Revisão do tema
Âncora de memorização: Gestante com febre + exantema + cefaleia e leucopenia/plaquetopenia até 7 dias de sintomas: pense primeiro em Dengue e classifique para definir hidratação e local de cuidado. Gestação é condição especial: tendência a internar e monitorar diariamente.
Epidemiologia e Etiologia
- Contexto Brasil: Dengue é a arbovirose mais prevalente, com sazonalidade marcada. Gestantes têm maior risco de desfechos adversos (hemorragia, perda fetal, parto prematuro).
- Etiologia: Vírus da Dengue sorotipos 1–4, transmitido por Aedes aegypti.
Diagnóstico
- Definição operacional (MS): Febre aguda (até 7 dias) + ≥2: náuseas/vômitos, exantema, mialgia/artralgia, cefaleia/dor retro‑orbital, petéquias/positividade do laço, leucopenia; com ou sem sinais de alarme.
- Exames típicos na fase aguda: Leucopenia, plaquetopenia progressiva (pode iniciar <150.000/mm³), hematócrito estável ou ascendente na defervescência.
- Gestação: priorizar hemograma diário, avaliação de sinais de alarme e balanço hídrico. Sorologia/NS1 conforme tempo de sintomas, mas a conduta é clínica no cenário agudo.
- Diferenciais rápidos:
- Chikungunya: artralgia intensa incapacitante/edematosa, febre alta, menos leucopenia marcada.
- Zika: exantema pruriginoso + conjuntivite não purulenta, febre baixa, hemograma geralmente normal.
- Oropouche: febre, cefaleia e mialgia, sem padrão hematológico de dengue; exantema é menos típico.
Conduta & Posologia
- Classificação clínica provável: Dengue sem sinais de alarme em gestante (condição especial) ⇒ internação/observação hospitalar, hemograma diário e hidratação guiada.
- Hidratação venosa (cristaloide isotônico): Ringer lactato ou SF 0,9% em 1–1,5 mL/kg/h (manutenção), ajustar por diurese (alvo ≥0,5–1 mL/kg/h), PA e hematócrito. Se desidratação leve/moderada: 20 mL/kg em 2 h e reavaliar clinicolab.
- Antitérmico/analgésico na gestação:
- Paracetamol: 500–750 mg VO 6/6–8/8 h (máx. 3 g/dia).
- Dipirona: 500–1.000 mg VO/EV 6/6–8/8 h (máx. 4 g/dia) quando necessário. Preferir menor tempo possível.
- Evitar sempre: Ácido acetilsalicílico e anti‑inflamatórios não esteroidais (risco de sangramento e nefrotoxicidade).
- Transfusão de plaquetas: NÃO indicada pela plaquetopenia isolada. Considerar se sangramento clínico significativo ou procedimento/parto iminente com plaquetas <50.000/mm³.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
- Internar (gestante): qualquer suspeita de dengue com necessidade de hidratação EV, impossibilidade de via oral, comorbidades, plaquetopenia em queda rápida, hematócrito ascendente, ou qualquer sinal de alarme (dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, hipotensão/PA diferencial, letargia/irritabilidade, hepatomegalia dolorosa).
- UTI: choque, sangramento grave, insuficiência de órgão.
- Ambulatorial: excepcional, apenas se estável, boa aceitação VO, sem alarme, com acesso diário a reavaliação — na gestação, regra prática: preferir observação/internação.
- Ajustes e cautelas: Reduzir dose de paracetamol em hepatopatia; evitar dipirona em insuficiência hepática grave e história de agranulocitose. Monitorar enzimas hepáticas se dor persistente/colúria.
Discussão das alternativas
✅ A) Dengue; internar imediatamente a paciente, iniciar hidratação venosa, dipirona endovenosa e realizar controle diário de plaquetas.
Alternativa correta. Quadro clínico compatível (febre, exantema, cefaleia) + leucopenia e plaquetopenia (110.000/mm³). Gestação é condição especial: o Ministério da Saúde recomenda observação/internação, hidratação com cristaloide e hemograma diário. Dipirona/Paracetamol são antitérmicos aceitos; evitar AAS/AINE. Justifica-se a conduta hospitalar e o monitoramento seriado.
❌ B) Chikungunya; colocar a paciente em leito de observação clínica, iniciar hidratação venosa, dipirona e, após terminar, liberar retorno ao pré-natal.
Alternativa incorreta. Chikungunya cursa com artralgia severa incapacitante e edema articular — não descritos. Além disso, a leucopenia/plaquetopenia sustenta mais dengue. Em gestantes com suspeita de arbovirose, não se deve simplesmente liberar após hidratação; é necessário monitorar diariamente hemograma/sinais de alarme.
❌ C) Zika; colocar a paciente em leito de observação clínica, iniciar hidratação venosa, dipirona endovenosa e realizar controle diário de plaquetas.
Alternativa incorreta. Zika tipicamente tem exantema pruriginoso, conjuntivite não purulenta e febre baixa, com hemograma usualmente normal. A presença de leucopenia e plaquetopenia sugere dengue. Embora o controle clínico estreito na gestação seja adequado, a hipótese etiológica está errada.
❌ D) Febre de Oropouche; internar imediatamente a paciente, iniciar transfusão de plaquetas, paracetamol por via oral e, após a transfusão, liberar retorno ao pré-natal.
Alternativa incorreta. Oropouche não explica bem o padrão laboratorial. Transfusão de plaquetas é contraindicada na plaquetopenia isolada sem sangramento significativo. Em dengue, transfundir apenas diante de hemorragia ou procedimento/parto iminente com plaquetas <50.000/mm³. Alta após transfusão é inadequada.
Take-home message
- Gestante com febre + exantema e leucopenia/plaquetopenia até 7 dias: pensar primeiro em Dengue.
- Condição especial: internar/observar, hidratação com cristaloide e hemograma diário.
- Antitérmico seguro: Paracetamol 500–750 mg VO 6/6–8/8 h (máx. 3 g/dia); pode usar dipirona se necessário (curto prazo).
- Red flag: NÃO usar AAS/AINE e não transfundir plaquetas sem sangramento ou procedimento iminente.
- Chikungunya vs Dengue: artralgia incapacitante favorece chikungunya; leucopenia/plaquetopenia favorece dengue.
- Zika: exantema muito pruriginoso + conjuntivite; hemograma geralmente normal — menos provável aqui.

