Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Lesão cutânea serpiginosa, eritematosa e muito pruriginosa em pé após contato com areia úmida (praia/terreno) é clássico de larva migrans cutânea por Ancylostoma (bicho-geográfico). A banca testa diferenciação com Tunga penetrans (bicho-do-pé), escabiose e tinhas.
Epidemiologia e Etiologia
Brasil: Doença frequente em áreas litorâneas e climas quentes/úmidos. Exposição típica: andar descalço em areia/solo contaminado por fezes de cães e gatos.
Agentes: Larvas de ancilostomídeos de cães e gatos, principalmente Ancylostoma braziliense (variante grafada como "brasiliensis" em algumas fontes) e Ancylostoma caninum.
Diagnóstico
Padrão-ouro (na prática clínica): Diagnóstico clínico pelo achado de túnel linear/serpiginoso eritematoso que migra alguns milímetros a centímetros/dia, pruriginoso, geralmente em pés.
História típica: Início entre pododáctilos com extensão para dorso/planta após 1–5 dias do contato com areia/solo.
Exame físico: Trilha elevada, eritematosa, geográfica; pode haver pápulas vesicopustulosas na extremidade ativa.

Figura 1. Larva migrans cutânea.
Observe os trajetos serpiginosos eritematosos na lateral do pé (A), nos pés (B) e no ombro (C). Vesiculação e crostas (B) às vezes são vistas.
Fonte: Bolognia, Jean L. Dermatologia Essencial. Grupo GEN, 2015. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.
Diferenciais chave:
• Tunga penetrans: nódulo doloroso com ponto negro central subungueal/polpa; sem trajeto serpiginoso.
• Escabiose: túneis finos em punhos/ espaços interdigitais das mãos, prurido noturno; não forma trilha geográfica em pés.
• Tinea pedis: descamação/maceração interdigital; sem migração serpiginosa.
Conduta & Posologia
Primeira linha (sistêmico): Ivermectina 200 microgramas/kg VO dose única. Em lesões extensas ou persistentes, repetir a mesma dose em 24–48 h ou após 7 dias.
Alternativa (sistêmico): Albendazol 400 mg VO 1x/dia por 3 dias. Em casos refratários, pode-se estender até 5 dias.
Alternativa (tópico, lesões pequenas/limitadas): Tiabendazol 10–15% tópico 2–3x/dia por 5–10 dias.
Prurido: Anti-histamínicos VO noturnos úteis para conforto. Corticoide tópico de baixa a média potência pode reduzir inflamação/prurido.
Cuidados locais: Higiene, evitar coçar para prevenir impetiginização; tratar infecção bacteriana secundária se presente.
Contraindicações: Ivermectina é contraindicada na gestação e em crianças < 15 kg. Albendazol é contraindicado no 1º trimestre e evitar em hepatopatia ativa.
Efeitos adversos relevantes: Ivermectina (tontura, náusea, prurido transitório); Albendazol (dor abdominal, elevação de transaminases, cefaleia); Tiabendazol tópico (irritação local).
Ajustes/precauções: Ivermectina sem ajuste renal; evitar em meningites/comprometimento da barreira hematoencefálica. Albendazol: cautela em doença hepática; monitorar transaminases se uso > 14 dias.
Critérios de internação vs ambulatorial: Manejo ambulatorial. Considerar referência/observação se extensas reações alérgicas, celulite/abscesso ou falha terapêutica após 2 cursos.
Reavaliação: 7–10 dias. Espera-se interrupção da migração em 24–72 h e resolução progressiva do prurido/eritema.
Discussão das alternativas
✅ B) Ancylostoma brasiliensis.
Alternativa correta. Quadro e imagem típicos de larva migrans cutânea com trajeto serpiginoso pruriginoso em pé, após provável contato com areia/solo contaminado por fezes de cães/gatos. O agente clássico é Ancylostoma braziliense (variante grafada aqui como "brasiliensis"). Conduta de primeira linha: Ivermectina 200 microgramas/kg VO dose única ou Albendazol 400 mg/dia por 3 dias.
❌ A) Tunga penetrans.
Alternativa incorreta. Tunga causa o "bicho-do-pé": nódulo doloroso com ponto negro central, geralmente subungueal/polpa digital, sem trajeto serpiginoso migratório. Manejo é extração da fêmea e profilaxia tetânica, não anti-helmíntico sistêmico.
❌ C) Sarcoptes scabiei.
Alternativa incorreta. Escabiose cursa com prurido noturno intenso e túneis curtos em punhos, mamilos, genitais e espaços interdigitais das mãos, pápulas/crostas; não produz trilhas geográficas longas e migratórias em pés.
❌ D) Trichophyton rubrum.
Alternativa incorreta. Dermatofitose interdigital (tinea pedis) por T. rubrum dá maceração e descamação interdigitais, fissuras e odor; não há túnel serpiginoso migratório. Tratamento é antifúngico, não anti-helmíntico.
Take-home message
- Lesão serpiginosa, eritematosa e pruriginosa que migra em pés = larva migrans cutânea por Ancylostoma.
- Primeira linha: Ivermectina 200 microgramas/kg VO dose única ou Albendazol 400 mg VO/dia por 3 dias.
- Lesões pequenas: Tiabendazol 10–15% tópico 2–3x/dia por 5–10 dias.
- Red flag: Ivermectina é contraindicada na gestação e em crianças < 15 kg.
- Diferencie de Tunga penetrans (nódulo com ponto negro, sem trilha) e de tinea pedis (descamação/maceração, sem migração).
- Reavaliação em 7–10 dias: expectativa de interrupção da migração em 24–72 h pós-tratamento.
