Revisão do tema
Âncora de memorização: Em adolescente com IVAS (odinofagia/rouquidão), tosse seca progressiva e RX com padrão peribrônquico difuso + hiperinsuflação/atelectasias laminares sem consolidação lobar, pense em pneumonia viral por vírus sincicial respiratório (VSR). Streptococcus pneumoniae costuma dar consolidação lobar e febre alta; Chlamydia trachomatis é neonatal; Mycoplasma dá quadro arrastado, mas RX tipicamente intersticial/peribroncovascular sem hiperinsuflação marcada e rouquidão não é destaque.
O que é e por que importa: VSR é vírus que causa infecções de vias aéreas e bronquiolite; embora mais típico em lactentes, pode acometer adolescentes com quadro de traqueobronquite/pneumonia viral. Manejo é de suporte; antibiótico não está indicado na ausência de sinais de sobreinfecção bacteriana.
Como identificar: pródromo de IVAS (odinofagia, rouquidão), tosse seca, estertores finos difusos, taquipneia, febre ausente/baixa.
RX: hiperinsuflação, espessamento peribrônquico e atelectasias laminares bilaterais; ausência de consolidação segmentar/lobar.
Erro clássico: iniciar antibiótico empírico por “pneumonia atípica” sem sinais clínico-radiológicos de bactéria típica e sem marcadores de gravidade.
Conduta & Posologia
- Suporte (primeira linha): hidratação, repouso, controle de sintomas; não usar antibiótico de rotina.
- Antitérmico/analgésico: Paracetamol 10–15 mg/kg VO a cada 6–8h (máx. 60 mg/kg/dia ou 3 g/dia em adolescentes); Ibuprofeno 10 mg/kg VO a cada 6–8h (máx. 1.2–1.6 g/dia em adolescentes), se sem contraindicações.
- Broncoespasmo presente: Salbutamol inalatório 100–200 mcg (1–2 jatos) cada 4–6h sob demanda. Ausente broncoespasmo, não prescrever broncodilatador rotineiro.
- Corticoide sistêmico: não indicado em pneumonia viral/traqueobronquite por VSR sem asma/DRGE/laringite grave.
- Antiviral anti-VSR (ribavirina): não recomendado em imunocompetente; reservado a imunossuprimidos graves.
- Oxigenoterapia: iniciar se SpO2 < 92% em ar ambiente; alvo 92–96%.
- Critérios de internação: SpO2 < 92%, FR muito elevada para idade com esforço respiratório, apneia, incapacidade de hidratação VO, comorbidades significativas (cardiopatia, pneumopatia crônica, imunossupressão), sinais de gravidade (confusão, hipotensão) ou falha ambulatorial em 24–48 h.
- UTI: hipoxemia refratária, necessidade de VNI/VMI, choque, exaustão respiratória.
- Ajustes e cautelas:
- - Paracetamol: reduzir dose em Child-Pugh B/C (máx. 2 g/dia).
- - Ibuprofeno: evitar em DRC estágio ≥3, sangramento GI, asma aspirina-sensível.
- Reavaliação: ambulatorial em 24–48 h ou antes se piora.
Discussão das alternativas
❌ A) Chlamydia trachomatis.
Alternativa incorreta. C. trachomatis causa pneumonia neonatal (2–12 semanas) com taquipneia e conjuntivite; em adolescente é causa rara de pneumonia. RX neonatal pode ser intersticial, mas o contexto etário e clínico aqui não favorece.
❌ B) Mycoplasma pneumoniae.
Alternativa incorreta. Embora comum em adolescentes e com tosse seca, costuma cursar com febre baixa, sintomas extrapulmonares ocasionais e RX intersticial/perihilar sem hiperinsuflação típica. A associação de rouquidão, quadro de IVAS e padrão radiológico sugestivo de bronquiolite viral (hiperinsuflação, espessamento peribrônquico e atelectasias laminares bilaterais) aponta mais para vírus respiratório.
❌ C) Streptococcus pneumoniae.
Alternativa incorreta. Geralmente causa febre alta, toxemia e consolidação lobar/segmentar com broncograma aéreo no RX. O caso é afebril, com evolução arrastada e estertores difusos, sem consolidação radiológica.
✅ D) vírus sincicial respiratório.
Alternativa correta. Quadro de IVAS (odinofagia, rouquidão), tosse seca progressiva e RX compatível com infecção viral de vias aéreas inferiores (hiperinsuflação, espessamento peribrônquico, atelectasias laminares), sem consolidação. VSR, embora predominante em lactentes, pode acometer adolescentes em surtos comunitários. Conduta é suporte, sem antibiótico.
Take-home message
- Pneumonia/traqueobronquite viral por VSR: pródromo de IVAS, tosse seca, estertores difusos; RX com hiperinsuflação e espessamento peribrônquico sem consolidação lobar.
- Bactéria típica (S. pneumoniae) faz consolidação lobar; atípica (Mycoplasma) é intersticial, porém sem hiperinsuflação marcada.
- Manejo é de suporte: oxigênio se SpO2 < 92%, hidratação, analgésicos/antitérmicos; sem antibiótico na ausência de sinais de sobreinfecção.
- Evite broncodilatador/corticoide de rotina na ausência de broncoespasmo; ribavirina é restrita a imunossuprimidos graves.
- Reavaliar em 24–48 h; internar se hipoxemia, esforço respiratório importante, instabilidade ou comorbidades.
