Revisão do tema
Âncora de memorização (por que cai): Retirada de anzol é procedimento frequente em atenção primária; o "pulo do gato" é reconhecer a técnica-padrão do Caderno de Atenção Primária 30: avançar a farpa, cortar e retirar pelo orifício de entrada (advance-and-cut).
Epidemiologia e Etiologia
Lesões por anzol são comuns em mãos/dedos em populações que praticam pesca recreativa e artesanal no Brasil.
Risco principal: inoculação bacteriana (ferida potencialmente contaminada), dor, e lesão de feixe vásculo-nervoso digital.
Diagnóstico
Definição operacional: Corpo estranho metálico com farpa (retentor) transfixando a pele/tecido subcutâneo, geralmente sem sangramento significativo.
Avaliação pré-procedimento: Inspeção do trajeto, ponto de entrada/saída; teste neurovascular digital (perfusão capilar, sensibilidade nas bordas radial/ulnar, força de pinça) antes e após o procedimento.
Imagem: Radiografia só se suspeita de fragmento retido, múltiplas farpas, articulação/cartilagem envolvida ou falha de remoção.
Critério prático de escolha da técnica: Anzol simples, superficial, sem comprometimento de estruturas nobres: técnica advance-and-cut do Caderno 30.
Mini-exemplo: Anzol simples transfixando polpa digital: avance a ponta até exteriorizar a farpa, corte a farpa e retire pelo orifício de entrada.
Conduta & Posologia
Técnica (passo a passo essencial): Assepsia + campo estéril → bloqueio anestésico digital → avançar o anzol até exteriorizar a farpa → cortar a farpa com alicate/corta-arame → retirar o corpo do anzol pelo orifício de entrada → irrigação abundante com SF 0,9% → curativo oclusivo → reavaliação neurovascular pós.
Anestesia local (bloqueio digital): Lidocaína sem vasoconstrictor 1% a 2%, 3–5 mg/kg (máx. 300 mg), infiltrando em base lateral do dedo, 2 pontos (bordas radial e ulnar). Evitar vasoconstrictor em bloqueio digital nas rotinas do SUS.
Antibioticoterapia: Não é rotineira em ferida limpa/recente. Indicar se ferida suja, atraso > 12 horas, imunossupressão, exposição a água contaminada, cartilagem/articulação/tendão acometidos. Esquemas possíveis (exemplos):
• Exposição a água doce: Amoxicilina-clavulanato 875/125 mg VO 12/12 h por 5–7 dias.
• Alergia a penicilina: Doxiciclina 100 mg VO 12/12 h ± Sulfametoxazol-trimetoprim 800/160 mg VO 12/12 h por 5–7 dias (cobertura para Gram-negativos de água doce/marinha deve ser individualizada).
• Observação: Ajustar à clínica e às diretrizes locais; não iniciar de rotina em casos simples como o descrito.Profilaxia do tétano (PNI/MS):
• Ferida potencialmente contaminada. Se esquema completo (≥3 doses) e última dose há > 5 anos: reforço dT 0,5 mL IM (deltoide).
• Esquema desconhecido/incompleto (< 3 doses): dT 0,5 mL IM + Imunoglobulina humana antitetânica 250 UI IM (até 500 UI se > 24 h da lesão ou ferida extensa).
• Completar esquema vacinal conforme calendário (0–2–6 meses, se iniciando hoje).
Contraindicações relativas do procedimento na UBS: Suspeita de lesão tendínea/vascular/neurológica, envolvimento articular, anzol múltiplo, profundidade não definida, paciente não colaborativo.
Efeitos adversos relevantes: Dor, sangramento leve, fratura do anzol (risco de fragmento retido), reação a anestésico local.
Critérios de encaminhamento/internação: Encaminhar à urgência/centro cirúrgico se comprometimento neurovascular, tendão/junta, corpo estranho profundo, falha de remoção ou infecção estabelecida (celulite franca, linfangite, febre).
Discussão das alternativas
✅ B) cortar com alicate a extremidade do anzol com a farpa e removê-lo pelo orifício de entrada.
Alternativa correta. Segundo o Caderno de Atenção Primária 30, em anzol simples e superficial, após anestesia deve-se avançar a ponta para exteriorizar a farpa, cortar a farpa e então retirar o corpo do anzol pelo orifício de entrada (técnica advance-and-cut). Minimiza trauma tecidual e evita que a farpa lacere o trajeto de saída.
❌ A) avaliar se o anzol causou perda de força muscular e/ou sensibilidade do polegar.
Alternativa incorreta. A avaliação neurovascular é pré e pós-procedimento, mas não é o “próximo passo” imediatamente após anestesia no fluxo da remoção. O passo técnico subsequente é expor a farpa, cortar e retirar pelo orifício de entrada.
❌ C) fazer incisão na pele com lâmina n.º 11 para exposição total do anzol antes de realizar a sua remoção.
Alternativa incorreta. Incisão não é passo de rotina na UBS para anzol simples; aumenta morbidade e risco de sangramento/infecção. Reserva-se para casos específicos (gancho oculto/profundo, falha das técnicas conservadoras) e, preferencialmente, em ambiente com suporte cirúrgico.
❌ D) segurar a farpa com pinça hemostática curva e remover o anzol pelo orifício de saída.
Alternativa incorreta. Trazer o anzol de volta pelo orifício de saída mantendo a farpa íntegra causa laceração adicional. A conduta correta é cortar a farpa e então retirar pelo orifício de entrada.
Take-home message
- Anzol simples na UBS: após anestesia, técnica padrão é avançar a ponta, cortar a farpa e retirar pelo orifício de entrada.
- Bloqueio digital: Lidocaína sem vasoconstrictor 1–2%, 3–5 mg/kg (máx. 300 mg).
- Red flag: Evitar adrenalina em bloqueio digital nas rotinas do SUS; checar perfusão antes/depois.
- Profilaxia do tétano: reforço se última dose > 5 anos (ferida suja) ou iniciar esquema + imunoglobulina se esquema desconhecido/incompleto.
- Antibiótico não é rotina em caso limpo e recente; indicar se suja, tardio, imunossuprimido ou articulação/tendão acometidos.
- Encaminhar se suspeita de lesão vásculo-nervosa/tendínea, envolvimento articular ou falha da remoção.