Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Na gestação, teste rápido treponêmico reagente = tratar no mesmo dia. Não se espera VDRL para "confirmar". Parcerias devem ser convocadas com apoio da equipe para avaliação e tratamento oportuno (prevenção da sífilis congênita).
Epidemiologia e Etiologia
Contexto Brasil: Sífilis adquirida e na gestação seguem elevadas no SUS. Transmissão vertical pode ocorrer em qualquer fase gestacional, inclusive precoce (8 semanas).
Agente: Treponema pallidum (espiroqueta). Alta transmissibilidade nas fases recentes (primária, secundária e latente recente).
Diagnóstico
Padrão na APS: Teste rápido treponêmico. Em gestante reagente, o manejo é imediato: iniciar tratamento e coletar VDRL (não treponêmico) para título basal e seguimento; não se aguarda para tratar.
Estadiamento clínico: Sem sinais/sintomas e sem data clara de infecção → classificar como sífilis latente de duração indeterminada até prova em contrário.
Provas treponêmicas laboratoriais (ex.: FTA-ABS): Não são necessárias para confirmar em gestante com teste rápido treponêmico reagente no ponto de cuidado.
Conduta & Posologia
Tratar imediatamente na UBS: Penicilina benzatina é o único fármaco eficaz para prevenir sífilis congênita. Não postergar por exames.
Esquema por estágio (gestante segue o mesmo):
• Sífilis primária, secundária ou latente recente (< 1 ano): Penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, dose única (1,2 mi UI em cada glúteo).
• Sífilis latente tardia ou indeterminada: Penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, 1x/semana por 3 semanas (total 7,2 mi UI). Se intervalo > 14 dias entre doses, reiniciar o esquema.
Técnica de aplicação: IM profunda, glúteo, dividir a dose entre os lados; observar por 30 minutos.
Alergia a penicilina: Gestante deve ser dessensibilizada e tratada com penicilina. Alternativas são contraindicadas para prevenção da sífilis congênita.
Ajustes: Não requer ajuste em insuficiência renal/hepática leve a moderada. Pode ser usada em todas as idades gestacionais.
Efeitos adversos relevantes: Reação de Jarisch–Herxheimer (febre, mialgia, cefaleia em 24h). Orientar que pode ocorrer; em gestantes, vigiar por contrações/frequência fetal se em idade viável.
Seguimento da gestante: Coletar VDRL basal e repetir mensalmente até o parto e no parto; resposta esperada é queda progressiva do título (critério de queda quádrupla depende do estágio e tempo). Considera-se tratamento adequado se concluído ≥ 30 dias antes do parto e com controle sorológico em queda.
Parcerias sexuais: Oferecer notificação assistida pela equipe para comparecimento à UBS. Avaliar clinicamente e por sorologia e tratar conforme exposição/estágio. Se exposição nos últimos 90 dias a caso recente, pode-se iniciar penicilina benzatina 2,4 milhões UI IM, dose única mesmo antes do resultado.
Critérios de internação: Raros. Considerar apenas em reações graves, anafilaxia, suspeita de neurossífilis com acometimento sistêmico, ou trabalho de parto precipitado pós-Jarisch em gestante viável.
Vigilância: Notificação compulsória de sífilis na gestação no SINAN, preferencialmente na data do diagnóstico.
Mini-exemplo: Gestante 8 semanas, TR reagente, assintomática, sem história clara de infecção: trate hoje com penicilina benzatina 2,4 mi UI IM semanal por 3 semanas, colete VDRL basal e convoque parcerias com apoio da UBS.
Discussão das alternativas
✅ B) Tratar a gestante e oferecer apoio à convocação das parcerias para iniciar o tratamento.
Alternativa correta. Em gestante com teste rápido treponêmico reagente, o tratamento com penicilina benzatina deve ser imediato, e a equipe da UBS deve realizar notificação assistida das parcerias para avaliação e tratamento oportuno, interrompendo a cadeia de transmissão e prevenindo sífilis congênita. Não se aguarda exame complementar para iniciar a terapêutica.
❌ A) Tratar a gestante e entregar a prescrição das parcerias, as quais serão comunicadas do diagnóstico por ela.
Alternativa incorreta. A "entrega de receita" sem avaliação da parceria contraria o manejo recomendado. O correto é convocar com apoio da equipe para avaliação clínica e sorológica e então tratar conforme estágio/exposição. A comunicação não deve recair exclusivamente sobre a gestante.
❌ C) Solicitar VDRL da gestante para confirmação do diagnóstico e oferecer apoio à convocação das parcerias para avaliação diagnóstica.
Alternativa incorreta. O VDRL é não treponêmico e serve para título basal e seguimento, não para “confirmar” sífilis em gestante com teste rápido treponêmico reagente. O tratamento não deve ser adiado aguardando VDRL.
❌ D) Solicitar FTABS da gestante e das parcerias para a confirmação do diagnóstico.
Alternativa incorreta. Exames treponêmicos laboratoriais (ex.: FTA-ABS) não são necessários para confirmação nessa situação e atrasam o início do tratamento. A conduta correta é tratar imediatamente e proceder à vigilância e ao seguimento com VDRL.
Take-home message
- Gestante com teste rápido treponêmico reagente: tratar no mesmo dia; VDRL é para título basal/seguimento, não para confirmar.
- Assintomática e sem data da infecção = latente indeterminada → Penicilina benzatina 2,4 mi UI IM semanal por 3 semanas.
- Parcerias: notificação assistida na UBS e tratamento conforme estágio/exposição; pode-se tratar empiricamente exposição < 90 dias com 2,4 mi UI IM dose única.
- Red flag: Nunca atrasar tratamento aguardando VDRL/FTA-ABS em gestante.
- Concluir tratamento ≥ 30 dias antes do parto e repetir VDRL mensalmente e no parto; notificação no SINAN é obrigatória.