Revisão do tema
Âncora de memorização: Lactente com diarreia aguda, sem desidratação: manejo ambulatorial com Plano A (SUS): terapia de reidratação oral, manutenção da alimentação e aleitamento, zinco e vigilância de sinais de alarme. Antibiótico e dietas restritivas não são de rotina.
Epidemiologia e Etiologia
Relevância no Brasil: Diarreia aguda é uma das principais causas de consulta e desidratação em menores de 5 anos. Pico em lactentes e pré-escolares.
Etiologia mais provável: Viral (rotavírus, norovírus) em quadros aquosos, sem sangue e sem febre. Bacteriana típica cursa com febre e/ou disenteria (sangue/muco).
Diagnóstico
Definição operacional: Diarreia aguda = aumento de número e/ou redução da consistência das fezes por até 14 dias.
Avaliação do estado de hidratação (AIDPI/Planos MS):
• Sem desidratação (Plano A): criança ativa, sede presente/ausente, olhos não fundos, sinal da prega normal (<2s).
• Alguma desidratação (Plano B): irritada/letárgica leve, olhos fundos, sede ávida, prega >2s.
• Desidratação grave (Plano C): letárgica/hipotônica, não consegue beber, pulso fraco, perfusão lenta, prega muito lenta.
Exames: Não são necessários rotineiramente em quadros leves sem sinais de gravidade.
Conduta & Posologia
Plano A (ambulatorial): Terapia de reidratação oral com Soro de Reidratação Oral após cada evacuação: <1 ano 50–100 mL; ≥1 ano 100–200 mL. Oferecer líquidos caseiros seguros com frequência, sem substituir o Soro de Reidratação Oral.
Aleitamento e alimentação: Manter leite materno em livre demanda e dieta habitual sem restrição. Evitar “dieta obstipante” e não suspender lactose rotineiramente.
Suplementação de zinco: reduz duração e gravidade dos episódios.
Dose: ≥6 meses: 20 mg VO 1x/dia por 10–14 dias; <6 meses: 10 mg VO 1x/dia por 10–14 dias.
Efeitos adversos: náuseas, vômitos leves, gosto metálico.
Contraindicações: hipersensibilidade ao zinco.
O que não usar de rotina: Antibióticos, antidiarreicos (loperamida), antieméticos de prescrição livre, probióticos. Reservar antibiótico para disenteria, cólera ou suspeita específica.
Sinais de alarme para retorno imediato/encaminhamento: vômitos persistentes, incapacidade de beber, letargia, irritabilidade intensa, febre alta, sangue nas fezes, diurese reduzida (<4 micções/24h), piora clínica.
Critérios de internação/UTI vs ambulatorial:
Internar (Plano C/venoso): desidratação grave, choque, falha do Plano B, vômitos incoercíveis, doença de base grave, impossibilidade de garantir hidratação domiciliar.
Ambulatorial (Plano A): sem sinais de desidratação e boa aceitação oral; reavaliar em 24–48 horas ou antes se sinais de alarme.
Creche: Afastar enquanto houver diarreia para reduzir transmissão; retorno após 24 horas sem evacuações líquidas e bom estado geral.
Mini-exemplo: Lactente 8 meses, ativo, sem febre, 6 evacuações líquidas/24h: Plano A + zinco + manutenção do aleitamento + afastamento temporário da creche.
Discussão das alternativas
✅ D) Aumentar oferta de água e leite materno em livre demanda, observar sinais de desidratação, e afastar da creche.
Alternativa correta. Corresponde ao Plano A: reforço hídrico com Soro de Reidratação Oral e líquidos seguros, manutenção do aleitamento e vigilância de sinais de alarme. Afastar da creche reduz transmissão em surtos virais.
❌ A) Prescrever antibiótico via oral, orientar dieta obstipante e leite materno em livre demanda, e afastar da creche.
Alternativa incorreta. Antibiótico não é indicado em diarreia aquosa sem febre/sangue (etiologia viral provável). “Dieta obstipante” e restrição alimentar não são recomendadas; deve-se manter alimentação habitual. O afastamento da creche é adequado, mas o conjunto da conduta está errado.
❌ B) Prescrever probiótico, orientar dieta restritiva sem lactose e manter na creche.
Alternativa incorreta. Probióticos não são rotina nas diretrizes nacionais. Suspender lactose não é indicado em primeiro episódio leve sem sinais de má absorção. Manter na creche durante diarreia aumenta risco de transmissão; deve-se afastar até cessarem evacuações líquidas.
❌ C) Internar para hidratação venosa e investigação diagnóstica, e comunicar a creche.
Alternativa incorreta. O quadro é sem desidratação; a via venosa e internação são desnecessárias e expõem a riscos. Investigação laboratorial não é indicada de rotina em diarreia aquosa leve. Comunicação/afastamento da creche é pertinente, mas não justifica internação.
Take-home message
- Plano A no SUS: reidratação oral pós-cada evacuação (50–100 mL <1 ano; 100–200 mL ≥1 ano) + alimentação habitual + aleitamento em livre demanda.
- Suplementar zinco por 10–14 dias: ≥6 meses 20 mg VO 1x/dia; <6 meses 10 mg VO 1x/dia.
- Antibiótico só em disenteria, cólera suspeita ou etiologia bacteriana comprovada; probiótico e dieta sem lactose não são rotina.
- Red flag: letargia, incapacidade de beber, sangue nas fezes, vômitos incoercíveis, oligúria → avaliar imediatamente; considerar Plano B/C.
- Afastar da creche enquanto houver diarreia; retorno após ~24 h sem evacuações líquidas e bom estado geral.
- Reavaliar em 24–48 h se mantida a diarreia ou antes se surgirem sinais de alarme.