Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Células glandulares atípicas (AGC) têm maior risco de neoplasia intraepitelial glandular e carcinoma (colo e endométrio). Diferem de atipias escamosas: exigem avaliação imediata com colposcopia e investigação do canal/endométrio conforme idade e sintomas.
Epidemiologia e Etiologia
Epidemiologia: AGC é raro na citologia (≈0,1–0,5%), porém com risco relevante de lesão de alto grau (NIC 2+/adenocarcinoma in situ) e adenocarcinoma.
Etiologia principal: Infecção por papilomavírus humano oncogênico (HPV de alto risco), especialmente para lesões do colo; em mulheres ≥35 anos, lembrar patologia endometrial (hiperplasia/adenocarcinoma), mesmo sem sangramento.
Diagnóstico
Definição operacional (AGC): Atipias em células glandulares endocervicais, endometriais ou não especificadas (AGC-NOS), sem critérios definitivos de adenocarcinoma in situ.
Padrão-ouro de avaliação inicial: Colposcopia imediata com avaliação do canal endocervical (curetagem endocervical se a junção escamo-colunar não for totalmente visível) e investigação endometrial em mulheres ≥35 anos ou com sangramento anormal.
Teste de HPV: Não substitui a colposcopia no AGC; pode complementar, mas não muda a necessidade de investigação imediata.
Conduta & Posologia
Primeiro passo: Encaminhar para colposcopia imediata com avaliação dirigida e curetagem endocervical se indicado.
Mulheres ≥35 anos (caso clínico: 42 anos): Avaliar endométrio. Em cenário ambulatorial assintomático, pode-se iniciar por ultrassonografia transvaginal para mensurar espessura endometrial e pesquisar pólipos/miomas; achados suspeitos levam a biópsia endometrial (aspirativa) ou histeroscopia.
Quando biopsiar sem esperar: Se houver lesão suspeita na colposcopia, realizar biópsia dirigida e curetagem endocervical no mesmo ato.
O que não fazer: Não repetir citologia isolada como triagem; não realizar cauterização/ablativo sem diagnóstico histológico; não postergar colposcopia para aguardar HPV.
Critérios de prioridade/encaminhamento: Encaminhar para nível secundário com colposcopia em até 30 dias. Red flag: sangramento anormal ou achado colposcópico suspeito de invasão exigem avaliação rápida (preferencialmente < 2 semanas).
Mini-exemplo: Mulher de 38 anos com AGC e sangramento intermenstrual: colposcopia + curetagem endocervical e biópsia endometrial imediatas, sem aguardar HPV.
Discussão das alternativas
✅ C) solicitar ultrassonografia transvaginal e encaminhar à colposcopia.
Alternativa correta. Para AGC, a diretriz brasileira indica colposcopia imediata com avaliação do canal; em mulheres ≥35 anos, investigar o endométrio. A ultrassonografia transvaginal é aceitável como etapa inicial de avaliação uterina em assintomáticas, seguida de biópsia endometrial se houver achados suspeitos. Assim, a conduta combina corretamente investigação do colo (colposcopia) e avaliação uterina (ultrassom).
❌ A) solicitar pesquisa de HPV de alto risco e repetir citologia em 6 meses.
Alternativa incorreta. O manejo expectante com repetição de citologia e/ou triagem por HPV se aplica a atipias escamosas de baixo risco (ex.: ASC-US). No AGC, é mandatória a colposcopia imediata, pois há risco de lesão glandular de alto grau/adenocarcinoma. Teste de HPV não substitui a avaliação colposcópica e do canal/endométrio.
❌ B) realizar cauterização cervical e repetir citologia em 12 meses.
Alternativa incorreta. Procedimentos ablativos/cauterização sem diagnóstico histológico são contraindicados no AGC, pois podem mascarar lesões glandulares e não avaliam canal endocervical/endométrio. A conduta correta é diagnóstica (colposcopia ± biópsia dirigida e avaliação endometrial), não terapêutica empírica.
❌ D) Realizar biópsia cervical e encaminhar à colposcopia.
Alternativa incorreta. A biópsia do colo deve ser dirigida pela colposcopia. Fazer biópsia “a cegas” antes da colposcopia não é recomendado e pode perder a área-alvo; além disso, falta a avaliação do canal endocervical e do endométrio (essenciais no AGC em ≥35 anos).
Take-home message
- AGC na citologia exige colposcopia imediata com avaliação do canal; não é caso para repetir citologia ou usar HPV como triagem isolada.
- Mulheres ≥35 anos ou com sangramento: investigar endométrio (ultrassonografia transvaginal como triagem em assintomáticas; biópsia endometrial/histeroscopia se suspeito).
- Biópsia cervical deve ser dirigida por colposcopia; curetagem endocervical se junção não visualizada.
- Red flag: Nunca realizar cauterização/ablação empírica no AGC sem diagnóstico histológico completo.
- Encaminhar ao nível secundário para colposcopia em até 30 dias; prioridade se sangramento ou suspeita de invasão.