Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Linfogranuloma venéreo é a única úlcera genital causada por Chlamydia trachomatis (sorotipos L1–L3) e caracteriza-se por pápula/úlceras transitórias iniciais seguidas de linfoadenite inguinal dolorosa supurativa com fístulas por múltiplos orifícios (aspecto “favo de mel”).
Epidemiologia e Etiologia
Agente: Chlamydia trachomatis sorotipos L1–L3 (linfogranuloma venéreo).
Transmissão: Sexual. Maior risco com múltiplos parceiros e barreira inconsistente.
Cenário típico: Adultos jovens; pápula/pequena ulceração inicial muitas vezes pouco percebida, seguida em 1–4 semanas de linfoadenite inguinal dolorosa, supurativa, podendo fistulizar por múltiplos orifícios. “Sinal do sulco” pode ocorrer (depressão pelo ligamento inguinal).

Figura 1. Linfogranuloma venéreo.Bulbo inguinal que foi rompido e drenado.
Fonte: Bolognia, Jean L. Dermatologia Essencial. Grupo GEN, 2015. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.
Diagnóstico
Clínico-epidemiológico (operacional em serviços de rotina): História de lesão genital transitória + linfoadenopatia inguinal dolorosa, frequentemente unilateral, com flutuação/supuração e fístulas múltiplas.
Padrão-ouro (quando disponível): Testes moleculares (amplificação de ácidos nucleicos) com genotipagem L1–L3. Na prática do SUS, muitas vezes diagnóstico é sindrômico.
Exclusões diferenciais-chave: Cancro mole (Haemophilus ducreyi: úlcera dolorosa de bordas socavadas), sífilis (Treponema pallidum: cancro duro indolor + linfonodos não supurativos), donovanose (Klebsiella granulomatis: úlcera “carne viva” indolor, sem adenite verdadeira).
Triagem associada: Testar para infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, sífilis e hepatites conforme PCDT-IST.
Comparações rápidas (diagnóstico diferencial)
Linfogranuloma venéreo (Chlamydia L1–L3): pápula/úlcera inicial discreta + linfonodo inguinal doloroso supurativo, fístulas múltiplas.
Cancro mole (Haemophilus ducreyi): úlcera dolorosa, bordas socavadas, exsudativa; bubão possível, mas a lesão ulcerada é marcante.
Sífilis (Treponema pallidum): cancro duro indolor, base limpa; linfonodos indolores, não supurativos.
Donovanose (Klebsiella granulomatis): úlceras indolores, vegetantes (“carne viva”), sem adenite verdadeira.

Tabela 1. Causas infecciosas de úlcera genital.
Fonte: Bolognia, Jean L. Dermatologia Essencial. Grupo GEN, 2015. Disponível em: VitalSource Bookshelf. Acesso em 15/07/2026.
Conduta & Posologia
Tratamento de primeira linha (MS/PCDT-IST): Doxiciclina 100 mg VO a cada 12 horas por 21 dias.
Alternativa (gestantes ou contraindicação à doxiciclina): Eritromicina base 500 mg VO a cada 6 horas por 21 dias. Preferir estearato/etilsuccinato em gestantes (evitar estolato).
Medidas adjuvantes: Analgesia; aspiração com agulha de bubões flutuantes alivia dor. Evitar incisão ampla pois favorece fístulas e cicatrização demorada.
Ajustes: Doxiciclina não requer ajuste em doença renal crônica; evitar em gestantes e crianças < 8 anos. Eritromicina segura na gestação.
Interações/Efeitos adversos relevantes: Doxiciclina: náuseas, esofagite, fotossensibilidade; interage com antiácidos/ferro (reduzem absorção). Eritromicina: náuseas, risco de prolongamento do intervalo QT e interações por citocromo P450.
Critérios de internação vs ambulatorial: Manejo é ambulatorial na maioria. Internar se celulite extensa, sepse, falha do tratamento oral, dor intratável ou comorbidades descompensadas.
Seguimento: Reavaliar em 7–10 dias; manter até resolução clínica. Intensificar rastreio e aconselhamento sexual; notificar e testar parceiros.
Parceiros sexuais: Avaliar e tratar contatos dos últimos 60 dias. Assintomáticos podem receber doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 7 dias (orientação prática usual); sintomáticos: 21 dias.
Discussão das alternativas
✅ A) Chlamydia trachomatis.
Alternativa correta. Quadro clássico de linfogranuloma venéreo: lesão inicial discreta seguida de linfoadenomegalia inguinal dolorosa, supurativa, com fístulas múltiplas. Agente: Chlamydia trachomatis sorotipos L1–L3. Tratamento de escolha: doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 21 dias.
❌ B) Haemophilus ducrey.
Alternativa incorreta. Cancro mole cursa com úlcera genital dolorosa e purulenta de bordas socavadas como achado principal; embora possa haver bubão, não é típico o padrão de fistulização por múltiplos orifícios após lesão inicial pouco notada. Além disso, a úlcera é o elemento dominante (não descrito aqui).
❌ C) Klebsiella granulomatis.
Alternativa incorreta. Donovanose causa úlceras crônicas indolores, friáveis, em “carne viva”, e não cursa com adenite verdadeira (pode haver pseudobubões). Supuração linfonodal e fístulas múltiplas não são características.
❌ D) Treponema pallidum.
Alternativa incorreta. Sífilis primária cursa com cancro indolor e linfonodos não supurativos. Fistulização linfonodal e dor intensa são atípicas.
Take-home message
- Linfogranuloma venéreo: pápula/úlceras discretas + linfoadenite inguinal dolorosa com supuração e fístulas múltiplas.
- Agente etiológico: Chlamydia trachomatis L1–L3. Tratamento: doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 21 dias.
- Gestantes/alternativa: eritromicina base 500 mg VO 6/6 h por 21 dias.
- Red flag: Evitar incisão ampla de bubões; preferir aspiração com agulha para aliviar dor e reduzir fístulas.
- Diferenciais-chave: cancro mole (úlcera dolorosa), sífilis (cancro indolor), donovanose (úlcera “carne viva” sem adenite).
- Rastrear IST associadas (vírus da imunodeficiência humana, sífilis, hepatites) e manejar parceiros dos últimos 60 dias.