Revisão do tema
Âncora de memorização: Ferida linear, pequena, sem lesão profunda em antebraço = anestesia local por infiltração das bordas com lidocaína com vasoconstritor para melhor hemostasia e duração.
Epidemiologia e Etiologia
Feridas corto-contusas de extremidades são demandas frequentes na Atenção Primária e nas portas de urgência do SUS, com maioria manejável ambulatorialmente.
Anestésicos locais do grupo das amidas (lidocaína, bupivacaína, ropivacaína) são padrão para sutura. Escolha depende de latência, duração, necessidade de hemostasia e perfil de segurança.
Diagnóstico
Definição operacional do caso: Ferimento corto-contuso de antebraço, 4 cm, limpo, sem comprometimento vascular/tendíneo/neurológico. Indicação de sutura simples.
Implica na anestesia: Procedimento curto, campo pequeno e necessidade de hemostasia local → infiltração de bordas com anestésico de início rápido e duração intermediária, preferindo vasoconstritor.
Conduta & Posologia
Droga de escolha para este cenário: Lidocaína 1% a 2% com adrenalina (1:100.000 a 1:200.000) por infiltração local em campo das bordas da ferida.
Técnica essencial: Aspirar antes de injetar; infiltrar em leque pela derme/subderme ao longo das bordas; aguardar latência de 1–3 minutos; complementar se necessário.
Dose máxima segura (adulto): Sem vasoconstritor: 4,5 mg/kg (máx. ~300 mg). Com vasoconstritor: 7 mg/kg (máx. ~500 mg). Lidocaína 2% = 20 mg/mL.
Ajustes especiais: Reduzir dose em insuficiência hepática e insuficiência cardíaca; preferir concentrações menores se grande volume for necessário. Em gestação, pode-se usar lidocaína; evitar vasoconstritor se doença hipertensiva não controlada.
Contraindicações absolutas: Alergia a anestésicos do tipo amida; infecção ativa no trajeto da infiltração.
Contraindicações/precauções ao vasoconstritor: Isquemia periférica, feocromocitoma, hipertireoidismo/hipertensão não controlados, uso de betabloqueador não seletivo (risco de hipertensão reflexa). Evitar em áreas de circulação terminal com perfusão comprometida.
Efeitos adversos relevantes: Toxicidade sistêmica por anestésico local (zumbido, gosto metálico, parestesia perioral, convulsões; em casos graves, arritmias). Bupivacaína é mais cardiotóxica que lidocaína.
Interações críticas: Adrenalina com tricíclicos e inibidores da monoaminoxidase pode potencializar efeitos; com betabloqueadores não seletivos pode causar hipertensão/bradicardia reflexa.
Critérios de internação/encaminhamento: Lesão com exposição/lesão de tendão, nervo ou vaso, contaminação extensa, mordedura de alto risco, perda de tecido, sinais de síndrome compartimental, ou necessidade de bloqueio regional/plexo em ambiente não disponível.
Mini-exemplo: Lacerção de 3–4 cm em antebraço sem sangramento ativo importante: infiltrar 3–5 mL de lidocaína 1% com adrenalina 1:100.000, após antissepsia e campo estéril, com hemostasia adequada para sutura simples.
Discussão das alternativas
✅ A) infiltração de bordas com lidocaína 2% com vasoconstritor.
Alternativa correta. Procedimento curto e localizado → infiltração em campo é a técnica de primeira linha. Lidocaína tem início rápido e, com adrenalina, promove melhor hemostasia e maior duração, reduzindo necessidade de reforço. Respeitar dose máxima de 7 mg/kg.
❌ B) bloqueio do plexo braquial com bupivacaína a 0,5%.
Alternativa incorreta. Bloqueio de plexo é técnica avançada, exige monitorização e não é proporcional à extensão do procedimento. Indicado para cirurgias mais extensas ou dor difusa do membro. Além disso, maior risco e latência mais longa sem benefício adicional neste caso.
❌ C) infiltração local com bupivacaína 2% sem vasoconstritor.
Alternativa incorreta. Concentração proposta é inadequada (bupivacaína para infiltração: 0,25–0,5%). Mesmo em concentrações corretas, tem início mais lento e maior cardiotoxicidade que a lidocaína, sem necessidade de duração prolongada neste cenário. Dose máxima típica sem vasoconstritor ≈ 2,5 mg/kg.
❌ D) bloqueio de nervo na fossa antecubital com ropivacaina 1%.
Alternativa incorreta. Bloqueio regional proximal (fossa antecubital) é desnecessário para ferida pequena distal e tem risco de falha/lesão neurovascular se feito fora de ambiente e técnica apropriados. Ropivacaína 1% é usada em bloqueios, mas não é a estratégia de primeira linha para sutura simples.
Take-home message
- Ferida pequena e limpa em antebraço: escolha de primeira linha é infiltração local com lidocaína de início rápido.
- Use vasoconstritor para hemostasia e maior duração: lidocaína 1–2% + adrenalina 1:100.000–1:200.000.
- Respeite dose máxima: 7 mg/kg com adrenalina (máx. ~500 mg); sem adrenalina: 4,5 mg/kg.
- Red flag: Sempre aspirar antes de infiltrar e suspender se sinais de toxicidade (zumbido, parestesias, convulsões).
- Bloqueios regionais (plexo/nervo proximal) são para procedimentos maiores; evitá-los em lacerações simples de antebraço.
- Cautela com vasoconstritor em isquemia periférica, hipertireoidismo/hipertensão não controlados e uso de betabloqueador não seletivo.