Revisão do tema
Âncora de memorização: Sialorreia + tosse/cianose ao mamar + polidrâmnio pré-natal + impossibilidade de passar sonda orogástrica = atresia esofágica (frequentemente com fístula traqueoesofágica distal).
Epidemiologia e Etiologia
- Frequência: Malformação congênita do trato digestivo alto mais comum do esôfago; incidência aproximada de 1:2.500–1:4.500 nascidos vivos. Alta suspeita em pré-natal com polidrâmnio.
- Associações: Até 50% com outras anomalias (cardíacas, renais, vertebrais, anorretais), e complexos como VACTERL. Importa para estratificar risco cirúrgico.
- Fisiopatologia essencial: Interrupção do lúmen esofágico (fundo de saco proximal). Na variante mais comum, há fístula distal entre traqueia e esôfago, permitindo passagem de ar ao estômago.
Diagnóstico
- O que é: Malformação congênita com interrupção do esôfago, com ou sem fístula traqueoesofágica.
- Por que importa: Alto risco de aspiração, pneumonia química, insuficiência respiratória e acidose. Exige jejum imediato e correção cirúrgica precoce.
- Como identificar (clínico): Sialorreia intensa, engasgos/tosse/cianose ao iniciar alimentação, desconforto respiratório. História de polidrâmnio e pequena/ausente bolha gástrica ao pré-natal podem estar presentes.
- Teste à beira-leito: Impossibilidade de progressão de sonda orogástrica calibrosa (6–10 Fr) além de 10–12 cm; a sonda enovela no fundo de saco proximal.
- Padrão-ouro de imagem inicial: Radiografia de tórax e abdome com sonda radio-opaca posicionada. Achados: sonda enovelada no esôfago proximal; gás abdominal presente sugere fístula distal; ausência de gás sugere atresia sem fístula. Evitar contrastes de bário; se dúvida, usar contraste hidrossolúvel em pequena quantidade, com proteção de via aérea.
- Armadilha de prova (mini-exemplo): Se há vômitos biliosos e distensão abdominal importante nas primeiras horas de vida, pense obstrução intestinal baixa, e não atresia esofágica.
- Confirmações adicionais: Ecocardiograma (variações do arco aórtico definem via de abordagem), rastreio de malformações associadas (renal, vertebral, anorretal).
- Conduta & Posologia
- Próximo passo imediato: Jejum absoluto, manter cabeça elevada 30–45° (semi-Fowler), aspiração contínua do fundo de saco proximal (sonda em aspiração intermitente ou contínua de baixa pressão) para reduzir risco de aspiração.
- Via aérea: Oxigênio conforme necessidade; intubação se desconforto respiratório. Evitar ventilação com máscara em suspeita de fístula, pois distende o estômago e piora a ventilação.
- Acesso venoso e suporte: Hidratação venosa, correção de distúrbios, manter normotermia. UTI neonatal e avaliação imediata da cirurgia pediátrica.
- Imagem para confirmação: Radiografia de tórax/abdome com sonda radio-opaca posicionada no esôfago proximal. Não insistir em múltiplas tentativas de passagem da sonda.
- Tratamento definitivo (cirúrgico): Correção precoce com ligadura da fístula e anastomose esofágica primária quando anatomia permite. Em gaps longos, estratégias em estágios (gastrostomia, alongamento esofágico) podem ser necessárias.
- Antibioticoterapia: Pode ser indicada se houver suspeita de pneumonite por aspiração ou sepse (ex.: ampicilina + amicacina conforme protocolos locais). Diretriz brasileira não define esquema único de rotina; individualizar conforme quadro clínico e microbiologia local.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Todos os casos suspeitos devem ser internados em UTI neonatal; não há manejo ambulatorial.
- Alertas: Não oferecer dieta oral; não usar contraste baritado; não insistir em passagens repetidas de sonda.
- Discussão das alternativas
✅ A) Atresia esofágica.
Alternativa correta. O conjunto sialorreia intensa, tosse/cianose à alimentação, insuficiência respiratória e polidrâmnio, associado à ausência de passagem de sonda ao nascimento, é típico de atresia esofágica (frequentemente com fístula traqueoesofágica distal). Padrão de ouro: radiografia com sonda radio-opaca enovelada no esôfago proximal.
❌ B) Atresia gástrica.
Alternativa incorreta. Atresia gástrica é rara; cursa com vômitos não biliosos e distensão epigástrica, sem sialorreia acentuada e sem falha de progressão da sonda ao esôfago. A clínica respiratória por aspiração ao mamar não é típica.
❌ C) Atresia intestinal.
Alternativa incorreta. Atresias intestinais (duodenal/jejunoileal) manifestam-se com vômitos biliosos e distensão abdominal nas primeiras horas de vida, com passagem de sonda orogástrica possível. Não explicam sialorreia marcada e engasgos imediatos à sucção.
❌ D) Atresia pancreática.
Alternativa incorreta. "Atresia pancreática" não é entidade nosológica. O pâncreas anular pode causar obstrução duodenal (quadro de vômitos biliosos e dupla bolha na radiografia), o que não corresponde ao caso.
Take-home message
- Sialorreia + tosse/cianose ao mamar + polidrâmnio pré-natal = suspeitar fortemente de atresia esofágica.
- Confirmação inicial: radiografia com sonda radio-opaca enovelada no esôfago proximal; gás abdominal sugere fístula distal.
- Conduta imediata: jejum, cabeceira elevada, aspiração contínua do fundo de saco, UTI neonatal e cirurgia pediátrica precoce.
- Red flag: não ventilar com máscara (risco de distensão gástrica pela fístula) e não usar bário.
- Diferenciação rápida: vômitos biliosos/distensão abdominal precoce sugerem obstrução intestinal, não atresia esofágica.
- Investigue malformações associadas (cardíacas, renais, anorretais) para planejamento cirúrgico.