Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): politrauma com instabilidade pélvica e choque hemorrágico em unidade sem recurso definitivo exige estabilização rápida, regulação e transferência assistida por suporte avançado, com comunicação prévia ao serviço receptor. Erros clássicos: infundir grande volume de cristalóide, enviar por suporte básico e exigir consentimento familiar.
Epidemiologia e Etiologia
• Acidente motociclístico é causa líder de trauma grave no Brasil; fratura pélvica instável pode cursar com hemorragia retroperitoneal maciça e choque.
• UPAs frequentemente carecem de tomografia computadorizada, banco de sangue e especialistas; nesses cenários a prioridade é estabilizar e referenciar pela Rede de Atenção às Urgências.
Diagnóstico
Choque provável (classe III): hipotensão (PA 96/58 mmHg), taquicardia (FC 124 bpm), pele fria, sudorese, tempo de enchimento capilar lento.
Fonte de sangramento: dor pélvica/hipogástrio e pelve instável ao exame físico sugerem sangramento pélvico/retroperitoneal.
Capacidade local limitada: sem tomografia, sem hemoderivados, sem cirurgião → sem possibilidade de controle definitivo; foco na estabilização e transferência regulada.
Conduta & Posologia
Controle de hemorragia/estabilização pélvica (primeiro passo que muda desfecho): aplicar cinta pélvica na altura dos trocânteres (ou lençol apertado) imediatamente. Minimizar manipulação da pelve.
Ressuscitação hemodinâmica guiada por metas: 2 acessos venosos periféricos calibrosos; infundir bolus de 250–500 mL de cristalóide aquecido e reavaliar. Objetivo de pressão arterial sistólica 80–90 mmHg (ressuscitação permissiva) na ausência de traumatismo cranioencefálico grave.
Oxigenação/monitorização: oxigênio se SpO2 < 94%; monitor cardíaco, pressão arterial, saturação e reavaliação a cada 5 minutos até a remoção. Aquecimento ativo para prevenir coagulopatia.
Regulação e comunicação prévia: acionar Central de Regulação; contatar o serviço receptor e obter aceite. Elaborar documento de transferência com história, achados, sinais vitais seriados, exames realizados e terapêuticas instituídas.
Transporte: solicitar suporte avançado (médico/enfermeiro, via aérea avançada se necessário, drogas vasoativas, monitorização contínua). Distância de 34 km + instabilidade hemodinâmica → suporte básico é inadequado.
Procedimentos a evitar na UPA sem recurso: múltiplas punções e sondagens desnecessárias; infusão maciça de cristalóides; atrasos para colher consentimento familiar ou para exames que não mudam a conduta imediata.
Critérios de internação/UTI vs transferência: hemodinamicamente instável com suspeita de hemorragia pélvica → transferência imediata para hospital com ortopedia/trauma, hemoderivados e radiologia intervencionista/cirurgia.
Armadilhas de prova
• “Encha de soro e depois manda”: volumes altos diluem coágulos e pioram sangramento pélvico.
• “Equipe de transporte avisa o receptor”: a comunicação é do serviço de origem e deve ocorrer antes da remoção.
• “Precisa de autorização da família”: em urgência, consentimento presumido; não atrase transferência.
Discussão das alternativas
✅ B) Realizar estabilização clínica incluindo imobilização pélvica; acionar a Central de Regulação; contactar o serviço receptor; solicitar suporte avançado para a remoção e elaborar documento de transferência.
Alternativa correta. Condensa o manejo baseado na Rede de Atenção às Urgências: estabilização inicial (inclui estabilizador pélvico e ressuscitação limitada), regulação e comunicação prévia com aceite do receptor, documentação de transferência e transporte em suporte avançado dada a instabilidade hemodinâmica e a distância. Evita atrasos e iatrogenias.
❌ A) Infundir grande volume de cristalóides; acionar a Central de Regulação; elaborar termo de consentimento obrigatório antes da remoção e encaminhar o paciente ao hospital de referência por meio de suporte básico.
Alternativa incorreta. Infusão de grande volume de cristalóides agrava coagulopatia e sangramento em fratura pélvica; o correto é reposição restritiva com reavaliação. Não há termo de consentimento obrigatório para transferência em situação de urgência com risco de morte (consentimento presumido). Suporte básico é inadequado frente à instabilidade.
❌ C) Encaminhar rapidamente o paciente por meio de suporte avançado; realizar a comunicação com o hospital receptor por meio da equipe de transporte e elaborar a documentação de transferência ao final da remoção.
Alternativa incorreta. O transporte deve ocorrer após estabilização inicial e comunicação prévia feita pelo serviço de origem, com aceite do receptor. A documentação deve ser elaborada antes da transferência e enviada com o paciente.
❌ D) Estabilizar o paciente; solicitar autorização da família para a transferência; contactar previamente o serviço receptor; elaborar documento de transferência e solicitar suporte básico para a remoção.
Alternativa incorreta. Em urgência/emergência com risco de morte, não se exige autorização da família, e não se deve usar suporte básico em paciente instável para trajeto prolongado; é mandatório suporte avançado.
Take-home message
- Politrauma com pelve instável + choque em UPA sem recurso definitivo: estabilizar (cinta pélvica, reposição restritiva) e transferir regulado em suporte avançado.
- Meta hemodinâmica inicial: pressão arterial sistólica 80–90 mmHg; usar bolus de 250–500 mL de cristalóide aquecido com reavaliação frequente.
- Comunicar previamente o serviço receptor e enviar documento de transferência com sinais vitais seriados, exames e terapêuticas.
- Red flag: não infundir grandes volumes de cristalóides em fratura pélvica instável; piora sangramento.
- Red flag: não atrasar a transferência para colher consentimento familiar; urgência tem consentimento presumido.
- Pulo do gato: cinta pélvica precoce reduz espaço retroperitoneal e sangramento; é intervenção simples que salva vidas.