Revisão do tema
Âncora de memorização: Diarreia aquosa de grande volume, "água de arroz", odor fétido de peixe, rápida desidratação, contexto de saneamento precário e casos semelhantes na comunidade = quadro típico de cólera (Vibrio cholerae O1/O139).
O que é: Infecção entérica aguda por Vibrio cholerae toxigênico, caracterizada por diarreia aquosa profusa por toxina colérica (hipersecreção de Cl⁻ e água no intestino delgado).
Por que importa: Desidratação grave e choque podem ocorrer em poucas horas; é doença de notificação compulsória imediata e pode gerar surtos em áreas sem saneamento.
Como identificar: Diarreia abrupta, aquosa, volumosa, aspecto de “água de arroz”, vômitos variáveis, sem dor intensa, com desidratação desproporcional ao tempo de doença.
Exame: turgor diminuído, enchimento capilar lento, taquicardia, hipotensão, anúria. Contexto epidemiológico típico.
Exames: Diagnóstico é clínico-epidemiológico. Confirmação com cultura de fezes/meio TCBS ou teste rápido, quando disponível. Coletar amostra antes do antibiótico, sem atrasar a reposição volêmica.
Conduta & Posologia
- Reposição volêmica (Plano C – OMS/MS): Preferir Ringer lactato.
- Crianças ≥12 meses: 100 mL/kg em 3 h: 30 mL/kg em 30 min, depois 70 mL/kg em 2,5 h.
- Lactentes (<12 meses): 100 mL/kg em 6 h: 30 mL/kg em 1 h, depois 70 mL/kg em 5 h.
- Reavaliação: a cada 15–30 min, ajustar conforme pulsos, enchimento capilar, estado mental e diurese. Meta: diurese >1 mL/kg/h.
- Reidratação oral (assim que possível): SRO 75 mL/kg/4 h (Plano B) ou oferecer 5–10 mL/kg/h em pequenos volumes contínuos. Manter terapia de manutenção + reposição de perdas (10 mL/kg por evacuação aquosa).
- Antibiótico (reduz duração e volume de diarreia, sobretudo em casos moderados/graves):
- Primeira linha pediátrica: Azitromicina 20 mg/kg VO dose única (máx 1 g).
- Alternativas (conforme sensibilidade local): Eritromicina 12,5 mg/kg/dose VO 6/6 h por 3 dias; Ciprofloxacino 20 mg/kg VO dose única (máx 1 g) ou 15 mg/kg VO 12/12 h por 3 dias.
- Ajustes: Azitromicina sem ajuste em DRC leve/moderada; cautela em insuficiência hepática. Ciprofloxacino: ajustar em DRC grave.
- Gestação: preferir azitromicina.
- Suplementação de Zinco (crianças): Reduz duração e recorrência. 10 mg/dia se <6 meses; 20 mg/dia se ≥6 meses, por 10–14 dias.
- Evitar: antimotilidade (ex.: loperamida) em crianças e em diarreia invasiva. Antibiótico não substitui a hidratação.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
- - Internar se: desidratação grave, choque, anúria, incapacidade de VO, idade <5 anos com persistência de vômitos, comorbidades (DPE grave, cardiopatias), falha de reidratação oral ou contexto de surto sem suporte domiciliar.
- - UTI se: choque refratário, distúrbio eletrolítico grave (hipocalemia sintomática), alteração de consciência.
- - Ambulatorial apenas se: sem sinais de gravidade, tolerando SRO, cuidador apto, reavaliação garantida em 24–48 h ou antes se piora.
- Vigilância e controle: Coletar fezes para cultura quando possível; iniciar precauções de contato; notificação compulsória imediata ao serviço de vigilância (suspeita/confirmado) e investigação de surtos.
Discussão das alternativas
✅ A) cólera.
Alternativa correta. Diarreia aquosa em grande volume, aspecto de "água de arroz", odor fétido, rápida progressão para desidratação grave e contexto de saneamento precário com outros casos sugerem Vibrio cholerae. Abdome com peristaltismo e indolor, sem febre importante, é compatível.
❌ B) rotavírus.
Alternativa incorreta. Rotavirose cursa com vômitos proeminentes, febre baixa a moderada e diarreia aquosa, porém não costuma ter a descrição típica de "água de arroz" nem odor de peixe, e a desidratação grave em 48 h é menos específica; além disso, há impacto da vacinação na faixa etária.
❌ C) giardíase.
Alternativa incorreta. Giardíase causa diarreia gordurosa, fétida, com flatulência e curso subagudo/crônico, geralmente sem grande volume aquoso abrupto nem desidratação grave em 2 dias.
❌ D) diarreia alimentar.
Alternativa incorreta. Toxinfecções alimentares típicas são autolimitadas em 24–48 h, com vômitos importantes e sem padrão clássico de "água de arroz"; o cenário epidemiológico (vários casos na comunidade sem saneamento) favorece doença hídrica de transmissão fecal-oral como cólera.
Take-home message
- Cólera: diarreia "água de arroz", grande volume, desidratação rápida, contexto sem saneamento e surtos comunitários.
- Tratamento salva-vidas é hidratação: Ringer lactato 100 mL/kg (Plano C) + SRO precoce.
- Antibiótico em casos moderados/graves reduz volume/duração: Azitromicina 20 mg/kg VO dose única (crianças).
- Zinco em crianças: 10–20 mg/dia por 10–14 dias reduz recorrência e gravidade.
- Red flag: não usar loperamida em crianças; priorizar hidratação e correção eletrolítica.
- Notificação imediata e medidas de controle são obrigatórias diante de suspeita de cólera.