Revisão do tema
Âncora de memorização: Gestante Rh negativo, não sensibilizada (Coombs indireto negativo) + sangramento na gravidez: indicação de imunoprofilaxia anti-D, idealmente até 72 h do evento, especialmente ≥12 semanas.
O que é: Ameaça de abortamento com embrião vivo e hematoma subcoriônico (coleção entre córion e decídua). Importa por risco de hemorragia feto-materna e aloimunização Rh (formação de anti-D materno).
Por que importa: Uma vez sensibilizada, a mãe pode ter doença hemolítica perinatal em gestações atuais/futuras. A profilaxia com anti-D previne sensibilização.
Como identificar: Sangramento leve, estabilidade hemodinâmica, USG com embrião vivo e hematoma subcoriônico. Tipagem materna Rh negativo e Coombs indireto negativo confirmam não sensibilização.
Como manejar (regra prática): Em Rh negativo não sensibilizada com qualquer sangramento no 1º/2º trimestre: administrar imunoglobulina anti-D o quanto antes (ideal ≤72 h; benefício potencial até 28 dias), observação clínica e reavaliação ultrassonográfica.
Conduta & Posologia
- Imunoprofilaxia anti-D (profilaxia de eventos no 1º/2º trimestre): Se ≥12 semanas, dose padrão 300 microgramas (1500 UI) IM em dose única, o mais precoce possível, preferencialmente até 72 h do sangramento.
- Dose alternativa por idade gestacional: Se <12 semanas e sangramento leve, algumas diretrizes aceitam 50 microgramas (250 UI) IM; na indisponibilidade, usar 300 microgramas.
- Repetição: Sangramento persistente/recorrente após 12 semanas: repetir a cada 6 semanas ou a cada novo evento clínico.
- Contraindicações: Rh materno positivo, Coombs indireto positivo (já sensibilizada). Hipersensibilidade à imunoglobulina é rara.
- Efeitos adversos relevantes: Dor local, cefaleia, febre baixa; reações anafiláticas extremamente raras (especialmente em deficiência de IgA).
- Ajustes: Não requer ajuste em DRC, hepatopatia ou idade avançada.
- Interações críticas: Pode reduzir resposta a vacinas de vírus vivos; se necessárias (ex.: tríplice viral/varicela), programar pós-parto, em geral ≥3 meses após imunoglobulina.
- Outras medidas: Não há evidência para repouso absoluto; progesterona só tem benefício em ameaça de abortamento com história de perdas recorrentes (não é rotina).
- Critérios de internação vs ambulatorial:
- Ambulatorial se hemodinamicamente estável, sangramento leve e USG com embrião vivo.
- Internar se instabilidade hemodinâmica, sangramento moderado/intenso, anemia sintomática ou suspeita de abortamento inevitável.
- Seguimento: Reavaliar clínica e USG em 7–14 dias; repetir tipagem/Coombs apenas conforme calendário do pré-natal (o Coombs pode positivar transitoriamente pela imunoglobulina).
Discussão das alternativas:
❌ A) Informar que não há indicação de medidas adicionais.
Alternativa incorreta. Há indicação de imunoglobulina anti-D para prevenir aloimunização, sobretudo ≥12 semanas, mesmo em sangramento leve.
❌ C) Indicar repouso relativo e prescrever progesterona micronizada.
Alternativa incorreta. Progesterona não é rotina em ameaça de abortamento sem histórico de perdas recorrentes; além disso, omite a medida obrigatória neste caso: a anti-D.
✅ B) Administrar imunoglobulina anti-D e reavaliar em 7 a 14 dias.
Alternativa correta. Gestante Rh negativo, Coombs indireto negativo, 14 semanas e sangramento leve têm indicação de imunoprofilaxia anti-D imediatamente (ideal ≤72 h). Reavaliação em 7–14 dias é o seguimento adequado na ameaça de abortamento com embrião vivo.
❌ D) Indicar repouso relativo e aguardar 72 horas para administrar imunoglobulina.
Alternativa incorreta. Não se deve aguardar; a profilaxia deve ser feita o quanto antes, dentro da janela de até 72 h (preferencial), não após 72 h.
Take-home message
- Ameaça de abortamento com embrião vivo + Rh materno negativo e Coombs indireto negativo = indicação de anti-D.
- Dose prática ≥12 semanas: Imunoglobulina anti-D 300 microgramas IM, idealmente ≤72 h do sangramento.
- USG de controle em 7–14 dias; conduta expectante para hematoma subcoriônico se estável.
- Progesterona não é rotina; considerar apenas em ameaça de abortamento com perdas recorrentes.
- Não atrasar a anti-D: fazer o quanto antes (janela preferencial até 72 h).