Revisão do tema
Âncora de memorização: Lombalgia inespecífica aguda/subaguda (até 6 semanas) sem sinais de alarme é manejada na APS com educação, analgesia simples e sem exames de imagem iniciais; reavaliar em 4–6 semanas.
O que é: Dor na região lombar sem causa específica identificável (sem radiculopatia, infecção, fratura, neoplasia ou síndrome da cauda equina).
Por que importa: A maioria melhora em 2–6 semanas; exames precoces aumentam custos e iatrogenia sem mudar desfechos quando não há red flags.
Como identificar: Dor mecânica, piora ao esforço/fim do dia, melhora com repouso/analgésico; exame neurológico normal; ausência de red flags (febre, perda ponderal, trauma, imunossupressão, uso crônico de corticoide, câncer prévio, idade avançada com risco, déficit neurológico progressivo, alteração esfincteriana).
Conduta & Posologia
- Educação e atividade: Explicar prognóstico benigno, evitar repouso absoluto, manter atividade leve conforme tolerado (caminhadas, alongamentos) e retorno ao trabalho precoce ajustado.
- Analgésicos de 1ª linha: Paracetamol ou AINE curto curso, conforme risco individual.
- Paracetamol: 500–1.000 mg VO a cada 6–8 h (máx. habitual 3 g/dia); duração 5–7 dias e conforme resposta.
- Ajustar para máx. 2 g/dia em hepatopatia/etilismo.
- AINEs (se baixo risco GI/renal/cv):
- - Ibuprofeno 400 mg VO 8/8 h 5–10 dias; ou
- - Naproxeno 250–500 mg VO 12/12 h 5–10 dias; ou
- - Diclofenaco 50 mg VO 8/8 h 5–7 dias.
- Considerar IBP gastroprotetor em risco.
- Relaxante muscular (uso curto, se espasmo): Ciclobenzaprina 5–10 mg VO à noite por 5–7 dias. Evitar em idosos por sedação.
- Evitar de rotina (dor aguda inespecífica): Corticoides sistêmicos, antidepressivos tricíclicos e opioides (reservar casos refratários, por curto prazo e com critérios).
- Ajustes/precauções:
- - DRC (TFG <30 mL/min): evitar AINE; preferir paracetamol em dose segura.
- - Hepatopatia: limitar paracetamol a ≤2 g/dia; evitar AINE em cirrose descompensada.
- - Idosos: maior risco de EA com AINE/relaxantes; usar dose mínima e menor tempo.
- - Interações críticas: AINE + anticoagulante/antiagregante ↑ risco de sangramento; AINE + IECA/diurético ↑ risco de injúria renal.
- Critérios de imagem (quando pedir): Presença de red flags, déficit neurológico progressivo, suspeita de fratura/infecção/neoplasia, ou dor persistente >6 semanas sem melhora. RM é exame de escolha para radiculopatia/infecção/neoplasia; RX apenas se suspeita de fratura/osteopatia.
- Critérios de internação/urgência: Síndrome da cauda equina, infecção sistêmica com foco espinhal, fratura instável, déficit neurológico progressivo importante, dor intratável.
- Follow-up: Reavaliar em 4–6 semanas ou antes se piora/novos sinais de alarme.
Discussão das alternativas:
❌ A) Solicitar ressonância magnética da coluna lombar e encaminhar para a ortopedia.
Alternativa incorreta. RM precoce sem red flags não melhora desfechos e pode levar a intervenções desnecessárias. Encaminhamento especializado não é primeira linha neste cenário.
❌ B) Solicitar radiografia lombar, prescrever corticoide oral e agendar o retorno após 10 dias.
Alternativa incorreta. RX não é indicado sem suspeita de fratura/osteopatia. Corticoide sistêmico não tem benefício estabelecido na lombalgia inespecífica aguda/subaguda e traz riscos (hiperglicemia, GI).
❌ C) Orientar repouso, fornecer atestado de 7 dias e otimizar a analgesia com antidepressivo tricíclico.
Alternativa incorreta. Repouso prolongado piora prognóstico; retorno precoce às atividades é recomendado. Antidepressivo tricíclico não é 1ª linha para dor lombar aguda inespecífica.
✅ D) Explicar a natureza benigna, orientar analgesia e atividade física leve, com reavaliação em 4 a 6 semanas.
Alternativa correta. Quadro típico de lombalgia inespecífica subaguda sem red flags. Conduta baseada em educação, manutenção de atividade e analgesia simples, com reavaliação em 4–6 semanas. Exames de imagem não são indicados inicialmente.
Take-home message
- Lombalgia inespecífica sem red flags: sem imagem inicial; educação, manter atividade e analgesia simples.
- Reavaliar em 4–6 semanas; investigar se persistência ou surgimento de sinais de alarme.
- Esquema inicial: Paracetamol 500–1.000 mg 6/6–8/8 h (máx. 3 g/d) ou AINE curto curso conforme risco.
- Red flags: déficit neurológico progressivo, alteração esfincteriana, febre, câncer, trauma, uso crônico de corticoide.
- Evitar de rotina: corticoide sistêmico, antidepressivo tricíclico, opioide na dor aguda inespecífica.