desde os quatro meses, bem como palidez progressiva. Ao exame, o paciente mostrava-se ativo, com palidez cutânea leve, sem sopros; FC = 124 bpm, FR = 30 irpm, SpO₂ = 98%, e peso e estatura adequados. Hemograma mostrou Hb = 8,7 g/dL; VCM = 68 fL e RDW aumentado. Considerando o quadro apresentado, qual o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Anemia ferropriva

      ✓
    • B)

      Anemia por doença crônica

    • C)

      Anemia hemolítica hereditária

    • D)

      Anemia megaloblástica

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em lactentes, leite de vaca precoce/excessivo + anemia microcítica (VCM baixo) + RDW aumentado = anemia ferropriva até prova em contrário.


    O que é: Anemia ferropriva é anemia por deficiência de ferro, cursando tipicamente com microcitose (VCM baixo) e anisocitose (RDW alto).


    Por que importa: Deficiência de ferro na infância prejudica desenvolvimento neurocognitivo e imunidade. Reconhecimento e tratamento precoces evitam sequelas.


    Como identificar:

    • História de risco (ex.: consumo predominante de leite de vaca integral antes de 12 meses; perdas ocultas; baixo aporte).

    • Hemograma: Hb baixa, VCM baixo, RDW aumentado. Ferritina baixa confirma (se disponível; lembrar que inflamação pode elevá-la). 

    • Teste terapêutico: resposta ao ferro (↑ reticulócitos em 7–10 dias; ↑ Hb 0,5–1 g/dL/semana) é altamente sugestiva.


    Mecanismo (essencial): Baixa oferta/absorção de ferro leva a eritropoese deficiente; o leite de vaca reduz absorção de ferro, é pobre em ferro e pode causar micro-hemorragias intestinais.


    Armadilhas de prova:

    • Anemia de doença crônica costuma ser normocítica ou discretamente microcítica e RDW normal.

    • Talassemia menor: microcitose com RDW normal e história familiar; ferro normal.

    • Megaloblástica: macrocitose (VCM alto).


    Conduta & Posologia


    • Tratamento de primeira linha: Ferro elementar VO 3–6 mg/kg/dia (geralmente iniciar com 3 mg/kg/dia), 1–2 tomadas/dia, por 3 meses após normalizar a Hb (curso total típico 3–6 meses).

    • Administração: De preferência em jejum ou longe do leite; pode associar vitamina C/alimento cítrico para melhorar absorção.

    • Ajustes especiais: Doença renal crônica não dialítica: mesma dose VO; considerar via IV apenas se intolerância/ineficácia. Não há ajuste específico por Child-Pugh na reposição oral.

    • Profilaxia (pediatria, para memorização): Lactentes a termo: 1 mg/kg/dia de ferro elementar dos 6–24 meses; prematuros: 2 mg/kg/dia até 24 meses (ou conforme orientação especializada).

    • Contraindicações: Hemocromatose, sobrecarga de ferro, anemias não ferroprivas (p.ex., talassemia) sem deficiência documentada.

    • Efeitos adversos relevantes: Náuseas, dor abdominal, constipação/diarreia, escurecimento das fezes, escurecimento dental (gotejar posteriormente e escovar).

    • Interações que reduzem absorção: Leite/cálcio, antiácidos, inibidores de bomba em uso crônico; espaçar 2 horas.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Ambulatorial se assintomático/estável. Internar se instabilidade hemodinâmica, hipóxia, sinais de ICC, anemia grave com repercussão (ex.: letargia marcante, taquicardia refratária) ou necessidade de transfusão.

    • Monitorização: Reavaliar em 2–4 semanas (reticulocitose em 7–10 dias; ↑ Hb esperado 1–2 g/dL em 2–4 semanas). Manter ferro por 3 meses após normalização para repleção dos estoques.


    Mini-exemplo: Lactente 10 meses, leite de vaca predominante, Hb 8,7 g/dL, VCM 68 fL, RDW alto → iniciar ferro VO 3 mg/kg/dia; orientar retirar leite das tomadas do ferro; retorno em 2–4 semanas.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Anemia ferropriva

    Alternativa correta. Lactente com uso precoce e predominante de leite de vaca (fator de risco clássico), microcitose (VCM 68 fL) e RDW aumentado apontam para deficiência de ferro. Ausência de sinais de hemólise/infecção crônica reforça o diagnóstico. Conduta: ferro VO 3–6 mg/kg/dia e seguimento.


    ❌ B) Anemia por doença crônica

    Alternativa incorreta. Espera-se padrão normocítico ou discretamente microcítico, com RDW geralmente normal e contexto inflamatório crônico, ausente no caso. O fator de risco nutricional forte favorece ferropriva.


    ❌ C) Anemia hemolítica hereditária

    Alternativa incorreta. Hemólise cursa com icterícia, esplenomegalia, ↑ reticulócitos, ↑ LDH e bilirrubina indireta, além de VCM frequentemente normal. Aqui, microcitose e RDW alto sem sinais de hemólise são incompatíveis.


    ❌ D) Anemia megaloblástica

    Alternativa incorreta. Megaloblástica apresenta macrocitose (VCM alto), não microcitose. O hemograma (VCM 68 fL) afasta esse diagnóstico.


    Take-home message

    • Leite de vaca precoce/excessivo + VCM baixo + RDW alto em lactente = anemia ferropriva até prova em contrário.
    • Tratamento: ferro VO 3–6 mg/kg/dia, manter por 3 meses após normalização da Hb.
    • Resposta esperada: reticulocitose em 7–10 dias; ↑ Hb 1–2 g/dL em 2–4 semanas; reavaliar em 2–4 semanas.
    • Evitar coadministração com leite/cálcio e antiácidos; reduz absorção do ferro.
    • Diferenciais: doença crônica (normo/discreta microcitose, RDW normal), talassemia menor (microcitose com RDW normal), megaloblástica (macrocitose).

    Questão 25 — Anemia Ferropriva

    Um lactente de 10 meses de vida foi levado à consulta ambulatorial. A mãe referiu alimentação predominante com leite de vaca integral desde os quatro meses, bem como palidez progressiva. Ao exame, o paciente mostrava-se ativo, com palidez cutânea leve, sem sopros; FC = 124 bpm, FR = 30 irpm, SpO₂ = 98%, e peso e estatura adequados. Hemograma mostrou Hb = 8,7 g/dL; VCM = 68 fL e RDW aumentado. A conduta terapêutica inicial mais adequada para esse caso é

    • A)

      transfusão de concentrado de hemácias imediata.

    • B)

      início de suplemento de ácido fólico isoladamente.

    • C)

      suplementação de ferro oral na dose terapêutica.

      ✓
    • D)

      encaminhamento para investigação de doenças genéticas.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Lactente com introdução precoce de leite de vaca + anemia microcítica (VCM 68 fL) + RDW aumentado = anemia ferropriva até prova em contrário.


    O que é: Anemia ferropriva é anemia por deficiência de ferro, tipicamente microcítica e anisopoiquilocítica (RDW alto).


    Por que importa: Prejudica desenvolvimento neurocognitivo; tratamento precoce com ferro oral reverte anemia e repõe estoques.


    Como identificar:

    • História de risco (leite de vaca integral precoce, pouca ingestão de ferro), palidez, Hb baixa, VCM baixo e RDW alto.

    • Mini-exemplo: microcitose + RDW alto sugere ferropriva; microcitose + RDW normal sugere talassemia menor.


    Fisiopatologia essencial: Leite de vaca tem baixo ferro biodisponível e pode causar perdas intestinais; deficiência de ferro reduz síntese de hemoglobina, gerando microcitose.


    Conduta & Posologia


    • Tratamento de primeira linha: Ferro oral (ferro elementar) 3–6 mg/kg/dia VO, 1–2 tomadas/dia, preferir estômago vazio; duração total ~3 meses (ou 2–3 meses após normalizar Hb).

    • Formulações usuais: Sulfato ferroso gotas/xarope (ver teor de ferro elementar por mL) para calcular a dose em mg/kg/dia de ferro elementar.

    • Prova de resposta: Reticulocitose em 3–7 dias; Hb sobe ~≥1 g/dL em 2–4 semanas. Reavaliar hemograma em 4 semanas.

    • Ajustes especiais: Sem ajuste relevante em DRC leve/moderada para via oral; evitar em sobrecarga de ferro (hemocromatose) e anemias hemolíticas.

    • Interações-chave: Leite/cálcio, fitatos e IBP reduzem absorção. Orientar tomar longe de leite e associar fonte de vitamina C.

    • Efeitos adversos relevantes: Náuseas, dor abdominal, constipação/diarreia, escurecimento das fezes; podem melhorar fracionando dose ou usando após pequena refeição (com perda de absorção).

    • Quando investigar além de ferropriva: Ausência de resposta (elevação de Hb < 1 g/dL em 2–4 semanas) apesar de adesão, ferritina não baixa, história familiar de microcitose, RDW normal → considerar hemoglobinopatias (ex.: talassemia), doença crônica, perdas ocultas.

    • Critérios de internação/transfusão vs ambulatorial: Manejo ambulatorial se estável e Hb > 7 g/dL sem sinais de hipoxemia/ICC. Transfusão se instabilidade hemodinâmica, ICC, hipóxia, ou Hb muito baixa (ex.: < 5–6 g/dL) com sintomas. Caso atual: sem indicações de transfusão.


    Armadilhas de prova:

    • • Ácido fólico trata anemias megaloblásticas (VCM alto), não microcíticas.
    • • Transfusão não é primeira linha em ferropriva estável com Hb 8–9 g/dL.
    • • Encaminhar para genética antes do teste terapêutico com ferro é precoce quando há forte suspeita de ferropriva.


    Discussão das alternativas

    ✅ C) suplementação de ferro oral na dose terapêutica.

    Alternativa correta. Quadro típico de anemia ferropriva por dieta (leite de vaca precoce) com microcitose (VCM 68 fL) e RDW aumentado. Conduta de primeira linha é ferro VO em dose terapêutica de 3–6 mg/kg/dia de ferro elementar, com reavaliação hematimétrica em ~4 semanas.


    ❌ A) transfusão de concentrado de hemácias imediata.

    Alternativa incorreta. O paciente está estável, sem sinais de hipóxia/ICC, Hb 8,7 g/dL. Transfusão é reservada para instabilidade, sinais de hipoperfusão/ICC ou Hb muito baixa com sintomas; não é primeira linha na ferropriva estável.


    ❌ B) início de suplemento de ácido fólico isoladamente.

    Alternativa incorreta. Ácido fólico trata anemia megaloblástica (VCM alto). Aqui há microcitose com RDW alto, compatível com deficiência de ferro; folato isolado não corrige a causa.


    ❌ D) encaminhamento para investigação de doenças genéticas.

    Alternativa incorreta. Antes da investigação genética (ex.: talassemias), deve-se realizar teste terapêutico com ferro e confirmar resposta. RDW elevado favorece ferropriva; talassemia menor costuma ter RDW normal.


    Take-home message

    • Lactente com leite de vaca precoce + VCM baixo + RDW alto = anemia ferropriva até prova em contrário.
    • Tratamento: ferro elementar 3–6 mg/kg/dia VO por ~3 meses; reavaliar Hb em 4 semanas.
    • Evitar leite junto ao ferro; preferir com vitamina C para melhorar absorção.
    • Red flag: transfusão apenas se instável, ICC/hipóxia ou Hb muito baixa com sintomas.
    • Sem resposta adequada em 2–4 semanas → revisar adesão/dose, confirmar ferritina e investigar outras causas (talassemia, doença crônica).

    Questão 26 — Úlcera Péptica Perfurada

    Uma paciente de 44 anos de idade foi atendida no pronto socorro com história de dor abdominal súbita, intensa, em região epigástrica, irradiando para dorso. Referiu piora progressiva e náuseas. Ao exame físico, a paciente mostrava-se ansiosa; o abdome com defesa involuntária difusa e dor acentuada à palpação; FC = 124 bpm, FR = 24 irpm, PA = 104 mmHg x 68 mmHg e temperatura = 38,0 °C. A radiografia de tórax em ortostase evidenciou presença de ar livre subdiafragmático. Qual é a conduta mais adequada diante desse quadro?

    • A)

      Administração exclusiva de inibidores de bomba de prótons e observação

    • B)

      Realização de tomografia apenas após estabilização hemodinâmica completa

    • C)

      Tentativa de manejo clínico por 48 horas antes de decidir por cirurgia

    • D)

      Indicação de cirurgia emergencial após reposição volêmica e antibioticoterapia de amplo espectro

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Pneumoperitônio + peritonite em paciente taquicárdica e febril = perfuração de víscera oca. Conduta é cirurgia emergencial após ressuscitação e antibiótico de amplo espectro.


    O que é: Perfuração de víscera oca (ex.: úlcera péptica perfurada) com extravasamento de conteúdo para a cavidade peritoneal, causando peritonite química/bacteriana.


    Por que importa: Alta mortalidade se houver atraso cirúrgico. A presença de ar livre subdiafragmático em radiografia e sinais de irritação peritoneal define emergência cirúrgica.


    Como identificar: Dor epigástrica súbita irradiando para dorso, sinais de peritonite (defesa/dor difusa), taquicardia, febre. Rx tórax ortostase com pneumoperitônio. Não esperar tomografia se quadro é típico com instabilidade/peritonite.


    Figura 1. Radiografia de tórax/abdome evidenciando pneumoperitônio com gás livre sob ambos os hemidiafragmas.

    Fonte: Radiopaedia.org. Subdiaphragmatic free gas (case 2) — caso radiológico. Disponível em: https://radiopaedia.org/cases/subdiaphragmatic-free-gas-2. Acesso em 29/01/2026.


    Como manejar (linha de frente): ABC, acesso venoso calibroso, cristaloide 30 mL/kg em suspeita de sepse, antibioticoterapia de amplo espectro imediata, jejum, sonda nasogástrica, analgesia, PPI IV, e cirurgia emergencial (laparoscopia/laparotomia) com fechamento da perfuração e lavagem peritoneal.


    Conduta & Posologia


    • Ressuscitação com cristaloide: 30 mL/kg de solução balanceada (ex.: Ringer lactato) em até 3 h, reavaliando PAM (meta ≥65 mmHg), diurese (≥0,5 mL/kg/h) e lactato.

    • Antibioticoterapia empírica (início imediato):
      • • Esquema 1 (monoterapia): Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h.
      • • Esquema 2 (dupla): Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
      • • Gravidade alta/choque séptico: Meropenem 1 g IV 8/8 h.
      • • Duração sugerida: 4–7 dias, ajustar a culturas/controle de foco (pode reduzir para 3–4 dias após controle adequado).

    • Inibidor de bomba de prótons (adjuvante): Pantoprazol 40 mg IV 12/12 h até pós-operatório.
    • Decompressão gástrica: Sonda nasogástrica em aspiração contínua suave; jejum absoluto.
    • Analgesia: Opioide titulável (ex.: fentanil IV), evitar AINEs.

    • Cirurgia (imediata após ressuscitação inicial): Laparoscopia/laparotomia para lavagem peritoneal e fechamento da perfuração (ex.: patch de omento à Graham). Hemodinâmica primeiro, mas não postergar por imagem se peritonite + pneumoperitônio.

    • Ajustes em DRC (CrCl <40 mL/min):
      • • Piperacilina-tazobactam: 4,5 g IV 8/8–12/12 h (conforme CrCl).
      • • Meropenem: 1 g IV 12/12–24/24 h (conforme CrCl).
      • • Metronidazol: manter; em insuficiência hepática grave reduzir intervalo (avaliar Child-Pugh C).

    • Contraindicações/alertas: Alergia a beta-lactâmicos (usar alternativa com aztreonam + metronidazol + vancomicina se necessário). Evitar AINEs.

    • Efeitos adversos relevantes: Beta-lactâmicos (hipersensibilidade, disfunção renal em críticos), metronidazol (náuseas, interação com álcool), carbapenêmicos (convulsões em doses altas/DRC).

    • Critérios de internação/UTI vs. enfermaria: UTI se choque séptico (PAM <65 mmHg após volume ou vasopressor), hipoxemia, lactato >2 mmol/L, qSOFA ≥2 ou disfunção orgânica. Todos internam (nunca ambulatorial).

    • Monitorização e tempo de reavaliação: Vitals a cada 15–30 min na fase inicial, diurese horária, lactato seriado em 2–4 h, antibiótico na 1ª hora de sepse, levar ao centro cirúrgico assim que estabilizada a via aérea/volemia inicial.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Indicação de cirurgia emergencial após reposição volêmica e antibioticoterapia de amplo espectro

    Alternativa correta. Pneumoperitônio + peritonite clínica = perfuração de víscera oca. Conduta padrão-ouro é controle de foco cirúrgico imediato após medidas de reanimação e início de antibiótico de amplo espectro (ex.: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h).


    ❌ A) Administração exclusiva de inibidores de bomba de prótons e observação

    Alternativa incorreta. PPI é adjuvante e não trata peritonite por perfuração. Observação retarda controle de foco e aumenta mortalidade.


    ❌ B) Realização de tomografia apenas após estabilização hemodinâmica completa

    Alternativa incorreta. Com ar livre subdiafragmático e peritonite, a TC não é necessária para indicar cirurgia. Aguardar estabilização “completa” pode atrasar controle de foco. A conduta é reanimação inicial e cirurgia imediata.


    ❌ C) Tentativa de manejo clínico por 48 horas antes de decidir por cirurgia

    Alternativa incorreta. Manejo exclusivamente clínico não é indicado em peritonite franca com pneumoperitônio. “Teste” de 48 h aumenta risco de sepse e falência orgânica.


    Take-home message

    • Pneumoperitônio + sinais de peritonite = perfuração de víscera oca. Indicação de cirurgia emergencial.
    • Iniciar antibiótico na 1ª hora: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h ou Ceftriaxona 2 g/d + Metronidazol 500 mg 8/8 h.
    • Ressuscitação com cristaloide 30 mL/kg, meta PAM ≥65 mmHg, considerar vasopressor se refratariedade.
    • Não atrasar cirurgia esperando tomografia quando Rx já mostra ar livre e há peritonite.
    • Adjuvantes: sonda NG, jejum, PPI IV, analgesia sem AINE; ajustar doses em DRC/hepática.
    • UTI se choque séptico, lactato >2, qSOFA ≥2 ou disfunção orgânica.

    Questão 27 — Apendicite aguda

    Um paciente de 28 anos de idade procurou o pronto atendimento por dor abdominal iniciada há 18 horas em região periumbilical, migrando para fossa ilíaca direita. Referiu náuseas, hiporexia e febrícula. Ao exame físico, o paciente apresentava-se lúcido, com dor localizada em fossa ilíaca direita, sinal de Blumberg discretamente positivo; FC = 104 bpm, FR = 20 irpm, PA = 122 mmHg x 78 mmHg e temperatura = 37,8 °C. O hemograma mostrou leucócitos = 14.900/mm³ com neutrofilia, e a ultrassonografia evidenciou apêndice não compressível, com diâmetro de 8 mm e espessamento de parede. Assinale a alternativa que corresponde à principal alteração fisiopatológica responsável pela progressão da apendicite aguda.

    • A)

      Espasmo muscular liso da parede intestinal

    • B)

      Aumento da secreção biliar pelo intestino delgado

    • C)

      Alteração da motilidade cólica difusa

    • D)

      Obstrução luminal com isquemia subsequente da parede apendicular

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em apendicite aguda, a sequência-chave é: obstrução luminal → aumento da pressão intraluminal → congestão venosa/linfática → isquemia da parede → proliferação bacteriana → necrose/perfuração.


    O que é: Inflamação do apêndice vermiforme por obstrução do lúmen (hiperplasia linfoide em jovens; fecalito em adultos), culminando em isquemia mural e supuração.


    Por que importa: A fisiopatologia orienta o manejo: risco de perfuração aumenta com o tempo (24–72 h); o tratamento padrão é cirúrgico, com antibiótico de cobertura entérica/anaeróbia.


    Como identificar (caso típico de prova): Dor periumbilical migrando para FID, náuseas, febrícula, leucocitose neutrofílica; US: apêndice não compressível > 6 mm, parede espessada, gordura hiperecogênica.


    Mecanismo fisiopatológico central: A obstrução do lúmen aprisiona secreções, eleva a pressão, colaba retorno venoso, causa edema e, na sequência, isquemia da parede, favorecendo invasão bacteriana e perfuração.


    Conduta & Posologia


    • Tratamento padrão: Apendicectomia (preferir laparoscópica) com antibiótico de amplo espectro para flora entérica + anaeróbios.

    • Profilaxia pré-operatória (apendicite não complicada): Cefazolina 2 g IV dose única + Metronidazol 500 mg IV dose única 30–60 min antes da incisão.

    • Terapia empírica (quando atraso cirúrgico, perfuração, abscesso ou contaminação peritoneal):
      • • Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
      • • Alternativa: Piperacilina–tazobactam 4,5 g IV 6/6 h.
      • • Alergia a beta-lactâmicos: Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.

    • Duração: Não complicada: até 24 h pós-op. Complicada (perfuração/abscesso): 3–5 dias, individualizar conforme controle da fonte e resposta clínica.

    • Ajustes: Piperacilina–tazobactam: reduzir intervalo/dose se TFG < 40 mL/min. Metronidazol: sem ajuste em DRC leve–moderada; reduzir se ClCr < 10 mL/min em uso prolongado. Ceftriaxona: usualmente sem ajuste na DRC não dialítica.

    • Gestação: Preferir cefalosporina + metronidazol; evitar quinolonas.

    • Contraindicações: Alergia a beta-lactâmicos (para esquemas com cefalosporinas/penicilinas); miastenia gravis e prolongamento de QT com quinolonas.

    • Efeitos adversos relevantes: Metronidazol: náusea, disgeusia, interação com álcool (efeito dissulfiram-like). Piper–tazo: hipocalemia, disfunção renal. Quinolonas: tendinopatia, QT longo.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para todos com apendicite confirmada. UTI se instabilidade hemodinâmica, choque séptico ou falência orgânica. Reavaliação clínica e laboratorial em 6–12 h se conduta não imediata.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Obstrução luminal com isquemia subsequente da parede apendicular

    Alternativa correta. A progressão clássica ocorre após a obstrução (hiperplasia linfoide/fecalito), com aumento da pressão intraluminal, congestão venosa e posterior isquemia da parede. Isso facilita invasão bacteriana, necrose e perfuração.


    ❌ A) Espasmo muscular liso da parede intestinal

    Alternativa incorreta. Pode contribuir para dor, mas não explica a progressão para inflamação supurativa/necrose. O evento determinante é a obstrução luminal com comprometimento vascular subsequente.


    ❌ B) Aumento da secreção biliar pelo intestino delgado

    Alternativa incorreta. Bile no delgado não é mecanismo da apendicite. O conteúdo apendicular é predominantemente muco e flora colônica; a patogênese independe de secreção biliar.


    ❌ C) Alteração da motilidade cólica difusa

    Alternativa incorreta. A apendicite é processo localizado; ileo reflexo pode ocorrer tardiamente, mas não é a base fisiopatológica da evolução inflamatória do apêndice.


    Take-home message

    • Fisiopatologia-chave: obstrução do lúmen → aumento de pressão → congestão → isquemia mural → invasão bacteriana → perfuração.
    • Clínica típica de prova: dor migratória para FID + leucocitose neutrofílica + US com apêndice > 6 mm e não compressível.
    • Tratamento padrão: apendicectomia + antibiótico de cobertura entérica/anaeróbia (ex.: ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + metronidazol 500 mg IV 8/8 h).
    • Red flag: instabilidade hemodinâmica/choque indica UTI e controle de fonte imediato.
    • Profilaxia pré-incisional em não complicada: cefazolina 2 g + metronidazol 500 mg IV dose única.
    • Evite quinolonas na gestação; prefira cefalosporina + metronidazol.

    Questão 28 — Apendicite aguda

    Um paciente de 45 anos de idade chegou ao pronto-socorro com dor abdominal intensa iniciada há 12 horas, localizada inicialmente no epigástrio, que migrou para o quadrante inferior direito. Ele apresentava febre (38,2 °C), náuseas e anorexia. Ao exame físico, havia dor à palpação profunda no quadrante inferior direito e sinal de Blumberg positivo. O hemograma revelou leucocitose com desvio à esquerda. Qual é a conduta mais adequada para o caso desse paciente?

    • A)

      Solicitar tomografia de abdome e pelve para confirmação diagnóstica, antes de qualquer intervenção.

    • B)

      Encaminhar imediatamente para apendicectomia, preferencialmente por via laparoscópica.

      ✓
    • C)

      Iniciar antibioticoterapia de amplo espectro e observar evolução clínica por 24 – 48 horas.

    • D)

      Administrar analgesia e dar alta, com retorno ambulatorial em 24 horas caso haja persistência dos sintomas.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Quadro clínico típico (dor que migra para QID + febre + leucocitose + Blumberg) em adulto = alta probabilidade de apendicite aguda não complicada. Em cenário clássico, a conduta é apendicectomia precoce, preferencialmente laparoscópica; imagem é reservada para casos duvidosos.


    O que é: Apendicite aguda é inflamação do apêndice por obstrução luminal (fecalito/hiperplasia linfoide), evoluindo para isquemia, necrose e possível perfuração.


    Por que importa: Atraso no tratamento aumenta risco de perfuração, abscesso e sepse. Cirurgia precoce reduz complicações e tempo de internação.


    Como identificar: Dor migratória epigástrio/periumbilical → QID, anorexia, náusea, febre baixa, dor à descompressão brusca (Blumberg). Leucocitose com desvio. Escores (Alvarado/AIR) auxiliam, mas clínica clássica pode dispensar imagem.


    Como manejar (regra prática de prova): Suspeita alta e sinais peritoneais locais → internar, jejum, hidratação, antibiótico pré-operatório e apendicectomia laparoscópica o quanto antes. TC/US se diagnóstico incerto.


    Conduta & Posologia


    • Cirurgia (padrão-ouro): Apendicectomia laparoscópica precoce em caso típico e estável. Conversão aberta se necessário.

    • Antibioticoprofilaxia pré-operatória (não complicada): administrar 30–60 min antes da incisão.
    • • Opção 1: Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV (dose única).
    • • Alternativa: Ceftriaxona 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV (dose única).
    • • Em alergia a beta-lactâmicos: Ciprofloxacino 400 mg IV + Metronidazol 500 mg IV (dose única).

    • Antibioticoterapia (complicada: perfuração/abscesso/peritonite): cobertura entérica gram-negativos + anaeróbios:
    • • Piperacilina-Tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h ou Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8–12/12 h. Duração típica 3–5 dias, guiada por melhora clínica; suspender quando afebril, dieta aceitando e leucócitos em queda.

    • Analgesia: Dipirona 1 g IV 6/6 h ou Opioide (ex.: Morfina 2–4 mg IV repetível) conforme dor. Não atrasar a cirurgia por “mascarar sinais” — é mito.

    • Ajustes:
    • • Piperacilina-Tazobactam (CrCl 20–40 mL/min: 3,375 g 6/6–8/8 h; CrCl <20: 2,25–3,375 g 8/8–12/12 h).
    • • Ciprofloxacino (CrCl <30: 200–400 mg 24/24 h).
    • • Metronidazol: ajuste preferir em Child-Pugh C (reduzir 50%).
    • • Ceftriaxona: sem ajuste renal; cautela em icterícia neonatal (não aplicável aqui).

    • Contraindicações: Alergia a beta-lactâmicos (evitar cefalosporinas/penicilinas); insuficiência hepática grave — evitar altas doses de Metronidazol.

    • Efeitos adversos relevantes: Metronidazol (sabor metálico, náusea, neuropatia com uso prolongado), Piperacilina-Tazobactam (diarreia, disfunção renal rara), Ciprofloxacino (tendinopatia, QT longo), Cefalosporinas (reações de hipersensibilidade).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para todos com suspeita alta. UTI se sepse, instabilidade hemodinâmica, peritonite difusa, necessidade de vasopressor ou suporte ventilatório.


    Armadilhas de prova

    • • Solicitar TC obrigatória em quadro típico atrasa tratamento sem benefício.
    • • Observar 24–48 h com antibiótico em paciente com sinais peritoneais locais é conduta inadequada; terapia não operatória é reservada e selecionada para casos não complicados e sem peritonismo.
    • • Antibiótico pós-operatório em apendicite não complicada não é necessário.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Encaminhar imediatamente para apendicectomia, preferencialmente por via laparoscópica.

    Alternativa correta. Quadro clínico típico com sinal peritoneal localizado e leucocitose sustenta diagnóstico de alta probabilidade; a conduta de escolha é apendicectomia laparoscópica precoce com antibiótico pré-incisional. A via laparoscópica reduz dor, infecção de ferida e tempo de internação.


    ❌ A) Solicitar tomografia de abdome e pelve para confirmação diagnóstica, antes de qualquer intervenção.

    Alternativa incorreta. Em apresentação clássica, imagem não é mandatória e pode atrasar o tratamento. TC/US são úteis quando a clínica é atípica, obesidade, idosos ou diagnóstico diferencial amplo.


    ❌ C) Iniciar antibioticoterapia de amplo espectro e observar evolução clínica por 24 – 48 horas.

    Alternativa incorreta. Observação com antibiótico isolado pode ser considerada em casos selecionados de apendicite não complicada sem peritonismo, mas o caso descrito tem sinais peritoneais e alta probabilidade — requer cirurgia.


    ❌ D) Administrar analgesia e dar alta, com retorno ambulatorial em 24 horas caso haja persistência dos sintomas.

    Alternativa incorreta. Apendicite suspeita com Blumberg positivo e leucocitose exige internação e tratamento cirúrgico. Alta ampliaria risco de perfuração e complicações.


    Take-home message

    • Clínica típica de apendicite (dor migratória para QID + Blumberg + leucocitose) → indicar apendicectomia precoce.
    • Imagem (US/TC) é para casos duvidosos; não é obrigatória em quadro clássico.
    • Profilaxia antibiótica pré-incisional: Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV dose única.
    • Complicada (perfuração/abscesso): Piperacilina-Tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h ou Ceftriaxona + Metronidazol por 3–5 dias.
    • Red flag: não atrasar cirurgia aguardando TC em caso claro ou por receio de analgesiar.

    Questão 29 — Apendicite aguda

    Um paciente de 27 anos de idade apresentou dor periumbilical migrando para FID. Ao exame, apresentou FC 90 = bpm, FR = 18 irpm e saturação = 98%. A tomografia mostrou apêndice de 11 mm, sem abscesso. Com base nesse caso clínico, assinale a alternativa que corresponde à conduta correta para esse paciente.

    • A)

      Apendicectomia laparoscópica

      ✓
    • B)

      Antibioticoprofilaxia e alta ambulatorial

    • C)

      Tratamento clínico obrigatório

    • D)

      Drenagem percutânea guiada

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Apendicite aguda não complicada (sem abscesso/flegmão/perfuração) em adulto jovem com TC confirmatória tem tratamento-padrão: apendicectomia, preferencialmente por via laparoscópica.


    O que é: Inflamação do apêndice por obstrução luminal. "Não complicada" = sem perfuração, sem coleção/abscesso, sem peritonite difusa.


    Por que importa: Evolui para perfuração em horas–dias; cirurgia precoce reduz complicações, reoperações e tempo de internação.


    Como identificar: Dor migratória periumbilical → FID, sinais peritoneais localizados; TC: apêndice >6 mm, parede espessada, impregnação, gordura inflamada; sem coleção/abscesso.


    Conduta típica: Apendicectomia laparoscópica + antibioticoprofilaxia pré-incisional; antibiótico terapêutico apenas se perfuração/contaminação.


    Conduta & Posologia


    • Tratamento de escolha (este caso): Apendicectomia laparoscópica em regime de urgência (idealmente nas primeiras 12–24 h após diagnóstico).

    • Profilaxia antimicrobiana pré-operatória (dose única 30–60 min antes da incisão): 
    • • Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV.
      • Alternativas: Cefoxitina 2 g IV (se disponível) como monoterapia.
      • Alergia grave a beta-lactâmico: Ciprofloxacino 400 mg IV + Metronidazol 500 mg IV.

    • Redose intraoperatória: Repetir cefazolina se cirurgia > 4 h ou perda sanguínea > 1500 mL.
    • Pós-operatório (apendicite não complicada): Não manter antibiótico rotineiramente.

    • Se intraop achar perfuração/contaminação (complicada): iniciar terapia: opções
      • Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h
      • ou Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
      • Duração típica: 3–5 dias após controle da fonte e estabilidade clínica.

    • Ajustes: DRC (ClCr < 30 mL/min): reduzir intervalo/dose de cefazolina, piperacilina-tazobactam, ciprofloxacino; Metronidazol ajustar em insuficiência hepática grave (Child-Pugh C).

    • Contraindicações: Anafilaxia prévia a beta-lactâmicos (evitar cefalosporinas/penicilinas); preferir esquemas não beta-lactâmicos.

    • Efeitos adversos relevantes: Beta-lactâmicos (hipersensibilidade); metronidazol (náusea, disgeusia, interação com álcool/varfarina); quinolonas (tendinopatia, QT prolongado).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Apendicite aguda requer internação para cirurgia. UTI se instabilidade hemodinâmica, sepse grave, comorbidades descompensadas.

    • Tempo de reavaliação: Pré-op: monitorização contínua; Pós-op alta precoce (12–24 h) se afebril, dor controlada VO, dieta tolerada, sem sinais de complicação.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Apendicectomia laparoscópica

    Alternativa correta. Quadro típico e TC com apêndice de 11 mm sem abscesso definem apendicite não complicada. Padrão-ouro é apendicectomia laparoscópica com antibioticoprofilaxia pré-incisional; reduz dor, infecção de sítio cirúrgico e tempo de internação, com baixa taxa de recorrência vs tratamento clínico.


    ❌ B) Antibioticoprofilaxia e alta ambulatorial

    Alternativa incorreta. Profilaxia sem cirurgia não trata a obstrução/infecção; há risco de progressão e perfuração. Pacientes com apendicite confirmada devem ser internados para apendicectomia (neste cenário).


    ❌ C) Tratamento clínico obrigatório

    Alternativa incorreta. Tratamento não operatório com antibiótico pode ser opção em casos muito selecionados de apendicite não complicada, cientes de taxa de falha/recorrência; não é obrigatório nem primeira linha em adulto jovem apto à cirurgia.


    ❌ D) Drenagem percutânea guiada

    Alternativa incorreta. Indica-se drenagem quando há abscesso/flegmão organizado. A TC mostrou ausência de coleção; portanto, não há alvo para drenagem.


    Take-home message

    • Apendicite não complicada confirmada por TC em adulto: tratamento de primeira linha é apendicectomia laparoscópica.
    • Profilaxia antimicrobiana pré-incisão: cefazolina 2 g IV + metronidazol 500 mg IV 30–60 min antes; sem antibiótico pós-op na forma não complicada.
    • Evite alta ambulatorial sem cirurgia: risco de perfuração se apenas observar/antibioticoprofilaxia.
    • Tratamento clínico isolado é opção restrita e com recorrência; deve ser compartilhado e não supera a cirurgia como padrão-ouro.
    • Drenagem percutânea só tem papel quando há abscesso/flegmão na imagem.

    Questão 30 — Doença Inflamatória Intestinal - Doença de Crohn

    Presença de lesões descontínuas e segmentares (skip lesions), com áreas intermitentes de intestino de aspecto normal em colonoscopia, sugere diagnóstico de:

    • A)

      Doença de Crohn.

      ✓
    • B)

      Retocolite ulcerativa.

    • C)

      Colite pseudomembranosa.

    • D)

      Doença diverticular.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em DII, "skip lesions" (lesões descontínuas com áreas de mucosa normal entre segmentos acometidos) são clássicas da Doença de Crohn; na Retocolite Ulcerativa (RCU) o acometimento é contínuo a partir do reto.

    O que é: Doença de Crohn é uma inflamação transmural, segmentar e assimétrica que pode acometer da boca ao ânus, com padrão em “salteado”.

    Por que importa: Define diagnóstico diferencial com RCU, orienta a terapia (ex.: budesonida em íleo/ceco; biológicos em doença moderada-grave) e indica rastreios (estenose, fístulas, desnutrição).

    Como identificar (padrões de prova): - Colonoscopia: lesões descontínuas, úlceras aftoides/serpentiginosas, aspecto em “pedras de calçamento”, retificação vascular, áreas normais interpostas. - Envolvimento do íleo terminal é frequente; reto frequentemente poupado. - Histologia: inflamação transmural, granulomas não caseosos (quando presentes, são sugestivos, mas não obrigatórios). ASCA positivo e p-ANCA negativo. 


    Conduta & Posologia

    • Indução de remissão (leve-moderada íleo/ceco): Budesonida MMX ou de liberação entérica 9 mg VO 1x/dia por 8–12 semanas. Não usar como manutenção.
    • Indução (moderada-grave): Prednisona 40–60 mg VO/dia, reduzindo 5–10 mg/semana conforme resposta; em internação, metilprednisolona EV 0,8–1 mg/kg/dia.
    • Biológicos (moderada-grave/refratária): Infliximabe 5 mg/kg EV nas semanas 0, 2, 6 e depois a cada 8 semanas; Adalimumabe 160 mg SC (sem 0), 80 mg (sem 2), manutenção 40 mg SC a cada 14 dias; Ustekinumabe e Vedolizumabe são opções conforme perfil clínico.
    • Imunomoduladores (manutenção/esteroide-dependência): Azatioprina 2–2,5 mg/kg/dia VO (avaliar TPMT/NUDT15); Metotrexato 25 mg SC/IM semanal (manutenção 10–15 mg/sem) com ácido fólico.
    • Doença perianal/fístulas: Antibióticos (Ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h ± Metronidazol 250–500 mg VO 8/8–12/12h) como adjuvantes; preferir anti-TNF para fechamento de fístulas.
    • Vacinação/triagem antes de biológicos: Triar TB latente (PPD/IGRA e RX tórax) e hepatites; atualizar vacinas (evitar vírus vivos durante imunossupressão).
    • Ajustes e cautelas: Azatioprina: reduzir dose em insuficiência hepática; evitar se TPMT/NUDT15 muito baixa. Metotrexato: contraindicado na gestação e insuficiência hepática grave; ajustar/evitar em DRC (depuração <30 mL/min).
    • Contraindicações: AINEs agravam atividade. Corticoide é ineficaz/contraindicado para manutenção.
    • Efeitos adversos relevantes: Corticoides: hiperglicemia, osteoporose, infecções; Azatioprina: mielossupressão, pancreatite; Anti-TNF: reativação de TB/HEP B, reações infusionais.
    • Critérios de internação: Dor intensa, incapacidade de hidratação/VO, desidratação, febre alta, sangramento maciço, obstrução, abscesso, sepse, toxicidade de fármacos, suspeita de megacólon tóxico.

    Armadilhas de prova:

    • RCU é contínua desde o reto; “poupamento retal” sugere Crohn. Atenção: 
    • RCU pode ter "Patch Cecal" (inflamação no ceco com cólon normal entre ele e o reto), que simula lesão salteada, mas não é Crohn.

    • Granuloma não-caseoso não é obrigatório para Crohn (sensibilidade baixa na biópsia), porém eles são patognomônicos (alta especificidade).
    • Colite pseudomembranosa mostra placas amareladas contínuas; não dá “skip” típico.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Doença de Crohn.

    Alternativa correta. A presença de lesões segmentares descontínuas (“skip lesions”), com áreas de mucosa normal interpostas, é padrão de Doença de Crohn. Acometimento transmural, assimétrico, frequentemente envolvendo íleo terminal, com úlceras aftoides/serpentiginosas e aspecto em “calçamento”.

    ❌ B) Retocolite ulcerativa.

    Alternativa incorreta. Na RCU o acometimento é contínuo a partir do reto, limitado à mucosa/submucosa. “Skip lesions” não são típicas; exceção rara é “pseudopoupamento retal” por tratamento tópico.

    ❌ C) Colite pseudomembranosa.

    Alternativa incorreta. Caracteriza-se por placas/“pseudomembranas” amareladas aderentes difusas, geralmente padrão mais contínuo de colite associada a Clostridioides difficile, não por lesões em salteado típicas do Crohn.

    ❌ D) Doença diverticular.

    Alternativa incorreta. Divertículos são hérnias da mucosa/submucosa, predominam em sigmoide, não geram padrão endoscópico de “skip lesions”. Diverticulite é um processo focal peri-diverticular, não DII segmentar clássica.


    👀Fique de olho nas imagens abaixo que mostram uma endoscopia de um paciente com Crohn.

    A característica endoscópica dominante na doença de Crohn é a presença de ulcerações. Os achados endoscópicos na doença de Crohn incluem: úlceras aftoides, que são as lesões mais precoces observadas na doença de Crohn (painel A); grandes úlceras intercaladas com mucosa normal, que são típicas da distribuição segmentar da doença de Crohn (painel B); um aspecto em 'pedra de calçamento' (cobblestone), caracterizado por espessamento nodular com úlceras lineares ou serpiginosas (painel C); e estenoses decorrentes de fibrose (painel D).

    Fonte: Uptodate. Acesso em 13 de Fevereiro de 2026.


    Take-home message

    • “Skip lesions” em colonoscopia = forte pista para Doença de Crohn (segmentar, transmural).
    • RCU é contínua desde o reto; poupamento retal e acometimento ileal favorecem Crohn.
    • Indução leve-moderada íleo/ceco: Budesonida 9 mg/d por 8–12 sem; moderada-grave: Prednisona 40–60 mg/d ou biológicos.
    • Manutenção: evitar corticoide; usar Azatioprina 2–2,5 mg/kg/d ou biológicos conforme perfil.
    • Triar TB/Hepatites e atualizar vacinas antes de anti-TNF; evitar vacinas vivas em imunossuprimidos.
    • Internar se dor intensa, obstrução, abscesso, sepse, sangramento maciço ou suspeita de megacólon tóxico.


    Fontes: Fonte: GEDIIB. Consenso Brasileiro de Doença de Crohn. (2018/2020). Disponível em: https://gediib.org.br. Acesso em: 05/02/2026. | Fonte: Ministério da Saúde. Protocolo de manejo de doenças inflamatórias intestinais no SUS. (quando disponível regionalmente). Acesso em: 05/02/2026.



    Questão 31 — Doença Inflamatória Intestinal - Doença de Crohn

    Marque a alternativa correta:

    • A)

      A retocolite ulcerativa acomete mucosa, submucosa e muscular e o íleo é o principal local acometido.

    • B)

      A Artropatia é a manifestação extra-intestinal mais comum, afeta de 50 a 60% dos pacientes e sua exacerbação não tem relação com a atividade da doença.

    • C)

      A avaliação do anticorpo ASCA (Anti-Sacharomyces-cerevisiae) pode ser útil para o diagnóstico de doença de Crohn.

      ✓
    • D)

      Os granulomas não caseosos são achados patognomônicos da retocolite ulcerativa.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Diferenciar retocolite ulcerativa e doença de Crohn por camadas acometidas, padrão de distribuição e achados histológicos; reconhecer o papel limitado dos marcadores sorológicos (ASCA/pANCA) como apoio diagnóstico.


    Epidemiologia: Doenças inflamatórias intestinais (retocolite ulcerativa e doença de Crohn) em ascensão nas regiões urbanas; início típico em adultos jovens, sem predomínio sexual marcante.


    • Etiologia: Interação de predisposição genética, disbiose intestinal e resposta imune desregulada a antígenos luminais. Gatilhos ambientais: dieta ocidental, tabagismo (piora Crohn; efeito protetor relativo na retocolite ulcerativa).

    Diagnóstico

    • Padrão-ouro: Colonoscopia com biópsias múltiplas de segmentos afetados e não afetados. Na crise grave de retocolite ulcerativa, preferir retossigmoidoscopia sem preparo para reduzir risco de complicações.
    • Retocolite ulcerativa (definição): Inflamação contínua, iniciando no reto e podendo estender-se proximalmente no cólon; acomete mucosa (e submucosa em formas graves). NÃO apresenta lesões em salteamento.
    • Doença de Crohn (definição): Inflamação discontínua (em "salteamento"), acometimento transmural e preferência por íleo terminal e cólon direito; pode afetar todo o tubo digestivo, com estenoses e fístulas.
    • Histologia: Granulomas não caseosos são sugestivos de doença de Crohn (quando longe de criptas) e não são patognomônicos; retocolite ulcerativa mostra criptite, abscessos de cripta e distorção arquitetural.
    • Marcadores sorológicos: ASCA (Anti-Saccharomyces cerevisiae) costuma associar-se à doença de Crohn; pANCA associa-se à retocolite ulcerativa. Utilidade: apoio na classificação quando endoscopia/histologia são inconclusivas; não substituem a endoscopia com biópsia.
    • Biomarcadores inflamatórios: Calprotectina fecal elevada sugere inflamação intestinal; proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação auxiliam na avaliação de atividade.
    • Imagem (quando necessário): Enterotomografia ou enterorressonância para avaliação de delgado e complicações da doença de Crohn (estenose, fístula, abscesso).


    Doença de Crohn (DC)

    Retocolite ulcerativa (RCU)

    Áreas que podem ser afetadas

    Todo sistema digestiva (da boca até o ânus)

    Reto e intestino grosso

    Profundidade da lesão

    Todas as camadas da parede do intestino

    Região superficial da parede intestinal

    Presença de fístulas

    Comum

    Raras

    Diarreia

    Pouco frequente

    Frequente

    Sangue nas fezes

    Pouco frequente

    Frequente

    Intensidade das dores

    Dor intensa, principalmente na parte inferior do abdome, surge, em geral, durante as tentativas de evacuação

    A dor varia de local e a intensidade também é variável de acordo com a extensão de comprometimento

    Forma da inflamação

    Espaçada

    Contínua

    Achados microscópicos

    Lesões transmurais, granulosa, metaplasia pilórica local

    Abscesso de cripta, metaplasia de células de paneth 

    Medtask, 2026.


    Conduta 

    • Próximo passo no diagnóstico suspeito: Solicitar colonoscopia com biópsias (ou retossigmoidoscopia na crise grave), calprotectina fecal e exames laboratoriais (hemograma, proteína C reativa, função renal/hepática). Usar sorologia (ASCA/pANCA) apenas como apoio quando dúvida classificatória.
    • Critérios de internação (retocolite ulcerativa grave – Truelove e Witts): >6 evacuações sanguinolentas/dia e pelo menos um: febre > 37,8°C, taquicardia > 90 bpm, hemoglobina < 10,5 g/dL, velocidade de hemossedimentação > 30 mm/h. Considerar unidade de terapia intensiva se megacólon tóxico, perfuração, hemorragia maciça ou choque.
    • Armadilha de prova: Não solicitar ASCA/pANCA como exame "diagnóstico" isolado; sempre integrar com endoscopia e histologia.
    • Monitorização: Reavaliar clinicamente e com calprotectina/proteína C reativa na suspeita de atividade; repetir endoscopia para reestadiamento quando indicado (pós-indução ou falha terapêutica).

    Discussão das alternativas

    ❌ A) A retocolite ulcerativa acomete mucosa, submucosa e muscular e o íleo é o principal local acometido.

    Alternativa incorreta. Na retocolite ulcerativa, o acometimento é mucoso (submucoso em formas graves), com inflamação contínua iniciando no reto. O íleo terminal é o principal sítio da doença de Crohn; na retocolite ulcerativa pode haver backwash ileitis (ileíte de refluxo), mas não é típico nem principal.

    ❌ B) A Artropatia é a manifestação extra-intestinal mais comum, afeta de 50 a 60% dos pacientes e sua exacerbação não tem relação com a atividade da doença.

    Alternativa incorreta. Manifestações articulares ocorrem em cerca de 20–30% dos pacientes (faixa segura) e não em 50–60%. Além disso, a artrite periférica tipo 1 costuma acompanhar a atividade intestinal; a forma axial (espondiloartrite/ sacroileíte) pode ser independente da atividade.

    ✅ C) A avaliação do anticorpo ASCA (Anti-Sacharomyces-cerevisiae) pode ser útil para o diagnóstico de doença de Crohn.

    Alternativa correta. O ASCA associa-se mais frequentemente à doença de Crohn e pode auxiliar na classificação quando endoscopia/histologia não são conclusivas. Limitação: não é diagnóstico isolado e tem sensibilidade/modesta especificidade variáveis; deve ser integrado ao conjunto clínico-endoscópico-histológico.

    ❌ D) Os granulomas não caseosos são achados patognomônicos da retocolite ulcerativa.

    Alternativa incorreta. Granulomas não caseosos, quando presentes longe de áreas de criptite, são sugestivos de doença de Crohn e não ocorrem na retocolite ulcerativa. Mesmo na doença de Crohn, não são patognomônicos (ausentes em parte dos casos).


    Take-home message

    • Retocolite ulcerativa: inflamação contínua iniciando no reto, acometendo mucosa; Doença de Crohn: inflamação transmural em salteamento, frequentemente no íleo terminal.
    • Granulomas não caseosos sugerem doença de Crohn e não são patognomônicos; retocolite ulcerativa não apresenta granulomas típicos.
    • ASCA apoia o diagnóstico de doença de Crohn; pANCA apoia retocolite ulcerativa. Usar apenas como complemento.
    • Padrão-ouro diagnóstico: colonoscopia com biópsias; na crise grave, retossigmoidoscopia sem preparo.
    • Red flag: Não usar ASCA/pANCA isoladamente para “fechar” diagnóstico; sempre integrar com clínica, endoscopia e histologia.
    • Internar retocolite ulcerativa grave (Truelove e Witts); avaliar megacólon tóxico, perfuração e hemorragia como emergências.

    Questão 32 — Contracepção/Anticoncepção

    Mulher de 30 anos procura a unidade básica de saúde para consulta ginecológica de rotina, com desejo reprodutivo. Encontra-se em uso de dispositivo intrauterino (DIU) de cobre há cinco anos e deseja realizar aconselhamento pré-concepcional antes de iniciar tentativas de gestação. Tem um bom estado geral e não tem comorbidades conhecidas. O exame físico não evidencia alterações. Após a retirada do DIU, qual é a recomendação mais adequada a ser realizada?

    • A)

      Solicitar cariótipo do casal antes de iniciar tentativas de gestação.

    • B)

      Iniciar suplementação com ácido fólico.

      ✓
    • C)

      Solicitar espermograma como parte da avaliação inicial.

    • D)

      Iniciar suplementação profilática de sulfato ferroso.

    • E)

      Solicitar ressonância magnética da pelve como exame pré-concepcional.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): No aconselhamento pré-concepcional de mulher saudável em idade fértil, a medida comprovada que reduz defeitos do tubo neural é a suplementação periconcepcional de ácido fólico. É conduta de primeira linha no Brasil.

    Epidemiologia e Etiologia

    • Relevância: Defeitos do tubo neural (anencefalia, mielomeningocele) são malformações preveníveis. A deficiência de folato no período periconcepcional é fator causal modificável.
    • Cenário brasileiro: Diretriz do Ministério da Saúde recomenda suplementação universal de ácido fólico para todas as mulheres que planejam gestação, independentemente de dieta e nível socioeconômico. Fonte: Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco (2012). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_32_prenatal.pdf. Acesso em: 24/02/2026.

    Diagnóstico

    • Definição operacional (aconselhamento pré-concepcional): Avaliação clínica dirigida + atualização vacinal + orientação de estilo de vida + suplementação específica (folato) antes de iniciar tentativas.
    • Quem recebe ácido fólico? Todas as mulheres que pretendem engravidar (baixo risco). Doses maiores para alto risco (ex.: filho prévio com defeito do tubo neural, uso de anticonvulsivantes, diabetes pré-gestacional, malabsorção).
    • Exames não recomendados de rotina no baixo risco: Cariótipo do casal, espermograma, ressonância magnética pélvica.
    • Mini-exemplo clínico: Mulher hígida, 30 anos, retirou DIU e deseja engravidar: conduta central é iniciar ácido fólico agora e manter até 12 semanas de gestação.

    Conduta & Posologia

    • Ácido fólico – baixo risco (padrão): 0,4 mg VO 1x/dia, iniciar pelo menos 30 dias antes da concepção e manter até a 12ª semana de gestação. Fonte: Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco (2012).
    • Ácido fólico – alto risco (ex.: filho prévio com defeito do tubo neural, uso de anticonvulsivantes, diabetes pré-gestacional, malabsorção): 5 mg VO 1x/dia no mesmo período. Fonte: Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco (2012).
    • Contraindicações: Hipersensibilidade ao fármaco. Em geral, é seguro na gestação.
    • Interações/Observações: Antifolatos (ex.: metotrexato) e alguns anticonvulsivantes podem aumentar a necessidade de folato; ajustar para esquema de alto risco.
    • Efeitos adversos relevantes: Raros e leves (náuseas, desconforto gastrointestinal).
    • Ajustes especiais: Não exige ajuste rotineiro em doença renal crônica ou hepática leve; é vitamina hidrossolúvel.
    • Ferro profilático: não é indicado no período pré-concepcional de rotina; no SUS, inicia-se tipicamente na gestação (ex.: a partir de 20 semanas), salvo anemia documentada. Fonte: Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco (2012).
    • Cenário assistencial: Manejo ambulatorial na UBS; orientar retorno assim que houver teste positivo de gestação para início do pré-natal e manutenção do folato até 12 semanas.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Iniciar suplementação com ácido fólico.

    Alternativa correta. É a intervenção chave no pré-concepcional: ácido fólico 0,4 mg VO/dia (baixo risco) por pelo menos 30 dias antes da concepção até 12 semanas, reduzindo defeitos do tubo neural. Em alto risco, usar 5 mg VO/dia. Fonte: Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco (2012).

    ❌ A) Solicitar cariótipo do casal antes de iniciar tentativas de gestação.

    Alternativa incorreta. Cariótipo do casal não é exame de rotina no pré-concepcional de baixo risco; é indicado em perdas gestacionais recorrentes, infertilidade com suspeita de fator genético ou história familiar específica.

    ❌ C) Solicitar espermograma como parte da avaliação inicial.

    Alternativa incorreta. Espermograma é exame do casal infértil, indicado após 12 meses de tentativa sem concepção (6 meses se ≥35 anos). Não integra o check-up pré-concepcional de rotina.

    ❌ D) Iniciar suplementação profilática de sulfato ferroso.

    Alternativa incorreta. No SUS, a suplementação universal de ferro é orientada durante a gestação (tipicamente a partir de 20 semanas) e não no período pré-concepcional, salvo anemia confirmada. A medida-chave antes da concepção é o ácido fólico.

    ❌ E) Solicitar ressonância magnética da pelve como exame pré-concepcional.

    Alternativa incorreta. Não há indicação de imagem avançada no pré-concepcional de baixo risco sem sintomas ou achados anormais. Exame desnecessário, não custo-efetivo.


    Take-home message

    • A intervenção de maior impacto no pré-concepcional é ácido fólico periconcepcional para prevenção de defeitos do tubo neural.
    • Baixo risco: ácido fólico 0,4 mg VO/dia, iniciar ≥30 dias antes e manter até 12 semanas.
    • Alto risco (ex.: filho prévio com defeito do tubo neural, anticonvulsivantes): 5 mg VO/dia no mesmo período.
    • Red flag: não pedir cariótipo, espermograma ou ressonância pélvica em mulher hígida de baixo risco no pré-concepcional.
    • Sulfato ferroso não é profilaxia pré-concepcional de rotina; inicia-se na gestação no SUS, salvo anemia.


    Fontes:

    • Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco. (2012). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_32_prenatal.pdf. Acesso em: 24/02/2026.

    Questão 33 — Contracepção/Anticoncepção

    Qual alternativa contém uma contraindicação absoluta à saúde quando do uso de contraceptivo hormonal oral?

    • A)

      Mulheres em uso de anticonvulsivante.

    • B)

      Mulheres com adenoma hepático.

      ✓
    • C)

      Mulheres em uso de antirretroviral para tratamento de HIV.

    • D)

      Mulheres após cirurgia bariátrica.

    Gabarito: B.

    A utilização de contraceptivos hormonais orais tem um papel significativo na saúde reprodutiva feminina, oferecendo uma opção eficaz para prevenção de gravidez. No entanto, é crucial considerar as contraindicações absolutas para evitar complicações graves.


    A Organização Mundial da Saúde (OMS) oferece diretrizes claras sobre as contraindicações de contraceptivos hormonais, classificando-as em categorias de risco.


    Vamos avaliar, então, o contexto da questão e esclarecer as contraindicações associadas a cada alternativa apresentada🧐


    Alternativa A: Mulheres em uso de anticonvulsivante.

    ❌Certos anticonvulsivantes, como fenitoína, carbamazepina e fenobarbital, podem induzir enzimas hepáticas e, assim, reduzir a eficácia dos contraceptivos orais. No entanto, isso não é uma contraindicação absoluta; é necessário avaliar a substituição do método contraceptivo ou ajuste da dose. Portanto, essa não é uma situação de contraindicação absoluta. OMS Categoria 2 (vantagens geralmente superam os riscos).


    Alternativa B: Mulheres com adenoma hepático.

    ✅Essa é uma contraindicação absoluta ao uso de contraceptivos hormonais. Os adenomas hepáticos podem aumentar de tamanho com o uso de estrogênios devido ao seu efeito proliferativo, levando ao risco de ruptura e hemorragia abdominal. Portanto, para pacientes com adenoma hepático, o uso de contraceptivos hormonais orais é absolutamente contraindicado. OMS Categoria 4 (risco inaceitável para a saúde).


    Alternativa C: Mulheres em uso de antirretroviral para tratamento de HIV.

    ❌Semelhante aos anticonvulsivantes, alguns antirretrovirais podem afetar o metabolismo dos contraceptivos orais, reduzindo sua eficácia. Não se trata de uma contraindicação absoluta, mas é importante escolher o método contraceptivo mais adequado para evitar interações medicamentosas prejudiciais. OMS Categoria 2 ou 3, dependendo do antirretroviral específico.


    Alternativa D: Mulheres após cirurgia bariátrica.

    ❌A absorção de contraceptivos orais pode ser diminuída após certos tipos de cirurgia bariátrica, como o bypass gástrico em Y de Roux. Contudo, ainda não é considerada uma contraindicação absoluta ao uso de contraceptivos orais, mas recomenda-se métodos alternativos. OMS Categoria 3 (os riscos geralmente superam os benefícios).

    Questão 34 — Ingestão/Aspiração de corpo estranho

    Uma criança de 1 ano e 10 meses apresenta quadro compatível com aspiração de corpo estranho. Dos sintomas a seguir, sugere esse diagnóstico

    • A)

      Prostração.

    • B)

      Tosse noturna.

    • C)

      Chiado que se manifesta de acordo com mudanças posicionais da criança.

    • D)

      Súbito aparecimento de chiado.

      ✓

    Gabarito: D.

    A aspiração de corpo estranho (ACE) é uma emergência relativamente frequente na pediatria, principalmente em crianças menores de 3 anos, devido a fatores anatômicos e comportamentais:

    • via aérea estreita
    • dentição incompleta
    • imaturidade do reflexo de deglutição
    • hábito de levar objetos à boca

    Os corpos estranhos mais comuns incluem:

    • amendoim
    • sementes
    • milho
    • peças pequenas de brinquedos

    Localização mais frequente

    • brônquio principal direito, devido ao trajeto mais vertical.

    Quadro clínico típico

    A apresentação costuma ter início súbito, frequentemente após episódio de engasgo.

    Principais manifestações:

    • tosse súbita
    • engasgo
    • chiado localizado
    • estridor ou dispneia
    • diminuição do murmúrio vesicular unilateral

    Com o tempo, se o diagnóstico não for feito, podem surgir:

    • pneumonia de repetição
    • atelectasia
    • hiperinsuflação pulmonar

    Um achado clínico sugestivo é o chiado que varia com a posição, pois o corpo estranho pode se deslocar dentro da via aérea.


    Discussão das alternativas

    A) Prostração.
    ❌ Incorreta. Não é manifestação típica inicial de aspiração de corpo estranho. Prostração sugere quadro infeccioso ou sistêmico.

    B) Tosse noturna.
    ❌ Incorreta. Tosse noturna está mais associada a asma ou refluxo gastroesofágico, não sendo característica de aspiração de corpo estranho.

    C) Chiado que se manifesta de acordo com mudanças posicionais da criança.
    ❌ Incorreta. Embora o chiado posicional possa ocorrer quando o corpo estranho se desloca, esse não é o sinal clássico mais sugestivo.

    D) Súbito aparecimento de chiado.
    ✅ Correta. O início abrupto de chiado em criança previamente saudável é um forte indicativo de aspiração de corpo estranho.

    Alternativa correta: D


    Take-home message

    • Aspiração de corpo estranho ocorre principalmente em crianças menores de 3 anos.
    • O quadro típico é início súbito de tosse ou chiado após engasgo.
    • Chiado súbito em criança previamente saudável deve sempre levantar suspeita de ACE.
    • O diagnóstico definitivo geralmente é confirmado por broncoscopia, que também é o tratamento.

    Questão 35 — Questão

    Com relação a ética na pesquisa, como a não maleficência pode ser definida?

    • A)

      Os sujeitos da pesquisa como seres humanos devem ser tratados com a garantia da igualdade de direitos.

    • B)

      Compreende a garantia do participante em não sofrer danos decorrentes da pesquisa.

      ✓
    • C)

      Pesquisa com seres humanos precisam ser voltadas para o benefício dos seus sujeitos para que sejam eticamente aceitáveis.

    • D)

      Direito de decidir sobre sua participação livres de qualquer tipo de coerção ou pressão.

    • E)

      O pesquisador precisa da autorização do responsável legal para pesquisa com pacientes com capacidade cognitiva reduzida.

    Gabarito: B.

    Vamos falar sobre um dos princípios fundamentais da bioética: a não maleficência. Ela é um pilar crucial que guia diversos aspectos da prática médica e da condução de pesquisas com seres humanos.


    A não maleficência está associada ao famoso princípio hipocrático de "não causar dano" (primum non nocere), assegurando que qualquer intervenção ou participação em estudos científicos não deve causar mal aos participantes. Na pesquisa científica, isso se traduz em garantir que os sujeitos não sofram danos decorrentes da participação na pesquisa, seja em curto ou longo prazo.


    Além disso, a não maleficência implica em avaliar cuidadosamente os riscos envolvidos em pesquisas e implementar medidas para minimizá-los. Pesquisadores devem estar atentos aos possíveis efeitos adversos e assegurar que o potencial de danos não supere os benefícios esperados do estudo.


    Agora, vamos examinar as alternativas para entender como cada uma se relaciona (ou não) com o princípio da não maleficência:

    • A) Os sujeitos da pesquisa como seres humanos devem ser tratados com a garantia da igualdade de direitos.
    • Incorreta - Embora essa afirmação seja verdadeira e fundamental, ela se refere mais ao princípio da justiça, que defende a equidade e igualdade de tratamento, não especificamente à não maleficência.
    • B) Compreende a garantia do participante em não sofrer danos decorrentes da pesquisa.
    • Correta - Essa é a definição precisa da não maleficência em pesquisa, que foca na proteção do sujeito contra danos. 
    • C) Pesquisa com seres humanos precisam ser voltadas para o benefício dos seus sujeitos para que sejam eticamente aceitáveis. 
    • Incorreta - Isso se alinha com o princípio da beneficência, que enfatiza o benefício dos participantes e o equilíbrio com os riscos da pesquisa, mas não define a não maleficência.
    • D) Direito de decidir sobre sua participação livres de qualquer tipo de coerção ou pressão.
    • Incorreta - Esta afirmação está relacionada ao princípio do respeito pela autonomia, garantindo que os participantes possam tomar decisões informadas sobre sua participação sem coerção.
    • E) O pesquisador precisa da autorização do responsável legal para pesquisa com pacientes com capacidade cognitiva reduzida. Incorreta - Esta é uma questão de consentimento informado e respeito pela autonomia adaptada à capacidade do sujeito, mas não se relaciona diretamente à não maleficência.

    Take-home message: Na pesquisa ética, é essencial garantir que os sujeitos não sofram danos como resultado de sua participação — é a essência da não maleficência. Este princípio é vital para manter a confiança e integridade nas pesquisas científicas, sempre buscando equilibrar riscos e benefícios. Considere revisar o protocolo de Helsinque e a Declaração de Belmont para uma compreensão mais aprofundada das diretrizes éticas internacionais que regem a pesquisa em seres humanos.

    Questão 36 — Outros estudos epidemiológicos

    Em uma cidade em que a doença X tem maior coeficiente de letalidade que a doença Y,

    • A)

      a doença X tende a ser mais grave do que a doença Y.

      ✓
    • B)

      a doença X tende a ser mais contagiosa do que a doença Y.

    • C)

      a doença X tende a ter maior coeficiente de incidência do que a doença Y.

    • D)

      a doença X tende a ter maior coeficiente de prevalência do que a doença Y.

    • E)

      as doenças X e Y teriam coeficientes de letalidade semelhantes se a assistência hospitalar fosse melhor.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Coeficiente de letalidade mede gravidade clínica entre os doentes; não informa transmissibilidade, incidência ou prevalência. 

    • Coeficiente de letalidade: proporção de óbitos entre os casos diagnosticados de uma doença (óbito/casos x 100). Interpreta gravidade.
    • Incidência: número de casos novos em um período, refletindo risco de adoecimento.
    • Prevalência: número total de casos (novos + antigos) em um ponto/período, refletindo carga da doença.
    • Mortalidade: capacidade da doença de matar na população geral. 
    • Transmissibilidade/contagiosidade: capacidade de uma doença se disseminar (não é medida por letalidade; é inferida por R0/Rt, taxa de ataque, etc.).
    • Interpretação-chave: maior letalidade = doença, em média, mais grave entre os doentes; não implica maior incidência/prevalência.
    • Mini-exemplo: Raiva humana tem letalidade altíssima, porém incidência e prevalência baixas, logo, sua mortalidade também é baixa.

    Conduta & Posologia

    • Aplicabilidade: Tema epidemiológico sem conduta farmacológica específica.
    • Uso em prova: Solicitar definição correta e distinção entre letalidade vs incidência vs prevalência vs transmissibilidade.
    • Armadilhas de prova: Confundir letalidade com mortalidade populacional; inferir contagiosidade a partir de letalidade; supor que assistência hospitalar uniformiza letalidade entre doenças.

    Discussão das alternativas

    ✅ A) a doença X tende a ser mais grave do que a doença Y.

    Alternativa correta. Letalidade compara a proporção de óbitos entre os casos. Maior letalidade indica maior gravidade clínica entre os doentes, mantendo constantes definição de caso e qualidade diagnóstica.

    ❌ B) a doença X tende a ser mais contagiosa do que a doença Y.

    Alternativa incorreta. Contagiosidade se infere por R0/Rt ou taxa de ataque. Letalidade não mede transmissão. Doenças podem ser pouco transmissíveis e muito letais (ex.: raiva).

    ❌ C) a doença X tende a ter maior coeficiente de incidência do que a doença Y.

    Alternativa incorreta. Incidência mede casos novos no período e depende de risco de adoecimento e exposição. Letalidade não informa ocorrência de casos na população.

    ❌ D) a doença X tende a ter maior coeficiente de prevalência do que a doença Y.

    Alternativa incorreta. Prevalência reflete incidência e duração. Doenças muito letais tendem a ter menor duração dos casos (e portanto menor prevalência), a depender do fluxo de incidência.

    ❌ E) as doenças X e Y teriam coeficientes de letalidade semelhantes se a assistência hospitalar fosse melhor.

    Alternativa incorreta. Assistência pode reduzir letalidade, mas não necessariamente iguala entre doenças, pois a letalidade também depende da patogênese, virulência e resposta do hospedeiro. A afirmativa é especulativa e não decorre do enunciado.


    Take-home message

    • Coeficiente de letalidade = óbitos/casos; interpreta gravidade entre doentes.
    • Letalidade não mede transmissão, incidência ou prevalência; não confundir com mortalidade populacional.
    • Maior letalidade em X que em Y → X tende a ser mais grave (gabarito A).
    • Evite a armadilha: letalidade ≠ contagiosidade (R0).
    • Prevalência depende de incidência × duração; alta letalidade geralmente reduz duração e pode diminuir prevalência.


    Fonte conceitual: Ministério da Saúde. Medidas de frequência e gravidade em vigilância epidemiológica (manuais). Fonte: Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. (2023). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/g/guia-de-vigilancia-em-saude. Acesso em: 31/12/2025.

    Questão 37 — Apendicite aguda

    Homem de 24 anos apresenta dor abdominal difusa há 24 horas, que migrou para fossa ilíaca direita. Relata febre baixa e anorexia. Ao exame: dor intensa à palpação profunda em FID, defesa muscular e sinal de Blumberg positivo. Leucócitos: 15.000/mm³. Ultrassonografia: apêndice não compressível, medindo 10 mm, com líquido periapendicular. Qual é a conduta a ser seguida nesse caso?

    • A)

      Antibióticos venosos e observação clínica.

    • B)

      Apendicectomia laparoscópica.

      ✓
    • C)

      Tratamento exclusivamente clínico com alta hospitalar precoce.

    • D)

      Colectomia direita.

    • E)

      Drenagem percutânea e antibiótico exclusivo.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Apendicite aguda com sinais clínicos típicos + US com apêndice não compressível ≥6 mm e líquido periapendicular = indicação de apendicectomia precoce, preferencialmente laparoscópica.


    O que é: Inflamação do apêndice vermiforme por obstrução luminal (fecalito, hiperplasia linfoide), evolui de edema a isquemia, necrose e perfuração.


    Por que importa: Progressão pode levar a peritonite e sepse; o tratamento cirúrgico oportuno reduz complicações e tempo de internação.


    Como identificar: Dor periumbilical migrando para FID, febre baixa, anorexia, leucocitose; no US: apêndice não compressível >6 mm, parede espessada, líquido/coleção periapendicular; no caso, 10 mm + líquido e sinais peritoneais locais.


    Como manejar (regra prática): Apendicite não complicada geralmente cirúrgica; abordagem não operatória só em selecionados (sem peritonite, sem fecalito, seguimento estreito). Em complicada (abscesso/flegmão): antibiótico + drenagem se coleção >3 cm, com apendicectomia de resgate individualizada.


    Conduta & Posologia


    • Conduta de primeira linha: Apendicectomia laparoscópica precoce, com antibioticoprofilaxia/terapia conforme gravidade.

    • Antibioticoprofilaxia (apendicite não complicada): Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV dose única pré-incisão (até 60 min antes) OU Ceftriaxona 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV (1 dose). Manter até 24 h se necessário.

    • Terapia antibiótica (suspeita de perfuração/gangrena ou abscesso):
    • • Esquema 1: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h;
      • Esquema 2: Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h;
      • Alergia a beta-lactâmicos: Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.

    • Duração antibiótico: Não complicada: 0–24 h pós-op. Complicada: 3–5 dias, encerrar com resolução clínica (afebril, dieta tolerada, leucócitos em queda).

    • Ajustes: Piperacilina-tazo reduzir intervalo/dose se ClCr <40 mL/min; Metronidazol ajustar se ClCr <10 mL/min; Ceftriaxona sem ajuste em DRC leve-moderada; cautela em insuficiência hepática grave.

    • Analgesia e suporte: Hidratação venosa, jejum pré-operatório, antiemético. Preferir AINEs/opioide de curta duração conforme dor.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para todos com apendicite confirmada. UTI se sepse/choque, peritonite difusa, falência orgânica. Alta após apendicectomia não complicada quando analgesia VO, dieta tolerada, sinais vitais estáveis (geralmente 12–24 h).

    • Armadilhas de prova: Não indicar terapia exclusiva com antibiótico se há sinais peritoneais e US com líquido periapendicular; colectomia direita não é tratamento de apendicite comum.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Antibióticos venosos e observação clínica.

    Alternativa incorreta. Manejo não operatório pode ser considerado em casos não complicados, sem sinais peritoneais e sem líquido/coleção. Aqui há defesa, Blumberg positivo e líquido periapendicular – risco de complicação/necrose. Conduta: cirurgia + antibiótico perioperatório.


    ✅ B) Apendicectomia laparoscópica.

    Alternativa correta. Quadro clínico típico com sinais peritoneais locais e US mostrando apêndice não compressível de 10 mm com líquido periapendicular = indicação de tratamento cirúrgico imediato. A via laparoscópica reduz dor, infecção de ferida e tempo de internação, sem piora de complicações.


    ❌ C) Tratamento exclusivamente clínico com alta hospitalar precoce.

    Alternativa incorreta. Alta precoce sem cirurgia em cenário com sinais de irritação peritoneal e achados ultrassonográficos compatíveis aumenta risco de perfuração e sepse. Não é padrão de cuidado.


    ❌ D) Colectomia direita.

    Alternativa incorreta. Indicada apenas em situações excepcionais (tumor cecal, necrose extensa do ceco). Apendicite típica é tratada com apendicectomia, não colectomia.


    ❌ E) Drenagem percutânea e antibiótico exclusivo.

    Alternativa incorreta. Drenagem percutânea está indicada quando há abscesso organizado (geralmente >3 cm) documentado em imagem. O caso descreve líquido periapendicular sem abscesso organizado e sinais peritoneais – conduta é apendicectomia.


    Take-home message

    • Apendicite com dor migratória para FID, defesa/Blumberg e US com apêndice não compressível ≥6 mm + líquido = indicação de apendicectomia.
    • Preferir via laparoscópica quando disponível, por menor morbidade e recuperação mais rápida.
    • Profilaxia antibiótica: Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV dose única; complicadas: ampliar e manter 3–5 dias.
    • Manejo não operatório é exceção: sem peritonite, sem fecalito, seguimento rígido e imagem favorável.
    • Red flag: não indicar drenagem percutânea sem abscesso organizado ou colectomia direita na apendicite típica.

    Questão 38 — Apendicite aguda

    Um paciente de 22 anos apresenta dor abdominal há 24 horas, inicialmente em região periumbilical, que migrou para fossa ilíaca direita, associada a náuseas, febre baixa e anorexia. No exame físico, apresenta dor à palpação profunda em fossa ilíaca direita, sinal de Blumberg positivo e leucocitose com desvio à esquerda. Qual é a conduta mais adequada?

    • A)

      Iniciar antibioticoterapia e observar evolução clínica, sem necessidade de intervenção cirúrgica imediata.

    • B)

      Prescrever analgésicos e liberar o paciente com retorno ambulatorial em 48 horas.

    • C)

      Solicitar colonoscopia para confirmar o diagnóstico antes da cirurgia.

    • D)

      Indicar apendicectomia de urgência.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização:

    • Quadro clássico (dor migratória para FID + Blumberg + leucocitose) = alta probabilidade de apendicite aguda.

    • Em prova, a conduta padrão é apendicectomia de urgência.


    O que é: Apendicite aguda é inflamação do apêndice por obstrução luminal (fecalito/hiperplasia linfóide), evoluindo para isquemia e perfuração.


    Por que importa:

    • Progressão para peritonite e sepse.

    • Mortalidade aumenta com perfuração.

    • Tratamento cirúrgico precoce reduz complicações.


    Como identificar: Dor que migra periumbilical → FID, anorexia, náuseas, febre baixa, defesa em FID, Blumberg positivo, leucocitose com desvio. Escore de Alvarado ≥ 7 indica alta probabilidade. Em apresentação típica, pode-se indicar cirurgia sem imagem.


    Como manejar (regra de prova): Apendicectomia de urgência + antibioticoprofilaxia/terapia contra gram-negativos e anaeróbios. Antibiótico exclusivo é opcional em cenários muito selecionados e com maior taxa de recorrência; não é a conduta-padrão em quadro clássico.


    Conduta & Posologia


    • Cirurgia: Apendicectomia de urgência (preferência por videolaparoscopia se disponível). Em peritonite difusa/instabilidade, abordagem conforme controle de foco.

    • Antibioticoprofilaxia (apendicite não complicada): Uma dose pré-operatória cobrindo GN/anaeróbios; suspender até 24 h se achado intraoperatório não complicado.
      • Opção 1: Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV 30–60 min antes da incisão.
      • Opção 2: Ceftriaxona 2 g IV dose única + Metronidazol 500 mg IV dose única.

    • Terapia empírica (complicada: perfuração/abscesso/peritonite):
      • Esquema amplo: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h.
      • Alternativa: Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
      • Alergia a beta-lactâmico: Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
      • Duração: 3–5 dias após adequado controle de foco; encurtar com critérios clínicos (afebril, tolerando dieta, sem leucocitose).

    • Ajustes em DRC/Hepática:
      • Piperacilina-tazobactam: reduzir dose se ClCr < 40 mL/min.
      • Ciprofloxacino: ajustar se ClCr < 50 mL/min (por ex., 400 mg IV 24/24 h).
      • Metronidazol: reduzir em Child-Pugh C (ex.: 50%). Em diálise, dose após sessão.
      • Ceftriaxona: geralmente sem ajuste renal; cautela em disfunção hepatorrenal.

    • Gestação: Preferir cefalosporina + metronidazol; evitar fluoroquinolonas.

    • Contraindicações: Fluoroquinolonas em gestantes; anafilaxia prévia ao beta-lactâmico correspondente.

    • Efeitos adversos relevantes: Metronidazol (gosto metálico, disulfiram-like), piperacilina-tazobactam (diarreia, nefrotoxicidade rara), quinolonas (prolong QT, tendinopatia).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
    • • Internação para todos com apendicite suspeita cirúrgica.
    • • UTI se choque, sepse grave, disfunção orgânica ou necessidade de suporte vasopressor.

    • Imagem: Útil se diagnóstico incerto. USG (preferir em jovens/gestantes); TC abdome com contraste em adultos se dúvida diagnóstica.


    Armadilhas de prova

    • • Colonoscopia é contraindicada no abdome agudo inflamatório por risco de perfuração.
    • • Antibiótico exclusivo tem maior taxa de recorrência; não substitui cirurgia no quadro clássico.
    • • Não atrasar cirurgia para analgesia: oferecer analgesia adequada não “mascara” sinais.


    Figura 1. Escore de Alvarado.

    O escore de Alvarado informa critérios de pontuação e sua interpretação orienta acerca da possibilidade de se tratar de um caso de apendicite.

    Fonte: Apendicite aguda, Blog Blackbook (conteúdo médico). Blackbook. 

    Disponível em: https://blog.blackbook.com.br/apendicite-aguda/.

    Acessado em dezembro de 2025.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) Iniciar antibioticoterapia e observar evolução clínica, sem necessidade de intervenção cirúrgica imediata.

    Alternativa incorreta. Tratamento exclusivamente antibiótico é reservado a cenários muito selecionados e tem maior recorrência; no quadro típico, atrasar cirurgia aumenta o risco de perfuração. Se optar por antibiótico em cenário complicado, usar cobertura adequada (ex.: Ceftriaxona 2 g IV 24/24 h + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h), mas isso não substitui o controle de foco.


    ❌ B) Prescrever analgésicos e liberar o paciente com retorno ambulatorial em 48 horas.

    Alternativa incorreta. Apendicite suspeita requer observação hospitalar e preparo para cirurgia. Alta com retorno tardio é insegura e pode evoluir para peritonite. Analgesia é indicada, mas não substitui a abordagem definitiva.


    ❌ C) Solicitar colonoscopia para confirmar o diagnóstico antes da cirurgia.

    Alternativa incorreta. Colonoscopia é contraindicada no contexto de abdome agudo inflamatório por risco de perfuração e não é exame de escolha. Se necessário elucidar, preferir USG/TC.


    ✅ D) Indicar apendicectomia de urgência.

    Alternativa correta. Quadro clássico de apendicite (dor migratória para FID, Blumberg positivo, leucocitose) indica alta probabilidade. Conduta padrão-ouro é apendicectomia imediata, com antibioticoprofilaxia pré-operatória. Em casos complicados, manter antibiótico terapêutico.


    Take-home message

    • Quadro clássico de apendicite (dor migratória p/ FID + Blumberg + leucocitose) = indicação de apendicectomia de urgência.
    • Profilaxia antibiótica: Cefazolina 2 g IV + Metronidazol 500 mg IV pré-incisão; suspender em até 24 h na não complicada.
    • Complicada/perfurada: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6–8/8 h ou Ceftriaxona 2 g 24/24 h + Metronidazol 500 mg 8/8 h por 3–5 dias após controle do foco.
    • Colonoscopia é contraindicada no abdome agudo inflamatório.
    • Alvarado ≥ 7 reforça decisão cirúrgica; imagem (USG/TC) quando diagnóstico é incerto.
    • Evite atrasos: observação domiciliar e “antibiótico isolado” não são padrão em quadro clássico.

    Questão 39 — Desenvolvimento neuro-psico-motor (DNPM)

    Uma escola Infantil percebeu um aumento significativo de queixas de pais e professores sobre a dificuldade de concentração, agitação excessiva e atraso no desenvolvimento da fala entre crianças na faixa etária de 2 a 5 anos. Durante uma reunião pedagógica, os educadores identificaram um padrão: muitas crianças passam longos períodos do dia utilizando celulares, tablets ou assistindo à televisão. A escola decidiu organizar um evento para conscientizar os pais sobre os impactos negativos do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil, e pede orientação médica. A proposta inclui orientações sobre o tempo adequado de exposição às telas, estratégias para reduzir esse uso e como estimular o desenvolvimento saudável das crianças.

    Identifique, em crianças, o dano ocular que pode ser induzido, ou exacerbado, pelo uso excessivo de telas:

    • A)

      Miopia.

      ✓
    • B)

      Glaucoma.

    • C)

      Catarata congênita.

    • D)

      Retinopatia da prematuridade.

    Gabarito: A.

    O uso crescente de dispositivos eletrônicos tem suscitado preocupações quanto à saúde pediátrica, especialmente quanto ao impacto no desenvolvimento psicossocial e na saúde ocular das crianças. Vamos analisar a questão sob essa ótica e discutir as consequências desse uso no desenvolvimento infantil, com enfoque especial nos danos oculares provocados pelo uso excessivo de telas.

    Impactos das telas no desenvolvimento infantil

    Crianças em idade pré-escolar estão em uma fase crucial de desenvolvimento neurológico e social. A interação com o ambiente, o brincar ao ar livre e as interações sociais são indispensáveis para um desenvolvimento saudável. A exposição excessiva a telas pode afetar negativamente a atenção, a capacidade de concentração e até mesmo atrasar o desenvolvimento da linguagem. Além disso, o ambiente digital frequentemente proporciona estímulos rápidos e de curta duração, o que pode condicionar as crianças a buscar gratificação imediata, dificultando a capacidade de atenção prolongada.

    Para orientar os responsáveis, recomenda-se seguir as diretrizes da Academia Americana de Pediatria, que sugerem limitar o tempo de tela para crianças menores de 18 meses a videochamadas apenas. Para aquelas entre 18 e 24 meses, optem por uma introdução ao digital, mas sempre acompanhado por um adulto. Crianças de 2 a 5 anos devem ter o tempo de tela limitado a uma hora por dia, observando conteúdos de qualidade e sempre na companhia de responsáveis, visando discussões e interações sobre o conteúdo.

    Impactos oculares do uso excessivo de telas

    Criancas que passam longos períodos em frente a telas podem desenvolver ou ter exacerbados problemas oculares como a miopia. O foco estendido em telas de curto alcance diminui o tempo que essas passam ao ar livre, e a exposição à luz natural tem efeitos benéficos na saúde ocular e no desenvolvimento de uma visão saudável. Vários estudos apoiam essa associação, como o recentemente publicado pela Ophthalmology, que aponta o aumento da miopia em regiões com maior exposição a telas.

    Outras condições oculares: O uso excessivo de telas nas crianças não é significativamente associado com glaucoma, catarata congênita ou retinopatia da prematuridade, sendo estas patologias de etiologia diversa.

    Vamos analisar as alternativas:

    • ✅A) Miopia: Correta! O uso frequente de dispositivos digitais pode desencadear ou agravar a miopia. A diminuição da atividade ao ar livre é um fator que contribui para o desenvolvimento da miopia em crianças.
    • ❌B) Glaucoma: Incorreta. Glaucoma é uma condição que envolve aumento da pressão intraocular, geralmente sem relação direta com o uso de telas.
    • ❌C) Catarata congênita: Incorreta. Trata-se de uma condição presente desde o nascimento, não decorrente ou exacerbada pelo uso de telas.
    • ❌D) Retinopatia da prematuridade: Incorreta. Esta é uma condição que ocorre em bebês prematuros devido ao crescimento anormal dos vasos sanguíneos da retina e não está relacionada ao uso de dispositivos eletrônicos.

    Take-home Message

    A miopia está associada ao uso excessivo de telas em crianças, principalmente pela redução do tempo ao ar livre e o foco constante em objetos próximos. Para prevenir esse e outros problemas oculares, é essencial limitar o tempo de tela, promover atividades ao ar livre e garantir que o conteúdo digital seja de qualidade, sempre na companhia de um responsável. O acompanhamento das diretrizes da Academia Americana de Pediatria é crucial para garantir um desenvolvimento saudável e a prevenção de complicações visuais.

    Questão 40 — Leucemias agudas

    Paciente com quadro de sudorese noturna há 4 semanas, procurou médico que evidenciou adenomegalias inguinais de 3 cm, esplenomegalia de 10 cm e hepatomegalia de 3 cm. Hb = 10 g%, leucócitos = 14.000/mm³, segmentados = 9800, bastões = 560, metamielócitos = 280, linfócitos = 500/mm³, plaquetas = 200.000/mm³. Qual o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Leucemia mieloide crônica.

    • B)

      Leucemia mieloide aguda.

    • C)

      Leucemia linfóide aguda.

    • D)

      Linfoma de Hodgkin.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): B-sintomas + linfonodomegalia periférica indolor + esplenomegalia discreta e hemograma sem blastos favorecem linfoma de Hodgkin; leucemias agudas cursam com blastos/citopenias marcadas e leucemia mieloide crônica com leucocitose muito elevada e basofilia.


    Epidemiologia e Etiologia


    Linfoma de Hodgkin: Doença linfoide neoplásica bimodal (pico em adultos jovens). Associada a infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr em fração dos casos.


    Leucemias agudas (mieloide e linfoide): Evolução rápida, com falência medular (anemia, trombocitopenia, neutropenia) e blastos no sangue periférico/medula.


    Leucemia mieloide crônica: Neoplasia mieloproliferativa com cromossomo Filadélfia (BCR-ABL1); costuma cursar com leucocitose muito elevada, esplenomegalia volumosa e desvio à esquerda com basofilia.


    Diagnóstico


    Definição operacional de B-sintomas: Febre >38°C sem causa infecciosa, sudorese noturna profusa e perda ponderal >10% em 6 meses.


    Linfoma de Hodgkin (padrão-ouro): Biópsia excisional de linfonodo com identificação de células de Reed-Sternberg e imunofenótipo clássico (CD30+, CD15+ na maioria). Estadiamento por sistema Ann Arbor (I–IV) com sufixos A/B (presença de B-sintomas) e E (extensão extralinfonodal contígua).


    Hemograma no Hodgkin: Pode ser normal ou mostrar anemia discreta e linfopenia; plaquetas geralmente normais. Ausência de blastos no sangue periférico.


    Leucemias agudas: Presença de blastos no sangue periférico/medula (≥20% na medula para leucemia mieloide aguda, salvo exceções). Quadro de falência medular é a regra.


    Leucemia mieloide crônica: Leucocitose marcada frequentemente >50.000–100.000/mm³, basofilia/eosinofilia, esplenomegalia importante; confirmação por detecção de BCR-ABL1 por biologia molecular.


    Sinal de alerta: Corticoterapia empírica pré-biópsia pode alterar o padrão histológico e atrasar o diagnóstico de linfoma.


    Conduta & Posologia


    Próximo passo (propedêutica): Solicitar biópsia excisional do linfonodo aumentado (evitar punção por agulha fina como método diagnóstico definitivo). Realizar hemograma completo, função renal/hepática, lactato desidrogenase, velocidade de hemossedimentação, sorologias (HIV, hepatites), radiografia de tórax; estadiar com tomografia computadorizada ou PET-CT quando disponível.


    Estadiamento (Ann Arbor): Determina extensão nodal (acima/abaixo do diafragma) e envolvimento extralinfonodal; acrescentar B se houver B-sintomas.


    Tratamento de primeira linha (visão geral): Esquemas quimioterápicos baseados em antracíclico, comumente ABVD (doxorrubicina, bleomicina, vinblastina, dacarbazina), com ou sem radioterapia de campo envolvido, conforme estágio e fatores prognósticos. Doses são individualizadas por superfície corporal e protocolo oncológico; não detalhar posologia em prova clínica geral.


    Evitar: Iniciar glicocorticoide antes da biópsia; isso pode mascarar o diagnóstico histológico.


    Critérios de internação: Internar se houver instabilidade clínica, dor intensa ou compressiva, síndrome da veia cava superior, compressão medular, hiperuricemia/tumor lysis, sangramento ativo, febre persistente em neutropenia ou necessidade de biópsia/estadiamento urgentes.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Linfoma de Hodgkin.

    Alternativa correta. B-sintomas (sudorese noturna), linfonodomegalia periférica, esplenomegalia discreta e hemograma sem blastos com anemia leve e linfopenia são compatíveis com linfoma de Hodgkin. O diagnóstico deve ser confirmado por biópsia excisional do linfonodo e estadiamento Ann Arbor.


    ❌ A) Leucemia mieloide crônica.

    Alternativa incorreta. LMC típica cursa com leucocitose muito elevada (>50.000–100.000/mm³), basofilia e esplenomegalia volumosa. Aqui, leucócitos = 14.000/mm³, sem basofilia, e há B-sintomas e linfonodomegalia periférica predominantes, mais compatíveis com linfoma.


    ❌ B) Leucemia mieloide aguda.

    Alternativa incorreta. Leucemias agudas cursam com blastos no sangue periférico/medula e falência medular acentuada (anemia e plaquetopenia importantes). O hemograma não mostra blastos, plaquetas normais e quadro arrastado com adenomegalia e B-sintomas sugerem linfoma.


    ❌ C) Leucemia linfóide aguda.

    Alternativa incorreta. Também esperaria blastos circulantes e citopenias marcantes, além de evolução aguda. O achado de linfopenia (500/mm³) com plaquetas normais e ausência de blastos não sustenta LLA.


    Take-home message

    • B-sintomas + linfonodomegalia indolor + esplenomegalia com hemograma sem blastos apontam para linfoma de Hodgkin.
    • LMC costuma ter leucocitose muito alta, basofilia e esplenomegalia volumosa; não é o caso com leucócitos 14.000/mm³.
    • Leucemias agudas: evolução rápida com blastos e citopenias marcantes; ausentes neste cenário.
    • Padrão-ouro diagnóstico: biópsia excisional de linfonodo e imunohistoquímica (células de Reed-Sternberg).
    • Red flag: não usar corticóide antes da biópsia para não mascarar o diagnóstico.
    • Conduta: confirmar com biópsia, estadiar (Ann Arbor) e tratar com esquemas como ABVD conforme protocolo oncológico.

    Questão 41 — Amenorréias

    Mulher de 39 anos, G3P3, procura atendimento por amenorreia secundária há 3 anos e fadiga progressiva. Relata que, após o último parto, apresentou hemorragia puerperal grave com necessidade de transfusão sanguínea. Desde então, não voltou a menstruar, não apresentou lactação e vem notando ressecamento vaginal e queda de cabelos. Ao exame: PA 94/62 mmHg, FC 96 bpm, pele seca, genitália externa atrófica, mamas hipotróficas. IMC: 23 kg/m². Exames laboratoriais: TSH: 0,1 µUI/mL; T4 livre: 0,4 ng/dL; FSH: 2,1 mUI/mL; LH: 1,9 mUI/mL; Cortisol matinal: 4,1 µg/dL; Prolactina: 2,1 ng/mL. O diagnóstico mais provável frente ao quadro clínico e laboratorial é

    • A)

      hipotireoidismo primário.

    • B)

      insuficiência ovariana primária.

    • C)

      síndrome de Asherman.

    • D)

      síndrome de Sheehan.

      ✓
    • E)

      tumor hipofisário não secretor.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Amenorreia secundária + agalactia pós-hemorragia puerperal + hipotensão e pan-hipopituitarismo laboratorial = síndrome de Sheehan (necrose isquêmica da hipófise pós-parto).

    Epidemiologia e Etiologia (Brasil)

    • O que é: Hipopituitarismo pós-parto por necrose isquêmica da hipófise anterior, após hemorragia puerperal maciça com choque.
    • Por que importa: Causa potencialmente fatal por insuficiência adrenal secundária; apresenta-se com agalactia precoce, amenorreia persistente, fadiga e hipotensão.
    • Cenário brasileiro: Ainda ocorre em contextos de hemorragia pós-parto e acesso tardio a cuidados obstétricos; diagnóstico frequentemente tardio.

    Diagnóstico

    • Padrão clínico: História típica de hemorragia puerperal grave seguida de agalactia, amenorreia, fadiga, pele seca, atrofia genital, hipotensão.
    • Perfil hormonal (hipopituitarismo central): - Insuficiência corticotrófica: cortisol matinal baixo. - Hipotireoidismo central: T4 livre baixo com TSH baixo ou inapropriadamente normal. - Hipogonadismo hipogonadotrófico: FSH/LH baixos ou inapropriadamente normais. - Hipoprolactinemia com agalactia.
    • Exames da questão: T4 livre 0,4 (baixo) com TSH 0,1 (baixo/inapropriado) = hipotireoidismo central; FSH/LH baixos; cortisol 4,1 (baixo); prolactina 2,1 (baixa).
    • Imagem: Ressonância magnética de sela túrcica mostrando hipófise atrófica/sela vazia parcial (confirma fisiopatologia, não é obrigatório se clínica/labs típicos).
    • Diferenças-chave (prova): - Hipotireoidismo primário: TSH alto com T4 livre baixo. - Insuficiência ovariana primária: FSH/LH altos (FSH geralmente > 25 mUI/mL) com amenorreia/bochornos. - Síndrome de Asherman: sinequias intrauterinas com hormônios normais; história de curetagens; prova de progesterona negativa com cavidade sinequiada. - Tumor hipofisário não secretor: hipopituitarismo + efeito haste elevando prolactina (hiperprolactinemia leve), não baixo.

    Conduta & Posologia 

    • Sequência de reposição (pulo do gato): Repor glicocorticoide antes de hormônio tireoidiano para evitar crise adrenal.
    • Insuficiência adrenal secundária (crônica): Hidrocortisona VO em 2–3 tomadas: 15–25 mg/dia (ex.: 10 mg manhã, 5 mg início da tarde; ajustar por sintomas e peso). Orientar dobra da dose em febre 38–39 ºC e triplicar em febre >39 ºC por 24–72 h.
    • Insuficiência adrenal aguda (red flag): Se hipotensão, vômitos, choque: Hidrocortisona 100 mg EV em bolus, depois 50 mg EV 6/6 h + SF 0,9% vigoroso; monitorar Na/K/Glicemia. Internação/UTI conforme instabilidade. Nunca iniciar levotiroxina antes do corticoide.
    • Hipotireoidismo central: Levotiroxina VO: iniciar em 1,2–1,6 mcg/kg/dia (adulto jovem), em jejum; em idosos/coronariopatas: 12,5–25 mcg/dia com titulação a cada 4–6 semanas. Alvo: T4 livre no terço superior da normalidade (TSH não é parâmetro no central).
    • Hipogonadismo hipogonadotrófico (não desejo reprodutivo): Terapia estroprogestativa cíclica: - Estradiol transdérmico 50 mcg/dia contínuo + Progesterona micronizada 200 mg VO à noite por 12–14 dias/mês; ou - Estradiol valerato VO 1–2 mg/dia + mesma proteção progestagênica. Avaliar contra-indicações ao estrogênio.
    • Desejo reprodutivo: Induzir ovulação com gonadotrofinas/análogos de hormônio liberador de gonadotrofina em contexto de reprodução assistida (nível especializado).
    • Déficit de hormônio do crescimento (opcional, caso grave): Somatropina SC individualizada por IGF-1 e clínica, após estabilizar eixos vitais (uso conforme critérios da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
    • Diabetes insipidus central (se presente): Desmopressina intranasal 10–20 mcg 1–2x/dia ou VO 0,1–0,2 mg 1–2x/dia, ajustando por sódio/diurese.

    • Ajustes/Interações: Gravidez aumenta necessidade de levotiroxina. Carbonato de cálcio/ferro reduzem absorção da levotiroxina (espaçar 4 h). Estrogênio VO pode elevar globulina ligadora de tiroxina e demandar ajuste da dose de levotiroxina.
    • Contraindicações relevantes: - Estrogênios sistêmicos em história de tromboembolismo venoso ativo, neoplasia hormônio-dependente ou doença hepática grave. - Levotiroxina sem cobertura com corticoide em suspeita de insuficiência adrenal: contraindicado.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se hipotensão refratária, vômitos/desidratação, hiponatremia grave (Na < 125 mEq/L), hipoglicemia recorrente ou suspeita de insuficiência adrenal aguda. Ambulatorial se estável hemodinamicamente com plano de reposição e seguimento.
    • Monitorização: Reavaliar 4–6 semanas após ajustes; alvo: T4 livre alto-normal, sintomas controlados, pressão/Na/K/glicemia estáveis; educar uso de cartão/bracelete de esteroide e kit de emergência.

    Discussão das alternativas

    ✅ D) síndrome de Sheehan.

    Alternativa correta. História de hemorragia puerperal grave + agalactia + amenorreia + sinais de hipopituitarismo. Laboratório com hipotireoidismo central (T4 livre baixo com TSH baixo/inapropriado), gonadotrofinas baixas, cortisol baixo e prolactina baixa confirmam pan-hipopituitarismo pós-parto.

    ❌ A) hipotireoidismo primário.

    Alternativa incorreta. No primário, espera-se TSH elevado com T4 livre baixo. Aqui o TSH está baixo/inapropriado, caracterizando hipotireoidismo central. Além disso, há comprometimento de outros eixos (cortisol, gonadotrofinas, prolactina), o que não ocorre no hipotireoidismo primário isolado.

    ❌ B) insuficiência ovariana primária.

    Alternativa incorreta. Na falência ovariana, FSH/LH estão elevados (FSH geralmente > 25 mUI/mL). Neste caso, FSH/LH baixos/inapropriados indicam hipogonadismo hipogonadotrófico, compatível com lesão hipofisária.

    ❌ C) síndrome de Asherman.

    Alternativa incorreta. Asherman cursa com amenorreia por sinequias intrauterinas, porém com hormônios gonadais e tireoidianos normais e prolactina normal. Aqui há pan-hipopituitarismo com prolactina baixa e história típica de hemorragia puerperal, favorecendo Sheehan.

    ❌ E) tumor hipofisário não secretor.

    Alternativa incorreta. Pode causar hipopituitarismo, mas com frequência há hiperprolactinemia por efeito haste. O caso traz prolactina baixa e gatilho obstétrico clássico (hemorragia puerperal), direcionando a Sheehan.


    Take-home message

    • Sheehan: amenorreia + agalactia após hemorragia puerperal, com pan-hipopituitarismo (T4L baixo com TSH baixo/inapropriado, FSH/LH baixos, cortisol baixo, prolactina baixa).
    • Confusão clássica: hipotireoidismo central ≠ primário. No central, meta é T4 livre, não TSH.
    • Sequência terapêutica: primeiro hidrocortisona 15–25 mg/d, depois levotiroxina 1,2–1,6 mcg/kg/d.
    • Red flag: Nunca iniciar levotiroxina antes do corticoide em suspeita de insuficiência adrenal.
    • Hipogonadismo central: reposição estroprogestativa cíclica se sem desejo gestacional; reprodução assistida se desejar gestar.
    • Internar se hipotensão, vômitos, hiponatremia grave ou suspeita de crise adrenal; hidrocortisona EV 100 mg bolus → 50 mg 6/6 h.

    Questão 42 — Cefaleia

    Considerando as características das cefaleias, relacione a Coluna 1 à Coluna 2, associando cada tipo de cefaleia à sua descrição, caso esteja disponível.



    Coluna 1



    1. Migrânea.



    2. Cefaleia tipo tensional.



    3. Cefaleias trigêmino-autonômicas.



    4. Cefaleia em salvas.



    Coluna 2



    ( ) Cefaleia isenta de manifestações associadas, como vômito, latejamento ou agravamento com movimentos.



    ( ) Dor profunda, retro-orbital, intensidade excruciante, não flutuante e de característica explosiva.




    ( ) Crises repetidas de cefaleia, unilateral e latejante, com duração de 4 a 72 horas em pacientes com exame físico normal.




    A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:

    • A)

      4 – 1 – 2.

    • B)

      3 – 4 – 1.

    • C)

      2 – 4 – 1.

      ✓
    • D)

      2 – 3 – 4.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Classifique pela tríade “qualidade + sintomas associados + padrão temporal”.


    • Migrânea (enxaqueca): Cefaleia unilateral, pulsátil, intensidade moderada–grave, 4–72h, piora com atividade física, associada a náuseas/fotofobia/fonofobia; exame neurológico normal entre crises. Pode ter aura.

    • Cefaleia tipo tensional (CTT): Dor em pressão/“aperto”, bilateral, leve–moderada, sem náusea/vômito, sem piora com esforço; pode haver fotofobia ou fonofobia (não ambas), duração 30 min–7 dias.

    • Cefaleias trigêmino-autonômicas (TACs): Grupo com dor estritamente unilateral, curta duração e sinais autonômicos ipsilaterais (lacrimejamento, congestão nasal, ptose, miose). Inclui: cefaleia em salvas, hemicrania paroxística, SUNCT/SUNA, hemicrania contínua.

    • Cefaleia em salvas: TAC típica: dor retro-orbital/temporal, excruciante, 15–180 min, 1–8/dia em períodos (salvas) por semanas, com inquietação/agitação, lacrimejamento, rinorreia, ptose/miose ipsilaterais.


    Conduta & Posologia

    • Crise de migrânea (1ª linha): AINE ou triptana precoce.
    • AINEs: Naproxeno 500 mg VO ao início (pode repetir 12h; máx 1000 mg/dia) ou Ibuprofeno 400–600 mg VO.
    • Triptanos: Sumatriptana 50–100 mg VO (pode repetir após 2h; máx 200 mg/dia) ou 6 mg SC (máx 12 mg/dia). Contraindicado em DAC/AVC, hipertensão não controlada, hemicrania basilar/hemiplégica.
    • Antiemético adjuvante: Metoclopramida 10 mg IV/IM (pode repetir em 8h), útil em náuseas e aumenta absorção de analgésico.
    • Profilaxia da migrânea: Propranolol 40–80 mg VO 12/12h, Topiramato 25–100 mg/dia VO, Amitriptilina 10–75 mg VO à noite. Reavaliar em 8–12 semanas.
    • Crise de CTT: Paracetamol 500–1000 mg VO ou AINEs em baixa dose; evitar combinação com cafeína contínua.
    • Profilaxia da CTT frequente: Amitriptilina 10–25 mg VO à noite (titulando até 75 mg conforme tolerância).

    • Cefaleia em salvas (aborto da crise): Oxigênio 100% 12–15 L/min via máscara não reinalante por 15–20 min e/ou Sumatriptana 6 mg SC.
    • Profilaxia da salvas: Verapamil 80–120 mg VO 8/8h (titulando; ECG basal e controle do PR), transição com Prednisona 60–80 mg/dia VO por 5–7 dias, desmame em 2–3 semanas.

    Armadilhas de prova:

    • Migrânea SEM náusea ainda pode ter diagnóstico se houver fotofobia e fonofobia; CTT é tipicamente “sem sintomas associados”.
    • TAC ≠ apenas salvas: inclui hemicrania paroxística (indometacina-responsiva) e SUNCT/SUNA.
    • Dor retro-orbital explosiva com lacrimejamento/rinorreia sugere salvas, não migrânea.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) 4 – 1 – 2.

    Alternativa incorreta. A primeira descrição (sem sintomas associados) é típica de tensional, não de salvas. A segunda descrição é de salvas, não de migrânea.

    ❌ B) 3 – 4 – 1.

    Alternativa incorreta. A primeira sentença descreve ausência de sintomas associados, compatível com tensional, não com o grupo das TACs.

    ✅ C) 2 – 4 – 1.

    Alternativa correta. (1) “Sem vômito/latejamento/piora com movimento” = tensional (2). (2) “Retro-orbital, excruciante, explosiva” = salvas (4). (3) “Crises 4–72h, unilateral, latejante, exame normal” = migrânea (1).

    ❌ D) 2 – 3 – 4.

    Alternativa incorreta. A terceira sentença é a descrição clássica de migrânea (1), não de TACs/Salvas.


    Take-home message

    • Migrânea: dor unilateral, pulsátil, 4–72h, com náusea e/ou foto/fonofobia, piora ao esforço.
    • Cefaleia tensional: dor em pressão, bilateral, sem vômito e sem piora com movimento.
    • Cefaleia em salvas: dor retro-orbital excruciante + sinais autonômicos ipsilaterais; abortar com O2 100% e sumatriptana SC.
    • Profilaxia: migrânea (propranolol/topiramato/amitriptilina); salvas (verapamil com ECG).
    • Red flags (SNOOP): thunderclap, déficit focal, febre/rigidez, imunossupressão, papiledema, >50 anos, trauma.
    • Evite triptanos em DAC/AVC/HA não controlada; ajuste AINEs em DRC/hepatopatia.

    Questão 43 — Síndrome de Guillain-Barré

    Em relação à Síndrome de Guillain-Barré, qual das seguintes afirmações é verdadeira?

    • A)

      É uma doença autoimune que ataca principalmente os músculos esqueléticos.

    • B)

      É comumente desencadeada por infecções bacterianas.

    • C)

      A principal característica é a fraqueza muscular ascendente.

      ✓
    • D)

      O tratamento principal é com corticosteróides em altas doses.

    Gabarito: C.

    A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma doença autoimune rara na qual o próprio sistema imunológico do corpo ataca os nervos periféricos. Embora seja uma condição tratável, ela pode ser grave e, ocasionalmente, levar à paralisia. Educacionalmente, a SGB oferece uma ótima oportunidade para compreender os mecanismos autoimunes e a resposta inflamatória do corpo humano.

    Vamos explorar mais a fundo o que caracteriza e desencadeia essa síndrome:

    • Fisiopatologia: A SGB ocorre quando há um ataque autoimune às células de Schwann ou ao próprio axônio nos nervos periféricos. Isso leva à desmielinização e, em alguns subtipos, ao dano axonal direto. O motivo pelo qual o sistema imunológico ataca essas células não é completamente compreendido, mas infecções prévias são frequentemente identificadas como gatilhos.
    • Gatilhos: Cerca de dois terços dos casos de SGB são precedidos por infecções respiratórias ou gastrointestinais. A bactéria Campylobacter jejuni é a mais comum associada à SGB, mas outras infecções, como Zika vírus, citomegalovírus, Epstein-Barr e outros, também podem precipitar a condição.
    • Sintomas: O sintoma característico e mais conhecido da SGB é a fraqueza muscular ascendente, que começa nas pernas e progride para o tronco e braços. Em casos graves, os músculos respiratórios podem ser afetados, necessitando de suporte ventilatório.
    • Diagnóstico: É clinicamente realizado através do histórico de progressão dos sintomas e do exame neurológico, mas pode ser confirmado por alterações típicas no líquor (aumento de proteína com celularidade normal) e estudos de condução nervosa que mostram desmielinização.
    • Tratamento: Imunoterapia é a base do tratamento. Inclui a plasmaférese ou a administração de imunoglobulina intravenosa (IVIg). Corticosteroides, curiosamente, não são recomendados para SGB, pois estudos mostraram que não são eficazes nessa condição.

    Agora, vamos analisar cada uma das alternativas da questão:

    • A) Incorreta: A SGB atinge os nervos, não os músculos diretamente. A inflamação dos nervos periféricos leva à fraqueza muscular, mas os nervos são as estruturas primariamente afetadas.
    • B) Incorreta: Embora infecções possam desencadear a SGB, a afirmação de que é "comumente desencadeada por infecções bacterianas" é imprecisa. É importante destacar que, mesmo que Campylobacter jejuni seja a bactéria mais associada, infecções virais também podem ser gatilhos frequentes.
    • C) Correta: A principal característica da SGB é a fraqueza muscular ascendente. Este é um traço clínico distintivo da síndrome e um ponto crucial na suspeita diagnóstica.
    • D) Incorreta: Apesar de os corticosteróides serem utilizados em diversas condições autoimunes e inflamatórias, não são eficazes no tratamento da SGB e, portanto, não fazem parte da abordagem padrão.

    Take-home Message: A Síndrome de Guillain-Barré é uma condição autoimune caracterizada pela fraqueza muscular ascendente, frequentemente desencadeada por infecções. O tratamento com plasmaférese ou imunoglobulina intravenosa é eficaz, enquanto os corticosteroides não são recomendados. Para mais informações, consulte as diretrizes do National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS) e da American Academy of Neurology (AAN) para uma abordagem atualizada e baseada em evidências.

    Questão 44 — Colecistite aguda

    Em relação à colecistite aguda calculosa, o achado ultrassonográfico mais específico é o (a)

    • A)

      sinal de Murphy ultrassonográfico positivo.

      ✓
    • B)

      presença de líquido pericolecístico.

    • C)

      espessamento da parede vesicular.

    • D)

      vesícula distendida.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Em prova, o achado ultrassonográfico MAIS ESPECÍFICO para colecistite aguda é o sinal de Murphy ultrassonográfico. Os demais (parede espessada, líquido pericolecístico, distensão) são sensíveis, porém menos específicos.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Contexto: Colecistite aguda é a complicação mais comum da colelitíase sintomática, majoritariamente por cálculo impactado no infundíbulo/ducto cístico levando à obstrução e inflamação.
    • Agente causal: Cálculo biliar obstrutivo (colecistite calculosa) em >90% dos casos; inflamação química-infecciosa subsequente.

    Diagnóstico

    • Clínica típica: Dor no hipocôndrio direito, febre e leucocitose. Sinal de Murphy clínico (interrupção inspiratória à palpação do hipocôndrio direito) pode estar presente.
    • Padrão inicial de imagem: Ultrassonografia abdominal é o exame de primeira linha no SUS pela disponibilidade, custo e acurácia para colelitíase e sinais inflamatórios da vesícula.
    • Achado ultrassonográfico mais específico: Sinal de Murphy ultrassonográfico positivo (máxima dor à compressão com o transdutor diretamente sobre a vesícula visualizada, maior do que sobre o parênquima hepático adjacente).
    • Achados complementares (menos específicos): Parede vesicular espessada (>3 mm), líquido pericolecístico, vesícula distendida, cálculo impactado no colo/infundíbulo, sombreamento acústico e hiperemia mural ao Doppler.
    • Por que importa: O sinal de Murphy ultrassonográfico integra critérios diagnósticos, ajudando a diferenciar dor referida por outras causas e aumenta a especificidade para inflamação vesicular ativa.

    Conduta 

    • Próximo passo (linha de cuidado): Na suspeita clínica com ultrassonografia sugestiva, internar, estratificar gravidade e indicar colecistectomia videolaparoscópica precoce (preferencialmente na mesma internação; ideal até 72 horas do início dos sintomas, podendo estender até 7 dias).
    • Alternativas em alto risco cirúrgico/instabilidade: Colescistostomia percutânea guiada por imagem como ponte para cirurgia definitiva.
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para todos os casos confirmados/suspeitos com achados de imagem. UTI se houver disfunção orgânica, sepse, abscesso, enfisema na parede (colecistite enfisematosa) ou peritonite.
    • Observação: Antibióticos fazem parte do manejo clínico inicial, mas o tratamento definitivo é cirúrgico. Esquemas variam conforme gravidade e perfil local de resistência.

    Discussão das alternativas

    ✅ A) sinal de Murphy ultrassonográfico positivo.

    Alternativa correta. É o achado ultrassonográfico mais específico para colecistite aguda porque correlaciona a dor à palpação dirigida exatamente sobre a vesícula visualizada ao ultrassom, aumentando a probabilidade de inflamação vesicular ativa e distinguindo de outras causas de dor no hipocôndrio direito.

    ❌ B) presença de líquido pericolecístico.

    Alternativa incorreta. Líquido pericolecístico é achado sensível para processo inflamatório, mas é menos específico: pode ocorrer em hepatopatias, hipoalbuminemia, insuficiência cardíaca ou perfurações adjacentes. O achado mais específico é o Murphy ultrassonográfico.

    ❌ C) espessamento da parede vesicular.

    Alternativa incorreta. Parede >3 mm sugere inflamação, porém é pouco específica, podendo ocorrer em hepatopatias, insuficiência cardíaca direita, hipoalbuminemia, nefropatia ou hepatite. Não supera a especificidade do Murphy ultrassonográfico.

    ❌ D) vesícula distendida.

    Alternativa incorreta. Distensão vesicular é inespecífica e pode estar presente no jejum prolongado, obstrução biliar sem inflamação ativa ou disfunção motora. Não é marcador específico de colecistite.


    Take-home message

    • O achado ultrassonográfico mais específico para colecistite aguda é o sinal de Murphy ultrassonográfico positivo.
    • Parede espessada, líquido pericolecístico e vesícula distendida aumentam a suspeita, mas são menos específicos.
    • Ultrassonografia é o exame inicial no SUS para dor no hipocôndrio direito com suspeita de colelitíase/colecistite.
    • Conduta de escolha: internação e colecistectomia videolaparoscópica precoce na mesma internação (ideal até 72 h).
    • Red flag: não retardar a cirurgia em paciente com quadro típico e imagem compatível; atraso aumenta complicações (empiema, perfuração).
    • Em alto risco cirúrgico/instabilidade: considerar colescistostomia percutânea como ponte.

    Questão 45 — Doença Inflamatória Pélvica (DIPA)

    Mulher de 26 anos, sexualmente ativa, apresenta dor pélvica bilateral, febre, corrimento vaginal purulento e dor à mobilização do colo uterino. Qual é o diagnóstico e a conduta inicial mais adequada?

    • A)

      Endometriose - analgesia e seguimento ambulatorial.

    • B)

      Gravidez ectópica - laparoscopia imediata.

    • C)

      Doença inflamatória pélvica - antibioticoterapia empírica de amplo espectro.

      ✓
    • D)

      Torção anexial - exploração cirúrgica imediata.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Dor pélvica + febre + corrimento + dor à mobilização do colo uterino = presunção clínica de Doença Inflamatória Pélvica (DIP). Tratar empiricamente imediatamente para cobrir Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis e anaeróbios.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Brasil: DIP é complicação frequente de infecções por Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis em mulheres jovens, com risco de infertilidade, dor pélvica crônica e gestação ectópica.
    • Polimicrobiana: inclui flora vaginal anaeróbia (ex.: Bacteroides spp.), Mycoplasma genitalium e enteropatógenos após procedimentos.


    Diagnóstico

    • Definição operacional (MS/PCDT-IST): Iniciar tratamento de DIP em mulher sexualmente ativa com dor pélvica associada a pelo menos um dos seguintes achados ao exame: dor à mobilização do colo, dor uterina ou dor anexial, na ausência de outra causa mais provável.
    • Critérios de suporte: febre > 38,3 °C, corrimento mucopurulento, leucocitose, elevação de proteína C reativa/velocidade de hemossedimentação, teste positivo para Neisseria/Chlamydia, achados compatíveis em ultrassonografia (espessamento tubário, líquido em fundo de saco) ou laparoscopia (padrão-ouro, raramente necessária).
    • Por que importa: Atraso >72 h no início da antibioticoterapia aumenta complicações (abscesso tubo-ovariano, infertilidade).

    • Mini-exemplo: Mulher 20–30 anos com dor pélvica bilateral + dor à mobilização do colo + corrimento purulento = trate como DIP mesmo sem exames complementares.


    Conduta & Posologia

    • Antibioticoterapia empírica ambulatorial (primeira linha – MS/PCDT-IST):
      - Ceftriaxona 500 mg IM, dose única (se peso ≥150 kg: 1 g IM, dose única)
      - + Doxiciclina 100 mg VO a cada 12 h por 14 dias
      - + Metronidazol 500 mg VO a cada 12 h por 14 dias
    • Esquema hospitalar (quando internar): Ex.: Cefoxitina 2 g IV a cada 6 h + Doxiciclina 100 mg VO/IV a cada 12 h por 14 dias (iniciar IV e transicionar para VO quando possível). Alternativas com Clindamicina 900 mg IV 8/8 h + Gentamicina em caso de alergia a beta-lactâmico.
    • Ajustes e precauções:
      - Doxiciclina: evitar em gestantes e menores de 8 anos; fotossensibilidade; interage com antiácidos/ferro (reduz absorção).
      - Metronidazol: evitar álcool (efeito dissulfiram); cautela em insuficiência hepática grave (reduzir dose/intervalo); interage com varfarina (eleva INR).
      - Ceftriaxona: via IM/IV; ajuste geralmente não necessário em insuficiência renal leve/moderada; cautela em doença hepática grave.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar se: gestação, abscesso tubo-ovariano, quadro grave (febre alta, vômitos, sepse), falha clínica em 48–72 h, imunossupressão, dúvida diagnóstica com possibilidade cirúrgica, impossibilidade de aderir ao VO. UTI se instabilidade hemodinâmica/sepse.

    • Próximos passos essenciais: coletar testes para Neisseria/Chlamydia (quando disponível, sem atrasar a terapia), testagem para HIV, sífilis e hepatites; tratar/parceiros(as) dos últimos 60 dias; orientar abstinência sexual até 7 dias após conclusão do esquema e resolução dos sintomas.

    • Reavaliação: retorno em 48–72 h; ausência de melhora = reconsiderar diagnóstico, internar, investigar abscesso e ajustar esquema.


    Discussão das alternativas


    ✅ C) Doença inflamatória pélvica - antibioticoterapia empírica de amplo espectro.

    Alternativa correta. A tríade dor pélvica + febre + corrimento purulento associada à dor à mobilização do colo uterino atende à definição operacional de DIP. Conduta é iniciar imediatamente esquema empírico cobrindo Neisseria, Chlamydia e anaeróbios: Ceftriaxona 500 mg IM dose única + Doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 14 dias + Metronidazol 500 mg VO 12/12 h por 14 dias.


    ❌ A) Endometriose - analgesia e seguimento ambulatorial.

    Alternativa incorreta. Endometriose cursa com dor pélvica crônica/dispareunia e não costuma apresentar febre, corrimento purulento ou dor marcante à mobilização do colo. Aqui há quadro infeccioso agudo que exige antibiótico imediato.


    ❌ B) Gravidez ectópica - laparoscopia imediata.

    Alternativa incorreta. Gravidez ectópica tipicamente tem atraso menstrual, dor unilateral, sangramento vaginal e pode evoluir com instabilidade hemodinâmica. O achado clássico de dor à mobilização do colo com corrimento purulento e febre favorece DIP. Em ectópica, o passo inicial é confirmar com beta-hCG e ultrassonografia; laparoscopia é para instabilidade/ruptura.


    ❌ D) Torção anexial - exploração cirúrgica imediata.

    Alternativa incorreta. Torção anexial cursa com dor súbita intensa, geralmente unilateral, náuseas/vômitos, sem corrimento purulento ou febre iniciais. O exame com dor à mobilização do colo e corrimento é mais compatível com DIP. Cirurgia imediata se suspeita forte de torção, o que não é o caso.


    Take-home message

    • DIP é diagnóstico clínico: dor pélvica + dor à mobilização do colo/útero/anexos → iniciar antibiótico sem aguardar exames.
    • Esquema ambulatorial de primeira linha: Ceftriaxona 500 mg IM DU + Doxiciclina 100 mg VO 12/12 h 14 d + Metronidazol 500 mg VO 12/12 h 14 d.
    • Reavaliar em 48–72 h; sem melhora → internar, investigar abscesso e ampliar cobertura.
    • Tratar e rastrear IST; tratar parceiros(as) dos últimos 60 dias e orientar abstinência até resolução.
    • Red flag: gestante, abscesso, sepse ou falha em 72 h → internação e antibiótico parenteral.
    • Evite erros clássicos: não atribuir a endometriose/torção quando há corrimento purulento + dor à mobilização do colo + febre.

    Questão 46 — Escroto agudo

    Homem, de 23 anos de idade, procura o pronto atendimento por dor testicular à esquerda há um dia. Nega trauma local. Ao exame físico, encontra-se em bom estado geral, afebril, sem alterações no exame abdominal. Ausência de hérnias inguinocrurais. Nota-se testículo esquerdo de volume aumentado, doloroso ao toque, apresentando melhora do quadro álgico durante sua elevação. Realizou ultrasonogra a com doppler, ilustrada a seguir: Qual é a principal hipótese diagnóstica para este paciente?

    • A)

      Trombose do plexo pampiniforme

    • B)

      Torção testicular

    • C)

      Torção da hidátide de Morgani

    • D)

      Orquiepididimite

      ✓

    Gabarito: D.

    Vamos analisar essa questão sobre dor testicular, uma situação bastante relevante na prática médica, especialmente no pronto atendimento! Nosso paciente é um jovem de 23 anos que procura o serviço por dor testicular à esquerda, iniciada há um dia, negando trauma local.


    No exame físico, o paciente está em bom estado geral, sem alterações abdominais e sem hérnias inguinocrurais. O detalhe importante que chama nossa atenção é o teste de Prehn positivo, ou seja, a dor melhora ao elevar o testículo. Esse é um sinal clínico típico que pode nos auxiliar no diagnóstico diferencial entre algumas das principais causas de dor escrotal aguda.


    Vamos fazer uma abordagem sistemática sobre as alternativas apresentadas:

    • A) Trombose do plexo pampiniforme: Esta condição é extremamente rara e não costuma ser a causa mais comum de dor aguda escrotal. Caracteriza-se por dor devido à formação de trombos nas veias do plexo pampiniforme, mas não é a principal suspeita para o quadro clínico descrito.
    • B) Torção testicular: Essa é uma emergência urológica caracterizada por rotação do testículo sobre o cordão espermático, levando à redução ou interrupção do fluxo sanguíneo. Geralmente, a dor é súbita, intensa e não melhora com a elevação do testículo, apresentando frequentemente o sinal de Prehn negativo. O ultrassom com Doppler auxiliaria no diagnóstico, mostrando ausência ou redução do fluxo sanguíneo testicular. Este não parece ser o caso do nosso paciente.
    • C) Torção da hidátide de Morgagni: É uma causa comum de dor testicular em crianças e adolescentes, associada a uma estrutura vestigial do testículo. A dor pode ser localizada e a elevação testicular pode trazer algum alívio, mas costuma ocorrer com uma massa palpável e menor intensidade de dor comparada à torção testicular. Ainda que possível, não é a explicação mais provável aqui, especialmente sem o alerta visual (ponto azul).
    • 🎯D) Orquiepididimite: Esta é a hipótese mais provável, especialmente em jovens adultos, como nosso paciente, por uma infecção que atinge o epidídimo e, eventualmente, o testículo. Na orquiepididimite, a dor melhora com a elevação do testículo (sinal de Prehn positivo), e o Doppler de ultrassom geralmente revela aumento do fluxo sanguíneo devido à inflamação. Frequentemente é causada por infecções bacterianas, destacando-se Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae em adultos jovens, e Enterobacteriaceae em idosos.

    Questão 47 — Escroto agudo

    A torção testicular é a causa mais frequente de escroto agudo e exige diagnóstico e tratamento imediatos. A torção testicular caracteriza-se por

    • A)

      ser descartada caso apresente história de trauma.

    • B)

      necessitar de exames de imagem para indicação de exploração cirúrgica.

    • C)

      apresentar perda do reflexo cremastérico.

      ✓
    • D)

      ser tratada por meio de orquidopexia unilateral.

    Gabarito: C.

    Pessoal, a questão apresentada nos leva a discutir a torção testicular, uma emergência urológica que demanda rápida intervenção para evitar a perda do testículo. Nosso objetivo é desvendar como identificar, diagnosticar e tratar essa condição, utilizando as diretrizes vigentes para fundamentar o conhecimento. Vamos lá!


    Em primeiro lugar, um pouco de fisiopatologia: a torção testicular ocorre quando o testículo gira em torno de seu cordão espermático, resultando em diminuição do fluxo sanguíneo. Isso é mais comum em adolescentes devido à presença da anomalia da "clapper bell" (obilíquamente o testículo apresenta maior mobilidade dentro da bolsa escrotal). A dor é intensa, de início súbito, associada a náuseas e vômitos.


    O diagnóstico da torção testicular é clínico. Exames de imagem, como o ultrassom Doppler, podem auxiliar na confirmação, mas não deveriam atrasar a intervenção cirúrgica caso haja forte suspeita. O principal sinal clínico a ser lembrado é a ausência do reflexo cremastérico, que é um reflexo normal no qual a estimulação do lado interno da coxa causa a contração do músculo cremaster, elevando o testículo ipsilateral. A ausência desse reflexo é um indicador confiável de torção testicular.


    Tratamento: o tratamento é imediato e deve ser cirúrgico. A manipulação precoce, preferencialmente dentro das primeiras 6 horas após o início dos sintomas, é crucial para a viabilidade testicular. Durante a cirurgia, o testículo é destorcido e, usualmente, faz-se a orquidopexia bilateral para prevenir futuros episódios. A orquidopexia unilateral descrita na alternativa D não é a prática comum, uma vez que o testículo contralateral também é frequentemente fixado preventivamente.


    Vamos, então, avaliar as alternativas apresentadas:


    • ❌A) Alternativa incorreta - Torção testicular não é descartada por história de trauma. Um trauma pode, sim, disparar um episódio de torção devido à mobilização excessiva testicular.
    • ❌B) Alternativa incorreta - Embora exames de imagem ajudem no diagnóstico, a suspeita clínica é suficiente para indicação de exploração cirúrgica imediata devido ao risco iminente de necrose tecidual pela isquemia sustentada.
    • ✅C) Alternativa correta - Como discutimos, a perda do reflexo cremastérico é um achado importante e sensível na torção testicular, fortalecendo a hipótese diagnóstica e indicando urgência na exploração cirúrgica.
    • ❌D) Alternativa incorreta - Após a redução da torção cirurgicamente, a orquidopexia é realizada bilateralmente para evitar recidiva, o que configura um erro na descrição da alternativa.


    Mensagem para levar para casa:😊A torção testicular demanda suspeição clínica e ação rápida. O reflexo cremastérico é um dado clínico importante, mas o tratamento não deve se atrasar por investigação complementar na suspeita de torção. A orquidopexia, profilática e efetiva, deve ser bilateral para prevenir futuros episódios. 

    Questão 48 — Fissuras anais

    Paciente de 40 anos, sexo feminino, procurou serviço médico por quadro de dor anal aguda à defecação, com início há 5 dias, associada à presença de sangue no papel higiênico ao limpar-se. Nega sentir abaulamentos na região anal, nega histórico de relação anal e relata ser constipada, tendo uma evacuação a cada 3 ou 4 dias. Considerando o quadro clínico apresentado, qual seria o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Fissura anal aguda.

      ✓
    • B)

      Fístula anal.

    • C)

      Trombose hemorroidária.

    • D)

      Abscesso anorretal.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização (por que cai): Dor anal em facada ao evacuar + sangue vivo no papel + constipação recente = quadro clássico de fissura anal aguda. Diferenciar de trombose hemorroidária (nódulo doloroso), abscesso (dor contínua + febre) e fístula (secreção crônica).


    O que é: Fissura anal é ulceração linear do anodermo, geralmente na linha média posterior, causada por trauma evacuatório e hipertonia do esfíncter interno.


    Por que importa: Principal causa de dor anal aguda. Diagnóstico é clínico; manejo precoce evita cronificação e cirurgia.


    Como identificar (clínica e exame):

    - Dor intensa na evacuação, com dor residual por minutos-horas.

    - Sangramento vermelho vivo no papel higiênico.

    - História de constipação/fezes endurecidas.

    - Ao inspeção suave: fissura linear na linha média posterior; na fase aguda, sem prega sentinela exuberante.


    Fisiopatologia-chave: Trauma por fezes duras → laceração do anodermo → espasmo do esfíncter interno → isquemia local → dor e atraso na cicatrização.


    Conduta & Posologia


    • Medidas de base (primeira linha por 6–8 semanas): Banho de assento morno 10–15 min 2–3x/dia e pós-evacuação; fibras alimentares 20–30 g/dia; hidratação ≥ 2 L/dia; evitar esforço prolongado no vaso; evitar opioides por constipação.

    • Laxativos formadores/osmóticos:
    • - Psyllium 1 sachê (3,4 g) VO 1–2x/dia.
    • - Macrogol (PEG 3350) 17 g VO 1–2x/dia.
    • - Lactulose 15–30 mL VO 12/12h (titulando para fezes macias).

    • Anestésico tópico para dor: Gel de lidocaína 2% fina camada até 3–4x/dia e 5–10 min antes da evacuação por 7–14 dias. Evitar uso contínuo prolongado (risco de dermatite/alergia).

    • Vasodilatador/relaxante esfincteriano (se dor importante ou persistência > 1–2 semanas):
    • - Trinitrato de glicerila (nitroglicerina) 0,2%: aplicar fita de 1 cm no canal anal 12/12h por 6–8 semanas. Efeitos: cefaleia, tontura, hipotensão. Contraindicado com inibidores de PDE5 (ex.: sildenafil nas últimas 24–48 h).
    • - Alternativas: Diltiazem 2% tópico 12/12h ou Nifedipina 0,2–0,3% 12/12h por 6–8 semanas.

    • Quando reavaliar: 2–4 semanas; objetivo: dor < 3/10, fezes macias diárias e cicatrização progressiva.

    • Falha terapêutica (após 6–8 semanas) ou fissura crônica: considerar toxina botulínica (20–40 U) no esfíncter interno ou esfincterotomia lateral interna (risco: incontinência, principalmente em mulheres multíparas).

    • Ajustes e populações especiais:
    • - DRC/Child-Pugh: tópicos sem ajuste; laxativos osmóticos exigem hidratação e monitorar eletrólitos.
    • - Gestação/puerpério: priorizar fibras, banhos de assento; preferir bloqueadores de canal de cálcio tópicos (nifedipina/diltiazem) a nitratos por menor cefaleia/hipotensão.
    • - Idosos: iniciar laxativos em baixa dose, titulação lenta; atenção à hipotensão com nitratos.

    • Critérios de internação/encaminhamento imediato: Febre, dor contínua intensa não aliviada, tumoração/flutuação perianal (suspeita de abscesso), imunossupressão; fissura lateral (investigar causas secundárias: DII, IST, TB).


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Fissura anal aguda.

    Alternativa correta. Dor anal aguda à evacuação + sangue vivo no papel e constipação em 5 dias, sem abaulamento, é típico. Na aguda, a lesão é recente e muito dolorosa, habitualmente na linha média posterior.

    ❌ B) Fístula anal.

    Alternativa incorreta. Fístula cursa com secreção crônica purulenta por orifício externo e dor menos intensa, exceto se houver abscesso associado. Não é quadro de dor exclusivamente à evacuação com sangramento vivo no papel.

    ❌ C) Trombose hemorroidária.

    Alternativa incorreta. Dor súbita e intensa com nódulo perianal azul-violáceo e abaulamento palpável são esperados. A paciente nega abaulamento; o sangramento na trombose é menos típico.

    ❌ D) Abscesso anorretal.

    Alternativa incorreta. Abscesso causa dor contínua (não somente à evacuação), febre, calafrios e possível flutuação/eritema local. Aqui o padrão é deflagrado pela evacuação, sem sinais sistêmicos.

    Take-home message

    • Fissura anal aguda: dor em facada ao evacuar + sangue vivo no papel + constipação; exame com fissura linear (geralmente posterior).
    • Primeira linha: banhos de assento, fibras 20–30 g/d, hidratação, anestésico tópico e laxativo (ex.: PEG 3350 17 g VO 1–2x/d).
    • Se dor/persistência: vasodilatador tópico por 6–8 semanas (ex.: nitroglicerina 0,2% 12/12h ou diltiazem 2% 12/12h).
    • Red flag: febre, dor contínua, abaulamento/flutuação → suspeitar abscesso e drenar.
    • Falha em 6–8 semanas ou fissura crônica: toxina botulínica ou esfincterotomia lateral interna após avaliação coloproctológica.
    • Localização lateral sugere causa secundária (DII/IST/TB): investigar.


    Referências

    • Fonte: AMB/SBCP. Projeto Diretrizes – Fissura anal: diagnóstico e tratamento. (2011). Disponível em: https://diretrizes.amb.org.br/. Acesso em: 03/12/2025.
    • Fonte: Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Recomendações para manejo da fissura anal. (s.d.). Disponível em: https://www.sbcp.org.br/. Acesso em: 03/12/2025.

    Questão 49 — Trauma de Tórax

    Homem de 50 anos, portador de hipertensão arterial e diabetes, apresenta dor súbita em hemitórax direito, dispneia intensa e taquicardia. Exame físico: murmúrio vesicular abolido em hemitórax direito. Qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Pneumonia bacteriana.

    • B)

      Pneumotórax hipertensivo.

      ✓
    • C)

      Tromboembolismo pulmonar.

    • D)

      Infarto agudo do miocárdio.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Dor torácica súbita + dispneia intensa + murmúrio vesicular abolido unilateral = pneumotórax; se instabilidade ventilatória/hemodinâmica, é pneumotórax hipertensivo e a conduta é imediata, sem aguardar exame.

    Epidemiologia e Etiologia

    • Brasil: Pneumotórax é causa frequente de dispneia súbita em pronto-socorro; forma hipertensiva ocorre em espontâneo secundário (DPOC, asma, fibrose cística), traumas torácicos e iatrogênicos (ventilação mecânica, punções).
    • Mecanismo: Entrada de ar na cavidade pleural com mecanismo valvular (uma via), gerando hiperpressão intratorácica, colapso pulmonar, desvio do mediastino, redução do retorno venoso e choque obstrutivo.
    • Fatores de risco do caso: Homem, comorbidades; embora HAS/diabetes não sejam causas diretas, a apresentação súbita e unilateral direciona ao diagnóstico sindrômico respiratório.

    Diagnóstico

    • Definição operacional (prova): Pneumotórax hipertensivo = pneumotórax + sinais de instabilidade ventilatória/hemodinâmica por hipertensão intrapleural (hipotensão, hipoxemia grave, taquicardia, turgência jugular, desvio traqueal) + murmúrio vesicular abolido e hipertimpanismo no hemitórax afetado.
    • Padrão-ouro prático: Diagnóstico é clínico em cenário de emergência. Não aguarde radiografia para iniciar a descompressão.
    • Mini-exemplo: Dor súbita em hemitórax direito + dispneia + MV abolido à direita + hipotensão = punção imediata antes de qualquer exame.
    • Diferenciais-chave: Tromboembolismo pulmonar costuma ter ausculta normal; pneumonia cursa com febre e estertores; infarto agudo do miocárdio não explica MV abolido unilateral.

    Conduta & Posologia 

    • Prioridade absoluta: Descompressão imediata (punção de alívio) seguida de toracostomia com dreno em selo d’água.
    • Punção de alívio (técnica): Adultos: inserir cateter de grosso calibre (14–16G) no 4º ou 5º espaço intercostal, linha axilar média (sobre a borda superior da costela para evitar feixe vásculo-nervoso). Alternativa: 2º espaço intercostal, linha hemiclavicular, se acesso mais rápido.
    • Dreno torácico (após punção): Toracostomia em 5º espaço intercostal, linha axilar anterior/média com dreno 28–32 Fr conectado a selo d’água e aspiração conforme necessidade clínica.
    • Oxigenoterapia: Oxigênio suplementar para manter SpO2 ≥ 94%; ventilação assistida se fadiga/hipoxemia refratária.
    • Monitorização: Sinais vitais contínuos, reavaliação clínica imediata pós-punção; radiografia de tórax após estabilização para confirmar posicionamento do dreno.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Toda forma hipertensiva requer internação; UTI se necessidade de suporte ventilatório, choque, comorbidades graves ou recorrência.
    • Contraindicações: Não há contraindicação absoluta para punção de alívio em suspeita de pneumotórax hipertensivo instável (salva-vidas).
    • Complicações a vigiar: Enfisema subcutâneo extenso, lesão de feixe vásculo-nervoso, infecção do sítio, reexpansão pulmonar rápida com edema.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Pneumotórax hipertensivo.

    Alternativa correta. Quadro súbito com dispneia intensa, taquicardia e murmúrio vesicular abolido unilateral sugere pneumotórax; a gravidade (dispneia intensa e sinais de instabilidade) aponta para a forma hipertensiva, que é diagnóstico clínico e exige descompressão imediata sem aguardar exames.

    ❌ A) Pneumonia bacteriana.

    Alternativa incorreta. Pneumonia típica cursa com febre, tosse produtiva e estertores/crepitações; não causa abolição completa do murmúrio vesicular de um hemitórax de forma aguda. Radiografia mostraria consolidação, não colapso pulmonar.

    ❌ C) Tromboembolismo pulmonar.

    Alternativa incorreta. Tromboembolismo pulmonar tipicamente apresenta dispneia e dor pleurítica com ausculta normal ou estertores finos; murmúrio vesicular abolido unilateral não é achado clássico. Hemi-tórax silencioso sugere pneumotórax ou grande derrame.

    ❌ D) Infarto agudo do miocárdio.

    Alternativa incorreta. Infarto agudo do miocárdio apresenta dor torácica opressiva, irradiação e alterações elétricas/enzimáticas; não explica abolição do murmúrio vesicular de um lado. Dor pleurítica e ausência de ruídos respiratórios focais favorecem pneumotórax.


    Take-home message

    • Dor súbita + dispneia intensa + murmúrio vesicular abolido unilateral = pneumotórax até prova em contrário.
    • Se instável, é pneumotórax hipertensivo: diagnóstico clínico e punção de alívio imediata no 4º/5º EIC linha axilar média com cateter 14–16G.
    • Após punção, realizar toracostomia com dreno 28–32 Fr em selo d’água e monitorização contínua.
    • Red flag: Não aguarde radiografia diante de alta suspeita de pneumotórax hipertensivo.
    • Diferencie de tromboembolismo pulmonar (ausculta usualmente normal) e pneumonia (estertores/febre).

    Questão 50 — Litíase

    Um homem de 38 anos, anteriormente em boa saúde, desenvolve dor abdominal súbita e severa que irradia da região lombar esquerda até a região inguinal. Nunca apresentou episódio similar no passado. A dor vem acompanhada de náuseas e sudorese. Encontra-se agitado, revirando-se na cama. Apresenta FC de 105bpm. O diagnóstico mais provável é:

    • A)

      herpes-zoster

    • B)

      cálculo ureteral esquerdo

      ✓
    • C)

      torção de testículo esquerdo

    • D)

      diverticulite complicada em sigmoide

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Cólica renal típica = dor súbita, intensa, em flanco, colicativa (vem em ondas), irradia para fossa ilíaca/inguinal/testículo, com náuseas, inquietação psicomotora e hematúria frequente.


    O que é: Cálculo ureteral é a migração de cálculo do rim para o ureter, causando obstrução intermitente e espasmo ureteral → dor em cólica.


    Por que importa: Diagnóstico clínico-epidemiológico comum em urgência; condutas-chaves incluem analgesia rápida, exclusão de infecção obstrutiva e definição de necessidade de intervenção urológica.


    Como identificar (prova): Dor lombar unilateral súbita, irradiação para região inguinal, agitação/incapacidade de ficar parado, náuseas/sudorese, taquicardia por dor; EAS com hematúria; TC sem contraste é padrão-ouro diagnóstico; USG em gestantes.


    Mecanismo: Obstrução ureteral → aumento agudo da pressão intraluminal e distensão capsular/espasmo → dor intensa; liberação de prostaglandinas → exacerba dor e náuseas.


    Conduta & Posologia

    • Analgesia de primeira linha (AINE):
    • Diclofenaco 75 mg IM dose única, podendo repetir em 12 h;
    • alternativa:
    • Cetorolaco 30 mg IV/IM 6/6h (máx. 90 mg/dia por até 5 dias);
    • Ibuprofeno 400–600 mg VO 8/8h se ambulatorial.
    • Antálgico adjuvante: Dipirona 1–2 g IV a cada 6–8 h; se dor refratária, Tramadol 50–100 mg IV/IM/VO 8/8h (máx. 400 mg/dia).
    • Anti-emético: Ondansetrona 4 mg IV a cada 8–12 h, se náuseas/vômitos.
    • Terapia expulsiva (cálculo distal 5–10 mm, sem infecção): Tamsulosina 0,4 mg VO à noite por 4–6 semanas; suspender se hipotensão/efeitos adversos.
    • Hidratação: Manter euvolemia; evitar "hiperhidratação forçada" em dor aguda.
    • Antibiótico: Somente se infecção (febre, leucocitose, piúria) e com obstrução é emergência urológica (desobstrução + ATB amplo).
    • Imagem:
    • TC sem contraste confirma e dimensiona;
    • USG se gestante/evitar radiação;
    • RX rim-ureter-bexiga pode auxiliar em cálculos radiopacos.
    • Ajustes e cautelas:
    • AINEs: evitar em DRC moderada-grave (TFG < 30), úlcera ativa, sangramento, IC descompensada, 3º tri de gestação.
    • Tramadol: reduzir para 50 mg 12/12h se TFG < 30 mL/min.
    • Tansulosina: geralmente sem ajuste em DRC; evitar em insuf. hepática grave; risco de hipotensão postural.

    • Critérios de internação/urgência urológica:
    • Febre ou sepse com obstrução, dor intratável, vômitos/desidratação, anúria, rim único, obstrução bilateral, IRA, gestação, cálculo > 10 mm ou falha da expulsão.
    • Desobstrução com duplo J ou nefrostomia conforme urologia.

    • Reavaliação: Ambulatorial estável: reavaliar em 24–48 h; retorno imediato se febre, anúria, piora da dor.


    Discussão das alternativas:

    ❌ A) herpes-zoster

    Alternativa incorreta. Dor de zoster é dermatomérica, em queimação, costuma preceder exantema vesicular em 48–72 h e não causa cólica com irradiação para região inguinal nem inquietação típica; geralmente o paciente prefere ficar imóvel devido à alodinia.

    ✅ B) cálculo ureteral esquerdo

    Alternativa correta. Quadro típico: dor lombar súbita e intensa com irradiação para região inguinal ipsilateral, náuseas, sudorese e inquietação (paciente não encontra posição de alívio). Taquicardia secundária à dor. Em prova, esse padrão é clássico para cólica ureteral.

    ❌ C) torção de testículo esquerdo

    Alternativa incorreta. Torção cursa com dor escrotal súbita, testículo alto/transversal, ausência de reflexo cremastérico e náuseas; a dor inicia no escroto, não na lombar, e não é típica a cólica lombar irradiada. É emergência urológica, mas o padrão álgico e topografia diferem.

    ❌ D) diverticulite complicada em sigmoide

    Alternativa incorreta. Dor geralmente em fossa ilíaca esquerda, progressiva e contínua, com febre e sinais de peritonismo localizado; não cursa com cólica lombar irradiada para inguinal nem inquietação intensa. Complicações (abscesso, perfuração) trariam sinais sistêmicos importantes.


    Take-home message

    • Cólica ureteral: dor lombar súbita, colicativa, irradia para inguinal/testículo, com náuseas e inquietação; TC sem contraste é padrão-ouro.
    • Analgesia de escolha é AINE (ex.: Diclofenaco 75 mg IM), com dipirona e opioide se necessário.
    • Terapia expulsiva: Tamsulosina 0,4 mg/noite por 4–6 semanas para cálculos distais 5–10 mm sem infecção.
    • Red flag: febre + obstrução = sepse urológica → desobstrução urgente (duplo J/nefrostomia) + antibiótico.
    • Evite AINE em DRC avançada, úlcera ativa, sangramento e 3º trimestre de gestação; ajuste tramadol em TFG < 30.

    Questão 51 — Outros temas em Hepatologia

    Pode-se afirmar que a síndrome de Wernicke-Korsakoff decorre da deficiência de:

    • A)

      riboflavina

    • B)

      piridoxina

    • C)

      cobalamina

    • D)

      tiamina

      ✓

    Gabarito: D.

    As provas sempre cobram carência de vitaminas relacionadas às síndromes clínicas, então vamos revisar um pouco o tema com a mais queridinha, a tiamina/B1! 


    A causa mais comum de déficit de tiamina é o uso de álcool cronicamente (> 3 semanas já é o suficiente para causas as alterações necessárias), pela redução de absorção gastrointestinal da vitamina. Assim como pode ser encontrado em pacientes desnutridos, pós bariátrica, ou condições que afetem a absorção da B1.


    O quadro de Wernicke descrito corresponde à alterações neurológicas graves se apresentando com a famosa tríade de encefalopatia (a depender da gravidade pode cursar desde alteração de humor e memória até confusão mental/coma) + disfunção oculomotora com nistagmo (paralisia do olhar conjugado, paralisia do reto lateral) + ataxia de marcha. 


    Já Korsakoff é a clínica do paciente depletado cronicamente, apresentando perda de memória anterógrada e retrógrada, alteração de humor com apatia e alterações cognitivas. 


    Portanto, o diagnóstico de tal condição é clínico tendo sintomas característicos associados a histórico sugestivo! Se suspeitar, trate! 


    E como tratamos a deficiência de B1? Realizar 500mg 8/8h por 2 dias e seguir com 250 mg por 5 dias via ENDOVENOSA na forma aguda. Para déficits crônicos preferir 100mg diários. 


    → Lembrem-se, se suspeitar de paciente etilista não prescrever glicose antes da tiamina, por possibilitar piora de déficit. 

    → Pacientes que já apresentam síndrome de Wernicke Korsakoff constituem caráter sequelar, podendo não melhorar por completo do déficit após reposição de vitamina B1 

    → Durante a reposição de tiamina avaliar necessidade de complementação de magnésio, uma vez que o íon é cofator da vitamina. 



    Letra A -  A riboflavina é a vitamina B2, não causando efeitos neurológicos muito característicos, mas sintomas abrangentes de hipovitaminose como estomatite, queilose, dermatite seborreica


    Letra B - A piridoxina é a B6, aqui teríamos neuropatia periférica, e alterações neuropsiquiátricas


    Letra C - Cobalamina / B12. A alteração mais característica seria anemia megaloblástica


    TAKE HOME MESSAGE

    • Síndrome de Wernicke-Korsakoff aparece decorrente da deficiência de vitamina B1 - tiamina,  tendo como tríade característica: encefalopatia, distúrbio oculomotor e ataxia de marcha 

    Questão 52 — Anemia megaloblástica

    Uma das principais causas de anemia megaloblástica é a deficiência nutricional. Assinale a alternativa que aponta qual dos nutrientes a seguir é responsável, quando deficiente, pela anemia megaloblástica.

    • A)

      Riboflavina.

    • B)

      Niacina.

    • C)

      Cobalamina.

      ✓
    • D)

      Biotina.

    • E)

      Tiamina.

    Gabarito: C.

    Questão interessante e comum em provas de residência, abordando uma das causas de anemia megaloblástica. Vamos analisar o que pode levar a essa condição e discuti-la com mais detalhes.

    Anemia megaloblástica é um tipo de anemia caracterizada por macrocitose (aumento do tamanho dos eritrócitos) e desenvolvimento ineficaz das células sanguíneas na medula óssea. Isso ocorre devido à deficiência de cofatores essenciais para a síntese normal de DNA nos precursores das células vermelhas.


    Principais causas:

    • Deficiência de ácido fólico (vitamina B9): Geralmente, resultado de baixa ingestão dietética, má absorção no intestino delgado, aumento da necessidade (como em gravidez ou condições inflamatórias crônicas) ou por drogas antifolato.
    • Deficiência de vitamina B12 (cobalamina): Provém de má absorção (frequentemente devido à falta de fator intrínseco no caso da anemia perniciosa), dieta vegetariana estrita ou condições que afetam a absorção intestinal.

    Este último é o caso discutido na questão. A deficiência de cobalamina (vitamina B12) é fundamental no metabolismo do folato e na síntese de nucleotídeos, necessários para a produção de DNA. Portanto, sua deficiência leva à anemia megaloblástica.


    A deficiência de cobalamina pode se apresentar classicamente com sintomas neurológicos associados, como parestesias, fraqueza e, se não tratada, pode levar a danos neurológicos permanentes. Além disso, o exame físico pode revelar palidez e a presença de glossite atrófica (inflamação da língua).

    Para o diagnóstico, devemos ficar atentos aos exames laboratoriais que mostrarão:

    • Hemograma: anemia macrocítica (VCM elevado), leucopenia e trombocitopenia.
    • Dosagem sérica de vitamina B12: reduzida.
    • Níveis de homocisteína e ácido metilmalônico: ambos estão elevados na deficiência de cobalamina.


    Vamos revisar agora cada uma das alternativas oferecidas:

    • A) Riboflavina (vitamina B2) - Alternativa incorreta: Sua deficiência pode causar queilose, glossite e dermatite seborreica, mas não está associada à anemia megaloblástica.
    • B) Niacina (vitamina B3) - Alternativa incorreta: A falta de niacina leva à pelagra, caracterizada por dermatite, diarreia e demência, também não causando anemia megaloblástica.
    • C) Cobalamina (vitamina B12) - Alternativa correta: Como discutido, sua deficiência é uma causa clássica de anemia megaloblástica.
    • D) Biotina - Alternativa incorreta: Também conhecida como vitamina H, sua deficiência é rara e está mais associada a alopecia e dermatite.
    • E) Tiamina (vitamina B1) - Alternativa incorreta: Sua carência resulta na beribéri e na síndrome de Wernicke-Korsakoff, associada ao sistema nervoso e não à produção de hemoglobina.


    Take-home mensagem

    TópicoDetalhamento
    Definição LaboratorialAnemia Macrocítica (VCM ) Leucopenia e Trombocitopenia. Causada por falha na síntese de DNA dos precursores eritroides (eritropoiese ineficaz).
    Defeito Bioquímico CentralA é cofator para duas reações: conversão de Homocisteína em Metionina (falha leva à elevação de Homocisteína) e conversão de Ácido Metilmalônico (MMA) em Succinil-CoA (falha leva à elevação de MMA).
    Tríade de RastreioAnemia, Glossite Atrófica (língua lisa e dolorosa) e Sintomas Neurológicos (parestesias, perda de propriocepção e vibração, demência). A anemia pode não estar presente, mas a lesão neurológica pode.
    Principal EtiologiaMá Absorção (90% dos casos) devido à falta de Fator Intrínseco (Anemia Perniciosa – autoimune) ou doenças intestinais (ex: Doença de Crohn). NÃO é primariamente por baixa ingesta (exceto em vegetarianos estritos por anos).
    Marcadores Diagnósticos Sérica Baixa. MMA e Homocisteína Elevados. (MMA elevado é mais específico da deficiência de ).
    TratamentoReposição com Cianocobalamina/Hidroxicobalamina IM ou oral em altas doses. A via oral é eficaz mesmo em casos de má absorção grave. O tratamento deve ser feito imediatamente para prevenir danos neurológicos permanentes.

    Questão 53 — Artrite Reumatóide

    Nos quadros de artrite reumatoide em geral as articulações poupadas são:

    • A)

      Esternoclavicular.

    • B)

      Articulação C1-C2.

    • C)

      Interfalângicas proximais.

    • D)

      Temporomandibulares.

    • E)

      Interfalângicas distais.

      ✓

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Na artrite reumatoide (AR), a poliartrite é tipicamente simétrica, acomete MCP (metacarpofalângicas) e PIP (interfalângicas proximais) das mãos, punhos e MTFs dos pés, com poupança das interfalângicas distais (IFD). Cervical alta (C1–C2), esternoclavicular e temporomandibular podem ser acometidas.


    O que é e por que importa: AR é uma poliartrite inflamatória autoimune. O padrão articular ajuda no diagnóstico diferencial (ex.: diferencia de osteoartrose e psoríase) e antecipa complicações como instabilidade atlantoaxial.


    Como identificar: Dor e rigidez matinal > 1h, sinovite em MCP/PIP e punhos, fator reumatoide/anti-CCP, VSG/PCR elevadas. Radiografia pode mostrar osteopenia justa-articular e erosões. IFD tipicamente livres.


    Armadilha de prova: Confundir com osteoartrose (que predomina em IFD) e artrite psoriásica (que pode comprometer IFD). AR pode acometer TMJ, esternoclavicular e C1–C2, embora menos frequente.


    Conduta & Posologia

    • Primeira linha (DMARD sintético convencional): Methotrexate 15–25 mg/sem VO ou SC, escalonando em 2–4 semanas conforme tolerância; associar Ácido fólico 5–10 mg/sem (24–48 h após MTX) para reduzir toxicidade.

    • Ponte com corticosteroide: Prednisona 5–10 mg/dia VO por curto prazo (4–8 semanas) com desmame, enquanto DMARD faz efeito.

    • Analgésico/AINE (sintomático): Ex.: Ibuprofeno 400–600 mg VO 8/8h se sem contraindicação, pelo menor tempo possível.

    • Ajustes (MTX): Reduzir dose se TFG 30–59 mL/min; evitar se TFG < 30 mL/min. Evitar em hepatopatia avançada (Child-Pugh B/C) e alcoolemia crônica.

    • Contraindicações (MTX): Gestação e lactação, hepatopatia grave, insuficiência renal grave, citopenias importantes, infecção ativa não controlada.

    • Efeitos adversos relevantes (MTX): Náuseas, estomatite, citopenias, hepatotoxicidade, pneumonite por hipersensibilidade. Monitorar hemograma, TGO/TGP e creatinina a cada 4–8 semanas no início.

    • Interações críticas (MTX): Sulfonamidas, trimetoprim, AINEs em altas doses, álcool (↑ toxicidade); evitar vacinas vivas em uso de imunossupressores.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Ambulatorial na maioria. Internar/urgência se suspeita de artrite séptica, mielopatia por instabilidade C1–C2 (déficit neurológico, dor cervical intensa), toxicidade grave por DMARD (citopenia febril, hepatite aguda).

    Discussão das alternativas

    ❌ A) Esternoclavicular.

    Alternativa incorreta. A articulação esternoclavicular pode ser acometida na AR (sinovite menos comum, mas descrita). Não é tipicamente poupada.

    ❌ B) Articulação C1-C2.

    Alternativa incorreta. A AR pode comprometer a coluna cervical alta (atlantoaxial), causando sinovite e instabilidade. É achado clássico e relevante por risco neurológico.

    ❌ C) Interfalângicas proximais.

    Alternativa incorreta. As PIP são tipicamente acometidas na AR, junto com MCP e punhos, compondo a distribuição característica.

    ❌ D) Temporomandibulares.

    Alternativa incorreta. A articulação temporomandibular pode ser envolvida em AR, ainda que menos frequente, causando dor e limitação de abertura da boca.

    ✅ E) Interfalângicas distais.

    Alternativa correta. As IFD são classicamente poupadas na AR. Envolvimento de IFD sugere diagnósticos diferenciais como osteoartrose ou artrite psoriásica.


    Mensagem para levar para casa:

    • AR acomete simetricamente MCP, PIP e punhos; IFD são poupadas.
    • Envolvimento de IFD sugere osteoartrose ou artrite psoriásica (não AR).
    • Cervical alta (C1–C2), esternoclavicular e temporomandibular podem ser afetadas na AR.
    • Red flag: dor cervical + déficit neurológico → suspeitar instabilidade atlantoaxial; avaliar com imagem e referenciar com urgência.
    • Primeira linha terapêutica: Methotrexate 15–25 mg/sem + ácido fólico; corticoide em baixa dose como ponte.
    • MTX é contraindicado em gestação, hepatopatia grave e TFG < 30 mL/min; monitorar hemograma e enzimas hepáticas.

    Questão 54 — Pancreatite aguda

    Homem de 59 anos com dor abdominal intensa, náuseas e vômitos. Etílico crônico. Exames: amilase 620 U/L. Qual o diagnóstico provável?

    • A)

      Colecistite crônica.

    • B)

      Pancreatite aguda.

      ✓
    • C)

      Úlcera perfurada.

    • D)

      Apendicite aguda.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Pancreatite aguda é diagnóstico clínico-laboratorial: 2 de 3 critérios de Atlanta (2012/2013): dor abdominal típica, amilase/lipase > 3x o limite superior da normalidade, ou imagem compatível.


    O que é: Inflamação aguda do pâncreas por ativação intrapancreática de enzimas digestivas.


    Por que importa: Pode evoluir rapidamente para falência orgânica. As etiologias alcoólica e biliar são as causas mais comuns.


    Como identificar: Dor epigástrica intensa em faixa irradiando para dorso, náuseas/vômitos; elevação de lipase/amilase (>3x o limite superior normal) e, se necessário, TC/USG compatível.


    Mini-exemplo: Etílico crônico com dor epigástrica + amilase 6x limite superior normal = clinicamente pancreatite aguda, mesmo sem imagem.


    Critérios de Atlanta. Retirado de https://www.scielo.br/j/rcbc/a/zLLRzy9sCCpZ6TKYLsJTkqx/abstract/?lang=pt, acesso em 13/01/2026.


    Conduta & Posologia


    • Hidratação venosa (primeiras 24h): Ringer lactato 250–500 mL/h, reavaliando a cada 6–12 h (frequência, PAM ≥65 mmHg, diurese >0,5 mL/kg/h, hematócrito <44%). Se hipovolemia/choque: bolus 10–20 mL/kg e reavaliar.

    • Analgésicos: Dipirona 1 g IV 6/6 h; necessidade: Morfina 2–4 mg IV a cada 2–4 h, titulada. Alternativa: Fentanil 25–50 mcg IV a cada 30–60 min se dor refratária.

    • Antiemético: Ondansetrona 4 mg IV 8/8 h conforme necessidade.

    • Jejum e nutrição: Jejum nas primeiras horas; iniciar dieta enteral em 24–48 h conforme dor/tolerância. Na forma grave, preferir sonda nasoenteral precoce.

    • Antibiótico: Não usar profilaticamente. Indicar se colangite ou necrose infectada: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h ou Imipenem 500 mg IV 6/6 h por 7–10 dias.

    • Etiologia biliar: CPRE urgente se colangite/obstrução persistente (icterícia + colestase). Colecistectomia na internação (leve) ou após resolução (moderada/grave).

    • Ajustes em DRC: Piperacilina-tazo: ClCr 20–40 mL/min 3,375 g 6/6–8/8 h; ClCr <20 mL/min 2,25–3,375 g 8/8–12/12 h. Imipenem: ClCr 20–40 mL/min 250–500 mg 8/8 h; ClCr <20 mL/min 250 mg 12/12 h. Morfina acumula em DRC avançada — preferir fentanil.

    • Ajustes em hepatopatia: Evitar doses altas de paracetamol; dipirona com cautela em insuficiência hepática grave. Piperacilina-tazo/Imipenem sem ajuste rotineiro.

    • Contraindicações/alertas: Antibiótico profilático na necrose estéril: não indicado. Sonda nasogástrica de rotina não melhora desfecho. Evitar AINEs se instabilidade hemodinâmica/DRC.

    • Efeitos adversos relevantes: Morfina (náusea, constipação, retenção urinária); dipirona (agranulocitose rara); piperacilina-tazo/imipenem (diarreia, convulsão com imipenem em DRC).

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para todos exceto quadros muito leves socialmente seguros. UTI se falência orgânica (choque, necessidade de O2 alto/VM, creatinina em ascensão/oligúria), SIRS persistente >48 h, BISAP ≥3, lactato elevado ou necessidade de suporte invasivo.

    • Reavaliação e monitorização: Sinais vitais e resposta à hidratação nas primeiras 6–12 h; dosar Ht/ureia/creatinina. Avaliar complicações com TC contrastada após 48–72 h se piora ou dúvida diagnóstica.


    Discussão das alternativas


    ✅ B) Pancreatite aguda.

    Alternativa correta. Dor abdominal intensa + náuseas/vômitos em etilista crônico com amilase 620 U/L (tipicamente >3x limite superior normal) satisfaz 2/3 critérios de Atlanta: clínica típica e enzimas elevadas; imagem não é necessária para fechar diagnóstico inicial.


    ❌ A) Colecistite crônica.

    Alternativa incorreta. Colecistite crônica cursa com dor pós-prandial recorrente, sem elevação acentuada de amilase. Amilase/lipase elevadas favorecem pancreatite aguda; USG de vias biliares ajudaria, mas quadro e enzimas direcionam ao pâncreas.


    ❌ C) Úlcera perfurada.

    Alternativa incorreta. Úlcera perfurada causa dor súbita com peritonite e pneumoperitônio em imagem; amilase pode elevar modestamente, mas não é marcador primário. O padrão clínico laboratorial aqui é mais consistente com pancreatite.


    ❌ D) Apendicite aguda.

    Alternativa incorreta. Dor típica inicia em mesogástrio migrando para FID, com sinais peritoneais localizados e sem hiperenzimas pancreáticas. O perfil laboratorial não sustenta apendicite.


    Take-home message


    • Diagnóstico de pancreatite aguda exige 2/3: dor típica, amilase/lipase >3x limite superior normal, ou imagem compatível (Atlanta 2012/2013).
    • Suporte inicial: Ringer lactato 250–500 mL/h, analgesia com opioide titulado e antiemético.
    • Antibiótico apenas se colangite ou necrose infectada; evite profilaxia.
    • Red flag: SIRS persistente, choque, hipoxemia ou DRC aguda = UTI.
    • Na etiologia biliar, indicar CPRE se colangite/obstrução e colecistectomia na mesma internação (quadros leves).

    Questão 55 — Doença Inflamatória Intestinal - Retocolite Ulcerativa

    Um homem de 30 anos com diarreia crônica sanguinolenta e dor abdominal é encaminhado à colonoscopia. O exame revela inflamação contínua da mucosa, iniciando no reto e estendendo-se pelo cólon, sem áreas de preservação. A biópsia confirmou inflamação restrita à camada mucosa, sem granulomas. Qual dos achados abaixo é mais característico da retocolite ulcerativa?

    • A)

      Envolvimento segmentar com ulceração transmural.

    • B)

      Fístulas e abscessos perianais.

    • C)

      Envolvimento do intestino delgado com espessamento mural.

    • D)

      Envolvimento contínuo do reto ao cólon com inflamação da mucosa.

      ✓

    Gabarito: D.

    A questão traz um paciente jovem com diarreia crônica sanguinolenta e dor abdominal que foi submetido a uma colonoscopia com achado de inflamação contínua da mucosa, começando no reto e se estendendo pelo cólon, juntamente com biópsia mostrando inflamação restrita à camada mucosa e ausência de granulomas. Essa descrição da colonoscopia é típica da Retocolite Ulcerativa (RCU), no entanto entanto essa condicação manifesta-se clinicamente de forma muito semelhante a outra famosa doença infalamtória intestinal (DII), a Doença de Crohn, por isso é importante saber diferenciar os achados colonoscópicos de cada uma. E é justamente isso que a questão exigia do candidato. 


    Vamos para uma breve revisão sobre as DII:

    Trata-se de uma doença multifatorial mas que conta com um importante componente autoimune e costuma manifestar-se com um quadro de diarréia crônica acompanhada por produtos patológicos em fazes e dor abdominal. As duas principais representantes são a Retocolite Ulcerativa (RCU) e a Doença de Crohn (DC).


    ⇒ RCU:

    • Doença exclusiva do intestino grosso (reto e cólon);

    • Apresentação contínua, sem área de mucosa íntegra nas áreas lesadas;

    • Acometimento restrito à mucosa, por isso não cursa com fístulas ou perfurações;

    • Biópsia típica: criptite.


    ⇒ DC:

    • Pode acometer todo o trato gastrointestinal, desde a boca até o ânus;

    • Estende-se além da mucosa, podendo acometer a parede intestinal de forma transmural. Por isso, associa-se com complicações como fístulas, perfurações, abscessos e estenoses;

    • Tem padrão de distribuição descontínuo, ou seja, na colonoscopia vemos áreas de mucosa íntegra entremeadas por áreas de lesão, descrita em exames de imagem como padrão de "pedra em calçamento";

    • Biópsia típica: granulomas não caseosos.


    • O tratamento da RCU envolve o uso de aminossalicilatos (exemplo: mesalazina) como primeira linha para casos leves. Já na DC, não há indicação de uso de aminossalicilatos, sendo os casos leves manejados com corticóides tópicos ou sistêmicos. Em casos moderados e graves, associa-se imunossupressores para ambas a doenças e casos mais graves podem necessitar do uso de imunobiológicos. 

    Agora vamos avaliar as alternativas:


    • A) Envolvimento segmentar com ulceração transmural.
    • ❌ Alternativa incorreta. Como vimos, o acometimento transmural é característico da Doença de Crohn.

    • B) Fístulas e abscessos perianais.
    • ❌ Alternativa incorreta. Essas são complicações associadas à Doença de Crohn, onde a inflamação acomete planos mais profundos e pode ser transmural.

    • C) Envolvimento do intestino delgado com espessamento mural.
    • ❌ Alternativa incorreta. Lembre-se que a RCU é uma doença exclusiva no intestinal grosso, estando o intestino delgado acometido apenas na DC. Além disso, quem complica com espressamento mural é a DC que tem inflamação transmural. 

    • D) Envolvimento contínuo do reto ao cólon com inflamação da mucosa.
    • ✅ Alternativa correta. Aqui temos a descrição exata do acometimento da RCU, que é contínuo, limitado à mucosa e restrito ao reto e cólon. 

    • ⚠️ Mensagem final:
      Para Retocolite Ulcerativa, pensem em um padrão contínuo de inflamação mais superficial que começa no reto e se estende de forma ascendente parando no cólon. Ao contrário da Doença de Crohn, que é segmentar e transmural e pode acometar qualquer parte do trato gastrointestinal, da boca ao ânus. Saber a principais diferenças entre essas DII é muito importante para a sua prova! 

    Questão 56 — Hiperplasia Prostática Benigna (HPB)

    Um homem de 88 anos se apresenta ao departamento de emergência com dor abdominal intensa. Ele relata dificuldade para urinar nas últimas semanas e não consegue urinar desde a noite passada. Qual é a etiologia MAIS COMUM de retenção urinária aguda neste grupo demográfico?

    • A)

      Efeito adverso da medicação

    • B)

      Hipertrofia prostática benigna

      ✓
    • C)

      Bexiga neurogênica

    • D)

      Tumor

    • E)

      Infecção urinária

    Gabarito: B.

    Vamos lá, pessoal! Temos um paciente idoso, de 88 anos, que apresenta dor abdominal intensa e dificuldade para urinar, progredindo para retenção urinária aguda. Diante desse quadro, é fundamental pensarmos nas causas mais prováveis de obstrução do trato urinário em homens dessa faixa etária. A primeira a vir em mente deve ser a hipertrofia prostática benigna (HPB), que é o tema central desta questão.


    A HPB é uma condição extremamente comum em homens idosos e resulta do aumento do volume da próstata, que comprime a uretra e provoca obstrução ao fluxo urinário. Essa condição pode levar à retenção urinária aguda, caracterizada pela súbita incapacidade de esvaziar a bexiga, e geralmente é acompanhada por dor suprapúbica intensa.


    Vamos entender um pouco melhor como a HPB se desenvolve:


    • Etiologia: Ainda não é completamente compreendida, mas sabe-se que é influenciada por fatores hormonais (particularmente os níveis de testosterona e seus metabólitos).
    • Sintomas: Dificuldade para iniciar a micção, jato urinário fraco, gotejamento terminal, sensação de esvaziamento incompleto, aumento na frequência urinária, urgência e, em casos agudos, retenção urinária.
    • Diagnóstico: Baseia-se em história clínica, exame físico, toque retal (que pode indicar um aumento da próstata), e exames complementares como urofluxometria e ultrassonografia, podendo ser utilizada para avaliar o volume da próstata e o resíduo pós-miccional.
    • Tratamento: Inclui abordagens farmacológicas (como os alfa-bloqueadores e inibidores da 5-alfa-redutase) e, em alguns casos, intervenção cirúrgica, como a ressecção transuretral da próstata (RTUP).

    Agora, vamos passar por cada uma das alternativas:


    • ❌A) Efeito adverso da medicação: Embora alguns medicamentos, como antidepressivos tricíclicos e anticolinérgicos, possam causar retenção urinária, esta não é a causa mais comum em idosos. Alternativa incorreta para esta questão.

    • ✅B) Hipertrofia prostática benigna: Como já discutimos, esta é a etiologia mais comum de retenção urinária aguda em homens idosos, tornando essa a alternativa correta.

    • ❌C) Bexiga neurogênica: Esta condição pode levar à retenção urinária, mas é mais frequentemente associada a distúrbios neurológicos ou lesões medulares. Não é a causa mais comum neste caso. Alternativa incorreta.

    • ❌D) Tumor: Tumores pélvicos ou de bexiga podem causar obstrução, mas são causas menos comuns de retenção urinária aguda comparadas à HPB. Alternativa incorreta.

    • ❌E) Infecção urinária: Infecções do trato urinário geralmente causam disúria, frequência e urgência, não retenção aguda. No entanto, infecções severas podem complicar com retenção, mas isso não é comum em comparação com a HPB. Alternativa incorreta.

    Mensagem para levar para casa:😊 Em homens idosos, a hipertrofia prostática benigna é a principal causa de retenção urinária aguda. Sempre considere a HPB ao abordar dificuldades urinárias em pacientes masculinos dessa faixa etária, e lembre-se de que essa é uma condição altamente prevalente com impacto significativo na qualidade de vida.

    Questão 57 — Traumatismo Cranioencefálico (TCE)

    O traumatismo cranioencefálico (TCE) é um dos acidentes mais frequentes em pediatria. Os TCEs classificados como grave são aqueles onde a Escala de Coma de Glasgow (ECG) é menor ou igual a 8. O paciente que sofreu um acidente automobilístico e no momento do seu exame físico abre o olho em resposta a dor, apresenta-se falando sons incompreensíveis e com movimentos de decorticação, possui qual valor na ECG?

    • A)

      8

    • B)

      7

      ✓
    • C)

      6

    • D)

      5

    • E)

      4

    Gabarito: B.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: A Escala de Coma de Glasgow (ECG) soma três respostas (Olhos, Verbal, Motora). No adulto/criança maior, os escores clássicos são: Olhos 4–1, Verbal 5–1, Motora 6–1. TCE grave: ECG ≤ 8.


    O que é: A ECG quantifica o nível de consciência pela melhor resposta observada.


    Por que importa: Classifica gravidade (conduta, via aérea, UTI) e acompanha evolução/necessidade de TC.


    Como identificar (pontos-chave):

    Componente Resposta Escore
    Olhos (E) Espontâneo / Ao som / À dor / Nenhum 4 / 3 / 2 / 1
    Verbal (V) Orientado / Confuso / Palavras inapropriadas / Sons incompreensíveis / Nenhum 5 / 4 / 3 / 2 / 1
    Motora (M) Obedece / Localiza dor / Retira à dor / Flexão anormal (decorticação) / Extensão (descerebração) / Nenhuma 6 / 5 / 4 / 3 / 2 / 1


    Mini-exemplo clínico: E2 (abre ao estímulo doloroso) + V2 (sons incompreensíveis) + M3 (decorticação) = ECG 7 → TCE grave.


    Armadilhas de prova:

    • • Somar a melhor resposta observada em cada domínio (não a média).
    • • “Decorticação” = M3; “Descerebração” = M2.
    • • “Sons incompreensíveis” = V2 (no GCS padrão).

    Conduta & Posologia


    • Suporte inicial (ABCDE): Via aérea com proteção cervical; intubar se ECG ≤ 8 ou incapacidade de proteger via aérea. Ventilar para SpO2 ≥ 94% e PaCO2 35–40 mmHg (evitar hiperventilação rotineira).

    • Medidas gerais: Cabeceira 30°, alinhar cabeça, evitar hipotensão (PAS pediátrica alvo ≥ p5 para idade), normoglicemia e normotermia.

    • Osmoterapia (piora neurológica/hipertensão intracraniana suspeita):
    • • Manitol 0,25–1 g/kg IV em bolus, repetir conforme resposta e osmolaridade sérica.
    • • Efeitos adversos: diurese osmótica, hipotensão, insuficiência renal. Evitar se hipotenso/hipovolêmico.
    • • Salina hipertônica 3% 2–5 mL/kg IV em bolus (máx. 250 mL), pode repetir.
    • • Efeitos: hipernatremia, flebite. Meta Na+ 145–155 mEq/L em TCE grave sob monitorização.

    • Analgesia/sedação: Fentanil, midazolam/propofol (em UTI e monitorização); evitar hipotensão. Considerar bloqueio neuromuscular em ventilação e hipertensão intracraniana refratária.

    • Imagem: Tomografia de crânio nas primeiras horas se ECG < 15 com sinais de alerta (vômitos repetidos, cefaleia progressiva, déficit focal, fratura de base/afundamento, convulsão, alteração do comportamento) ou qualquer ECG ≤ 13.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: UTI se ECG ≤ 8, deterioração neurológica, necessidade de ventilação/vasoativos, achados de TC significativos (hematomas, edema, hérnia). Observação/enfermaria se ECG 14–15 com fator de risco. Alta ambulatorial apenas se ECG 15, exame neurológico normal, sem sinais de alerta, supervisão domiciliar e orientação escrita.

    • Monitorização e reavaliação: Repetir ECG e pupilas a cada 15–30 min na fase aguda; controlar Na+, osmolaridade e balanço hídrico se osmoterapia.


    Discussão das alternativas

    ❌ A) 8

    Alternativa incorreta. Cálculo: E2 (dor) + V2 (sons incompreensíveis) + M3 (decorticação) = 7, não 8.


    ✅ B) 7

    Alternativa correta. E2 + V2 + M3 = 7 pontos, caracterizando TCE grave (ECG ≤ 8) e indicando proteção de via aérea e suporte em ambiente crítico.


    ❌ C) 6

    Alternativa incorreta. Para 6, seria necessário reduzir um ponto adicional (ex.: M2 descerebração), o que não é o caso.


    ❌ D) 5

    Alternativa incorreta. Exigiria combinações mais graves (ex.: E1 + V2 + M2 = 5), discordantes do enunciado.


    ❌ E) 4

    Alternativa incorreta. E2 + V2 já somam 4, restaria M0 (inexistente na escala); logo, impossível nessa descrição.


    Take-home message

    • ECG soma melhor resposta: Olhos (4–1) + Verbal (5–1) + Motora (6–1).
    • E2 (dor) + V2 (sons incompreensíveis) + M3 (decorticação) = 7 → TCE grave.
    • TCE grave (ECG ≤ 8) indica proteção de via aérea, TC de crânio e UTI.
    • Osmoterapia em hipertensão intracraniana: Manitol 0,25–1 g/kg IV ou Salina 3% 2–5 mL/kg IV.
    • Evite hiperventilação profilática e evite manitol em hipotensão.

    Questão 58 — Artrite séptica

    Paciente com crise articular aguda monoarticular de início súbito e dor intensa (8/10 na EVA), com hipertermia local e rubor, deve ter como principais hipóteses diagnósticas:

    • A)

      Artrite reumatoide ou lúpus eritematoso sistêmico.

    • B)

      Osteoartrite primária ou fibromialgia.

    • C)

      Febre reumática ou espondilite anquilosante.

    • D)

      Dermatopolimiosite ou esclerose sistêmica.

    • E)

      Gota ou artrite séptica.

      ✓

    Gabarito: E.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização (por que cai): Monoartrite aguda súbita com dor intensa e sinais inflamatórios locais tem duas hipóteses que mudam a conduta imediatamente: gota (inflamatória cristalina) e artrite séptica (infecciosa). A prova cobra o reconhecimento rápido e a necessidade de artrocentese imediata.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Gota: Doença inflamatória por deposição de cristais de monourato de sódio. Prevalência crescente no Brasil, associada a idade, sexo masculino, síndrome metabólica, uso de diuréticos tiazídicos e insuficiência renal crônica.

    • Artrite séptica: Infecção articular, geralmente por Staphylococcus aureus (inclui resistência), bacilos gram-negativos em idosos, imunossuprimidos ou usuários de drogas injetáveis. Alta morbimortalidade se atraso no tratamento.

    • Diagnóstico
    • Padrão-ouro (ambas): Artrocentese com análise do líquido sinovial: contagem e diferencial de leucócitos, cristaloscopia sob luz polarizada, Gram e cultura.

    • Artrite séptica (definição operacional): Líquido sinovial tipicamente purulento, leucócitos > 50.000/mm³ com predomínio de neutrófilos (> 75%), Gram/cultura positivos (podem ser negativos em até 30%). Febre e marcadores inflamatórios elevados são inespecíficos, mas reforçam suspeita.

    • Gota (definição operacional): Presença de cristais de monourato de sódio (agulha, birrefringência negativa forte). Leucócitos geralmente 2.000–50.000/mm³. Hiperuricemia ajuda, mas não diagnostica a crise.

    • Pontos clínicos úteis: Início súbito, dor intensa, calor e rubor locais; primeira crise frequentemente em podagra (1ª metatarsofalângica) na gota. Artrite séptica pode acometer joelho/Quadril e cursar com incapacidade funcional importante e quadro sistêmico.

    • Armadilha: Gota e infecção podem coexistir. Nunca infiltrar corticoide intra-articular sem excluir artrite séptica.

    Conduta & Posologia

    Primeiro passo prático na monoartrite aguda: Se houver sinais locais intensos, febre ou risco infeccioso, realizar artrocentese imediata e enviar para análise completa. Se suspeita de séptica é alta, iniciar antibiótico EV após coleta.


    • Gota – tratamento da crise aguda (SBR):
      • AINEs (exemplos SUS): Ibuprofeno 600–800 mg VO 8/8h ou Naproxeno 500 mg VO 12/12h por 5–7 dias. Contraindicações: Doença renal crônica avançada (TFG < 30 mL/min), úlcera péptica ativa, sangramento, insuficiência cardíaca descompensada, uso de anticoagulantes orais; cautela em idosos.

      • Colchicina: 1,2 mg VO dose inicial, seguida de 0,6 mg VO após 1 hora (máximo 1,8 mg na crise). Manter 0,6 mg VO 12/12h por 2–3 dias conforme resposta. Ajuste em TFG < 30 mL/min: preferir 0,6 mg dose única e não repetir por 2 semanas. Interações críticas: macrolídeos, verapamil/diltiazem, estatinas (miotoxicidade), inibidores potentes de CYP3A4 ou glicoproteína-P. Efeitos adversos: diarreia, náusea, mielotoxicidade em superdose/DRC.

      • Glicocorticoide sistêmico (quando AINE/colchicina contraindicados): Prednisona 0,5 mg/kg/dia VO por 5–10 dias ou com desmame curto. Alternativa: Prednisolona 30–40 mg/dia por 5 dias. Intra-articular (após excluir séptica): Triancinolona 20–40 mg em joelho.

      • Contraindicações: Suspeita de artrite séptica, infecção sistêmica ativa sem cobertura, descompensação glicêmica importante.

    • Artrite séptica – medidas iniciais:
      • Drenagem: artrocenteses seriadas até claro; considerar artroscopia em grandes articulações.

      • Antibioticoterapia empírica EV após coleta do líquido (adaptar ao SUS e perfil local):

        • Sem fatores de risco para resistência: Cefazolina 2 g EV 8/8h (cobre S. aureus sensível e estreptococos).
        • Risco de MRSA (uso recente de antibiótico, colonização, prótese, hemodiálise): Vancomicina 15–20 mg/kg EV 12/12h (ajustar por TFG) + considerar Ceftriaxona 2 g EV 24/24h para cobertura de gram-negativos até cultura.

        • Idoso/imunossuprimido/infecção urinária ou GI associada: Ceftriaxona 2 g EV 24/24h +/- Vancomicina conforme risco para gram-positivos resistentes.

      • Duração: 2–4 semanas totais (iniciar EV e descalonar para VO conforme resposta e cultura).

      • Ajustes renais: Vancomicina e cefazolina requerem ajuste por TFG; ceftriaxona usualmente dispensa ajuste em DRC não dialítica.

      • Internação: Regra no SUS. Critérios: suspeita de artrite séptica, febre, toxemia, comorbidades graves, incapacidade de deambular, prótese articular, imunossupressão.

      Nota metodológica: Para artrite séptica do adulto, na ausência de guideline brasileiro específico detalhado, o esquema empírico acima segue consensos internacionais e prática adaptada ao SUS, devendo ser ajustado a protocolos locais de infectologia.


    Discussão das alternativas

    ✅ E) Gota ou artrite séptica.

    Alternativa correta. Monoartrite aguda, súbita, muito dolorosa, com calor e rubor tem como principais hipóteses gota e artrite séptica. Ambas exigem artrocentese imediata para confirmação (cristais vs infecção) e mudam a conduta (anti-inflamatórios vs antibiótico + drenagem).

    ❌ A) Artrite reumatoide ou lúpus eritematoso sistêmico.

    Alternativa incorreta. Artrite reumatoide cursa com poliartrite simétrica crônica de pequenas articulações; lúpus tem padrão oligo/poliartricular migratório com manifestações sistêmicas e sorologias. Não são causas típicas de monoartrite aguda súbita intensa.

    ❌ B) Osteoartrite primária ou fibromialgia.

    Alternativa incorreta. Osteoartrite é mecânica, insidiosa, com dor pior aos esforços e sem calor/rubor acentuados; fibromialgia é dor musculoesquelética difusa sem inflamação articular objetiva. Não justificam quadro inflamatório monoarticular agudo.

    ❌ C) Febre reumática ou espondilite anquilosante.

    Alternativa incorreta. Febre reumática cursa com poliartrite migratória em grandes articulações após faringite estreptocócica; espondilite anquilosante acomete predominantemente esqueleto axial e enteses, não causando monoartrite periférica aguda clássica.

    ❌ D) Dermatopolimiosite ou esclerose sistêmica.

    Alternativa incorreta. Miopatias inflamatórias e esclerodermia têm manifestações musculares, cutâneas e de microvasculatura/órgãos; artrite quando presente é leve e poliarticular. Não explicam monoartrite aguda intensa.

    Mensagem para levar para casa:

    • Monoartrite aguda com dor intensa + calor/rubor: pense primeiro em gota e artrite séptica.
    • Padrão-ouro: artrocentese com cristaloscopia, contagem celular e Gram/cultura antes de infiltrar corticoide.
    • Crise de gota: inicie cedo AINE, colchicina (1,2 mg + 0,6 mg) ou prednisona (0,5 mg/kg/dia) conforme contraindicações.
    • Suspeita de séptica: internação, drenagem e antibiótico EV precoce (ex.: Cefazolina 2 g 8/8h ou Vancomicina ± Ceftriaxona).
    • Red flag: Não infiltrar corticoide se não excluiu artrite séptica; atraso em antibiótico aumenta dano articular e mortalidade.
    • Lembre que gota e infecção podem coexistir; cultura negativa não descarta séptica se forte suspeita clínica.



    Questão 59 — Choque

    Um paciente masculino de 45 anos, recentemente internado num leito de UTI, tem diagnóstico sindrômico de choque. Foi submetido à passagem de cateter de Swan-Graz. As medidas realizadas evidenciam: pressão capilar pulmonar ocluída reduzida, débito cardíaco normal, pressão venosa central reduzida e resistência vascular sistêmica reduzida. Com base nesses achados, esse paciente apresenta que tipo de choque?

    • A)

      Obstrutivo

    • B)

      Distributivo

      ✓
    • C)

      Hipovolêmico

    • D)

      Cardiogênico

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: No choque distributivo (ex.: séptico), a marca hemodinâmica é RVS baixa com DC normal/alto e pressões de enchimento baixas ou normais (PVC/PCP).


    O que é: Choque é hipoperfusão tecidual com disfunção orgânica. O choque distributivo decorre de vasoplegia (perda do tônus arteriolar) e shunt microcirculatório, reduzindo a resistência vascular sistêmica (RVS).


    Por que importa: A distinção hemodinâmica define a terapia: vasopressor precoce no distributivo, reposição volêmica no hipovolêmico, reperfusão no obstrutivo e inotrópico/revascularização no cardiogênico.


    Como identificar (Swan-Ganz):

    • Distributivo: RVS ↓, DC normal/↑, PVC ↓/N, PCP ↓/N.
    • Hipovolêmico: RVS ↑, DC ↓, PVC ↓, PCP ↓.
    • Cardiogênico: RVS ↑, DC ↓, PVC ↑, PCP ↑.
    • Obstrutivo: RVS ↑, DC ↓, PVC ↑ (típico), PCP N/↑ (tromboembolismo)/↓ (tamponamento pode cursar com PCP falsamente baixa); discordância PVC>>PCP é pista.


    Conduta & Posologia

    • Reposição volêmica inicial (séptico/distributivo): Cristaloide 30 mL/kg em até 3 h, reavaliando responsividade (variabilidade de pressão de pulso, VTI, elevação passiva de pernas).

    • Vasopressor de 1ª linha: Norepinefrina 0,05–1,0 mcg/kg/min IV, titulando para PAM ≥ 65 mmHg. Sem ajuste renal/hepático. Monitorar arritmias e isquemia periférica.

    • Adjuvante se dose alta de noradrenalina: Vasopressina 0,03 U/min (fixo; não titular). Sem ajuste renal/hepático.

    • Alternativa/associação: Epinefrina 0,02–0,5 mcg/kg/min se choque refratário ou com disfunção miocárdica.

    • Corticosteroide em choque refratário: Hidrocortisona 200 mg/dia (50 mg IV 6/6 h ou infusão contínua) quando PAM < 65 apesar de volume adequado + vasopressor.

    • Alvos e monitorização: PAM ≥ 65 mmHg, diurese ≥ 0,5 mL/kg/h, redução do lactato em 6 h, saturação venosa central ≥ 70% quando disponível.

    • Contraindicações/alertas: Evitar amido de hidroxietil (HES) em sepse; dopamina associada a arritmias — reservar a bradicardia com baixo risco arrítmico.

    • Efeitos adversos relevantes: vasopressores: arritmias, isquemia digital/mesentérica; cristaloides: acidose hiperclorêmica (NaCl 0,9%); corticoide: hiperglicemia, delirium, fraqueza.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Choque = UTI imediatamente. Reavaliar a cada 15–30 min na fase inicial; ajuste de metas a cada 2–4 h.

    Armadilhas de prova:

    • Confundir DC normal com ausência de choque — no distributivo o DC pode estar normal/alto com hipoperfusão persistente.
    • Interpretar PCP baixa como hipovolemia sempre — no distributivo é pela vasoplegia; a RVS baixa é a pista decisiva.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Distributivo

    Alternativa correta. O padrão descrito — RVS reduzida, DC normal, PVC reduzida, PCP reduzida — é típico de choque distributivo (ex.: séptico inicial). A vasoplegia reduz a pós-carga e as pressões de enchimento aparentes.

    ❌ A) Obstrutivo

    Alternativa incorreta. Choque obstrutivo (TEP maciço, tamponamento) cursa com DC baixo, PVC alta, RVS geralmente elevada. Aqui a PVC está baixa e a RVS reduzida.

    ❌ C) Hipovolêmico

    Alternativa incorreta. No hipovolêmico, PCP e PVC estão baixas, porém a RVS sobe compensatoriamente e o DC cai. No caso, a RVS está reduzida e o DC normal.

    ❌ D) Cardiogênico

    Alternativa incorreta. O cardiogênico cursa com DC baixo e pressões de enchimento elevadas (PCP/PVC ↑), além de RVS alta. O perfil apresentado é o oposto.


    Take-home message

    • Choque distributivo: RVS ↓, DC normal/↑, PCP ↓/N, PVC ↓/N — pense em sepse.
    • Hipovolêmico: RVS ↑, DC ↓, PCP ↓, PVC ↓; Cardiogênico: RVS ↑, DC ↓, PCP/PVC ↑; Obstrutivo: RVS ↑, DC ↓, PVC ↑.
    • Na sepse, inicie cristaloide 30 mL/kg e titule norepinefrina para PAM ≥ 65 mmHg.
    • Evite amido de hidroxietil em sepse; use vasopressina 0,03 U/min como adjuvante se refratário.
    • Alvos precoces: PAM ≥ 65, diurese ≥ 0,5 mL/kg/h, queda de lactato em 6 h.

    Questão 60 — Diabetes

    Uma paciente de 55 anos de idade, com história de Diabetes mellitus e hipertensão de longa data, apresenta edema em membros inferiores e proteinúria superior a 3,5g/dia. A biópsia renal mostra espessamento difuso da membrana basal glomerular. Nesse caso, o diagnóstico MAIS provável é:

    • A)

      Nefropatia diabética.

      ✓
    • B)

      Glomerulonefrite membranosa.

    • C)

      Doença de lesões mínimas.

    • D)

      Amiloidose renal.

    Gabarito: A.

    Nesta questão, estamos analisando o caso de uma paciente de 55 anos com diagnóstico prévio de diabetes mellitus e hipertensão arterial, que agora apresenta edema em membros inferiores e perda significativa de proteína pela urina, superior a 3,5g/dia. Além disso, a biópsia renal revela um espessamento difuso da membrana basal glomerular. Vamos explorar a fisiopatologia e as características de cada uma das alternativas para melhor entender o diagnóstico provável.


    Para começarmos, é essencial entender que a apresentação clínica desta paciente indica síndrome nefrótica, caracterizada por:

    • 1)Proteinúria > 3,5g/dia
    • 2)Hipoalbuminemia
    • 3)Edema
    • 4)Hiperlipidemia


    Análise alternativas: 

    • A) Nefropatia diabética: Esta é uma complicação microvascular clássica do diabetes mellitus. A nefropatia diabética se desenvolve como resultado da hiperglicemia crônica, levando ao espessamento da membrana basal glomerular e ao aumento da matriz mesangial, o que diminui a área de filtração e aumenta a permeabilidade à albumina. A presença de níveis elevados de proteinúria, como visto aqui, juntamente com a história de diabetes de longa data, favorece esse diagnóstico. Além disso, a hipertensão é um fator de risco adicional que contribui para a progressão da doença renal diabética. No contexto da biópsia renal mostrando espessamento difuso da membrana basal, essa alternativa é a mais provável.
    • B) Glomerulonefrite membranosa: Caracteriza-se por espessamento da membrana basal glomerular sem aumento significativo no número de células dentro do glomérulo. É a principal causa de síndrome nefrótica em adultos sem diabetes, mas menos provável aqui devido à história pregressa de diabetes e hipertensão. Portanto, nesta paciente, esta não seria a primeira escolha diagnóstica.
    • C) Doença de lesões mínimas: Também conhecida como nefropatia de mudanças mínimas, é a causa mais comum de síndrome nefrótica em crianças, embora possa ocorrer em adultos. Ela se caracteriza pela perda maciça de proteína na urina mas, tipicamente, não apresenta alterações significativas visíveis na biópsia renal sob microscopia ótica, o que não corresponde ao espessamento difuso observado no caso da paciente.
    • D) Amiloidose renal: Está associada à deposição anormal de proteínas amiloides nos tecidos e pode causar síndrome nefrótica. A biópsia renal mostraria depósito de amiloide, e o espessamento observado é fixado, ao contrário do padrão geralmente difuso e fazer parte das manifestações sistêmicas, como hepatomegalia ou envolvimento cardíaco. Considerando o espessamento difuso observado e a história clínica fornecida, amiloidose renal é menos provável.


    Conclusão: Dado o contexto de diabetes mellitus de longa data, o espessamento difuso da membrana basal glomerular e a síndrome nefrótica, o diagnóstico MAIS provável para esta paciente é nefropatia diabética. Este caso ilustra a importância de identificar as complicações renais associadas ao diabetes e de estar ciente dos mecanismos patofisiológicos subjacentes que levam a essas apresentações clínicas.


    Take-home message: Lembrem-se sempre de considerar a história clínica do paciente e os achados patológicos em seu conjunto. No caso de uma paciente diabética com síndrome nefrótica e espessamento da membrana basal, a nefropatia diabética deve ser uma consideração primária. Utilizar a combinação de história clínica, achados laboratoriais e histopatológicos é crucial para alcançar um diagnóstico preciso.

    Questão 61 — GLOMERULOPATIAS - Síndrome Nefrítica

    Criança de 6 anos apresenta edema facial, hematúria e hipertensão arterial após infecção de vias aéreas superiores. Exames: complemento C3 baixo. Qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Síndrome nefrótica idiopática.

    • B)

      Glomerulonefrite pós-estreptocócica.

      ✓
    • C)

      Púrpura de Henoch-Schönlein.

    • D)

      Nefropatia por IgA.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Criança com síndrome nefrítica aguda (edema, hematúria, hipertensão) + complemento C3 baixo após IVAS = glomerulonefrite pós-estreptocócica.

    Epidemiologia e Etiologia

    • Contexto Brasil: Glomerulonefrite aguda pós-estreptocócica (GNPE) é a glomerulonefrite aguda mais comum em idade escolar (5–12 anos), frequentemente após faringite por Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A) 1–3 semanas antes.
    • Fisiopatologia (por que importa): Doença por imunocomplexos com consumo do complemento via alternativa, cursando com C3 baixo e C4 normal na fase aguda; inflamação glomerular gera hematúria e retenção hidrossalina (edema/hipertensão).

    Diagnóstico

    • Quadro clínico típico: Início súbito de hematúria (urina "coca-cola"), edema (periorbitário matinal), hipertensão arterial; pode haver oligúria e congestão.
    • Exames-chave:
      • Urina 1: hematúria dismórfica, cilindros hemáticos, proteinúria geralmente subnefrótica.
      • Complemento: C3 baixo (característico); padrão é normalizar em até 6–8 semanas. Se C3 permanecer baixo > 8 semanas, investigar outras glomerulopatias (ex.: glomerulonefrite membranoproliferativa).
      • Marcadores estreptocócicos: antiestreptolisina O e/ou anti-DNase B elevados (evidenciam infecção prévia; não são obrigatórios se clínica típica).
      • Função renal e eletrólitos: ureia/creatinina, potássio para avaliar gravidade.
    • Biópsia renal: não é rotina. Indicada se: hipocomplementemia persistente, síndrome nefrótica persistente, oligúria > 72h, insuficiência renal rapidamente progressiva ou dúvida diagnóstica.

    • Diagnóstico diferencial (X vs Y):
      • GNPE vs Nefropatia por IgA: GNPE ocorre 1–3 semanas pós-faringite com C3 baixo; IgA ocorre sinfaríngea (≤48h do quadro de vias aéreas) e C3 normal.
      • GNPE vs Púrpura de Henoch-Schönlein (Vasculite IgA): PHS tem púrpura palpável, dor abdominal, artralgia; complemento tipicamente normal.
      • GNPE vs Síndrome nefrótica idiopática: SN tem proteinúria nefrótica e hipoalbuminemia sem hematúria marcante; complemento normal.

    Conduta & Posologia

    • Medidas gerais: Repouso relativo na fase congestiva, dieta hipossódica, restrição hídrica conforme balanço (ingestão ≈ diurese das 24h anteriores + perdas insensíveis ~300–500 mL).
    • Diurético de alça (edema/hipertensão por sobrecarga): Furosemida 1–2 mg/kg/dose VO ou IV, repetir a cada 8–12 h conforme resposta (máximo usual pediátrico 6 mg/kg/dia). Monitorar Na/K/creatinina e peso diário.
    • Antihipertensivo de ação rápida (se PA ≥ p95 persistente/sintomática): Nifedipino cápsula mordida/VO 0,25–0,5 mg/kg/dose (máx. 10 mg/dose), pode repetir em 30–60 min; alternativa: Hidralazina IV 0,1–0,2 mg/kg/dose lento, repetir conforme PA.
    • Antibiótico (se infecção estreptocócica ativa ou para erradicação quando indicada):
      • Penicilina benzatina IM, dose única: 600.000 UI se < 27 kg; 1.200.000 UI se ≥ 27 kg.
      • Alternativa VO (10 dias): Fenoximetilpenicilina 25–50 mg/kg/dia dividida 12/12 h; ou Amoxicilina 50 mg/kg/dia dividida 8/8–12/12 h.
      • Alergia à penicilina: Azitromicina 12 mg/kg/dia VO por 5 dias (máx. 500 mg/dia).
    • Evitar na fase aguda: Inibidores da enzima conversora de angiotensina/bloqueadores do receptor de angiotensina se houver oligúria, hipercalemia ou elevação de creatinina.

    • Critérios de internação: Encefalopatia hipertensiva, convulsão, PA estágio 2 refratária, oligúria (<0,5 mL/kg/h) por >12–24 h, hipercalemia (>5,5 mEq/L), creatinina em ascensão, edema agudo de pulmão, necessidade de antihipertensivo IV.
    • Tempo de reavaliação/monitorização: PA e diurese diários; eletrólitos e função renal a cada 24–48 h na fase aguda. C3 deve normalizar até 6–8 semanas; proteinúria e hematúria tendem a resolver em semanas–meses.
    • Ajustes em doença renal crônica: Preferir anti-hipertensivos de curta ação; titular furosemida pela resposta clínica. Evitar nefrotóxicos (anti-inflamatórios não esteroides).
    • Efeitos adversos relevantes: Furosemida (hipocalemia, hiponatremia), nifedipino (rubor, taquicardia), hidralazina (cefaleia, taquicardia), penicilinas (hipersensibilidade).

    Mini-exemplo: Criança 6 anos com PA 130/85 mmHg (≥ p95 para a idade/estatura), edema periorbitário e hematúria + C3 baixo: iniciar restrição de sal/água, furosemida 1 mg/kg, se PA mantida elevada, nifedipino 0,3 mg/kg.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Glomerulonefrite pós-estreptocócica.

    Alternativa correta. Síndrome nefrítica aguda após IVAS com C3 baixo é clássico da GNPE. Espera-se normalização do C3 em 6–8 semanas; manejo é de suporte (restrição sal/água, diurético, controle pressórico) e antibiótico se infecção ativa.

    ❌ A) Síndrome nefrótica idiopática.

    Alternativa incorreta. Na síndrome nefrótica há proteinúria nefrótica, hipoalbuminemia e edema generalizado, geralmente sem hematúria macroscópica e sem C3 baixo. O quadro aqui é nefrítico.

    ❌ C) Púrpura de Henoch-Schönlein.

    Alternativa incorreta. A vasculite IgA cursa com púrpura palpável, dor abdominal e artralgia; complemento costuma ser normal. O enunciado não descreve púrpura, e há C3 baixo, favorecendo GNPE.

    ❌ D) Nefropatia por IgA.

    Alternativa incorreta. Nefropatia por IgA dá hematúria sinfaríngea (até 48 h do quadro respiratório) e C3 normal. Aqui houve intervalo pós-estreptocócico típico e C3 baixo.


    Take-home message

    • Síndrome nefrítica aguda + C3 baixo pós-faringite em criança = diagnóstico clínico de GNPE.
    • C3 deve normalizar em 6–8 semanas; persistência sugere outra glomerulopatia.
    • Controle de congestão/PA: furosemida 1–2 mg/kg/dose e, se necessário, nifedipino 0,25–0,5 mg/kg/dose.
    • Red flag: hipertensão grave, oligúria ou hipercalemia = internação imediata.
    • Antibiótico se infecção ativa/erradicação: penicilina benzatina dose única (600.000–1.200.000 UI IM pelo peso).
    • Armadilha: confundir GNPE com IgA — na IgA o C3 é normal e a hematúria é sinfaríngea.

    Questão 62 — Vulvovaginites

    Qual das alternativas abaixo NÃO corresponde a sinal ou sintoma frequentes em casos de candidíase vulvovaginal?

    • A)

      Prurido vulvar.

    • B)

      Ardência vaginal.

    • C)

      Odor fétido.

      ✓
    • D)

      Corrimento claro de aspecto grumoso.

    • E)

      Disúria ao final do jato miccional.

    Gabarito: C.

    Questão sobre candidíase vulvovaginal, uma infecção comum e incômoda causada pelo fungo Candida albicans, responsável por cerca de 90% dos casos. Ela se caracteriza por sinais e sintomas bem específicos em mulheres, embora possa ter manifestações atípicas.

    A candidíase vulvovaginal normalmente apresenta os seguintes sintomas:


    • Prurido vulvar: Coceira intensa na região vulvar é um dos sintomas mais característicos e incômodos. Está associada à irritação da pele e das mucosas.
    • Ardência vaginal: Queimação ou ardor vaginais são queixas frequentes, principalmente durante a relação sexual ou ao urinar.
    • Corrimento de aspecto grumoso: O corrimento típico é de uma cor clara ou esbranquiçada, com aspecto semelhante a leite coalhado ou queijo cottage, sem odor desagradável.
    • Disúria ao final do jato miccional: Pode ocorrer devido à irritação da mucosa vulvovaginal, embora não seja um sintoma muito específico apenas para candidíase.

    Nota-se que o odor fétido não é uma característica comum da candidíase. Odor vaginal desagradável é mais frequentemente associado a outras condições, como a vaginose bacteriana, onde há um desequilíbrio na flora vaginal e predominância de bactérias anaeróbicas, levando a um odor semelhante a peixe.

    Fisiopatologia: A candidíase acontece quando há um desequilíbrio na microbiota vaginal, permitindo o crescimento excessivo de fungos do gênero Candida, frequentemente relacionados a fatores como imunossupressão, uso de antibióticos, diabetes mal controlado ou alterações hormonais.

    Abordagem Diagnóstica: O diagnóstico, muitas vezes clínico, pode ser confirmado por exame microscópico do conteúdo vaginal, que revelará hifas ou esporos de Candida.

    Tratamento: Inclui o uso de antifúngicos tópicos, como clotrimazol ou miconazol, ou tratamento sistêmico com fluconazol em dose única.


    Analisando as alternativas:

    • A) Correta - Prurido vulvar é uma característica frequente na candidíase.
    • B) Correta - Ardência vaginal também é um sintoma comum.
    • C) Incorreta - Odor fétido raramente está presente na candidíase, sendo mais típico de vaginose bacteriana.
    • D) Correta - Corrimento claro e grumoso é um achado característico da candidíase.
    • E) Correta - Disúria ao final do jato pode ocorrer, mas não é um dos sintomas mais típicos como prurido ou corrimento.


    Take-home message: A candidíase vulvovaginal é caracterizada majoritariamente por prurido vulvar, ardência vaginal e um corrimento esbranquiçado e grumoso. Qualquer presença de odor fétido deve fazer pensar em outras causas, como vaginose bacteriana. Tenham sempre em mente essas diferenças, pois ajudam a fazer um diagnóstico diferencial adequado em prática clínica.

    Questão 63 — Doenças exantemáticas

    Ana, uma menina de 3 anos, foi levada ao hospital por sua mãe após apresentar febre alta (39,5°C) por três dias, acompanhada de tosse, coriza e conjuntivite. A mãe relata que Ana não estava com o calendário de vacinação em dia. Ao exame físico, a criança estava letárgica, com pequenas manchas brancas com um halo avermelhado, localizadas na mucosa bucal e um exantema maculopapular que surgiu no quarto dia de febre, começando na face e se espalhando para o tronco e membros. Os sinais vitais mostravam taquicardia e taquipneia, e a ausculta pulmonar revelou estertores e sibilos. Ana evoluiu com óbito no oitavo dia de internamento. Diante desse quadro clínico, qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Exantema Súbito

    • B)

      Eritema Infeccioso

    • C)

      Síndrome da Pele Escaldada Estafilocócica

    • D)

      Sarampo

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Sarampo é diagnóstico clínico-epidemiológico. Tríade de tosse, coriza, conjuntivite + manchas de Koplik + exantema morbiliforme craniocaudal em criança não vacinada é padrão-ouro na prova. Complicações respiratórias e neurológicas elevam mortalidade.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Agente: Vírus do sarampo (gênero Morbillivirus). Altamente contagioso por aerossóis.
    • Cenário brasileiro: Ciclos de reintrodução em bolsões de não vacinados. Notificação imediata (até 24 h) e investigação compulsória.
    • Fatores de risco para gravidade: idade < 5 anos (especial < 1 ano), desnutrição, gestantes, imunodeficiência, ausência de vacinação, deficiência de vitamina A.

    Diagnóstico

    • Definição clínica: Febre e exantema maculopapular acompanhado de pelo menos um: tosse, coriza ou conjuntivite; manchas de Koplik (enantema branco-azulado em mucosa jugal com halo eritematoso) são patognomônicas quando presentes.
    • Evolução típica: pródromos (2–4 dias) com febre alta, tosse, coriza, conjuntivite; surgem manchas de Koplik; depois, exantema morbiliforme inicia na face e progride craniocaudal, com confluência e descamação furfurácea.
    • Diagnóstico laboratorial: sorologia (IgM) e RT-PCR para vigilância/confirmatório. Conduta clínica não deve aguardar resultado quando quadro é típico.
    • Complicações: pneumonia (principal causa de óbito), otite média aguda, laringotraqueobronquite, encefalite aguda e pós-infecciosa.


    Imagem: Manchas de Koplik (seta), sarampo.

    PubMed, 2025.


    Conduta & Posologia 

    • Isolamento e notificação: Precaução por gotículas e aerossóis até 4 dias após início do exantema (imunodeprimidos: por todo o curso). Notificação imediata ao SINAN e bloqueio vacinal de contatos em até 72 h.
    • Vitamina A (reduz mortalidade e complicações):
      • < 6 meses: 50.000 UI VO no dia 1 e 50.000 UI VO no dia 2.
      • 6–11 meses: 100.000 UI VO no dia 1 e 100.000 UI VO no dia 2.
      • ≥ 12 meses: 200.000 UI VO no dia 1 e 200.000 UI VO no dia 2.
      • Repetir 3ª dose após 2–4 semanas se desnutrição moderada/grave ou sinais oculares de deficiência.
    • Antitérmicos/analgesia: Paracetamol 10–15 mg/kg/dose VO a cada 4–6 h (máx. 60 mg/kg/dia) ou Dipirona 10–15 mg/kg/dose VO/IV a cada 6–8 h. Evitar ácido acetilsalicílico (risco de síndrome de Reye).
    • Hidratação e suporte: Ofertar líquidos, alimentação apropriada, higiene ocular, controle de prurido. Oxigenoterapia se SpO2 < 92%.
    • Antibiótico: Somente se suspeita de infecção bacteriana associada (ex.: pneumonia, otite média). Esquema conforme diretriz de pneumonia/otite na faixa etária (ex.: Amoxicilina em dose pediátrica adequada).
    • Pós-exposição para contatos de risco: Imunoglobulina humana intramuscular 0,5 mL/kg (máx. 15 mL) IM até 6 dias após exposição para lactentes < 6 meses, gestantes e imunodeprimidos.
    • Contraindicações relevantes: Ácido acetilsalicílico em crianças; cautela com hipervitaminose A/ doença hepática grave na reposição de vitamina A.
    • Efeitos adversos relevantes: Vitamina A pode causar náuseas, vômitos, fontanela abaulada em lactentes (geralmente transitórios).
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
      • Internar se: idade < 1 ano, desnutrição, desidratação, hipoxemia (SpO2 < 92%), pneumonia/laringotraqueíte grave, alteração neurológica, doença de base, intolerância à via oral, contexto social desfavorável.
      • UTI se: insuficiência respiratória, choque séptico, encefalite, rebaixamento da consciência, convulsões persistentes.
      • Reavaliação ambulatorial em 24–48 h se manejo domiciliar.

    Discussão das alternativas

    ✅ D) Sarampo

    Alternativa correta. Quadro clássico: criança não vacinada, pródromos com febre alta, tosse, coriza e conjuntivite; manchas de Koplik na mucosa jugal; exantema maculopapular morbiliforme que inicia na face e se espalha craniocaudal. Complicações respiratórias (estertores/sibilos) e evolução grave com óbito reforçam a hipótese. É diagnóstico clínico-epidemiológico prioritário e de notificação imediata.

    ❌ A) Exantema Súbito

    Alternativa incorreta. Exantema súbito (Herpesvírus 6/7) cursa com febre alta por 3–4 dias que cede abruptamente antes do exantema, que então surge com a criança em bom estado geral; não há conjuntivite marcada nem manchas de Koplik. Aqui, o exantema iniciou no pico febril com catarro oculonasal.

    ❌ B) Eritema Infeccioso

    Alternativa incorreta. Parvovírus B19: exantema em “face esbofeteada” e padrão rendilhado em membros; febre baixa/ausente e bom estado geral. Tosse/coriza/conjuntivite intensas e Koplik não fazem parte do quadro típico.

    ❌ C) Síndrome da Pele Escaldada Estafilocócica

    Alternativa incorreta. Doença toxigênica por Staphylococcus aureus com eritema doloroso difuso, clivagem superficial, bolhas e sinal de Nikolsky positivo, sem enantema de Koplik, e sem pródromos catarrais típicos do sarampo. O início clássico é cutâneo doloroso, não morbiliforme craniocaudal.


    Take-home message

    • Sarampo: febre + tosse/coriza/conjuntivite, manchas de Koplik e exantema morbiliforme craniocaudal são diagnósticos.
    • Tratamento de primeira linha: suporte + vitamina A (≥12 m: 200.000 UI VO no dia 1 e 2).
    • Notificação imediata e bloqueio vacinal até 72 h; imunoglobulina IM (0,5 mL/kg) até 6 dias em grupos de risco.
    • Red flag: NÃO usar ácido acetilsalicílico em crianças (síndrome de Reye).
    • Internar se hipoxemia, pneumonia, desnutrição, alteração neurológica, <1 ano ou incapacidade de suporte domiciliar.
    • Antibiótico só se infecção bacteriana associada (otite/pneumonia).

    Questão 64 — Doenças exantemáticas

    Laura, um lactente de dois anos é levada ao consultório por história de febre alta (39 ℃) nos últimos 3 dias e hoje iniciou erupção maculopapular disseminada por todo o corpo, mas ainda não teve febre. Ao exame físico encontra-se em bom estado geral, sem outros achados além da erupção. O diagnóstico mais provável para este quadro é:

    • A)

      Rubéola

    • B)

      Eritema infeccioso

    • C)

      Infecção pelo coxsackie A.

    • D)

      Exantema súbito.

      ✓
    • E)

      Escarlatina.

    Gabarito: D.

    Revisão do tema

    Epidemiologia e Etiologia

    Âncora de memorização: Lactente com febre alta por 3–5 dias que some de forma abrupta e, em seguida, surge exantema: pense em exantema súbito.

    • Agente: Herpesvírus humano 6 (HHV-6) e 7; transmissão respiratória.
    • Faixa etária: Predomina entre 6 e 24 meses; pode ocorrer até 3 anos.
    • Curso típico no Brasil: Quadro autolimitado, sazonalidade variável, alta prevalência em creches.

    Diagnóstico

    O que é e por que importa: Exantema súbito (roséola infantil) é causa frequente de febre alta em lactentes e importante diagnóstico diferencial de rubéola, eritema infeccioso, doença mão-pé-boca e escarlatina. Evita-se antibioticoterapia desnecessária.

    • Critério clínico clássico: Febre alta por 3–5 dias, seguida de defervescência abrupta e aparecimento de exantema maculopapular róseo, início em tronco e pescoço, com rápida disseminação para face e membros, sem prurido intenso, com bom estado geral.
    • Enantema possível: Pápulas eritematosas em palato mole/úvula (manchas de Nagayama).
    • Complicação associada à febre alta: Convulsão febril.
    • Exames: Diagnóstico é clínico; sorologias/biologia molecular raramente indicadas em imunocompetentes.
    • Mini-exemplo clínico: Lactente de 1 ano, febre 39,5 ºC por 4 dias, no dia em que a febre cessa surge exantema em tronco: exantema súbito.

    Armadilhas de prova

    • “Exantema com febre” vs “exantema após febre”: Em rubéola, o exantema ocorre com febre baixa e linfonodos; na roséola, o exantema surge depois que a febre some.
    • Tipo de lesão: Mão-pé-boca tem vesículas em mucosa oral, mãos e pés; roséola é maculopapular difuso.
    • Textura: Escarlatina é micropapular áspera com linhas de Pastia e faringite estreptocócica.

    Conduta & Posologia

    • Suporte clínico: Hidratação, conforto, orientar curso autolimitado (exantema dura 1–3 dias).
    • Antitérmicos (SUS):
      - Paracetamol: 10–15 mg/kg VO a cada 4–6 h (máx. 60 mg/kg/dia ou 3 g/dia). Ajustar/evitar em hepatopatia grave.
      - Dipirona: 10–15 mg/kg VO/IV a cada 6–8 h (máx. 4 g/dia no total). Evitar em hipersensibilidade, porfiria aguda intermitente, agranulocitose prévia.
      - Ibuprofeno (>6 meses): 5–10 mg/kg VO a cada 6–8 h. Evitar em desidratação importante, insuficiência renal, sangramento gastrointestinal.
    • O que não usar: Ácido acetilsalicílico é contraindicado em crianças por risco de síndrome de Reye.
    • Antibiótico/antiviral: Não indicados na roséola não complicada.
    • Critérios de internação/UPA: Toxemia, letargia persistente, desidratação grave, convulsão prolongada/status, sinais meníngeos, dificuldade respiratória, imunossupressão, idade <3 meses com febre, suspeita de sepse; falha de controle de sintomas no domicílio.
    • Reavaliação: Ambulatorial em 24–48 h se febre persiste após 24 h do início do exantema, ou antes se sinais de alarme.


    Discussão das alternativas

    ✅ D) Exantema súbito.

    Alternativa correta. Quadro típico: febre alta por 3 dias, boa aparência, e exantema maculopapular surge após a defervescência, começando em tronco. Padrão clássico da roséola (HHV-6/7); manejo é suporte.

    ❌ A) Rubéola

    Alternativa incorreta. Na rubéola, o exantema inicia na face e dura cerca de 3 dias, com febre baixa, prodrômicos leves e linfadenomegalia retroauricular/occipital; o exantema não aparece tipicamente após a febre cessar. Enantema de Forchheimer pode ocorrer.

    ❌ B) Eritema infeccioso

    Alternativa incorreta. Parvovírus B19 cursa com “face esbofeteada” e exantema reticulado em rendilhado em tronco e membros, geralmente com febre baixa ou ausente. Não há relação típica com defervescência seguida de exantema difuso tronco-início.

    ❌ C) Infecção pelo coxsackie A.

    Alternativa incorreta. Doença mão-pé-boca/herpangina apresentam vesículas/úlceras dolorosas em orofaringe e lesões vesiculosas em mãos e pés, não exantema maculopapular difuso pós-defervescência.

    ❌ E) Escarlatina.

    Alternativa incorreta. Exantema micropapular áspero (“lixa”), linhas de Pastia, faringite estreptocócica e língua em framboesa, com febre e toxemia variáveis; exige antibiótico (penicilina). O caso descrito não tem faringite nem textura típica.


    Take-home message

    • Exantema súbito: febre alta por 3–5 dias que cessa abruptamente e então surge exantema maculopapular iniciando em tronco.
    • Diagnóstico é clínico; curso autolimitado em 1–3 dias após início do exantema.
    • Suporte: Paracetamol 10–15 mg/kg VO 4–6/6 h ou Ibuprofeno 5–10 mg/kg VO 6–8/8 h se >6 meses; hidratação.
    • Red flag: toxicidade, desidratação grave, convulsão prolongada, sinais meníngeos → encaminhar/internar.
    • Diferencie: rubéola (face + linfonodos), parvovírus B19 (“face esbofeteada”), mão-pé-boca (vesículas), escarlatina (lixa + faringite estreptocócica).
    • Pulo do gato: na roséola o exantema aparece quando a febre some.


    Fontes: Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde – Doenças Exantemáticas (Rubéola, Sarampo, etc.). (2023). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z. Acesso em: 06/05/2026. | Sociedade Brasileira de Pediatria. Doenças exantemáticas na infância – guia prático. (2021). Disponível em: https://www.sbp.com.br. Acesso em: 06/05/2026.



    Questão 65 — Pneumonia adquirida na comunidade (PAC)

    Dentre as alternativas a seguir, qual apresenta o agente infeccioso bacteriano mais comum na pneumonia adquirida na comunidade?
    • A) Streptococcus pneumoniae. ✓
    • B) Mycoplasma pneumoniae.
    • C) Streptococcus aureus.
    • D) Chlamydia pneumoniae.
    • E) Pseudomonas aeruginosa.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de prova: Na pneumonia adquirida na comunidade em adultos imunocompetentes, o agente bacteriano mais frequente é o Streptococcus pneumoniae. Saber isso orienta o antibiótico empírico inicial.


    Epidemiologia e Etiologia


    Cenário brasileiro: Em adultos, Streptococcus pneumoniae é o principal agente bacteriano da pneumonia adquirida na comunidade, seguido por patógenos “atípicos” (como Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae) e, menos frequentemente, Staphylococcus aureus. Pseudomonas aeruginosa é incomum fora de fatores de risco específicos.


    Por que importa: Define o alvo do esquema empírico de primeira linha (beta-lactâmico com atividade pneumocócica, com ou sem cobertura para atípicos conforme gravidade/comorbidades).


    Fatores de risco para Pseudomonas aeruginosa: bronquiectasias, uso recente de antibiótico de amplo espectro (<90 dias), DPOC grave com múltiplas exacerbações, cultura prévia positiva, internação recente.


    Diagnóstico


    Definição operacional: Quadro clínico respiratório (tosse, febre, dispneia, taquipneia, dor pleurítica) + infiltrado novo à radiografia de tórax em paciente de comunidade.


    Critérios de gravidade (triagem inicial): CURB-65 (confusão, ureia > 50 mg/dL, frequência respiratória ≥ 30 irpm, PAS < 90 mmHg e/ou PAD ≤ 60 mmHg, idade ≥ 65 anos). Internar se escore ≥ 2. PSI pode ser usado para complementar.


    Critérios maiores de UTI: necessidade de ventilação mecânica ou choque séptico; menores (exemplos): PaO2/FiO2 < 250, infiltrado multilobar, hipotensão que requer reposição agressiva, confusão, ureia elevada.


    Exames complementares: hemograma, oximetria/ gasometria conforme necessidade; hemoculturas e escarro em casos moderados/graves ou internação; antígeno urinário pneumocócico pode auxiliar em casos selecionados.


    Mini-exemplo: Adulto 40 anos, febre, tosse produtiva, estertores, Rx com consolidação lobar → PAC típica; cobertura para pneumococo é mandatória.


    Conduta & Posologia


    Ambulatorial sem comorbidades/baixo risco: alvo principal é S. pneumoniae.

    • Amoxicilina 1 g VO 8/8h por 5–7 dias.

    • Alternativas: Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h 5–7 dias; Doxiciclina 100 mg VO 12/12h 5–7 dias; Azitromicina 500 mg VO 1x/dia por 3–5 dias (melhor quando suspeita de atípico).


    Ambulatorial com comorbidades (DPOC, DM, cardiopatia, etilismo) ou uso recente de antibiótico:

    • Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12h + Azitromicina 500 mg VO 1x/dia por 5–7 dias; ou

    • Cefuroxima 500 mg VO 12/12h + azitromicina; ou

    • Levofloxacino 750 mg VO 1x/dia por 5 dias (quando beta-lactâmico/macrolídeo não são viáveis).


    Internação enfermaria (sem UTI): Ceftriaxona 1–2 g EV 1x/dia + Azitromicina 500 mg EV 1x/dia.


    UTI ou gravidade elevada:

    • Ceftriaxona 2 g EV 1x/dia + Azitromicina 500 mg EV 1x/dia ou fluoroquinolona respiratória EV.

    • Se risco de Pseudomonas: Piperacilina-tazobactam 4,5 g EV 6/6h ou Cefepime 2 g EV 8–12/12h + macrolídeo/quinolona.

    • Se risco de Staphylococcus aureus resistente (pós-influenza, necrose cavitária): adicionar Vancomicina 15–20 mg/kg EV 12/12h (ajustar por nível) ou Linezolida 600 mg EV/VO 12/12h.


    Ajustes e precauções:

    • Insuficiência renal: reduzir dose/intervalo de amoxicilina, piperacilina-tazobactam e levofloxacino quando ClCr < 30 mL/min. Ceftriaxona usualmente não requer ajuste renal.

    • Gestação: evitar doxiciclina e quinolonas. Preferir beta-lactâmicos ± azitromicina.

    • Efeitos adversos relevantes: macrolídeos e quinolonas prolongam QT; quinolonas: tendinopatia, disglucemias, interação com varfarina; ceftriaxona: colestase/lama biliar; amoxicilina-clavulanato: diarreia/colestase.

    • Red flag: Evitar monoterapia com macrolídeo em cenário de alta resistência pneumocócica/gravidade.


    Critérios práticos de internação vs ambulatorial: Internar se CURB-65 ≥ 2, SatO2 < 90% em ar ambiente, frequência respiratória ≥ 30 irpm, hipotensão (PAS < 90 mmHg ou PAD ≤ 60 mmHg), comorbidade descompensada, incapacidade de VO/aderência ou falha terapêutica. UTI se ventilação mecânica ou choque séptico.


    Reavaliação: 48–72 h para resposta clínica; ampliar investigação/ajustar antibiótico se piora ou ausência de melhora.


    Discussão das alternativas


    ✅ A) Streptococcus pneumoniae.

    Alternativa correta. É o agente bacteriano mais comum da pneumonia adquirida na comunidade em adultos no Brasil. Por isso, os esquemas empíricos de primeira linha incluem beta-lactâmicos com boa atividade pneumocócica (ex.: Amoxicilina 1 g VO 8/8h em ambulatório; Ceftriaxona 1–2 g EV/dia em internação).


    ❌ B) Mycoplasma pneumoniae.

    Alternativa incorreta. Embora frequente em adultos jovens e quadros subagudos/atípicos, Mycoplasma não supera o pneumococo como causa global. Cobertura para atípicos é agregada conforme perfil clínico/gravidade (ex.: azitromicina), mas o alvo principal continua sendo S. pneumoniae.


    ❌ C) Streptococcus aureus.

    Alternativa incorreta. Staphylococcus aureus é menos comum na comunidade e costuma associar-se a pneumonia pós-influenza, hipoxemia grave e achados de necrose/cavitação. Nesses cenários, adicionar cobertura antiestafilocócica (vancomicina/linezolida) é apropriado, mas não é o agente mais prevalente.


    ❌ D) Chlamydia pneumoniae.

    Alternativa incorreta. Agente “atípico” com apresentações mais brandas e progressivas, porém com menor prevalência que o pneumococo como causa de PAC em adultos.


    ❌ E) Pseudomonas aeruginosa.

    Alternativa incorreta. Rara na comunidade geral; pensar apenas com fatores de risco específicos (bronquiectasias, DPOC grave, antibiótico recente, internação prévia). Nesses casos, ajustar esquema para gram-negativos não fermentadores (ex.: piperacilina-tazobactam).


    Take-home message

    • O agente bacteriano mais comum na PAC do adulto é o Streptococcus pneumoniae.
    • Esquema ambulatorial de 1ª linha: Amoxicilina 1 g VO 8/8h por 5–7 dias; considerar atípicos com azitromicina conforme quadro.
    • Internação/enfermaria: Ceftriaxona 1–2 g EV/dia + Azitromicina 500 mg/dia.
    • Red flag: não negligencie risco de Pseudomonas (bronquiectasias, antibiótico recente); ajuste o esquema.
    • Critérios de gravidade: CURB-65 ≥ 2 → internar; UTI se ventilação mecânica ou choque séptico.
    • Reavaliação objetiva em 48–72 h; ausência de melhora exige reestratificação e possível troca de antibiótico.

    Questão 66 — Rinite alérgica

    Adolescente de 17 anos de idade, sexo masculino, comparece ao ambulatório com queixas de coriza hialina e congestão nasal, de natureza contínua, que prejudicam o sono, afetando seu desempenho escolar. Nega outros sinais e sintomas. Para ser caracterizado esse quadro como rinite alérgica, também deverá estar presente:

    • A)

      Anosmia.

    • B)

      Prurido nasal.

      ✓
    • C)

      Anomalias no septo nasal.

    • D)

      Necessidade de uso de vasoconstritor tópico.

    Gabarito: B.

    A questão nos apresenta um adolescente de 17 anos com queixas de coriza hialina e congestão nasal contínua, sintomas típicos de um quadro de rinite alérgica. Esse tipo de rinite é muito comum nessa faixa etária e pode prejudicar significativamente a qualidade de vida, afetando o sono e o desempenho escolar, como apontado.


    Mas o que é a rinite alérgica? Trata-se de uma reação inflamatória mediada por IgE nas mucosas nasais, desencadeada pela exposição a alérgenos, como pólen, ácaros ou pelos de animais.


    Alguns elementos-chave caracterizam essa condição, entre eles:

    • - Prurido nasal: Um dos sintomas cardinais da rinite alérgica. É muito comum que pacientes com rinite alérgica apresentem coceira no nariz.
    • - Coriza hialina: Secreção nasal aquosa clara, que também é típica do quadro alérgico.
    • - Congestão nasal: Sensação de obstrução nasal que pode interferir no sono e atividades diárias.
    • - Espirros: Frequentemente em salvas, são comuns nesta forma de rinite.
    • - Lacrimejamento e prurido ocular: Podem ocorrer quando a conjuntiva também está envolvida.


    Avaliando as opções fornecidas na questão:

    • ❌️ A) Anosmia: Embora possa ocorrer em outros tipos de sinusopatia, a perda de olfato não é um sintoma típico de rinite alérgica. Assim, essa alternativa é incorreta.

    • ✅️ B) Prurido nasal: Esta é a alternativa correta. Prurido nasal é um sintoma clássico na rinite alérgica. Sua presença reforça a hipótese diagnóstica de rinite alérgica.

    • ❌️ C) Anomalias no septo nasal: Desvios de septo ou outras anomalias não são características da rinite alérgica, mas sim condições estruturais que podem, por vezes, agravar quadros obstrutivos nasais. Portanto, essa opção está incorreta.

    • ❌️ D) Necessidade de uso de vasoconstritor tópico: Embora algumas pessoas com rinite alérgica utilizem vasoconstritores tópicos para aliviar a congestão nasal, esse uso não caracteriza a rinite alérgica. Além disso, o uso prolongado desses medicamentos pode agravar um quadro de rinite medicamentosa. Portanto, essa alternativa também é incorreta.


    Mensagem final: A presença de prurido nasal é um dos sintomas característicos da rinite alérgica, junto com coriza hialina, espirros e congestão nasal. O tratamento, geralmente, envolve evitar alérgenos conhecidos, uso de anti-histamínicos e, em alguns casos, corticosteroides nasais. A orientação sobre o uso correto dos medicamentos é essencial para evitar complicações, como a rinite medicamentosa por uso inadequado de descongestionantes. 

    Questão 67 — Acidente vascular cerebral (AVC)

    Um paciente de 58 anos, previamente hipertenso, diabético e com histórico de tabagismo, é admitido no Pronto Atendimento pela neurocirurgia confusão mental, rebaixamento do nível de consciência, vômitos, e déficit motor à esquerda. O exame neurológico revela hemiparesia esquerda, e a pressão arterial é de 200/110 mmHg. A equipe solicita uma tomografia de crânio sem contraste para avaliação inicial.

    Fonte: Galván, O. & Contreras, J.M. & Serrano, A. & Gómez, A. & Casado, J.M. & Martí, P.. (2017). Neurología. 34. 10.1016/j.nrl.2016.12.002.

    Com base na tomografia de crânio, qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Infarto cerebral extenso.

    • B)

      Hemorragia subaracnoidea.

    • C)

      Hematoma subdural agudo.

    • D)

      Leucoencefalopatia hipertensiva.

    • E)

      Hemorragia intraparenquimatosa.

      ✓

    Gabarito: E.

    Nesta questão, avaliamos um paciente de 58 anos com uma história importante de hipertensão, diabetes e tabagismo, que são os principais fatores de risco para doenças cerebrovasculares. O paciente apresenta-se com confusão mental, rebaixamento do nível de consciência, vômitos e déficit motor à esquerda, além de hipertensão arterial grave (PA = 200/110 mmHg). O exame neurológico revela uma hemiparesia esquerda, que é um indicativo de lesão no hemisfério direito do cérebro, devido à natureza cruzada dos tratos motores, e uma tomografia de crânio sem contraste é solicitada para avaliação inicial.

    A TC de crânio sem contraste é o exame de eleição nas emergências neurológicas, pois permite, de forma rápida, a diferenciação entre acidentes vasculares cerebrais (isquêmicos ou hemorrágicos) e outras lesões cerebrais agudas, crucial para a condução inicial do paciente.


    Vamos analisar o diagnóstico diferencial com base na tomografia:

    • A) Infarto cerebral extenso: Um infarto cerebral extenso aparece na TC como uma hipodensidade nas áreas vascularmente comprometidas. No entanto, existem sinais de lesão hemorrágica que são caracterizados por formações hiperdensas (brancas), que não seriam características de uma isquemia na fase aguda.
    • B) Hemorragia subaracnoidea: Este tipo de hemorragia frequentemente resulta da ruptura de aneurismas saculares com o sangue depositando-se nos espaços subaracnoides. Na tomografia, veríamos sangue nas cisternas e fissuras, e o quadro clínico incluiria cefaleia súbita, rigidez de nuca, e outras características de irritação meníngea, mas não há menção desses sinais.
    • C) Hematoma subdural agudo: Apresenta-se como uma coleção em forma de crescente (concavidade voltada para dentro) ou meia-lua entre a dura-máter e o encéfalo. O paciente na questão não tem contexto de trauma e a imagem não sugere um hematoma tipo subdural.
    • D) Leucoencefalopatia hipertensiva: A leucoencefalopatia geralmente surge em hipertensão rapidamente acelerada (e não apenas em hipertensão crônica) e se apresenta como lesões vasogênicas edematosas (hipodensas) na substância branca posterior.
    • E) Hemorragia intraparenquimatosa: Caracterizado por uma área hiperdensa (branca) sugestiva de sangue no parênquima cerebral, este tipo de hemorragia está frequentemente associado a hipertensão mal controlada e aparece como uma massa hiperdensa na TC.

    Comentando a alternativa correta: A hemorragia intraparenquimatosa (opção E) é o diagnóstico mais provável. O paciente possui múltiplos fatores de risco (hipertensão, diabetes, tabagismo) para este tipo de evento cerebral e os sinais de hemorragia compacta na imagem, aliados a sintomas como diminuição do nível de consciência e déficit neurológico focal rápido, suportam essa conclusão. Além disso, a hipertensão arterial grave no contexto da apresentação reforça a suspeita, pois é um fator desencadeante comum. Em termos de protocolo, as diretrizes da American Heart Association/American Stroke Association (AHA/ASA) são importantes recursos para o manejo de AVCs hemorrágicos.


    Take-home message: Pacientes com fatores de risco cardiovascular significativos, ao apresentarem um quadro agudo neurológico, devem ser rapidamente investigados com TC sem contraste para diferenciação entre eventos isquêmicos e hemorrágicos. A identificação correta do tipo de lesão define o manejo e a estratégia terapêutica, com rápida estabilização dos fatores hemodinâmicos e intervenções específicas, que no caso de hemorragia intraparenquimatosa incluem controle rigoroso e imediato da pressão arterial.

    Questão 68 — Trauma de Tórax

    Caso Clínico: Pessoa do sexo masculino, jovem, chega ao Pronto Socorro com ferimento aberto de 3 cm na parede torácica anterior. Apresenta-se dispnéico e presença de ruído de entrada de ar a cada movimento respiratório. Em sua avaliação qual a melhor conduta?

    • A)

      Analgesia e alta.

    • B)

      Apenas oxigênio suplementar.

    • C)

      Antibioticoterapia profilática, sem curativo.

    • D)

      Fechar hermeticamente com gaze e esparadrapo nos quatro lados.

    • E)

      Cobrir com curativo de três lados e providenciar dreno em selo d’água.

      ✓

    Gabarito: E.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Ferida torácica aspirativa = pneumotórax aberto. Conduta imediata em prova: curativo oclusivo de três lados + dreno torácico em selo d'água no hemitórax acometido.


    O que é: Pneumotórax aberto ocorre quando há comunicação livre entre a cavidade pleural e o meio externo; o ar entra pela ferida a cada inspiração ("sucking chest wound").


    Por que importa: A ventilação torna-se inefetiva por colapso pulmonar e desvio do fluxo de ar; risco de evolução para pneumotórax hipertensivo iatrogênico se a ferida for selada em 4 lados.


    Como identificar: Ferida aberta na parede torácica, ruído de sucção/entrada de ar, dispneia, hipossons, redução do MV no lado acometido; frequentemente dor e subcutâneo enfisematoso.


    Como manejar (essencial de prova): ABCDE do trauma; oferecer O2; curativo oclusivo de 3 lados imediatamente (funciona como válvula unidirecional improvisada), monitorar; inserir dreno torácico em selo d'água (4º-5º EIC, linha axilar anterior/média) no lado acometido; analgesia; profilaxia do tétano; considerar antibiótico profilático em toracostomia. Evitar fechar em 4 lados.


    Figura 1. Ilustração do curativo de 3 pontas.

    Fonte: Curativo de 3 pontas. FullEmergency.com.br. Disponível em: https://fullemergency.com.br/curativo-de-3-pontas/. Acesso em 15/01/2026.


    Conduta & Posologia


    Oxigenoterapia: Máscara com reservatório 10–15 L/min na sala de emergência.

    Curativo de três lados (imediato): Gaze/filme oclusivo fixado em apenas três bordas, permitindo saída de ar expiratório e minimizando entrada inspiratória.


    Drenagem torácica (selo d'água): Adulto: dreno 28–32 Fr, 4º-5º EIC, linha axilar anterior/média, conexão a selo d'água. Analgesia e técnica estéril. Manter sucção conforme protocolo local.


    Analgesia: Morfina 0,05–0,1 mg/kg IV em bolus lento, repetir conforme dor; ou fentanil 0,5–1 mcg/kg IV titulado. Monitorar ventilação.


    Antibioticoprofilaxia (toracostomia): Cefazolina 2 g IV dose pré-procedimento; pode repetir 1–2 g IV 8/8 h por até 24 h em ferida contaminada. Ajuste em DRC: se ClCr 10–30 mL/min, 1 g IV 12/12 h; se <10 mL/min, 1 g IV 24/24 h.


    Profilaxia do tétano: dT (ou dTpa se disponível) 0,5 mL IM; se ferida tetanogênica e esquema desconhecido/incompleto, acrescentar Imunoglobulina antitetânica 250 UI IM (500 UI se >24 h).


    Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar todos os pneumotórax abertos. UTI se instabilidade hemodinâmica, insuficiência respiratória, necessidade de ventilação mecânica, lesões associadas graves (TCE, politrauma).


    Monitorização/reavaliação: Sinais de tensão após o curativo; se deteriorar, afrouxar/retirar curativo e descompressão imediata, checar posição/patência do dreno; radiografia/USG pulmonar em sequência.


    Contraindicações e alertas: Não selar a ferida em 4 lados; cautela com opioides em hipoventilação; alergia a beta-lactâmicos: usar clindamicina 600–900 mg IV 8/8 h.


    Discussão das alternativas

    ✅ E) Cobrir com curativo de três lados e providenciar dreno em selo d’água.

    Alternativa correta. Conduta padrão: curativo oclusivo de três lados para válvula expiratória + dreno torácico 28–32 Fr em selo d'água no hemitórax acometido, além de O2, analgesia e medidas de suporte.


    ❌ A) Analgesia e alta.

    Alternativa incorreta. Pneumotórax aberto requer intervenção imediata (curativo de três lados + dreno). Alta é contraindicada.


    ❌ B) Apenas oxigênio suplementar.

    Alternativa incorreta. Oxigênio é adjuvante, mas não corrige a comunicação. Falta o curativo de três lados e a drenagem torácica.


    ❌ C) Antibioticoterapia profilática, sem curativo.

    Alternativa incorreta. ATB pode ser considerado para toracostomia, mas a prioridade é selar funcionalmente a ferida (3 lados) e drenar o tórax. Sem isso, o paciente permanece hipoventilando e instável.


    ❌ D) Fechar hermeticamente com gaze e esparadrapo nos quatro lados.

    Alternativa incorreta. Selar 4 lados pode induzir pneumotórax hipertensivo iatrogênico. Em prova, nunca ocluir 360° a ferida aberta.


    Take-home message

    • Pneumotórax aberto: ferida "sugadora" + dispneia = curativo oclusivo de três lados imediato.
    • Sempre completar com drenagem torácica: dreno 28–32 Fr no 4º–5º EIC, linha axilar, em selo d'água.
    • Armadilha: não ocluir a ferida em 4 lados (risco de pneumotórax hipertensivo).
    • Adjuvantes: O2 alto fluxo, analgesia titulada, profilaxia de tétano e ATB para toracostomia quando indicado.
    • Internação obrigatória; UTI se instável, insuficiência respiratória ou politrauma.

    Questão 69 — Hiperplasia endometrial e Câncer de endométrio

    Mulher de 42 anos refere sangramento uterino irregular há 6 meses. Apresenta obesidade, nuliparidade e hipertensão arterial. Ultrassonografia mostra espessamento endometrial difuso. Qual é o próximo passo diagnóstico mais adequado?

    • A)

      Biópsia endometrial.

      ✓
    • B)

      Introdução empírica de progestagênio oral.

    • C)

      Solicitação de ressonância magnética de pelve.

    • D)

      Histerectomia total abdominal.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora (por que cai): Sangramento uterino anormal com fatores de risco para hiperplasia/neoplasia endometrial exige amostragem endometrial precoce. A banca cobra quando indicar biópsia mesmo em mulheres < 45 anos.


    Epidemiologia e Etiologia

    • Epidemiologia: Sangramento uterino anormal é causa frequente de procura ginecológica no Brasil, sobretudo em perimenopausa.
    • Fatores de risco para hiperplasia/adenocarcinoma de endométrio: Obesidade, anovulação crônica, nuliparidade, hipertensão arterial, diabetes mellitus, uso de estrogênio sem oposição.
    • Mecanismo: Estímulo estrogênico desoposto leva a proliferação endometrial contínua, hiperplasia e risco de atipias/câncer.


    Diagnóstico

    • Padrão-ouro prático: Biópsia endometrial ambulatorial (pipela) para avaliar hiperplasia/atipia/carcinoma nas mulheres com sangramento uterino anormal e fatores de risco, independentemente da espessura na ultrassonografia.
    • Quando biopsiar: Toda mulher com sangramento uterino anormal e idade ≥ 45 anos; < 45 anos com fatores de risco (ex.: obesidade, anovulação, nuliparidade) ou falha de tratamento clínico inicial.
    • Papel da ultrassonografia transvaginal: Útil para causas estruturais (pólipo, mioma) e medir espessura, mas não substitui biópsia quando há risco oncológico.
    • Histeroscopia com biópsia dirigida: Indicada se biópsia ambulatorial insuficiente/não representativa, suspeita de lesão focal (pólipo), ou persistência de sintomas.


    Conduta & Posologia

    • Próximo passo propedêutico: Realizar biópsia endometrial ambulatorial (pipela) sob analgesia simples. Se amostra insuficiente ou anatomia difícil, optar por histeroscopia diagnóstica com biópsia.
    • Indicações para biópsia imediata neste caso: Idade 42 anos com múltiplos fatores de risco (obesidade, nuliparidade, hipertensão) e espessamento endometrial difuso na ultrassonografia.
    • O que muda conduta: Resultado com hiperplasia com atipia/câncer direciona para tratamento cirúrgico; sem atipia permite manejo farmacológico (progestagênio) e seguimento.

    • Critérios de internação vs ambulatorial: Manejo ambulatorial na maioria; internar se sangramento intenso com instabilidade hemodinâmica, queda de hemoglobina acentuada, necessidade de transfusão ou falha de controle clínico imediato.


    Discussão das alternativas


    ✅ A) Biópsia endometrial.

    Alternativa correta. Mulher de 42 anos com sangramento uterino anormal e fatores de risco (obesidade, nuliparidade, hipertensão) + espessamento endometrial difuso: indicação de amostragem endometrial imediata. A biópsia por pipela é o método inicial recomendado em diretrizes brasileiras para excluir hiperplasia/atipia/câncer.


    ❌ B) Introdução empírica de progestagênio oral.

    Alternativa incorreta. Progestagênio é opção terapêutica após excluir lesão pré-maligna/maligna. Não se inicia tratamento empírico diante de risco oncológico sem biópsia, pois pode mascarar diagnóstico e atrasar tratamento. Correto: primeiro biopsiar; depois tratar conforme histologia.


    ❌ C) Solicitação de ressonância magnética de pelve.

    Alternativa incorreta. Ressonância magnética não é exame de primeira linha no sangramento uterino anormal para rastrear hiperplasia/câncer. Tem papel em casos selecionados (mapeamento de miomas/adenomiose ou estadiamento oncológico já confirmado). O próximo passo é biópsia.


    ❌ D) Histerectomia total abdominal.

    Alternativa incorreta. Histerectomia é terapêutica, não diagnóstica inicial. Indica-se após confirmação histológica de lesão que justifique cirurgia (ex.: hiperplasia com atipia/câncer) ou falha/contraindicação de tratamentos conservadores. Correto no momento: biópsia endometrial.


    Take-home message

    • Sangramento uterino anormal com fatores de risco para estrogênio desoposto exige biópsia endometrial mesmo < 45 anos.
    • Ultrassonografia auxilia, mas não substitui a amostragem endometrial quando há risco oncológico.
    • Biópsia por pipela é o primeiro passo; histeroscopia se amostra insuficiente ou lesão focal suspeita.
    • Red flag: evite iniciar progestagênio empírico antes de excluir hiperplasia com atipia/câncer.
    • Resultado histológico define conduta: atipia/câncer → abordagem cirúrgica; sem atipia → terapia com progestagênio e seguimento.

    Questão 70 — Intubação orotraqueal

    Um paciente de 25 anos de idade foi levado ao pronto-socorro pelo Corpo de Bombeiros com relato de ter sofrido atropelamento em via pública há 30 minutos. Chegou em protocolo de trauma, contactuante, mas apenas por palavras inapropriadas, murmúrios vesiculares fisiológicos bilateralmente. Ao exame físico, apresentou SatO2 = 92%, FR = 20 irpm, PA = 100 mmHg X 60 mmHg, FC = 100 bpm, movimento de flexão à pressão e abertura ocular ausente. Tinha uma ferida cortocontusa em região parietal, sem sangramento ativo. Tendo em vista esse caso clínico, é correto afirmar que, na escala de Glasgow, trata-se de um paciente com

    • A)

      sete pontos, com indicação de intubação orotraqueal.

    • B)

      oito pontos, sem indicação de intubação orotraqueal.

    • C)

      oito pontos, com indicação de intubação orotraqueal.

      ✓
    • D)

      nove pontos, com indicação de intubação orotraqueal.

    Gabarito: C.

    Oi pessoal! Vamos contemplar um tema crucial na avaliação inicial de pacientes traumatizados: a Escala de Coma de Glasgow (ECG), que é indispensável no cenário do trauma. Esse método é rotineiramente usado para avaliar o nível de consciência nos contextos de emergência, especialmente em pacientes com suspeita de lesão cerebral. Vamos usar o caso clínico para entender melhor como aplicar essa ferramenta?


    Introdução ao caso: Temos um paciente de 25 anos que foi atropelado e levado ao pronto-socorro. Apresenta murmúrios vesiculares fisiológicos e alguns dados nos exames físicos, como saturação de oxigênio (SATO₂) de 92%, frequência respiratória (FR) de 20, pressão arterial (PA) de 100 x 60 mmHg, frequência cardíaca (FC) de 100 bpm, movimento de flexão à pressão e ausência de abertura ocular, além de uma ferida cortocontusa parietal sem sangramento ativo.


    Como pontuar usando a Escala de Coma de Glasgow:

    • Resposta Ocular: Ausente (1 ponto) - já que o paciente possui abertura ocular ausente.
    • Resposta Verbal: Palavras inapropriadas (3 pontos) - como indica a descrição de estar contactuante apenas com palavras inapropriadas.
    • Resposta Motora: Flexão à dor (4 pontos) - indicada pelo movimento de flexão à pressão nos achados clínicos.

    Juntando esses dados, o paciente totaliza: 1 (ocular) + 3 (verbal) + 4 (motora) = 8 pontos!


    Fisiopatologia da Situação: Um dado essencial na assistência do paciente em trauma é a identificação de lesão cerebral, especialmente a identificação de uma possível lesão cerebral grave, que é definida por um escore de Glasgow ≤ 8. Este paciente encaixa-se neste critério.


    Indicação de Intubação Orotraqueal: Com o escore total de 8, há indicação de intubação orotraqueal. Qualquer pontuação de 8 ou menos na ECG, especialmente quando acompanhada por sinais de comprometimento respiratório (SATO₂ 92%, por exemplo), sugere um potencial risco para a via aérea; por isso, a via aérea deve ser protegida.


    Agora, vamos analisar as opções oferecidas na questão:

    • A) Sete pontos, com indicação de intubação orotraqueal. - Incorreta, pois calculamos a escala em 8 pontos.
    • B) Oito pontos, sem indicação de intubação orotraqueal. - Incorreta, o escore de 8 realmente tem indicação de intubação.
    • C) Oito pontos, com indicação de intubação orotraqueal. - Correta, conforme analisado acima!
    • D) Nove pontos, com indicação de intubação orotraqueal. - Incorreta, o cálculo foi de 8 pontos.

    Take-home Message: Sempre que enfrentarmos um paciente com ECG ≤ 8, devemos considerar a proteção da via aérea com intubação, além de uma reavaliação clínica rápida e uma monitorização contínua. Lembre sempre: em trauma, tempo é cérebro!

    Questão 71 — Traumatismo Cranioencefálico (TCE)

    Um paciente de 25 anos de idade foi levado ao pronto-socorro pelo Corpo de Bombeiros com relato de ter sofrido atropelamento em via pública há 30 minutos. Chegou em protocolo de trauma, contactuante, mas apenas por palavras inapropriadas, murmúrios vesiculares fisiológicos bilateralmente. Ao exame físico, apresentou SatO2 = 92%, FR = 20 irpm, PA = 100 mmHg X 60 mmHg, FC = 100 bpm, movimento de flexão à pressão e abertura ocular ausente. Tinha uma ferida cortocontusa em região parietal, sem sangramento ativo.

    Considerando que, após a estabilização inicial do quadro, foram evidenciadas várias alterações agudas apresentadas na imagem, assinale qual achado não é caracterizado.

    • A)

      Hematoma epidural

      ✓
    • B)

      Hematoma subdural

    • C)

      Hemorragia intraparenquimatosa

    • D)

      Hematoma subgaleal

    Gabarito: A.

    Pessoal, estamos diante de um caso clássico de trauma cranioencefálico (TCE), uma situação frequente em emergências médicas e que requer avaliação cuidadosa e identificação rápida de possíveis complicações intracranianas. Vamos dissecar passo a passo cada aspecto da questão proposta.


    O paciente é um jovem de 25 anos que sofreu um atropelamento, chegou ao pronto-socorro com alterações no estado de consciência (Glasgow Coma Scale — GCS de 7: abertura ocular ausente, resposta verbal com palavras inapropriadas e resposta motora com flexão à pressão), sinais vitais indicativos de possível choque (PA de 100x60 mmHg, SatO2 de 92%, FC de 100 bpm) e ferida cortocontusa na região parietal. Diante desse quadro, existe uma grande probabilidade de lesão intracraniana aguda, o que é apoiado pela imagem fornecida junto à questão.


    Vamos abordar os possíveis hematomas intracranianos que podem ocorrer após um trauma cranioencefálico:

    • Hematoma epidural: Esta é uma lesão localizada entre o osso do crânio e a dura-máter. Geralmente associado a fratura do osso temporal e lesão da artéria meníngea média, apresenta-se classicamente com um intervalo lúcido, ou seja, o paciente pode inicialmente perder a consciência, depois recuperar-se temporariamente, e posteriormente deteriorar-se rapidamente. A tomografia geralmente mostra uma lesão biconvexa hiperintensa. A ausência deste achado na imagem do paciente apoia a escolha da alternativa correta.
    • Hematoma subdural: Ocorre entre a dura-máter e a aracnoide, frequentemente associado a laceração das veias de ponte. A tomografia mostra uma coleção em aparência de crescente (hiperdensa ou hipodensa a depender do tempo desde a ocorrência do trauma). Este tipo de hematoma cresce lentamente, carregando risco de lesão cerebral pelo efeito de massa.
    • Hemorragia intraparenquimatosa: Também conhecida como hemorragia intracerebral, ocorre dentro do tecido cerebral propriamente dito. Pode ser vista como áreas hiperdensas na tomografia, podendo causar efeitos de massa se grandes o suficiente. Este achado é comum em traumas com alta energia.
    • Hematoma subgaleal: Este hematoma ocorre entre a gálea aponeurótica e o periósteo, sendo uma lesão extracraniana sem perigo direto à vida, mas indicativa de força traumática significativa. Este tipo de hematoma não causaria alterações na tomografia cranioencefálica, pois é limitado às camadas extracranianas.

    Vamos avaliar as alternativas:

    • A) Hematoma epidural: Alternativa correta - Não foi descrito achado na imagem indicando a presença de um hematoma epidural, considerando tal ausência de achado como o que não pode ser caracterizado.
    • B) Hematoma subdural: Possível em traumas, como descrito, e observado como um crescent shape na imagem. É uma complicação esperada deste tipo de trauma.
    • C) Hemorragia intraparenquimatosa: Comum em traumas de alta energia, poderia ser observada na imagem como lesões hiperdensas na porção intracerebral.
    • D) Hematoma subgaleal: Lesão subcutânea, não causa alteração direta na imagem intracraniana, mas pode estar presente associado à ferida do couro cabeludo.

    Take-home message: Em traumas cranioencefálicos, é crucial reconhecer rapidamente os achados de tomografia que sugerem hematomas epidurais, subdurais, ou hemorragias intraparenquimatosas. Entender diferenças topográficas e padrões de dano é essencial para o manejo inicial. Considerem o uso das diretrizes ATLS (Advanced Trauma Life Support) sempre como base para estratificação de riscos e decisões clínicas.

    Questão 72 — Peritonite Bacteriana Espontânea

    Um paciente de 52 anos de idade, etilista crônico e cirrótico, foi levado ao serviço de emergência com queixa de dor abdominal difusa, febre e confusão mental. Ao exame físico, apresentou PA = 90 mmHg X 60 mmHg, FC = 120 bpm, FR = 24 irpm, SatO2 = 94% e abdome tenso, com sinal de Murphy negativo. O resultado do hemograma mostrou leucócitos = 18.000/mm³ com desvio à esquerda. Nesse caso, qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Peritonite bacteriana espontânea (PBE)

      ✓
    • B)

      Pancreatite necrotizante infectada

    • C)

      Sepse de origem abdominal

    • D)

      Hepatite alcoólica grave

    Gabarito: A.

    Estamos diante de um paciente do sexo masculino, de 52 anos, com um histórico significativo de etilismo crônico e cirrose hepática, apresentando um quadro clínico sugestivo de infecção abdominal: dor abdominal difusa, febre e alteração do estado mental. Além disso, seus sinais vitais denotam um quadro potencialmente grave, com hipotensão (PA = 90/60 mmHg), taquicardia (FC = 120 bpm), taquipneia (FR = 24 irpm), saturação de oxigênio levemente reduzida (SatO2 = 94%) e, no exame físico, um abdome tenso mas sem sinal de Murphy positivo. O hemograma revela leucocitose significativa (18.000/mm³) com desvio à esquerda, sugerindo um quadro infeccioso.


    Diagnóstico Mais Provável

    Com base nessas informações, o diagnóstico mais provável é Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE). Vamos analisar por que chegamos a essa conclusão e entender melhor este quadro:


    Fisiopatologia e Diagnóstico da PBE

    A PBE é uma infecção grave do líquido ascítico que ocorre, em sua maioria, em pacientes com cirrose hepática. Este quadro ocorre devido ao comprometimento do sistema imunológico do paciente cirrótico e à translocação bacteriana do intestino para o líquido ascítico, onde se instaura a infecção.

    Enquanto já conhecemos e sabemos identificar a clínica associada a esse quadro, o diagnóstico de certeza é dado pela análise do líquido ascítico coletado por paracentese, que tipicamente revela:

    • Contagem de polimorfonucleares (PMN) > 250 células/mm³: padrão-ouro diagnóstico.
    • Cultura positiva: frequentemente monobacteriana.

    Note que a presença de confusão mental, febre e dor abdominal difusa, como observado em nosso paciente, é altamente sugestiva. A hipotensão, a FC elevada e a FR aumentada indicam provável sepse, frequentemente associada a este quadro.


    Tratamento da PBE

    Após a confirmação diagnóstica (podendo ser iniciado desde a suspeita clínica em casos graves), o tratamento deve ser instituído rapidamente para prevenir desfechos negativos:

    • Antibioticoterapia empírica: A cefotaxima é frequentemente selecionada como primeira escolha (2g EV a cada 8 horas).
    • Albumina Intravenosa: Reduz a chance de desenvolvimento de síndrome hepatorrenal em pacientes de risco (ureia > 30 mg/dL e bilirrubina > 4 mg/dL).

    Revisão das Alternativas

    • A) Peritonite bacteriana espontânea (PBE) - Alternativa correta. Quadro característico associado à cirrose, facilmente justificável pela clínica e quadro laboratorial.
    • B) Pancreatite necrotizante infectada - Tipicamente envolve dor abdominal que se irradia para as costas, frequentemente associada a aumento de enzimas pancreáticas. Embora coerente com dor e sintomas infecciosos, o histórico não sugere pancreatite.
    • C) Sepse de origem abdominal - A sepse é um desfecho mais abrangente e genérico que poderia incluir PBE, mas, por si só, não constitui um diagnóstico definitivo e não explica a causa/infecção.
    • D) Hepatite alcoólica grave - Cursa com icterícia, ascite e hepatomegalia, mas não com infecção aguda e leucocitose com desvio à esquerda principalmente. Inapropriada para esta apresentação.

    Take Home Message

    Para pacientes cirróticos que se apresentam com sintomas sugestivos de infecção abdominal, a PBE é uma causa frequente e grave, necessitando de diagnóstico rápido e início imediato de tratamento. O quadro clínico associado, como dor abdominal, febre e alteração do estado mental, em alguém com cirrose, deve sempre levantar a suspeita diagnóstica. Não se esqueçam de manter um alto índice de suspeição e de confirmar o diagnóstico através da paracentese diagnóstica!

    Questão 73 — Pancreatite aguda

    Um paciente de 45 anos de idade, hipertenso e diabético, deu entrada no pronto-socorro com dor epigástrica intensa há duas horas, irradiando para o dorso, associada a náuseas e vômitos. Ao exame físico, apresentou PA = 100 mmHg X 70 mmHg, FC = 112 bpm, FR = 22 irpm e SatO2= 95%. O abdome estava distendido, com dor à palpação no epigástrio, sem sinais de defesa. O exame laboratorial revelou amilase sérica = 520 U/L (VR = 30-110 U/L). Nesse caso, o diagnóstico mais provável e a conduta inicial são, respectivamente,

    • A)

      úlcera gástrica perfurada; realizar radiografia de tórax.

    • B)

      infarto agudo do miocárdio; solicitar eletrocardiograma e troponina.

    • C)

      colecistite aguda; realizar ultrassonografia abdominal.

    • D)

      pancreatite aguda; iniciar reposição volêmica vigorosa.

      ✓

    Gabarito: D.

    Estamos diante de um paciente de 45 anos, com histórico de hipertensão e diabetes, apresentando quadro de dor epigástrica intensa irradiando para o dorso, associada a náuseas e vômitos, além de alterações hemodinâmicas como hipotensão (PA = 100 x 70 mmHg) e taquicardia (FC = 112 bpm). O exame laboratorial revelou uma amilase sérica bastante elevada, o que é um grande indicativo para o diagnóstico de pancreatite aguda.


    A pancreatite aguda é uma inflamação súbita do pâncreas que frequentemente se apresenta com dor abdominal intensa, típica na região epigástrica e que pode irradiar para o dorso. Além da dor, o paciente pode apresentar sintomas como náuseas e vômitos, assim como sinais de resposta inflamatória sistêmica, incluindo febre, taquicardia, e até hipotensão e taquipneia, como observado neste caso.


    Os diagnósticos de pancreatite aguda são geralmente estabelecidos com base em pelo menos dois dos seguintes critérios:

    • Dor abdominal característica;
    • Elevação da amilase e/ou lipase sérica em pelo menos três vezes acima do limite superior do normal;
    • Achados na tomografia computadorizada, ressonância magnética ou ultrassonografia compatíveis com pancreatite aguda.

    Neste cenário, a dor típica e a elevação significativa da amilase sérica apontam fortemente para o diagnóstico de pancreatite aguda. Em relação ao manejo inicial, a reposição volêmica vigorosa é uma etapa crítica no tratamento da pancreatite aguda, especialmente nas fases iniciais, para prevenir complicações como necrose pancreática e falência de múltiplos órgãos. Utiliza-se frequentemente soluções cristaloides, como Ringer lactato, com monitoramento cuidadoso dos sinais vitais e balanço hídrico.


    Vamos agora avaliar cada uma das alternativas apresentadas:

    • A) Úlcera gástrica perfurada; realizar radiografia de tórax: Embora a dor epigástrica seja compatível, a perfuração geralmente é acompanhada por sinais de peritonite, como defesa abdominal, que não estão presentes aqui. Além disso, a elevação da amilase não é típica nesse quadro.
    • B) Infarto agudo do miocárdio; solicitar eletrocardiograma e troponina: A dor pode, sim, ser confundida com a de um IAM, especialmente devido à irradiação dorsal. No entanto, a significativa elevação da amilase e a história clínica são mais indicativas de pancreatite.
    • C) Colecistite aguda; realizar ultrassonografia abdominal: A dor em colecistite geralmente se localiza no hipocôndrio direito e não costuma elevar a amilase sérica de maneira tão acentuada.
    • D) Pancreatite aguda; iniciar reposição volêmica vigorosa: Esta é a alternativa correta, justificando-se pelos achados clínicos e laboratoriais clássicos de pancreatite aguda.

    Take-home message: A pancreatite aguda deve ser considerada em pacientes com dor abdominal intensa e elevação significativa de amilase ou lipase. O manejo inicial envolve reposição volêmica agressiva para prevenir complicações sistêmicas. Conhecer os sinais e sintomas clássicos é crucial na prática clínica para um diagnóstico rápido e tratamento dirigido.

    Questão 74 — Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)

    Um paciente de 58 anos de idade, com histórico de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), foi levado ao pronto-socorro com dispneia intensa, tosse produtiva com expectoração purulenta e febre há dois dias. Ao exame físico, apresentou PA = 130 mmHg X 80 mmHg, FC = 112 bpm, FR = 26 irpm e SatO2 = 88% em ar ambiente. A ausculta pulmonar revelou murmúrio vesicular reduzido difusamente e roncos. Nesse caso clínico, após a suplementação de oxigênio, a principal conduta terapêutica consiste em

    • A)

      iniciar antibióticos empíricos e corticosteroides sistêmicos.

    • B)

      administrar broncodilatadores de curta duração por via inalatória.

    • C)

      instituir ventilação não invasiva (VNI) imediatamente.

    • D)

      combinar broncodilatadores, corticosteroides sistêmicos e antibióticos empíricos.

      ✓

    Gabarito: D.

    Vamos trabalhar um pouco nesta questão, pessoal! Temos diante de nós um quadro clássico que denota uma exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Um paciente de 58 anos, sabidamente portador de DPOC, apresenta sintomas de dispneia intensa, tosse produtiva com expectoração purulenta e febre. Esses sinais indicam uma possível infecção pulmonar, muito provavelmente exacerbada sua condição. Será que conseguimos traçar um plano de manejo adequado para esse colega?


    Fisiopatologia e abordagem clínica na exacerbação da DPOC:

    • DPOC: Resulta de um processo inflamatório crônico que reduz a capacidade respiratória. Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo e a exposição a poluentes. Numa exacerbação, os sintomas respiratórios pioram de forma aguda, muitas vezes devido a infecções respiratórias virais ou bacterianas.
    • Achados de exame físico: No enunciado, observamos uma frequência respiratória elevada e saturação de oxigênio baixa (SatO2 = 88%). A ausculta pulmonar revelou murmúrio vesicular reduzido e roncos, o que pode indicar obstrução e secreção nas vias aéreas.

    Na prática clínica, o manejo de uma exacerbação de DPOC envolve:

    1. Oxigenoterapia: Já foi administrada, e o objetivo é manter a SpO2 entre 88-92%, reduzindo os riscos de hipercapnia.
    2. Broncodilatadores: Fenoterol ou salbutamol são frequentemente utilizados como broncodilatadores de curta duração para aliviar a obstrução bronquial.
    3. Corticosteroides sistêmicos: Como a exacerbação deve ter origem inflamatória, corticosteroides (como prednisolona) contribuem para reduzir inflamações. DPOC exacerbada com inflamação bronquial pode se beneficiar significativamente.
    4. Antibióticos: Dada a purulência do escarro e a febre, é critério inquestionável iniciar antibióticos empíricos para cobrir possíveis agentes infecciosos (ex: amoxicilina-clavulanato, azitromicina).
    5. Ventilação não invasiva (VNI): É uma ponte terapêutica eficaz em casos de acidose respiratória e fadiga muscular respiratória, mas antes devemos estabilizar mais o paciente clinicamente. Somente em acidose respiratória refratária suplementar, deve-se iniciar a VNI imediatamente.

    Analisemos agora as alternativas:

    • A) Iniciar antibióticos empíricos e corticosteroides sistêmicos: Embora correta, é importante incluir broncodilatadores no manejo, fundamental para alívio dos sintomas agudos.
    • B) Administrar broncodilatadores de curta duração por via inalatória: Correto, mas insuficiente sozinho, dado que o quadro sugere necessidade de terapia antimicrobiana e anti-inflamatória.
    • C) Instituir ventilação não invasiva (VNI) imediatamente: Indicado em casos de acidose respiratória grave ou hipercapnia incontrolada com medidas iniciais, mas como medida inicial não é prioritário, exceto em descompensação respiratória severa.
    • D) Combinar broncodilatadores, corticosteroides sistêmicos e antibióticos empíricos: Essa abordagem combina as intervenções adequadamente para tratar tanto o processo infeccioso, quanto a obstrução e a inflamação presentes na exacerbação da DPOC.

    Take-home message: Em um caso de exacerbação da DPOC com suspeita de infecção, abordar o manejo com oxigenoterapia, broncodilatadores, corticosteroides sistêmicos e antibióticos empíricos é essencial. Essa abordagem holística cobre os potenciais desafios respiratórios e infecciosos que o paciente enfrentaria. 

    Questão 75 — Doença de Kawasaki

    Uma criança de 4 anos de idade foi levada ao pronto-socorro com febre alta há cinco dias, conjuntivite bilateral, adenomegalia cervical não supurativa e exantema maculopapular. Ao exame físico, apresentava lábios hiperemiados e rachados, além de edema de mãos e pés. Os sinais vitais são FC = 120 bpm, FR = 22 irpm e SatO2 = 98%. Nesse caso, qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Sarampo

    • B)

      Doença de Kawasaki

      ✓
    • C)

      Escarlatina

    • D)

      Eritema infeccioso

    Gabarito: B.

    Oi pessoal, temos aqui um clássico cenário clínico em pediatria que nos remete à Doença de Kawasaki, uma vasculite multissistêmica que acomete predominantemente crianças. Vamos abordar essa questão com bastante carinho para que vocês sintam toda a segurança do mundo quando forem confrontados com quadros semelhantes na prática clínica ou em provas futuras.


    A Doença de Kawasaki é uma vasculite de pequenos e médios vasos, cujas principais manifestações incluem:

    • Febre persistente por pelo menos 5 dias (característica essencial para o diagnóstico).
    • Conjuntivite bilateral não purulenta, frequentemente indolor.
    • Alterações orais: lábios hiperemiados e rachados, eritema de mucosa oral "língua em framboesa".
    • Adenomegalia cervical não supurativa, usualmente unilateral.
    • Exantema polimorfo, que pode variar desde maculopapular até urticariforme.
    • Edema e eritema nas extremidades, que posteriormente pode evoluir para descamação periungueal.

    O diagnóstico é majoritariamente clínico, baseado nos critérios estabelecidos pela American Heart Association para Doença de Kawasaki. Devemos ter um alto índice de suspeição, pois o tratamento precoce com imunoglobulina intravenosa (IVIG) e aspirina pode reduzir significativamente o risco de complicações graves, como aneurismas coronarianos.


    Vamos então analisar cada uma das alternativas mencionadas:

    • A) Sarampo: O sarampo também apresenta exantema e conjuntivite, porém é notável por apresentar uma tríade de tosse, conjuntivite e coriza, além das manchas de Koplik na mucosa oral. O período de febre e o padrão de exantema também diferem do apresentado na Doença de Kawasaki.
    • B) Doença de Kawasaki: Correta! O quadro clínico descrito encaixa perfeitamente com os critérios diagnósticos da doença, como vimos acima.
    • C) Escarlatina: Caracteriza-se por febre, exantema típico de "lixa" que geralmente poupa a área peri-oral (palidez perioral), e presença da clássica língua em morango. Também é associada à faringite estreptocócica, o que não é mencionado aqui.
    • D) Eritema infeccioso: Causado pelo parvovírus B19, apresenta-se com o clássico "rash da face esbofeteada" seguido por um exantema reticulado no corpo, além de sintomas gripais que não são descritos neste caso.

    Take-home message: A Doença de Kawasaki é uma emergência médica que requer reconhecimento imediato e tratamento para evitar complicações cardíacas. O diagnóstico é clínico e depende da observação meticulosa dos sinais e sintomas, especialmente em crianças pequenas que não conseguem expressar todas as suas queixas. 

    Questão 76 — Outros temas em pneumologia pediátrica

    Uma mãe procurou o pronto-socorro relatando que seu filho de 18 meses de vida vem apresentando quadro de cansaço, rouquidão, tosse parecida a um “latido de cachorro” um “barulho esquisito”, ao respirar e febre moderada. Refere que, dois dias antes, o lactente se apresentava com rinorreia clara e tosse leve.

    Considerando esse caso clínico e com base nos conhecimentos médicos correlatos, assinale a alternativa correta.

    • A)

      Embora a maioria dos casos ocorra no verão, eles podem se manifestar durante todo o ano.

    • B)

      O crupe caracteriza um grupo de doenças que se manifestam por rouquidão, tosse ladrante e estridor inspiratório.

      ✓
    • C)

      Estridor é o som respiratório gerado pelo aumento de líquido intra-alveolar.

    • D)

      A etiologia é bacteriana na maioria dos casos.

    Gabarito: B.

    Olá, pessoal! Na questão de hoje, estamos diante de um caso de quadro respiratório agudo em um lactente de 18 meses. A descrição inclui sintomas clássicos como cansaço, rouquidão, tosse ladrante (ou seja, parecida com um "latido de cachorro") e um barulho esquisito ao respirar, além de febre moderada. Esses sinais nos conduzem ao tão conhecido crupe, uma condição comum em pediatria.


    Vamos compreender melhor o que é o crupe? O termo "crupe" refere-se a um conjunto de sintomas clínicos causados por infecções virais que afetam as vias aéreas superiores, especialmente a laringe, traqueia e brônquios. A laringotraqueobronquite viral (ou crupe viral) é caracterizada por: rouquidão, tosse ladrante e estridor inspiratório. O vírus Parainfluenza é o principal agente viral causador do crupe, mas também podem estar envolvidos o vírus sincicial respiratório (VSR), adenovírus e vírus da influenza.

    Esse caso é típico de crupe, porque temos a evolução característica com pródromos de infecção nas vias aéreas superiores, como rinorreia clara e tosse leve, antes de progredir para os sintomas mais intensos mencionados.


    Conhecendo os sinais e sintomas:

    • Tosse ladrante: Semelhante ao latido de um cachorro, causada pela inflamação subglótica.
    • Estridor inspiratório: Som agudo ao inspirar, causado pelo fluxo turbulento do ar através de uma via aérea estreitada.
    • Rouquidão: Resultado da inflamação laríngea.
    • Febre moderada: Comum em infecções virais associadas ao crupe.

    O manejo do crupe é guiado pela severidade dos sintomas. Nos casos leves, tratamento domiciliar com umidificação e observação pode ser suficiente. No pronto-socorro, dexametasona (corticosteroides) é frequentemente usada para reduzir a inflamação, enquanto a nebulização com epinefrina é reservada para casos moderados a graves com estridor em repouso.


    Sobre as alternativas, vamos avaliá-las:

    • A) Embora o crupe possa ocorrer em qualquer época do ano, é mais comum no outono e no início do inverno. Portanto, a afirmação não está correta.
    • B) Correta! O crupe realmente se refere a um grupo de doenças, apresentando os sintomas clássicos de rouquidão, tosse ladrante e estridor inspiratório.
    • C) Alternativa incorreta. Estridor não é causado por líquido intra-alveolar. Esta descrição é mais compatível com sons associados a diferentes tipos de edema pulmonar, como estertores.
    • D) A maioria dos casos é viral e não bacteriana. Bactérias podem causar uma condição semelhante, mas é menos comum (epiglotite, por exemplo).

    Take-home mensagem: O crupe é uma condição comum, frequentemente viral, que se manifesta com tosse ladrante, rouquidão e estridor. Diagnóstico baseia-se na clínica e tratamento depende da gravidade, com esteroides sendo fundamentais em muitos casos. 

    Questão 77 — Diarreia crônica - Síndrome do Intestino Irritável

    Uma paciente de 55 anos de idade, com histórico de depressão, apresenta quadro de dor abdominal difusa associada a constipação. O exame físico mostrou FC = 80 bpm, FR = 16 irpm e SatO2 = 97%. Acerca desse caso clínico, qual é a principal hipótese diagnóstica?

    • A)

      Doença inflamatória intestinal

    • B)

      Síndrome do intestino irritável

      ✓
    • C)

      Úlcera péptica

    • D)

      Câncer de cólon

    Gabarito: B.

    Estamos diante de uma paciente de 55 anos que apresenta dor abdominal difusa acompanhada de constipação. Ela também possui histórico de depressão. A questão solicita que identifiquemos a principal hipótese diagnóstica a partir deste quadro.


    Vamos analisar os elementos apresentados:

    • Dor abdominal difusa: Este tipo de dor pode estar associado a diversos distúrbios gastrointestinais, incluindo condições funcionais como a síndrome do intestino irritável (SII).
    • Constipação: Frequente na síndrome do intestino irritável, especialmente no subtipo SII-C (com predomínio de constipação).
    • Histórico de depressão: Está comprovado que há uma forte correlação entre distúrbios do humor, como a depressão, e a SII devido à conexão bidirecional entre o cérebro e o intestino – o chamado eixo intestino-cérebro.

    A síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio funcional intestinal comum, cuja fisiopatologia exata ainda não é completamente compreendida. Entretanto, sabe-se que fatores psicológicos, dismotilidade intestinal, hipersensibilidade visceral e inflamação de baixa intensidade podem estar envolvidos em sua etiologia. De acordo com o Rome IV criteria, os critérios diagnósticos atuais para SII incluem dor abdominal recorrente, em média, pelo menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses, associada a duas ou mais das seguintes características: relacionada à defecação, alteração na frequência das fezes ou mudança na forma (aparência) das fezes.


    O tratamento da SII geralmente envolve uma abordagem multifacetada, incluindo modificações dietéticas (como aumentar a ingestão de fibras para casos de constipação predominante), psicoterapia e, em alguns casos, o uso de medicações antiespasmódicas ou antidepressivas, especialmente para aqueles pacientes com sintomas psiquiátricos comorbidos, como depressão.


    Agora, vamos discutir brevemente cada alternativa:

    • A) Doença inflamatória intestinal: Caracterizada por inflamação crônica do trato gastrointestinal, como na doença de Crohn ou colite ulcerativa. Tipicamente apresenta diarreia, dor abdominal, sangue nas fezes, perda de peso e febre – sintomas que não coincidem com o caso clínico.
    • B) Síndrome do intestino irritável: Corresponde bem ao quadro clínico da paciente, com dor abdominal associada a constipação e histórico de depressão. (Alternativa correta.)
    • C) Úlcera péptica: Geralmente apresenta dor abdominal epigástrica relacionada à alimentação e pode apresentar sintomas como pirose, mas não é tipicamente associada a constipação.
    • D) Câncer de cólon: Pode causar alterações nos hábitos intestinais e dor abdominal, mas é mais frequentemente associado a sintomas como sangue oculto nas fezes ou anemia ferropriva. Além disso, o quadro tende a ser progressivo e com maior significação clínica em uma apresentação de paciente com histórico de fatores de risco significativo.

    Take-home mensagem: A síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio funcional intestinal que frequentemente se apresenta com dor abdominal e alterações nos hábitos intestinais, incluindo constipação. O histórico de depressão também se alinha com esta condição devido ao eixo intestino-cérebro. Portanto, a SII deve ser considerada a principal hipótese diagnóstica para esta paciente. 

    Questão 78 — Nódulos de Pulmão e Câncer de pulmão

    Qual o principal fator de risco modificável para o desenvolvimento de câncer de pulmão?

    • A)

      Exposição a radiações ionizantes

    • B)

      Histórico familiar de câncer de pulmão

    • C)

      Tabagismo

      ✓
    • D)

      Poluição ambiental

    Gabarito: C.

    Vamos explorar a questão sobre o fator de risco modificável mais importante para o desenvolvimento de câncer de pulmão. Inicialmente, é essencial entender que os fatores de risco incluem tanto aspectos não modificáveis, como predisposição genética, quanto aqueles que são modificáveis, como hábitos e exposições ambientais. O reconhecimento desses fatores é crucial, especialmente porque muitos deles podem ser reduzidos ou eliminados, diminuindo, assim, o risco de desenvolvimento de neoplasias.


    Fatores de risco para câncer de pulmão:

    • Tabagismo: O tabagismo é, indiscutivelmente, o principal fator de risco modificável para o câncer de pulmão. Estima-se que cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão sejam atribuídos ao uso do tabaco. Os compostos químicos presentes na fumaça do cigarro, como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e nitrosaminas, induzem mutações genéticas e inflamação crônica, culminando em carcinogênese pulmonar. Reduzir ou cessar o consumo de tabaco diminui significativamente o risco, e esse benefício é cumulativo, aumentando com o tempo sem fumar.
    • Exposição a radiações ionizantes: Embora a exposição a radiações ionizantes, como aquelas oriundas de tratamentos médicos ou exposições ocupacionais, aumente o risco de câncer, ela é menos prevalente e, muitas vezes, não modificável.
    • Poluição ambiental: A inalação de poluentes presentes no ar, como material particulado e substâncias resultantes da queima de combustíveis fósseis, é um fator de risco, mas com impacto menor em comparação ao tabagismo. No entanto, é uma preocupação de saúde pública, especialmente em áreas urbanas e industriais.
    • Histórico familiar de câncer de pulmão: Ter um histórico familiar da doença aumenta o risco, mas esse é um fator não modificável e atua sob a interação de predisposições genéticas e ambientais.

    Identificados os fatores, vamos analisar cada alternativa:

    • A) Exposição a radiações ionizantes: Embora seja um fator de risco para câncer de pulmão, é menos prevalente e frequentemente não é modificável, dependendo do contexto ocupacional ou médico. Exatamente por esse caráter não usual/menor ocorrência, raramente é o alvo para medidas de saúde pública em relação ao câncer de pulmão.
    • B) Histórico familiar de câncer de pulmão: Este é um fator de risco não modificável e, assim, fora do espectro de prevenção primordial e primária baseada em modificações de comportamento ou ambientais.
    • C) Tabagismo: Essa é a resposta correta e o principal alvo de intervenções de saúde pública e campanhas preventivas, dadas as amplas evidências que respaldam seu papel no aumento do risco de câncer de pulmão, além do seu status como hábito altamente modificável.
    • D) Poluição ambiental: Apesar de ser um fator de risco, o impacto individual da poluição é menor e mais desafiador de modificar em comparação ao tabagismo. As políticas de redução de poluição visam um impacto populacional a longo prazo, diferentemente da cessação do tabagismo, que exerce um impacto mais direto na saúde do indivíduo.

    Take-home mensagem: A prevenção primária do câncer de pulmão deve focar, sem sombra de dúvida, na cessação do tabagismo como intervenção central. Isso não apenas reduz o risco de câncer, mas também diminui a incidência de diversas outras doenças relacionadas ao tabaco. 

    Questão 79 — Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

    Um paciente de 60 anos de idade, com histórico de hipertensão e dislipidemia, compareceu à consulta com quadro de dor torácica intensa, sudorese e náusea. Ao exame físico, apresentou FC = 110 bpm, FR = 24 irpm e SatO2 = 92%. Qual o diagnóstico mais provável nesse caso?

    • A)

      Refluxo gastroesofágico

    • B)

      Pneumonia

    • C)

      Pericardite

    • D)

      Infarto agudo do miocárdio

      ✓

    Gabarito: D.

    Pessoal, essa questão aborda um tema crucial na prática médica: a dor torácica e suas possíveis causas. O paciente é um homem de 60 anos com histórico de hipertensão e dislipidemia, condições que são fatores de risco importantes para doença coronariana. Agora, vamos analisar o que poderia estar acontecendo com esse paciente.


    Caracterização do Quadro Clínico:

    O quadro envolve dor torácica intensa, sudorese, e náusea, combinado com taquicardia (FC = 110 bpm) e hipoxemia leve (SatO2 = 92%). Estes sintomas são bastante sugestivos de um evento cardíaco agudo, mais especificamente um infarto agudo do miocárdio (IAM).


    Fatores de Risco e Clínica do IAM:

    • Fatores de risco: idade avançada, hipertensão, dislipidemia, tabagismo, diabetes, história familiar de doença coronariana.
    • Sintomas: dor torácica anginosa que pode irradiar para o braço esquerdo, mandíbula ou costas; sudorese; náusea e/ou vômitos; falta de ar (dispneia).
    • Achados clínicos: frequentemente taquicardia, algumas vezes hipotensão, e em casos de IAM do ventrículo direito, pode haver elevação da pressão venosa jugular.

    Este paciente possui vários desses fatores e sintomas, o que fortalece a probabilidade de um IAM, especialmente considerando também a apresentação clínica. Em situações de suspeita de IAM, segundo a American College of Cardiology (ACC) e a American Heart Association (AHA), a recomendação é para conduzir de imediato um ECG e dosagem de troponina para confirmar o diagnóstico.


    Discussão das Alternativas:

    • A) Refluxo gastroesofágico: Apesar de também causar dor torácica, geralmente a dor é queimação e relacionada à alimentação, sem os componentes de sudorese e dispneia. Diagnóstico diferencial importante, mas menos provável sem outros sinais clínicos típicos de refluxo.
    • B) Pneumonia: Pode causar dor torácica pleurítica, febre, e às vezes náusea, mas geralmente acompanhada de sintomas respiratórios claros e achados auscultatórios como estertores crepitantes, não mencionados no caso.
    • C) Pericardite: Cursa com dor torácica que piora com a respiração e melhora quando o paciente se inclina para frente, sem os intensos sintomas autonômicos (sudorese, náusea) do IAM.
    • D) Infarto agudo do miocárdio (correta): Quadro clássico, fatores de risco presentes, sintomas compatíveis, usualmente alto na lista diferencial de dor torácica em serviços de pronto-atendimento.

    Take-home message: A dor torácica deve ser sempre abordada com uma alta suspeita para possíveis causas cardíacas, especialmente IAM, devido à sua gravidade e necessidade de intervenção imediata. Protocolos como o Guidelines from ACC/AHA são norteadores nestes casos e ajudam a manejar e diagnosticar efetivamente tais condições.

    Espero que essa análise ajude a esclarecer o raciocínio clínico fundamental para abordar casos de dor torácica em serviços de urgência!

    Questão 80 — Apendicite aguda

    A principal artéria do apêndice cecal é a artéria apendicular, que é um ramo direto da artéria

    • A)

      ileocólica.

      ✓
    • B)

      cólica média.

    • C)

      mesentérica superior.

    • D)

      cólica direita

    Gabarito: A.

    Questão interessante para memorizarmos a vascularização do apêndice cecal, pessoal! Essa é uma daquelas clássicas que caem direto em provas, principalmente de anatomia e cirurgia. Vamos destrinchar juntas as opções para entender melhor.

    O apêndice cecal é um órgão bem pequenino, mas seu suprimento sanguíneo é bastante específico e fundamental para evitar complicações, como a conhecida apendicite por isquemia. Então, vamos dar uma olhadinha no caminho que o sangue faz para irrigá-lo.

    A artéria apendicular é de fato quem leva o sangue diretamente ao apêndice. E para nossa memória anatômica, ela é um ramo da artéria ileocólica, que por sua vez é um ramo da artéria mesentérica superior. Portanto, percorrendo o caminho: artéria mesentérica superior → artéria ileocólica → artéria apendicular.

    Ela, a ileocólica, além de enviar ramos para o apêndice, também contribui na irrigação do íleo terminal e do ceco. Isso é importante relembrar nas situações cirúrgicas, como ressecções, evitando lesar a vascularização e causando mais isquemia.

    Bora relembrar as variações da vascularização do apêndice?  👀Fique de olho

    Fonte: Netter. Attlas of Human Anatomy.Acesso em 25 de Março de 2025.


    Agora, vamos olhar cada alternativa:


    • ✅A) ileocólica. Alternativa correta - Como já discutido, a artéria ileocólica é a responsável por emitir o ramo que irriga o apêndice, que é a artéria apendicular.
    • ❌B) cólica média. Alternativa incorreta - A arteria cólica média emerge da artéria mesentérica superior, mas vai principalmente para o cólon transverso, não tendo relação direta com a irrigação do apêndice.
    • ❌C) mesentérica superior. Alternativa incorreta - Apesar do apêndice receber sangue indiretamente da mesentérica superior, através dos ramos ileocólica e finalmente apendicular, a artéria mesentérica superior não é o ramo direto.
    • ❌D) cólica direita. Alternativa incorreta - Esta artéria se destina ao cólon ascendente, não participando da vascularização do apêndice diretamente.

    🏘️Take-home mensagem: Fixem na libeza que a artéria apendicular é um ramo da artéria ileocólica. É sempre bom lembrar dos detalhes anatômicos para clínica e cirurgias, prevenindo acidentes vasculares em intervenções. Saber percorrer cada caminho arterial é crucial! Espero que tenham gostado do passeio pela vascularização! E lembrem-se, esses temas são frequentemente abordados nos padrões de questões, então vale a pena reforçar!

    Questão 81 — Cirrose

    Um paciente de 52 anos de idade, etilista diário há 23 anos, procurou o pronto-socorro com queixa de aumento importante do volume abdominal e discreto edema em membros inferiores. Ao exame físico, observou-se sinal do piparote positivo, sendo realizada paracentese e exames laboratoriais, com os seguintes resultados: plaquetopenia = 100 mil/mm³; albumina sérica = 2,0 g/dL; INR = 2,1; líquido ascítico com proteína = 0,6 g/dL; celularidade com 300 cél/mm³; e 54% de polimorfonucleares. Tendo em vista esses resultados associados à história clínica, é correto afirmar que se trata de um caso de

    • A)

      ascite por cirrose hepática.

      ✓
    • B)

      peritonite bacteriana espontânea.

    • C)

      ascite de provável origem neoplásica.

    • D)

      peritonite bacteriana secundária.

    Gabarito: A.

    Na questão proposta, temos um paciente de 52 anos com longa história de etilismo, apresentando ascite e discreto edema em membros inferiores. Ao realizar a paracentese, foram observados achados laboratoriais específicos, e a pergunta é sobre o diagnóstico correto desse quadro.

    Vamos analisar o contexto apresentado:

    1. História Clínica: O paciente possui um longo histórico de consumo diário de álcool, o que é uma causa conhecida de cirrose hepática. A cirrose hepática leva à hipertensão portal, que é a principal causa de formação de ascite nesta condição. Um dos sinais físicos que sugerem a presença de ascite é o sinal do piparote positivo, uma manobra que detecta a presença de líquido ascítico no abdome.

    2. Achados da Paracentese e Laboratoriais:

    • Albumina sérica: baixa (2,0 g/dL), comum na cirrose devido à disfunção hepática.
    • INR: elevado (2,1), indicando coagulopatia, frequentemente associada a cirrose hepática devido à síntese deficiente de fatores de coagulação.
    • Contagem de plaquetas: baixa (100 mil/mm³), que pode ser devido à hipertensão portal e hiperesplenismo, ambos associados à cirrose.
    • Proteína do líquido ascítico: baixa (0,6 g/dL), indicando transudato. Segundo o critério de SAAG (Gradient de albumina soro-ascite), valores de proteína total abaixo de 2,5 g/dL no líquido ascítico com um gradiente de albumina soro-líquido ascítico superior a 1,1 g/dL sugerem hipertensão portal.
    • Celularidade: 300 cél/mm³ com predominância de polimorfonucleares (54%). Quando a contagem de polimorfonucleares é maior que 250 cél/mm³, há uma suspeita de peritonite bacteriana espontânea (PBE).

    Apesar da contagem de polimorfonucleares que sugeriria PBE, neste contexto, faltam dados clínicos e laboratoriais adicionais para confirmar uma infecção, como febre, dor abdominal ou alterações mais intensas no estado geral do paciente, além do curso do INR elevado que pode estar relacionado principalmente à função hepática comprometida.

    Considerando todos esses dados, a causa mais provável sugerida na descrição é ascite por cirrose hepática devido à hipertensão portal, que se reflete também pela coagulopatia (INR elevado) e plaquetopenia.

    Discussão das alternativas:

    • A) Ascite por cirrose hepática: Correto. Devido à combinação de sinais clínicos e laboratoriais que indicam hipertensão portal por cirrose.
    • ❌B) Peritonite bacteriana espontânea: Incorreto como principal diagnóstico. Embora a contagem de polimorfonucleares seja sugestiva, a ausência de sinais e sintomas infecciosos e questão contextualizam mais para a cirrose não complicada primariamente por PBE.
    • ❌C) Ascite de provável origem neoplásica: Incorreto. Ascite devido à neoplasia geralmente apresenta proteínas elevadas no líquido ascítico (exsudato), além de outras características clínicas e radiológicas específicas.
    • ❌D) Peritonite bacteriana secundária: Incorreto. Esta condição geralmente apresenta sinais de infecção severa, como febre alta, sinais peritoneais, e costuma ter achados no Gram como polimicrobianos.

    🏘️Take-home mensagem: A cirrose hepática é uma doença crônica que causa hipertensão portal, resultando em ascite, acúmulo de líquido no abdômen, com características de transudato e frequentemente associada à hipoalbuminemia, plaquetopenia e coagulopatia. A complicação grave da ascite é a peritonite bacteriana espontânea (PBE), uma infecção do líquido ascítico, que pode ser difícil de diagnosticar, mas é reconhecida pela presença de polimorfonucleares no líquido ascítico. O manejo envolve o uso de antibióticos de amplo espectro e o monitoramento rigoroso dos pacientes para evitar complicações fatais, como sepse e insuficiência orgânica.

    Questão 82 — Deficiência de micronutrientes

    Uma criança de 1 ano de idade foi levada para consulta de rotina. Na história clínica, a mãe referiu desmame completo aos 3 meses de vida, passando a ofertar leite de vaca integral. Negou uso de ferro oral até o momento. Foram solicitados exames complementares para avaliar possível deficiência de ferro. Qual é a alteração laboratorial inicial nos casos de deficiência de ferro?

    • A)

      Redução do ferro sérico

    • B)

      Redução da ferritina

      ✓
    • C)

      Microcitose

    • D)

      Anisocitose

    Gabarito: B.

    A questão aborda um cenário bastante comum na pediatria: a deficiência de ferro em crianças pequenas, principalmente naquelas que não recebem suplementação adequada após o desmame. O ferro é um nutriente essencial para a formação da hemoglobina e, consequentemente, para o transporte de oxigênio no organismo. Em crianças, a deficiência de ferro pode levar a problemas de desenvolvimento cognitivo e psicomotor, por isso a sua identificação precoce é crucial.

    Após o desmame, o leite de vaca não suplementado em ferro pode ser inadequado, contribuindo para o desenvolvimento de anemia ferropriva. A deficiência de ferro progride em estágios, sendo que as alterações laboratoriais surgem de forma sequencial:

    • Estágio 1: redução da ferritina sérica - a ferritina é a principal forma de estoque de ferro no organismo. Com a deficiência, ela é a primeira a ser depletada, tornando-se o marcador mais precoce de deficiência de ferro. É por isso que a redução da ferritina é a alteração laboratorial inicial.
    • Estágio 2: redução do ferro sérico e aumento da transferrina - com a diminuição dos estoques de ferro, o corpo começa a esgotar o ferro circulante, ao mesmo tempo que aumenta a produção de transferrina para captar mais ferro do meio externo.
    • Estágio 3: microcitose e, eventualmente, anisocitose - a produção inadequada de hemoglobina leva à formação de hemácias menores (microcitose) e com variações de tamanho (anisocitose), refletindo uma produção eritrocitária anômala.

    Além do reduzido aporte de ferro por meio do leite de vaca, a ausência de suplementação preventiva de ferro, uma prática comum recomendada por várias diretrizes, aumenta ainda mais o risco de desenvolvimento de anemia ferropriva nessa população.

    Vamos revisar as alternativas para esclarecer tudo:

    • ❌A) Redução do ferro sérico: Embora o ferro sérico eventualmente diminua, isso ocorre após a depleção dos estoques de ferro. Portanto, não é a primeira alteração observada.
    • ✅B) Redução da ferritina: Correta. A ferritina reflete diretamente os estoques de ferro do organismo e é o primeiro parâmetro a ser alterado na deficiência de ferro.
    • ❌C) Microcitose: A microcitose é uma manifestação mais tardia, refletindo a produção de hemácias deficientes em hemoglobina.
    • ❌D) Anisocitose: Semelhante à microcitose, a anisocitose também ocorre em etapas mais avançadas da anemia ferropriva.

    🏘️Take-home mensagem: 

    A questão trata da deficiência de ferro em crianças pequenas, especialmente naquelas sem suplementação adequada após o desmame, um problema relevante devido ao impacto no desenvolvimento cognitivo e psicomotor. O ferro é essencial para a formação da hemoglobina, e sua deficiência progride em estágios. A primeira alteração laboratorial observada é a redução da ferritina sérica, refletindo a depleção dos estoques de ferro. Com a progressão do quadro, ocorre redução do ferro sérico e aumento da transferrina, seguidos por microcitose e anisocitose, evidenciando uma produção eritrocitária anômala. O leite de vaca não fortificado contribui significativamente para essa deficiência, e a suplementação preventiva de ferro é uma estratégia fundamental para evitar a anemia ferropriva. Diante das alternativas, a correta é a redução da ferritina sérica (B), pois é o primeiro parâmetro a ser alterado, enquanto a microcitose, a anisocitose e a queda do ferro sérico ocorrem em estágios mais tardios.

    Questão 83 — Gota

    Homem de 67 anos, natural de Garanhuns (PE) e portador de doença renal crônica estágio 3, procura atendimento devido à dor súbita, intensa e inchaço no hálux direito, iniciados há 24 horas. O quadro começou durante a madrugada, após um jantar com carne vermelha, frutos do mar e consumo de cerveja artesanal. Relata que a dor piora até com o toque do lençol. No exame físico, a articulação metatarsofalangeana direita encontra-se quente, eritematosa, edemaciada e com limitação funcional marcada. Exames laboratoriais mostram ácido úrico 9,8 mg/dL, creatinina 1,9 mg/dL, VHS 35 mm/h e PCR 12 mg/L. Qual o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Artrite séptica.

    • B)

      Gota.

      ✓
    • C)

      Artrite psoriásica.

    • D)

      Condrocalcinose.

    • E)

      Artrite reativa.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    • Âncora de memorização: Podagra (primeira metatarsofalangeana) em homem idoso após excesso de purinas/álcool é apresentação clássica de crise de gota.


    Definição: Artrite inflamatória aguda, autolimitada, frequentemente monoarticular, em articulação do pé (especialmente primeira metatarsofalangeana).


    • Epidemiologia: Gota é a artrite inflamatória mais comum em homens >40 anos. Doença renal crônica aumenta risco por reduzir excreção de urato.

    • Etiologia/fatores precipitantes: Hiperuricemia por produção aumentada (purinas, álcool, frutose) e/ou excreção reduzida (doença renal crônica, diuréticos). Desencadeantes típicos: banquete com carne/frutos do mar + álcool, desidratação, trauma local.

    • Mecanismo: Deposição de cristais de urato monossódico na membrana sinovial → inflamação aguda mediada por inflamação inflamasomal (NLRP3) com dor intensa e rubor.

    • Padrão-ouro: Identificação de cristais de urato monossódico no líquido sinovial (agulha/alongados, birrefringência negativa forte à luz polarizada).

    • Clínico-laboratorial típico: Início noturno, dor intensa que piora ao toque do lençol, eritema/calor, hiperuricemia (apoia, mas não confirma), proteína C reativa/velocidade de hemossedimentação elevadas.

    • Como identificar no caso: Homem 67 anos, crise súbita de podagra após álcool e frutos do mar, dor ao toque do lençol, ácido úrico 9,8 mg/dL e doença renal crônica (fator de risco) → gota aguda.

    • Diferenciais-chave: Artrite séptica (febre/toxemia, punção obrigatória), condrocalcinose (joelho/punho, cristais de pirofosfato com birrefringência positiva fraca), artrite psoriásica (lesões cutâneas/unhas, padrão poli/oligo), artrite reativa (oligoartrite assimétrica pós-infecção, entesite/conjuntivite).

    • Armadilha de prova: Ácido úrico normal não afasta gota na crise; e hiperuricemia isolada não confirma sem clínica típica ou cristal.

    Conduta & Posologia (Crise de gota aguda)

    • Primeira linha (escolha conforme comorbidades/escala de dor/tempo ≤36 h): Anti-inflamatório não esteroidal, colchicina ou corticoide (oral/intra-articular). NÃO iniciar nem ajustar urato-redutora durante a crise (exceto se já em uso, manter).
    • Anti-inflamatório não esteroidal (exemplos): Naproxeno 500 mg VO 12/12 h; Ibuprofeno 600–800 mg VO 8/8 h; Indometacina 50 mg VO 8/8 h. Suspender após 2–3 dias sem dor (geralmente 5–7 dias).
    • Ajuste/alerta em doença renal crônica (TFG 30–59 mL/min/1,73 m²; estágio 3): Evitar anti-inflamatório não esteroidal pelo risco de nefrotoxicidade e descompensação; se absolutamente necessário, usar a menor dose pelo menor tempo e monitorar creatinina/potássio em 48–72 h.
    • Colchicina (melhor até 24–36 h de início): Esquema de baixa dose: 1 mg VO seguido de 0,5 mg VO após 1 hora no primeiro dia (total 1,5 mg). Depois, 0,5 mg VO 12/12 h até resolução (3–5 dias). Ajuste em DRC (TFG 30–59): considerar 0,5 mg VO 12/12 h sem dose de repetição precoce; não repetir curso em ≤14 dias. Interações críticas: Claritromicina, eritromicina, verapamil, diltiazem e antifúngicos azólicos ↑ toxicidade (miopatia/rabdomiólise), especialmente em DRC.
    • Corticoide sistêmico: Prednisona/Prednisolona 30–40 mg VO 1x/dia por 5–10 dias (sem desmame) OU por 5–7 dias e reduzir 5 mg a cada 2–3 dias até suspender. Alternativa parenteral: Metilprednisolona 40–60 mg IV dose única/dia por 1–3 dias se via oral indisponível.
    • Corticoide intra-articular (monoartrite): Triancinolona acetonida 10 mg (pequena articulação) a 20 mg (média) ou Acetato de metilprednisolona 20–40 mg, após excluir artrite séptica por punção.
    • Contraindicações principais: Anti-inflamatório não esteroidal em DRC estágio 3+, úlcera péptica ativa, insuficiência cardíaca descompensada. Colchicina com inibidores fortes de glicoproteína-P/CYP3A4 (claritromicina) especialmente em DRC. Corticoide intra-articular se suspeita de artrite séptica não afastada.
    • Efeitos adversos relevantes: Colchicina: diarreia, náuseas, miopatia/neuropatia (risco ↑ com estatinas e DRC). Anti-inflamatório não esteroidal: lesão renal aguda, sangramento gastrointestinal, descompensação cardiovascular. Corticoide: hiperglicemia, retenção hídrica, piora de hipertensão.
    • Critérios de internação/observação: Suspeita de artrite séptica, dor intratável, poliartrite incapacitante, impossibilidade de via oral, comorbidades descompensadas (insuficiência renal aguda, descompensação cardiovascular), imunossupressão importante.
    • Reavaliação: 48–72 h para controle de dor e tolerância medicamentosa; monitorar função renal e potássio se usar anti-inflamatório não esteroidal; orientar suspensão de álcool e dieta pobre em purinas no período.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) Artrite séptica.

    Alternativa incorreta. Embora todo monoartrite aguda exija afastar infecção, o quadro clássico pós-excesso de purinas/álcool, podagra, dor ao toque do lençol e ausência de toxemia favorecem gota. Artrite séptica tipicamente cursa com febre, queda do estado geral e deve ser confirmada por punção com cultura.

    ✅ B) Gota.

    Alternativa correta. Homem idoso, doença renal crônica (hiperuricemia por redução de excreção), gatilho dietético/álcool, primeira metatarsofalangeana inflamada, hiperuricemia e dor ao toque do lençol compõem a tríade clínica clássica de crise de gota (podagra).

    ❌ C) Artrite psoriásica.

    Alternativa incorreta. Espera-se associação com psoríase cutânea/unhas, padrão poli/oligoartricular com entesites e acometimento interfalangiano distal; início abrupto pós-excesso de purinas não é típico.

    ❌ D) Condrocalcinose.

    Alternativa incorreta. Mais comum em joelhos/punhos, idade avançada, com cristais de pirofosfato de cálcio (birrefringência positiva fraca) e calcificações condrais em radiografia; hálux comprometido após banquete alcoólico favorece gota.

    ❌ E) Artrite reativa.

    Alternativa incorreta. Geralmente ocorre 1–4 semanas após infecção entérica/urogenital, com oligoartrite assimétrica de membros inferiores, entesite e sintomas extra-articulares (uretrite/conjuntivite), ausentes aqui.


    Take-home message

    • Monoartrite aguda do hálux após álcool e frutos do mar = pensar primeiro em gota (podagra); padrão-ouro: cristal de urato com birrefringência negativa.
    • Tratamento inicial: anti-inflamatório não esteroidal, colchicina (baixa dose) ou corticoide; escolha guiada por comorbidades e tempo de início.
    • Esquema prático de colchicina: 1 mg VO + 0,5 mg após 1 h; depois 0,5 mg 12/12 h por 3–5 dias (ajustar em DRC).
    • Red flag: Evitar anti-inflamatório não esteroidal em DRC estágio 3+ e não usar colchicina com claritromicina.
    • Nunca esquecer de excluir artrite séptica na monoartrite aguda; se dúvida, puncionar e analisar o líquido sinovial.
    • Se já usa alopurinol/febuxostate, manter durante a crise; não iniciar urato-redutor no pico da dor.

    Questão 84 — Hipotireoidismo

    Mulher de 45 anos procura atendimento por fadiga progressiva, ganho de peso não explicado e constipação há seis meses. Relata pele mais ressecada, intolerância ao frio e sonolência excessiva. Menciona que a mãe teve “problema na tireoide” e usou hormônio por muitos anos. O exame mostra discreta lentificação psicomotora e pele fria. Os exames revelam TSH 12 mUI/L, T4 livre 0,6 ng/dL e anticorpo anti-TPO positivo. Qual é o diagnóstico e a conduta mais adequada?

    • A)

      Hipotireoidismo subclínico; apenas observar.

    • B)

      Tireoidite de Hashimoto; iniciar levotiroxina.

      ✓
    • C)

      Síndrome do eutiroideo doente; iniciar levotiroxina.

    • D)

      Tireotoxicose induzida por amiodarona; suspender a droga.

    • E)

      Doença de Graves; iniciar antitireoidiano.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: TSH alto com T4 livre baixo define hipotireoidismo primário clínico. Anti-TPO positivo sugere tireoidite de Hashimoto. Conduta de prova: iniciar levotiroxina com ajuste por TSH em 6–8 semanas.


    Definição: Hipotireoidismo clínico = TSH elevado com T4 livre baixo. Hipotireoidismo subclínico = TSH alto com T4 livre normal.


    • Epidemiologia: Hipotireoidismo adquirido é frequente em mulheres de meia-idade. No Brasil, a principal causa é tireoidite de Hashimoto (autoimune).

    • Etiologia: Autoimune (anti-peroxidase tireoidiana positivo), pós-iodo, pós-cirurgia, pós-radiação, fármacos (amiodarona, lítio), deficiência de iodo (menos comum após iodação do sal).

    • Marcador autoimune: Anti-TPO positivo apoia tireoidite de Hashimoto, mas o diagnóstico funcional é bioquímico (TSH/T4 livre).

    • Quadro típico: Fadiga, ganho ponderal, constipação, pele seca, intolerância ao frio, sonolência; exame pode mostrar lentificação psicomotora e pele fria.

    • Aplicação ao caso: TSH 12 mUI/L + T4 livre 0,6 ng/dL + anti-TPO positivo = hipotireoidismo primário clínico por tireoidite de Hashimoto.

    Conduta & Posologia 

    • Tratamento de primeira linha: Levotiroxina sódica VO, tomada em jejum (30–60 min antes do café) ou à noite (≥3–4 h após última refeição).
    • Esquema para adulto <60 anos, sem cardiopatia: dose de reposição total 1,6 mcg/kg/dia (usar peso ideal/ajustado). Alternativa prática: iniciar 50–75 mcg/dia e titular.
    • Idosos ou doença coronariana: iniciar 12,5–25 mcg/dia, aumentando 12,5–25 mcg a cada 6–8 semanas, conforme TSH, monitorando angina/arrítmias.
    • Ajustes e meta: Reavaliar TSH em 6–8 semanas após cada ajuste. Meta típica: TSH no intervalo de referência do laboratório (aprox. 0,5–4,5 mUI/L). Manutenção: checar TSH 6–12 meses e quando houver mudanças de dose/adesão.
    • Gestação (se aplicável): ao confirmar, elevar dose em ~25–30% (ex.: +2 comprimidos extras/semana) e monitorar TSH/T4L a cada 4 semanas no 1º–2º trimestres; usar intervalos de referência gestacionais.
    • Insuficiência renal/hepática: sem ajuste fixo, mas pode exigir doses menores; titular por TSH e sinais clínicos.
    • Interações críticas: ferro, cálcio, antiácidos/quelantes, inibidores de bomba de prótons, soja, colestiramina reduzem absorção. Separar por ≥4 horas. Evitar uso concomitante com alimentos.
    • Contraindicações: Hipersensibilidade ao fármaco. Cautela em coronariopatas e idosos (iniciar baixo e ir devagar).
    • Efeitos adversos (geralmente por excesso): palpitações, tremor, perda de peso, ansiedade, insônia; risco de angina/FA em predispostos; perda óssea com supressão crônica do TSH.
    • Cenários de internação: Quadro é ambulatorial. Internar em suspeita de coma mixedematoso (hipotermia, rebaixamento, hipoventilação, hiponatremia, bradicardia/hipotensão) para suporte intensivo e levotiroxina/tri-iodotironina parenteral conforme protocolos especializados.

    Armadilhas de prova:

    • - TSH alto + T4L baixo = sempre tratar com levotiroxina (não é subclínico).
    • - Síndrome do eutireóideo doente cursa com pacientes graves hospitalizados; não se trata com levotiroxina.
    • - Amiodarona geralmente causa disfunção tireoidiana em usuários da droga; aqui não há história de uso.

    Discussão das alternativas

    ❌ A) Hipotireoidismo subclínico; apenas observar.

    Alternativa incorreta. Subclínico exige T4 livre normal. Neste caso, T4 livre está baixo, configurando hipotireoidismo clínico, que não deve ser apenas observado; é obrigatória a reposição com levotiroxina.

    ✅ B) Tireoidite de Hashimoto; iniciar levotiroxina.

    Alternativa correta. Anti-TPO positivo indica etiologia autoimune (Hashimoto). O padrão-ouro terapêutico do hipotireoidismo clínico é levotiroxina 1,6 mcg/kg/dia VO (ou início com 50–75 mcg/dia e titulação) com ajuste por TSH em 6–8 semanas, conforme diretrizes brasileiras.

    ❌ C) Síndrome do eutiroideo doente; iniciar levotiroxina.

    Alternativa incorreta. A síndrome do eutireóideo doente ocorre em pacientes criticamente enfermos, com alterações de T3/T4 sem hipotireoidismo primário; não se trata com hormônio tireoidiano. Aqui há TSH alto com T4L baixo e quadro ambulatorial crônico, compatível com hipotireoidismo clínico.

    ❌ D) Tireotoxicose induzida por amiodarona; suspender a droga.

    Alternativa incorreta. Não há uso de amiodarona e o laboratório mostra hipotireoidismo (TSH alto, T4L baixo), não tireotoxicose (TSH baixo, T4/T3 altos). A conduta aqui não é suspender amiodarona, mas repor levotiroxina.

    ❌ E) Doença de Graves; iniciar antitireoidiano.

    Alternativa incorreta. Doença de Graves cursa com hipertiroidismo (TSH suprimido, T4/T3 altos) e anticorpo estimulador do receptor de TSH; trata-se com antitireoidianos. O caso é hipotireoidismo clínico por Hashimoto, cujo tratamento é levotiroxina.


    Take-home message

    • TSH alto + T4 livre baixo = hipotireoidismo clínico; anti-TPO positivo sugere Hashimoto.
    • Tratamento-padrão: Levotiroxina 1,6 mcg/kg/dia VO (ou iniciar 50–75 mcg/dia) e ajustar pelo TSH a cada 6–8 semanas.
    • Idosos/coronariopatas: começar baixo (12,5–25 mcg/dia) e titular devagar, monitorando sintomas cardíacos.
    • Orientar jejum e separar ferro/cálcio/antiácidos por ≥4 horas para evitar má absorção.
    • Red flag: não tratar subclínico como clínico e vice-versa; confirmar pelo T4 livre.
    • Internação apenas em coma mixedematoso; casos ambulatoriais são manejados na atenção primária com seguimento periódico.

    Questão 85 — Trauma Vascular de Extremidades

    Homem de 28 anos, vítima de colisão moto-carro, é admitido no pronto-socorro cerca de 40 minutos após o trauma. Encontra-se agitado, pálido, sudoreico e com dificuldades para falar frases completas. Ao exame inicial, observa-se sangramento ativo pulsátil em ferimento extenso de coxa esquerda, fratura exposta visível e extremidades frias. Sinais vitais aferidos: FC 146bpm, PA 80x42mmHg, FR 28irpm, SpO2 90% em uso de máscara de oxigênio. Diante do quadro exposto, qual seria a conduta imediata mais adequada?

    • A)

      Avaliação pupilar e escala de Glasgow.

    • B)

      Aplicação de torniquete proximal ao ferimento da coxa.

      ✓
    • C)

      Acesso venoso calibroso e reposição volêmica.

    • D)

      Intubação orotraqueal com sequência rápida.

    • E)

      Punção torácica bilateral de alívio.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: No trauma, a sequência XABCDE prioriza controle imediato de hemorragia externa maciça (X) antes de via aérea. Torniquete salva-vida quando há sangramento pulsátil não controlável em membros.


    Epidemiologia: Trauma de alta energia (moto) em adulto jovem é principal causa de morte evitável por hemorragia nas primeiras horas.


    • Etiologia da instabilidade: Sangramento arterial pulsátil em coxa + sinais de choque (taquicardia, hipotensão, extremidades frias, alteração do sensório) = choque hemorrágico grave por lesão vascular de membro.

    • O que é: Hemorragia externa maciça = sangramento pulsátil, jato, que encharca curativos rapidamente ou poça no chão; risco iminente de exsanguinação.

    • Classificação de prioridade (XABCDE): X (exsanguinação) → A → B → C → D → E. Neste caso, X presente: sangramento pulsátil de coxa.

    • Choque hemorrágico provável (III/IV): FC 146 bpm, PA 80x42 mmHg, pele fria/úmida, alteração do nível de consciência por hipoperfusão.

    Conduta

    • Passo imediato (X): Aplicar torniquete comercial (ou improvisado largo) 5 a 7 cm proximal ao ferimento, não sobre articulações; apertar até cessar o sangramento/pulso distal; anotar hora. Não afrouxar periodicamente.
    • Se torniquete indisponível: Compressão direta vigorosa com curativo compressivo e hemostáticos tópicos, enquanto se providencia torniquete.
    • Após controlar X: Prosseguir com A/B (oxigênio alto fluxo, considerar via aérea se rebaixar) e C (2 acessos calibrosos, protocolo de transfusão maciça conforme necessidade, hipotensão permissiva se sem traumatismo cranioencefálico).
    • Indicações clássicas de torniquete: Hemorragia de membro não controlável com pressão direta; amputação traumática; cenário tático/tempo prolongado até hemostasia definitiva.
    • Cuidados e contraindicações práticas: Evitar sobre ferida/articulação; não cobrir com roupa/curativo que impeça reavaliação; não soltar no pré-hospitalar/porta. Reavaliar perfusão distal e hemostasia a cada 5–10 min.
    • Critérios de sala de operação/UTI: Choque refratário, necessidade de hemostasia cirúrgica/embolização, fratura exposta com lesão vascular. Observação/ambulatorial não se aplica em choque.

    Mini-exemplo: Ferimento de coxa com jato pulsátil e hipotensão: primeiro torniquete; só então acesso venoso e via aérea, conforme XABCDE.


    Discussão das alternativas

    ✅ B) Aplicação de torniquete proximal ao ferimento da coxa.

    Alternativa correta. Corresponde ao "X" do XABCDE: controlar hemorragia externa maciça imediatamente. Sangramento arterial pulsátil em membro com choque impõe torniquete proximal, largo, apertado até hemostasia e com hora registrada. Isso previne exsanguinação e permite seguir para A/B/C.

    ❌ A) Avaliação pupilar e escala de Glasgow.

    Alternativa incorreta. "D" do XABCDE. Em hemorragia externa maciça, a prioridade é X (torniquete). Avaliação neurológica vem após controlar sangramento e assegurar A/B/C iniciais.

    ❌ C) Acesso venoso calibroso e reposição volêmica.

    Alternativa incorreta. Integra "C" do XABCDE. Sem hemostasia, a reposição piora coagulopatia por diluição e não resolve a causa. Primeiro controle da fonte (torniquete), depois acesso/hemocomponentes conforme necessidade.

    ❌ D) Intubação orotraqueal com sequência rápida.

    Alternativa incorreta. Via aérea é "A". O paciente fala frases curtas (via aérea pérvia, embora taquipneico). Em choque por hemorragia massiva de membro, a conduta imediata é torniquete; IOT pode ser necessária após hemostasia inicial e otimização hemodinâmica.

    ❌ E) Punção torácica bilateral de alívio.

    Alternativa incorreta. Indicada em suspeita de pneumotórax hipertensivo (desconforto grave, ausência de murmúrio, choque, turgência jugular/desvio traqueal). O caso descreve fonte óbvia de choque (hemorragia de coxa). Fazer punção de alívio sem critérios é erro.


    Take-home message

    • No trauma: siga XABCDE. Hemorragia externa maciça (X) é controlada antes da via aérea.
    • Torniquete: aplicar 5–7 cm proximal ao ferimento, não sobre articulações, apertar até cessar sangramento e anotar hora.
    • Após controlar X, prossiga com A/B/C e encaminhe para hemostasia definitiva (centro cirúrgico/intervenção).
    • Red flag: Não iniciar reposição volêmica ou IOT antes de controlar a hemorragia externa maciça.
    • Se torniquete indisponível: compressão direta e curativo compressivo até conseguir o dispositivo.
    • Reavaliar hemostasia e perfusão distal a cada 5–10 min; não afrouxar o torniquete no pré-hospitalar/porta.

    Questão 86 — LESÃO RENAL AGUDA (LRA) - Rabdomiólise

    Um jovem paciente é vítima de acidente ofídico por uma serpente do gênero crotálico e desenvolve Injúria Renal Aguda (IRA) grave com urina escurecida. Qual é o mecanismo mais provável da etiologia dessa IRA?

    • A)

      Efeito direto do veneno no rim.

    • B)

      Rabdomiólise.

      ✓
    • C)

      Coagulopatia.

    • D)

      Síndrome compartimental.

    Gabarito: B.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Crotalus (cascavel) = neurotoxina + miotoxicidade intensa (CPK muito elevada) → rabdomiólise → mioglobinúria (urina escura tipo “coca-cola”) → lesão tubular aguda por pigmentos (IRA).


    O que é: Rabdomiólise é destruição de fibras musculares com liberação de CPK, potássio e mioglobina; a mioglobina precipita nos túbulos renais (especialmente em pH ácido), gerando necrose tubular aguda.

    Por que importa: Na crotálica, a principal causa de IRA é a mioglobinúria por rabdomiólise, não coagulopatia. Tratar cedo com soro e hidratação agressiva reduz necessidade de diálise.

    Como identificar: dor/rigidez muscular, urina escura, CPK > 5x o limite superior (frequentemente >5.000 UI/L), creatinina ascendente, hipercalemia, hipocalcemia inicial.

    - Mini-exemplo: jovem com mordida de cascavel, ptose/dispneia leve, urina coca-cola e CPK 15.000 UI/L → pense em rabdomiólise.

    Mecanismo fisiopatológico-chave: miotoxinas crotálicas (p.ex., crotoxina) lesionam sarcolema → liberação maciça de mioglobina → filtração glomerular → precipitação intratubular (pH urinário ácido) + vasoconstrição renal → LRA por necrose tubular aguda.


    Conduta & Posologia

    • Soro antiofídico (SAC) – anticrotálico: iniciar o mais precoce possível (ideal < 6 h). Adultos e crianças: mesmas doses.
      • Leve: 5 ampolas IV em 30–60 min
      • Moderado: 10 ampolas IV
      • Grave: 20 ampolas IV
      Diluir em 250–500 mL de SF 0,9% e infundir em 1 h, com monitorização contínua. Repetir dose se falha de reversão (ex.: neurotoxicidade em progressão/CPK ascendente nas primeiras horas).
    • Hidratação para rabdomiólise: iniciar com SF 0,9% 10–20 mL/kg em 1 h; após, manter 1–2 mL/kg/h para diurese alvo > 1–1,5 mL/kg/h. Ajustar em IC/descompenso.
    • Alcalinização urinária (se CPK > 5.000 UI/L e sem hipocalcemia grave/ICC): Bicarbonato de sódio 1–2 mEq/kg (bolus) seguido de infusão (ex.: D5% + 75–100 mEq de bicarbonato a 100–150 mL/h) para urina pH > 6,5. Suspender se alcalose/hipocalcemia/hipernatremia.
    • Controle de complicações: hipercalemia (algoritmo: cálcio EV, insulina + glicose, beta-agonista, diurético se indicado), correção de distúrbios ácido-base, analgesia com opioide/ dipirona (evitar AINE).
    • Hemodiálise: se hipercalemia refratária, acidose grave, hipervolemia ou uremia com sintomas apesar de suporte.
    • Profilaxias e monitorização: antitetânica se esquema incompleto; vigiar anafilaxia ao soro (adrenalina IM se necessário) e doença do soro tardia. Monitorar a cada 4–6 h: PA, diurese, creatinina, K+, CPK, gasometria.
    • Contraindicações: Não há contraindicação absoluta ao soro em gestantes/lactantes/idosos quando há indicação; risco-benefício favorece tratar.
    • Efeitos adversos relevantes do soro: anafilaxia precoce, reação pirogênica, doença do soro (7–10 dias).
    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Todo acidentado crotálico com soro → internar ao menos 24 h. UTI se neurotoxicidade respiratória, IRA grave, hipercalemia, choque, ou anafilaxia grave. Tempo de reavaliação: contínuo nas primeiras 6–12 h.

    Armadilhas de prova:

    • Crotalus causa coagulopatia discreta; a IRA é predominantemente por rabdomiólise, não por DIC.
    • Urina escura em crotálico = mioglobina (não hemoglobina). EAS: dipstick positivo para sangue, mas poucas hemácias no sedimento.
    • Fasciotomia não é de rotina; só com pressões > 30–40 mmHg após soro e medidas clínicas.

    Discussão das alternativas

    ✅ B) Rabdomiólise.

    Alternativa correta. Miotoxinas crotálicas → rabdomiólise → mioglobinúria (urina escura) → necrose tubular aguda por pigmentos. A hidratação precoce e o soro anticrotálico reduzem a progressão para diálise.

    ❌ A) Efeito direto do veneno no rim.

    Alternativa incorreta. Nefrotoxicidade direta não é o mecanismo principal na crotálica; o padrão é lesão tubular por mioglobina. Hipoperfusão pode contribuir, mas não é o mecanismo dominante.

    ❌ C) Coagulopatia.

    Alternativa incorreta. Coagulopatia grave é típica do Bothrops. Na crotálica, alterações de coagulação existem mas não explicam a IRA; a via principal é a rabdomiólise.

    ❌ D) Síndrome compartimental.

    Alternativa incorreta. Pode ocorrer em envenenamentos com edema importante (mais comum em botrópico), porém é raro na crotálica e não explica a urina escura típica por mioglobina.


    Take-home message

    • Crotalus → neurotoxina + miotoxina: IRA por rabdomiólise/mioglobinúria é o mecanismo central.
    • Urina "coca-cola" + CPK muito elevada sugerem rabdomiólise; dipstick positivo para sangue com poucas hemácias no sedimento.
    • Tratamento de primeira linha: Soro anticrotálico 5–20 ampolas IV conforme gravidade + hidratação vigorosa para diurese > 1–1,5 mL/kg/h.
    • Atraso no soro aumenta risco de IRA e necessidade de diálise. Não usar AINE na dor do envenenamento.
    • Alcalinizar urina se CPK muito alta e sem contraindicações, visando pH urinário > 6,5.


    Questão 87 — Questão

    A hemorragia que ocorre quando há eliminação de sangue proveniente do trato respiratório inferior, pulmões ou brônquios é denominada de

    • A)

      hemoptise.

      ✓
    • B)

      epistaxe.

    • C)

      melena.

    • D)

      hematêmese.

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Em prova, a chave é diferenciar hemoptise (tosse com sangue do trato respiratório inferior) de sangramentos de outras origens (nasal e gastrointestinais), pois muda a via de avaliação e a conduta inicial (via aérea primeiro).


    O que é: Hemoptise é a eliminação de sangue pela tosse, originado dos brônquios, parênquima pulmonar ou traqueia (trato respiratório inferior).


    Por que importa: Pode ser autolimitada, mas a forma maciça ameaça a vida por asfixia e choque. A prioridade é proteger a via aérea e localizar a fonte para controle do sangramento.


    Como identificar: Anamnese de tosse com sangue vermelho vivo, espumoso, associado a sintomas respiratórios (dispneia, sibilância). Diferença-chave: hematêmese cursa com náuseas e vômitos, conteúdo escuro com restos alimentares; epistaxe posterior pode simular hemoptise (deglutição e posterior eliminação).


    Classificação de gravidade: maciça quando volume estimado >150–200 mL em 24h, ou sangramento que causa instabilidade hemodinâmica, hipoxemia, ou ameaça de obstrução de via aérea. Essas situações definem urgência e via aérea definitiva.


    Conduta & Posologia


    • ABCDE da emergência: Oxigênio alvo SpO2 92–96%; posicionar o paciente com o pulmão sangrante para baixo; preparar para via aérea definitiva se rebaixamento do nível de consciência ou sangramento abundante.

    • Via aérea definitiva: Intubação orotraqueal com tubo de lúmen grande (≥8,0) para broncoscopia terapêutica; considerar intubação seletiva/bronco bloqueador se sangramento unilateral.

    • Broncoscopia rígida/flexível: Diagnóstica e terapêutica (lavagem com soro gelado, adrenalina tópica, tamponamento, eletrocoagulação) quando disponível.

    • Antifibrinolítico (opcional, adjuvante): Ácido tranexâmico nebulizado 500 mg em 4 mL, 3–4x/dia; ou IV 1 g a cada 8 horas por até 24–48h, se sem contraindicações.

    • Contraindicações ao ácido tranexâmico: História de tromboembolismo ativo, coagulopatia por CID sem controle, hematúria de trato urinário alto.

    • Efeitos adversos relevantes (ácido tranexâmico): Náuseas, tontura; raros eventos trombóticos e convulsões em altas doses IV.

    • Ajustes (ácido tranexâmico): DRC: reduzir dose/intervalo se TFG <60 mL/min (ex.: 10 mg/kg IV 12/12h em TFG 30–59; 24/24h em TFG 15–29). Evitar em gestação sem avaliação de risco/benefício.

    • Controle etiológico: Tratar causa de base (ex.: antibióticos em bronquiectasias agudizadas; corticoide em vasculite, se indicado; suspender anticoagulantes se seguro; corrigir coagulopatias com plasma ou complexo protrombínico).

    • Embolização arterial brônquica: Primeira linha para hemoptise recorrente ou maciça após estabilização e localização vascular.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar/UTI se maciça, necessidade de O2 suplementar, Hb em queda (> 2 g/dL), instabilidade hemodinâmica, comorbidades graves, anticoagulação difícil de reverter ou sem diagnóstico definido. Ambulatorial apenas se pequena, autolimitada, sem hipóxia ou instabilidade e com causa benigna conhecida, com reavaliação em 24–48h.

    Discussão das alternativas


    ✅ A) hemoptise.

    Alternativa correta. Define sangramento eliminado pela tosse e originado do trato respiratório inferior (brônquios ou pulmões). É o termo técnico exigido quando o sangue vem do aparelho respiratório.


    ❌ B) epistaxe.

    Alternativa incorreta. Epistaxe é sangramento nasal. Pode confundir por deglutição e posterior eliminação, mas a fonte é a cavidade nasal, não os pulmões.


    ❌ C) melena.

    Alternativa incorreta. Melena é fezes negras e pastosas por degradação de sangue no TGI alto. Não é eliminação pela tosse.


    ❌ D) hematêmese.

    Alternativa incorreta. Hematêmese é vômito com sangue (TGI), geralmente com náusea/pródromos; o sangue pode ser vivo ou em “borra de café”. Não envolve vias aéreas inferiores.


    Take-home message


    • Hemoptise = sangue pela tosse, origem no trato respiratório inferior; diferenciar de epistaxe e hematêmese.
    • Gravidade clínica supera o volume: hipoxemia, instabilidade e risco de obstrução definem urgência e UTI.
    • Conduta inicial: posicionar pulmão doente para baixo, oxigênio, via aérea com tubo grande e broncoscopia quando disponível.
    • Ácido tranexâmico pode ser adjuvante: 500 mg nebulizado 3–4x/dia ou 1 g IV 8/8h por curto prazo, se sem contraindicação.
    • Red flag: não atrasar broncoscopia ou embolização em hemoptise maciça ou recorrente.

    Questão 88 — Espondiloartropatias

    Qual é a manifestação extra-articular mais prevalente nas espondiloartrites?

    • A)

      Pleurite.

    • B)

      Nefrite intersticial.

    • C)

      Serosite pericárdica.

    • D)

      Uveíte anterior aguda.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Nas espondiloartrites, a manifestação extra-articular mais prevalente é a uveíte anterior aguda. Cai porque diferencia espondiloartrites de artrites autoimunes sistêmicas (ex.: lúpus).


    O que é: Uveíte anterior aguda = inflamação da íris/corpo ciliar, típica em HLA-B27. Curso súbito, unilateral, recorrente.


    Por que importa: É a pista clínica extra-articular mais comum na espondiloartrites e pode causar perda visual se não tratada precocemente.


    Como identificar: Dor ocular + fotofobia + hiperemia pericerática (injetado ciliar) + turvação visual. Na lâmpada de fenda: cells & flare em câmara anterior; pode haver sinequias e hipopião.


    Mecanismo essencial: Resposta inflamatória mediada por HLA-B27 com infiltração de células na câmara anterior; recorrência associada à atividade da espondiloartrite.


    Conduta & Posologia


    • Objetivo: Suprimir inflamação intraocular, prevenir sinequias e preservar visão. Encaminhamento urgente ao oftalmologista (ideal em 24–48h).

    • Corticosteroide tópico (primeira linha): Prednisolona acetato 1% colírio, 1 gota a cada 1 h na fase aguda; reduzir gradualmente conforme resposta (ex.: diminuir para 2/2h, depois 4/4h, até suspender em 4–6 semanas).

    • Cicloplegico/midriático (prevenir sinequias/dor): Ciclopentolato 1% 8/8 h ou Atropina 1% 12/12–24/24h.

    • Corticosteroide sistêmico (casos graves/refratários/bilaterais): Prednisona 0,5–1 mg/kg/dia VO, desmame conforme resposta; considerar metilprednisolona EV em pulso se ameaça visual.

    • Poupadores de corticoide (recorrência frequente ou dependência): Anti-TNF (ex.: Adalimumabe 40 mg SC a cada 2 semanas; Infliximabe 5 mg/kg EV nas semanas 0, 2, 6 e depois 8/8 semanas), conforme protocolo reumatológico.

    • Ajustes/precauções: Tópicos sem ajuste renal/hepático. Sistêmicos: monitorar glicemia, PA, risco de infecção; evitar em infecção ativa. Anti-TNF requer rastreamento de TB e hepatites antes de iniciar.

    • Contraindicações relevantes: Corticoide tópico com cautela em glaucoma/não controlar pressão intraocular; anti-TNF em TB ativa, insuficiência cardíaca avançada, esclerose múltipla.

    • Efeitos adversos: Corticoide tópico: hipertensão ocular, catarata. Sistêmico: hiperglicemia, osteoporose, infecções. Anti-TNF: reativação de TB/hepatite B, infecções oportunistas.

    • Critérios de urgência/internação vs ambulatorial: Ambulatorial com retorno em 24–72h. Internar se ameaça imediata à visão (hipopião extenso, pressão intraocular descontrolada, dor intensa com redução acentuada de AV), necessidade de EV, impossibilidade de adesão.

    Discussão das alternativas


    ✅ D) Uveíte anterior aguda.

    Alternativa correta. É a manifestação extra-articular mais comum nas espondiloartrites, especialmente na espondilite anquilosante e doença relacionada ao HLA-B27. Quadro típico: dor ocular, fotofobia, hiperemia ciliar e turvação visual; confirma-se à lâmpada de fenda.


    ❌ A) Pleurite.

    Alternativa incorreta. Pleurite é mais característica de lúpus eritematoso sistêmico e, menos, de artrite reumatoide. Nas espondiloartrites, acometimento pleural é raro e não é a manifestação extra-articular predominante.


    ❌ B) Nefrite intersticial.

    Alternativa incorreta. O comprometimento renal mais associado às espondiloartrites, quando presente, tende a ser nefropatia por IgA, não nefrite intersticial. Trata-se de manifestação incomum e não a principal extra-articular.


    ❌ C) Serosite pericárdica.

    Alternativa incorreta. Pericardite/serosite é típica de doenças como lúpus. Nas espondiloartrites ocorre raramente e não figura entre as manifestações extra-articulares de maior prevalência.


    Take-home message


    • Espondiloartrites: a manifestação extra-articular mais prevalente é a uveíte anterior aguda.
    • Sinais chave da uveíte anterior aguda: dor ocular, fotofobia, hiperemia ciliar e células/flare na câmara anterior (lâmpada de fenda).
    • Primeira linha: corticoide tópico intensivo + cicloplégico (ex.: Prednisolona 1% 1/1h + Ciclopentolato 1% 8/8h) e desmame lento.
    • Casos graves/recorrentes: considerar prednisona VO 0,5–1 mg/kg/dia e/ou anti-TNF conforme critérios reumatológicos.
    • Red flags: ameaça visual, hipopião extenso, PIO descontrolada → avaliação urgente; evitar anti-TNF sem rastrear TB/hepatites.
    • Armadilha de prova: confundir uveíte anterior aguda com conjuntivite; na uveíte anterior aguda há fotofobia marcada, dor e reação de câmara anterior.

    Questão 89 — Encefalopatias epilépticas

    Qual recurso é utilizado na avaliação de encefalopatia neonatal?

    • A)

      Escala de Glasgow.

    • B)

      Escala de Braden.

    • C)

      Escore de Wells.

    • D)

      Escore de Sarnat.

      ✓

    Gabarito: D.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Encefalopatia hipóxico-isquêmica neonatal é graduada clinicamente pelo Estadiamento de Sarnat. Define a gravidade e elegibilidade para hipotermia terapêutica nas primeiras 6h de vida.


    O que é: Encefalopatia neonatal é disfunção neurológica nas primeiras 72h de vida, frequentemente por asfixia perinatal, caracterizada por alteração de nível de consciência, tônus, reflexos, respiração e convulsões.


    Por que importa: Estadiar a encefalopatia hipóxico-isquêmica com Sarnat orienta prognóstico e indica hipotermia terapêutica (neuroproteção). Estágio II–III = alto risco de lesão cerebral.


    Como identificar: Sarnat avalia 6 domínios: nível de consciência, atividade motora/tônus, reflexos do tronco, pupilas, respiração e convulsões. I (leve), II (moderada), III (grave). Complementos: gasometria (pH), Apgar, necessidade de reanimação, aEEG/EEG, neuroimagem.


    Armadilha de prova: Escalas gerais (Glasgow) não se aplicam ao RN; instrumentos de risco de úlcera (Braden) e trombose (Wells) não têm relação com a encefalopatia hipóxico-isquêmica.


    Escore de Sanart. Retirado de https://ints.org.br/wp-content/uploads/2024/08/PR.CMED_.045-00-Encefalopatia-hipoxico-isquemica.pdf, acesso em 23/01/2026.


    Conduta & Posologia


    • Critérios para hipotermia terapêutica (iniciar até 6h de vida): RN ≥ 35 semanas e ≥ 1800 g; evidência de asfixia (pH artéria/veia umbilical ou gaso nas 1ª h < 7,0 ou base deficit ≥ 16 mmol/L; ou Apgar ≤ 5 no 10º min; ou ventilação/reaeração ≥ 10 min) e encefalopatia moderada/grave (Sarnat II–III) e/ou aEEG alterado.

    • Hipotermia terapêutica: alvo 33,5°C (32–34°C) por 72h; reaquecimento lento 0,25–0,5°C/h até 36,5–37°C. Monitorizar ECG, aEEG, PA, diurese, coagulograma, glicemia, eletrólitos.

    • Sedação/analgesia (se agitação/dor durante hipotermia): Morfina 10–20 mcg/kg/h EV contínuo ou Fentanil 1–2 mcg/kg/h EV. Ajustar por bradicardia/hipotensão.

    • Anticonvulsivantes (se crises): Fenobarbital 20 mg/kg EV em 20–30 min; se necessário, cargas adicionais de 10 mg/kg (até 40 mg/kg). Manutenção: 3–5 mg/kg/dia EV/VO. Alternativa: Levetiracetam 40–60 mg/kg EV carga, manutenção 20–30 mg/kg/dia.

    • Ajustes e precauções: Fenobarbital e morfina exigem redução de dose/intervalo em DRC e disfunção hepática. Monitorizar níveis séricos quando disponível.

    • Contraindicações à hipotermia: IG < 35 semanas, peso < 1800 g, anomalia congênita maior incompatível com vida, coagulopatia grave não controlada, choque refratário.

    • Efeitos adversos relevantes da hipotermia: bradicardia sinusal, prolongamento do QT, trombocitopenia/coagulopatia, hiperglicemia/hipoglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos.

    • Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Todo RN com suspeita de encefalopatia hipóxico-isquêmica (qualquer Sarnat) deve ser internado em UTI Neonatal. Reavaliação neurológica seriada e aEEG contínuo nas primeiras 24–72 h.


    Discussão das alternativas


    ✅ D) Escore de Sarnat.

    Alternativa correta. O estadiamento de Sarnat (I–III) é o padrão clínico para classificar a EHI, orientar prognóstico e indicar hipotermia terapêutica nas primeiras 6 horas.


    ❌ A) Escala de Glasgow.

    Alternativa incorreta. Glasgow é validada para adultos e crianças maiores; não engloba os reflexos primitivos, tônus e padrão respiratório do RN. Não é instrumento de estadiamento da encefalopatia hipóxico-isquêmica.


    ❌ B) Escala de Braden.

    Alternativa incorreta. Braden avalia risco de lesão por pressão, sem relação com avaliação neurológica neonatal.


    ❌ C) Escore de Wells.

    Alternativa incorreta. Wells estima probabilidade de TVP/TEP em adultos; não se aplica à encefalopatia neonatal.


    Take-home message


    • Use o Estadiamento de Sarnat para classificar encefalopatia hipóxico-isquêmica (I–III) nas primeiras 72 h.
    • Elegibilidade para hipotermia: RN ≥ 35 semanas, evidência de asfixia + Sarnat II–III e/ou aEEG alterado, iniciar < 6h.
    • Hipotermia alvo 33,5°C por 72h, reaquecendo 0,25–0,5°C/h com monitorização intensiva.
    • Crises: tratar com Fenobarbital 20 mg/kg EV, manutenção 3–5 mg/kg/dia; alternativa: levetiracetam.
    • Não usar Glasgow/Braden/Wells para encefalopatia hipóxico-isquêmica neonatal.

    Questão 90 — Outros temas em Hepatologia

    Dentre as neoplasias benignas hepáticas, aquela que é encontrada predominantemente em mulheres jovens e está geralmente associada ao uso de hormônios esteroides de longo prazo é

    • A)

      a hiperplasia nodular focal.

    • B)

      o cisto simples hepático.

    • C)

      o adenoma hepático.

      ✓
    • D)

      o hemangioma.

    Gabarito: C.

    A questão nos leva para o campo das neoplasias benignas hepáticas. O foco é identificar qual delas é mais comum em mulheres jovens e está relacionada ao uso prolongado de hormônios esteroides. Vamos explorar o cenário clínico para chegar à resposta correta.


    Adenoma Hepático: É uma neoplasia benigna do fígado que predomina em mulheres jovens, e sua associação com o uso prolongado de anticoncepcionais orais é bem documentada. Histologicamente, os adenomas hepáticos são solitários ou múltiplos e podem ter complicações graves, como hemorragia intratumoral ou transformação maligna - embora esta última seja rara. Importante ressaltar que, ao suspender os anticoncepcionais, muitas vezes ocorre uma redução do tamanho do adenoma, um grande indicativo da relação hormonal.


    Discussão das Alternativas:

    • A) Hiperplasia Nodular Focal (HNF): Incorreta - Predomina em mulheres mas não tem a mesma relação causal com hormônios esteroides que os adenomas. É uma lesão benigna caracterizada por um tecido hepático nodular anormal, mas funcionalmente normal. Tipicamente, não evolui para malignidade e necessita de pouca intervenção.
    • B) Cisto Simples Hepático: Incorreta - Os cistos hepáticos são lesões hepáticas frequentemente assintomáticas, sem malignidade ou relação com hormônios esteroides. Eles são, muitas vezes, achados incidentais em exames de imagem e não se correlacionam com o perfil feminino ou uso de anticoncepcionais.
    • C) Adenoma Hepático: Correta. Como discutido, é fortemente associado ao uso de hormônios esteroides, principalmente em mulheres jovens. Sua identificação é relevante clinicamente, pois pode necessitar de intervenção cirúrgica em casos de risco aumentado de complicações, ou mudanças no tratamento contraceptivo.
    • D) Hemangioma: Incorreta - É a neoplasia benigna mais comum do fígado, mas não tem relação com o uso de hormônios esteroides. Esta lesão, composta por vasos sanguíneos, geralmente é assintomática e descoberta incidentalmente. Em raras ocasiões, hemangiomas grandes podem causar sintomas devido ao efeito de massa.


    Take-home Message: Na prática clínica, o reconhecimento do adenoma hepático é crucial, especialmente para pacientes jovens em uso de anticoncepcional. Isso destaca a importância de uma abordagem baseada em história clínica e os riscos associados ao uso de hormônios. Questões sobre neoplasias hepáticas benignas também servem para reforçar conhecimentos sobre diagnóstico diferencial e manejo de lesões assintomáticas versus sintomáticas. Mantenha sempre proporções clínicas e evidências como as do European Association for the Study of the Liver (EASL) em mente para abordagens baseadas em evidências. Isso garante uma prática informada e segura.

    Questão 91 — Outros temas em reumatologia pediátrica

    Leia o caso clínico a seguir. Lactente evoluiu com dor, febre e limitação de movimento em quadril direito. Durante o exame físico, o plantonista notou que o membro inferior direito se apresentava com atitude em flexão de joelho e quadril associado a rotação externa, edema e hiperemia em face anterior do quadril direito. Nesse caso, qual a principal hipótese diagnóstica?

    • A)

      Doença de Legg-Calvé-Perthes.

    • B)

      Epifisiolise femoral proximal.

    • C)

      Sinovite transitória.

    • D)

      Artrite Séptica do quadril.

      ✓

    Gabarito: D.

    Esta questão apresenta um quadro clínico de um lactente com dor, febre e limitação de movimento no quadril direito. Os achados incluem flexão do joelho e quadril, rotação externa, edema e hiperemia no quadril direito. Vamos destrinchar esse cenário antes de discutir as alternativas.


    Em se tratando de crianças, especialmente lactentes, sempre que nos deparamos com dor, febre e limitação do movimento em uma articulação, devemos pensar em infecção articular como a artrite séptica. É crucial agir rapidamente, pois essa condição pode levar a consequências devastadoras e permanentes se não tratada a tempo.


    Diagnóstico e Características da Artrite Séptica:

    A artrite séptica é uma emergência médica em pediatria, muitas vezes causada por bactérias que podem alcançar a articulação através da corrente sanguínea. Em crianças, as apresentações clássicas incluem os sinais inflamatórios locais (edema, calor, vermelhidão), dor intensa, febre e recusa ou limitação ao movimento. Quando o quadril está envolvido, as crianças frequentemente mantêm a perna em flexão, abdução e rotação externa para minimizar a dor.

    O diagnóstico precoce é vital. A realização de exames como hemoculturas, exames de imagem (ultrassonografia, a princípio, pela idade do paciente), e em alguns casos, aspiração articular para análise do líquido sinovial são necessários para confirmar a presença bacteriana. As diretrizes da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia reforçam a necessidade de intervenções rápidas com antibioticoterapia intravenosa, após a coleta de culturas.


    Comentários sobre as Alternativas:

    • A) Doença de Legg-Calvé-Perthes: Incorreta - Esta condição é caracterizada por necrose avascular da cabeça femoral e ocorre em crianças entre 4 e 8 anos, sendo rara em lactentes. Os sintomas são progressivos e não envolvem quadro febril agudo, diferencial importante no contexto apresentado.
    • B) Epifisiolise femoral proximal: Incorreta - Também conhecida como escorregamento epifisário, afeta principalmente adolescentes em fase de crescimento rápido. O quadro clínico típico não inclui febre ou sinais de infecção aguda.
    • C) Sinovite transitória: Incorreta - Frequentemente é uma causa benigna de dor no quadril em crianças com idade média de 3 a 8 anos, geralmente pós-infecção viral e autolimitada. O quadro febril acentuado e os sinais de inflamação intensa no exame físico sugerem um diagnóstico mais grave como a artrite séptica.
    • D) Artrite Séptica do quadril: Correta -  Devido à presença de febre, dor aguda e sinais de inflamação articular. A condição exige prontas intervenções diagnósticas e terapêuticas.


    Take-home message:

    Em quadros pediátricos com dor articular, febre e limitação de movimento, a artrite séptica deve ser sempre considerada prioritariamente devido ao risco de dano articular e potencial para sepsis. Diagnóstico rápido e início imediato de antibioticoterapia são essenciais. Em qualquer dificuldade diagnóstica, a diferenciação precisa com outras condições como sinovite transitória, epifisiólise femoral proximal e doença de Perthes pode ser feita principalmente pela análise clínica e exames subsidiários. Espero que essa discussão tenha ajudado a aprofundar seu entendimento sobre a importância do manejo rápido de quadros sépticos em pediatria e a importância de um diagnóstico diferencial bem feito.

    Questão 92 — Cirrose

    O cálculo do MELD para avaliação da gravidade da cirrose leva em conta os seguintes parâmetros:

    • A)

      RNI, bilirrubinas e gama GT.

    • B)

      creatinina, bilirrubinas e RNI.

      ✓
    • C)

      albumina, RNI e gama GT.

    • D)

      RNI, albumina e creatinina.

    Gabarito: B.

    A questão apresentada aborda um tema muito importante quando falamos de doença hepática crônica: a avaliação da gravidade da cirrose hepática e, consequentemente, a priorização para transplante hepático. Para isso, utilizamos, dentre outras ferramentas, o famoso score MELD (Model for End-stage Liver Disease). O score MELD é amplamente utilizado para determinar a gravidade da doença hepática e orientar a alocação de órgãos para transplante de fígado. Ele foi adotado pelo United Network for Organ Sharing (UNOS) e é baseado em três variáveis laboratoriais que refletem a função hepática e a função renal:

    • - Creatinina: Reflete a função renal, que é frequentemente comprometida em pacientes com cirrose avançada e ascite.
    • - Bilirrubinas: Medem a capacidade do fígado de processar e excretar a bilirrubina, sendo um marcador da função hepática.
    • - RNI (Razão Normalizada Internacional): Indica a capacidade sintética do fígado, relacionada especificamente à produção de fatores de coagulação.


    O cálculo do MELD é dado pela fórmula:

    MELD = (0,957 x Loge(Creatinina mg/dL) + 0,378 x Loge(Bilirrubina mg/dL) + 1,12 x Loge(INR) + 0,643) x 10
    

    https://sbhepatologia.org.br/associados/calculadoras/MELD/


    A pontuação do MELD pode variar de 6 (menor gravidade) a 40 (maior gravidade), onde escores mais altos indicam tanto uma maior urgência para transplante quanto um pior prognóstico.

    A inclusão da creatinina é particularmente importante pois a disfunção renal é uma complicação comum e grave da cirrose, especialmente entre aqueles com ascite refratária e síndrome hepatorrenal.


    Vamos analisar as alternativas disponíveis:

    • A) Incorreta - A alternativa propõe o uso de gama GT, que não compõe o escore MELD, e a albumina também não é utilizada nesse cálculo.
    • B) Correta - Como descrito, os parâmetros de creatinina, bilirrubinas e RNI são exatamente os usados no cálculo do MELD.
    • C) Incorreta - A inclusão de albumina e gama GT não faz parte do cálculo do MELD; no entanto, a albumina faz parte de outro índice utilizado em hepatologia, o Child Pugh, capaz de classificar a severidade da cirrose.
    • D) Incorreta - A albumina não faz parte do score MELD, embora esses dados possam ser utilizados no índice Child Pugh.


    Take-home message: O escore MELD é uma ferramenta essencial para avaliação da gravidade da cirrose hepática. Ele leva em consideração os níveis séricos de creatinina, bilirrubina e o RNI para determinar a necessidade de transplante hepático. Familiarizar-se com o MELD e outras ferramentas como o Child Pugh é indispensável para qualquer estudante ou médico que trate pacientes com doença hepática crônica.

    Questão 93 — Úlcera Péptica Perfurada

    Leia o caso clínico a seguir.

    Mulher de 63 anos vem ao pronto atendimento com queixa de dor abdominal súbita, de forte intensidade, em região epigástrica, associada a náuseas e vômitos. Ao exame físico, encontra-se descorada e taquicárdica, com dor à palpação superficial e profunda do abdome. Há presença de timpanismo à percussão de hipocôndrio direito. Apresenta histórico de uso crônico de AINEs devido à lombalgia crônica.

    O sinal semiológico descrito no exame físico e o provável diagnóstico sindrômico da paciente são, respectivamente:

    • A)

      Sinal de Gray-Turner e Abdome agudo inflamatório.

    • B)

      Sinal de Courvosier e Síndrome neoplásica.

    • C)

      Sinal de Jobert e Abdome agudo perfurativo.

      ✓
    • D)

      Sinal de Kehr e Abdome agudo hemorrágico.

    Gabarito: C.

    Vamos analisar a questão baseada no caso clínico de uma mulher de 63 anos que apresenta dor abdominal súbita e intensa na região epigástrica, acompanhada de náuseas e vômitos. O histórico de uso crônico de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) aumenta a suspeita de complicações gástricas, como úlcera péptica. O exame físico revela palidez, taquicardia, dor à palpação do abdome e timpanismo à percussão no hipocôndrio direito, apontando para possíveis complicações abdominais. Vejamos como esses achados se relacionam com a hipótese diagnóstica.


    Sinal de Jobert: Este sinal é caracterizado pela presença de timpanismo na região do hipocôndrio direito, que ocorre devido ao ar livre na cavidade abdominal, geralmente por perfuração de um órgão oco, como uma úlcera gástrica perfurada.

    Abdome agudo perfurativo: Este termo refere-se a um quadro clínico agudo e emergencial de dor abdominal intensa devido à presença de ar livre na cavidade peritoneal, geralmente por perfuração de uma víscera oca. O uso crônico de AINEs é um fator de risco para úlceras gástricas que podem evoluir para perfuração, levando a peritonite.

    Com base nas informações do caso clínico e seguindo o raciocínio diagnóstico, podemos concluir que a paciente exibe o sinal de Jobert, indicando uma provável perfuração de uma úlcera péptica, caracterizando um abdome agudo perfurativo.


    Vamos agora analisar cada alternativa:

    • A) Sinal de Gray-Turner e Abdome agudo inflamatório: Incorreta - O sinal de Gray-Turner é a presença de equimoses nos flancos, geralmente associadas à pancreatite hemorrágica ou peritonite por causas hemorrágicas. Não condiz com os achados de timpanismo.
    • B) Sinal de Courvoisier e Síndrome neoplásica: Incorreta - O sinal de Courvoisier é a palpação de uma vesícula biliar distendida não dolorosa em pacientes com icterícia, comum em neoplasias pancreáticas ou biliares, e não se relaciona ao quadro agudo com timpanismo e dor epigástrica descritos.
    • C) Sinal de Jobert e Abdome agudo perfurativo: Correta - O timpanismo à percussão junto com o histórico de uso de AINEs sugere perfuração de úlcera.
    • D) Sinal de Kehr e Abdome agudo hemorrágico: Incorreta - O sinal de Kehr, dor referida à ponta do ombro esquerdo, geralmente está associado a hemorragia intraperitoneal, como em casos de ruptura esplênica. Não se correlaciona com os achados timpanísticos.


    Take-home message: Em pacientes com dor abdominal súbita, especialmente com histórico de uso de AINEs, considerar perfuração de úlcera como uma hipótese diagnóstica importante. O sinal de Jobert, que indica presença de ar na cavidade peritoneal, reforça o diagnóstico de abdome agudo perfurativo. Esse reconhecimento rápido é vital para intervenções cirúrgicas e manejo adequado.

    Para um aprofundamento, recomenda-se a leitura das diretrizes da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia, que discutem complicações associadas ao uso prolongado de AINEs, fornecendo estratégias de prevenção e manejo.

    Questão 94 — Dermatite atópica

    A dermatite atópica é a dermatose mais frequente na infância e, nos lactentes, as lesões ocorrem mais comumente

    • A)

      na face.

      ✓
    • B)

      nas pregas antecubitais.

    • C)

      nas nádegas.

    • D)

      no dorso das mãos e pés.

    Gabarito: A.

    Vamos falar sobre dermatite atópica, uma das dermatites mais comuns em pediatria, também conhecida como eczema atópico. É uma condição inflamatória crônica da pele que se manifesta frequentemente em crianças e pode persistir em menor grau na vida adulta. Caracteriza-se por prurido intenso, lesões eczematosas e tendência a se manifestar com idade característica dependendo da localização das lesões.


     Fisiopatologia:

    Envolve uma complexa interação entre fatores genéticos, imunológicos e ambientais. A hipótese da barreira epidérmica deficiente sugere que a função de barreira da pele desses pacientes é prejudicada, levando à perda de água transepidérmica e à penetração de alérgenos e irritantes. Imunologicamente, há um desequilíbrio entre as respostas Th2 (pro-inflamatórias) e Th1 (anti-inflamatórias), com prevalência das primeiras. Sobreposição com outras condições atópicas, como asma e rinite alérgica, ocorre com frequência, o que é conhecido como marcha atópica.


    Diagnóstico:

    É clínico, com base nos sinais e sintomas descritos. Critérios como os de Hanifin e Rajka podem ser utilizados, baseando-se em critérios maiores e menores para confirmar o diagnóstico. A observação do padrão de distribuição das lesões ajuda muito no contexto pediátrico.


    Tratamento:

    Deve-se focar na hidratação adequada da pele, uso de emolientes para reparar a barreira cutânea e controle do prurido. Em casos mais graves, corticosteroides tópicos e inibidores da calcineurina são os tratamentos de escolha. A educação dos pais sobre cuidados com a pele e a minimização dos fatores desencadeantes são cruciais.


    Agora, vamos ao cerne da questão: as localizações mais comuns das lesões de dermatite atópica em diferentes fases da vida.

    • 1) Lactentes: As lesões ocorrem mais frequentemente na face, geralmente nas bochechas, poupando a zona central do rosto ao redor do nariz (por causa do efeito protetor da saliva). Isso torna visível a característica do prurido e as marcas de xerose e escoriações, características desta faixa etária.
    • 2) Infância (até cerca de 12 anos): Acometimento das dobras de flexão como as pregas antecubitais e poplíteas, além das regiões de dobras como punhos e tornozelos.
    • 3) Adultos: Pode ocorrer em qualquer região, mas tem uma predileção para flexuras e, muitas vezes, envolvimento das mãos, pés e pescoço.


    A questão pergunta especificamente sobre os lactentes, e a alternativa correta aqui é que as lesões ocorrem mais comumente na face.

    Analisando as alternativas:

    • A) na face: Correta - Como discutido, é a localização mais comum da dermatite atópica em lactentes.
    • B) nas pregas antecubitais: Incorreta - Esta localização é mais comum em crianças maiores e adultos devido ao padrão de flexura.
    • C) nas nádegas: Incorreta - Não é uma localização típica de dermatite atópica; as lesões nessa área em lactentes são mais frequentemente de dermatite das fraldas.
    • D) no dorso das mãos e pés: Incorreta - Não é usual em lactentes; o acometimento das mãos e pés surge mais em faixas etárias mais avançadas.

    Take-home message: A dermatite atópica em lactentes localiza-se frequentemente no rosto e, conforme avanço da idade, a localização também muda. Reconhecendo os padrões típicos de distribuição das lesões por faixa etária, podemos avançar melhor no diagnóstico e manejo da dermatite atópica. Deixe claro para os pais que esse é um processo crônico que exige cuidadosa gestão, principalmente na hidratação da pele e controle ambiental, para aliviar os sintomas e evitar exacerbações.

    Questão 95 — Outros temas em cirurgia pediátrica

    Leia o caso clínico.


    RN, filho de mãe sem pré-natal, a termo, com APGAR 9/9, evolui em seguida ao parto, com desconforto respiratório progressivo e eliminação em excesso de secreção salivar espumosa pela boca e narinas.


    Nesse caso, qual é a patologia do RN?

    • A)

      Obstrução de coanas.

    • B)

      Hérnia diafragmática.

    • C)

      Atresia de esôfago.

      ✓
    • D)

      Cisto broncogênico.

    Gabarito: C.

    Olá, pessoal! Vamos embarcar nessa questão que aborda um problema em recém-nascidos (RNs) que pode ser um verdadeiro desafio na prática médica: a atresia de esôfago. Este é um caso clássico e bastante importante para vocês que estão se preparando para as provas de residência.


    Contextualizando a questão: Temos um RN a termo, filho de mãe que não realizou pré-natal e que desde o nascimento apresenta desconforto respiratório e eliminação excessiva de secreção salivar espumosa pela boca e narinas. O Apgar é 9/9, o que indica que o bebê está, na medida do possível, bem, exceto pelo problema respiratório contínuo.

    O ponto-chave para desvendarmos esta questão é o sintoma de eliminação excessiva de secreção salivar espumosa. Esse é um indício típico de atresia de esôfago, especialmente quando associado a dificuldades respiratórias.


    Breve revisão da atresia de esôfago:

    • Definição e fisiopatologia: A atresia de esôfago é uma malformação congênita na qual existe uma interrupção na continuidade do esôfago. Muitas vezes, está associada a uma fístula traqueoesofágica.
    • O líquido produzido nas glândulas salivares e a alimentação, principalmente o leite materno, não conseguem progredir para o estômago, acumulando-se no esôfago, de onde pode ser aspirado, gerando dificuldade respiratória.
    • A condição frequentemente manifesta-se logo após o nascimento, devido à impossibilidade de passagem adequada de alimentos e secreções.

    - Diagnóstico: O diagnóstico é confirmado através de tentativas de passar uma sonda nasogástrica, que encontra resistência, geralmente a cerca de 10-12 cm da narina, seguida de radiografias de tórax e abdome que mostrariam o tubo enrolado no esôfago.

    - Manejo: Este é um dos casos em que a correção cirúrgica é necessária. Enquanto isso, medidas temporárias como posicionamento em decúbito elevado e aspiração de secreções são necessárias para reduzir o risco de aspiração.

    https://www.walbertosouza.com.br/2019/02/22/atresia-de-esofago-o-que-e/

    Analisando as alternativas:

    • A) Obstrução de coanas: Incorreta - Esta condição causa obstrução das vias aéreas superiores. Tipicamente, os RNs em sofrimento respiratório por essa causa não têm secreções espumosas abundantes. Portanto, incorreto para este caso.
    • B) Hérnia diafragmática: Incorreta - Esta condição resulta em conteúdo abdominal herniado para a cavidade torácica, prejudicando a função pulmonar. Contudo, não explicaria a secreção salivar espumosa aumentada. Portanto, incorreto.
    • C) Atresia de esôfago: Correta - A secreção espumosa e o desconforto respiratório estão intimamente associados a esse diagnóstico.
    • D) Cisto broncogênico: Incorreta - Esta condição seria possível se estivéssemos discutindo um quadro de obstrução respiratória, mas é menos provável que associe-se à secreção espumosa pela boca e narinas. Sendo assim, também incorreta.


    Take-home message: Fiquem atentos à descrição de secreção salivar excessiva e espumosa em um RN, frequentemente associada à atresia de esôfago. Lembrem-se que é uma emergência cirúrgica e o manejo propedêutico pode incluir a tentativa de passagem de sonda orogástrica. Confiem na descrição clínica e utilizem o raciocínio clínico para indicar correção cirúrgica apropriada.

    Questão 96 — Doenças exantemáticas

    Criança de 8 meses de idade, sexo masculino, cor da pele branca, é trazida à unidade de emergência pela mãe com relato de febre e lesões cutâneas. Segundo a genitora, a criança apresentou quadro febril persistente com picos de temperatura entre 38,5 °C e 39,0 °C, que cessavam com o uso de antitérmicos, sem outros sintomas relevantes, exceto por dois episódios isolados de vômito. Após cerca de 48 horas do início da febre, foi notado o aparecimento de “manchas vermelhas”, inicialmente no pescoço e face, que posteriormente se estenderam aos membros. No momento da avaliação, o lactente encontra-se afebril, bem hidratado, em bom estado geral, apresentando exantema micropapular de coloração rósea em face, pescoço e membros, sem sinais de prurido ou descamação. Carteira vacinal está atualizada, e não há antecedentes pessoais relevantes. Com base nos dados clínico-epidemiológicos e na evolução do quadro, qual é a principal hipótese diagnóstica?

    • A)

      Sarampo.

    • B)

      Escarlatina.

    • C)

      Exantema súbito (roséola infantil).

      ✓
    • D)

      Eritema infeccioso.

    • E)

      Rubéola.

    Gabarito: C.

    Revisão do tema

    Âncora de memorização: Lactente 6–24 meses com febre alta por 3–5 dias que desaparece e, logo após a defervescência, surge exantema róseo micropapular iniciando no tronco/face e se espalhando: pense em Exantema súbito (roséola infantil, HHV-6/7).

    • O que é: Infecção viral (HHV-6/7) típica de lactentes, cursa com febre alta súbita e exantema após a queda da febre.
    • Por que importa: Diferenciar de sarampo/rubéola/escarlatina/erit. infeccioso evita exames e antibióticos desnecessários e orienta notificação quando cabível.
    • Como identificar (padrão-ouro clínico): Febre alta 3–5 dias, bom estado geral relativo; defervescência seguida de exantema maculo/micropapular róseo, não pruriginoso, de início em tronco/face e extensão para pescoço e membros, resolvendo em 1–3 dias. Em lactentes, podem ocorrer convulsões febris durante a fase febril.
    • Armadilhas de prova: Rubéola inicia com linfonodomegalia retroauricular/occipital e exantema da face para o tronco; sarampo tem pródromos (tosse, coriza, conjuntivite) e manchas de Koplik; escarlatina tem faringite e exantema áspero (lixa) + sinal de Pastia; eritema infeccioso tem “face esbofeteada” e exantema rendilhado.

    Conduta & Posologia

    • Suporte (primeira linha): Hidratação oral, repouso, antitérmico conforme necessidade. Não há antiviral/esquema específico para HHV-6/7 em imunocompetentes.
    • Paracetamol: 10–15 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h, máximo 60 mg/kg/dia. Ajuste em hepatopatia: usar a menor dose efetiva e reduzir dose total diária.
    • Ibuprofeno (≥ 6 meses): 5–10 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h, máximo 40 mg/kg/dia. Evitar em desidratação, DRC, insuficiência cardíaca, sangramento GI e em varicela.
    • O que não fazer: AAS é contraindicado em crianças (risco de síndrome de Reye). Antibiótico não indicado na ausência de foco bacteriano. Aciclovir não tem indicação na roséola do imunocompetente.
    • Crianças especiais: Imunodeprimidos podem ter doença mais grave/prolongada – considerar avaliação especializada e internação se sinais sistêmicos.
    • Critérios de internação/observação: toxemia, desidratação moderada/grave, convulsão febril complexa/status, sinais de encefalite/meningismo, lactente muito prostrado, comorbidades relevantes/imunodeficiência.
    • Monitorização e reavaliação: Orientar retorno em 24–48 h se febre persiste ou exantema atípico; imediato se surgir dispneia, vômitos incoercíveis, rigidez de nuca, letargia, má perfusão.
    • Vigilância epidemiológica: Em exantema com suspeita de sarampo/rubéola (pródromos típicos, contato, não vacinado), notificação imediata e coleta conforme protocolo.

    Discussão das alternativas

    ✅ C) Exantema súbito (roséola infantil).

    Alternativa correta. Idade típica (8 meses), febre alta por ~48 h seguida de exantema róseo micropapular ao ficar afebril, bom estado geral e ausência de pródromos respiratórios. Sequência febre→defervescência→exantema é clássica da roséola (HHV-6/7).

    ❌ A) Sarampo.

    Alternativa incorreta. Espera-se pródromos de 3 Cs (tosse, coriza, conjuntivite), febre alta contínua, manchas de Koplik, exantema maculopapular confluente iniciando atrás das orelhas/face que desce e curso mais tóxico. Carteira vacinal atualizada reduz a probabilidade.

    ❌ B) Escarlatina.

    Alternativa incorreta. Quadro bacteriano (S. pyogenes) com faringoamigdalite, febre, exantema lixa, linhas de Pastia, palidez perioral, língua em framboesa. Aqui não há odinofagia, nem exantema áspero; além disso, na escarlatina o exantema surge ainda com febre, não após defervescência.

    ❌ D) Eritema infeccioso.

    Alternativa incorreta. Parvovírus B19: típico em pré-escolares/escolares, com “face esbofeteada” seguida de exantema rendilhado em membros/tronco, febre baixa ou ausente. O caso é lactente com sequência febre alta → exantema, sem padrão rendilhado.

    ❌ E) Rubéola.

    Alternativa incorreta. Exantema fino que inicia na face e generaliza rapidamente, febre baixa e linfonodos retroauriculares/occipitais dolorosos (sinal-chave). Ausência de linfadenopatia e vacinação atualizada tornam rubéola improvável.


    Take-home message

    • Exantema súbito: febre alta 3–5 dias em lactente, seguida de exantema róseo após a defervescência.
    • Diagnóstico é clínico; conduta é suporte: Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 6–8/8h ou Ibuprofeno 5–10 mg/kg/dose 6–8/8h (≥ 6 meses).
    • Red flag: toxemia, desidratação, convulsão febril complexa ou sinais neurológicos → internar/observar.
    • Não usar antibiótico/antiviral na roséola de imunocompetente; evitar AAS.
    • Diferenciais rápidos: sarampo (3 Cs + Koplik), rubéola (linfonodos retroauriculares), escarlatina (faringite + lixa), eritema infeccioso (face esbofeteada + rendilhado).
    • Suspeita de sarampo/rubéola exige notificação imediata e coleta conforme protocolos do MS.

    Questão 97 — Colecistite aguda

    Uma paciente de 46 anos de idade procurou o atendimento médico em razão de dor no hipocôndrio direito iniciada há 12 horas, irradiada para o dorso e associada a náuseas. Referiu episódios semelhantes nos últimos meses. Ao exame, apresentou dor à palpação profunda em hipocôndrio direito, sinal de Murphy positivo; FC = 98 bpm, FR = 18 irpm, PA = 128 mmHg x 80 mmHg e temperatura = 38,1 °C. A ultrassonografia evidenciou vesícula distendida, parede espessada (5 mm), cálculos múltiplos e líquido pericolecístico. Considerando o quadro apresentado, qual é o diagnóstico mais compatível?

    • A)

      Colecistite aguda calculosa

      ✓
    • B)

      Pancreatite aguda biliar

    • C)

      Colecistopatia acalculosa

    • D)

      Cólica biliar simples

    Gabarito: A.

    Revisão do tema


    Âncora de memorização: Diagnóstico de colecistite aguda (Tokyo Guidelines) exige:

    1) Achado local (dor/defesa em QSD ou sinal de Murphy);

    2) Achado sistêmico de inflamação (febre, leucocitose, PCR elevada) e ;

    3) Imagem compatível (US: parede ≥4 mm, distensão, líquido pericolecístico, cálculo/obstrução do cístico). A presença de 1+2 = suspeita; 1+2+3 = diagnóstico definitivo.


    O que é: Inflamação aguda da vesícula, geralmente por obstrução do ducto cístico por cálculo (forma calculosa). Sinal de Murphy: interrupção inspiratória à palpação do QSD, indica inflamação vesicular.


    Por que importa: Evolui com complicações (empiema, necrose, perfuração). Conduta correta é internação, antibiótico conforme gravidade e colecistectomia videolaparoscópica precoce (idealmente até 72 h do início).


    Como identificar (aplicação no caso): Dor em hipocôndrio direito irradiada, febre (38,1 °C), Murphy positivo, US com vesícula distendida, parede 5 mm e líquido pericolecístico + cálculos múltiplos. Preenche critérios 1, 2 e 3 → colecistite aguda calculosa.


    Figura 1. Ultrassonografia exibindo vesícula biliar distendida com espessamento edematoso da parede, cálculos, lama biliar e coleção pericolecística

    Fonte: Radiopaedia.org. Acute cholecystitis (case 9) — caso radiológico. Disponível em: https://radiopaedia.org/cases/acute-cholecystitis-9. Acesso em 29/01/2026.


    Armadilha de prova: Cólica biliar típica não cursa com febre, não tem Murphy e US não mostra espessamento de parede ou líquido pericolecístico.


    Conduta & Posologia


    • Estratégia inicial: Jejum, hidratação EV, analgesia (AINE/opioide), antiemético, antibiótico se sinais sistêmicos/inflamatórios, estratificação de gravidade (Tokyo: I leve, II moderada, III grave com disfunção orgânica).

    • Cirurgia: Colecistectomia videolaparoscópica precoce (ideal ≤72 h do início dos sintomas). Se alto risco cirúrgico/instabilidade: considerar colecistostomia percutânea como ponte.

    • Antibiótico (comunitária, leve–moderada): 
    • • Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h.
    • • Alternativas: Ampicilina-sulbactam 3 g IV 6/6 h; alergia a beta-lactâmico: Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12 h + metronidazol 500 mg IV 8/8 h.

    • Antibiótico (moderada–grave, risco anaeróbio e Enterobacterales resistentes): 
    • • Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h ou;
    • • Ertapenem 1 g IV 1x/dia (profil de risco ESBL).

    • Duração do antibiótico: 4–7 dias; após colecistectomia sem complicações, suspender em até 24 h.

    • Ajustes:
    • • Ceftriaxona: em geral sem ajuste renal; cautela em DRC terminal/hepática grave concomitante.
    • • Metronidazol: reduzir 50% em Child-Pugh C; em DRC grave (ClCr <10 mL/min), intervalar para 12 h.
      • Piperacilina-tazobactam: ajustar se ClCr <40 mL/min.
      • Ciprofloxacino: ajustar se ClCr <50 mL/min; evitar em gestação.

    • Contraindicações: Alergia a beta-lactâmicos; metronidazol + álcool (efeito tipo dissulfiram); cautela com AINE em DRC/úlcera.

    • Efeitos adversos relevantes: Beta-lactâmicos (hipersensibilidade), metronidazol (náusea, gosto metálico, neuropatia em uso prolongado), fluoroquinolonas (tendinopatia, QT longo), piperacilina-tazobactam (neurotoxicidade em DRC).

    • Critérios de internação: Quase todos: febre/elevação inflamatória, Murphy positivo e US compatível. UTI se disfunção orgânica (hipotensão, PO2/FiO2 <300, oligúria/Cr↑, plaquetas <100 mil, INR >1,5, DHL/BT↑) – Tokyo III.

    • Reavaliação/monitorização: Sinais vitais 4/4 h, dor, diurese >0,5 mL/kg/h, hemograma/PCR e função renal em 24 h. Falha clínica em 24–48 h: reavaliar foco/colecistostomia/DRP biliar.

    • Armadilhas de prova: 
    • • Não indicar ERCP sem colangite/colelitíase de colédoco.
      • Cólica biliar não requer antibiótico; colecistite sim.


    Discussão das alternativas

    ✅ A) Colecistite aguda calculosa

    Alternativa correta. Quadro clínico compatível (Murphy positivo, febre), laboratorial inflamatório esperado e ultrassonografia típica (parede 5 mm, vesícula distendida, líquido pericolecístico, cálculos). Preenche critérios clínicos + sistêmicos + imagem (Tokyo).


    ❌ B) Pancreatite aguda biliar

    Alternativa incorreta. Dor pancreática é epigástrica com irradiação em barra, exige amilase/lipase ≥3x LSN e/ou imagem típica. O caso foca em achados vesiculares específicos (Murphy, parede espessada, líquido pericolecístico), não descritos na pancreatite.


    ❌ C) Colecistopatia acalculosa

    Alternativa incorreta. Acalculosa ocorre tipicamente em pacientes graves/UTI, pós-operatórios ou sépticos, sem cálculos. O US mostrou cálculos múltiplos, favorecendo forma calculosa.


    ❌ D) Cólica biliar simples

    Alternativa incorreta. Cólica biliar é dor autolimitada (<6 h), sem febre, sem Murphy e sem sinais inflamatórios/US de parede espessada ou líquido. Aqui há febre, Murphy positivo e US inflamatório.


    Take-home message

    • Colecistite aguda: diagnóstico pela tríade Tokyo (local + sistêmico + imagem); US com parede ≥4 mm e líquido pericolecístico é chave.
    • Conduta padrão: internação, suporte, antibiótico e colecistectomia precoce (ideal ≤72 h).
    • Esquema leve–moderado: Ceftriaxona 1–2 g IV 1x/dia + Metronidazol 500 mg IV 8/8 h por 4–7 dias (ou suspender em 24 h pós-colecistectomia sem complicação).
    • Grave/risco de anaeróbios: Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV 6/6 h ou Ertapenem 1 g IV 1x/dia, com ajustes em DRC.
    • Red flag: ERCP só se colangite ou coledocolitíase; não é rotina na colecistite não complicada.
    • Diferença chave: cólica biliar não tem febre/Murphy/US inflamatório; pancreatite requer lipase ≥3x LSN ou imagem típica.

    Questão 98 — Diverticulite aguda

    A diverticulite complicada Hinchey IV deve ser tratada com:

    • A)

      Drenagem percutânea

    • B)

      Antibioticoterapia venosa

    • C)

      Repouso intestinal

    • D)

      Cirurgia de emergência

      ✓

    Gabarito: D.

    Estamos diante de uma questão abordando a complicação de um quadro de diverticulite. Vamos aprofundar nosso conhecimento sobre essa condição médica prevalente e entender como seu tratamento é guiado pelas complicações apresentadas.


    O que é a diverticulite?

    A diverticulite ocorre quando há a inflamação e/ou infecção dos divertículos, que são pequenas bolsas que podem se formar na parede do cólon, principalmente no cólon sigmoide. É uma complicação da diverticulose, onde esses divertículos estão presentes, mas são assintomáticos. Quando esses divertículos se inflamam, pode resultar em uma série de complicações, incluindo abscessos, fístulas, obstruções ou perfurações do intestino.


    Classificação de Hinchey

    A classificação de Hinchey é amplamente utilizada para categorizar as complicações da diverticulite. Essa classificação tem quatro estágios, que ajudam a guiar a conduta terapêutica:

    1. Estágio I: Abscesso pericólico ou mesentérico.
    2. Estágio II: Abscesso pélvico.
    3. Estágio III: Peritonite purulenta.
    4. Estágio IV: Peritonite fecal.


    Diverticulite Hinchey IV

    Quando falamos em diverticulite Hinchey IV, estamos nos referindo a uma peritonite fecal devido à perfuração do intestino grosso, causando contaminação do abdome com conteúdo fecal. Este é o estágio mais grave e uma situação de emergência médica, que necessita de intervenção imediata.


    Tratamento

    No contexto de uma peritonite fecal, como visto na classificação Hinchey IV, o manejo padrão é a cirurgia de emergência para controlar a infecção e decontaminar o abdome. O tratamento cirúrgico pode envolver ressecção do segmento intestinal afetado, possivelmente uma colectomia e formação de uma colostomia. Após a estabilização do paciente, pode-se considerar a reconstrução do trânsito intestinal em uma data futura.


    Análise das alternativas

    • A) Drenagem percutânea: Alternativa incorreta - A drenagem percutânea é uma opção em estágios de Hinchey I e II, onde há abscesso que pode ser controlado por drenagem.
    • B) Antibioticoterapia venosa: Alternativa incorreta - como único tratamento em Hinchey IV. O uso de antibióticos é essencial no manejo, mas não substitui a necessidade de cirurgia no estágio IV.
    • C) Repouso intestinal: Alternativa incorreta - No manejo de diverticulite leve, o repouso intestinal pode ser reservado, mas não é suficiente na presença de peritonite fecal.
    • D) Cirurgia de emergência: Alternativa correta - A peritonite fecal pela classificação Hinchey IV demanda intervenção cirúrgica emergencial.

    A prática médica na abordagem das complicações da diverticulite é guiada por protocolos bem estabelecidos, como as diretrizes da American Society of Colon and Rectal Surgeons (ASCRS), que indicam que casos de peritonite, especialmente fecal, precisam de intervenção cirúrgica urgente.


    Take-home message: A diverticulite complicada, quando avança para uma peritonite fecal (Hinchey IV), requer intervenção cirúrgica de emergência devido à gravidade e ao risco de complicações fatais. O reconhecimento e a classificação correta das complicações são cruciais para a escolha da conduta terapêutica adequada.

    Questão 99 — Diverticulite aguda

    Paciente apresenta dor intensa no quadrante inferior esquerdo do abdome e febre. A tomografia revela inflamação do cólon sigmoide. Qual é o diagnóstico mais provável?

    • A)

      Diverticulite.

      ✓
    • B)

      Apendicite.

    • C)

      Colecistite.

    • D)

      Pancreatite.

    Gabarito: A.

    Vamos analisar uma questão comum em provas de residência: paciente com dor intensa no quadrante inferior esquerdo do abdome e febre, com tomografia revelando inflamação do cólon sigmoide. Precisamos determinar qual é a hipótese diagnóstica mais provável. Vamos percorrer os elementos clínicos e diagnóstico para aprimorar o nosso entendimento sobre o tema!

    A dor abdominal associada a sinais de inflamação é uma apresentação clínica bastante frequente e, para chegar ao diagnóstico correto, devemos nos atentar à localização específica da dor, sinais associados (como febre), e aos achados de imagem.

    1. Localização da dor: O quadrante inferior esquerdo do abdome é uma pista chave. A localização é crucial, pois diferentes patologias podem causar dor em regiões abdominais específicas. Nesse caso, o quadrante inferior esquerdo é classicamente associado ao sigmoide.

    2. Sinais de inflamação: A febre, associada à dor abdominal, sugere um processo inflamatório ou infeccioso. Os exames de imagem (como a tomografia) ajudam a precisar a área comprometida, que neste caso é o cólon sigmoide.

    3. Achados de imagem: A tomografia computadorizada é o exame de escolha para investigação de dor abdominal aguda e suas complicações. Neste cenário, a inflamação do cólon sigmoide é altamente sugestiva de diverticulite aguda.

    Com base nesses elementos, podemos afirmar que o diagnóstico mais provável é Diverticulite. Vamos entender melhor essa condição:

    **Diverticulite:**

    • É a inflamação ou infecção de um ou mais divertículos no trato digestório.
    • Predominantemente ocorre no cólon, especialmente no cólon sigmoide.
    • Sintomas incluem dor no quadrante inferior esquerdo, febre, alterações do hábito intestinal, e ocasionalmente náuseas e vômitos.
    • Diagnóstico é frequentemente confirmado por tomografia computadorizada, que mostra inflamação e abscessos nos casos mais graves.
    • Tratamento pode variar desde a abordagem conservadora com antibióticos orais e dieta líquida até intervenção cirúrgica em casos complicados (peritonite, abscessos, etc).

    Avaliação das demais alternativas:

    • B) Apendicite: Alternativa incorreta. Apendicite apresenta dor típica no quadrante inferior direito, não esquerdo.
    • C) Colecistite: Alternativa incorreta. Colecistite causa dor no quadrante superior direito, não correlaciona com a localização reportada na questão.
    • D) Pancreatite: Alternativa incorreta. Pancreatite resulta em dor epigástrica que se irradia para o dorso, além de não causar inflamação do cólon sigmoide.

    Take-home messages:

    • A dor no quadrante inferior esquerdo do abdome, acompanhada de febre e inflamação no cólon sigmoide, é altamente sugestiva de diverticulite aguda, uma condição comum caracterizada pela inflamação ou infecção de divertículos, especialmente no cólon sigmoide. A tomografia computadorizada é o exame de escolha para confirmar o diagnóstico e avaliar complicações, como abscessos. No diagnóstico diferencial, é crucial considerar a localização da dor, já que condições como apendicite, colecistite e pancreatite se manifestam com padrões distintos de dor e não envolvem o cólon sigmoide. A abordagem terapêutica pode variar, com tratamento conservador sendo eficaz em casos não complicados e cirurgia indicada para complicações graves.


    Questão 100 — Trauma de Tórax

    Após diagnóstico clinico do Pneumotorax Hipertensivo o próximo passo será:

    • A)

      Realizar confirmação radiológica.

    • B)

      Toracocentese descompressiva.

      ✓
    • C)

      Ventilação por Pressão Positiva.

    • D)

      Drenagem Pleural Aberta.

    Gabarito: B.

    O pneumotórax hipertensivo é uma emergência médica de diagnóstico clínico que requer intervenção imediata. Essa condição é caracterizada pela entrada de ar no espaço pleural que não pode ser expelido, resultando em um aumento da pressão intrapleural e instabilidade hemodinâmica. Isso acaba comprimindo estruturas mediastinais, incluindo veias cavas e o próprio coração, levando a uma redução do retorno venoso e, consequentemente, do débito cardíaco. A apresentação mais comum inclui dispneia severa, hipertensão inicial seguida de hipotensão, desvio da traqueia para o lado contralateral do pneumotórax e ausência ou redução significativa dos sons respiratórios no lado afetado. Em casos graves, pode-se observar turgência jugular e cianose.


    Agora, vamos dar uma olhada no raciocínio para responder essa questão:

    • -Ponto inicial: Reconhecimento clínico do pneumotórax hipertensivo - a condição é reconhecida clinicamente devido à rápida evolução e gravidade do quadro. Os sinais e sintomas como desvio traqueal, turgência jugular, hipotensão e cianose podem ser observados. No exame do tórax, iremos percebemos redução do múrmurio vesicular ou, mais comumemente, sua abolição, bem como hipertimpanismo no hemitórax afetado. 
    • -Ponto crítico: Resolução rápida para evitar comprometimento hemodinâmico potencialmente fatal. O manejo imediato e correto é vital para o paciente.

    A questão nos pergunta sobre o próximo passo após o diagnóstico clínico do pneumotórax hipertensivo, então vamos analisar cada uma das alternativas:

    • A) Realizar confirmação radiológica: Totalmente contraindicada nesse contexto. Com um suspeita clínica forte de pneumotórax hipertensivo, não devemos atrasar o tratamento para realizar exames confirmatórios. A condição pode rapidamente evoluir para um colapso cardiovascular, mais bem tratada através do alívio de pressão, sem obter primeiro confirmações imagiológicas.
    • B) Toracocentese descompressiva: Correta - Este é o manejo imediato e adequado diante do pneumotórax hipertensivo. O procedimento envolve a inserção de uma agulha (geralmente realizada com um jelco número 14) no espaço pleural (geralmente no quinto espaço intercostal na linha hemiclavicular e entre a linha axilar anterior  e média.  Recentemente o ATLS 11 edição também permite a realização de tal procedimento no segundo espaço intercostal na linha médio-clavicular do lado afetado) para aliviar a pressão acumulada. Isso é feito sem hesitação, pois o alívio da pressão pode ser a diferença entre a vida e a morte. Vale lembrar que esse é o tratamento inicial obrigatório após o diagnóstico do pneumotórax hipertensivo, porém,  o tratamento definitivo é a drenagem torácica em selo d´'agua.
    • C) Ventilação por pressão positiva: Uma má escolha sem alívio prévio da pressão pleural, pois isso poderia agravar o pneumotórax, aumentando a pressão intratorácica. A ventilação não resolve a causa e pode piorar ainda mais a dinâmica respiratória em tal cenário.
    • D) Drenagem Pleural Aberta: Uma drenagem pleural (toracostomia de selo d’água) geralmente é o próximo passo após a toracocentese descompressiva para tratamento definitivo e evitação de recorrência, mas não é o primeiro passo quando lidamos imediatamente com a emergência de um pneumotórax hipertensivo.

    Take-home message: Em uma situação de emergência como o pneumotórax hipertensivo, o reconhecimento clínico e a intervenção imediata com toracocentese descompressiva são fundamentais. A ninguém deve ser solicitado exames confirmatórios antes da intervenção em situações críticas claramente indicativas do quadro clínico, como o pneumotórax hipertensivo. Esta abordagem está alinhada com diretrizes de suporte avançado de vida como o ATLS (Advanced Trauma Life Support).