Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Escabiose em ambientes coletivos superlotados exige tratamento simultâneo dos contactantes e higiene ambiental adequada; ivermectina por peso é opção prática para surtos institucionais.
Epidemiologia e Etiologia
- Agente: Sarcoptes scabiei var. hominis (ácaro humano). Transmissão por contato pele a pele prolongado e, em menor grau, por fômites (roupas/lençóis).
- Cenário brasileiro: Maior risco em prisões, abrigos e domicílios superlotados. Surtos são comuns e requerem manejo coletivo.
Diagnóstico
- Definição operacional (clínica): Prurido noturno + lesões papuloescoriadas em áreas típicas (pregas, punhos, axilas, mamilos, umbigo, genitália, região glútea) + história de contatos.
- Confirmação (quando disponível): Visualização do ácaro/ovos/fezes no raspado de pele ou dermatoscopia (sinal do “aviãozinho/delta”).
- Diagnóstico diferencial: Dermatite atópica, picadas de inseto, prurigo, pediculose pubiana, dermatite de contato.
- Critério de surto institucional: Múltiplos casos na mesma unidade/cela em curto intervalo, exigindo tratamento simultâneo dos contactantes.
Conduta & Posologia
- Medidas coletivas (primeira linha em surtos): Tratar todos os casos e contatos próximos simultaneamente; reforçar higiene pessoal; trocar e lavar roupas/lençóis/toalhas em água quente (idealmente ≥60 °C por 10–30 min) ou vedar em sacos por 72 h; limpeza ambiental rotineira (sem fumigantes).
- Ivermectina VO (opção prática em surto): 200 microgramas/kg (0,2 mg/kg), dose única, repetir em 7–15 dias. Comprimidos de 6 mg; arredondar para múltiplos inteiros de 6 mg.
- Cálculo para o caso (98 kg): 0,2 mg/kg × 98 = 19,6 mg → arredondar para 18 mg (3 comp de 6 mg) agora e repetir em 15 dias. Alternativamente, 24 mg (4 comp) pode ser usado conforme tabela local, mas 18 mg é aceito e usual nas diretrizes nacionais.
- Alternativa tópica (quando logística permite): Permetrina 5% creme do pescoço para baixo por 8–14 h, repetir em 7 dias. Outras: benzoato de benzila 25% (com ou sem enxofre), enxofre 5–10% por 3 noites.
- Contraindicações ivermectina: Gestação, lactentes <15 kg; cautela em doença hepática grave.
- Efeitos adversos relevantes: Prurido transitório, exantema, cefaleia, náusea, tontura; raramente elevação de transaminases.
- Interações críticas: Potencial aumento do INR com varfarina; evitar associações que aumentem penetração no sistema nervoso central.
- Critérios de internação/encaminhamento: Suspeita de escabiose crostosa (hiperqueratósica), imunossupressão importante, impetiginização extensa/celulite, falha terapêutica repetida.
- Reavaliação: Em 2–4 semanas; prurido pode persistir após a erradicação (dermatite pós-escabiose), manejando com emolientes/anti-histamínicos.
Discussão das alternativas
✅ D) Incremento da frequência de limpeza geral da unidade e higienização adequada das roupas de uso pessoal, de cama e de banho; uso de ivermectina 6 mg, dose conforme o peso, repetindo em 15 dias, para todos da cela.
Alternativa correta. Em surtos institucionais, a conduta é tratamento simultâneo de casos e contatos, com higiene ambiental/roupas. Ivermectina por peso (0,2 mg/kg) é recomendada e prática; repetir em 7–15 dias. Para 98 kg, usar 18 mg (3 comp de 6 mg) e repetir em 15 dias.
❌ A) Restrição de visitas aos detentos e isolamento dos casos nas celas, sem permissão de saída; uso de ivermectina 6 mg, 01 comprimido via oral, repetindo em 15 dias, para todos da cela.
Alternativa incorreta. Escabiose não requer restrição de visitas ou isolamento carcerário; a chave é tratar contatos e higiene de roupas/ambiente. Além disso, a dose de 6 mg (1 comp) é insuficiente para adultos; a dose correta é 0,2 mg/kg com repetição em 7–15 dias.
❌ B) Isolamento dos casos na enfermaria da unidade e lavagem frequente das roupas de cama, de banho e de vestuário com água quente (pelo menos a 30 °C); uso de sprays inseticidas e fumigantes.
Alternativa incorreta. Isolamento na enfermaria não é necessário. A lavagem deve ser em temperatura mais alta (ideal ≥60 °C) ou oclusão em saco por 72 h. Sprays/fumigantes não são recomendados para escabiose.
❌ C) Realização de palestras educativas para os detentos sobre medidas preventivas e aumento do tempo de banho de sol; uso de fluconazol 150 mg por semana durante 1 mês, para todos da cela.
Alternativa incorreta. Educação é útil, mas não substitui tratamento simultâneo. Fluconazol trata micoses, não escabiose (ectoparasitose). O fármaco de escolha é permetrina tópica ou ivermectina 0,2 mg/kg VO em surtos.
Take-home message
- Escabiose em instituições: tratar casos e todos os contactantes simultaneamente + higiene de roupas/ambiente.
- Ivermectina VO: 0,2 mg/kg (6 mg/comprimido), dose única, repetir em 7–15 dias.
- Para 98 kg: 18 mg (3 comprimidos) hoje e em 15 dias.
- Red flag: não usar fumigantes/sprays ambientais; priorize lavagem ≥60 °C ou oclusão 72 h.
- Permetrina 5% é alternativa tópica eficaz; preferir ivermectina em surtos pela praticidade.
- Evite ivermectina em gestantes e crianças <15 kg; considerar opções tópicas seguras.