Revisão do tema
Âncora de memorização: Em criança com doença falciforme, febre + dor torácica + queda de saturação = suspeitar síndrome torácica aguda (STA) até prova em contrário. STA é a principal causa de internação e óbito nessa população.
O que é: STA = novo infiltrado pulmonar em radiografia associado a ≥1: febre, dor torácica, tosse, taquipneia, sibilância ou hipoxemia. Importa porque cursa com hipoxemia, risco de progressão rápida e necessidade de antibiótico e suporte.
Mecanismo essencial: infarto pulmonar, infecção (bactérias atípicas e típicas), microembolização gordurosa, atelectasias por dor/hipoventilação → inflamação alveolar + vaso-oclusão → hipoxemia.
Como identificar: clínica respiratória + hipoxemia (SpO2 < 92–94% em AA) em falcêmico; RX de tórax costuma mostrar infiltrado novo (pode demorar horas). Na prova, a queda de SpO2 com dor torácica e febre já direciona conduta imediata.
O que muda conduta: presença de hipoxemia, dor importante e febre → internação, oxigênio, antibiótico EV e analgesia adequada; considerar transfusão se refratário/agravo.
Conduta & Posologia
- Oxigenoterapia: manter SpO2 >= 94–95%; cânula nasal ou máscara conforme necessidade.
- Antibioticoterapia empírica EV (cobrir típicos + atípicos):
- Ceftriaxona 50–75 mg/kg/dia EV 1x/dia (máx. 2 g/dia) + Azitromicina 10 mg/kg EV/VO no D1 (máx. 500 mg), seguido de 5 mg/kg/dia (máx. 250 mg) do D2–D5.
- Alternativa: Ampicilina-sulbactam 100–200 mg/kg/dia (componente ampicilina) EV dividida 6/6h + azitromicina como acima.
- Se gravidade importante, pneumonia multilobar, choque ou risco de MRSA: associar Vancomicina 15 mg/kg EV 6/6–8/8h (ajuste por função renal; alvo de vale 15–20 µg/mL).
- Duração: 5–7 dias (atípicos) a 7–10 dias (típicos), ajustar conforme evolução e culturas.
- Analgésicos: dor adequada reduz atelectasia.
- Dipirona 10–15 mg/kg EV/VO 6/6h; Ibuprofeno 10 mg/kg VO 6–8/8h (se função renal ok).
- Opioide se dor moderada-grave: Morfina 0,05–0,1 mg/kg EV a cada 2–4 h ou PCA conforme protocolo institucional.
- Hidratação: EV de manutenção ou até 1–1,2x manutenção. Evitar hiper-hidratação (risco de edema pulmonar).
- Fisioterapia/Incentivador respiratório: a cada 2 h acordado; broncodilatador se sibilância.
- Transfusão:
- Simples (10 mL/kg CH) se Hb cair > 1–2 g/dL do basal, hipoxemia persistente ou progressão clínica.
- Exsanguíneotransfusão se falência respiratória iminente, queda de SpO2 apesar de O2, infiltrado multilobar extenso ou deterioração rápida.
- Contraindicações: Heparina sem diagnóstico de TEV/EP; excesso de fluidos; AINE em DRC/desidratação.
- Ajustes:
- - Ceftriaxona: sem ajuste em DRC isolada; cautela se disfunção hepatorrenal.
- - Azitromicina: sem ajuste renal; cautela em hepatopatia.
- - Vancomicina e morfina: ajustar em DRC e monitorar níveis (vanco) e efeitos (morfina).
- Efeitos adversos relevantes: diarreia/colite (AB), nefrotoxicidade/oto (vanco), depressão respiratória (opioide), lesão renal/GE (AINE).
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
- - Internação: para todo caso de STA suspeita/confirmada (hipoxemia, febre, dor torácica).
- - UTI: necessidade de O2 alto fluxo/VM, SpO2 < 90% apesar de O2, infiltrado multilobar, acidose, choque, rebaixamento de consciência.
- Reavaliação/monitorização: sinais vitais e SpO2 contínuos; gasometria se piora; RX inicial e controle conforme clínica; hemograma, hemoculturas antes do antibiótico.
Armadilhas de prova
- - Tratar como “virose”/alta: errado em falcêmico com hipoxemia.
- - Anticoagular empiricamente como EP: em criança com STA típica, não é conduta inicial.
- - Hiper-hidratação agressiva: piora troca gasosa.
Discussão das alternativas
✅ A) síndrome torácica aguda; internação e analgesia com antibioticoterapia parenteral.
Alternativa correta. Criança falcêmica com febre, dor torácica e SpO2 89% em ar ambiente configura suspeita forte de STA. Conduta de primeira linha: internação, oxigênio, analgesia adequada e antibiótico EV cobrindo típicos e atípicos (ex.: ceftriaxona + azitromicina), além de suporte respiratório e hidratação cuidadosa.
❌ B) embolia pulmonar aguda; internação e anticoagulação com dose plena de heparina.
Alternativa incorreta. Embora falcêmicos tenham risco trombótico aumentado, em pediatria e com quadro típico (febre, dor, hipoxemia, achado auscultatório) a hipótese prioritária é STA. Anticoagulação plena sem confirmação de TEP expõe a risco de sangramento e não trata a fisiopatologia central da STA.
❌ C) síndrome torácica aguda; observação por 24 horas e analgesia com hidratação endovenosa.
Alternativa incorreta. Há hipoxemia documentada (SpO2 89%), o que indica internação e antibiótico EV imediato. Observação ambulatorial sem antibiótico e sem O2 é inadequada e arriscada.
❌ D) embolia pulmonar aguda; observação por 24 horas e anticoagulação com dose profilática de heparina.
Alternativa incorreta. Além de focar em TEP sem evidências, a conduta proposta é insuficiente (dose profilática não trata TEP) e negligencia a antibioticoterapia e oxigenoterapia, que são pilares na STA.
Take-home message
- Em falcêmico, STA = infiltrado novo + (febre/dor torácica/tosse/taquipneia/hipoxemia); na prova, hipoxemia + dor/fevereiro já direciona.
- Conduta imediata: oxigênio, analgesia, hidratação moderada, incentivador respiratório e antibiótico EV (ceftriaxona 50–75 mg/kg/d + azitromicina 10→5 mg/kg).
- Sempre internar STA; UTI se hipoxemia refratária, infiltrado multilobar ou instabilidade.
- Evite hiper-hidratação e heparina sem diagnóstico de TEP.
- Considere transfusão (simples ou troca) se queda de Hb, hipoxemia persistente ou piora clínica.