Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): O Ministério da Saúde adotou o teste molecular de DNA do papilomavírus humano (HPV) como método primário do rastreamento do câncer do colo do útero, com intervalo de 5 anos quando negativo, para mulheres de 25 a 64 anos. Cai a substituição da citologia periódica isolada e a não recomendação do co-teste de rotina.
Epidemiologia e Etiologia
Brasil: Câncer do colo é relevante em mortalidade feminina, com elevada prevalência de infecção por HPV oncogênico (subtipos 16/18 predominantes). Persistência de HPV é o principal fator etiológico para neoplasia intraepitelial e câncer invasor.
Impacto do rastreamento: Testes de DNA-HPV têm maior sensibilidade que a citologia para lesões de alto grau, permitindo ampliar o intervalo seguro entre exames quando negativo.
Rastreamento: critérios e definições operacionais
Quem rastrear: Mulheres e pessoas com colo uterino, de 25 a 64 anos, sexualmente ativas.
Método primário: Teste molecular de DNA-HPV em amostra cervical (profissional) ou por autocoleta (quando disponível/indicada), com triagem por citologia se HPV positivo.
Intervalo: Resultado HPV negativo → repetir em 5 anos.
Fluxo básico pós-HPV positivo: Realizar citologia de triagem (reflexa). Achados de alto risco (lesão intraepitelial de alto grau, atipias glandulares, atipias escamosas não podendo excluir alto grau) → colposcopia. Achados de baixo risco podem ter repetição/seguimento conforme protocolo. Em cenários com genotipagem 16/18, positividade pode indicar colposcopia direta conforme protocolo local.
Quando parar: Aos 64 anos, se histórico adequado (p.ex., exames negativos recentes em série conforme MS). Manter seguimento se história prévia de lesão de alto grau/câncer.
O que NÃO recomendar de rotina: Co-teste (citologia + HPV) como rastreamento de rotina; citologia isolada só onde teste HPV não está disponível durante transição.

Figura 1. Fluxograma resumo para tesde de DNA HPV.
Fonte: Ministério da Saúde. Rastreamento do Câncer do Colo do Útero (Diretriz Brasileira). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero/view. Acesso em 25/07/2026.
Conduta & Posologia
Próximo passo na UBS (caso da questão): Coletar DNA-HPV como teste primário. Se negativo, agendar repetição em 5 anos.
Técnica de coleta: Amostra cervical por profissional treinado; autocoleta vaginal pode aumentar cobertura, especialmente em não aderentes, com igual validade para HPV.
Fluxo após resultado: HPV positivo → realizar citologia de triagem (reflexa). Citologia com lesão de alto grau → colposcopia prioritária. Citologia negativa com genótipo 16/18 positivo pode indicar colposcopia conforme protocolo local.
Critérios de encaminhamento/urgência: Sangramento pós-coito, lesão visível suspeita, citologia sugestiva de invasão ou HSIL → avaliação colposcópica célere.
Follow-up e registro: Registrar resultado e data-alvo em 5 anos se negativo. Garantir busca ativa de positivas para triagem citológica/colposcopia.
Observação de transição: Onde DNA-HPV ainda não implementado, pode-se manter citologia conforme diretriz transitória; entretanto, a diretriz nacional atual prioriza DNA-HPV.
Discussão das alternativas
✅ A) Realizar a coleta de material vaginal para pesquisa de DNA-HPV e, caso o resultado seja negativo, orientar o retorno para novo rastreamento em 5 anos.
Alternativa correta. Reflete o protocolo do Ministério da Saúde: teste molecular de DNA-HPV como rastreamento primário e intervalo de 5 anos se negativo para mulheres 25–64 anos. A coleta pode ser vaginal (autocoleta) ou cervical por profissional.
❌ B) Manter o rastreamento com citologia oncótica convencional a cada 3 anos, reservando o teste molecular de DNA-HPV para casos de ASC-US recorrente.
Alternativa incorreta. A citologia periódica isolada era o modelo anterior. A diretriz atual prioriza DNA-HPV como método primário e não restringe seu uso a atipias citológicas. Intervalo de 3 anos com citologia não é a recomendação quando o DNA-HPV está disponível.
❌ C) Solicitar a citologia em conjunto com a pesquisa de DNA-HPV e, se houver discordância entre os métodos, encaminhar para colposcopia.
Alternativa incorreta. O co-teste (citologia + HPV simultaneamente) não é recomendado de rotina pelo MS. O fluxo é DNA-HPV primário e citologia apenas como triagem reflexa quando HPV positivo.
❌ D) Autocoleta de material vaginal para pesquisa de DNA-HPV e, caso o resultado seja negativo, dispensar a paciente de novos exames de rastreamento.
Alternativa incorreta. Mesmo com resultado negativo, o rastreamento deve continuar a cada 5 anos até 64 anos (salvo critérios de alta por idade/histórico). Nunca se deve “dispensar” rastreamento futuro com base em um único exame negativo.
Take-home message
- Rastreamento primário no Brasil: DNA-HPV dos 25–64 anos; se negativo, repetir em 5 anos.
- Citologia deixa de ser teste primário rotineiro onde houver DNA-HPV; permanece como triagem quando HPV positivo.
- Autocoleta é válida para DNA-HPV e aumenta cobertura; resultado negativo → intervalo de 5 anos, não “alta definitiva”.
- Red flag: Não solicitar co-teste de rotina (citologia + HPV); siga o fluxo com triagem reflexa.
- Encaminhe rapidamente à colposcopia se citologia de alto grau, atipia glandular sugestiva ou lesão clínica suspeita.