Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Criança 4–8 anos com dor insidiosa no quadril, claudicação e limitação de abdução/rotação interna + radiografia com colapso/achatamento epifisário = Doença de Legg-Calvé-Perthes (necrose asséptica da cabeça femoral).
Epidemiologia e Etiologia
Faixa etária típica: 4 a 8 anos (pico ~6 anos), meninos > meninas, geralmente unilateral.
Fisiopatologia (essencial): interrupção transitória do fluxo sanguíneo para a epífise femoral proximal → necrose óssea → colapso/achatamento → reossificação e remodelação. Prognóstico pior quanto maior a idade e quanto maior o comprometimento lateral da epífise.
Diagnóstico
Quadro clínico-chave: dor insidiosa em quadril/virilha (pode referir para coxa/joelho), claudicação, limitação abdução e rotação interna; atitude antálgica em flexão leve.
Padrão-ouro prático: Radiografia da bacia em anteroposterior + perfil em abdução (Lauenstein). Achados: aumento de densidade (fase inicial), achatamento/irregularidade do núcleo epifisário, sinais de colapso/subsidença.
Ressonância magnética: mais sensível na fase muito precoce (edema/necrose) quando radiografia é normal; útil para estratificação.
Classificações prognósticas: Herring (pilar lateral) e Catterall (extensão da necrose). Idade ≥8 anos e comprometimento do pilar lateral B/C pioram o prognóstico.
Exames laboratoriais: geralmente normais (ajudam a afastar causas inflamatórias/infecciosas).

Figura 1. Sequelas morfológicas de doença Legg-Calvé-Perthes no quadril esquerdo.
Fonte: Fontainhas, T. et al. Osteotomia de redução da cabeça femoral por sequelas de doença de Legg-Calvé-Perthes: Relato de caso. Revista Brasileira de Ortopedia, 2024. Disponível em: https://www.rbo.org.br/detalhes/5786/pt-BR/osteotomia-de-reducao-da-cabeca-femoral-por-sequelas-de-doenca-de-legg-calve-perthes--relato-de-caso. Acesso em 25/07/2026.
Conduta & Posologia
Objetivo terapêutico: manter contenção da cabeça femoral no acetábulo (centração) e preservar amplitude de movimento, minimizando deformidade até a reossificação.
Medidas não farmacológicas (primeira linha na maioria): redução de impacto (evitar corrida/saltos), fisioterapia focada em abdução e rotação interna, alongamentos; eventualmente órteses de abdução conforme ortopedia pediátrica.
Analgesia/AINÉs:
• Ibuprofeno 10 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h (máx. 40 mg/kg/dia ou 1.200 mg/dia para crianças maiores).
• Alternativa: Naproxeno 5–7 mg/kg VO a cada 12 h (máx. 1.000 mg/dia).
• Analgésico: Dipirona 10–15 mg/kg/dose VO a cada 6–8 h (máx. 60 mg/kg/dia).
Ajustes e cautelas: reduzir dose e/ou evitar AINÉ em doença renal crônica, história de sangramento gastrintestinal ou asma aspirina-sensível. Dipirona: evitar em deficiência de G6PD e monitorar sinais de agranulocitose (raro).
Critérios para encaminhamento cirúrgico/osteotomia (ortopedia pediátrica): idade ≥8 anos, Herring B/B-C/C, perda de contenção (subluxação), limitação acentuada de abdução/RI apesar de reabilitação; procedimentos de contenção (osteotomia varizante femoral ou osteotomia do ilíaco tipo Salter) individualizados.
Critérios de internação vs ambulatorial:
• Ambulatorial: dor controlável, marcha possível com redução de carga, sem sinais infecciosos.
• Internar: dor intensa/incapacitante apesar de analgesia, necessidade de tração/analgesia parenteral, programação cirúrgica, ou quando houver suspeita diagnóstica alternativa grave (ex.: artrite séptica).
Monitorização e reavaliação: revisão clínica e radiográfica a cada 6–12 semanas; ampliar restrição de impacto se sinais de colapso; ajustar fisioterapia conforme amplitude de movimento.
Discussão das alternativas
✅ D) necrose asséptica da cabeça do fêmur.
Alternativa correta. Quadro insidioso em menino de 7 anos, limitação de abdução/rotação interna e radiografia com achatamento/irregularidade epifisária apontam para Doença de Legg-Calvé-Perthes. A evolução crônica (meses) e a ausência de febre/trauma reforçam.
❌ A) epifisiólise proximal do fêmur.
Alternativa incorreta. A epifisiólise proximal do fêmur é típica de pré-adolescentes/adolecentes (pico 10–16 anos), frequentemente com sobrepeso, dor aguda/subaguda e deformidade em rotação externa; a radiografia mostra deslizamento da epífise, não achatamento/irregularidade. Aqui a idade e o padrão radiográfico não condizem.
❌ B) artrite idiopática juvenil oligoarticular.
Alternativa incorreta. AIJ costuma cursar com dor inflamatória (rigidez matinal), sinais inflamatórios articulares e possível elevação de provas de atividade; a radiografia inicial é muitas vezes normal ou mostra osteopenia/estreitamento, não colapso epifisário. A cronologia e o achado radiográfico direcionam para Perthes.
❌ C) sinovite transitória do quadril.
Alternativa incorreta. Sinovite transitória é aguda (dias), frequentemente pós-viral, com dor e limitação, porém radiografia normal (pode haver derrame em ultrassom) e resolução em 1–2 semanas. Evolução por 3 meses e alteração epifisária excluem este diagnóstico.
Take-home message
- Perthes = criança (4–8 anos) com dor/claudicação insidiosa + limitação de abdução/rotação interna + radiografia AP e Lauenstein alteradas.
- Radiografia é o exame-chave; ressonância magnética detecta fases iniciais quando a radiografia é normal.
- Tratamento inicial conservador: reduzir impacto, fisioterapia para manter amplitude; encaminhar à ortopedia para estratégia de contenção.
- Analgesia: Ibuprofeno 10 mg/kg/dose VO 6–8/8 h ou Naproxeno 5–7 mg/kg VO 12/12 h.
- Red flag: Dor intensa com febre ou incapacidade de deambular sugere artrite séptica — indicar avaliação urgente e não retardar condução.
- Pior prognóstico: idade ≥8 anos, comprometimento do pilar lateral (Herring B/C) e perda de contenção; considerar procedimentos de contenção.