Revisão do tema
Âncora de memorização: Dor inicial em mesogástrio/epigástrio que migra para fossa ilíaca direita + febre baixa (diferença axilo-retal) + leucocitose com neutrofilia + sinais de irritação peritoneal em ponto de McBurney definem o quadro típico de apendicite aguda.
Epidemiologia e Etiologia
- Apendicite aguda é a principal causa de abdome agudo cirúrgico em adultos jovens no Brasil; pico em 10–30 anos, leve predomínio masculino.
- Etiologia: obstrução luminal (fecalito, hiperplasia linfoide) com isquemia, proliferação bacteriana e inflamação; evolução para peritonite quando há perfuração.
Diagnóstico
- O que é: Inflamação do apêndice vermiforme por obstrução luminal; o diagnóstico é clínico-epidemiológico, auxiliado por exames.
- Por que importa: Atraso aumenta risco de perfuração, abscesso e sepse.
- Como identificar (clínico):
- Dor visceral inicial periumbilical/epigástrica que migra para fossa ilíaca direita (transição para dor somática por irritação peritoneal).
- Febre baixa; diferença axilo-retal >1,0 °C favorece peritonite localizada.
- Sinais em fossa ilíaca direita: ponto de McBurney doloroso (ponto médio entre espinha ilíaca ântero-superior e umbigo), Blumberg (dor à descompressão), Rovsing (dor em FID à compressão em flanco esquerdo), psoas e obturador (apêndice retrocecal/pélvico).
- Laboratório: Leucocitose e neutrofilia são comuns. Piúria discreta pode ocorrer por irritação ureterovesical contígua — não confundir com infecção urinária.
- Imagem:
- Ultrassonografia: exame inicial em jovens e gestantes; apêndice >6 mm, não compressível, gordura hiperecogênica.
- Tomografia computadorizada: maior acurácia quando dúvida diagnóstica ou complicação (perfuração/abscesso).
- Escore de Alvarado (MANTRELS): ≥7 sugere fortemente apendicite; útil na triagem, não substitui o exame físico/imagem.
Conduta & Posologia
- Próximo passo no caso típico: Classificar estabilidade, solicitar ultrassonografia (ou tomografia se dúvida/complicação) e encaminhar para apendicectomia quando confirmação ou alta probabilidade clínica.
- Tratamento de primeira linha: Apendicectomia precoce (laparoscópica quando disponível) com antibiótico perioperatório. Em perfuração/abscesso: drenagem e terapia antibiótica prolongada, com suporte.
- Antibioticoterapia: Profilaxia perioperatória em casos não complicados; terapia por 4–7 dias em complicados (perfuração/abscesso). Esquema segue protocolo institucional/local.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internação para todos com suspeita moderada/alta; UTI se instabilidade hemodinâmica, sepse ou falência orgânica.
Discussão das alternativas
✅ D) Dor à descompressão entre a espinha ilíaca ânterosuperior e o umbigo.
Alternativa correta. Descreve dor à descompressão (sinal de Blumberg) no ponto de McBurney, achado clássico de irritação peritoneal localizada na apendicite aguda. No caso, dor migratória para fossa ilíaca direita, febre baixa (diferença axilo–retal), leucocitose/neutrofilia e piúria discreta compõem o quadro típico.
❌ A) Dor à punho-percussão na região lombar à direita.
Alternativa incorreta. Corresponde ao sinal de Giordano, compatível com pielonefrite aguda ou cólica renal. Na apendicite, o achado cardinal é dor localizada em fossa ilíaca direita e sinais peritoneais (McBurney/Blumberg), não punho-percussão lombar.
❌ B) Crepitação na parede abdominal associada à presença de gás.
Alternativa incorreta. Crepitação subcutânea abdominal sugere enfisema de partes moles/infecção necrosante ou perfuração com pneumoperitônio maciço, não sendo achado da apendicite não complicada. É uma red flag para fasciíte necrosante, que exige debridamento imediato.
❌ C) Dor à palpação no hipocôndrio direito durante inspiração profunda.
Alternativa incorreta. É o sinal de Murphy, típico de colecistite aguda. O quadro clínico apresentado (migração da dor para fossa ilíaca direita, febre baixa, leucocitose) não aponta para doença biliar.
Take-home message
- Apendicite aguda: dor que migra para fossa ilíaca direita + leucocitose/neutrofilia + Blumberg no ponto de McBurney é combinação clássica de prova.
- Piúria discreta pode ocorrer por contiguidade; não descarte apendicite por sumário de urina com poucos piócitos.
- Ultrassonografia é o exame inicial em jovens; tomografia aumenta acurácia quando há dúvida ou complicação.
- Conduta principal: apendicectomia precoce com antibiótico perioperatório; prolongar antibiótico se perfuração/abscesso.
- Red flag: crepitação subcutânea sugere infecção necrosante; não espere imagem para debridamento.
- Escore de Alvarado ≥7 apoia decisão; não substitui exame físico e avaliação cirúrgica.