Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): No trauma em gestante, a compressão aortocava a partir de 20 semanas piora o choque e a perfusão uteroplacentária. O primeiro passo em gestante instável é deslocamento uterino para a esquerda (inclinação 15–30°), antes de exames.
Epidemiologia e Etiologia
Frequência: Trauma é a principal causa de mortalidade não obstétrica na gestação. Acidentes de trânsito são as causas mais comuns no Brasil.
Mecanismo crítico: Compressão aortocava (útero comprime veia cava inferior e aorta em decúbito dorsal), reduzindo retorno venoso, débito cardíaco e perfusão placentária.
Diagnóstico
Abordagem padrão-ouro: Sequência ABCDE do politrauma com modificações obstétricas (deslocamento uterino para esquerda desde a abordagem primária).
Definições operacionais úteis:
Instabilidade hemodinâmica: pressão arterial sistólica < 90 mmHg e/ou sinais de choque (taquicardia, extremidades frias, alteração do nível de consciência).
Idade gestacional relevante para compressão: ≥ 20 semanas (útero palpável acima da cicatriz umbilical).
Propedêutica por imagem:
Ultrassom FAST pode ser feito na sala de trauma após estabilização inicial do ABC.
Tomografia computadorizada é permitida quando clinicamente indicada; prioriza-se após estabilização hemodinâmica. Proteção abdominal quando possível.
Ultrassonografia obstétrica avalia vitalidade fetal/placenta, mas não substitui a reanimação materna.
Conduta & Posologia
Próximo passo (técnica): Realizar deslocamento uterino para a esquerda: inclinar prancha/mesa em 15–30° para a esquerda OU realizar deslocamento uterino manual do fundo uterino para a esquerda, imediatamente no A/B/C do trauma.
Reanimação inicial: Via aérea com proteção cervical; ventilação com O2; dois acessos calibrosos, cristaloide aquecido (ringer lactato ou SF 0,9%) em bolus de 500–1000 mL com reavaliação rápida; se choque classe III/IV, iniciar protocolo hemostático com hemocomponentes balanceados (hemácias:plasma:plaquetas ~1:1:1) conforme disponibilidade institucional.
Metas hemodinâmicas iniciais: manter pressão arterial sistólica ≥ 90 mmHg ou pressão arterial média ≥ 65 mmHg, perfusão periférica adequada e nível de consciência estável.
Exames/monitorização: Oximetria, cardioscopia, capilar glicemia; tipagem e provas cruzadas; hemograma, coagulograma, lactato; cardiotocografia contínua se viável (≥ 24–26 semanas) após estabilização materna.
Imunoprofilaxia anti-D (se Rh materno negativo): administrar Imunoglobulina anti-D 300 microgramas (1500 UI) IM até 72 h após o trauma; realizar teste de Kleihauer-Betke quando disponível para ajustar dose em hemorragia feto-materna maciça.
Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Sem alta na fase aguda. Internar todas as gestantes com trauma moderado/grave ou sinais de sofrimento fetal, sangramento vaginal, dor abdominal persistente, instabilidade hemodinâmica, necessidade de transfusão, alterações na cardiotocografia.
Contraindicações e alertas: Evitar decúbito dorsal plano após 20 semanas; não atrasar o ABC para exames; evitar coloides na reanimação inicial de rotina (não há benefício sobre cristaloides e podem piorar coagulopatia).
Efeitos adversos/precauções relevantes: Transfusão maciça pode cursar com coagulopatia, hipocalcemia, hipotermia — aquecer fluidos, corrigir cálcio e temperatura.
Discussão das alternativas
✅ C) lateralizar a prancha para esquerda.
Alternativa correta. Gestante de 30 semanas hipotensa e taquicárdica em decúbito dorsal tem provável compressão aortocava. O passo imediato no ABC é o deslocamento uterino para a esquerda (inclinação 15–30° ou deslocamento manual), que aumenta retorno venoso e melhora a perfusão uteroplacentária antes de qualquer exame.
❌ A) realizar ultrassonografia obstétrica.
Alternativa incorreta. Ultrassonografia obstétrica é útil, porém não prioriza a mãe nem reverte o choque. Primeiro corrige-se o ABC com deslocamento uterino e reanimação; exames vêm após estabilização inicial.
❌ B) infundir rapidamente solução coloide.
Alternativa incorreta. Coloides não são de escolha no trauma; preferem-se cristaloides aquecidos em bolus e, se necessário, hemocomponentes em estratégia hemostática. Coloides podem agravar coagulopatia e não melhoram desfechos.
❌ D) solicitar tomografia de abdome e pelve.
Alternativa incorreta. Tomografia é indicada quando necessária, mas não é o próximo passo em paciente instável. Primeiro, estabilizar (inclinação à esquerda, ABC, reanimação). A imagem pode ser feita após ganho de estabilidade hemodinâmica.
Take-home message
- Trauma na gestação ≥ 20 semanas: sempre aplicar deslocamento uterino para a esquerda no ABC inicial.
- Reanimação com cristaloides aquecidos e, se necessário, hemocomponentes em estratégia hemostática; metas: pressão arterial média ≥ 65 mmHg.
- Exames (ultrassonografia/ tomografia) não antecedem a estabilização materna; FAST pode ser feito na sala após medidas iniciais.
- Red flag: Evitar decúbito dorsal plano e não usar coloides na reanimação inicial de rotina.
- Se Rh negativo: Imunoglobulina anti-D 300 microgramas IM até 72 h; ajustar pela hemorragia feto-materna quando possível.