Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Ingestão de cáusticos exige duas decisões imediatas de prova: 1) NÃO provocar vômito, lavar ou neutralizar; 2) programar endoscopia digestiva alta no intervalo seguro (6–24 h) mantendo jejum. O erro clássico é manipular o tubo digestivo (lavagem/sonda) e perder o timing da endoscopia.
Epidemiologia e Etiologia
Cenário brasileiro: Ingestão acidental prevalente em domicílios com armazenamento inadequado de limpadores à base de hidróxido de sódio (soda cáustica). Acidentes ocupacionais também ocorrem.
Agente: Bases fortes causam necrose por liquefação, penetram em profundidade e elevam risco de perfuração e estenose tardia.
Diagnóstico
Clínica: Dor retroesternal, odinofagia/disfagia, sialorreia, vômitos; avaliar via aérea (estridor, rouquidão, dispneia) e sinais de perfuração (dor súbita intensa, subcutâneo enfisematoso, peritonite).
Padrão-ouro para estratificação: Endoscopia digestiva alta nas primeiras 6–24 horas para classificar a gravidade (ex.: classificação de Zargar) e definir prognóstico/conduta.
Exames de imagem: Tomografia computadorizada de tórax/abdome se suspeita de perfuração ou mediastinite/peritonite.
Proibições diagnósticas: Sem sonda/ou lavagem gástrica e sem carvão ativado (risco de lesão/perfuração; carvão é ineficaz para cáusticos).
Conduta & Posologia
Passos imediatos (pós-estabilização): Manter jejum absoluto, analgesia, antiemético, hidratação venosa e programar endoscopia em 6–24 h. Priorizar via aérea se sinais respiratórios.
Analgesia: Dipirona 1 g IV 6/6 h se dor leve/moderada; considerar opioide (morfina 2–4 mg IV titulável) para dor intensa. Ajustar em doença renal crônica para opioides; evitar anti-inflamatórios não esteroides por risco gastrointestinal.
Antiemético: Ondansetrona 4 mg IV 8/12 h conforme necessidade.
Supressão ácida (adjuvante): Omeprazol 40 mg IV 12/12 h ou Pantoprazol 40 mg IV 12/12 h. Evidência de desfecho é limitada, mas é prática corrente hospitalar.
O que não fazer: Não induzir vômito, não neutralizar com ácido/base, não realizar lavagem, não sondar às cegas. Corticoterapia e antibiótico profilático não são rotineiros; considerar antibiótico apenas se perfuração/infeção ou indicação específica.
Critérios de internação/UTI vs ambulatorial: Internar todos os sintomáticos, ingestão de base forte, intenção suicida, crianças, dor importante, vômitos, sialorreia, achados endoscópicos ≥ grau 2; UTI se via aérea ameaçada, perfuração, sangramento significativo, instabilidade hemodinâmica.
Tempo de reavaliação: Monitorização contínua nas primeiras 24–48 h; repetir avaliação clínica/laboratorial e definir dieta conforme achados endoscópicos.
Mini-exemplo: Adulto com sialorreia e dor intensa 1 h após soda cáustica: manter NPO, analgesia IV, PPI IV, endoscopia entre 6–24 h; nada de neutralização, lavagem ou sonda.
Discussão das alternativas
✅ D) Manter jejum e programar endoscopia digestiva alta entre 6 e 24 horas.
Alternativa correta. É a conduta imediata pós-estabilização: NPO e EDA precoce (6–24 h) para estratificação da gravidade, definição de dieta, necessidade de intervenção e prognóstico. Evita-se manipulação gástrica e neutralização.
❌ A) Passar sonda nasogástrica para lavagem com soro fisiológico.
Alternativa incorreta. Sonda e lavagem aumentam risco de perfuração e não removem cáustico aderido. Para cáusticos, lavagem e carvão são contraindicados. Conduta correta é jejum e endoscopia precoce.
❌ B) Realizar neutralização química do agente com substância ácida diluída.
Alternativa incorreta. Neutralização é contraindicada: reação exotérmica piora a lesão e pode induzir vômitos/aspiração. Sem benefício comprovado.
❌ C) Iniciar corticoterapia sistêmica e antibioticoterapia profilática.
Alternativa incorreta. Corticoide rotineiro não reduz estenose e pode aumentar complicações infecciosas; antibiótico profilático não é indicado. Antibiótico é reservado a perfuração/mediastinite ou outras infecções. A decisão terapêutica deve ser guiada pela endoscopia.
Take-home message
- Ingestão de cáustico (base forte) = jejum imediato + endoscopia em 6–24 h; nada de lavagem, carvão ou neutralização.
- Priorize via aérea; internação para sintomáticos e exposições significativas; UTI se instabilidade ou ameaça de via aérea.
- Analgesia IV e antiemético; PPI IV é prática adjuvante (ex.: Omeprazol 40 mg IV 12/12 h).
- Red flag: Não passar sonda/realizar lavagem nem tentar neutralizar — aumenta risco de perfuração.
- Corticoide e antibiótico profilático não são rotineiros; antibiótico apenas se perfuração/infecção.