Revisão do tema
Âncora de prova: Luto agudo (dias a poucas semanas após perda) é resposta normativa, com tristeza intensa, choro, insônia e anedonia variável. A conduta prioritária na APS é acolhimento, escuta qualificada e seguimento próximo, sem medicalização precoce. Antidepressivo não é primeira linha no luto agudo sem critérios de transtorno depressivo maior (TDM) ou TEPT.
O que é: Luto agudo é a reação inicial à perda de ente querido. Difere de TDM por humor reativo, preservação de autoestima e sintomas flutuantes, gatilhados por lembranças.
Por que importa: Evitar patologizar o luto normal e iatrogenias (uso desnecessário de ISRS/BZD). Identificar red flags que indiquem TDM/TEPT, risco suicida ou luto prolongado (complicado) para encaminhamento.
Como identificar: Início há 3 dias pós-perda, choro, insônia, lembranças intrusivas do evento; nega ideação suicida; sem história psiquiátrica prévia. Quadro compatível com luto agudo.
Como manejar (APS): Acolhimento, validação do sofrimento, organização da rede de apoio, higiene do sono, breve afastamento laboral quando indicado, e reavaliação estruturada em 7–14 dias. Encaminhar se risco ou comorbidades graves.
Conduta & Posologia
- Primeira linha (sem fármaco): Escuta qualificada, psicoeducação sobre fases do luto, promoção de rituais de despedida, ativação de rede familiar/comunitária, higiene do sono e agenda de revisita em 7–14 dias (antes se piora).
- Evitar: Iniciar ISRS no luto agudo sem critérios de TDM/TEPT. Reavaliar se sintomas persistirem/agravarem-se por semanas com prejuízo funcional importante.
- Opções sintomáticas curtas (se insônia/ansiedade intensa e refratária a medidas não farmacológicas):
- - Hidroxizina: 25–50 mg VO à noite, por 3–7 dias. Idosos: iniciar 10–25 mg. Contraindicações: QT longo, arritmias, uso de outros fármacos que prolongam QT. Efeitos: sedação, anticolinérgico.
- - Lorazepam (se necessário, preferir a menor dose e menor tempo): 0,5–1 mg VO à noite, por no máximo 3–5 dias. Idosos: 0,5 mg. Contraindicações: uso de álcool/sedativos, apneia do sono, insuficiência respiratória. Risco: dependência, quedas.
- Ajustes:
- DRC/idoso: reduzir doses e iniciar baixo.
- Hepatopatia: cautela (hidroxizina e BZD).
- Gestação/lactação: evitar rotineiramente; priorizar medidas não farmacológicas.
- Interações críticas: Depressores do SNC (álcool, opioides, Z-drugs) com BZD; hidroxizina com fármacos que prolongam QT (macrolídeos, antipsicóticos).
- Critérios de encaminhamento/urgência (CAPS/urgência): ideação/plano suicida, auto/heteroagressividade, psicose, uso nocivo de substâncias, risco social importante, comorbidade psiquiátrica grave prévia, luto prolongado (sinais após 6–12 meses com prejuízo funcional), TEPT grave.
Discussão das alternativas
❌ A) Prescrever inibidor de recaptação de serotonina para alívio dos sintomas depressivos e ansiosos.
Alternativa incorreta. No luto agudo sem critérios de TDM/TEPT e sem risco, ISRS não é primeira linha. Prioriza-se suporte psicossocial e observação clínica. ISRS é reservado se evoluir para TDM ou TEPT com prejuízo funcional.
❌ B) Encaminhar ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPs) para seguimento intensivo com médico psiquiatra.
Alternativa incorreta. CAPS é para transtornos mentais graves/persistentes e crises. Luto agudo sem risco é manejável na APS com seguimento próximo. Encaminhar ao CAPS apenas se risco suicida, psicose, uso nocivo de substâncias ou luto complicado.
❌ C) Encaminhar para psicologia na atenção secundária para ofertar terapia psicanalítica breve.
Alternativa incorreta. No momento agudo, a intervenção-base é acolhimento e suporte na APS. Se terapia, prioriza-se abordagens de grief counseling/TCC focal quando indicado; "psicanálise breve" não é padrão-ouro para luto agudo e o encaminhamento imediato não é necessário sem gravidade.
✅ D) Acompanhar longitudinalmente para observação e ofertar apoio pela equipe da UBS.
Alternativa correta. Conduta alinhada à APS: escuta qualificada, validação do luto, orientação, ativação de rede, higiene do sono e reavaliação em 7–14 dias, com vigilância de risco e sinais de evolução para TDM/TEPT/luto prolongado.
Take-home message
- Luto agudo (dias-semanas) é resposta normal à perda; manejo inicial é apoio/acolhimento na APS e seguimento próximo.
- Evite iniciar ISRS no luto agudo sem critérios de TDM/TEPT; reavaliar em 7–14 dias e monitorar prejuízo funcional.
- Red flags: ideação/plano suicida, psicose, uso nocivo de substâncias, risco social → encaminhar CAPS/urgência.
- Sintomas refratários de insônia/ansiedade: considerar curto curso de sedativos (ex.: hidroxizina 25–50 mg HS ou lorazepam 0,5–1 mg HS por 3–5 dias), sempre com cautela.
- CAPS é indicado para casos graves/persistentes; luto sem risco é de manejo da UBS com equipe multiprofissional.