Revisão do tema
Âncora de memorização: Surto de hepatite A em escolares exige ação de vigilância: notificação imediata, investigação e busca ativa de casos/contatos. Intervenções coletivas superam medidas individuais isoladas.
Epidemiologia e Etiologia
Agente: Vírus da hepatite A (HAV), transmissão fecal-oral (água/alimentos contaminados e contato pessoa a pessoa).
Incubação: 15–50 dias (média ~30). Transmissibilidade: maior de 2 semanas antes até 1 semana após início da icterícia.
Brasil: Casos associados a saneamento inadequado e surtos por contaminação hídrica/alimentar. Notificação compulsória; surtos têm notificação imediata.
Diagnóstico
Padrão-ouro laboratorial: IgM anti-HAV reagente em contexto clínico compatível (febre baixa, náuseas, icterícia, colúria, hipocolia).
Definições operacionais (vigilância): Surto = ocorrência de 2 ou mais casos relacionados no espaço/tempo com vínculo epidemiológico comum (ex.: mesma escola + evento de esgoto).
Investigação de surto: Notificação imediata, identificação de fonte/veículo (água/alimento), mapeamento de casos, busca ativa de sintomáticos e contatos, coleta oportuna de amostras.
Conduta & Posologia
Medidas coletivas prioritárias (primeira linha): Notificar surto imediatamente ao sistema de vigilância; iniciar busca ativa de sintomáticos na escola e domicílios; orientar higiene das mãos, saneamento e segurança da água/alimentos; avaliar qualidade da água (cloração) e descarte de esgoto.
Afastamento de atividades: Não há indicação de suspensão de aulas. Afastar manipuladores de alimentos e crianças em creches com higiene precária até 7 dias após início da icterícia; reforçar medidas de higiene em banheiros/cozinhas.
Profilaxia pós-exposição (selecionada, não rotineira para todos): Imunoglobulina humana para suscetíveis com alto risco de formas graves (hepatopatia crônica, imunodeficiência, gestantes) até 14 dias da exposição: 0,02 mL/kg IM, dose única. Avaliar com a vigilância local.
Vacina hepatite A (PNI): Dose de rotina aos 15 meses. Em surtos, a vacinação de bloqueio pode ser considerada pela vigilância em contextos específicos e disponibilidade programática; não é medida universal imediata para todos os contatos escolares.
Tratamento dos casos: Suporte clínico (hidratação, antieméticos se necessário), evitar hepatotóxicos. Monitorar função hepática em sintomáticos intensos.
Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: - Internar se vômitos incoercíveis, desidratação grave, dor intensa refratária, coagulopatia (INR ≥ 1,5), elevação importante de transaminases com queda de estado geral. - UTI se insuficiência hepática aguda (encefalopatia + INR ≥ 1,5) ou deterioração rápida. - Ambulatorial nos casos leves com hidratação e seguimento clínico em 48–72h.
Contraindicações e alertas: Isolamento hospitalar para “cortar” transmissão comunitária é inadequado; foco é vigilância e medidas ambientais/coletivas. Evitar paracetamol em doses altas.
Discussão das alternativas
✅ B) Notificar o surto imediatamente e realizar a busca ativa de sintomáticos na escola e nos domicílios.
Alternativa correta. Diretriz de vigilância: surtos têm notificação imediata e exigem busca ativa para identificar casos, orientar isolamento domiciliar relativo (higiene rigorosa) e implementar medidas ambientais na fonte (água/esgoto). É a intervenção que interrompe a transmissão em nível populacional.
❌ A) Determinar o isolamento hospitalar dos casos para interromper a cadeia de transmissão fecal-oral na comunidade.
Alternativa incorreta. Hospitalização não reduz transmissão comunitária e não é indicada na maioria dos casos leves. O controle depende de vigilância, saneamento, higiene e manejo de contatos. Internar apenas por critério clínico (desidratação grave, insuficiência hepática aguda).
❌ C) Prescrever imunoglobulina humana para contatos da escola e domicílio.
Alternativa incorreta. A imunoglobulina não é indicada de forma universal para todos os contatos escolares. Uso é selecionado para suscetíveis com alto risco de formas graves em até 14 dias da exposição, na dose de 0,02 mL/kg IM, conforme avaliação da vigilância. Medida de primeira linha é a investigação e busca ativa.
❌ D) Suspender as atividades escolares por 45 dias para aguardar o término do período de incubação viral.
Alternativa incorreta. Suspensão prolongada de aulas não é recomendada. O controle é feito com notificação imediata, busca ativa, educação em saúde e correção de falhas de água/esgoto. Afastamentos são pontuais (ex.: manipuladores de alimentos por ~7 dias após icterícia), não coletivos.
Take-home message
- Surto de hepatite A: notificação imediata + busca ativa na escola e domicílios é a intervenção central.
- Controle é populacional: água segura, higiene, manejo de resíduos e educação em saúde na fonte do surto.
- Afastar manipuladores de alimentos e casos de creches até 7 dias após início da icterícia; não suspender aulas de forma ampla.
- Imunoglobulina pós-exposição é excepcional: 0,02 mL/kg IM (até 14 dias) para suscetíveis de alto risco.
- Red flag: não indicar isolamento hospitalar como medida de controle comunitário; internar apenas por gravidade clínica.
- Diagnóstico: IgM anti-HAV + quadro clínico; lembrar período de maior transmissibilidade no início do quadro.