Revisão do tema
Âncora de memorização: Em contexto de surto comunitário com início súbito (< 48 h) de febre alta e mialgia, especialmente em população indígena (grupo prioritário), trate síndrome gripal por influenza com antiviral mesmo sem confirmação laboratorial.
Epidemiologia e Etiologia
- Cenário brasileiro: Influenza sazonal causa surtos com transmissão pessoa a pessoa. Populações indígenas são consideradas grupos de risco para complicações e são prioritárias para tratamento antiviral e vigilância.
- Agentes virais principais: Vírus Influenza A e B. Em surtos comunitários, casos semelhantes no mesmo período reforçam etiologia viral.
Diagnóstico
- Definição operacional (síndrome gripal em adultos): Início súbito de febre, mesmo referida, acompanhada de tosse ou dor de garganta, e pelo menos um sintoma sistêmico (mialgia, cefaleia), na ausência de outro diagnóstico específico. Leve dispneia pode ocorrer.
- Padrão-ouro laboratorial: RT-PCR para influenza em secreção respiratória. Na prática da APS em surto e grupos de risco, o tratamento é empírico.
- Diferenciação rápida:
- Influenza vs resfriado comum: Influenza tem febre alta e mialgia intensa; resfriado tem febre ausente/baixa e sintomas leves.
- Influenza vs pneumonia bacteriana: Bacteriana costuma ter quadro mais localizado, consolidação radiológica e toxemia progressiva; aqui o início é abrupto e há cluster de casos.
- Influenza vs tuberculose: Tuberculose é subaguda/crônica (semanas), com tosse prolongada, emagrecimento e sudorese noturna.
Conduta & Posologia
- Indicação de antiviral (oseltamivir): Iniciar imediatamente em síndrome gripal com fator de risco (inclui população indígena) ou em surto, idealmente até 48 h do início dos sintomas, sem aguardar resultado.
- Esquema padrão (adultos): Oseltamivir 75 mg VO a cada 12 h por 5 dias.
- Ajuste em doença renal crônica (clearance de creatinina):
- 30–60 mL/min: 75 mg VO a cada 12 h (sem ajuste ou considerar 75 mg 12/12 h conforme protocolo local).
- 10–30 mL/min: 75 mg VO a cada 24 h por 5 dias.
- <10 mL/min ou diálise: seguir esquemas pós-diálise recomendados em protocolo local (ex.: 30 mg após diálise, em dias alternados; verificar normativo vigente).
- Ajuste hepático: Não costuma ser necessário em disfunção hepática leve a moderada; monitorar em insuficiência grave.
- Contraindicações: Hipersensibilidade ao oseltamivir. Usar com cautela em insuficiência renal grave sem ajuste.
- Efeitos adversos relevantes: Náuseas, vômitos, dor abdominal; raros eventos neuropsiquiátricos (agitação, confusão), hipersensibilidade cutânea.
- Antibiótico: Não indicado rotineiramente em síndrome gripal não complicada. Avaliar sobreposição bacteriana se piora clínica, consolidação radiológica ou marcadores compatíveis.
- Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
- Internar se sinais de Síndrome Respiratória Aguda Grave: dispneia importante, saturação < 95% em ar ambiente, FR ≥ 30 irpm, hipotensão, alteração de consciência, comorbidades descompensadas ou falha terapêutica.
- Ambulatorial se estável hemodinamicamente, sem hipoxemia e sem sinais de gravidade; orientar retorno imediato se piora e reavaliar em 24–48 h.
- Vigilância e controle: Notificar síndrome gripal em surto na comunidade indígena e, se disponível, coletar RT-PCR para influenza em amostra representativa.
Discussão das alternativas
✅ A) Pneumonia viral; prescrever o uso de oseltamivir.
Alternativa correta. Quadro típico de síndrome gripal/influenza (febre alta, mialgia, tosse, odinofagia, cefaleia) com início há 36 h em surto comunitário indígena. Indígenas são grupo prioritário; o Ministério da Saúde recomenda oseltamivir 75 mg VO 12/12 h por 5 dias sem aguardar confirmação laboratorial, sobretudo nas primeiras 48 h. Estertores basais leves podem ocorrer em acometimento viral; ausência de instabilidade sustenta manejo ambulatorial com antiviral.
❌ B) Tuberculose; solicitar pesquisa de BAAR no escarro.
Alternativa incorreta. Tuberculose tem evolução subaguda/crônica (semanas), tosse persistente, perda ponderal e sudorese noturna. Aqui os sintomas têm 36 h e há agregação de casos no mesmo período, favorecendo influenza. BAAR é indicado em tosse por ≥2–3 semanas ou suspeita clínica-epidemiológica compatível, o que não ocorre.
❌ C) Pneumonia bacteriana; indicar o uso de ceftriaxona e amoxicilina.
Alternativa incorreta. Não há evidências de pneumonia bacteriana (sem toxemia, sem consolidação típica, início abrupto e cluster de casos). Além disso, a associação ceftriaxona + amoxicilina é redundante e não é esquema de primeira linha em PAC ambulatorial; quando indicado, opta-se por um esquema adequado ao cenário. Aqui o tratamento é antiviral, não antibiótico.
❌ D) Resfriado comum; recomendar o uso de medicações sintomáticas.
Alternativa incorreta. Resfriado comum raramente cursa com febre alta (39 ºC), mialgia intensa e dispneia. Em população indígena e em surto, influenza é a hipótese mais provável e deixar de iniciar oseltamivir é erro, sobretudo com 36 h de sintomas.
Take-home message
- Surto + início súbito (<48 h) de febre alta e mialgia em indígena = tratar síndrome gripal por influenza empiricamente.
- Antiviral de escolha: Oseltamivir 75 mg VO 12/12 h por 5 dias (iniciar sem aguardar exame).
- Ajuste em DRC: reduzir para 75 mg 24/24 h se ClCr 10–30 mL/min; esquemas pós-diálise quando ClCr <10 mL/min.
- Red flag: Sinais de SARG (SatO2 <95%, FR ≥30, hipotensão, rebaixamento) = internar e ampliar suporte.
- Antibiótico não é de rotina na síndrome gripal; considerar apenas se sobreinfecção bacteriana.
- Notificar e, se possível, coletar RT-PCR em amostras do surto para vigilância.